Preto no Branco

-Leia mais contos aqui

Eu escrevi esse conto quando morava em Bauru e estava terminando a faculdade. Uma versão atualizada dele faz parte do meu primeiro livro, “Canções para ninar adultos“, lançado em 2012 pela Editora Patuá.

palhaço-negro

Mesmo o cara que pode conquistar todas as mulheres do mundo é infeliz se não tem a mulher que ama. Eu estava tão triste que parecia que tinha uma gilete rasgando o coração numa bacia de álcool. Tristeza dói. Auto-piedade ameniza um pouco. Tava tudo escuro no quarto, não conseguia dormir. Tinha deitado às onze horas, revirava-me na cama, rolava de um lado pro outro. Onze e quinze. Pensei de novo na Clara, conversava com ela mentalmente, só assim a menina me escutava. Onze e meia, acendi a luz, li um conto do Rubem Fonseca, história maluca, não dava sono, apaguei a luz, tinha entrevista de emprego amanhã, repassei o que podia e o que não podia dizer. Quinze pra meia noite, vou até a cozinha, o filtro ta quebrado, encho o copo d água da torneira, tem gosto de lodo e consistência de barro. Tem gosto de derrota, sou um perdedor, pelo menos nisso sou bom. Na geladeira um punhado de contas, um punhado de fracassos, números de pizzaria. De que me adianta? Não como uma pizza há seis meses, preciso de um amigo com uma condição financeira melhor que a minha pra pagar.

Olho o caderninho de endereços buscando alguém que esteja com a corda mais frouxa no pescoço do que eu. Os sonhadores de hoje são os fracassados do amanhã, ta todo mundo rolando na sarjeta. Edgar queria ser cineasta, agora trabalha de balconista numa vídeo-locadora. Silas, o mais inteligente da classe, fazia parte do movimento estudantil, terminou com a namorada, transou com sua melhor e mais gorda amiga e engravidou a mulher. Uma noite, uma maldita camisinha que estourou, e o cara tem que sustentar uma família. Francisco era poeta, bebeu tanto que ficou louco, outro dia encontrei caído na rua, tinha cagado na calça, fingi que não conhecia, tive nojo. Não devia fazer isso, nós éramos amigos naqueles tempos. Quando as coisas estão boas todo mundo é muito amigo, eu era uma mina de sonhos e hoje em dia animo festas como palhaço. Se você é mais azarado que eu, por favor me escreva uma carta.

Mais um mês sem pagar telefone e cortam a linha de vez, agora só recebo ligações. A luz ta pra estourar.Volto pra cama, não dá pra dormir com tanta coisa pra resolver. Rolo pra direita, não consigo achar a posição certa, não consigo achar conforto. Penso na Clara, penso em sexo, dois meses sem trepar, isso não acontecia quando tinha vinte anos. Puta merda, vai ter que ser assim de novo, meia noite e meia. Vou a banheiro, me masturbo. Dá uma aliviada, quase como fumar um baseado. Volto pra cama e durmo.

_ Clara, eu descobri o mal de todo nosso problema.

“Sim, meu querido, ela parece dizer”.

_Agora nós não precisamos mais discutir, você vai ser eternamente minha.

“Eu sempre fui sua, amor”.

_Olha aqui, arranquei sua língua com a faca!

“Ela tem o sorriso mais lindo do universo, mesmo sem a língua”…

Acordo, atrasado de novo, tenho entrevista de emprego e depois festa de crianças para animar. Vendo felicidade, toda minha alegria artificial é sugada pelas crianças imbecis. À noite fico só, com a maquiagem no rosto, o palhaço mais triste do planeta.

Chego em casa, só o osso, completamente infeliz, vazio. Sou um aborto, uma merda cagada por uma dona de casa em uma maternidade pública. Sempre tive medo da morte, mas agora já não me divirto com a vida. Cortaram a luz, o telefone ainda toca. Desisto de atender, olho pro espelho, a maquiagem está borrada por lágrimas. Sou um palhaço triste, ta ai meu epitáfio.

***

sad-little-girl-clown-patty-vicknair

Um dia iluminado para uma menina dourada: Clara, um metro e setenta, mas queria ser mais alta. Cabelos loiros, mas queria ser ruiva. Olhos verdes, que podiam ser azuis. Clara não estava satisfeita com a vida, mas não queria morrer. Tinha dúvidas sobre tudo:

1975, nasce Clara Alva. Demora para sair do útero materno, hesita. Dois dias de atraso, a mãe morre no parto. Clara suspeita: “Terá sido culpa minha?”

1980, aos cinco anos o vovô pergunta a Clara: “Meu docinho o que quer de aniversário, pede o que quiser que o vovô dá”. Clara pensa, pensa, pensa, mas fica em dúvida. Uma viagem para Disney é melhor que uma casa na árvore? Seu Francisco Alva morre sem saber a resposta.

