Mulheres II: Quando acordam

Este conto é um trecho do livro “Memórias de um Perdedor”, em breve nos melhores botecos. “Memórias de um perdedor” conta a história de um caipira nerd de sua infância até a faculdade.

-Compre meu livro “Canções para ninar adultos”

Bom dia!

 

Quando acorda, olhinhos fechados, Nathália tem cara de azul, gosto de esperança, cheiro de paz. Me lembra incenso queimando. Viajo longe… Fico olhando seu rosto, tentando ler uma história, mas sua pele macia não tem rugas e nem verbos. Só farejo vestígios de uma boa notícia, meu instinto jornalístico é mais forte que minhas desilusões com a profissão. Ela bate o despertador e volta pro sono. Murmura, cansada, quase pedindo:

_ São seis ainda, vou dormir mais meia horinha…

Tudo bem, meu anjo, durma quanto quiser, enquanto isso, peço pra dEUS(se eLE existir), que estique essa meia hora em um dia, pra que essa menina possa descansar de todo uma vida, pelo menos dessa vez.

Seus cabelos são lisos, negros, olhos puxadinhos, boca carnuda, parece índia. Só um ano mais velha, mas toda uma vida na minha frente. ELA: trabalha desde os dezesseis. EU: me desfaço em lágrimas e borro as calças por um estágio de duzentos reais ao mês. Se mantém na cidade com nove horas diárias de trampo numa empresa de suco em pó. Embalam de tudo por lá: suco, sonhos, lágrimas e suor dos operários, desidratam, tiram toda água e humanidade e depois deixam os funcionários voltarem sentindo um buraco em seus corpos. Nem passa em casa, vai pra aula, vender seus sonhos em troca de “comunicação social com habilitação em jornalismo”. Fala comigo e o tempo para. Meiga, quase uma menina, com histórias que deixariam todas minhas noivas neuróticas a ponto do suicídio. Gosto de ouvi-la. Quando chega em casa vira suco.

_Eu falo demais, né?

Não, linda, adoro te ouvir, você me fez voltar a escrever depois da síndrome de pânico, da hipocondria e do coração partido. Parece que eu não escolho mulheres ou pretendentes, mas boas histórias. E você é cheia de boas histórias, me conte uma, vai:

_ Tinha uma indiazinha que morava na quebrada de São Paulo, Freguesia do Ó .
_Como chamava essa indiazinha?
_Hum… Chamava Iracema!
_A virgem dos lábios de mel?
_Não, nada mais de virgem, os pais não gostavam da ideia, mas ela transou com um namorado legal, até, aos dezessete anos…
_E o que fazia essa indiazinha? Caçava, pescava? Fazia artesanato?
_ Não, artesanato é coisa de hippie. Trabalhava e estudava!
_ Hum… Que mais?
_ Bom, um dia, cacique bateu na sua esposa e a indiazinha partiu pra cima dele
_Jura?
_ Sim, dizem que era de uma tribo de amazonas guerreiras.
_Certo, certo,que mais?
_ Bom, deixa eu ver, o irmão da indiazinha, resolveu virar mulher…
_ E aí?
_Aí, o cacique o expulsou da aldeia, mas sua mulher não deixou. O cacique saiu de casa, e sua mulher cortou os pulsos.
_ (…*) É um mundo horrível, não é?(…) Vem, dá um abraço!

O mundo é horrível e ela me abraça, enroscada no meu corpo, mas quem precisa daquilo sou eu. Naquele emaranhado o (quase) homem de um metro e oitenta é, na verdade, embalado pela menina-mulher de um e sessenta e quatro. Ela aninha a cabeça no meu peito e sua respiração na minha pele faz um bem danado.

_É, a tribo só se reuniu quando Iracema foi estudar fora. Aí, um dia, um homem mau a parou na rua. Ele tinha nos olhos toda a cólera dos novos tempos. Toda raiva sem sentido que as pessoas frustradas carregam. Assaltou-a e tentou violentá-la. Falou e fez coisas horríveis. Ela nunca pôde falar pro cacique ou pra mãe.
_ (…*)(…*)Os homens são uns animais, né? Deviam ser todos castrados… (…*) Ela não ficou com trauma de sexo?
_ De sexo não, mas ficou com medo de sair de casa por um ano…
_ E aí?
_Aí, ela encontrou um louco que pensava que era príncipe, um bufão. E ele animou sua vida, enquanto as cicatrizes fechavam.

Sou um palhaço triste, já escrevi e repito, agora, você me tirou dessa. Obrigado. Olho pra sua cara, seis e meia da manhã. O primeiro ônibus passa sete e vinte e leva até o centro. O segundo você pega quinze pras oito. Volta direto pra aula às sete da noite. Amanhã, vou pensar que sou uma franga com medo da vida e você é forte como ferro. Mas agora, só olho pra você, abraço seu corpo, e peço que dEUS transforme sua meia hora de sono num dia inteiro.

*(…) = Silêncio da vida real.

***

Quando acorda, Ana tem cara de vermelho. Faz barulho, um barulho estranho, meio perdida. Quando volta ao nosso planeta, é toda um sorriso bonito, gosto de curiosidade, cheiro de auto-estima, parece criança feliz, descobrindo o mundo com uns olhões arregalados. Nunca transamos, mas adoro acordar com ela ao meu lado. Sentir seu corpo inteiro junto ao meu, todo branco, cheio de pontas vermelhas. Ela beija minha boca com gosto, diz que é boa porque babada.

Ana gosta de meninas e gosta um pouco de mim. Já gostou mais, mas ainda somos amigos. Nunca cheguei nem perto da sua virgindade. Ela só dorme com mulheres, diz que casa virgem. Pelo menos, de homens. Beijo cada dedo do seu pé e ela fica louca, se contorce. Depois pratica com a namorada, diz que a iniciei nos “prazeres do pé”.

Completa em sua ingenuidade.

Às vezes, ficamos horas na cama, nus, beijando corpos, átomos, células e futuros cadáveres. Todo mundo é um necrófilo por antecipação.

Um dia beijou o professor de literatura, agora têm um caso. “E a gente, Ana, o que nós temos??”
Não sei se te amo, se vou te amar ou se te amei. Sei que gosto muito de ficar com você. Um abraço seu cura minha carência, meu medo da vida, meu medo da morte. Nos teus braços, sou imortal por um instante. No teu abraço, uma eternidade supérflua.

Ela ainda fica comigo, porque sou o único que não me apaixono por seus cabelos cor de fogo. Todos, homens e mulheres estão aos seus pés. Eu também estaria se não fosse cego e louco. Um perdido na vida, não faço por mal. Ela sabe disso e se diverte. Deixa que eu beije seu piercing no mamilo, puxo com os dentes, coloco a mão no meio da suas pernas. O telefone toca. Uma “EX”. Primeiro minha, e depois a dela.

A minha quando acorda é verde, tem cheiro de braveza, mas gosto de desafio. Sonhei que um dia as duas se beijavam. Não importa, a Ana sai voando pela sala e volta no dia seguinte, até que eu enjoe das preliminares e ela enjoe de barba. Então cada um de nós vai procurar dormir com uma mulher diferente. E a história acaba assim.

***

Quando acordo sozinho a vida parece cinza, tem gosto de vazio e cheiro de solidão. Abraço forte o travesseiro e fico acordando com falta de ar. Sozinho, de cueca, o mesmo pesadelo de sempre, sinto como se fosse morrer e me cago de medo. Sou mais um perdido numa noite suja. Só. As mulheres com seus sorrisos preenchem meu eu. Sou viciado em seus hormônios e, sem seus encantos, só brEU.
Só.
EU

“De perto nem os anjos têm asas.”

Boa noite, querido leitor

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-Sexo virtual, pop e desencontros

-Mulheres: Anjas Tortas

“The Man With Beautiful Eyes” – Charles Bukowski

Originalmente publicado no blog Clube de Ideias, um espaço para novos artistas cuspirem suas pretensões.

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Um belo poema de Charles Bukowski transformado em animação por Jonathan Hodgson

Dica do Gabriel Gianordoli.

Não sabe quem é o Bukowski? Descubra aqui!

Esperando pelo meu homem

_Nossa! Já são dez horas e o Jorge não passou aqui ainda. Hoje eu to que nem aquela música do Velvet Undeground… I´Waiting for my Man.
_Carol, essa música não é sobre amor. È sobre droga. O Lou Reed fez pro traficante dele.
_Ah…

_Bom, mas sei lá, o Lou Reed era meio veado, né? Às vezes ele namorava o traficante…
_É, vai saber. Coloca a roupa que seu homem deve estar chegando

 

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Cinema Marginal (Era pra ser uma história de amor)

Acordou com um corpo estranho ao seu lado, ao menos o tal corpo respirava. O “seu” enlaçado pelas mãos daquele homem. “Onde estou”? Às vezes, esquecia quem era, não tinha uma identidade completa, um milhão de fragmentos, caleidoscópio de mulher, átomos, células, sonhos… E ele ali. “Ta, é o Alex, transamos de novo, acho que ele vai se apaixonar”…

Tinha viagem marcada, levantou rápido, olhou o celular, atrasada, como sempre. Banheiro, banho, troca de células mortas, troca de pele, como uma serpente se enroscando na toalha, todas as curvas molhadas secando com o contato do pano. Seios e nádegas fartas, num corpo delicado e pequeno. Era Luisa, agora lembrava, 24 anos, formada há dois em comunicação social habilitação em salvação de almas, trabalhava numa ONG de educação popular, “Paulo Freire vai pro céu”. O corpo ao seu lado já fora seu namorado, melhor amigo, irmão, pai, amante, bufão, agora trabalhava 12 horas por dia numa revista de comportamento e tentava fazer cinema à noite. Agora, era um corpo amolecido, cansado, frustrado, transformado em proletário não pela catequização comunista, mas pela realidade da vida, que colocava ferramentas, porcas e argamassa nas mãos dos poetas e os mandava construir sonhos concretos. Sonhos que o dinheiro pudesse comprar ou que pudessem caber nas páginas dos jornais e revistas.Estava escrevendo seu grande roteiro que não terminava nunca. Era a história dos dois, numa visão hermafrodita, fluxo psicológico bissexual e outras conversas intelectualóides, sem fim, como aquelas noites, que se repetiam eternas, os dois depois de umas cervejas, conversas sem sentido, acabando juntos, um dentro do outro, ele falando sem parar, os olhos dela fechando… A moça dormia, sonhava e esquecia tudo. Voltava a ser uma menina e o corpo era só dela. E o amor era só uma figurinha num álbum de dois reais. Acordava sem nem lembrar, conversavam sem pressa, com a intimidade dos casais que comemoram as bodas de ouro e, então, ele partia pra mais 12 horas de jornalismo, sem direito a ventre livre ou lei dos sexagenários. Sem saber quando voltariam a se ver. E quando os dois já quase esqueciam quem eram, se encontravam numa noite pra mais cervejas e conversas sem sentido. Ad infintum, num eterno retorno…

Comeu pão integral com requeijão e café preto. Alex tomou só café e falou do seu roteiro. Era inteligente, o rapaz, já estava com cabelos brancos e ainda não tinha ganho dinheiro suficiente pra comprar sua câmera digital. Estava todo empolgado porque tinha entrevistado o cineasta e lenda Zé do Caixão.

O dia que entrevistei Zé do Caixão para o programa "5 contra 1" da Mundo Estranho

O dia que entrevistei Zé do Caixão para o programa “5 contra 1” da Mundo Estranho

_ Eu vi ele de pertinho, nega, ta velhinho e com bafo de fumo e cachaça, é um gênio, um gênio, quando eu fizer meu filme ele vai ter papel garantido!

