>Apocalypse Now: retrato existencialista de um dos maiores nadas da história

originalmente postado em Dezembro de 2007
>

Retrato existencialista de um dos maiores nadas da história

Flash 1: A visão área da mata tropical no sudeste asiático. Flash 2: Helicópteros bombardeiam uma aldeia de mulheres e crianças ao som das Valquírias de Wagner. Flash 3: Um assassino emerge do pântano com uma faca na mão. Flash 4: O horror!

A seqüência de imagens vêm a cabeça daqueles que assistiram Apocalipse Now(um dos clássicos do diretor Francis Ford Coppola) retrato acidamente poético da Guerra do Vietnã, relançado há algum tempo na “versão do diretor”.

Criticado por Glauber Rocha e elogiado por Paulo Francis, o longa-metragem lançado em 1979 deixou poucas pessoas neutras. Baseado no livro de Joseph Conrad(Coração das Trevas), o filme é um dos raros exemplares de adaptação que se iguala ou até supera a obra original. Para isso, Coppola mudou drasticamente o cenário: das selvas do Congo para o Vietnã, do período neocolonialista para a Guerra Fria. O enredo mantém os elementos básicos do romance; o coronel Kurtz está louco, Willard será o homem designado para eliminá-lo.

No longa, Kurtz – vivido pelo já gordo, mas não menos talentoso , Marlon Brando – é um personagem misterioso que teria visto o horror da guerra nos olhos e se tornado insano. Perdido na busca pela razão dos ser humano, o coronel acaba se tornando um assassino, aspirante a Deus, que passa a agir independentemente, nem ao lado dos americanos, nem ao lado dos vietcongues. Willard (vivido por Martin Sheen) é um capitão do exército sem laços com o mundo. (Recém separado da mulher sente que o Vietnã é “seu lar”.) Sua missão é secreta: terá que subir o rio com uma pequena tripulação(O sério chefe do barco; Clean, um adolescente negro; Lance, um surfista da Califórnia e Cheff, um cozinheiro de New Orleans.) até a divisa com o Camboja.
No caminho se desenrolará toda uma viagem existencialista, uma busca, um conflito com a selva, com nosso lado animal, com a tênue linha que nos separa das mais brutais das bestas, no mais brutal dos jogos humanos: a guerra. De fundo, a trilha sonora eficiente, que inclui o clássico “The End” dos Doors, cruzando perfeitamente com as imagens, formando o videoclipe do final dos tempos.

A idéia de Apocalipse Now Redux era dar ao público a versão original do filme como pensada por Francis Ford Coppola, antes dos cortes propostos pelo estúdio para torna-lo mais “vendável”. Pode cheirar a caça-níquel, mas não, as cenas realmente acrescentam à narrativa do filme. São três trechos principais: o roubo da prancha do Coronel Kilgore, a cena em que Willard e seus homens transam com as coelhinhas da playboy em troca de combustível e uma longa seqüência na fazenda de uma família de colonos franceses, que é a mais importante de todas. Nessa cena o diretor faz as críticas mais diretas ao conflito do Vietnã através da fala dos fazendeiros. Lá aponta-se todo o vazio da guerra, toda a falta de sentido. Num dos diálogos o antigo oficial questiona Willard: “por que vocês estão lutando nessa guerra? Por nada. Esse é o maior nada da história” ou como diria Kurtz olhando nos olhos da morte : “o Horror”…

 

Fred Di Giacomo. 27/09/03

“O retrato de Dorian Gray”, Oscar Wilde – Resenha

Confesso, minha primeira impressão ao ler as floreadas linhas do único romance do autor irlandês Oscar Wilde (1854-1900) foi pouco empolgada. Era a obra mais feminina que eu já lera. E era escrita por um homem. Justo eu, acostumado ao excesso de testosterona exalado por Bukowski, Pedro Juan Gutiérrez e Henry Miller. Eu que já havia lido autores homossexuais, mas homossexuais libertários ou marginais, capazes de versos viris como os de Allen Ginsberg e Walt Whitman. E das mulheres, que vergonha, lera alguns poucos livros de Anaïs Nin, Rachel de Queiroz e Clarice Lispector. Sou um machista? Um cara fechado em literatura branca/heterossexual/ocidental? Talvez…

E lá, dessa caverna de ogros, me deparo com o parágrafo de abertura:

O ateliê estava repleto de odor substancioso das rosas, e quando a brisa de verão agitou-se por entre as árvores do jardim, entoou, pela porta aberta, o aroma acentuado do lilás, ou o perfume mais delicado do pilriteiro rosáceo.

Seria Oscar Wilde um hipster?

E, então, por trás da afetação dos personagens e das frases polidas com precisão por Wilde, se revela a alma de uma juventude narcisista, hedonista, fútil. Não há nada que você, com sua extraordinária beleza, não possa fazer. Quem aconselha é o experiente dândi Henry Wotton, apresentado ao jovem Dorian Gray – dono de uma beleza extraordinária, que hipnotiza todos que o conhecem – pelo pintor Basil Hallward. É Basil quem fará o retrato de Gray que, magicamente, passará a envelhecer no lugar de seu modelo. O tempo corre, mas o jovem – obcecado em sua busca por prazer – seguirá belíssimo e todos seus (muitos) pecados ficarão impressos apenas na tela pintada por Hallward. (Essa tela, terá papel semelhante à consciência deixada por Macunaíma na beira de um rio, na famosa rapsódia escrita por Mário de Andrade.) 

