Monty Python em busca do Cálice Sagrado, Terry Gilliam e Terry Jones *****

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Fui criado com meus pais falando como adoravam os filmes “A Vida de Braian” e “Em Busca do Cálice Sagrado” do Monty Python. Na faculdade alguns amigos alugaram o primeiro filme do Python com os melhores momentos da série de TV. Agora, na Editora Abril, a adoração ao grupo é unânime do mais bobo ao mais cool, todos adoram os humoristas britânicos que alcançaram sucesso mundial nos anos 70. Então, imagine minha decepção ao assistir pela primeira vez um filme da trupe(Monty Python e o Sentido da Vida de 1983) e achá-lo apenas “ok”. Eu devia ser muito burro mesmo. Justo eu, que sempre gostara de ver e fazer humor… Bom, meu amigo Marquito me emprestou há um mês ou mais o segundo filme dos caras “Monty Python em busca do Cálice Sagrado”, de 1975, o primeiro feito exclusivamente para o cinema. Depois de muita enrolação coloquei o dvd pra rodar e esperei conseguir descobrir a genialidade escondida ali. Não precisei fazer esforço. “Em Busca do Cálice Sagrado” é recheado de piadas boas(desde os créditos iniciais), sacadas na forma de narrar a história, nonsense, pastelão, pequenas críticas as instituições e um ritmo fluente que no final te faz ficar com aquela sensação (clichê) de “já acabou”?

Escrito pelos 6 Python (Terry Gilliam, Terry Jones, John Cleese, Eric Idle, Graham Chapman e Michael Palin) e dirigido pelos dois Terry(Sendo que o Gilliam começou como cartunista da revista Mad e hoje é diretor respeitado de filmes como “Brazil” e os “12 Macacos”), o filme conta a história do valente Rei Arthur(que está sempre à pé simulando cavalgar um cavalo, com seu escudeiro atrás batendo dois cocos para fazer o barulho do animal) que reúne os cavaleiros da Távola Redonda( Sir Bevedere, Sir Lancelot, Sir Robin e Sir Galahad) e sai em busca do Santo Graal, missão que recebeu do próprio Deus. A partir daí segue-se uma saraivada de piadas que detona a Idade Média, os contos de cavalaria e lembra bastante o filme italiano “O Incrível Exército de Brancaleone”, de 1965(que por sua vez lembra bastante o livro Dom Quixote). Assim como no filme de Brancaleone, algumas animações com referências da arte da Idade Média, são usadas para dividir os “capítulos” da saga do Rei Arthur. No entanto, todas essas ilustrações são acompanhadas de piadas que as esculacham. O filme é cheio de metalinguagem, com os personagens constantemente conversando com o espectador, fazendo referências à cenas específicas(“Olhem lá é o velho da cena 24”) e à produção do filme(“De repente o cartunista tem um infarte”). Sem falar dos inimigos que os heróis tem pela frente como os clássicos “Cavaleiros que dizem Ni” e o “Coelho Assassino”.

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Uma mistura de linguagens e estilos humorísticos que influenciou grande parte dos filmes dos anos 80, que usaram a fórmula de avalanche de piadas e massificaram em coisas mais comerciais como “Corra que a polícia vem ai”.

Abaixo você assiste o trailer do filme:

-Mais trailers legais

O Bandido da Luz Vermelha (Rogério Sganzerla): O Terceiro Mundo vai explodir!

publicado originalmente em 10 de Janeiro de 2008

O Terceiro Mundo vai explodir!
Clássico do cinema marginal paulista retrata a história do Bandido da Luz Vermelha

Rogério Sganzerla está morto! Acácio Pereira da Costa, o Bandido da Luz Vermelha que inspirou seu filme também. No entanto, a obra do cineasta continua sendo uma das mais atuais, instigantes e experimentais do cinema tupiniquim. Talvez o principal representante do cinema marginal paulista, ao lado de José Mojica Marins (Zé do caixão), Carlos Reichenbach e Ozualdo Candeias, Sganzerla conseguiu criar seu clássico logo na primeira tentativa. Ainda com 22 anos, o diretor encontrou em 1968 o equilíbrio entre o popular e o experimental fazendo de “O Bandido da Luz Vermelha” um sucesso de público e crítica no Brasil.