Falava rápido e enrolado. Luisa torcia pra que um dia o tal filme saísse, ela também estava dirigindo seu documentário. Era sobre as crianças de rua, a ONG tinha conseguido um incentivo do governo pra rodar a película e cadastrar as crianças em instituições de caridade. Saiu, o moço, sem saber se um dia voltaria a vê-la ou não. Ficou, a moça, sem saber se voltaria a vê-lo ou não.

Limpou a lagriminha do rosto, deu adeus aos potes de aveia, fotos e pinturas na parede, entrou no carro, ligou o som e deu ignição. VRRUUMMM! Pessoas, cachorros, pedras, lojas cheias de logotipos, luminosos, cores, VRRRUMMM! Vento no cabelo num dia qualquer do começo do século. “Paulo Freire vai pro céu”, crianças negras, mulatas, brancas encardidas, narizes sujos, cabelos desgrenhados. “Tia! Tia! Vai ter comida?”

Câmera filmando: FILMA, FILMA, FILMA, FILMA, POBRE, POBRE, POBRE, POBRE.

(Rápida interferência, a história do CINEMA MARGINAL, roteiro de Alex):

Cena 2.

Panorâmica de bairro de periferia.

Cineasta _ Esse bairro chama-se Novo Brasil, de novo tem apenas os eletrodomésticos comprados em milhões de prestações, é mais uma foto do subdesenvolvimento. Não há promessas, índices ou dados de campanha que nos convençam de que o país está melhorando quando se vê a desgraça na qual se encontra o Novo Brasil. Novo Brasil é um aborto da humanidade, um sonho que podia ser mais não foi. Fodido. Uma boca de drogas há um quarteirão, crianças fumam crack à noite. Bebês choram – a trilha sonora do gueto – casais brigam, choro, carros velhos, choro, carroças, choro, cocô de cachorro, choro. As pessoas parecem pedaços de cocô ambulante. E são. E no sétimo dia, Deus descansou. E, descansado, cagou os pobres.

Cenas de bagunça

Cena 3.

Magrão(olhando pra câmera) _ Seu moço, seu moço o que o senhor ta fazendo ai?

Cineasta _ Isso se chama cinema!

Magrão _Cinema é de comer seu moço?

Cineasta _Não, mas mata a fome que nem televisão.

Magrão _ A sim, to compreendendo… Vai passar na televisão? Na Grobo? Posso mandar um alô pra rapaziada?

Cineasta _ Não vai passar na Globo, não. Isso aqui não é comercial.

Magrão _ A não vai não, é? Mas porque, ceis num gosta da Grobo, não, seu moço?

Cineasta _ Isso aqui é cinema marginal. Não passa na televisão.


não a globo

Magrão _ Se não passa na tv, ninguém assiste, né mesmo? Lá no meu barraco, pelo menos, né? Cê sabe, eu moro num puxadinho, atrás dos meus pais. Porque ta duro de arrumar um trampo, então eu fico lá, né? Pensando na vida, assim, como se diz? Refletindo né? Refletindo,mesmo.E acho que tudo que nóis aprende hoje é pela televisão. Esses dias mesmo eu tava vendo aquela mini-série bonita na televisão,aquela que mostra como qui os português descobriram o Brasil, um negócio complicado, né seu moço? Sangrento, mesmo.

Cineasta _ Cinema marginal só mostra realidade, é o cinema do povo. Não dá pra passar num canal vendido como a Globo.

Magrão _ Mais que qui adianta fazer cinema do povo, se ninguém vê? Assim, só to refletindo comigo mesmo, né? Porque eu não sou muito do conhecimento, né? Não tive uns estudo assim, mas di vez em quando eu gosto di pensa, de vez em quando. E acontece que não to entendendo assim: a utilidade desse cinema marginal.

(Passa casal na rua.)

Brando _ Cuidado meu bem, tem um bosta na rua.

Tarsila _(desviando de Magrão que vira pra câmera e olha para os dois bravo) Ai que nojo, quase que pisei!.

Cineasta _ O amigo, o amigo!

Magrão_ Eu?

Cineasta_ É você, você não sente falta de realidade na televisão? De povo na televisão, gente que nem você?

Magrão_ Ah, gente que nem eu? Sai fora! Quero ver gente feia? Quem gosta dessas coisa é intelectual, cumunista. Eu gosto de ver aquelas casona grande, Big Brother, mulher gostosa. Você gosta de vê trubufu? Trubufu a gente encara, né? Mais fica pensando nas moça da novela, assim de olhinho fechadinho.(fecha o olho e simula sexo).

Cineasta_ Meu amigo você está alienado, você está fora da realidade, a gente precisa colocar o povo na tela. A gente precisa ter um cinema brasileiro popular, marginal!.

Magrão_ Meu amigo, eu não sou marginal não,ta entendendo? Eu to me alinhando. Eu to me alinhando, pô!

Cineasta_ Então de um grito, vai! Mostra sua casa, onde você mora. Mostra pra gente o povo, pobre, feio, doente, banguela. Mostra pra gente seu José!

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Magrão _(tomando a câmera da mão do outro)Ih, vacilão, que seu José o caralho, me dá essa câmera ai. Da essa câmera que agora eu vou fazer um filme. Vou mostrar o POVO pra você(fala última frase com sorriso maldoso na boca.)

***

Luisa tem sérias crises de consciência por ser branca num país negro e rica num país pobre. As pessoas não escolhem como nascem e, provavelmente, os pobres escolheriam nascer ricos.

***

Segunda série do ginásio, ALEX é branco, homem, portador de cultura e preceitos éticos. Seus colegas na escola pública Augusto Pereira de Moraes, não. Renan(branco) para Eduardo(negro)

_Aposto que seu maior sonho é virar branco, né? Quem nem o Michael Jackson, todo negro deve querer ser branco…

ALEX fica inconformado é claro.

***

Se os pequenos meninos de rua querem ser brancos ou não, poucos sabem, eles querem comer e são levados pelo representante da prefeitura para isso. Filinto leva todas as crianças numa KOMBI branca antiga até a escola pública onde elas terão direito a um prato de comida e um saquinho de leite de soja sabor morango. È o salário recebido em troca do uso de suas imagens no filme de Luísa.

Luisa  alonga o corpo, está com dor nas costas. Precisa voltar a fazer capoeira, ficou parada nos últimos seis meses por causa da fisioterapia. A equipe de produção se despede, ela fica fazendo algumas anotações, ouve um barulho… Será um rato? Embaixo da mesa. È quase isso, uma garotinha mulata, de uns sete anos escondida…

_O que você está fazendo ai, menina? Não quer comer? Não ta com fome?

_Tô sim…

_E porque você não foi na kombi com os meninos?

_…

_Vou ligar pro Filinto!

_Não! Não, não liga pra ele não! Ele levou meu irmão ontem e eles não voltaram mais! Eu acho que ele ta fazendo alguma coisa ruim com as crianças…

_Como assim?! O Filinto? Mas ele tá na prefeitura há anos, ganhou o prêmio Betinho de Ação Social por ajudar o próximo!

_Tia, eu acho que ele tá fazendo coisa… Fazendo coisa com as crianças!

_Impossível! Vamos até lá que eu vou te mostrar que ele é um doce!

-Não, tia! Vai toma no cu! Vai cagá! Fia da puta! Eu num vou não!

Saiu correndo desesperada, chorando. Luisa pensa, a coisa pode ser séria… Seu faro jornalístico dispara. “I see dead people”. Pega a câmera, o carro, as boas intenções, e a esperança num mundo melhor e VRUMMM! Segue pra escola estadual “Francisco de Assis França”, enquanto ouve um disco do Tom Zé, e pensa em Alex. “Será que eu to fazendo certo em terminar? E se ele for o cara da minha vida?” Casais, pedras, cachorros, gatos, lojas, e mendigos. Toda rua é igual numa grande cidade do século XXI.

Luzes apagadas na escola estadual. Não há mais aula, é uma hora da tarde. Luisa sente cheiro de morte no ar. Arrepio correndo o corpo, sensação ruim no peito. Medo. Pula o muro, alongando o corpo inteiro como uma gata. Cai no chão, pés empoeirados dentro da sandália, olha pros lados. Barulho vindo da cozinha, fogão industrial, merenda para milhares de alunos: macarrão e arroz com coloral – tudo que a nutricionista elaborou era caro de mais pra ser comprado.

_ Vai, filhinho, chupa, chupa.

Abre a porta da cozinha, tudo vazio, só um pouco de carne cozinhando. “Vai, deixa eu colocar, só um pouquinho”. Sussurros, vindos de baixo. Corre os olhos pela cozinha, abre o armário de baixo, panelas e… tchan tchan tchan tchan um fundo falso. Desce até o final. “Isso, assim, tá vendo como é gostoso? Agora você vai sentir um geladinho…” Um adulto ri, uma criança chora, um adulto ri, uma criança chora. Há sempre um nenê chorando numa vizinhança pobre. Há sempre um grito de dor, e hoje um grito de morte. Corredor escuro, cheiro estranho, acende o isqueiro, MEU DEUS!

(Racha peito essa dor

desilusão, desengano.

A morte, El Salvador

Seres humanos são seres insanos,

Com uma arma ou uma flor.

Aqui brincamos um ano,

Agora só um grito, uma cor.

Racha peito, explode a dor

Morte aqui, El Salvador.

O sofrimento humano
É o único sentimento universal.

(O resto é sexo).

Seres humanos são seres insanos
Racha peito, explode a dor
Com uma arma ou uma flor
Racha peito, explode a dor.
O sangue tem sempre a mesma cor.
Racha peito, esta dor
Essa desilusão, desengano.
A morte aqui ou El Salvador.
Seres humanos são sempre insanos

O Sofrimento humano
É a única verdade universal.
(O resto se releva.)

MEU dEUS! Crianças mortas! Todas as crianças de rua, todo futuro abortado do Brasil, armazenados em freezers gigantes, congeladas, suas expressões de dor eternizadas! São sonhos. Eram pra ser, mas não foram. Um adulto ri, uma criança chora, ainda há tempo de impedir o bastardo, deitado numa sala, pequena, observado por mais dois garotinhos em choque, seu corpo treme sobre o corpo de um garoto. Toda civilização moderna pode ir pro inferno, todos os sonhos, tudo que pensou hoje de manhã é supérfluo, o mundo é horrível, não, é? O MUNDO É HORRÍVEL! A câmera registra tudo, um filme de horror, “Filinto gritou como um filha da puta!” E as crianças riram, riram, gostoso. “Mata ele tia, mata a bichinha” “Corta fora tia, corta o cuzão”. “Não vai haver amor nesse mundo nunca mais”. Suas últimas palavras:

_Querida, eles não são nada, ninguém se importa, eu estou pensando na ciência, você sabe quantas vidas um rim desses pode salvar? Você sabe quantas pessoas “de bem” morrem na fila de um transplante? Você não sabe nada, menina rica, você não sabe nada! Essas crianças não deviam ter nascido! Elas não existem! Não existe infância nos desertos de pedra das metrópoles do terceiro mundo! É tudo propaganda de refrigerante, é tudo propaganda de refrigerante.

