Camisa de Vênus”, 1983 – Camisa de Vênus

camisa-de-venus

Os cinco malucos da capa são mal encarados e carregam polêmica encharcada até os ossos. A banda começou num terreno improvável: a Salvador de 1982. Nas rádios tocava Gilberto Gil, Pepeu Gomes e Axé. A Bahia era a terra de Antônio Carlos Magalhães, do carnaval e do acarajé. Mas os 5 da capa gostam de rock ‘n’ roll e punk rock, falam palavrões e se declaram “a única banda heterossexual do mundo”. Espete sua agulha ou dê play na MP3. Vamos dissecar mais um crássico do nosso (punk) rock brazuca.

Polêmica 1
Depois de fazer sucesso com seu primeiro compacto(“Controle Total”, versão de “Complete Control”, do Clash), a banda formada pelo radialista e rocker Marcelo Nova, Robério Santana (Baixo), Karl Franz Hummel (guitarra base), Gustavo Mullen (Guitarra solo) e Aldo Machado (Bateria) já lotava casas em Salvador e recebeu proposta de contrato para gravar um disco, que inicialmente deveria sair pela pequena Fermata. De olho no potencial que aqueles roqueiros poderiam atingir no auge do Brock dos anos 80, a Som Livre se dispôs a lançar a bolacha que levava o nome da banda em 1983. Aí que rolou a primeira confusão. Com a promessa de ganhar divulgação na Globo e demais televisões os engravatados da Som Livre propuseram a Marceleza e Cia que o Camisinha mudasse para um nome “mais família”. Putos da vida, os caras propuseram chamar-se “Capa de Pica” e foram demitidos. Passaram meses ralando em São Paulo à base de sanuíches até que a RGE oferecesse um contrato para os caras e eles estourassem no Brasil inteiro com o hit “Eu não matei Joana a Darc”. Rádios conquistas, a gravadora relançaria “Camisa de Vênus” com o selinho “incluindo Bete Morreu”.

Polêmica ao quadrado
Mas pera aí, o Camisa de Vênus era punk? Bom, Marcelo nova odiava o rótulo de “punk baiano”, que colou na banda no começo de carreira. A real é que os caras do Camisa eram rockers que, de saco cheio da cena da época, se empolgaram com o retorno às raízes que os punks 77 propunham. Aliás, “Camisa de Vênus” é provavelmente o único disco de punk 77 feito no Brasil, já que a maioria dos punks paulistanos curtia mesmo era hardcore inglês e finlandês. No álbum, além das letras críticas/sacanas, do visual da banda – com cabelos espetados, roupas pretas e jaqueta – e dos instrumentos toscaços usados nas gravações, é marcante a presença de quatro versões de clássicos do punk britânico.

Mas e o som? Bom, vale lembrar que esse disco foi lançado antes de “Crucificados Pelo Sistema” do RDP, considerado o primeiro disco de uma banda punk/hc da América Latina. Em suas páginas, a revista Showbizz relembrou: “São Paulo já sabia. Mas o resto do Brasil só foi aprender a pogar mesmo com “Meu Primo Zé”, “Bete Morreu” e outras obras-primas do disco de estréia do grupo de Marcelo Nova.(…) Certo, com chupações creditadas e não-creditadas de Jam, Buzzcocks & Cia., mas bem aclimatado à baianidade irrevogável dos instrumentos (de péssima qualidade), dos instrumentistas e, principalmente, do sotaque de Marcelo.” O disco abre com “Passamos por isso”, que esculacha MPB e satiriza “Brasileirinho”(que o “inimigo da banda”, Pepeu Gomes tinha imortalizada em versão guitarreira). A vocal de Nova é quase declamado, suas letras são ácidas, o som da banda é abafado. “Metástase” tem a ótima letra chupada de “Where Next Columbus” do Crass. “Bete Morreu” é o primeiro hit do disco. Um catarro sádico, narrando o espancamento, estupro e morte de “Bete” a rainha da escola, patricinha perfeita. “Negue” adianta o punk brega de Wander Wildner em mais de 10 anos, trazendo uma versão raivosa para a clássica dor de corno da MPB. “O Adventista” transforma “I Believe” do Buzzcocks em hit, citando Xuxa e Pelé e Flávio Cavalcanti na letra. “Pronto para o suicídio” é a porrada mais punk do álbum, que acaba com outro hit roqueiro, “Meu Primo Zé”. Fazendo discursos em seus shows performáticos, Marcelo Nova colecionava inimigos na crítica e cena da época, detonando tudo na MPB com exceção de Raul Seixas(um de seus grandes ídolos) e os artistas marginais(como Walter Franco e Jards Macalé, que o Camisa regravaria).


