Sexus, Henry Miller

Sexus, Henry Miller – Editora CEA(Edição Econômica, 1975. Tradução de Roberto Muggiati.

Infelizmente não achei uma imagem da capa da edição que li..

por Fred Di Giacomo

A montagem tosca cheia de mulheres nuas sobre o papel vagabundo engana. O título chamativo em vermelho – estampando a palavra “Sexus” – também. Henry Miller não é um mero escritor erótico, apesar de fazer o sangue e a libido alheia ferverem com suas descrições sexuais. Ele é um escritor da vida. “A prosa de Miller é uma torrente, uma catarata, um vulcão, um terremoto(…)”, escreveu Norman Mailer. George Orwell o definiu como “(…)o único excelente escritor de prosa imaginativa que apareceu na língua inglesa nos últimos anos”. Com essas credenciais, podemos nos desligar da imagem de Miller “o libertino” e começar a viajar na instigante jornada de Miller, o escritor.

“Devia ser uma noite de quinta-feira quando a conheci – no salão de danças”. Se era ou não uma quinta-feira, a Miller pouco importa. O que importa é que foi no salão de danças que ele conheceu Mona(na vida real, June), a paixão de sua vida e tema principal de “Sexus“. Miller é casado e trabalha na companhia de telégrafos (ou Corporação Chupadora Cosmodemoníaca, como ele prefere). Odeia seu emprego, tem uma filha e uma mulher (com as quais pouco se envolve emocionalmente) , mora em Nova York e sonha em ser escritor. “Um fracasso em todo sentido da palavra”, como se define. Já pensou em se matar, conta-nos seu amigo Kronski, mas agora quer viver. Intensamente. Está empolgado com a existência. E a sensual Mona será a cereja deste saboroso bolo, esta nova percepção de vida.

“Sexus”(1949) faz parte da trilogia “Crucificação Encarnada” – ao lado de “Plexus”(1953) e “Nexus”(1960) – que consagrou Miller como um dos grandes do século XX, depois de seu começo conturbado com o censurado“Trópico de Câncer”. O livro narra os últimos anos de Miller nos Estados Unidos, antes de largar tudo e ir vagabundear na Europa – onde se revelou como escritor.(Período brilhantemente mostrado no filme “Henry & June”). O autor explica que está se aproximando de seu trigésimo terceiro aniversário – a idade de Cristo crucificado – e uma nova vida se estende para ele. Mas este é o único motivo pelo qual a trilogia deve se chamar “Crucificação”? O leitor atento pode observar: que são os discursos verborrágicos de Henry sobre a vida, o sexo, o trabalho e a sociedade que não sermões, muitas vezes em parábolas? Assim como Cristo, nosso autor/personagem prega um novo mundo, um paraíso – desta vez na Terra – que pode ser atingido através de sua doutrina. Ele converte amigos e mulheres com sua fala inflamada, realiza milagres através de orgasmos e multiplica comida e dinheiro – que consegue pedindo aos camaradas. E qual é sua punição? A crucificação simbolizada pelo casamento, o trabalho, as contas pra pagar e a rotina humana. Muito dessa filosofia não é novidade, algo foi tomado de Nietzsche(assim com de Céline vêm as descrições cruas e de Dostoiéviski os diálogos realistas.) Mas ao contrário de Nietzsche, Miller trepa.

A obra é dividida em 5 livros. O primeiro é mais morno, com o começo do romance entre Miller e a misteriosa Mona e a apresentação de seu círculo de amigos. A coisa vai engrenando no livro 2, que narra o fim do casamento de Henry com sua primeira esposa, Maude, e explode nos 3 seguintes, com a intensidade narrativa cada vez mais quente.

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O Miller de “Sexus” é um escritor sem livros. Todos os amigos gostam de sua companhia, lhe emprestam dinheiro e perguntam por que ele não escreve nada. “Você deveria escrever como fala”, alguém aconselha. Clic! Um estalo dispara uma fagulha no narrador. “O mundo só começaria a tirar de mim algo de valor a partir do momento em que eu deixasse de ser um membro sério da sociedade e me tornasse – eu mesmo”.Não é a toa que Miller tenha influenciado tantos beats e hippies. Ele quer tacar fogo em toda superficialidade da vida cotidiana e ir direto ao âmago da existência. Odeia o comum. Quer criar um novo mundo. “Se existe algo da qualidade de Deus em Deus é isto. Ele ousou tudo imaginar”. Se por um lado é libertário, por outro é egoísta, deixando filha e mulher de lado para viver sua grande aventura pessoal. Afirma que não se importa com a miséria do mundo. “Para mudar o mundo devemos primeiro mudar nós mesmos”, dizia um dos lemas da contracultura. Como um São Francisco ninfomaníaco, o escritor quer se livrar do peso morto para alçar vôo: “Nas poucas leituras que eu fizera, tinha observado que os homens que eram mais na vida, que estavam amoldando a vida, que eram a própria vida, comiam pouco, dormiam pouco, possuíam pouco ou quase nada”.

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O ritmo do texto ganha a virulência dos discursos inebriados de Miller. Ele cospe Blake, Céline e Buda numa velocidade assustadora, mesclados às sensuais descrições de suas aventuras eróticas com amantes, Mona e a ex-esposa. Novamente há aqui um movimento contraditório. É o narrador um ativista da libertação sexual ou um machista só preocupado com seu próprio falo? Ele parece realmente apaixonado por Mona, apesar de conviver bem com as traições de ambos os lados.

Cada capítulo de “Sexus” traz novos personagens e citações. Se há algum enredo que conduz a história, este pode ser resumido em “livro que narra o primeiro divórcio de Miller, o começo da relação com Mona e o processo de transformação que levaria o autor a largar tudo e virar escritor”. Com a aceleração do ritmo passamos por sonhos, devaneios e descrições surrealistas. Miller, o gangster espiritual, adianta “O Almoço Nu” de Borroughs em alguns anos pra terminar em sua própria “Metamorfose” surrealista.

“Somos todos culpados do crime, o grande crime de não vivermos uma vida completa”. É essa a maior busca do escritor/personagem: desfrutar de uma vida completa.

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-Pedro Juan Gutiérrez, o Henry Miller cubano

Mona(June) e Anais Nin, no filme “Henry & June”

“Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas – Uma Investigação sobre valores”, Robert M Pirsig


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por Fred Di Giacomo
Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas” não é só mais um romance hippie/beatinick que fez a cabeça de uma geração nos anos 70. Sim, ele tem motocicletas como o clássico filme “Easy Rider/Sem Destino”, ele trata de uma viagem como o livro “On The Road” e flerta com orientalismo como a contracultura o fez na música dos Beatles ou na adoção de Yoga, Meditação Transcendental e Vegetarianismo para seus princípios básicos. Mas “Zen” é muito mais um livro de filosofia do que um romance doidão. Ok, filosofia pop, mas filosofia. Enquanto cruza os EUA em sua motocicleta, o autor precisa explicar o pensamento de Kant ou dos filósofos gregos como Aristóteles e Sócrates para esclarecer sua própria teoria, a “Metafísica da Qualidade”, lembrando a didática de “O Mundo de Sofia”, passo inicial para muita gente no universo do pensamento.

