Misto-Quente, Charles Bukowski

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A VIDA COMO ELA É: Resenha do livro Misto-Quente

Retrato autobiográfico do nascimento de um gênio marginal

“Éramos uma piada, mas as pessoas tinham medo de rir na nossa frente.”
Charles Bukowski, Ham on Rye.

Ok, o garotinho se chama Henry Chinaski, mas poderia se chamar Fred Di Giacomo, Eduardo Moraes, Charles Bukowski ou qualquer outro nome de garoto(a) que nunca foi o mais bonito(a) da classe, nunca foi o primeiro a ser escolhido no jogo de futebol ou já passou um recreio sozinho. Como todo mundo de carne e osso Henry também é um perdedor e a escola é seu purgatório pessoal. Seu pequeno inferno. Freud deve ter algum estudo sobre os efeitos devastadores da escola na personalidade e ego das pessoas. Humilhações, repressão e castigos são o que você suporta durante pelo menos dez malditos anos da sua vida, e nos Estados Unidos o negócio parece ser pior. Numa terra onde status é tudo, o universo escolar é dividido entre os perdedores (os losers) e os “caras legais”. Não há meio termo; ou você está com eles ou eles estão contra você. Tive uma conversa com meu primo Joe (que nasceu e mora nos EUA) sobre a “high school” e ele realmente tinha pavor, não é à toa que os americanos saem matando seus coleguinhas de classe. Não é à toa, que em sua música “School”, Kurt Cobaintenha se limitado a gritar “Vocês não vão acreditar, é a minha sina. Sem recreio. Você está na minha escola outra vez”.

Perdedor, Chinaski é um perdedor. No entanto, isso não faz dele um coitadinho. Ele sacaneia os outros assim como a vida o sacaneia. O alter-ego de Bukowski (como em quase todos os livros do “velho tarado”, essa é uma história autobiográfica) não teve muita sorte na vida. Sua família tem o alcoolismo no sangue, seu pai o espanca e sua mãe é uma estúpida histérica. O moleque não tem meias palavras: “eu devo ter sido adotado”. Seus pais o proíbem de brincar com os garotos da rua. (“Eles pensavam que nós éramos ricos”) A vizinhança é imunda, um bairro pobre de Los Angeles, para onde os Chinaski se mudaram logo depois que chegaram da Alemanha. Na escola não há muita esperança, Henry tem poucos amigos e é sempre o penúltimo a ser escolhido para o time de beisebol, sua principal preocupação é se segurar para não ir ao banheiro. ( “Eu chegava em casa e não tinha mais vontade de ir ao banheiro, o cocô já tinha endurecido dentro de mim”)

A linguagem é direta, seca. Socos no estômago do leitor são distribuídos a cada página, mas com um maldito humor negro e a tão comentada ironia. Isso diferencia “Misto-Quente” de outros clássicos sobre a juventude americana. Ele é uma versão underground de Tom Sawyer, um primo distante de Huck Finn. Vive num terreno arrasado pela depressão como o de “Ratos e Homens” de Steinbeck. O livro chegou mesmo a ter sua importância comparada pros anos 80 com a de “O Apanhador no Campo de Centeio” pros anos 50. Sem seu humor, Bukowski teria estourado a cabeça antes de publicar qualquer coisa. Ele foi um autor que não se contentou com as “verdades” dos livros, leu como um desesperado, mas também viveu a vida desesperadamente. As salvações para o moleque são essas: A ironia e os livros…