1990, aula de religião. “Então Deus criou o mundo, certo”? A menina balança, não tem nada contra Deus, nem a favor, mal o conhece. Quando ora, nunca sabe para quem pedir proteção, à alma da mãe ou ao pai que ficou sozinho. Desiste e vai dormir depois do Pai Nosso. “Então Deus criou o mundo, certo”?

_Não, sei.

_Como não? Você não acredita em Deus?

_Não, sei.

_Não sabe, como assim não sabe? Você quer ir para o inferno?

_Não sei…

_Menina, você está ficando louca? Não aceitamos ateus nessa escola.

Expulsa do colégio de freiras, o pai fica preocupado. “Por que você fez isso, minha filha?” Mas não houve resposta. Clara é uma menina muito bonita, mas quase não têm namorados, sempre titubeia para escolher com quem ficar.

1993, ano de prestar vestibular. Tem dúvidas entre Ciências Sociais e Comunicação Social, não sabe se deve tentar ganhar dinheiro ou se deve seguir seus sonhos. Não sabe se deve comer bife ou se tornar vegetariana. O pai pede que preste fonoaudiologia. Indecisa, acaba aceitando.

1997, forma-se sem brilho. Não sabe se é realmente o que quer da vida. Fica um ano desempregada até que o pai lhe arruma um emprego trabalhando com surdo-mudos.

1999, um ano trágico para a menina. Seu noivo Juan Silva, suicida-se. Suspeita-se que o rapaz não agüentasse mais a indecisão de Clara sobre o casamento, afinal, desmarcaram a data quinze vezes. Desesperado Juan foi a sua casa, olhou em seus olhos verdes e falou:

_Clara você ama outro homem?

_Não sei, Juan.

_Clara, você já amou alguém?

_Não sei, Juan, gosto de você, mas não sei se o suficiente…

Atirou-se do décimo andar. Na dúvida, se estava triste ou não, preferiu evitar as lágrimas no velório.

2001, mais um ano difícil. Dimas Alva, pai dedicado, está com câncer. “Deve ser muito triste perder o pai, para uma garota que nunca teve mãe” “Talvez”, ela pensa. Em seu leito de morte o patriarca sussurra: “Filhinha, dediquei toda minha vida a tentar solucionar sua eterna dúvida, não sei se falhei ou não, mas te amo”. Ela ficou quieta. O pai morreu sem paz. “Funerária Bom Pastor” ou “Descanso Eterno”? Nova dúvida. O corpo começava a feder, a família tem que tomar uma atitude drástica. Enterram Dimas como indigente.

2003, está na cama com Juliano. Sua pele branca contrasta com o negro da pele do palhaço triste. Não sabe se o sexo é bom ou ruim, não sabe se já teve um orgasmo na vida ou não, acha que gosta do rapaz, mas não pode ter certeza. Pensa em fundar uma ONG: para ajudar cachorros sem dono ou anjos sem asas.

negro-branca-casal

2004, prefere terminar com Juliano porque não sabe se quer namorar ou não. O rapaz entra em depressão, não sabe se sente compaixão ou arrependimento. Passam-se trinta anos. Não sabe se a vida é boa ou ruim.

2005, tenta ligar para Juliano. Pode ser que queria reatar, ou talvez seja apenas um pretexto para uma boa conversa entre amigos. Ninguém atende, tem vontade de ligar de novo, mas o rapaz pode entender tudo errado.

2034, Uma mulher vestida de negro bate em sua porta. Talvez a conheça, pergunta se: “Devo chamá-la para entrar ou não.” A estranha acaba sentando-se na sala. Sabe seu nome e fatos relevantes de toda sua vida. “Mas como? Nunca a vi antes.” A mulher é muito pálida e usa um lenço na cabeça. Traz um caderno com diversas datas nas mãos.

_È uma oferta, você nunca decidiu nada na vida, passou-a observando em dúvida, nunca arriscou ou apostou. Ofereço-te a chance de voltar ao parto e viver tudo de novo.

Hesitou. Pela última vez. Sentiu uma dor no peito aguda que lhe garantiu a certeza de alguma coisa. Os olhos pararam. Pela primeira vez não teve que decidir nada. A mulher de negro levou-a para sempre.
13/08/05.

Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais“ . Ele foi pioneira na criação de newsgames (jogos jornalísticos no Brasil) e toca na Banda de Bolso.

Leia também:

-“Gênesis”: Pai esmaga o pé de todos os filhos recém-nascidos

-Joguei meu iPhone nas águas sujas do Tietê

Amor em tempos de AIDS.