Cartaz sensacional do filme “O Bandido da Luz Vermelha”

“O Bandido da Luz Vermelha” é um filme anárquico, filho do cinema novo e de Orson Welles, cheio de referências a histórias em quadrinhos e rádio jornais. Sganzerla, muitas vezes comparado a Godard, começa sua narrativa de forma linear, utilizando dois locutores de rádio jornal sensacionalista para contar a história do Bandido (vivido por Paulo Villaça) que aterrorizou a elite paulista entrando na casa dos grã-finos para assaltar e estuprar as madames. Com o desenrolar dos 92 minutos de filme a obra vai se tornando cada vez mais simbólica, caótica, aproximando- se em parte do cinema novo de Glauber Rocha, fazendo um retrato do caos tropical em que vivemos. Luz, como o bandido é chamado, vai sendo envolvido em uma trama que incluí até um político, “o primeiro candidato a presidente pela Boca do Lixo”, caricatura da vida política nacional marcada em sua realidade por caudilhos e criminosos que se apresentam como “Pais dos Pobres.”

Luz Vermelha é um anti-herói: sem valores éticos, sem grandes desejos, tendo diarréias no meio do filme e mesmo assim superior ao delegado Cabeção, o oposto de todo bom policial de filme hollywoodiano, que chega sempre atrasado à cena do crime e é constantemente ridicularizado pelo bandido. Cabeção e seu ajudante formam uma espécie de Dom Quixote e Sancho Pança da polícia brazuca, não chegam a ser corruptos, são apenas ineficientes, partes de um retrato surrealista da nossa realidade. Em uma cena Cabeção vê um quadro moderno na parede de uma das vítimas, e ataca a arte moderna (“Isso não é arte”), revelando seu ódio pela elite que tem que proteger, sendo ele também um membro do lúmpem proletariado como Luz Vermelha (que apesar de não conhecer-se onde nasceu, no filme foi criado em uma favela paulista).

Luz Vermelha ataca uma de suas vítimas

A obra de Rogério Sganzerla é mais contundente ao retratar o povo que seus antecessores do “Cinema Novo”, a realidade é mais crua, a linguagem é popular, o cenário é o urbano decadente, as estrelas são os bandidos, as prostitutas, os polícias e os políticos corruptos. E a mídia! Tudo é visto pela ótica da mídia sensacionalista, mãe de Gil Gomes e do “Notícias Populares”. A tragédia é vista como espetáculo. O filme, rodado na Boca do Lixo (lar do cinema marginal paulista e famoso por ser reduto de tráfico e prostituição nos anos 60-80), soa como “Terra em Transe” de Glauber Rocha dirigido por Zé do Caixão. E ainda traz frases geniais disparadas por uma metralhadora giratória constante: “O terceiro mundo vai explodir”, prega o Anão (profeta da Boca do Lixo), “Quem tiver sapato não sobra”, “Quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha”. Essas frases continuam atuais em um país onde as classes marginalizadas, sem ideologias que as possam fazer lutar por mudanças estruturais, revoltam-se de qualquer forma, seja através de seqüestros, estupros, ou assassinatos…

As referências a Welles são claras, a fotografia, as cenas iniciais com manchetes de jornais e luminosos, os discos voadores (quem se lembra da célebre peça que Orson Welles pregou nos americanos simulando uma invasão alienígena ao vivo no rádio?), tudo lembra a obra do clássico diretor de Cidadão Kane. Sganzerla era fascinado pelo diretor americano, chegou a realizar um longa e um documentário sobre a vinda frustrada de Welles para realizar o filme It’s All True no Brasil. Costumava dizer que se Orson Welles não havia conseguido realizar um filme aqui, quem conseguiria? Sganzerla conseguiu. Produziu em uma época de crise cinematográfica, tornando seus filmes cada vez mais experimentais e criticando duramente as obras padrões de hollywood. Seu segundo filme, A Mulher de Todos, também foi bem recebido pela crítica, mas a partir daí o diretor caiu num filão mais undeground e lisérgico só recuperando seu status de unanimidade com “O Signo do Caos”, seu último filme premiado no festival de Brasília. Disse Marcelo D2 (que usou trechos de “O bandido…” em seu disco “Em busca da batida perfeita”): “Morre o nome, fica a fama” . Sganzerla morreu, seu cinema ácido continua vivo para nos atormentar.

Fred Di Giacomo 21/01/2004

Veja também:
– Apocalipse Now: Retrato existencialista de um dos maiores nadas da história
-Cidade de Deus: realidade em ritmo de videoclipe
– Tá atrás de resenhas e trailers? Clica aqui e veja mais!

Guido deve morrer: meu filme

Eu tenho um filme guardado na gaveta de casa. Pra quando eu for velhinho escreverem: “aos 20 anos fez um filme com seu irmão, Gabriel Rocha. Uma mistura de Tarantino com Hermes e Renato. ”
É trash mas me enche de orgulho. Cultura Racional, mistério policial, rock ‘n roll, Gabinete do Dr Caligari, tudo filmado com uma câmera high 8 e 50 reais no bolso.

Gioavana Franzolin em cena do filme "Guido deve morrer"

Gioavana Franzolin em cena do filme “Guido deve morrer”

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