Calma, esse livro foi escrito quando? 1889? Mas ele parece falar direto à geração “colírios”, aos metrossexuais e aos emos. Aos playboys filhos de donos de grandes empresas de comunicação (RBS) e aos goleiros Brunos da vida. Uma pessoa extremamente bela está acima do bem e do mal? A morte de “seres menores” deve aborrecê-la? Quem são os deuses que habitam um mundo superior, o Olimpo das celebridades, as festas da alta sociedade e que observam intrigados a pequenez da escória (Que inclui eu que sou torto, você que é pobre e ela que é gorda.) Mas Henry e Dorian pedem: E, por favor, não converse assuntos sérios. Nada é sério, hoje em dia. Não deveria sê-lo, ao menos

 “O retrato de Dorian Gray” está longe de ser simples crítica social ou moral. Nem tão pouco é um elogio ao esteticismo defendido duante anos por Oscar Wilde – ele mesmo visto como figura excêntrica, envolvido em escândalos que condenavam sua homossexualidade e seu relacionamento com jovens ingleses. Este livro tem a qualidade das grandes obras de arte que conseguem tratar diversos temas universais e ainda falar direto ao âmago do leitor. É uma profunda reflexão sobre valor da arte e a produção artística. Sobre o belo, sobre o narcisismo e sobre uma juventude que parece não ter envelhecido em nada mais de um século depois.

Muitas pessoas faliram por ter investido na prosa da vida. É uma honra arruinar-se por causa da poesia. Oscar Wilde, “O Retrato de Dorian Gray”

Cidade de Deus: Realidade em ritmo de videoclipe.

Publicado em: 24 de Novembro de 2007

(Em 2003, eu tinha 19 anos, estudava jornalismo na Unesp-Bauru e tinha saído pela primeira vez do Brasil. Minha tia tinha me pagado uma viagem de um mês pros States com direito a curso intensivo de inglês. Lá eu me deparei com o fenômeno “City of God”. Alguns meses depois escrevi a resenha abaixo pro meu extinto zine Kaos)

Dois moleques chorando com a mão estendida à espera de um tiro. Seu crime : roubar um frango pra comer. A sentença: um dos dois não vai sair de lá vivo. O carrasco: um garoto pouco mais velho, aspirante a traficante. O cenário: uma ruela estreita da Cidade de Deus, no entanto, podia ser qualquer outro buraco miserável do Brasil, mudam-se os atores e o enredo é o mesmo.

Muito já deve ter sido escrito sobre Cidade de Deus, não só em português, mas em todas as línguas do mundo. Lembro quando estava nos Estados Unidos de ter lido resenhas elogiosas na Rolling Stone e no Washington Post, “City of God” “seria o que Martin Scorcese teria tentado fazer em Gangues de Nova York e não conseguira”. Um misto de Pulp Fiction e Pixote. Um crossover de realidade e videoclipe.

A história todo mundo já sabe, baseada na obra mezzo ficção, mezzo realidade de Paulo Lins, narra a saga da favela Cidade de Deus no Rio de Janeiro de seus início nos anos 60 até o final dos anos 70, contando também a evolução do tráfico de drogas e a trajetória de Buscapé, um garoto que leva “vida de otário” tentando se virar sem entrar pro crime.

Crianças assassinas, jovens estupradas, policiais corruptos, o horror do Conrad, o nível mais baixo de miséria e violência. O que assusta em Cidade de Deus é que tudo ali é real, qualquer um pode trombar com um Zé Pequeno (o traficante sociopata do filme) pela frente, qualquer um pode perder a vida por um motivo idiota. A situação de calamidade não é problema só dos “pobres”. Os ricos são seqüestrados, tem seus filhos , usam drogas ou são assaltados no semáforo. Contratam-se seguranças, blindam-se carros, erguem-se muros. Milhares de dólares gastos à toa, o mal tem que ser cortado pela raiz, apesar de nossa elite burra ignorar, sem justiça social a situação só vai piorar.

“Eu fumo, eu cheiro, já roubei e já matei. Sou homem feito”. Essa é a lei que rege o cotidiano de milhares de jovens brasileiros que se envolvem com o crime por falta de oportunidade. Eu poderia falar aqui das tomadas de câmera, revolucionárias.da forma de narrativa empolgante, do uso de atores amadores, da excelente trilha sonora(uma capítulo à parte que inclui clássicos que vão de Cartola à Carl Douglas, passando por Tim Maia na fase Racional), mas o que vale a pena mesmo no filme é a história. É a chance do povo brasileiro se olhar no espelho.Sejamos sinceros, nosso mundo não é a realidade branca, classe média do Leblon assistida nas novelas da Globo. Somos um povo pobre, favelado,mestiço. Acho muito importante que cada vez mais o negro seja protagonista no cinema nacional. Madame Satã, Cidade de Deus, Carandiru, O Homem que Copiava, cada vez mais o negro consegue espaço nas telas.