Só existe alegria nas propagandas de margarina. Alex não consegue trabalhar em ONG’s por isso se prostitui numa revista de comportamento 12 horas por dia. É muito Bukowiski e pouco Guevara. Seus pais passaram a vida se dedicando ao próximo e acabaram num bairro igual ao de todas as crianças mortas na geladeira da história. O garoto não consegue e nem se conforma, ele só chora e chora, letras, versos e um poema no final desse conto. Já Luisa…

Luisa morreu aquele dia, quem saiu daquela escola era uma mulher completamente nova, desconhecida, agora mãe de três garotos:um negro, um branco e um roxo. Vomitou um bocadinho. E andou até a linha do horizonte. N’algum lugar do mundo….

N’ algum lugar do mundo…

Há uma alma queimando,
Há um sonho murchando,
Há um feto chorando.

Em algum lugar do mundo,
Um ponto, sim um ponto,
Um ponto que poderia ser, mas não foi.
Um ponto pode ser muita coisa:
Uma flor, um coração, uma criança
Ou um alvo em potencial.

Naquele jardim de esperanças,
A última foi queimada,
A minha foi roubada. A história acabou.

31/12/06.
Fred Di Giacomo é jornalista e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais”

Milagre na rua Augusta

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A lésbica gorda e a bichinha fashion estavam tricotando numa esquina da Augusta próxima ao centro, quando um bando de carecas se aproximou. A bichinha fahion travou o cú e achou melhor sair andando, mas a lésbica gorda disse que a treta não era com eles. O bando de carecas se aproximava e seus olhos estavam injetados de ódio. A bichinha e a lésbica começaram a correr e o rebolado da bichinha só enfurecia mais os nazistas. Com a aproximação da gangue percebia-se que eles portavam pedaços de pau, barras de ferro e socos ingleses. A lésbica gorda já estava parada, arfando, enquanto se apoiava nos joelhos e pensava “se eles matarem o Michel, a culpa vai ser minha”, quando a mão forte de um careca alcançou o ombro franzino do pobre fashionista. O esquálido e bem-vestido rapaz imaginou as barras de aço rachando o seu crânio ou os caralhos duros rachando lhe o rabo. Mas uma mão ainda mais forte agarrou seu braço e livrou a vítima do algoz, erguendo-a rumo ao céu. Diante do semi-Deus alado, que exibia seu torso musculoso e lustroso, a bichinha fashion gaguejou “Isso é um milagre?”.

E seu salvador: “Quem disse que veado não tem anjo da guarda”?

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Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais”. Ele toca, também, na Banda de Bolso.

Preto no Branco

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Eu escrevi esse conto quando morava em Bauru e estava terminando a faculdade. Uma versão atualizada dele faz parte do meu primeiro livro, “Canções para ninar adultos“, lançado em 2012 pela Editora Patuá.

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Mesmo o cara que pode conquistar todas as mulheres do mundo é infeliz se não tem a mulher que ama. Eu estava tão triste que parecia que tinha uma gilete rasgando o coração numa bacia de álcool. Tristeza dói. Auto-piedade ameniza um pouco. Tava tudo escuro no quarto, não conseguia dormir. Tinha deitado às onze horas, revirava-me na cama, rolava de um lado pro outro. Onze e quinze. Pensei de novo na Clara, conversava com ela mentalmente, só assim a menina me escutava. Onze e meia, acendi a luz, li um conto do Rubem Fonseca, história maluca, não dava sono, apaguei a luz, tinha entrevista de emprego amanhã, repassei o que podia e o que não podia dizer. Quinze pra meia noite, vou até a cozinha, o filtro ta quebrado, encho o copo d água da torneira, tem gosto de lodo e consistência de barro. Tem gosto de derrota, sou um perdedor, pelo menos nisso sou bom. Na geladeira um punhado de contas, um punhado de fracassos, números de pizzaria. De que me adianta? Não como uma pizza há seis meses, preciso de um amigo com uma condição financeira melhor que a minha pra pagar.

Olho o caderninho de endereços buscando alguém que esteja com a corda mais frouxa no pescoço do que eu. Os sonhadores de hoje são os fracassados do amanhã, ta todo mundo rolando na sarjeta. Edgar queria ser cineasta, agora trabalha de balconista numa vídeo-locadora. Silas, o mais inteligente da classe, fazia parte do movimento estudantil, terminou com a namorada, transou com sua melhor e mais gorda amiga e engravidou a mulher. Uma noite, uma maldita camisinha que estourou, e o cara tem que sustentar uma família. Francisco era poeta, bebeu tanto que ficou louco, outro dia encontrei caído na rua, tinha cagado na calça, fingi que não conhecia, tive nojo. Não devia fazer isso, nós éramos amigos naqueles tempos. Quando as coisas estão boas todo mundo é muito amigo, eu era uma mina de sonhos e hoje em dia animo festas como palhaço. Se você é mais azarado que eu, por favor me escreva uma carta.

Mais um mês sem pagar telefone e cortam a linha de vez, agora só recebo ligações. A luz ta pra estourar.Volto pra cama, não dá pra dormir com tanta coisa pra resolver. Rolo pra direita, não consigo achar a posição certa, não consigo achar conforto. Penso na Clara, penso em sexo, dois meses sem trepar, isso não acontecia quando tinha vinte anos. Puta merda, vai ter que ser assim de novo, meia noite e meia. Vou a banheiro, me masturbo. Dá uma aliviada, quase como fumar um baseado. Volto pra cama e durmo.

_ Clara, eu descobri o mal de todo nosso problema.

“Sim, meu querido, ela parece dizer”.

_Agora nós não precisamos mais discutir, você vai ser eternamente minha.

“Eu sempre fui sua, amor”.

_Olha aqui, arranquei sua língua com a faca!

“Ela tem o sorriso mais lindo do universo, mesmo sem a língua”…

Acordo, atrasado de novo, tenho entrevista de emprego e depois festa de crianças para animar. Vendo felicidade, toda minha alegria artificial é sugada pelas crianças imbecis. À noite fico só, com a maquiagem no rosto, o palhaço mais triste do planeta.

Chego em casa, só o osso, completamente infeliz, vazio. Sou um aborto, uma merda cagada por uma dona de casa em uma maternidade pública. Sempre tive medo da morte, mas agora já não me divirto com a vida. Cortaram a luz, o telefone ainda toca. Desisto de atender, olho pro espelho, a maquiagem está borrada por lágrimas. Sou um palhaço triste, ta ai meu epitáfio.

***

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Um dia iluminado para uma menina dourada: Clara, um metro e setenta, mas queria ser mais alta. Cabelos loiros, mas queria ser ruiva. Olhos verdes, que podiam ser azuis. Clara não estava satisfeita com a vida, mas não queria morrer. Tinha dúvidas sobre tudo:

1975, nasce Clara Alva. Demora para sair do útero materno, hesita. Dois dias de atraso, a mãe morre no parto. Clara suspeita: “Terá sido culpa minha?”

1980, aos cinco anos o vovô pergunta a Clara: “Meu docinho o que quer de aniversário, pede o que quiser que o vovô dá”. Clara pensa, pensa, pensa, mas fica em dúvida. Uma viagem para Disney é melhor que uma casa na árvore? Seu Francisco Alva morre sem saber a resposta.

1990, aula de religião. “Então Deus criou o mundo, certo”? A menina balança, não tem nada contra Deus, nem a favor, mal o conhece. Quando ora, nunca sabe para quem pedir proteção, à alma da mãe ou ao pai que ficou sozinho. Desiste e vai dormir depois do Pai Nosso. “Então Deus criou o mundo, certo”?

_Não, sei.

_Como não? Você não acredita em Deus?

_Não, sei.

_Não sabe, como assim não sabe? Você quer ir para o inferno?

_Não sei…

_Menina, você está ficando louca? Não aceitamos ateus nessa escola.

Expulsa do colégio de freiras, o pai fica preocupado. “Por que você fez isso, minha filha?” Mas não houve resposta. Clara é uma menina muito bonita, mas quase não têm namorados, sempre titubeia para escolher com quem ficar.

1993, ano de prestar vestibular. Tem dúvidas entre Ciências Sociais e Comunicação Social, não sabe se deve tentar ganhar dinheiro ou se deve seguir seus sonhos. Não sabe se deve comer bife ou se tornar vegetariana. O pai pede que preste fonoaudiologia. Indecisa, acaba aceitando.

1997, forma-se sem brilho. Não sabe se é realmente o que quer da vida. Fica um ano desempregada até que o pai lhe arruma um emprego trabalhando com surdo-mudos.

1999, um ano trágico para a menina. Seu noivo Juan Silva, suicida-se. Suspeita-se que o rapaz não agüentasse mais a indecisão de Clara sobre o casamento, afinal, desmarcaram a data quinze vezes. Desesperado Juan foi a sua casa, olhou em seus olhos verdes e falou:

_Clara você ama outro homem?

_Não sei, Juan.

_Clara, você já amou alguém?

_Não sei, Juan, gosto de você, mas não sei se o suficiente…

Atirou-se do décimo andar. Na dúvida, se estava triste ou não, preferiu evitar as lágrimas no velório.

2001, mais um ano difícil. Dimas Alva, pai dedicado, está com câncer. “Deve ser muito triste perder o pai, para uma garota que nunca teve mãe” “Talvez”, ela pensa. Em seu leito de morte o patriarca sussurra: “Filhinha, dediquei toda minha vida a tentar solucionar sua eterna dúvida, não sei se falhei ou não, mas te amo”. Ela ficou quieta. O pai morreu sem paz. “Funerária Bom Pastor” ou “Descanso Eterno”? Nova dúvida. O corpo começava a feder, a família tem que tomar uma atitude drástica. Enterram Dimas como indigente.

2003, está na cama com Juliano. Sua pele branca contrasta com o negro da pele do palhaço triste. Não sabe se o sexo é bom ou ruim, não sabe se já teve um orgasmo na vida ou não, acha que gosta do rapaz, mas não pode ter certeza. Pensa em fundar uma ONG: para ajudar cachorros sem dono ou anjos sem asas.

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2004, prefere terminar com Juliano porque não sabe se quer namorar ou não. O rapaz entra em depressão, não sabe se sente compaixão ou arrependimento. Passam-se trinta anos. Não sabe se a vida é boa ou ruim.

2005, tenta ligar para Juliano. Pode ser que queria reatar, ou talvez seja apenas um pretexto para uma boa conversa entre amigos. Ninguém atende, tem vontade de ligar de novo, mas o rapaz pode entender tudo errado.

2034, Uma mulher vestida de negro bate em sua porta. Talvez a conheça, pergunta se: “Devo chamá-la para entrar ou não.” A estranha acaba sentando-se na sala. Sabe seu nome e fatos relevantes de toda sua vida. “Mas como? Nunca a vi antes.” A mulher é muito pálida e usa um lenço na cabeça. Traz um caderno com diversas datas nas mãos.

_È uma oferta, você nunca decidiu nada na vida, passou-a observando em dúvida, nunca arriscou ou apostou. Ofereço-te a chance de voltar ao parto e viver tudo de novo.

Hesitou. Pela última vez. Sentiu uma dor no peito aguda que lhe garantiu a certeza de alguma coisa. Os olhos pararam. Pela primeira vez não teve que decidir nada. A mulher de negro levou-a para sempre.
13/08/05.

Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais“ . Ele foi pioneira na criação de newsgames (jogos jornalísticos no Brasil) e toca na Banda de Bolso.

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A noite quente de uma mulher fria.