Antes de virar um best-seller e vender 4 milhões de cópias, “Zen” entrou para o Guinness como o sucesso de vendas mais rejeitado da história. Simplesmente 121 editoras se negaram a publicá-lo. Seu autor, o escritor e filósofo Robert M. Pirsig, nasceu na cidade americana de Minneapolis, Minnesota, em 1928. Pirsig era uma criança superdotada, com um QI de 170. Ele estudou Bioquimíca e jornalismo e se formou em filosofia, mas sempre questionou o método científico e de ensino. Entre 1961-1963 sofreu um colapso mental e passou anos em hospitais psiquiátricos onde recebeu tratamento de eletrochoques. Depois disso, Pirsig dedicou-se a escrever manuais técnicos de computadores, até conseguir publicar seu livro em 1974.

O nome de “Zen” faz referência a “A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen”, obra do filósofo alemão Eugen Herrigel, que introduziu esse pensamento oriental no ocidente. Como o autor avisa logo na nota introdutória, o “livro baseia-se em fatos reais.(…) No entanto, não deve ser associado ao vasto conjunto de informações relativas à prática ortodoxa do Zen-budismo. E a parte das motocicletas também não é lá muito ortodoxa”. Toda a história se passa em dezessete dias, no final dos anos 60. A primeira parte do livro é um relato da viagem de Robert com o filho Chris e um casal de amigos John e Sylvia. John, um baterista, tem um sério problema para lidar com tecnologia. Para ele, viajar de moto é uma fuga da “civilização moderna”. O autor, por outro lado, adora saber como cuidar da motocicleta, como a máquina funciona e faz os reparos, ele mesmo, em sua moto. Em cima de suas observações sobre o ódio de John contra tecnologia é que Pirsig começa a desenvolver suas primeiras divagações filosóficas. A princípio tímidas, essas divagações vão, ao longo do livro, tomando o papel principal, em detrimento dos relatos da viagem. E vão sendo organizadas no que o autor define como chautauquas, “séries de palestras que visavam edificar, divertir, aprimorar o raciocínio e fornecer cultura e informação ao espectador.” É através dessas chautauquas que os capítulos se estruturam cada um com um tema que abrange filosofia, educação, ciência, arte e manutenção de motocicletas. Mas esses pensamentos não são ideias soltas, são parte de uma teoria maior que ficamos sabendo não ser de autoria do autor, mas de um fantasma do passado, Fedro, cuja identidade só vai ser revelada quando já terminamos um terço do livro. Para explicar a postura de John e a sua própria, Pirsig divide o mundo entre “Românticos” e “Clássicos”. Emoção e Razão. Arte e Tecnologia. Unir essas duas visões de mundo e provar que “o Buda pode estar nos circuitos de um computador” será a sua missão.

O resumo – *A partir daqui a resenha contém spoilers.

A viagem pelas estradas dos Estados Unidos prossegue. Depois que sofreu os eletrochoques, o autor apagou muito de sua memória. Andando pelas vias secundárias, mais vazias e próximas da natureza, ele cruza o país e vai se embrenhando em suas recordações. Houve um tempo em que foi professor na Universidade de Montana e o governo conservador do estado decidiu que todos maiores de 18 anos, mesmo que não tivessem ensino médio, poderiam estudar na Universidade. E as reprovações de alunos seriam punidas com multa. Para defender a Universidade “de verdade”, Fedro, que nós descobrimos surpreendentemente ser o autor, antes do surto, cria a teoria da “Igreja da Razão”. Para explicar a teoria ele usa o exemplo de um prédio de igreja rural que tinha se tornado um bar para o horror do padre local. No entanto, aquela igreja não era mais uma igreja, era apenas uma estrutura criada para atender o objetivo de servir a Deus, que não mais funcionava para isso. Assim como, por mais que a comunidade criticasse um sermão do padre por ser chato, ele não deveria se abalar, pois não estava ali para servir a comunidade e sim a Deus. A Universidade também não estava lá apenas para servir a comunidade e sim para servir a razão. E se ela continuava com sua estrutura física e mudava sua função, seu compromisso com a razão, ela já não era mais uma Universidade. Com o tempo, Fedro foi perdendo a fé na razão pura. E para explicar isso, o autor faz um breve resumo das idéias de Kant e Hume. Fedro interessa-se, então, pelas filosofias orientais e vai para Índia estudar.

Sylvia, John e Chris
Na terceira parte do livro, Sylvia e John voltam para casa e a viagem passa a ser só de pai e filho, que vão aproveitando os longos dias para reconstruir o relacionamento, abalado desde o período de loucura paterna, sua internação e posterior divórcio. Chris também tem apresentado alguns problemas psicológicos, o que preocupa seu pai. No entanto, absorto em suas reflexões, o autor não consegue penetrar no escudo criado pelo filho, mantendo uma relação fria com o garoto. “Qualquer realização que vise à autoglorificação fatalmente termina em tragédia”, explica Pirsig, enquanto escala uma montanha com o filho. Não devemos escalar a montanha para provar que somos os maiores, o segredo está na escalada em si. Como a arte da manutenção da motocicleta que pode trazer a paz de espírito. O trabalho manual foi muitas vezes rejeitado pelos românticos como algo desprezível em comparação às grandes artes, mas não é ele também uma forma de arte? “Para melhorar o mundo, devemos começar pelo nosso coração, nossa cabeça e nossas mãos, e depois partir para o exterior. Os outros poderão imaginar maneiras de expandir o destino da humanidade. Eu só quero falar sobre o conserto de motocicletas. Acho que o que tenho a dizer tem valor mais duradouro”, explica Pirsig. Mais à frente ele crava: “O trabalho produz brio”.Em seus flahsbacks, vemos Fredo criar sua teoria da “qualidade” partindo de Kant passando pelo Tao e por Hegel e chegando a Poincaré. É interessante poder acompanhar o caminho do filósofo rumo à formação de sua teoria. Aos poucos, uma questão que começou com as aulas de redação de Fedro vai crescendo e tomando forma: “A Qualidade é o evento que torna possível a inter-relação sujeito objeto”. “A Qualidade é a reação de um organismo ao seu objeto”. A Qualidade é semelhante ao Tao, “a grande força central geradora de tudo”. Seria então a “Qualidade” o elo entre a ciência, as artes e a religião? “A arte é a Divindade revelada nas obras humanas”. “Conforme disse Poincaré precisa haver uma escolha subliminar dos fatos a serem observados”. À medida que o autor vai se embrenhando no raciocínio genial de Fredo, ele também se embrenha em sua loucura e começa a ter pesadelos e falar dormindo. Agora que conhecemos a “Metafísica da Qualidade”, o livro vai chegando ao fim e talvez a sanidade do autor também.No final do capítulo ele introduz o conceito de “Mu”, palavra japonesa que significa nenhum. Nenhuma classe: nem um, nem zero, nem sim, nem não. Significa exatamente “desfaça a pergunta”.