Tive a experiência de assistir Cidade de Deus duas vezes no cinema, uma em Bauru, aqui no Brasil, e outra nos EUA. Nos dois lugares o filme foi um sucesso, em Washington a sala estava lotada, as pessoas faziam fila pra assistir City of God. Acho que pra eles tudo aquilo era uma realidade distante, o filme valia como obra de arte. Ai está o mérito de Fernando Meirelles como diretor. Para mim, brasileiro que me criei do lado de uma “quebrada” e tive oportunidade de conhecer um ou outro Buscapé ou Benê, tudo aquilo era um documentário. Fiquei orgulhoso, Cidade de Deus era o filme “que Scorcese não fizera”. E fiquei aliviado por muitos ainda conseguirem sobreviver a tudo seguindo “o caminho do bem” da música de Tim Maia…

Fred Di Giacomo, jornalista e autor do livro de contos “Canções para ninar adultos”. 27/07/03

Assista o traile de Cidade de Deus:

Veja também:
– Apocalipse Now: Retrato existencialista de um dos maiores nadas da história
-Cidade de Deus: realidade em ritmo de videoclipe
– Tá atrás de resenhas e trailers? Clica aqui e veja mais! 

Cartaz do filme "Cidade de Deus"

“Singin’ Alone”: Disco independente dá graça a tristeza profunda de Arnaldo Baptista

“Não sei se tenho o rei na barriga, mas um frango não faz mal”. Arnaldo Baptista.

Arnaldo Baptista estava numa pior quando gravou o disco “Sigin’ Alone” no final de 1981 e inaugurou as gravações indies no Brasil. Fazia um bom tempo desde que ele tinha lançando o genial “Loki?”, em 1974, mais dois discos com a Patrulha do Espaço no final dos anos 70.  A volta a ativa seria o show “Shining Alone”, organizado com a ajuda de Luis Calanca, da Baratos Afins, que criaria sua gravadora independente só pra lançar o trabalho de Baptista. Os Mutantes e Rita Lee já eram passado e Arnaldo tinha entrado fundo em drogas e depressão. O show deu origem ao disco “Singin’ Alone”, no qual Arnaldo gravou todos os instrumentos. (Como Paul McCartney fez em seus dois primeiros solos). Antes de lançar o disco, nosso anti-herói passou pela famosa (e triste) internação em um hospital psiquiátrico de onde saiu caindo de uma janela do terceiro andar e entrando em coma por três meses.

A obra foi lançada em vinil em 1982 e teve um reedição em cd  nos anos 90 – atualmente fora de catálogo. O disco é bem menos pop que o trabalho com os Mutantes, e segue o tom melancólico de outros solos do artista, em belas músicas como “O Sol” e “I Fell in Love One Day”. Arnaldo faz uso de todos seus trocadilhos geniais para dar graça a dor pulsante. Quer fotografia mais precisa de um gênio sem dinheiro que a frase que abre essa resenha: “Não sei se tenho o rei na barriga, mas um frango não faz mal”?

-Entrevista exclusiva com Arnaldo Baptista sobre “Lóki?” e a tristeza
-Leia resenha do disco publicado no “Mofo”.

Faixa a faixa:
Lado A
01. I Feel In Love One Day
02. O Sol
03. Bomba H Sobre São Paulo
04. Hoje de Manhã Eu Acordei
05. Jesus, Come Back To Earth
06. The Cowboy

Lado B
01. Sitting On The Road Side
02. Ciborg
03. Corta Jaca
04. Coming Through The Waves of Silence
05. Young Blood
06. Train

“O Primeiro Terço” – Neal Cassady: Ícone beat escreve o pior livro de sua geração.

Diversos autores podem se acotovelar para decidir quem foi o cérebro da geração beat, mas seu rosto é definitivamente do malandro Neal Cassady (8 de fevereiro de 1926 – 4 de fevereiro de 1968).

Timothy Leary -o papa do LSD - e Neal Cassady no busão de Ken Kesey

Bonito, durão, amante da velocidade dos carros e das mulheres, esse James Dean da vida real foi o “muso” beatnick. Provavelmente nenhum cidadão comum teve sua história tão contada em livros clássicos quanto Cassady. O que o deixou famoso foi “On The Road”, obra prima de Jack Kerouac, em que Cassady inspirou o protagonista Dean Moriarty. Neal também aparece como N.C. em diversos poemas de Allen Ginsberg (inclusive “O Uivo“) e em livros de Ken Kesey (autor de “Um estranho no ninho”). Cassady foi motorista do ônibus psicodélico de Kesey nos anos 60 e ganhou uma edição de homenagem na revista editada pelo escritor, “Spit in the Ocean”. Além das citações em poesias, Allen Ginsberg – de quem Neal foi amante (sim ele também traçava homens) – tirou diversas fotos do anti-herói que acabaram  impressas em seu livro fotográfico “Beat Memories“. Por fim, Bukowski escreveu o epitáfio literário de Cassady, logo após esse ter sido encontrado morto no deserto mexicano. O conto está no livro “Notas de um velho safado.” Vale ressaltar que Neal era um dos poucos personagens da geração beat que o velho safado admirava.