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Já não sabia o que fazer pra quebrar a geleira que envolvia a namorada. Estavam juntos há cinco meses e ela nunca tivera um orgasmo sequer, nadinha. Ele tentava de tudo: Kama Sutra, vinho, língua, Halls, mas a mulher não se animava, era fria. E com o tempo parou de querer fazer sexo. Cada dia era uma nova desculpa: dor de cabeça, sono, menstruação. Ele, indignado:
_ Isso nunca aconteceu comigo, antes, eu deixava as mulheres sempre loucas! Era um Casanova!

Tinha fama de ser “quente”, um “tarado”, diziam os amigos que moravam com ele, mas com essa pequena seus encantos não tinham efeito.

Um dia, estava conversando com o pessoal do trabalho no bar. Roda de amigos, cerveja vai, cerveja vem, uma dose de pinga e Delúbio abre o coração:
_ Não to agüentando mais a frieza da Joyce, ela parece um picolé de tão fria.
_ Acho que você não ta dando no couro direito, hein?_ Provocou um.
_Que é isso, rapaz! Eu sempre soube deixar as mulheres loucas, é que a Joyce é diferente das outras, ela parece que tem nojo de homem.

E parecia mesmo, era uma mulher fina, classe média alta, vinte e um anos, estudante de farmácia em universidade de freiras. Devia preferir a rigidez dos cadáveres à insistência do namorado. Odiava quando ele começava a encoxá-la na cama, enquanto dormiam de conchinha, parecia um animal. Ela sempre virava pro lado e ele a abraçava por trás, às vezes apertava seus peitos. Os homens não conseguiam viver sem sexo, pareciam doentes. Só a mulher sabe amar de verdade. Mesmo assim, ela era um doce; partidão, finíssima, filha de médicos, tinha estudado um ano nos eSATDOS uNIDOS, traços delicados, olhos claros, loira, cabelos lisos compridos. De corpo era bem magra, de poucos quadris. Muito inteligente e culta, adorava cinema, especialmente o francês e Quentin Tarantino, costumava dizer:

_Tenho fascínio, por Tarantino, quero morrer assistindo a um filme seu.
Talvez gostasse do excesso de sangue e cadáveres. Era também um bom papo, por dentro do que estava acontecendo no mundo. Muito doce e educada, tinha vergonha do próprio corpo, nunca se tocara dizia:
_Prefiro ser violentada do que me tocar!
Uma santa! O único problema era o sexo, se ela não gostasse, mas fizesse, ainda vá lá. Mas o que Delúbio não suportava era ficar duas semanas, ou mais, na abstinência.
Foi aquele, dia no bar, em meio aos deboches, que um dos amigos falou sério:
_ Olha, Delúbio_ o nome dele era Dirceu_ Você devia dar graças a Deus por essa mulher! Casa com ela, que ela é uma santa! Mulher fria não trai! Tudo que as mulheres querem é um orgasmo, se elas gozam te largam ou começam a dormir com outros. A mulher frígida é a única que é fiel até a morte.

Dirceu falava com conhecimento de causa, já tinha casado quatro vezes. Era professor de comunicação, agora estava namorando uma aluna. Fumava um cigarro atrás do outro, inclusive durante as aulas, não parava de fumar nem na sala de aula. Dizia que não tinha medo do câncer:
_O câncer é a doença mais bonita do mundo, porque não se pega através do sexo. O câncer não se pega de ninguém, é a única doença pura, individual.

O professor podia não entender de medicina, mas já tinha experiência em casamentos e entendia de música. Tocava em uma banda de jazz. Dizem que os músicos fazem sucesso com as mulheres, então isso lhe garantia ainda mais credibilidade com Delúbio.
_Mas Dirceu, ela não vê graça nenhuma no sexo, isso é muito triste. Um casal precisa do sexo pra continuar junto.
_Você não entende nada de amor, menino. Minha primeira mulher ficou paralítica depois de um acidente de carro. Não mexia nada do pescoço pra baixo. Completamente frígida, a mulher que eu mais amei. A única que eu amei de verdade. Nunca me traiu antes, nem depois do acidente, uma santa. Ficou um ano daquele jeito e morreu, queria fazer um altar pra ela. Amor não precisa de sexo, sem sexo é até melhor. “Amor é pra sempre, e se acaba não era amor”.
_Nélson Rodrigues?
_ Isso mesmo, ele tava certo, eu amo a Dilma até hoje.
Mas Delúbio não se conformava: “Como a Joyce podia ser tão fria?” Preparou uma noite especial pros dois: vinho, luminária de estrelas, velas e sua música favorita. A mulher achou lindo.
_ Parece um filme francês!
Tomaram o vinho, conversaram horas, beijaram-se. Ele a despiu suavemente, beijando seu corpo de forma doce. Disse que a amava, ela corou. Colocou o preservativo, beijou todos os detalhes do corpo. Começaram, dois minutos e ela sentiu dor. Não acreditou, tentou continuar, mas ela implorou:
_ Para, benzinho, que você ta me rasgando por dentro.
Pediu desculpas a ele.
_Não foi nada meu bem, só quero fazer quando você estiver afim.

Tinha sido, sentiu-se frustrado, odiava começar e não terminar. Sentiu-se um fracasso, impotente, o mais baixo dos homens, o pior de todos amantes. Como ela podia resistir as suas investidas? Ele que fizera tantas mulheres tremerem de paixão? Não entendia como ela podia simplesmente virar-se pro lado e dormir, com toda a inocência do mundo… Talvez fosse um anjo, casto, puro! Era isso, não tinha malícia, era um anjo inocente, amou-a mais. Já estava conformando-se:
_ O Dirceu tem razão, a mulher frígida deve ser a melhor mesmo.

Passou a tentar aceitar a namorada, marcaram até casamento. Estavam há seis meses juntos, ela quis casar na igreja, ele, por amor, aceitou. Não suportava igreja, quando era pequeno ia dormir na casa da avó toda sexta-feira. Ela era muito católica e não se conformava do ateísmo precoce do neto. Perguntava toda noite pra ele:
_ Delúbio, você crê em Deus?

E não apagava a luz até que ele respondesse, se ele dissesse que não era pior: a velha ficava tentando convence-lo a noite toda. Passou a dar respostas abstratas como “Eu acredito no amor”, ou “Existe uma força cósmica maior”. Tinha pavor da vó, vivia andando de bengala e cheirava morte, só falava de doenças e desgraças alheias.
_Eu só morro com cem anos!

Queria que morresse logo, sentia-se mal por pensar assim, mas não suportava aquelas noites de sexta-feira, a vó comendo chocolates com gula: “Quer um chocolatinho, Delúbio?” Tinha os dentes sujos de chocolates, odiava dentes sujos de chocolate, tinha pavor, nojo! Se um dia Joyce sorrisse para ele com os dentes sujos de chocolate era capaz de largá-la no altar. Sempre que ele comia um bombom, passava os dentes freneticamente na língua, ou ficava olhando o sorriso no espelho. Tinha horror! Enfim, se não amasse tanto a noiva frígida, não casaria na igreja.

Encontrou-se com os amigos, iriam fazer uma festinha para os noivos.
_ Resolveu seu problema, Delúbio?
_Que nada, to até achando graça, sabia?
_Anote ai, Delúbio, não há mulher como a fria, elas são as que morrem com a gente. A mulher da nossa vida é a que morre ao nosso lado.
Estava achando Dirceu um profeta, e Joyce parecia mesmo ser mulher pra toda uma vida.
_Te amo mais que tudo, Delúbio!

Parecia mesmo, quanto mais ele respeitava sua abstinência, mais ela parecia amá-lo. De uma hora para outra, parecia que o noivo compreendera. “Talvez tivesse feito um voto de castidade”, pensava ele. Talvez fosse mesmo uma santa. Dava-lhe prazer a inocência da menina, mesmo não transando, ela fazia questão que dormissem juntos. Gostava da sua presença e de conversar com ele.

_Eu quero dormir com você, mesmo que seja pra gente não transar. Eu gosto de ficar assim contigo.
Era linda, conversavam até que ela não agüentasse mais e fechasse os olhinhos. Às vezes despertava e tentava continuar o assunto, mas falava alguma coisa absurda. Uma santa! Um anjo puro!

Chegou o dia da tal festa para os noivos, foi em uma danceteria. Estavam todos muito felizes. Dirceu, Silvio e Valério estavam lá e várias amigas da Joyce também, a noiva parecia surpreendentemente empolgada naquele dia e bebia mais que o normal. Delúbio, que era um bebedor nato, estava contido, a suposta santidade da noiva parecia tê-lo inspirado a uma vida mais regrada e sem excessos, pensava até em parar de beber.

_ Benzinho, você não acha que está exagerando na dose?
_É que eu estou tão feliz, Delúbio, você é o homem perfeito pra mim: inteligente, carinhoso, romântico…Eu te amo.
_Também te amo, benzinho.
Estava muito feliz, Joyce dançava com as amigas e ele conversava com Dirceu:
_ É uma santa! Uma santa!
_A mulher que atinge o orgasmo perde o interesse no seu homem, Delúbio, dê graças a Deus pela Joyce ser fria! Graças a Deus! Ai, como tenho saudade da minha Dilma, paralítica, deitadinha na cama, era um anjo, rapaz! Um anjo com as asas quebradas!
Deu três horas da manhã, e Joyce quis ir embora:
_ Você vem comigo?
_Isso é um convite ou caridade?
_É um convite, seu bobo, eu quero que você venha comigo!

Falou de um jeito estranho, parecia ter fogo no olhar, Delúbio sentiu medo. Lembrou do que Dirceu lhe falara “A mulher frigida é a única que não trai”. Devia ser paranóia dele, a Joyce sempre gostava que os dois dormissem juntos. Chegaram na casa dela, a moça tomou um copo de leite e foi pro banheiro. “Gozado, a Joyce nunca tomava leite, fazia mal pro seu estômago”. Ela parecia muito feliz, beijou-lhe na boca com paixão, acendeu uma luminária vermelha, saiu do banheiro com a maquiagem retocada. Muito sensual. Abraçou o noivo com paixão:
_ Te quero!

Delúbio sentiu um calafrio correndo a espinha, será que a mulher tinha se curado? Rolaram na cama, Joyce estava diferente, tomava a atitude, beijava o corpo do futuro marido, ensandecida pelo álcool. Delúbio começou a gostar da coisa, achou que Dirceu estava errado. Nada como ter uma mulher que ame a gente. “Um anjo na rua e um diabo na cama”, pensava. Fizeram todo tipo possível de preliminar, quando Delúbio a beijou tanto no ponto X, que ficou louca, Joyce implorou:
_ Agora, vem cá, que eu te quero!
Virou-se de costas, o rapaz ficou doido, adorava de costas e ela sempre se recusava. Achava muito “animal”. Fizeram amor com vontade.
_ Fala palavrão, Delúbio! Eu fico louca com um palavrão! Me xinga, Delúbio! Me xinga! A coisa que me deixa mais doida é um palavrão no ouvido!
O rapaz perdeu o controle, parecia que ia ter um troço, já tivera um orgasmo e continuava lá dentro. Joyce mandou:
_ Agora, eu quero de quatro.
Os olhos de Delúbio saltaram. “De quatro”? De quatro ele ficava louco, uivava, entrava na mulher com vontade. Nunca tinham feito assim, ela nunca deixava. Enfiou com força, ela pedia:
_ Me rasga Delúbio, me faz gozar! Me faz gozar!
Gozaram juntos, ele pela segunda vez. Desmaiou em cima dela, mal teve forças pra tirar o preservativo. No dia seguinte transaram de novo, mais duas vezes! Um recorde pro casal! Saiu de lá realizado:
_Resolvi meu problema, resolvi meu problema!
A noiva tinha uma cara ótima, satisfeitíssima! Conversaram a manhã inteira sobre bobagens, parecia que seriam o maior casal do mundo, um casal perfeito. Já se davam tão bem sem sexo, imagine agora! Delúbio saiu de lá com dez reais, sonhos e a certeza de que aquela mulher nascera para ele. Pensou em ligar para o Dirceu e acabar com amigo, quis chamar-lhe de impotente! Que mulher fria o caramba! Aquilo era desculpa de incompetente!
Acordou todo o pessoal da república: um advogado e um médium.
_Olha só pessoal, hoje eu pago a rodada de cerveja!