Agora esta viagem pelo mundo da filosofia e pelo interior do autor está em seus últimos quilômetros. Pirsig revê os últimos dias de Fredo, quando esse descobre a origem do pensamento racional do homem em Aristóteles e a ideia de “Qualidade” dos sofistas que foi enterrada por Sócrates e Platão. Para isso ele faz uma análise dos pais da filosofia grega e do próprio homem grego. Desenterra o conceito de aretê do homem grego, tradicionalmente traduzido como virtude, mas que o autor prefere definir como superioridade. Era o que impulsionava o homem grego a praticar atos de heroísmo, não o senso de dever que conhecemos, em relação aos outros, é um senso de dever em relação a si mesmo, termo irmão da palavra sânscrita dharma, que significa “dever para consigo mesmo”. O herói da Odisséia, de Homero, era um grande lutador, um orador decidido, sabe arar a terra e tosquiar um boi. Despreza a eficiência em um aspecto da vida, em detrimento da vida em si mesma. Despreza a especialização em uma coisa só. Fedro rompe então com a Universidade onde estudava para obter seu PHD e que insistia em glorificar o pensamento aristotélico. Depois disso viria a crise e a internação. O autor tem medo de sofrer outra crise e pensa em parar a viagem por ali e mandar o filho de volta para casa. Mas antes disso ele precisa resolver sua relação com o garoto, garantindo assim, sua própria sanidade.
Depois daquela viagem
Robert M Pirsig vive isolado do mundo exterior viajando de barco com sua mulher. Só lançou um segundo livro em 1991, chamado “Lila – uma Investigação Sobre a Moral”, no qual se propõe a definir melhor sua Metafísica da Qualidade. O livro não obteve o mesmo sucesso que “Zen”. Em 1979, Chris, o filho de Pirsig foi esfaqueado até a morte na saída do Centro Zen que freqüentava. É como se no final de “Zen”, quando o autor finalmente se reconcilia com o garoto, ele fosse profético: “Naturalmente os problemas jamais deixarão de existir. A infelicidade e o infortúnio fatalmente ocorrerão em nossas vidas, mas agora sinto algo que antes não sentia, que não se localiza apenas na superfície das coisas, mas as permeia até a medula: nós vencemos. Agora tudo vai melhorar. A gente pode até garantir”.

Veja também:
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-Leia resenha sobre “Flashbacks”, livro do papa da contracultura, Timothy Leary

“Odisséia”, Homero, tradução Antônio Pinto de Carvalho – Resenha

Esta resenha não tem pretensão de ser uma análise completa desta obra que já rendeu diversos livros e trabalhos acadêmicos. Para um estudo aprofundado recomenda-se “Introducion à l’ Odyssée” de V.BÉRARD.

Odisséia”, Homero, tradução Antônio Pinto de Carvalho – Resenha

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por Fred Di Giacomo

A “Odisséia” é o poema épico que narra todas as aventuras vividas por Ulisses – versão latina do nome de Odisseu – em seu longo retorno da Guerra de Tróia para sua casa em Ítaca. O poema, assim como a “Ilíada”, é atribuído ao poeta grego Homero, que teria vivido no século VIII a.C. (Existe uma grande polêmica sobre a existência ou não de Homero, muitos julgam que a obra é uma composição coletiva de diversos aedos gregos, reunidas por algum organizador que pode ter sido ou não Homero.)

24 cantos que funcionam como capítulos – compõe a “Odisséia” que se divide em três grandes partes a “Telemaquia”, na qual Telêmaco, o filho de Ulisses, começa sua busca pelo pai, desaparecido há anos, depois de terminada a Guerra de Tróia; a narração no palácio de Alcino das aventuras de Ulisses até ser mantido preso pela ninfa Calipso em sua ilha; e a vingança de Ulisses, quando ele volta para Ítaca disfarçado para punir os pretendentes que querem casar com sua esposa Penélope e consomem os seus bem em grandes banquetes. Segundo Thomas W Allen, em texto de 1907, o núcleo primitivo da narrativa são as lendas – quase contos – de Ulisses no palácio de Alcino quando ele relata seu encontro com os terríveis Ciclopes, a feiticeira Circe – que transforma seus aliados em porcos – e as Sereias que procuram atrair para a morte os navegantes, com seus cantos hipnóticos. Estão neste núcleo grande parte da base das lendas/folclore ocidental.

A narrativa é focada na história de Ulisses, herói da Guerra de Tróia que na volta para casa cega o ciclope Polifemo, filho do deus dos mares Posídon – “o sacudidor de terras” –atraindo a fúria do irmão de Zeus e tendo seu regresso para casa retardado em dez anos. Após perder todos os companheiros de jornada, Ulisses se vê preso pela ninfa Calipso, que apaixonada pelo herói o retém em seu leito, sonhando em torna-lo imortal como ela. Ulisses passa os dias chorando na praia, olhando para o mar e sonhando pelo dia em que verá novamente sua terra natal. É então que a deusa Atenas se apieda do herói e passa a interceder por ele, ajudando-o a escapar da ninfa e incitando seu filho Telêmaco a ir atrás de notícias do pai. Enquanto isso em Ítaca, os nobres solteiros da região sonham em casar com Penélope a belíssima esposa de Ulisses – que consideram morto. Penélope, ícone de fidelidade, diz que só escolherá um novo marido quando tiver terminado de tecer a mortalha para Laertes, pai de Ulisses, mas toda a noite ela desmancha o trabalho, começando do zero no dia seguinte. Enquanto esperam, os pretendentes ficam na casa do guerreiro, matando e devorando seus porcos, bois e cabras, dormindo com suas escravas e organizando banquetes infinitos que consomem as riquezas da família.

Explicar a importância da epopéia de Ulisses para a literatura mundial é dizer porque Marx foi importante para o comunismo, ou imaginar que Chuck Berry, Elvis e os Beatles formasse uma só banda seminal para o rock ‘n’ roll. Para ficar em alguns exemplos, James Joyce estruturou seu clássico “Ulysses” em cima da Odisséia e Camões e Virgílio escreveram suas principais obras seguindo as tradições homéricas. Grande parte dos mitos, lendas, e pensamentos ocidentais têm sua base na “Ilíada” e na “Odisséia”. Vejamos, um homem injustiçado volta para se vingar de quem lhe roubou (ou tentou) os bens e o amor. Uma idéia genial do francês Alexandre Dumas em “O Conde de Monte Cristo”? Bem, o arquétipo da vingança clássica já estava escrito na terceira parte da “Odisséia”. Na mesma parte observa-se o mito da entidade fantástica que se disfarça de mendigo e testa a bondade das pessoas. Não é assim em “A Bela e a Fera” ou nas pregações bíblicas? É assim também que Ulisses volta para a casa e reconhece a fidelidade de seu servo Eumeu, o porqueiro, e a traição da escrava Melanto, que dormia com um dos pretendentes. Quando desce ao reino dos mortos, Ulisses se depara com diversas figuras do imaginário grego, entre elas o heróis de tróia Ájax e a mãe de Édipo, Epicasta, que depois serviria de base para a clássica teoria de Freud, o pai da psicanálise. Na Rapsódia VIII são descritos os esportes gregos como o pugilato, o salto, a corrida, o arco e flecha e o arremesso do disco, base das Olimpíadas. Segundo o narrador “(…) não há maior glória na vida para um homem do que alcançar alguma vitória com os pés e com as mãos”.

A narrativa homérica é marcada pela repetição de algumas formas e trechos. As palavras que tem resposta são “aladas”, os homens valorosos são “semelhantes a um deus”. O nome de Zeus vem sempre sucedido de “Filho de Cronos” e a manhã é anunciada pela chegada da “madrugadora Aurora dos róseos dedos”. Em diversos momentos Homero trata da arte dos aedos – responsáveis por recitar em versos os feitos dos heróis aqueus, antepassados dos gregos – e de sua capacidade de prender a atenção dos ouvintes em uma história empolgante, fazendo uma referência a sua própria arte de recitar a “Odisséia”, poema de origem oral. Vale lembrar, também, que a estrutura final da obra não é linear. Séculos antes de “Pulp Fiction” virar referência na narrativa do cinema, o poema de Homero é repleto de flashbacks, histórias paralelas e mudanças de protagonista – apesar de Ulisses ser o herói e ponto de união de toda obra.