-Leia mais contos

Escrevi o conto abaixo quando era um estudante de jornalismo na Unesp-Bauru, em 2005. Ele foi inspirado numa reportagem da Rolling Stone americana sobre barebacking

images-1

Amor em tempos de Aids
Reportagem de Brando Trevisan para o Diário do Fim do Mundo.

Levantei sentindo-me jornalista uma vez na vida. Foi um dia qualquer em um junho nublado, triste e frio. Tava com dor no coração, mas suspeitava que fosse só um pouco de frescura. Arranquei a artéria aorta direita e coloquei num potinho de vidro escrito “alma”. Alma?! O que aquela porra tava fazendo ali? Era pra ter vendido fazia tempo… Dei uma olhada nos classificados: “Hum, ninguém anda pagando bem por almas de jornalistas. Tá certo, quando eu acordar sentindo-me médico tento vende-la por um preço melhor”.

Fui ao banheiro, era rosa e tinha bidê. Sentei na privada e pensei na vida inteira. Eu e Tarsila conversando. Dizem que a vida passa inteira diante dos seus olhos quando você vai morrer, a minha passa inteira diante dos meus sempre que sento para evacuar. Não há lugar melhor para meditar que uma latrina. Passo dois: bidê. Banheiro é um bom lugar para ficar só. Queria morar num banheiro para sempre. Saí de lá, peguei o colchão e o travesseiro e arremessei tudo perto do chuveiro. Quem precisa de quarto quando se tem pia e chuveirinho? Aquilo sim ia ficar bom, um ambiente íntimo em fim… Onde eu tava mesmo? Saco! Drogas fodem tua memória, mas vamos lá: Nasci na metrópole, fui pro interior, tomei um soco na cara na quarta série, tive cachumba com dez anos… Ah sim!
“Fui ao banheiro, era rosa e tinha bidê. Sentei na privada e pensei na vida inteira. Eu e Tarsila conversando:”
_ Brando preciso de espaço, você me sufoca.
_ O problema é sexo?
_Você gosta muito de mim, querido! Eu não tenho certeza do que sinto por você…
_O problema é sexo?
_ Acho que eu não estou preparada para um compromisso tão sério, tenho medo de não corresponder às suas expectativas…
_ O problema é sexo?
_ Brando, você sabe que pra mim isso é um mero detalhe, a questão é que eu não sei o que sinto ao certo. Eu sou tão complicada…
_ Se o problema não é sexo, eu posso te tratar mal, então.
_ Não é isso, meu querido, as mulheres precisam de segurança. Elas precisam ser amadas, mas…
_ Então, o problema é sexo.
_ Ah! Vocês homens nunca vão entender…
_Você ta virando lésbica, Tarsila?
_Quem, sabe, mon amour, quem sabe…
_ Saco, o problema é sexo, então.

Debaixo de toda psicologia, todas as angústias e incertezas o homem é um animal movido a duas coisas: desejo de se reproduzir e medo de morrer. Era isso, a vida para mim passava em preto e branco. O segredo era arrumar alguma coisa que se gosta para fazer. Cocei minha careca: eu era durão, tinha uma boa pegada e tal, mas gozava rápido e tinha um pau médio. Tarsila não podia suportar aquilo, a sacana ficava com toda aquela história sentimental, mas eu sabia que tudo dependia de um orgasmo. Afinal, eram seis meses sem um mísero orgasminho. Um gozo se quer. Nada! E eu tentando de tudo: língua, dedo, fios de cabelo e massagens tântricas. Sempre aquele final frio; eu uivando de prazer e ela olhando pra minha cara com o semblante de: “Patético, já acabou o escândalo, mocinho”? Fechava os olhos e dormia logo em seguida. Sentimento de impotência, preferia ser brocha. Agora, ela namorava a Ana, uma lésbica linda de cabelos ruivos. Devia gozar borbotões com aquela língua molhada em suas coxas. Eu nada. Sentado na privada, pensando na vida, imaginando um diálogo que nunca chegamos a ter. “O PROBLEMA É SEXO”? Porra, se o problema não é sexo então fiquemos mudos e nus pelo resto da vida, tudo mais não me importa. Agora sou um zumbi a serviço do jornalismo objetivo. Levantei do banheiro com a bunda molhada e limpa, cheirei uma carreira de pó com aroma de massa corrida. Não se fazia mais cocaína como antigamente.