Um dia Henry tem que ir ver o discurso do presidente para fazer uma redação da escola. Ele sabe que se não cortar a grama naquele sábado seu pai vai surra-lo como sempre. O fedelho decide, então, inventar um discurso, com toda a pompa e todos os detalhes. A professora lhe dá dez e pede que leia em voz alta. Ele descobre um talento (“(…) era isso que eles queriam: Mentiras. Mentiras maravilhosas. Era disso que precisavam. As pessoas eram idiotas, seria fácil pra mim.”) Aos poucos aquele moleque vai reunindo em torno de si outros desajustados, freakies, losers como ele. (“Eu era como um lixo que atraía moscas, ao invés de uma flor desejada por borboletas e abelhas”). Ele começa a ganhar algum destaque, mesmo em meio a todos os seus problemas, como define com uma passagem mais ou menos assim: “havia alguma coisa dentro de mim, eu sabia, podia ser todo aquele cocô endurecido…”. Chinaski vira um durão, era isso o que ele mais desejava. Podia não ter as garotas (e ele realmente se dá mal com elas, eternamente virgem e sempre desperdiçando as oportunidades que surgem), mas ganhou algum respeito. Aos poucos vai se embrenhando em uma vida marginal de vadiagem, álcool e brigas que contrapõe-se com seu talento florescente para a literatura. Ele estava sozinho, mas tinha os livros. Era mais um daqueles garotos que passavam horas se divertindo sozinho, brincando com seus amigos invisíveis, criando suas próprias histórias que aos poucos vão ganhando o papel.

Chinaski não tinha um pai? Certo, mas ele tinha Hemingway e Dostoievsky. Com o escritor russo ele aprendeu: “Quem não quer matar seu pai”? O complexo de Édipo rodeia Chinaski por toda a obra. “Ele” é o cara sacana, “Ele” é o responsável por seu sofrimento, “Ele merece” morrer. Esse ódio por seu pai (na realidade um alcoólatra violento) permeia toda a obra do velho “Buk”, e é outro dos sentimentos mais antigos da humanidade, estudado por Freud como uma das raízes dos principais tabus da nossa sociedade. Essa capacidade de transformar o dia a dia em poesia, de pegar as bebedeiras triviais, as angústias adolescentes e transformá-las em arte é a mágica de Bukowski. Sim sua linguagem é chula, ele fala de sexo o tempo todo e não finaliza com chave de ouro, mas isso não é o que importa. Aliás no mundo de “South Park” falar palavrão não assusta mais ninguém. Tire todas “bucetas” e “merda” do texto e você ainda terá um livro genial. O que importa é seu retrato do homem comum.. O resto é excesso.

Misto-quente(Ham on Rye), publicado originalmente em 1982.

Fred Di Giacomo, brincou tanto de criar histórias que acabou passando-as pro papel no livro “Canções para ninar adultos”
26/05/04

-Frases de Charles Bukowski

 

Memórias de um perdedor: Capítulo 1

fred-giacomo-infancia

Infância

“Quando era pequeno, a vida era um circo queria ser palhaço, queria ser artista voar pelo espaço, o tempo demorava para passar.”

1. Quando fiquei velho eu morri.

Esse é o fim , no começo tudo eram pequenos flashs. São Paulo era uma cidade grande e eu tinha um amigo ruivo que brincava comigo no parquinho. Um dia ele me meteu a mão na cara e nós nunca mais conversamos.
Não sei se eu era bundão, porque não tenho muitas lembranças até meus três, quatro anos de idade. Lembro que meu irmão mais novo estava sempre lá, sabe? Acho que nós nunca fomos apresentados um ao outro, assim como nunca me apresentaram a meu primo Fábio, mas eles sempre estavam lá. Ele nasceu um ano depois que eu, então na verdade sempre considerei que ele fosse parte de mim. Nunca soube distinguir direito onde eu terminava e onde começava o Marcelo. Só sei que ele tava brincando comigo e com meus primos quando a gente ia pra casa dos meus avós e que ele estava comigo quando a gente se mudou pra um buraco no interior de São Paulo: Patópolis.

Nenhum dos meus pais tinha realmente algo a ver com Patópolis, meu pai vinha de uma família simples de São Paulo. Minha avó era filha de imigrantes espanhóis pobres e meu avô tinha migrado da Bahia. Ele tinha trabalhado na roça, jogado futebol e sido vaqueiro em Goiás. Quando veio pra São Paulo arrumou um emprego público e passou a estudar direito à noite. Meu vô nunca parecia estar feliz e eu tinha medo dele. Minha vó adorava falar e me dava presentes. Eu adorava minha vó, seus presentes e o cheiro forte do seu perfume…. Quando meu vô realmente começou a ganhar dinheiro, meu pai já estava no colegial. E ai ele resolveu fazer Ciências Sociais! “Não rapazinho, você vai ser um advogado como seu pai”. Meu velho durou um ano no curso de direito com seu cabelo comprido e sua barba hippie, mas logo transferiu pra Ciências Sociais e teve que começar a trabalhar pra pagar a faculdade. Voltou a ser pobre…. O coitado nunca soube realmente como ganhar dinheiro, tudo que ganhou ele gastou em livros. Livros e idéias que ele passou pra gente como herança. Foi na faculdade que conheceu minha mãe. Ela era quase hippie e também gastava seu dinheiro em livros.