A ligação com a “Ilíada” também é recorrente, aparecendo na saga alguns dos heróis da epopéia anterior como Nestor, Menelau e as almas de Agamémmon e Aquiles. Penélope faz oposição a Helena, no papel da esposa fiel, resistente a todas as provações

Enfim, leia a “Odisséia”. Tanto se você tem um interesse acadêmico na literatura, quanto se você gosta de História, ou mesmo se você é apenas fã de uma boa história de aventura – aficionados por sagas como “Senhor dos Anéis” e “Star Wars” terão um prazer homérico em mergulhar na saga de Ulisses. Só pelo fato de você estar lendo este texto em português, você já é um dos milhões de influenciados pela cultura que deu origem aos versos do genial poeta que talvez nunca tenha existido.

Personagens:
Odisseu/Ulisses: herói da guerra de Tróia.
Penélope: esposa de Ulisses
Telêmaco: filho de Ulisses e de Penélope
Laertes: pai de Ulisses, vive no campo.
Eumeu: porqueiro, servo fiel de Ulisses,
Euricleia: ama de confiança
Antino: líder dos pretendentes o mais malvado de todos
Eurimaco: um dos pretendentes
Alcino: rei dos feácios, hábeis navegantes
Areta: esposa de Alcíno
Nausíca: filha de Alcino, se apaixona por Ulisses
Laodamante: irmão de Nausíca, desafiador de Ulisses nos jogos.
Baio: companheiro de Ulisses nas viagens marítimas
Euríloco: companheiro de Ulisses nas viagens marítimas
Perimedes: companheiro de Ulisses nas viagens marítimas
Elpenor: companheiro de Ulisses nas viagens marítimas
Atena: deusa que intercede a favor de Ulisses
Poseidon ou Posídon: irmão de Zeus, intercede contra Ulisses
Éolo: rei e deus dos ventos
Hades: deus do mundo subterrâneo
Hermes: mensageiro dos deuses
Polifemo: ciclope ferido por Ulisses devorou parte de seus companheiros

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Trilogia suja de Havana, Pedro Juan Gutiérrez – Resenha

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por Fred Di Giacomo

Em todas as biografias do cubano Pedro Juan Gutiérrez – nascido em 27/01/1950 – você vai encontrar as informações de que ele é um Henry Miller dos trópicos( Mesmo que Miller também tenha seus trópicos de Câncer e de Capricórnio) ou um Bukowski que trocou o whisky barato por rum vagabundo. Você também vai saber que este filho de sorveteiro já teve as mais variadas profissõesdesde os onze anos de idade: vendedor de jornais, instrutor de caiaque, cortador de cana de açúcar, operário agrícola, soldado, locutor de rádio e jornalista.Mas porque tanta preocupação com a vida do autor? Porque a escrita de Pedro Juan, assim como dos autores acima citados, é autobiográfica. O personagem principal de sua principal obra é um ex-jornalista careca, que vive de bicos próximo ao Malecon – calçadão barra-pesada de Cuba – traçando todas as mulheres que pode, enquanto tenta fugir das crises que se abatem sobre sua cabeça. Uma das crises é a econômica que varreu Cuba a partir dos anos 90 com o fim da URSS e o endurecimento do embargo norte-americano. Outra, a crise pessoal que fez o autor pensar diversas vezes no suicídio, como deixa claro em alguns trechos de sua obra e em entrevistas: Sempre sonhava em pular dali(do beiral do prédio) e sair voando e me sentir o cara mais livre do mundo.

“Trilogia Suja de Havana” são três livros – reunidos em um só volume – escritos dolorosamente entre 1994 e 1997. Todos são formados por pequenos contos e crônicas que se entrelaçam formando uma única narrativa, a história de Pedro Juan e seus vizinhos miseráveis, se virando para sobreviver na ilha. Alguns pontos são sempre reforçados pelo autor repetitivamente, como se para exorcizar um trauma, como se tivesse que afirmar diversas vezes aquela realidade até que ela se tornasse ficção. Algumas das frases que vão criando o clima de cotidiano na obra: No total vivem 50 pessoas (amontoados no cortiço). Subo os oito andares até o terraço. (O elevador está sempre quebrado). Não precisa muito: algum dinheiro, comida, um pouco de rum, charutos e uma mulher. Nessa filosofia de vida, Pedro Juan se assemelha muito a Henry Miller que dizia que só queria Um punhado de livros, um punhado de sonhos e um punhado de vulvas. Fazendo uma rápida análise subjetiva, o primeiro volume “Ancorado na Terra de Ninguém” é muito autobiográfico, trazendo um Pedro Juan que parece ter acabado de largar o jornalismo, com alguns amigos intelectuais, seu filho adolescente, sua busca pelo equilíbrio zen. “Nada para fazer”, escrito cerca de um ano depois, é mais depressivo. O alter-ego do autor está ainda mais mergulhado na miséria, mais marginal, cínico, transformado quase num cafetão egoísta. A terceira parte “Sabor a Mi” é a mais ficcional. Alguns de seus contos nem são narrados em primeira pessoa, os narradores se multiplicam em uma rica fauna caribenha que vai de traficantes de drogas, à uma mulher violentada por ladrões, passando por uma temporada de dois anos de Pedro Juan preso por se prostituir em Cuba. (Coisa que Gutiérrez afirma nunca ter feito na vida real, em entrevista dada a revista Playboy).

Em “Trilogia”, Pedro Juan é um jornalista desempregado, que abandonou o trabalho por não querer mais fazer matérias parciais, nas quais não pode mostrar a realidade do país. Por isso se dedica à literatura e seu “realismo sujo”. No entanto, o Pedro Gutiérrez de carne e osso trabalhou como jornalista até publicar seu livro em 1998. Formado em 1978 pela “Universida de La Habana” mediante um curso especial para trabalhadores, ele teve que ficar fora de Cuba três meses divulgando suas obras na Espanha. Quando retornou foi demitido da revista “Bohemia”, da qual era colaborador, por ter, supostamente, se ausentado sem permissão. Sobre a demissão Pedro Juan fala, sem criticar muito o governo, em entrevista para a Playboy: O governo até me convidou, no ano passado, para promover “A Melancolia dos Leões”(obra de realismo fantástico de Guitiérrez). Cuba não é uma ditadura policial, onde vão te dar um tiro se você criticar o governo. Mas podem tornar as coisas difíceis para você. Eu, por exemplo, fui banido da profissão de jornalista.