“Bete Morreu” com áudio ruim e participação de Clemente, dos Inocentes

Polêmica – a vingança final 
Mas o Camisa de Vênus fazia plágios de bandas gringas? Apesar, de afirmarem que tinham um som original e não copiavam ninguém lá fora, os baianos realmente eram craques em fazer versões de músicas undegrounds estrangeiras. Tudo bem, Roberto e Erasmo Carlos também começaram assim, não é? No primeiro disco estão creditadas as “inspirações” em “That’s Entertainment” (The Jam) e “I Believe” (Buzzcocks). Mas os caras esqueceram de dar crédito em “Metástase” (“Where Next Columbus”, The Crass) e “Meu primo Zé” (“My Perfect Cousin”, Undertones). Em defesa de Marceleza, tem-se que afirmar que suas versões sempre incluíam atualizações para a realidade nacional, com exemplos do cotidiano brasileiro, e que suas letras “não chupadas” também não perdiam o fio da navalha. E pra acabar com a discussão, um trechinho de entrevista dos caras para Bizz, em janeiro de 1987:

BIZZ- E essa coisa de roubar refrões?
Marcelo – A gente sempre usa isso. Em cada disco tem uma música que a gente faz isso.
BIZZ – É uma brincadeira?
Marcelo – É uma brincadeira.
Gustavo – Que também pode ser levada a sério.
Marcelo – Não, é uma brincadeira, eu não estou plagiando, só estou tirando um sarrinho, posso?

Ouça o disco completo aqui:

Se você gostou desse disco, ouça também “Viva”, do Camisa de Vênus

“Pela Paz em Todo Mundo”: Conheça o maior clássico da banda punk Cólera, lançado em 1986

 

Capa do clássico "Pela Paz em Todo Mundo", da banda Cólera

Capa do clássico “Pela Paz em Todo Mundo”, da banda Cólera

Na capa amarelona com um mapa mundi estampado, a frase “Pela Paz em Todo Mundo” em seis idiomas. Esqueça o destroy pelo destroy dos Sex Pistols ou o amor adolescente dos Buzzcocks e das bandas emos da nova geração. Quando se fala em Cólera, fala-se naquele punk engajado e utópico no qual três acordes podem mudar o mundo e um disco pode ser uma pequena revolução. “Pela Paz em Todo Mundo” é um dos mais sérios candidatos a melhor disco do punk nacional. Tá, tudo bem, “Mais podres do que nunca” do Garotos Podres é um clássico, mas a qualidade da gravação é péssima, assim como de “Crucificados pelos Sistema” do Ratos. “Pela Paz” foi tão bem sucedido que vendeu cerca de 85 mil cópias, um recorde para um disco independente.

Em 1986, poucas bandas punk eram tão organizadas quanto o Cólera: eles já tinham gravado um disco(“Tente Mudar o Amanhã”, de 1984) e estavam prestes a ser a primeira banda da nossa cena a excursionar pela Europa(o que rolou em 1987). Formada em 1979, pelos irmãos Redson (Edson Lopes Pozzi, guitarra e vocais) e Pierre (Carlos Lopes Pozzi, bateria), o trio explosivo era completado por Val no baixo. Muito antes de todos holofotes apontarem para a questão ambiental aqueles garotos do subúrbio gritavam pela salvação da terra e do homem. A bolachinha vinha acompanhada da “Declaração Universal dos Direitos Humanos” e mais um manifesto surpreendentemente bem articulado chamado “Registro Arqueológico Sobre o Século XX”, que era como se alguém no futuro explicasse o mundo no qual aqueles moleques ralavam nos anos 80. Tínhamos acabado de sair da ditadura, a Guerra Fria ainda rolava solta, Rambo era um herói no cinema e Sarney se divertia brincando com a nossa inflação. Ninguém falava dos BRICS e “O Brasil é o país do futuro” era uma citação irônica numa música da Legião Urbana. Nesse cenário, parecia que o futuro era mesmo uma cena do apocalíptico “Blade Runner”. É ai que nossa audição começa.