***
Conversou com Joyce só no dia seguinte, tinha ido pra casa da mãe em Campinas:
_ Benzinho, o que você está fazendo ai?
_Olha, Delúbio, já mandei cancelar a igreja, não vai mais ter casamento.
_Como assim não vai mais ter casamento?
_Eu não sei mais o que sinto por você, Delúbio, não sei o que quero. Acho que sinto nojo!
_Nojo?

Joyce desligou, nunca mais conversaram, uns dizem que entrou num convento, outros que caiu na vida. Delúbio casou-se dois anos depois. Com uma paralítica.

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21/07/05.

Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais“ . Ele foi pioneira na criação de newsgames (jogos jornalísticos no Brasil) e escreve sobre felicidade no Glück Project.

Amor em tempos de AIDS.

-Leia mais contos

Escrevi o conto abaixo quando era um estudante de jornalismo na Unesp-Bauru, em 2005. Ele foi inspirado numa reportagem da Rolling Stone americana sobre barebacking

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Amor em tempos de Aids
Reportagem de Brando Trevisan para o Diário do Fim do Mundo.

Levantei sentindo-me jornalista uma vez na vida. Foi um dia qualquer em um junho nublado, triste e frio. Tava com dor no coração, mas suspeitava que fosse só um pouco de frescura. Arranquei a artéria aorta direita e coloquei num potinho de vidro escrito “alma”. Alma?! O que aquela porra tava fazendo ali? Era pra ter vendido fazia tempo… Dei uma olhada nos classificados: “Hum, ninguém anda pagando bem por almas de jornalistas. Tá certo, quando eu acordar sentindo-me médico tento vende-la por um preço melhor”.

Fui ao banheiro, era rosa e tinha bidê. Sentei na privada e pensei na vida inteira. Eu e Tarsila conversando. Dizem que a vida passa inteira diante dos seus olhos quando você vai morrer, a minha passa inteira diante dos meus sempre que sento para evacuar. Não há lugar melhor para meditar que uma latrina. Passo dois: bidê. Banheiro é um bom lugar para ficar só. Queria morar num banheiro para sempre. Saí de lá, peguei o colchão e o travesseiro e arremessei tudo perto do chuveiro. Quem precisa de quarto quando se tem pia e chuveirinho? Aquilo sim ia ficar bom, um ambiente íntimo em fim… Onde eu tava mesmo? Saco! Drogas fodem tua memória, mas vamos lá: Nasci na metrópole, fui pro interior, tomei um soco na cara na quarta série, tive cachumba com dez anos… Ah sim!
“Fui ao banheiro, era rosa e tinha bidê. Sentei na privada e pensei na vida inteira. Eu e Tarsila conversando:”
_ Brando preciso de espaço, você me sufoca.
_ O problema é sexo?
_Você gosta muito de mim, querido! Eu não tenho certeza do que sinto por você…
_O problema é sexo?
_ Acho que eu não estou preparada para um compromisso tão sério, tenho medo de não corresponder às suas expectativas…
_ O problema é sexo?
_ Brando, você sabe que pra mim isso é um mero detalhe, a questão é que eu não sei o que sinto ao certo. Eu sou tão complicada…
_ Se o problema não é sexo, eu posso te tratar mal, então.
_ Não é isso, meu querido, as mulheres precisam de segurança. Elas precisam ser amadas, mas…
_ Então, o problema é sexo.
_ Ah! Vocês homens nunca vão entender…
_Você ta virando lésbica, Tarsila?
_Quem, sabe, mon amour, quem sabe…
_ Saco, o problema é sexo, então.

Debaixo de toda psicologia, todas as angústias e incertezas o homem é um animal movido a duas coisas: desejo de se reproduzir e medo de morrer. Era isso, a vida para mim passava em preto e branco. O segredo era arrumar alguma coisa que se gosta para fazer. Cocei minha careca: eu era durão, tinha uma boa pegada e tal, mas gozava rápido e tinha um pau médio. Tarsila não podia suportar aquilo, a sacana ficava com toda aquela história sentimental, mas eu sabia que tudo dependia de um orgasmo. Afinal, eram seis meses sem um mísero orgasminho. Um gozo se quer. Nada! E eu tentando de tudo: língua, dedo, fios de cabelo e massagens tântricas. Sempre aquele final frio; eu uivando de prazer e ela olhando pra minha cara com o semblante de: “Patético, já acabou o escândalo, mocinho”? Fechava os olhos e dormia logo em seguida. Sentimento de impotência, preferia ser brocha. Agora, ela namorava a Ana, uma lésbica linda de cabelos ruivos. Devia gozar borbotões com aquela língua molhada em suas coxas. Eu nada. Sentado na privada, pensando na vida, imaginando um diálogo que nunca chegamos a ter. “O PROBLEMA É SEXO”? Porra, se o problema não é sexo então fiquemos mudos e nus pelo resto da vida, tudo mais não me importa. Agora sou um zumbi a serviço do jornalismo objetivo. Levantei do banheiro com a bunda molhada e limpa, cheirei uma carreira de pó com aroma de massa corrida. Não se fazia mais cocaína como antigamente.

Vejamos o que se deve cobrir nesse mundo caótico. Com certeza seria mais algum maluco-neurótico-freakie querendo seus quinze minutos de fama. Saco, deixem-me em paz! Pensei em inventar uma matéria sobre um cara que estava leiloando seu corpo para um canibal, só que lembrei que tinha acontecido de verdade: não havia espaço para poetas no mundo de sonhos em que vivíamos. O que seria de Allan Poe no século XXI? Mais um repórter retratando o dia-a-dia, meu Deus! O homem comum era, cada vez mais, um personagem de histórias fantásticas. Ta certo, vejamos a pauta. Ai, saco, de novo! Tenho que pegar o exame de HIV. Trepei sem camisinha. Mais uma vez! Jurei que a Tarsila ia ser a última. “Eu te amo” para mim tinha cara de “Eu sou HIV negativo”. Puta, cara ingênuo, sou durão só com os entrevistados, na vida não passo de um banana com pau médio e que goza rápido. Puta, bostão! De que servem todos esses livros na estante e essas idéias na cabeça, se não consigo ficar dentro de uma mulher quinze minutos consecutivos? PUTA SACO DE NOVO E DE NOVO! Será que eu tinha rodado dessa vez? Transar sem camisinha é uma roleta-russa. Ninguém anda com um crachá escrito “soropositivo”. Nem eu. E se o resultado fosse positivo? Quantos anos iam me restar? Ia morrer sem ter filhos, sem escrever um livro. Pelo menos plantei uma árvore. E escrevi jornalismo. Posso adotar um moleque. Ai, que fracasso! Vida desgraçada!
E pior, como eu ia saber se tinha dançado com a “fulana” ou com a Tarsila? Ia ter que ligar pras duas, perguntar, pedir para fazerem o teste, me expor. Pára, Brando, pára! Nada disso, você está saudável, primeiro fazer a matéria e depois pegar o teste. Vamos ver, a pauta deve ter chegado por e-mail. È isso, vamos ligar o computador e ver o que nosso querido editor nos mandou.

“Bug Chaser”. Putz, informações em inglês vindas da revista Rolling Stone. Será que era matéria musical? Saco, odeio rock n’ roll, cara! Será que não podiam me mandar alguma coisa de esportes ou algo do gênero? Quem ta ligando pro rock n’ roll? Acho que nem os adolescentes dão importância mais! Vamos lá: O que significa isso, mesmo? Inglês enferrujado pra burro, hum…

“Nova febre no underground gay: os bug chasers são adeptos de uma prática que consiste em transar sem camisinha com a intenção de se contaminar com o vírus HIV. Eles chamam o vírus de “a dádiva” ou “o presente” e disputam a tapas parceiros que possam contaminá-los. A emoção está em transar sem camisinha, nunca sabendo se foram contaminados naquela noite ou na próxima. Existem milhares de sites e grupos de bate-papo na internet que estimulam e discutem essa prática. O fato de os coquetéis aumentarem a qualidade e o tempo de vida dos soropositivos é um fator estimulante para esse perigoso fetiche”.

Grande e santo, SACO! Parei de ler, fui ao banheiro e vomitei. Aquilo era brincadeira, né? Justo naquele dia! Eu morrendo de medo do resultado do teste de sangue e minha querida editora me presenteia com uma matéria daquelas? Sacana, eu podia matá-la se não fossem aqueles pezinhos lindos. Pés pequenos, com unhas vermelhas em sandalinhas pretas usadas sempre com saias e minissaias. Eu nem olhava pra cara dela enquanto a ouvia falar. Só tinha olhos para aquele par de pés e seus dez dedos livres de meias ou sapatos. Eu podia chupar aqueles pés por horas sem nem tocar no resto do seu corpo. Uma mulher com um poder daquele não podia ser assassinada a sangue frio. Droga, mas aquela matéria tinha me deixado nervoso. Como alguém conseguia ser tão doente? Vamos ver:

“Há clubes espalhados pelos Estados Unidos em que a prática do sexo sem camisinha é estimulada. São realizadas orgias em que diversos homens se penetram sem proteção. O medo e a adrenalina estimulam esses homens a por em risco a própria vida. ‘Tem pessoas que praticam roleta russa, tem gente que pula de pára-quedas, nós só queremos emoções fortes’”. Emoções fortes? Filhos da puta! Deus deveria trocar cada criança nascida soropositiva por um maluco desses. Eu estava no Brasil, agora, aonde iria achar um desses dementes? Internet, certo, a rede era responsável por noventa por cento dessas taras estranhas.

Peguei um pouco de café na garrafa térmica. Estava frio, mas bem forte como eu gostava. Enchi de açúcar e creme. A cozinha estava uma bagunça: comida natural, drogas sintéticas, hambúrguer de soja. Que zona dos infernos! O Francis tava babando no chão. Era um buldogue gordo que tinha esse nome em homenagem ao Paulo Francis, meu herói num jornalismo sem firulas. Paulo Francis morreu de tanto fumar. Eu podia morrer de tanto cheirar. “Viva rápido e deixe um cadáver jovem e bonito”. Eu tinha cabelo raspado pra disfarçar a careca e os fios brancos. Olhos azuis pequenos que ainda chamavam a atenção de mulheres suicidas. Meu corpo não era dos piores; quase trinta e nenhuma barriga. Fazia cem flexões, dia sim, dia não, e meditação uma vez por semana. Se eu parasse de tomar pílulas talvez voltasse com a Yoga.

Certo, enchi um copo com café preto e abri a geladeira. Estava quase vazia, mas tinha o que eu precisava. Doce de marolo. Sim, um doce mineiro delicioso que eu comprava sempre que voltava pra minha terra natal. Num mundo high-tech nada como manter um pouco das raízes. E eu tinha raízes, não importava que elas estivessem bombeando seiva podre e viciada para o resto do meu corpo. Agora, mãos a obra, um jornalista nunca pode ficar parado!