Capa do livro "O Primeiro Terço", lançado pela L&PM.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mas  isso aqui não é uma resenha literária? Precisamos falar tanto da vida do autor de “O primeiro terço”? Sim, e é justo dizer que a principal obra de Cassady foi sua vida. “O primeiro terço” é um romance autobiográfico que relata a infância do autor em meio à pobreza dos Estados Unidos pós-crash da bolsa. Tem esse nome porque seria uma das três partes da autobiografia de Cassady, mas o escritor morreu antes de começar os outros dois livros e só deixou algumas cartas e fragmentos como espólio. Pelo relato histórico de um período importante na história americana e como curiosidade para os fás de literatura beat é válido. Mas como literatura não se sustenta. A linguagem em geral é pobre, em alguns momentos truncada e não se compara às obras das “melhores mentes de sua geração“. Tanto que na introdução da obra, o poeta e editor Lawrence Ferlinghetti dá esse “desconto” para a prosa de Cassady, deixando um clima de isso “é mais importante do que bom”. O autor tem alguns lampejos, em que parece encontrar sua voz, especialmente nas cartas para Kerouac, incluídas como anexo no final do livro. Para os interessados no assunto é um bom jeito de entender melhor o fascínio despertado por esse malandro fã de Proust em toda uma geração de intelectuais.

Siga o blog no Twitter: @punk_brega

Neal Cassady e a mulher, em foto do poeta Allen Ginsberg

 

“Viagem ao fim da noite” – Louis-Ferdinand Céline

-Compre o livro “Viagem ao fim da noite” na livraria Cultura e ajude esse blog


Pessimista. Futuro colaboracionista do nazismo. Ácido. Dono de uma escrita crua e erudita ao mesmo tempo. Essa, carregada de neologismo, gírias, palavrões e exclamações em excesso jogadas ali, no meio das palavras. Assim é Céline e assim se desenrola “Viagem ao fim da noite“, seu primeiro e cáustico romance lançado em 1932. Influência seminal de Bukowski, dos beats e, principalmente, de Henry Miller – que rescreveu “Trópico de Câncer” após ler a “Viagem”, Céline inaugura uma nova fase na literatura mundial, dando voz às massas pobres – sem idealizá-las – e escrevendo de uma forma extremamente autobiográfica.
“Quase todos os desejos do pobre são punidos com prisão.”

“Os pobres são privilegiados. A miséria é gigantesca, utiliza para limpar as misérias do mundo a sua cara, como um pano de chão.”

Céline: celebrado pela esquerda no começo de carreira, acabou virando simpatizante dos nazistas

Seu alter-ego, Ferndinand Bardamu, também luta na Primeira Guerra Mundial, vai trabalhar em plantações na África colonial, mora nos EUA e depois – médico formado – clinica nos subúrbios da França. Numa versão mais trágica da vida do autor, Bardamu é medíocre, perde pacientes para as moléstias, vive sem dinheiro, não conhece o amor – só guardando sentimentos carinhosos para a americana Molly e algumas crianças que aparecem no livro.

“Nunca estamos muito pesarosos que um adulto se vá, é sempre um pulha a menos na face da terra, é o que pensamos, ao passo que uma criança é, afinal, mais incerto. Há o futuro.”

Seu companheiro de viagem ao fim da noite é Robinson, trapaceiro que se envolverá até no assassinato de uma senhora, crime muito mais perverso e menos sofrido que o de Raslkolnikov, em “Crime e Castigo”. Robinson e Bardamu fazem dos protagonistas de “On The Road” heróis cheios de glamour. Dão caráter a Macunaíma, o herói que não tinha nenhum. O absurdo da guerra que Hemingway retrata em “Adeus às armas” nunca foi tão nonsense como no começo de “Viagem…” – quando o quase anarquista Bardamu se alista sem nenhum motivo em especial. O retrato da exploração colonial de “Coração das Trevas” de Conrad, parece lírico diante do cinismo e crueza com que Céline descreve o preconceito, a escravidão e o comércio entre brancos e negros. Cada palavra escrita por Céline é uma arma; uma pílula de revolta, ódio e horror.

“Os ricos não precisam matar uns aos outros para comer”.

A de se destacar que este francês está no seleto rol de escritores que realmente inventaram uma linguagem própria. Sua prosa – mesmo traduzida – soa como um dialeto particular, uma tentativa de reproduzir a oralidade e o fluxo de consciência, sem perder a erudição. Um Guimarães Rosa dos becos. O romance explicita o absurdo do imperialismo, do taylorismo e da guerra, sem propor grandes mudanças, saídas ou esperanças. Talvez seja por isso que, para desilusão da esquerda que aclamou seus dois primeiros romances, Céline tenha se tornado colaborador do nazismo na ditadura de Vichy. Sua crítica, ódio incurável e insatisfação niilista o levariam de encontro às soluções populistas de Hitler.