Medo

“As vezes tenho medo/As vezes sinto minha mão/Presa pelo ar/E quando olho em volta/Encontro uma multidão/Presa pelo ar”. Síndrome do pânico? Ansiedade? Doenças do século XXI? Já estava lá, no primeiro clássico do disco, “Medo”(Que anos mais tarde seria regravada pelo Plebe Rude). A voz era um pouco desafinada, mas cheia de emoção. As letras não eram apenas críticas sociais ou clichês contra igreja, polícia e governo. Elas tinham um lirismo e alternavam momentos mais reflexivos como “Somos Vivos” e criativos como “Alternar”(na qual Redson reclama que precisa trabalhar, mas eles te obrigam a usar roupa social, gravata, sapato e cabelo “lau-lau”. Que jovem rebelde nunca ficou puto, por ter que ir pro trabalho todo engomadinho?). As críticas às instituições também estão lá nas pacifistas “Guerrear” e “Continência” ou na direta “Não Fome”.

Ao longo de “Pela Paz em Todo Mundo” você caminha pelas ruas esburacadas de São Paulo, pega o trem do subúrbio e presta o serviço militar, tudo ao som de uma bateria rápida, riffs grudentos de guitarra, um baixo ritmado e refrões empolgantes para serem cantados em coro. E o teor inflamável só aumenta nas duas últimas canções; primeiro “Adolescente”, que foge dos temas punks comuns e na sequência “Pela Paz”, talvez a melhor música do Cólera, um grito pacifista, cheio de fúria, que faz valer a frase destacada no encarte “Ser Pacifista é não fechar os olhos perante a violência”.

Pacifismo, ecologia, hinos da juventude e lirismo. Se Redson tivesse nascido em um país de primeiro mundo, talvez ele fosse um Bob Dylan. Fruto do nosso subúrbio operário ele só poderia cantar numa banda chamada Cólera. Ainda bem.

Pela Paz

Veja também

– Conheça “Mais podres do que nunca” grande clássico do Garotos Podres

-Punk 77 made in Brazil: Camisa de Vênus

O Bandido da Luz Vermelha (Rogério Sganzerla): O Terceiro Mundo vai explodir!

publicado originalmente em 10 de Janeiro de 2008

O Terceiro Mundo vai explodir!
Clássico do cinema marginal paulista retrata a história do Bandido da Luz Vermelha

Rogério Sganzerla está morto! Acácio Pereira da Costa, o Bandido da Luz Vermelha que inspirou seu filme também. No entanto, a obra do cineasta continua sendo uma das mais atuais, instigantes e experimentais do cinema tupiniquim. Talvez o principal representante do cinema marginal paulista, ao lado de José Mojica Marins (Zé do caixão), Carlos Reichenbach e Ozualdo Candeias, Sganzerla conseguiu criar seu clássico logo na primeira tentativa. Ainda com 22 anos, o diretor encontrou em 1968 o equilíbrio entre o popular e o experimental fazendo de “O Bandido da Luz Vermelha” um sucesso de público e crítica no Brasil.

Cartaz sensacional do filme “O Bandido da Luz Vermelha”

“O Bandido da Luz Vermelha” é um filme anárquico, filho do cinema novo e de Orson Welles, cheio de referências a histórias em quadrinhos e rádio jornais. Sganzerla, muitas vezes comparado a Godard, começa sua narrativa de forma linear, utilizando dois locutores de rádio jornal sensacionalista para contar a história do Bandido (vivido por Paulo Villaça) que aterrorizou a elite paulista entrando na casa dos grã-finos para assaltar e estuprar as madames. Com o desenrolar dos 92 minutos de filme a obra vai se tornando cada vez mais simbólica, caótica, aproximando- se em parte do cinema novo de Glauber Rocha, fazendo um retrato do caos tropical em que vivemos. Luz, como o bandido é chamado, vai sendo envolvido em uma trama que incluí até um político, “o primeiro candidato a presidente pela Boca do Lixo”, caricatura da vida política nacional marcada em sua realidade por caudilhos e criminosos que se apresentam como “Pais dos Pobres.”