Sentei ao computador, conectei a internet. Digitei as palavras mágicas: “Malucos por HIV”, nada. Fui colocando um a um os termos em inglês. Comecei uma busca por fetiches na rede mundial de computadores: Incesto, zoofilia, sadomasoquismo, estupros. Tinha gosto para todas as fantasias bizarras na rede. O anonimato é um passe livre para nossas fantasias animalescas. Tinha um professor de Yoga que dizia que acabando a luz elétrica do mundo o homem voltaria a ser bicho. Aí, seria cada um por si.

Fotos de mulheres posando de meninas, com roupas de colegial e poucos pelos pubianos. Velhas trepando e grávidas sendo possuídas por dois caras. Porra, imagina o filho dessas mulheres? Meu Deus, em que mundo vivemos? Salas de bate-papo gays: “E ai, podrão, quer me foder?” Podrão? Achava que os gays eram mais sensíveis e românticos. Acho que ao invés dos homens aprenderem com as mulheres e os homossexuais, todo mundo foi contaminado por nossa brutalidade e testosterona. Era péssimo, um mundo sem sentimentos. Não senti tesão com todo aquele sexo explícito, mas continuei. Recebi propostas para mijar em cima, comer maridos e mulheres, espancar e estuprar. Cada sala de bate-papo, cada clique do mouse me levava para um mundo mais obscuro. Bare backing. Era isso, o nome da prática. Uma descrição da filosofia dos caras em um site: “Eles acreditam que ao disseminar a Aids e torná-la a regra, não a exceção, estarão poupando a si mesmos e a comunidade do medo da infecção e das preocupações com o sexo seguro. Uma lógica invertida graças à possibilidade atual de convivência com a doença”. Cara, em que mundo a gente vive? Eu tava rezando para aquele exame dar negativo e os caras torcendo para serem infectados. “Convertion party” era o nome da balada deles: “O dia da transformação”. Um anúncio num site homoerótico: “Procuro por Gift Givers. Tratar com Carlos, e um e-mail.” Gift Givers eram os caras que se dispunham a contaminar os outros. Muito caridoso, anotei o e-mail do cara e fui procurá-lo em um programa de mensagens instantâneas. Fácil de achá-lo no MSN: “CarlosBugChaser”:

Brandojornalistadocaralho fala pra CarlosBugChaser: Descobri teu endereço num site de Bare backing!
CarlosBugChaser fala pra Brandojornalistadocaralho: Você é entendido?
Brandojornalistadocaralho fala pra CarlosBugChaser:Sou um curioso…
CarlosBugChaser fala pra Brandojornalistadocaralho: Policial?
Brandojornalistadocaralho fala pra CarlosBugChaser: Jornalista…
CarlosBugChaser fala pra Brandojornalistadocaralho: Ah! Achei que você estivesse afim…
Brandojornalistadocaralho fala pra CarlosBugChaser: Você ainda ta procurando um Gift Giver?
CarlosBugChaser fala pra Brandojornalistadocaralho: Na verdade eu estou sempre na procura, nunca sei se fui contaminado ou não. Não faço o teste há um ano. Prefiro ter a ilusão de que cada noite vai ser a minha primeira noite. É como estar sempre perdendo a virgindade.
(Veado, maluco).Respirei fundo.
Brandojornalistadocaralho fala pra CarlosBugChaser: Você pode me dar uma entrevista?
CarlosBugChaser fala pra Brandojornalistadocaralho: Você vai publicar meu nome/ fotos?
Brandojornalistadocaralho fala pra CarlosBugChaser: Tudo depende de você…
CarlosBugChaser fala pra Brandojornalistadocaralho: Quero privacidade, sou professor universitário, não posso me expor assim…
Brandojornalistadocaralho fala pra CarlosBugChaser: Professor do que?
CarlosBugChaser fala pra Brandojornalistadocaralho: Filosofia…

Filosofia? Filosofia? Caramba! Um mundo onde os filósofos brincam de roleta-russa com a AIDS tinha que ser um mundo muito doente mesmo. E eu preocupado com meu relacionamento com a Tarsila… Parecia que ela estava ali, na minha frente, conversando comigo:
_Oi, amor, aonde a gente errou?
_Você sabe que nós nunca tivemos essa conversa, Brando.
_Sei, Tarsila, a gente nunca conversou o suficiente…
_A gente sempre dormia….
_ Você primeiro, sacaninha.
_ Você me deixava muito cansada, querido.
_Achei que você ficava puta porque nunca gozava….
_Às vezes sim, às vezes não, mas nosso dia-a-dia era muito corrido pra transar ou conversar, era um ou outro e você estava sempre querendo transar.
_Me desculpe, Tarsila, nunca fui cem por cento sincero com você.
_ A gente perde muito tempo medindo as palavras, Brando. A gente perde muito tempo esperando a hora certa e depois vê que a hora certa passou…
_Eu to com medo de morrer, Tarsila…
_Se essa fosse uma conversa real eu juro que te abraçava, querido.
_ Você me ama?
_Não, mas você é um puta cara legal.
_Cê, me amou algum dia, Tarsila?
_ Eu achava que não, mas vendo agora, sim. Afinal, eu não perderia seis meses da minha vida com um cara que não me fazia gozar, se não gostasse muito dele.
_ To me sentindo melhor agora, amor, queria que a gente tivesse conversado isso de verdade.
_ Eu sei, querido, você é um meninão que precisa de colo.
_ Eu preciso de você, Tarsila, aonde a gente errou? Quando isso tudo começou?

Estava com minha cabeça apoiada nos joelhos, sentado no chão, encostado na parede do escritório. Tava me sentindo muito mal e sozinho. Aonde a gente tinha errado? Aonde tudo tinha começado a desandar? Teve um tempo em que havia uma esperança: o rock n’ roll tinha Bob Dylan e John Lennon, o homem tinha chegado a Lua, os estudantes tomavam as ruas de Paris, o cinema estava se tornando arte. Os comunistas achavam que a revolução iria mudar tudo e os capitalistas acreditavam que vencendo os comunas o mundo seria um lugar seguro de novo. Todo mundo tinha uma esperança de que as coisas iriam melhorar. Todo mundo acreditava na raça humana. Havia o budismo, a Yoga e a teoria da libertação. Havia amor livre, pílula, revolução sexual. Vacinas, maconha, LSD, estados alterados da mente. Quando foi que a gente se perdeu?

Quando foi que o sonho acabou?

A nossa geração nasceu na ressaca de tudo isso. Nasci em 1978, num mundo sem Hendrix, Morrison ou Joplin. Quando eu tinha quinze anos já não existia Muro de Berlim, nem comunismo e nem rock n’ roll. O capitalismo tinha vencido e as coisas não estavam melhores. Ninguém tinha mais uma coisa para acreditar, não havia mais um horizonte. As utopias tinham morrido. A AIDS castrou toda liberdade sexual. Amar naqueles tempos se tornou proibido. Tudo virou seco e efêmero. A vida feita de surdez e passividade. Surdez e passividade! Quinze minutos do “novo” eram o suficiente. Propagandas, videoclipes, radiação, poluição, câncer, telejornais, efeitos especiais, tv a cabo. Num piscar de olhos trocaram nossas máquinas de escrever por computadores e os computadores passaram a ser trocados de ano em ano. Nossos velhos videogames e revistas em quadrinhos não valiam mais nada naquele mundo novo. Passamos a andar mais rápido para não sermos atropelados pelo futuro. O futuro chegava tão rápido que não se esperava mais nada dele. Só sabíamos que com todas mudanças, nada de novo iria realmente mudar nossas vidas. Então corríamos rápido e pensávamos rápido, para não lembrarmos que a morte estava chegando. Que cada dia vivido era um dia a menos, em que não fizemos nada de relevante. Só apertamos um monte de botões, e nos finais de semana dançamos uma música nova movidos por drogas e luzes multicoloridas. Porque estamos fazendo isso, eu não sei. Só paro pra pensar enquanto faço minhas necessidades fisiológicas, e tudo o que penso é: “Tarsila, onde foi que erramos”?

Porra, tava com a cabeça no meio das pernas quando o telefone tocou, era minha editora. “Brando, você ta adiantando a matéria?” Sim senhora, sim, senhorita. “Eu tenho uma fonte para você, é um imigrante ilegal nos Estados Unidos, pega o telefone”.

Ta certo, além do cara ser imigrante nos Estados Unidos ele é um Bug Chaser… Babaca completo. As hordas bárbaras invadem o império em declínio. “A história se repete duas vezes: primeiro como tragédia e depois como farsa”, já dizia o velho Marx. Lembro dos meus tempos como correspondente em Washington. Paranóia total! Tinha meros 24 anos e escrevia numa revista de música… Foi logo depois daquele troço das torres gêmeas. O clima era de nervosismo, todo mundo esperava um ataque com armas químicas e o presidente Bush preparava a ofensiva contra o Iraque. 2002, estávamos no século vinte e um e eu no coração do poderoso império, cercado por soldados com fuzis, pessoas apressadas e turistas do terceiro mundo tirando fotos de Abraham Lincoln sentado em sua imensa cadeira de pedra. O império estava em crise econômica e moral. Bill Clinton havia sido quase deposto por causa de uma gulosa e manifestantes erguiam cartazes contra o aborto perto da Casa Branca. Eu fotografava tudo e pensava que deveria escrever um livro. Fazia frio de rachar, minha orelha parecia congelada e eu jurava que nunca mais usaria blusa no Brasil. Nunca tinha enfrentado neve e dezessete graus negativos.

Liguei pro tal imigrante ilegal. Seu nome era Marky.
_ Hello, is Marky there?
_ Just a minute, please… Hey, Marky!
_Hello!
_ Hey, Marky, aqui é o Brando, eu escrevo pro Diário do Fim do Mundo.
_ Ah, sim, eu estava esperando sua ligação, senhor Brando. Faz muito tempo que eu não falo português.
_ Eu sei, mas eu não estou te ligando para praticar conversação.
_ Sim, você quer saber detalhes sobre a minha conversão…
_ Ah, você conseguiu?
_ Fiz o teste há seis meses, estou soropositivo, senhor Brando, estou marcado para morrer!
Ok, era o ponto de tensão, eu precisava pensar rápido e não deixar o cara começar a chorar. Tinha que usar toda a minha objetividade jornalística.
_ Quando você recebeu a “dádiva”, senhor Marky?
_ Provavelmente há um ano, Brando. Eu freqüentei diversas “Convertion Partys” nesse período.
_Certo, o que te levou a isso?
_ Eu me sentia, especial, sabe? Eu era parte de um clube, uma coisa única. Isso me dava muito tesão também. A adrenalina, o medo…
_ E agora?
_ Destruí minha vida, não há um dia que eu não pense que vou morrer. Não há um só dia em que eu não me arrependa por essa decisão.
(Sei como você se sente, cara. Não há um só dia em que eu não me arrependa por ter transado sem camisinha. Isso come meu cérebro, com certeza).
_As coisas não foram como você esperava, então, Marky?
_ Não, senhor Brando. Sinto-me mal com todos esses remédios. É horrível tomar tantas pílulas com horários tão regulares. Fora os efeitos colaterais. A AIDS não é uma brincadeira, senhor Brando. Acho que é isso que você tem que mostrar para os seus leitores. Sexo não é uma brincadeira, em tempos de AIDS.