“É triste as pessoas se deitando, a gente percebe muito bem que não ligam a mínima se as coisas andam como gostariam, a gente vê muito bem que não tentam compreender o porquê de estarmos aqui.”

“Quando não se tem imaginação, morrer não é nada; quando se tem, morrer é demais. É essa minha opinião”.

“Nós dois não chorávamos. Não tínhamos nenhum lugar onde pegar lágrimas”.

Outros malditos que a gente adora:

-Henry Miller e o sexo como razão de viver
-Bukowski: o genial bêbado brigão
-Leia algumas poesias marginais

Nosso GG em Havana, Pedro Juan Gutiérrez

O escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez

O escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez

-Outras resenhas de livros

por Fred Di Giacomo

GG pôs a mão no bolso e pegou umas moedas. O homem se despediu imediatamente. A cidade sob a chuva era ainda mais bonita. Olhou o panorama por alguns minutos. Sentiu que a atmosfera estava mais fresca e limpa. Bateram na porta. Traziam uma bandeja de prata com uma garrafa de uísque, gelo, água e copos. Serviu uma dose generosa, com pouca água e dois cubos de gelo, e, sorrindo, parcimoniosamente, brindou a si mesmo olhando para a cidade molhada:

– Bem-vindo a Havana, mister Greene. O senhor é nosso hóspede de honra.

Não espere aqui o Pedro Juan Guitiérrez que escreve com o fígado em “Trilogia Suja de Havana”. Em seu novo ciclo literário – no qual se insere “Nosso GG em Havana” – o cubano escreve com o cérebro. O livro é rápido. As frases continuam curtas. Sexo, sangue e rumba ainda marcam sua presença. Mas essa não é mais uma obra autobiográfica sobre a Cuba contemporânea. Aqui Guitérrez traz uma trama de espionagem e mistério, envolvendo o escritor britânico Graham Green (de “O Americano Tranquilo”). Se for pra traçar um paralelo com Bukowski – com quem Gutiérrez é sempre comparado – este seria o seu “Pulp”, momento em que o velho Buk deixou de lado a autobiografia para se aventurar pelas histórias de detetive fantásticas.

A Cuba de “Nosso GG em Havana” não é nem a ilha dos anos 60, marcada pela revolução de Fidel Castro, e nem o Estado agonizante que muitos retratam hoje em dia. Pela escrita crua de Gutiérrez, nós somos levados ao país pré-revolução, quando cassinos, prostitutas e turistas americanos eram os principais elementos do cenário caribenho. Carrões potentes e modernos rodavam pelas ruas infestadas de gringos. Mafiosos controlavam o jogo e mulatas sensuais enlouqueciam a imaginação.

Capa do livro "Nosso GG em Havana"

Capa do livro “Nosso GG em Havana”

É nesse cenário dos anos 50, que Pedro Juan cria sua trama fictícia – pincelada de situações fantásticas – envolvendo Green, boxeadores decadentes, o famoso e bem dotado Super-Homem, caçadores de nazistas e organizações secretas comunistas. Não tem o mesmo fôlego e inspiração de suas obras anteriores e peca pela “pressa do autor em acabar o livro”, mas é uma dose curta um coquetel que mistura ritmos caribenhos, sangue e sacanagem.

– Leia análise da “Trilogia Suja de Havana”, de Pedro Juan Gutiérrez
– Resenha do livro “Misto Quente”, de Charles Bukowski

O amante de Lady Chatterley, D.H. Lawrence – Resenha

 -Compre o livro “O amante de Lady Chatterley” na livraria Cultura

por Fred Di Giacomo

D.H Lawrence o autor de “O amante de Lady Chatterley”

O primeiro homem a desabrochar Anaïs Nin(1903-1977) para o sexo e a procura da plena felicidade “física / psicológica” não foi seu amante Henry Miller, foi D.H. Lawrence(1885-1930). E a autora francesa nem precisou dormir com o Lawrence, bastou o contato com as polêmicas obras do modernista inglês, para que ela escrevesse seu primeiro livro “D.H. Lwarence: An Unprofessional Study”, publicado em 1932.

 Lawrence morrera há apenas 2 anos, e era visto como um pornógrafo, autor menor, cuja obra estava mais ligada a escândalos que a excelência literária. O escritor tivera uma carreira prolífica: pintara quadros e escrevera poesias, contos, peças de teatro e romances. Nessa última seara cravou o mais doloroso prego em sua cruz: “O Amante de Lady Chatterley”(1928). Romance robusto, “O Amante de Lady Chatterley” nos leva a Inglaterra pós-Primeira Guerra Mundial, um país em rápida modernização, um império aristocrático dançando no ritmo do jazz e transformando-se em potência capitalista. São os últimos anos da hegemonia britânica, antes da ascensão americana, que se cristalizaria com a Segunda Guerra Mundial. Sua personagem principal é Constance – Lady Chatterley – jovem burguesa de formação livre e intelectual que se casa com o aristocrata Clifford, dono de minas de carvão em Wrgaby. Clifford pouco se importa com o sexo, mais preocupado com a “felicidade” intelectual/espiritual e posteriormente com seus negócios. Depois da participação na guerra, Clifford volta impotente e em uma cadeira de rodas. Constance – que havia perdido a virgindade antes do casamento – passa a ter uma vida estéril, vazia e sem emoção. Incapaz de encontrar o equilíbrio entre a felicidade física(que ela busca em um caso com o escritor irlandês Michaelis) e a felicidade espiritual(que às vezes ela pensa ter nos seus diálogos com Clifford ou em seus pequenos passeios pelo bosque). Quem vai chacoalhar sua vida e mostrar que as duas coisas são possíveis é o guarda-caças Oliver Mellors – por quem ela irá se apaixonar lentamente.