Luz Vermelha é um anti-herói: sem valores éticos, sem grandes desejos, tendo diarréias no meio do filme e mesmo assim superior ao delegado Cabeção, o oposto de todo bom policial de filme hollywoodiano, que chega sempre atrasado à cena do crime e é constantemente ridicularizado pelo bandido. Cabeção e seu ajudante formam uma espécie de Dom Quixote e Sancho Pança da polícia brazuca, não chegam a ser corruptos, são apenas ineficientes, partes de um retrato surrealista da nossa realidade. Em uma cena Cabeção vê um quadro moderno na parede de uma das vítimas, e ataca a arte moderna (“Isso não é arte”), revelando seu ódio pela elite que tem que proteger, sendo ele também um membro do lúmpem proletariado como Luz Vermelha (que apesar de não conhecer-se onde nasceu, no filme foi criado em uma favela paulista).

Luz Vermelha ataca uma de suas vítimas

A obra de Rogério Sganzerla é mais contundente ao retratar o povo que seus antecessores do “Cinema Novo”, a realidade é mais crua, a linguagem é popular, o cenário é o urbano decadente, as estrelas são os bandidos, as prostitutas, os polícias e os políticos corruptos. E a mídia! Tudo é visto pela ótica da mídia sensacionalista, mãe de Gil Gomes e do “Notícias Populares”. A tragédia é vista como espetáculo. O filme, rodado na Boca do Lixo (lar do cinema marginal paulista e famoso por ser reduto de tráfico e prostituição nos anos 60-80), soa como “Terra em Transe” de Glauber Rocha dirigido por Zé do Caixão. E ainda traz frases geniais disparadas por uma metralhadora giratória constante: “O terceiro mundo vai explodir”, prega o Anão (profeta da Boca do Lixo), “Quem tiver sapato não sobra”, “Quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha”. Essas frases continuam atuais em um país onde as classes marginalizadas, sem ideologias que as possam fazer lutar por mudanças estruturais, revoltam-se de qualquer forma, seja através de seqüestros, estupros, ou assassinatos…

As referências a Welles são claras, a fotografia, as cenas iniciais com manchetes de jornais e luminosos, os discos voadores (quem se lembra da célebre peça que Orson Welles pregou nos americanos simulando uma invasão alienígena ao vivo no rádio?), tudo lembra a obra do clássico diretor de Cidadão Kane. Sganzerla era fascinado pelo diretor americano, chegou a realizar um longa e um documentário sobre a vinda frustrada de Welles para realizar o filme It’s All True no Brasil. Costumava dizer que se Orson Welles não havia conseguido realizar um filme aqui, quem conseguiria? Sganzerla conseguiu. Produziu em uma época de crise cinematográfica, tornando seus filmes cada vez mais experimentais e criticando duramente as obras padrões de hollywood. Seu segundo filme, A Mulher de Todos, também foi bem recebido pela crítica, mas a partir daí o diretor caiu num filão mais undeground e lisérgico só recuperando seu status de unanimidade com “O Signo do Caos”, seu último filme premiado no festival de Brasília. Disse Marcelo D2 (que usou trechos de “O bandido…” em seu disco “Em busca da batida perfeita”): “Morre o nome, fica a fama” . Sganzerla morreu, seu cinema ácido continua vivo para nos atormentar.

Fred Di Giacomo 21/01/2004

Veja também:
– Apocalipse Now: Retrato existencialista de um dos maiores nadas da história
-Cidade de Deus: realidade em ritmo de videoclipe
– Tá atrás de resenhas e trailers? Clica aqui e veja mais!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...