Mesmo, tendo emprego enquanto escrevia sua primeira e mais conhecida obra, Gutiérrez também teve que fazer alguns biscates – única alternativa, junto com a prostituição, que resta aos personagens de “Trilogia”. Em “Os Canibais”, conto da última parte do livro, um dos personagens chega a vender fígado humano, fingindo ser fígado de porco. Aquilo é uma mistura de realidade e ficção. Eu não lidava com latinhas, nem com fígado, muito menos humano. Vendia canecas, isqueiros, bonés, explica o autor. Assim como a maioria de seus personagens, Pedro Juan dá um jeito de sobreviver. Se é atacado pela polícia(O que há de mais próximo de um delinquente é um policial), pela fome e por ciclones, ele responde com muito sexo: promíscuo, sensual, quase ginecológico de tão descritivo. Mulatas, brancas, negras, velhas e jovens, gordas e magras. Sujas, suadas, cansadas, todas envolvidas em uma orgia que atravessa as páginas de cada conto. Em certo momento o narrador se preocupa: transou com mais de 20 mulheres em um ano e tem medo da Aids. Quando não se escora no sexo, enche a cabeça de rum, o mais barato que tiver, ou maconha, charutos, ou mesmo uma simples gargalhada para lhe animar o moral e não fazer como os fracos que se atiram de cima dos velhos edifícios de Havana. É isso que eu quero: aprender a rir às gargalhadas de mim mesmo. Sempre, mesmo que me cortem os ovos, diz em “Esmagado pela merda”, história na qual conhece um velho diabético que teve as pernas e os testículos amputados graças às diabetes. Ou então: Estava pensando em todas essas coisas e de repente me levantei com um pulo e ri. Amplamente. Um bom sorriso, desnecessário e absurdo, é um tônico. Sempre dá resultado comigo, de “Solitário resistindo”. Segundo o Gutiérrez, alguns autores tem fixação por crimes e arranjam diversas maneiras diferentes de matar seus personagens ao longo de novelas policiais. Já ele tem fixação por sexo, e por isso este se torna personagem principal de sua obra. Talvez o horror à morte aliado à obsessão pelo ato sexual, esteja incrustado no próprio DNA de sobrevivência de Pedro Juan. Ele nega a possibilidade da morte, do fracasso, do suicídio, se agarrando desesperadamente ao prazer de seus orgasmos, em uma atitude freudiana.

Em uma entrevista à revista Bravo!, na época do lançamento de “Trilogia Suja de Havna”, Gutiérrez diz que só conheceu Bukowski e Henry Miller pouco tempo antes de terminar o livro. Talvez sua proximidade com os dois esteja na resolução que tomou aos vinte anos para se tornar um bom escritor: Tengo que tener muchas mujeres, viajar todo lo que pueda y conocer todo tipo de gente. Sua primeira paixão platônica foi aos 8 anos por uma puta, e sua primeira vez aos 17 com uma bezerra. Sua pintura e sua escrita também tem influência dos quadrinhos norte-americanos, que leu às dezenas em sua infância, desde que se alfabetizou quando tinha entre 6 e 7 anos. De outra de suas influências, Ernest Hemingway, Gutiérrez leva a profissão de fé: “um escritor precisa manter o detector de merda funcionando.” Esse lema está presente em todo o conto “Eu, revirador de merda”, de “Ancorado na Terra de Ninguém”, como se pode perceber nos trechos:

Este é meu ofício: revirador de merdaA arte só serve para alguma coisa se for irreverente, atormentada, cheia de pesadelos e desespero.

Quem atinge o repouso em equilíbrio está perto demais de Deus para ser artista.

Mas, e afinal, descrevendo tanta miséria, e ainda assim amando Cuba, Pedro Juan e sua “Trilogia Suja de Havana” estão ao lado de Fidel ou de seus opositores, exilados em Miami? O autor evita entrar em discussões ideológicas ao máximo. Sua obra está no limite entre jornalismo e ficção. Na tênue linha que diz que Hunter S. Thompson é jornalista que e Burroughs é escritor. Não há grandes teorias ou elucubrações, seu texto retrata o submundo cubano como se fosse uma fotografia, uma reportagem que busca a utópica objetividade, que dá voz aos personagens reais, para que eles deixem nas páginas o registro de suas existências, sem fazer muito juízo de valor. Quando a revista Veja tenta tirar uma declaração mais política de Gutiérrez ele responde: É incrível o comentário que li no Miami Herald. Eles não falam de literatura, falam como se eu fosse um político. As leituras dos dois lados me dão raiva, porque diminuem o valor de meu trabalho literário e tentam me manipular. Por isso trato de me afastar o máximo possível da política. Façamos a vontade do autor e encerremos esta resenha com o fim do raio-x de sua literatura crua, sensual, sincera e desesperada. Os governos mudam, mas a natureza humana permanece igual.

-Leia resenha de “Trópico de Câncer”, de Henry Miller

 

Trópico de Câncer, Henry Miller

Capa do clássico de Henry Miller

Capa do clássico de Henry Miller

Como cenário a Paris entre guerras, como definição as palavras do próprio autor: “Isto não é um livro. É libelo, é calúnia, difamação…”, como prefácio uma declaração de Ralph Waldo Emerson simplificando: “Estes romances cederão lugar, pouco a pouco, a diários ou autobiografias…” E assim a vida se transforma em arte nas letras do pai da geração beat, o maldito, “Henry Miller”. Nascido no Brooklyn em 1891, Henry Valentine Miller representa um ponto de virada na literatura mundial, uma influência para autores como Allen Ginsberg, a geração hippie, beatnick e sua obsessão por liberdade sexual, viagens e boemia. Henry influenciou esses poetas “marginais” até na forma autobiográfica de escrever já que em seus livros ele é o personagem principal, mas suas histórias não são totalmente reais, são uma mistura de ficção e realidade num tipo de Bukowski mais elaborado e surrealista.

Suspiros de surrealismo, filosofia nietzschiana, influências de escritores “eróticos” como Céline e DH Lawrence (que ele rejeitava até ler “D.H. Lawrence: an unprofissional study”, livro de sua amante, Anaïs Nin), tudo isso borbulha nas páginas de Trópico de Câncer, mas há algo a mais ali. Não é pornográfico como seus censores acusaram ao conseguirem manter sua obra inédita por 30 anos nos países de língua inglesa até que o poeta beat, Lawrence Ferlinghetti, a publicasse: é humano, demasiadamente humano. É um homem em busca de si mesmo, uma descoberta a cada página, uma canção de libertação…

Estamos nos subúrbios e cabarés da Paris dos anos 30, a guerra é uma sombra que ronda incessantemente. Intelectuais, artistas, pintores, todos se reúnem para beber, transar e discutir, Henry está entre eles, mas não tem um tostão no bolso, está duro e vive de bicos (a prisão dos escritores: o jornalismo) e ajuda dos amigos. O anti-herói resmunga : “Sou um artista assalariado, obrigado a interpretar uma farsa intelectual sobre seus estúpidos narizes?”. Os capítulos vão revezando-se um após o outro sem ordem cronológica exata, carregados de fluxo de consciência e alternando reflexões surrealistas com relatos crus do cotidiano de Miller. O Clima é retratado fielmente no clássico erótico “Henry e June” de Philip Kaufman (diretor também de “Contos Secretos do Marquês de Sade” ), focado no triângulo amoroso entre Henry, sua esposa June e a escritora Anais Nïn, autora dos diários inspiradores da película (“Henry, June & Eu”). A busca é por grana e sexo, grana e sexo até não representarem mais nada, grana e sexo como formas de sobrevivência, sobrevivência como única alternativa, única alternativa: a vida. E essa Miller vive com tesão!

Nos momentos “filosóficos” Miller remete a Nietzsche, filósofo que leu, saudou e parafraseou em alguns trechos de sua obra. Toma como profissão de fé a filosofia, que busca desmascarar o mundo dos ídolos, o Deus que não sabe dançar, que busca trazer ao homem os prazeres terrenos. Nietzsche previu mais de um século atrás o declínio da civilização ocidental, diz. O Henry Miller de Trópico de Câncer/Henry e June (no qual há uma cena em que ele discute o filósofo alemão) tem a mesma missão: libertar o ser humano de suas amarras, despertá-lo para a vida nessa existência que é única, como ele mesmo diz: “São homens e mulheres, pergunto a mim mesmo, ou são sombras, sombras de fantoches pendurados por invisíveis cordéis? Eles se movem aparentemente em liberdade, mas não tem para onde ir. Só em um reino são livres e lá talvez possam vaguear à vontade, mas ainda não aprenderam a levantar vôo”. E essa libertação inclui também a religião, a qual Miller despreza. Em um dos trechos ele e um amigo, ambos bêbados, vão assistir a uma missa, que ele descreve como se fosse um alienígena que nunca tivesse visto uma cerimônia religiosa, descreve-a de uma forma claustrofóbica, que o sufoca, pouco a pouco a até que ele fuja correndo da igreja.