Sexo não é uma brincadeira? A gente já tem que se preocupar com ejaculação precoce, impotência, tamanho do pau, gravidez, frigidez, DST… Quem foi o desgraçado que inventou a AIDS? Quem foi o filho da puta! “Certo, senhor Brando, sexo não é uma brincadeira”. Desejei sorte pro cara e desliguei o telefone. Comecei a escrever a matéria até a hora marcada para a entrevista com o Carlos.

Era um restaurante chique para a elite paulistana. Nunca tinha levado a Tarsila num desses. Ela era moderninha demais, preferia comida indiana e eu preferia raves onde pudesse comprar doce e ecstasy. O que levava um professor universitário, bem sucedido, com grana para pagar um almoço num restaurante desses a querer se infectar com o vírus HIV? Um cara instruído, ciente de todos os riscos?

_ Eu sei o que você deve estar se perguntando, Brando. Por quê? Eu mesmo não tenho uma resposta. Por que vivemos? Como devemos levar nossas vidas? Não, sei. Eu poderia casar e ter filhos. Eu poderia ter um parceiro estável. Mas isso não me realiza.
_ Você pensa na pessoa que pode estar se contaminando?
_ Todo mundo é livre na vida, Brando. Ninguém é obrigado a nada.
_As pessoas podem se arrepender. Acabei de falar ao telefone, com um garoto arrependido.
_ O problema dessa geração é que eles acham que a vida é um vídeo game. Que após o “game over” eles vão poder voltar a jogar do começo. Só se vive uma vez, aqui e agora! Eu tenho tudo que quis. O jeito que escolhi para viver a vida é testando a morte a cada dia.
_ Como você conheceu o bare backing?
_ Nos Estados Unidos, fiz meu mestrado lá. Freqüentava os clubes undergrounds gays. No começo, era só um fetiche, depois passei para prática. Acho que assim é mais fácil. Com a vida que levava ia acabar me contaminando de qualquer jeito. Se for pra se contaminar, que seja pelo menos por vontade própria! Não gosto de acreditar em destino, gosto de ser agente da minha vida. Sou um homem livre, Brando, por incrível que isso possa parecer.
_ Você não tem medo das conseqüências? Sabe que o coquetel não é cem por cento eficiente, conhece os efeitos colaterais?
_ Eu não quero viver para sempre, Brando. Todo mundo vai morrer algum dia. Eu posso morrer ao atravessar a rua, sem nunca desenvolver o HIV, você pode se contaminar com sua “fiel namorada heterossexual”. A gente não pode escolher quais vão ser as alternativas da vida, mas podemos escolher entre uma delas. Eu escolhi viver no limite.
_ Já fez teste de HIV?
_ Ainda não, prefiro acreditar que cada nova transa, vai ser o dia em que receberei meu “pequeno presente”. É mais romântico e excitante assim. Faz cada noite, ser “a grande noite”. Quantas grandes noites você teve, Brando? Sua primeira? A primeira vez em que teve uma mulher gozando em seus braços? Quantas vezes você sai da rotina? A escolha é sua. Viver rápido e intensamente ou apagar aos poucos…
_ Desculpe, mas o entrevistado não sou eu…
_Eu sei. Tenho um encontro esta noite. Você gostaria de comparecer? Pode fazer umas fotos, sem mostrar nossos rostos.
_Ah, sinto muito, mas tenho um compromisso agora. Muito obrigado, senhor Carlos.

Sai de lá acuado, ele havia dominado a entrevista. Não importava, eu já tinha o que escrever. A matéria iria se chamar “Amor em tempos de AIDS”, o começo ia ser assim: “Aonde tudo tinha começado a desandar? Teve um tempo em que havia uma esperança: o rock n’ roll tinha Bob Dylan e John Lennon, o homem tinha chegado na Lua, os estudantes tomavam as ruas de Paris, o cinema estava se tornando arte….”

Eu tinha que pegar meu exame de HIV, roleta-russa da vida. Toda ela diante de meus olhos. Era como consultar o Oráculo na Grécia antiga, um pedaço de papel que vai definir seu destino. Segui sozinho pelas ruas imundas de São Paulo, acompanhado pela presença invisível de Tarsila. Parei no boteco mais sujo e vomitei todas as desilusões na privada. Um sonho escorreu pelo chão e foi devorado pelos ratos.

19 de junho de 2005.

Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais“ . Ele foi pioneira na criação de newsgames (jogos jornalísticos no Brasil) e toca na Banda de Bolso.

Leia também:
-Preto no Branco: Um palhaço triste e uma mina indecisa
-Estudantes de comunicação no Fórum Social Mundial 2005

Colegiais passeiam no zoológico humano.

Esse conto eu escrevi durante a faculdade, em 2005, para um livro que eu estava bolando chamado “Amor em Tempos de Aids”. Acabou que meu primeiro livro mesmo foi o “Canções para ninar adultos” e eu integrei este conto num romance que vai chamar “Memórias de um perdedor”.

***
Colegiais passeiam no zoológico humano.

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Pra que servem poemas surreais, poesia concreta e literatura fantástica? Eu já gostei de escrever poemas concretos. E também já gostei de mulher, hoje só transo homem. Putz, quem eu to querendo enganar? Hoje eu não transo nada, nem homem, nem mulher, não como nem bunda peluda. Sou um perdedor, um maldito fracasso, uma estrela cadente ardendo no espaço. Um cachorro faminto esperando a gorjeta, eternamente caído numa imunda sarjeta.

A vida anda passando a mão em mim, ouvi em algum lugar. Foi uma poetisa. “Parece que quem ta me comendo é o tempo”, ela falou também. Isso eu percebi de longa data, o tempo ta me devorando, e eu aqui: alguns litros de pinga, um punhado de lágrimas, sonhos imbecis, um monte de bosta dentro do corpo. O que eu mais tenho pra oferecer pros outros é isso: bosta.

Escutem essa, meus vizinhos são todos uns pobres de merda. Ficam o dia todo ouvindo música ruim nas rádios Am e nos fins de semana matam um gato e assam. Eu finjo que gosto de pobre, mas tenho nojo. Acho que pobre é pior que cocô de cachorro. Queria morar num mundo onde todas as pessoas fossem bonitas, ricas e cheirosas. Um mundo onde todos morassem em shopping centers enormes e todas mulheres tivessem implantes de silicone. Meu vizinho trabalha de dia e a mãe dele ouve uma rádio evangélica e música sertaneja, enquanto isso. Quando ele chega, à noite, ouve rap e rock n’ roll. Tem um funk que ele gosta assim, ó: “Se dinheiro fosse bosta, pobre ia nascer sem cu”. Poético, um brinde a verdadeira música popular brasileira! Esse é o lirismo dos novos tempos! To de saco cheio, sabe como é? Ninguém gosta de gente feia, quem nasce feio só se fode. Eu sei disso, fui feio pra cacete na adolescência. E como disse Joãozinho Trinta: “Pobre gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual”. E universitário, claro, meu amigo Joãozinho. Lá na faculdade, Universidade Infernal Paulista, eu curso Ciências Sociais e todo mundo quer salvar a terra, todo mundo quer discutir miséria e valorizar a “cultura regional tradicional”. Um monte de molequinho, playboy, maconheiro, que nunca chegou perto dum pobre de verdade, nunca sentiu o cheiro azedo de um viciado em crack, nem comeu churrasco de sebo no fim de semana… E sorte deles! Ninguém deveria ter que conviver com essas belezas exóticas, o mundo tinha que ter sido escrito assim ó: um poema parnasiano.

Lembro até hoje do dia em que minha escola foi fazer uma excursão pra visitar o zoológico humano, abre aspas: “periferia”. Era uma escola de padres, muito caridosa e a intenção dos padrecos era levar o pessoal pra conhecer a REALIDADE. A realidade assim, no duro, sem erro de impressão, com r maiúsculo mesmo, meu bem. Eles resolveram pôr minha classe numa perua pra doar cesta básica lá numa casa onde o filho tava preso e a irmã tava morrendo de AIDS. Nossa, gente, que educativo! Fiquei puto da vida e me senti numa excursão pro Circo de Aberrações. Algumas pessoas estavam levando o negócio a sério, outros estavam de saco cheio, outros iam se sentir muito tocados e começar a doar um real de dízimo na igreja ou fazer caridade. Ou dar uns trocados pros moleques que vinham pedir moedas perto dos trailers de lanche. Trocados não, comida ou roupa porque pra pobre não se pode dar dinheiro… Vai que eles compram droga, né? Meu Deus do céu, esses pobres são fogo, se a gente não toma conta os bichinhos vão lá e gastam dinheiro em pinga! Então vamos lá com a perua dos padres, dar uma cesta básica e ver como é estar morrendo aos poucos de HIV. Assim, a molecada pensa duas vezes quando for transar sem camisinha, porque a AIDS é uma das poucas coisas realmente democráticas no mundo, tal qual morte e dor de corno. Deveriam incluir a AIDS na constituição dos eSTADOS uNIDOS, afinal, não são eles os defensores da liberdade e da democracia?

Bem, eu já estava praguejando dentro da perua, mas isso era esperado, afinal, eu era o rebelde da classe, não acreditava em dEUS e tinha uma banda de rock. Nossa senhora, como eu era um garoto mal! Talvez eu até conseguisse limpar a bunda sozinho com um pouco de paciência. Enfim, estávamos saindo da escola e, sem que eu ficasse muito surpreso, a merda da perua começa a guiar em direção à minha casa. HÁ,HÁ,HÀ, já até podia ver a cena. Essa é a casa do coleguinha de vocês, Ernesto Samsa. A mãe dele é professora e vive com o cheque especial estourado, o vô dele ajuda a família e eles tomam refrigerante todo fim de semana. Ou talvez, eu tivesse me esquecido, mas a Gabriela podia estar com AIDS e o Marcelo preso. Não, a perua não parou em casa. Eu também era mais um bundão da classe média. Baixa, mas classe média: com escola, comida, televisores e carro na garagem. dEUS seja louvado, já nos dizia a velha nota de um real.

Bem, como eu ia escrevendo: a perua não parou em casa. Parou ali na rua transversal, no vizinho. Há meio quarteirão do meu lar doce lar. Lindo, se algum vizinho me vê naquela comitiva da ONU o que vão pensar? Ou vou ser o cara mais metido do bairro, ou talvez me torne um São Francisco de Assis auxiliando todos que moram lá perto, com cestas básicas e palavras de esperança. Nem a pau, já até lembrei quem é o tal que ta preso, o Tiziu, amigo dum conhecido do meu irmão. Os dois tinham assaltado uma vendinha, pelo que eu sabia, viviam envolvidos em treta. To fora, a perua pára na frente. Eu pulo rápido e ando uns 30 passos.

Sabe o que eu to pensando agora? Talvez eu tenha ficado com vergonha pelo zoológico ser minha vizinhança, talvez todo mundo que estivesse naquela perua nem se lembre desse dia. Pra todos pode ter sido só um dia qualquer, no qual fomos dispensados um pouco mais cedo. Quem sabe, se você cutucar a memória de um daqueles moleques, cinco anos depois, eles lembrem da boa ação que fizeram. E lembrem também de como comentaram com seus pais durante o almoço, assim que chegaram a suas casas. E como pensaram: “Sou um felizardo, tenho comida e minha irmã não está morrendo de AIDS, numa casa podre com muro de troncos de madeira”.