pintura de D.H. Lawrence


“O Amante de Lady Chatterley” foi censurado por mais de 3 décadas na Inglaterra e em diversos países de língua inglesa. O uso de palavras “indecentes”, as descrições dos atos sexuais, a relação entre uma burguesa e um trabalhador e a crítica à guerra, tudo isso era uma afronta à aristocrática ilha britânica. Para tentar ver a obra publicado em sua terra natal, Lawrence escreveu duas versões editadas do romance, que de tão diferentes podem ser consideradas novos livros. Só nos anos 60, com a liberação sexual, o sucesso dos autores beats e a descoberta de Henry Miller, é que a obra receberia a devida atenção. Para o leitor moderno, “O Amante de Lady Chatterley” não representará grandes sustos. A maior parte do livro trata das dúvidas existenciais de Constance, suas paixões e a vontade de escapar de Wrgaby. Quase uma “Madame Bovary”, menos ingênua e com um final mais feliz à sua espera. O clima esquenta no terço final da história. As relações entre Mellors e Constance são retratadas explicitamente, mais como algo natural, do que como pornográfico. O sexo é algo do qual nos devemos envergonhar? Algo extraordinário? Não, ele faz parte da receita da felicidade. O ritmo aumenta, as reflexões de Mellors e Constance passam a se tornar mais apaixonadas. Algumas passagens lembram os grandes discursos libertários de Henry Miller. Há um romantismo primitivista sempre presente. Um olhar crítico em relação à industrialização, ao ritmo acelerado e a ligação da sensação de satisfação, com a sensação de posse(“Se fosse possível fazê-las compreender que há grande diferença entre viver e gastar dinheiro. Se fossem educadas de modo a ‘sentir’ em vez de ‘ganhar e gastar’(…)”.) Pode soar ingênuo, mas são questões atuais, postas em pauta constantemente em nossos anos “sustentáveis”. É atual também a busca de uma terceira opção, entre o capitalismo industrial e a doutrinação bolchevique.

Leia também:
-“Sexus”: Henry Miller prega a boa vida como a única vida que vale a pena
-“Viagem ao fim da noite”: livro do gênio que virou nazista
-Conheça mais sobre o escritor marginal Charles Bukowski

A editora Penguin lançou a primeira versão integral do livro na Inglaterra

O romance que parecia lento acaba no ápice. É como se todo o livro fosse um grande relacionamento. Do primeiro olhar ao gozo triunfante. A busca dos personagens é pela satisfação completa, independente de sua classe, idade ou da opinião pública. Busca pelo prazer – não o prazer hedonista de orgias, eternas bebedeiras, grandes gastos -, mas um prazer quase epicurista do amor, da boa comida, da diversão possível.

 -Aí está! Alguma coisa invisível! Para mim mesmo, sou alguma coisa. Compreendo o sentido da minha existência, embora admita que ninguém mais a compreenda.

_E essa existência perderia o sentido se vivêssemos juntos?(…)

-Talvez.

_E qual o sentido da sua existência?

_Já disse que é invisível. Não creio no mundo, nem no dinheiro, nem no progresso, nem no futuro da nossa civilização. Para que a humanidade tenha um futuro é necessário que uma grande mudança se dê.(…)

_Quer que eu lhe diga? Quer que eu lhe dia o que você tem e os outros homens não têm?(…) Coragem dos próprios sentimentos, coragem da ternura; essa coragem que o faz pôr a mão no meu rabo e dizer que tenho um magnífico rabo!

livro-o-amante-de-lady-chatterley-dhlawrence_MLB-F-234917742_3104

6 discos para começar a ouvir jazz

Essa lista não pretende ser um top 6 melhores discos de jazz.

Eu não sou “entendido” em jazz.

Fui um adolescente punk e ,em geral, gosto de música redonda, feliz e cantarolável. Na verdade, quando era moleque eu odiava jazz. Era o som que meu pai colocava de manhã quando acordávamos para ir à escola. Eram os discos que ele deixava sempre rodando no carro. Não tinham distorção, refrões e muitas vezes nem vocal.

Mas quando vim pra São Paulo, o amigo Gabriel Gianordoli me apresentou alguns clássicos do jazz que me fizeram gostar da coisa. “Love Supreme”, “Kind of Blue”, “Time Out” e “She was to good to me” entram nessa conta. “Porgy and Bess” é um disco cantarolável e reúne dois gigantes que quem quer começar a se aventurar no estilo deve conhecer. Bom, era pra ser um top 5, mas resolvi incluir o primeiro solo do Jaco aqui. Deste eu gostei quando ainda era “roqueiro”. O cara é pro baixo o que o Hendrix é pra guitarra, então pode agradar quem tem resistência a pianos e raízes blues.