Minha mãe era uma garota linda: magra, de olhos verdes, boca carnuda e cabelos negros. Foi dela que eu herdei meus olhos, que no começo eram azuis. É impressionante como a gente muda pra pior com o tempo, né? Todo mundo dizia que eu era um bebê lindo, e quem vê minhas fotos dessa época concorda. Eu até fui uma criança bonitinha, mas a adolescência mudou tudo… Bom, voltemos a minha mãe: seu pai era médico e sua mãe tinha vindo de uma família aristocrática. Meu avô materno perdera uma fortuna jogando baralho. Ele realmente fora um viciado em jogo e por isso teve que sair de Pacú onde nasceu para ir pra Patópolis… Diz a lenda que, numa manhã, depois de passar a noite toda jogando buraco no clube, meu avô trouxe um colar grosso de ouro pra minha vó. Não que ele tivesse ganho uma bolada, aquilo era o equivalente a toda grana que ele perdera no dia. É, meu vô era um cara legal e os caras legais sempre chegam por último.

A família da minha mãe era uma típica família italiana: grande e barulhenta como todas as famílias italianas são. O natal era sempre muito divertido, tinha aquele arroz ruim com passas, mas a gente ganhava presentes e podia brincar com os primos. Eu sempre passava fome no natal porque odiava arroz com passas e aquelas coisas que eles colocam na comida de fim de ano Eu tinha um primo da minha idade que se chamava Fábio, e a gente sempre brincava junto. Eu, ele e o Marcelo. Um dia em Pacú, o Fábio também chegou me dando umas porradas sem eu saber porque. Eu não reagi porque não entendi porra nenhuma, não entendia porque na vida de repente te dão uma porrada na cara. O pai da minha mãe também chamava Fábio e era filho de italianos, ele vivia gritando palavrões e fazia macarrão nos domingos. Nós íamos comer na casa dele e eu achava meu vô muito engraçado. Ficava ouvindo suas histórias da Revolução Constitucionalista de 1932 e do dia em que ele viu Getúlio Vargas. Ele achava Getúlio um grande cara. Eu também achava Getúlio um grande cara e meu vô era um herói pra mim. Minha vó me lembrava morte. Ela queria me convencer que dEUS existia e vivia contando histórias de doenças e de pessoas tristes. Eu sempre me sentia doente quando escutava as conversas. Teve um dia, no quintal da casa dos meus avós, que ela perguntou porque eu e meu irmão não acreditávamos em dEUS, eu falei que ia decidir depois , mas o Marcelo disse:

-Eu odeio dEUS, porque ele é bicha!.

Se dEUS era veado ou não, nunca descobri, mas acho que minha avó nunca mais encheu o saco com essa história.

Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais“ . Ele foi pioneira na criação de newsgames (jogos jornalísticos no Brasil) e toca na Banda de Bolso.

O pico de Allen Ginsberg com Sid Vicious no Inferno

(Ficou assim)

O pico de Allen Ginsberg com Sid Vicious no Inferno
Existe coisa mais junkie,
Que poesia beat
E música punk?

(Era assim)
Existe coisa mais junky,
Que música beat
E poesia punk?

sidtoy

 

Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais

“1001 discos para ouvir antes de morrer” – o livro

 

1001_discos_para_ouvir_antes_de_morrer
Uhu! Uma lista gigantesca com discos fundamentais para ouvir antes de bater as botas! Escrita por “90 críticos internacionais de renome”(definição bem precisa essa), com prefácio do co-fundador da revista Rolling Stone Michael Lindon e edição de Robert Dimery. Entre os colaboradores só tem gringo mas umas 18 bolachas brasileiras entraram na dança. Dos óbvios Sepultura, Tom Jobim e Sepultura às inusitadas presenças de Suba e Carlinhos Brown(talvez a presença de Carlinhos Brown seja mais inusitada pra gente que pros gringos, vai saber!)