Miller em sua busca acaba se desprendendo da necessidade de ser humano, declarando-se um “inumano”, descendente de uma árvore genealógica de artistas e pensadores que como ele buscavam viver desesperadamente no limite, buscando a paixão total, o fogo da criação, já que a partir disso, tudo é humano e dispensável. (“Enquanto estiver faltando aquela centelha de paixão, não há significação humana no ato”.) Como um modernista brasileiro, como “Oswald de Andrade” na peça “A morta” , ele clama para que se incendeiem as bibliotecas, museus e biografias. Que os mortos devorem os mortos e os vivos dancem!

Fred Di Giacomo,
22/05/04
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O Germinal, Émile Zóla

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por Fred Di Giacomo, o cara que escreve tudo aqui.

Sufocado pelo pó negro da hulha, do carvão, o grito dos mineiros explorados ecoa pelas profundezas das galerias construídas com o sangue do povo para fazer a máquina da Revolução Industrial funcionar. Foi esse grito que Émile Zola traduziu em 1881 na sua obra prima “Germinal”, uma romance realista sobre as lutas e dificuldades de uma comunidade de mineiros no interior da França.

Jornalista, assim como Balzac, um “gonzo do século XIX”, Zola defendia que “o romancista assumisse o papel de experimentador que pesquisa os caracteres hereditários do homem e as transformações que sofre em conseqüência do ambiente social em que está inserido”. A esse tipo de obra o francês chamou “romance experimental”. E é com uma riqueza de detalhes, que nos fazem crer que o livro foi escrito por um carvoeiro francês, que o autor descreve o dia-a-dia dos operários imundos das minas de Montsu usando uma linguagem realista/naturalista que nos faz lembrar “O Cortiço”, de Aluísio Azevedo, em sua descrição de miséria, comparando constantemente os homens e seus desejos aos animais, ressaltando a influência do meio na formação dos seres humanos, dando destaque aos instintos sexuais que levam os homens a se nivelar à mais selvagem das bestas. Afinal, no fundo somos todos animais, lutando contra a morte, fornicando, defecando e comendo numa luta diária pela sobrevivência.

-Gostou de Germinal? Então você vai curtir a Revolução dos Bichos. Leia aqui!

O “Germinal” é sem dúvida um livro básico para aquele que quer entender o crepúsculo do marxismo e as revoltas populares do século XIX. Como um jornalista diante de uma grande reportagem, Émile Zola reúne os fatos que marcaram sua época como a criação da Internacional Socialista, as teorias de Karl Marx, de Charles Darwin, os atentados anarquistas, todas as ideologias revolucionárias que incendiaram um século fascinante, uma era conhecida outrora como a primavera dos povos! Lá está cada personagem típico, representante de correntes e classes do período. Há o terrorista anarquista na pele do russo Suavarin, o socialista moderado (ou social-democrata) vivido pelo taberneiro Rasseneur e o líder operário comunista, o protagonista Etienne. Chamá-lo de herói no sentido romântico da palavra não caberia aqui. No realismo do “Germinal”, o “mocinho” Etienne é cheio de dúvidas, deixa-se dominar pelo orgulho em certas horas (quando julga-se superior aos outros mineiros) e passa a maior parte da história frustrado amorosamente. Aqui o herói, o líder, é desacreditado, apedrejado, olhado com desconfiança, traído como o foram milhares de vezes os líderes revolucionários. Etienne guarda algumas leves semelhanças com Raskolnikof de “Crime e Castigo” em suas reflexões ardentes, seus delírios, sua indecisão diante de necessidade de matar, sua vaidade que no romance russo vai ao extremo de o protagonista dividir a humanidade em seres “extraordinários” e “ordinários”. Ambos são levados pela miséria a atos desesperados.

A história de “Germinal” cheia de nuances e personagens seria impossível de ser narrada aqui. Resumidamente ela destaca o trajeto de um desempregado vagando pelas estradas da França, em uma período de depressão econômica (como a dupla de andarilhos em “Ratos e homens” de Steinbeck), que chega a uma região carbonífera e acaba empregando-se numa das minas para fugir da fome. Ao mesmo tempo que trava contato com as idéias socialistas o “ex-andarilho”, Etienne se apaixona por Catherine, filha de uma família que a gerações trabalha e morre na mina Voeux. A própria mina acaba tornando-se personagem principal na história. Sempre alimentando-se dos trabalhadores ela tem sua “morte” narrada com tons dramáticos. Um dos pontos principais do livro é a greve liderada por Etienne.

Apesar da clara tendência socialista do autor, da defesa dos proletariados e do final esperançoso, não existe maniqueísmo nas palavras de Zola. Até a burguesia tem seus lances de heroísmo (como no caso do engenheiro Negrél) e bondade. A massa, por sua vez, também é capaz das mas brutais injustiças e muitas vezes questiona-se se os trabalhadores apenas querem tornar-se novos burgueses.

A linguagem simples de Zola reconstitui sem firulas um retrato exato do cotidiano da época, mais forte talvez que as descrições frias dos historiadores. O “Germinal” é uma ferramenta fundamental para se entender a luta dos trabalhadores, o ambiente propício para a expansão do socialismo e os acontecimentos espremidos entre a “Revolução Francesa”, a “Revolução Industrial” e a “Primeira Guerra Mundial”. Lê-lo é embarcar no drama dos mineiros com os pulmões negros de hulha, das mães que assistem as filhas definharem de fome, dos homens que servem de alimento para o capital, da lenta metamorfose dos camponeses de outrora em máquinas com almas.

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“A Vida dos Outros”: filme de Florian Henckel von Donnersmarck aposta na esperança no homem

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Alguns filmes são mais do que bom entretenimento. Não que haja algo errado com o entretenimento, adoro filmes do Tarantino e tenho fascínio pelas gangues do cult “The Warriors”, mas quando você desperta daquelas duas horas de transe e sente-se mudado, ganha algo mais do que bons momentos de diversão. “A Vida dos Outros”, filme do alemão Florian Henckel von Donnersmarck, se passa na Alemanha Oriental, em 1984. O país, separado do lado ocidental pelo muro de Berlim, vivie sob uma ditadura comunista que usa um sistema de vigilância e inteligência para oprimir a população. Todos os artistas são observados pelo Estado e precisam de sua aprovação para criar. Quem fala demais acaba na “lista negra” e é proibido de trabalhar. Impressionante como a liberdade da arte incomoda o “preto no branco” dos sistemas autoritários. Eles tentam transformar os artistas em, como disse Stálin, “engenheiros da alma”. Mas arte não tem nada a ver com engenharia. Você não escreve uma boa peça porque te pediram um planejamento exato sobre um tema, você escreve uma boa peça porque “precisa escrever aquilo.”

Nesse cenário, o Ministro da Cultura se apaixona pela namorada do famoso dramaturgo Georg Dreyman, a bela Christa-Maria Sieland. Ele pede que o capitão Anton Grubitz encontre provas de que Dreyman é um inimigo do estado, pretendendo assim eliminar o concorrente sentimental e ficar com Cristina. Para o caso, Grubitz escolhe o sistemático agente Gerd Wiesler, fiel ao sistema, exímio interrogador e professor na faculdade “dos novos agentes de segurança”.