Espero que ajude quem quer conhecer este estilo considerado “chato” e “difícil”. Você também pode usar os nomes de discos para parecer cool numa conversa. You choose.

“A Love Supreme” – John Coltrane(1965)


A Love Supreme” conseguiu ser o único disco de jazz a se tornar meu álbum favorito por um certo tempo. A viagem espiritual do saxofonista Coltrane com seu quarteto genial se resume a 4 faixas: “Acknowledgement“(com uma linha de baixo hipnótica e o coro repetindo “a love supreme” no final), “Resolution”, “Pursuance” e “Psalm”, essa última uma versão musicada de uma oração registrada por Coltrane no encarte do álbum. Acho que é o som mais espiritual que fizeram, desde a invenção do mantra “om”.

Kind Of Blue” – Miles Davis(1959)


Miles Davis é o maior adversário de Louis Amstrong na briga pelo trono de rei do jazz. O trompetista passeou por diversos estilos, lançou meia dúzia de discos essenciais e se tornou unanimidade com “Kind of Blue”, álbum que tem até um livro inteiro dedicado só pra ele. Disco de platina quádrupla, sempre liderando listas de melhores do jazz, a bolacha ficou em 12º lugar na lista pop de “500 melhores álbuns da história” da revista Rolling Stone . A influência da bolachinha modal escapa dos terrenos do jazz e se espalha por rock e música clássica.

“She Was To Good To Me” – Chet Baker(1974)

Um trompete tocando a nota certa a cada segundo, compondo melodias assobiáveis mesmo nos improvisos. Algumas canções orquestradas, algumas cantadas numa voz bossanovista. Um dos caras mais cool do jazz no comando do som. Ouça só o começo com “Autumn Leaves” e “She Was to Good to Me” e tente não se apaixonar.

 

Time OutThe Dave Brubeck Quartet(1959)

Um dos álbums de jazz mais vendidos da história, “Times Out” quebra o ritmo do jazz brincando com ritmos turcos, valsas e swing. Bruebeck era da turma do jazz branco da costa oeste – assim como Chet Baker – e sua composições eram mais aceitas que o bebop ácido da costa leste. “Take Five”(que era pra ser só um solo de bateria de Joe Morello) entrou nas paradas da Billboard e é citado como influência até de bandas de rock como “Os Mutantes”.


“Porgy and Bess”
– Louis Amstrong e Ella Fitzgerald(1957)

“Porgy and Bess” é a versão jazz mais famosa da ópera de Geroge Gershwin e reúne dois dos maiores nomes do estilo: o carismático e genial Louis Amstrong e a diva Ella Fitzgerald. É um bom começo para quem não tem saco para som instrumental e ainda incluí o clássico “Summertime”.

Mesmo que não consiga a unanimidade de outros figurões dessa listinha, o primeiro disco solo de Jaco Pastorius é bem popular entre os fãs de jazz e seu som costuma agradar quem está mais acostumado com rock ‘n’ roll. Contando com Herbie Hancock nos teclados e Wayne Shorter no sax soprano, as 9 faixas incluem sons mais funks, uma faixa com vocais e a genialidade que levaria Jaco ao posto de maior baixista da história.

-Compre o primeiro disco de Jaco Pastorious

Se ainda assim você achar jazz um saco, se liga nos nossos posts de punk rock

Veja também:
-O evangelho segundo Louis Amstrong
-Lista com documentários legais sobre rock ‘n’ roll
-Ilustração de Charles Mingus por denisdme

Sexus, Henry Miller

Sexus, Henry Miller – Editora CEA(Edição Econômica, 1975. Tradução de Roberto Muggiati.

Infelizmente não achei uma imagem da capa da edição que li..

por Fred Di Giacomo

A montagem tosca cheia de mulheres nuas sobre o papel vagabundo engana. O título chamativo em vermelho – estampando a palavra “Sexus” – também. Henry Miller não é um mero escritor erótico, apesar de fazer o sangue e a libido alheia ferverem com suas descrições sexuais. Ele é um escritor da vida. “A prosa de Miller é uma torrente, uma catarata, um vulcão, um terremoto(…)”, escreveu Norman Mailer. George Orwell o definiu como “(…)o único excelente escritor de prosa imaginativa que apareceu na língua inglesa nos últimos anos”. Com essas credenciais, podemos nos desligar da imagem de Miller “o libertino” e começar a viajar na instigante jornada de Miller, o escritor.

“Devia ser uma noite de quinta-feira quando a conheci – no salão de danças”. Se era ou não uma quinta-feira, a Miller pouco importa. O que importa é que foi no salão de danças que ele conheceu Mona(na vida real, June), a paixão de sua vida e tema principal de “Sexus“. Miller é casado e trabalha na companhia de telégrafos (ou Corporação Chupadora Cosmodemoníaca, como ele prefere). Odeia seu emprego, tem uma filha e uma mulher (com as quais pouco se envolve emocionalmente) , mora em Nova York e sonha em ser escritor. “Um fracasso em todo sentido da palavra”, como se define. Já pensou em se matar, conta-nos seu amigo Kronski, mas agora quer viver. Intensamente. Está empolgado com a existência. E a sensual Mona será a cereja deste saboroso bolo, esta nova percepção de vida.