Eu não esqueço, essa merda de dia ficou marcada no meu diário de perdedor, fiquei puto na hora. Trinta passos e to na minha casa: bonita e espaçosa, tem três televisores e a gente sempre toma refrigerante no fim de semana. Coca-Cola, nada de “genéricos”. Minha casa é um feudo da classe média, em meio à barbárie, mesmo assim eu não tenho o prazer de esquecer a merda do mundo. Eu não tenho esse direito e dou graças a dEUS por isso. Aquele dia os moleques da escola de padres conheceram os pobres, voltaram para suas casas, como se tivessem assistido a um bom filme, e dormiram tranqüilos. Quando uma menina rica foi estuprada e um jovem de classe-média foi seqüestrado e morto eles clamaram por segurança, preocuparam-se com as “questões sociais”, ou deixaram de sair de casa no fim-de-semana. Depois esqueceram o resto do mundo, de novo. Eu to alerta, essa porra é um campo minado. Enquanto tiver gente comendo churrasco de sebo no fim de semana, ao mesmo tempo em que nossas famílias vão comer fora algo requintado, a panela de pressão vai permanecer apitando. E um dia ela estoura.

Bosta, e eu continuo sem mulher e sem poesia concreta. Pra que servem poesia concreta e mulheres num mundo desses? Li um conto lindo dum colega de ciências sociais sobre “um pé de manga que crescia nos céus límpidos de sua imaginação multicolor”. Talvez seja uma metáfora sobre a vida, a “nossa vida”, ou talvez ele só tenha um pau pequeno. Sei lá, nessa merda de mundo eu não perco tempo escrevendo firula, não sei se isso tem utilidade. Agora, uma mulher eu sei que pode adiantar pra alguma coisa ou outra. Isso que me deprime.

(17/07/05)

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Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais“ . Ele foi pioneira na criação de newsgames (jogos jornalísticos no Brasil) e escreve sobre felicidade no Glück Project.

Procurando sexo numa noite chata.

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Alessandra Negrini num clássico ensaio para a revista Playboy, onde encarnou uma prostituta

_Abra a boca, senhor Ernesto, um pouco mais. Isso! O senhor assistiu o jornal ontem? Mataram aquela freira que defendia os sem-terras.

O dentista sempre pergunta coisas que a gente não pode responder, não com todos aqueles aparelhos e brocas enfiados na garganta. Eram duas: a dentista e sua assistente. Pareciam saídas de um programa humorístico. Faziam piadas o tempo todo, comentários que você não podia responder. Eu poderia comer as duas, sem dúvida. Juntas. Minha cabeça doía. E minha boca ainda tinha um gosto estranho. Ressaca…

***

Tínhamos comemorado o aniversário do Marcelo ontem. Como nos velhos tempos. Os quatro amigos sentados em um bar naquela quentíssima cidade do interior. Cidade de terceiro mundo na entrada do século XXI. A cerveja era barata e tinha uma faculdade fuleira lá em frente. Passavam umas moças de minissaias e a gente ficava feliz só de ver. O Lucas e o Flávio estavam lá sentados. O Flávio tava virando intelectual e lia um livro atrás do outro. O Lucas estava virando velho e estava mais gordo e mais careca que nunca. Ia morar junto com a namorada agora. C’est la vie. Pedimos mais cerveja e brindamos mais um ano do Marcelo.

Passou meia-hora e chegaram mais conhecidos no lugar. Convidaram a gente para sentar, mas eu não queria. Gente CHATA, conversa desinteressante. É horrível fingir interesse por alguma merda desinteressante. Setenta por cento das pessoas no mundo são CHATAS, eu acho. Setenta e cinco por cento vai! As mulheres bonitas podem ser um bocado CHATAS, mas os caras sem chance! Nunca comeria um cara, ainda mais um cara CHATO. Às vezes, eu finjo interesse e encaro uma conversa com um desses tipos. Uma conversa que não vai me levar a lugar nenhum a não ser uma enxaqueca e a sensação de ter perdido o dia todo inutilmente. Sem fazer nada. Odeio fazer coisas por obrigação. Burocraticamente. Gosto da vida com paixão.

O dono do bar tava expulsando a gente. Certo. Um dos caras disse pra irmos prum bar de putas. Ninguém tava afim, ainda. Fomos pra outro lugar aonde tinha uns músicos CHATOS com violão e teclado. Tocando canções populares e CHATAS. E cobravam “couvert artístico” a mais da gente. Eu queria que eles abaixassem o som. Dava vontade de pagar pros bastardos ficarem quietos. Tudo bem, chegamos tarde e eles logo pararam de torturar. Mais cervejas, conversas CHATAS. To com um puta buraco no estômago e sem grana. Nunca saio com muito dinheiro porque nunca tenho muito dinheiro. Sempre tenho que escolher entre beber ou comer. E na maioria das vezes acabo bêbado.

Bom, estão expulsando a gente daqui também. O dono do bar não parece ser um cara bem decente. É um japonês explorador e sempre erra o troco. Sempre dá dinheiro a menos. Puto! Os casais que estavam com a gente dão o fora. Casais são CHATOS e usam apelidos carinhosos o tempo todo, isso me arrepia. O amor é ridículo. Eu sou ridículo quando amo e chamava minha pequena de “bebezinho”. Ponto. Matem o autor. Ele é um tremendo CHATO.

_ Vamos atrás dumas putas!
_ Nada disso. _ Eu digo. _ Não pago por sexo.
_ Foda-se, a gente só vê elas dançando. No Star Drinks é dez reais com direito a uma cerveja e striptease.
_ Não tenho dinheiro nem pra comer um lanche, quanto mais uma mulher. E na minha situação um lanche é mais quente que uma mina.
_ Vamos pro bar da Márcia então, lá a entrada é grátis e pode ter uma puta cansada a fim de conversar e fazer uma chupeta de graça.
Nessa hora todo mundo era macho: o Lucas que tinha namorada e não traía, o Lorival que tava fazendo a proposta e também tinha namorada, o Porcão que era um gordo CHATO. Todo mundo menos eu, que tava cagando de fome.
Entramos nos carros. Noite quente, cidade vazia. O álcool só aumenta a solidão, estimula os hormônios. O desejo é um demônio que espreita o ser humano. Juventude e drogas só liberam o monstro. Dois carros na rua. Dois caras no da frente, quatro no nosso. Um pedaço de mau caminho, mini saia, sonhos possíveis e cabelos loiros adiante. Todo mundo grita como um bando de porcos! Assovios, juras de amor. Ela ri, de longe tem no máximo vinte anos.

A noite não está tão CHATA assim.

Peço pro Lucas parar. Ela continua vindo na nossa direção. Grito: “Ei moça, quer uma carona”. Nada. Ela mais perto. O Flávio repete. A pequena sorridente: “Ah, vou aceitar”. Entra no carro. Testosterona no ar. Paus enrijecidos. Imaginação levando até uma orgia.

_ Aonde você tava indo?
_ Tava procurando um bar aberto.
_ Onde você mora?
_ Moro em X (X é um bairro bem distante!).
_O que você ta fazendo aqui?
Silêncio.

O cheiro dela é uma mistura de suor, perfume vagabundo e álcool. Sexo pago. Ela parece estar entorpecida. Não esbanja muita reação. Responde às perguntas de forma burocrática. CHATA. Meu pau amolece. Chegamos de volta à rua do segundo bar. Paramos. Ela desce e os dois do outro carro também. O Porcão fala com a moça. Ela vai comprar cerveja. Sandalinha. Blusa de alcinha. Senta com as pernas abertas. Olhar perdido.

_ Porra! Como vocês deixaram essa mina ir embora? Vocês tinham que ter segurado ela. Começar a passar a mão no carro mesmo!
_ A culpa é do Ernesto!
_ É, vacilão! Ela deveria ter ido do meu lado!
A moça volta, nem anjo e nem demônio. Pra dizer a verdade nem parece humana. Um pedaço de carne pros caras devorarem. Um zumbi pra mim. Zumbi sem desodorante. Já não me excito com suas pernas roliças ou sua bunda carnuda. O gordo joga sua lábia. Parece um rinoceronte, barriga enorme, sua muito. Ela conta sem descrição quantos caras são.
_ Você não quer sair com a gente?
_ Fazer o quê?
_ Tomar uma cerveja, conversar…

Segundos de relutância. “Tá certo, mas eu vou com vocês que o outro carro ta meio apertadinho.” Capto a mensagem. O outro automóvel é um carrão, um Golf. Falo pro Lucas que é melhor irmos embora. Ele quer seguir o Lorival. Todos querem devorar a loirinha. Paramos numa rua escura. Os dois carros emparelhados. Eu só ouço alguns sussurros. Os vidros traseiros fechados. O gordo bolinando a moça. A voz do Lorival: “E, ai?” “Você agüenta seis?” “Tá certo”.
_ Pessoal, ela quer quarenta reais!

Quarenta conto?! Tô fora! Prometi pra mim mesmo segurar a onda no sexo, se estivesse limpo de AIDS. Não tenho coragem suficiente. Sexo em tempos de HIV é uma merda e tanto.
_ Cara, eu vou broxar se comer ela com vocês. Imagina o gordo pelado! – É o Marcelo.
_ Eu tenho namorada. _ O Lucas.
_ Eu como._ O Flávio.

Flashback. O diálogo que se passou no carro. Câmera fechando na cara do Lorival.
_ E ai, os pega?
_Que pega?
_ Os corre.
_ Que corre?
_ Os pega do corre.
_ Não to entendendo, moço.
_ A gente quer te comer..
_ Ah… Eu não vou dar pra seis caras de graça…
_ Quanto você quer? Vinte reais?
_ Vinte é muito pouco, dez reais de cada um, assim eu posso comprar o material escolar.
_ Quantos anos você tem?
_ Dezoito.

Ela tem no mínimo vinte e três anos agora, vendo de perto. Cara cansada.
_ Quarenta reais!
_ Quarenta ta bom.
_ Você agüenta seis?
_ Agüento. Mas vai um de cada vez, né?
_ Isso depende da empolgação na hora.
_ Hum… Moço, pede pros seus amigos me deixarem em casa depois.

Volta pros carros emparelhados. Ninguém é mais macho.
_ Deixa quieto, então. Ela pediu pra deixá-la de volta no segundo bar.
_ Deixa ela aí… _ o Lucas.
_ Vamos voltar, lá!

Alessandra Negrini encarnando uma prostituta nas páginas da revista Playboy

Alessandra Negrini encarnando uma prostituta nas páginas da revista Playboy

Voltamos. Eu to quieto. O Flávio xinga: “Eu comia, eu comia”! Nem a pau! Os caras deixam ela. Mal a mina sai e eles reclamam: “Que catinga!” “Fedorenta!”. Fico com dó. Mas da pra sentir o cheiro saindo das janelas abertas. Paramos em frente ao primeiro bar. Tá fechado agora. O Marcelo distribui cigarros, todos fumam a derrota. Ninguém é mais macho. O Lorival tira o corpo fora. Eu digo:
_ Ela queria os dois, vocês deviam ter ido com ela.
_ Nem a pau! O Porcão que queria comer ela.
_ Eu não! Credo! Só pus a mão nos peitinhos, se não tivesse fedendo quem sabe…

Sentava com as pernas abertas, só não pus a mão lá, porque fiquei com nojo…
Ninguém é mais macho, são todos CHATOS. Fim de uma noite CHATA, em uma cidade CHATA. Ponto final em mais um de meus chatíssimos Kontos.

06/03/05.
Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais“ . Ele foi pioneira na criação de newsgames (jogos jornalísticos no Brasil) e escreve sobre felicidade no Glück Project.
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