No princípio do filme, Wiesler é mostrado como o “mal”, professor rigoroso, desconfiado de Dreyman e interrogador frio. É ele o primeiro a suspeitar do artista, não Grubitz, que é mais burocrata que idealista. Mas em “A Vida dos Outros”, como em toda boa obra de arte, não existem bons nem maus. Existem seres humanos. Wiesler acredita cegamente no comunismo, mas em meio à investigação vai começar a desconfiar das reais intenções de Grubitz e proteger Dreyman. Christa ama o escritor, mas mesmo assim é coagida a manter relações sexuais com o ministro Bruno Hempf. Mesmo assim ela não é mostrada como “sacana”, é frágil, insegura, depende de um remédio que arruma secretamente de forma ilegal. Dreyman é um dramaturgo que fica em cima do muro a maior parte do tempo. Quer manter uma boa relação com o estado, mas é amigo dos intelectuais de oposição. Só resolve agir quando seu amigo pessoal, o diretor de teatro Albert Jerska, se enforca por estar proibido de trabalhar. O agente Wiesler é o personagem que sofre a maior transformação durante o filme. Não tanto uma transformação de caráter, mas uma transformação aos olhos do espectador. Ele não é o carrasco que parecia no começo. É um homem comum, que acreditava servir uma causa justa, que acreditava estar “cumprindo seu dever”. Afinal, na teoria o comunismo é um sistema “justo”, não é? Quando ele percebe que está sendo usado para uma missão pessoal, Wiesler passa a omitir informações que consegue com suas escutas. Ele protege Dreyman até o final e tenta convencer Christa a parar de se encontrar com o Ministro Hempf. É um homem sozinho, tentando fazer a coisa certa, não para ser um herói, mas porque ela é a única coisa ser feita. Como Oskar Schindler(o industrial polonês que salvou mais de 1000 judeus), do filme de Spielberg, Wiesler não pode aceitar a injustiça do sistema ao qual ele mesmo faz parte.

“A Vida dos Outros” não é uma crítica ao socialismo ou à outra forma de ideologia. É um filme sobre o totalitarismo( seja ele nazista, capitalista ou socialista) e a esperança no homem. Como o homem pode criar regimes hediondos, no qual acha que tem direito sobre a liberdade alheia é difícil de entender. O livro em quadrinhos Maus, de Art Spiegelman, ajuda a compreender como a vida comum das pessoas pode se tornar um inferno, como seu vizinho pode ser tornar seu inimigo. Maus fala sobre o regime nazista, instaurado na mesma Alemanha de “A Vida dos Outros”, cinqüenta anos antes. Num regime de força, quem está no poder acha que tem direito a tudo. Como num regime em que o dinheiro é o mais importante, o rico pode comprar tudo. O ministro Bruno Hempf acha que tem o direito ao corpo de Christa-Maria Sieland porque ele tem o poder. E no começo ela cede ao poder e traí o namorado. Não basta o amor e o talento de Dreyman, ela precisa da “proteção do estado”. È como aquela história clássica do cara que compra uma noite de amor com a mulher do outro por um milhão de dólares. Se você perguntar pra qualquer um numa mesa de bar, a maioria dos caras cederia sua esposa por um milhão de dólares, ou pela metade desse valor. A maioria das mulheres também. E assim o dono do poder continua achando que tem direito a tudo. À sua mulher, à sua liberdade, à sua alma.

O final de “A Vida dos outros” aposta na esperança no homem. Parece que vai se perder num excesso de “explicações”, mas acaba com uma cena humana, demasiadamente humana. Na figura de Wiesler, seu “anjo da guarda” que continua sua vida como um pacato carteiro, Dreymar encontra sua inspiração para voltar a escrever. Com todos os erros que cometemos, é difícil ter esperança na raça humana, mas ainda podemos esperar algo dos pequenos homens e dos seus pequenos atos anônimos.

22/05/08

Jimi Hendrix: a dramática história de uma lenda do rock, Sharon Lawrence

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Triste como um blues
A biografia de Jimi Hendrix, escrita por sua amiga pessoal Sharon Lawrence, não é uma leitura leve. Narrada de forma seca, carregada de citações de grupos e músicos dos anos 60 e 70 que podem confundir os leigos, traz uma nova versão da vida do maior guitarrista do mundo. Nada do doidão divertindo-se com sexo e drogas. O que vemos é um homem de infância pobre e difícil, manipulado por empresários no seu auge e que teve os direitos de sua obra disputados por parentes gananciosos que mal o conheceram. Triste como um blues, daqueles bonitos que Jimi tocava como ninguém.

Jimi Hendrix: A dramática história de uma lenda do rock
Sharon Lawrence
Jorge Zahar Editor.

A Revolução dos Bichos – George Orwell

-Mais resenhas de livros!

Edição brasileira com capa dura do clássico de George Orwell

Edição brasileira com capa dura do clássico de George Orwell

Porca miséria

George Orwell fez parte de um grupo de escritores engajados que não se prendeu apenas as palavras partindo para ação. Um grupo de escritores que viveram uma época de revoluções (principalmente a Revolução Russa de 1917 e a Guerra Civil Espanhola, mas também a Revolução Mexicana e as duas Grandes Guerras Mundiais). George abandonou seu passado burguês, seu antigo nome (Eric Arthur Blair) e foi lutar por seus ideais assim como John Reed e Ernest Hemingway. O escritor inglês se meteu na sangrenta Guerra Civil espanhola lutando no POUM (Partido Obreiro de Unificação Marxista) ao lado dos anarquistas, ao contrário da maioria dos voluntários que se alistaram nas Brigadas Internacionais, ligadas ao ortodoxo Partido Comunista Soviético. Da guerra saiu decidido por um socialismo independente, criticando duramente o totalitarismo de Stálin, essa crítica acabaria se tornando livro em A Revolução dos Bichos, publicado em 1945.

A Revolução dos Bichos é uma dura crítica ao fim levado pela Revolução Russa de 1917, à sua burocratização e sua transformação em ditadura. Não é um ataque ao socialismo em si, mas sim ao totalitarismo. Essa crítica voltaria na outra obra prima de Orwell, 1984. Publicado em 1949, esse livro retrata uma sociedade em um futuro próximo, completamente repressora, onde todas as pessoas são vigiadas pelo “Big Brother”.

Voltando a “Revolução dos Bichos”, o livro não deixou sua marca por uma linguagem ou narrativa inovadora, mas sim por sua força revolucionária, sua crítica ácida à nossa sociedade e, não só a Revolução Russa, mas a todas revoluções que terminam com uma nova elite tomando o poder, que acabam sem o povo soberano, sem ser estabelecida a igualdade entre todos… A narrativa de Orwell é extremamente simples, concisa e jornalística, seu curto livro é contado como uma fábula moderna, na qual os animais falam e pensam. Suas metáforas são diretas: o corvo negro representa os padres, que pregam a salvação aos animais explorados e uma vida melhor (uma montanha de açúcar) àqueles que trabalharem em vida; as ovelhas representam os homens que, como um rebanho, seguem os líderes sem pensar; os porcos são os animais inteligentes que conduzem a revolução e depois acabam se tornando a nova elite (Os burocratas da União Soviética). Alguns personagens se assemelham aos líderes soviéticos, como é o caso dos porcos Napoleão (Stálin, o líder tirânico que estimula o culto a sua personalidade e persegue cruelmente seus adversários), Bola de Neve (Trotsky, como o líder perseguido, apontado como inimigo, e que tinha como intuito espalhar a revolução para todo o mundo) e Major (Lênin, o primeiro revolucionário, que passa os ensinamentos a seus subordinados, e que após sua morte tem seu corpo exposto e venerado pelos outros animais, como a múmia de Lênin na URSS).