“Sexus”(1949) faz parte da trilogia “Crucificação Encarnada” – ao lado de “Plexus”(1953) e “Nexus”(1960) – que consagrou Miller como um dos grandes do século XX, depois de seu começo conturbado com o censurado“Trópico de Câncer”. O livro narra os últimos anos de Miller nos Estados Unidos, antes de largar tudo e ir vagabundear na Europa – onde se revelou como escritor.(Período brilhantemente mostrado no filme “Henry & June”). O autor explica que está se aproximando de seu trigésimo terceiro aniversário – a idade de Cristo crucificado – e uma nova vida se estende para ele. Mas este é o único motivo pelo qual a trilogia deve se chamar “Crucificação”? O leitor atento pode observar: que são os discursos verborrágicos de Henry sobre a vida, o sexo, o trabalho e a sociedade que não sermões, muitas vezes em parábolas? Assim como Cristo, nosso autor/personagem prega um novo mundo, um paraíso – desta vez na Terra – que pode ser atingido através de sua doutrina. Ele converte amigos e mulheres com sua fala inflamada, realiza milagres através de orgasmos e multiplica comida e dinheiro – que consegue pedindo aos camaradas. E qual é sua punição? A crucificação simbolizada pelo casamento, o trabalho, as contas pra pagar e a rotina humana. Muito dessa filosofia não é novidade, algo foi tomado de Nietzsche(assim com de Céline vêm as descrições cruas e de Dostoiéviski os diálogos realistas.) Mas ao contrário de Nietzsche, Miller trepa.

A obra é dividida em 5 livros. O primeiro é mais morno, com o começo do romance entre Miller e a misteriosa Mona e a apresentação de seu círculo de amigos. A coisa vai engrenando no livro 2, que narra o fim do casamento de Henry com sua primeira esposa, Maude, e explode nos 3 seguintes, com a intensidade narrativa cada vez mais quente.

-Leia contos libertários e libertinos

-Mais resenhas de grandes livros
O Miller de “Sexus” é um escritor sem livros. Todos os amigos gostam de sua companhia, lhe emprestam dinheiro e perguntam por que ele não escreve nada. “Você deveria escrever como fala”, alguém aconselha. Clic! Um estalo dispara uma fagulha no narrador. “O mundo só começaria a tirar de mim algo de valor a partir do momento em que eu deixasse de ser um membro sério da sociedade e me tornasse – eu mesmo”.Não é a toa que Miller tenha influenciado tantos beats e hippies. Ele quer tacar fogo em toda superficialidade da vida cotidiana e ir direto ao âmago da existência. Odeia o comum. Quer criar um novo mundo. “Se existe algo da qualidade de Deus em Deus é isto. Ele ousou tudo imaginar”. Se por um lado é libertário, por outro é egoísta, deixando filha e mulher de lado para viver sua grande aventura pessoal. Afirma que não se importa com a miséria do mundo. “Para mudar o mundo devemos primeiro mudar nós mesmos”, dizia um dos lemas da contracultura. Como um São Francisco ninfomaníaco, o escritor quer se livrar do peso morto para alçar vôo: “Nas poucas leituras que eu fizera, tinha observado que os homens que eram mais na vida, que estavam amoldando a vida, que eram a própria vida, comiam pouco, dormiam pouco, possuíam pouco ou quase nada”.

-Conheça “O Uivo”, de Allen Ginsberg


O ritmo do texto ganha a virulência dos discursos inebriados de Miller. Ele cospe Blake, Céline e Buda numa velocidade assustadora, mesclados às sensuais descrições de suas aventuras eróticas com amantes, Mona e a ex-esposa. Novamente há aqui um movimento contraditório. É o narrador um ativista da libertação sexual ou um machista só preocupado com seu próprio falo? Ele parece realmente apaixonado por Mona, apesar de conviver bem com as traições de ambos os lados.

Cada capítulo de “Sexus” traz novos personagens e citações. Se há algum enredo que conduz a história, este pode ser resumido em “livro que narra o primeiro divórcio de Miller, o começo da relação com Mona e o processo de transformação que levaria o autor a largar tudo e virar escritor”. Com a aceleração do ritmo passamos por sonhos, devaneios e descrições surrealistas. Miller, o gangster espiritual, adianta “O Almoço Nu” de Borroughs em alguns anos pra terminar em sua própria “Metamorfose” surrealista.

“Somos todos culpados do crime, o grande crime de não vivermos uma vida completa”. É essa a maior busca do escritor/personagem: desfrutar de uma vida completa.

-Compre “Sexus” aqui e ajude o blog!
-Leia resenha de “Trópico de Câncer”
-Pedro Juan Gutiérrez, o Henry Miller cubano

Mona(June) e Anais Nin, no filme “Henry & June”

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...