Como dá pra ver não são só álbuns de rock: tem jazz, rap, pop, música cubana… Já comecei a baixar a lista pelo Frank Sinatra. Até 2010 devo ter terminado a missão de ler as milhares de páginas e escutar todas as faixas recomendadas! Pra quem mora em sampa o livro está em promoção na FNAC Pinheiros: R$47,90

-Para baixar os discos no blog “No Brasil”

“Cartas na rua”, Charles Bukowski



São mais de uma da manhã. A música acabou e só ouço o som da respiração da Bárbara na cama. Terminei mais um livro do Bukowski ontem e fiquei me sentindo órfão… Acho que vou encarar um de crônicas do Frank Jorge(ex-Cascavelletes, ex-Graforréia Xilarmônica), mas tenho medo de ser furada. Por equanto, deixo ai a micro-resenha do Cartas na rua do velho Buk.

Micro-resenha: Cartas na rua, Charles Bukowski **** */*
Então chegamos à primeira novela de Bukowski, escrita quando o cara já estava na casa dos 50. É diferente: saem os tempos de vagabundagem hard e entram os 11 anos que o velho tarado passou nos correios. Rolam as transas com mulheres bêbadas, mas são mais raras, o foco são 3 mulheres: Joyce uma ricaça caipira do Sul com quem Buk casa e a família toda acha que ele quer dar o golpe do Baú, Betty seu grande amor vagabundo que morre e deixa o filho (uma das únicas 3 pessoas no seu enterro) e Fay com quem o autor tem uma filha. É um Bukowski mais calmo (lembra Hollywood), com menos palavrões, sexo e porra-louquice que os outros. Muitas críticas à escravidão do trabalho, à rotina do Correio (as intermináveis rotas que Chinaski tem que decorar). Começa com Buk como estagiário do Correio, ele desiste (perseguido pelo terrível Jostone), vai se virando com sub-empregos (parte que mais lembra os contos do autor) e é convencido por Joyce a arrumar um emprego (quando volta aos Correios) para provar aos outros que não é só um sangue-suga. Me lembrou Hemingway (influência assumida de Bukowski) em alguns momentos. Na cronologia da vida de Chinaski (seu eterno alter-ego) se encaixa entre “Factótum”(cujos fatos são precedidos por “Misto-Quente”) e “Hollywood” (seguido por “O Capitão saiu e os marinheiros tomaram conta do navio”).

-Leia a resenha do livro “Misto-Quente” de Charles Bukowski.

-Divirta-se com algumas frases de Bukowski

 

Micro-resenha1: Hamlet, Príncipe da Dinamarca, William Shakespeare *****


Li “Romeu e Julieta” quando tinha uns 12 ou 13 anos e não me lembro muito das impressões. Fiquei um bom tempo longe do Shakespeare e hoje, dez anos depois, fui ler Macbeth pra variar um pouco minhas leituras que estavam quase 100% “beat + gonzo + literatura marginal”. Achei bom, mas não genial, fiquei com uma pontinha de “mas Shakespeare é só isso” na cabeça… E aí, fui ler “Hamlet”. E não precisei de mais nenhum argumento a favor do careca inglês. Estão lá todas as frases que viraram clichê: “Ser ou não ser”, “Há algo de podre no reino da Dinamarca”, “Há mais coisas entre o céu e a terra do que pode supor sua vã filosofia”. Está lá todo uma estrutura da busca de vingança que se torna tragédia que foi repetida centenas de vezes depois. Hamlet é o príncipe inconformado que não aceita que sua mãe tenha se casado com irmão de seu pai logo depois do patriarca ter morrido, supostamente picado por uma cobra. Quem irá alertar Hamlet sobre a falsidade da história é o próprio espectro de seu pai em busca de justiça. Na busca por vingança, Hamlet acabará destruindo a família de sua amada Ofélia, provocando uma busca pela “vingança da vingança”, 500 anos antes do filme coreano Old Boy e seu intrincado roteiro de vendeta.

-Assista um trecho do filme Hamlet!

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