George Orwell tinha um programa anti-facista na rádio britânica durante a Segunda Guerra Mundial

George Orwell tinha um programa anti-facista na rádio britânica durante a Segunda Guerra Mundial

Os animais de Orwell representam o proletário enquanto nós humanos somos a burguesia exploradora… Após a bem sucedida revolução, os bichos passam por todas as etapas conhecidas pela humanidade (a euforia, as tentativas de contra revolução e a formação de uma nova elite dominante…) No final genial os porcos vão cada vez mais se assemelhando aos humanos, no jeito de se vestir, nos hábitos, na forma de exploração e Orwell termina com a constatação : “(…) já se tornara impossível distinguir quem era homem e quem era porco.”

24/08/03.

Título original: Animal Farm
Autor: George Orwell

 

Misto-Quente, Charles Bukowski

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A VIDA COMO ELA É: Resenha do livro Misto-Quente

Retrato autobiográfico do nascimento de um gênio marginal

“Éramos uma piada, mas as pessoas tinham medo de rir na nossa frente.”
Charles Bukowski, Ham on Rye.

Ok, o garotinho se chama Henry Chinaski, mas poderia se chamar Fred Di Giacomo, Eduardo Moraes, Charles Bukowski ou qualquer outro nome de garoto(a) que nunca foi o mais bonito(a) da classe, nunca foi o primeiro a ser escolhido no jogo de futebol ou já passou um recreio sozinho. Como todo mundo de carne e osso Henry também é um perdedor e a escola é seu purgatório pessoal. Seu pequeno inferno. Freud deve ter algum estudo sobre os efeitos devastadores da escola na personalidade e ego das pessoas. Humilhações, repressão e castigos são o que você suporta durante pelo menos dez malditos anos da sua vida, e nos Estados Unidos o negócio parece ser pior. Numa terra onde status é tudo, o universo escolar é dividido entre os perdedores (os losers) e os “caras legais”. Não há meio termo; ou você está com eles ou eles estão contra você. Tive uma conversa com meu primo Joe (que nasceu e mora nos EUA) sobre a “high school” e ele realmente tinha pavor, não é à toa que os americanos saem matando seus coleguinhas de classe. Não é à toa, que em sua música “School”, Kurt Cobaintenha se limitado a gritar “Vocês não vão acreditar, é a minha sina. Sem recreio. Você está na minha escola outra vez”.

Perdedor, Chinaski é um perdedor. No entanto, isso não faz dele um coitadinho. Ele sacaneia os outros assim como a vida o sacaneia. O alter-ego de Bukowski (como em quase todos os livros do “velho tarado”, essa é uma história autobiográfica) não teve muita sorte na vida. Sua família tem o alcoolismo no sangue, seu pai o espanca e sua mãe é uma estúpida histérica. O moleque não tem meias palavras: “eu devo ter sido adotado”. Seus pais o proíbem de brincar com os garotos da rua. (“Eles pensavam que nós éramos ricos”) A vizinhança é imunda, um bairro pobre de Los Angeles, para onde os Chinaski se mudaram logo depois que chegaram da Alemanha. Na escola não há muita esperança, Henry tem poucos amigos e é sempre o penúltimo a ser escolhido para o time de beisebol, sua principal preocupação é se segurar para não ir ao banheiro. ( “Eu chegava em casa e não tinha mais vontade de ir ao banheiro, o cocô já tinha endurecido dentro de mim”)

A linguagem é direta, seca. Socos no estômago do leitor são distribuídos a cada página, mas com um maldito humor negro e a tão comentada ironia. Isso diferencia “Misto-Quente” de outros clássicos sobre a juventude americana. Ele é uma versão underground de Tom Sawyer, um primo distante de Huck Finn. Vive num terreno arrasado pela depressão como o de “Ratos e Homens” de Steinbeck. O livro chegou mesmo a ter sua importância comparada pros anos 80 com a de “O Apanhador no Campo de Centeio” pros anos 50. Sem seu humor, Bukowski teria estourado a cabeça antes de publicar qualquer coisa. Ele foi um autor que não se contentou com as “verdades” dos livros, leu como um desesperado, mas também viveu a vida desesperadamente. As salvações para o moleque são essas: A ironia e os livros…

Um dia Henry tem que ir ver o discurso do presidente para fazer uma redação da escola. Ele sabe que se não cortar a grama naquele sábado seu pai vai surra-lo como sempre. O fedelho decide, então, inventar um discurso, com toda a pompa e todos os detalhes. A professora lhe dá dez e pede que leia em voz alta. Ele descobre um talento (“(…) era isso que eles queriam: Mentiras. Mentiras maravilhosas. Era disso que precisavam. As pessoas eram idiotas, seria fácil pra mim.”) Aos poucos aquele moleque vai reunindo em torno de si outros desajustados, freakies, losers como ele. (“Eu era como um lixo que atraía moscas, ao invés de uma flor desejada por borboletas e abelhas”). Ele começa a ganhar algum destaque, mesmo em meio a todos os seus problemas, como define com uma passagem mais ou menos assim: “havia alguma coisa dentro de mim, eu sabia, podia ser todo aquele cocô endurecido…”. Chinaski vira um durão, era isso o que ele mais desejava. Podia não ter as garotas (e ele realmente se dá mal com elas, eternamente virgem e sempre desperdiçando as oportunidades que surgem), mas ganhou algum respeito. Aos poucos vai se embrenhando em uma vida marginal de vadiagem, álcool e brigas que contrapõe-se com seu talento florescente para a literatura. Ele estava sozinho, mas tinha os livros. Era mais um daqueles garotos que passavam horas se divertindo sozinho, brincando com seus amigos invisíveis, criando suas próprias histórias que aos poucos vão ganhando o papel.

Chinaski não tinha um pai? Certo, mas ele tinha Hemingway e Dostoievsky. Com o escritor russo ele aprendeu: “Quem não quer matar seu pai”? O complexo de Édipo rodeia Chinaski por toda a obra. “Ele” é o cara sacana, “Ele” é o responsável por seu sofrimento, “Ele merece” morrer. Esse ódio por seu pai (na realidade um alcoólatra violento) permeia toda a obra do velho “Buk”, e é outro dos sentimentos mais antigos da humanidade, estudado por Freud como uma das raízes dos principais tabus da nossa sociedade. Essa capacidade de transformar o dia a dia em poesia, de pegar as bebedeiras triviais, as angústias adolescentes e transformá-las em arte é a mágica de Bukowski. Sim sua linguagem é chula, ele fala de sexo o tempo todo e não finaliza com chave de ouro, mas isso não é o que importa. Aliás no mundo de “South Park” falar palavrão não assusta mais ninguém. Tire todas “bucetas” e “merda” do texto e você ainda terá um livro genial. O que importa é seu retrato do homem comum.. O resto é excesso.

Misto-quente(Ham on Rye), publicado originalmente em 1982.

Fred Di Giacomo, brincou tanto de criar histórias que acabou passando-as pro papel no livro “Canções para ninar adultos”
26/05/04

-Frases de Charles Bukowski

 

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