Vejamos o que se deve cobrir nesse mundo caótico. Com certeza seria mais algum maluco-neurótico-freakie querendo seus quinze minutos de fama. Saco, deixem-me em paz! Pensei em inventar uma matéria sobre um cara que estava leiloando seu corpo para um canibal, só que lembrei que tinha acontecido de verdade: não havia espaço para poetas no mundo de sonhos em que vivíamos. O que seria de Allan Poe no século XXI? Mais um repórter retratando o dia-a-dia, meu Deus! O homem comum era, cada vez mais, um personagem de histórias fantásticas. Ta certo, vejamos a pauta. Ai, saco, de novo! Tenho que pegar o exame de HIV. Trepei sem camisinha. Mais uma vez! Jurei que a Tarsila ia ser a última. “Eu te amo” para mim tinha cara de “Eu sou HIV negativo”. Puta, cara ingênuo, sou durão só com os entrevistados, na vida não passo de um banana com pau médio e que goza rápido. Puta, bostão! De que servem todos esses livros na estante e essas idéias na cabeça, se não consigo ficar dentro de uma mulher quinze minutos consecutivos? PUTA SACO DE NOVO E DE NOVO! Será que eu tinha rodado dessa vez? Transar sem camisinha é uma roleta-russa. Ninguém anda com um crachá escrito “soropositivo”. Nem eu. E se o resultado fosse positivo? Quantos anos iam me restar? Ia morrer sem ter filhos, sem escrever um livro. Pelo menos plantei uma árvore. E escrevi jornalismo. Posso adotar um moleque. Ai, que fracasso! Vida desgraçada!
E pior, como eu ia saber se tinha dançado com a “fulana” ou com a Tarsila? Ia ter que ligar pras duas, perguntar, pedir para fazerem o teste, me expor. Pára, Brando, pára! Nada disso, você está saudável, primeiro fazer a matéria e depois pegar o teste. Vamos ver, a pauta deve ter chegado por e-mail. È isso, vamos ligar o computador e ver o que nosso querido editor nos mandou.

“Bug Chaser”. Putz, informações em inglês vindas da revista Rolling Stone. Será que era matéria musical? Saco, odeio rock n’ roll, cara! Será que não podiam me mandar alguma coisa de esportes ou algo do gênero? Quem ta ligando pro rock n’ roll? Acho que nem os adolescentes dão importância mais! Vamos lá: O que significa isso, mesmo? Inglês enferrujado pra burro, hum…

“Nova febre no underground gay: os bug chasers são adeptos de uma prática que consiste em transar sem camisinha com a intenção de se contaminar com o vírus HIV. Eles chamam o vírus de “a dádiva” ou “o presente” e disputam a tapas parceiros que possam contaminá-los. A emoção está em transar sem camisinha, nunca sabendo se foram contaminados naquela noite ou na próxima. Existem milhares de sites e grupos de bate-papo na internet que estimulam e discutem essa prática. O fato de os coquetéis aumentarem a qualidade e o tempo de vida dos soropositivos é um fator estimulante para esse perigoso fetiche”.

Grande e santo, SACO! Parei de ler, fui ao banheiro e vomitei. Aquilo era brincadeira, né? Justo naquele dia! Eu morrendo de medo do resultado do teste de sangue e minha querida editora me presenteia com uma matéria daquelas? Sacana, eu podia matá-la se não fossem aqueles pezinhos lindos. Pés pequenos, com unhas vermelhas em sandalinhas pretas usadas sempre com saias e minissaias. Eu nem olhava pra cara dela enquanto a ouvia falar. Só tinha olhos para aquele par de pés e seus dez dedos livres de meias ou sapatos. Eu podia chupar aqueles pés por horas sem nem tocar no resto do seu corpo. Uma mulher com um poder daquele não podia ser assassinada a sangue frio. Droga, mas aquela matéria tinha me deixado nervoso. Como alguém conseguia ser tão doente? Vamos ver:

“Há clubes espalhados pelos Estados Unidos em que a prática do sexo sem camisinha é estimulada. São realizadas orgias em que diversos homens se penetram sem proteção. O medo e a adrenalina estimulam esses homens a por em risco a própria vida. ‘Tem pessoas que praticam roleta russa, tem gente que pula de pára-quedas, nós só queremos emoções fortes’”. Emoções fortes? Filhos da puta! Deus deveria trocar cada criança nascida soropositiva por um maluco desses. Eu estava no Brasil, agora, aonde iria achar um desses dementes? Internet, certo, a rede era responsável por noventa por cento dessas taras estranhas.

Peguei um pouco de café na garrafa térmica. Estava frio, mas bem forte como eu gostava. Enchi de açúcar e creme. A cozinha estava uma bagunça: comida natural, drogas sintéticas, hambúrguer de soja. Que zona dos infernos! O Francis tava babando no chão. Era um buldogue gordo que tinha esse nome em homenagem ao Paulo Francis, meu herói num jornalismo sem firulas. Paulo Francis morreu de tanto fumar. Eu podia morrer de tanto cheirar. “Viva rápido e deixe um cadáver jovem e bonito”. Eu tinha cabelo raspado pra disfarçar a careca e os fios brancos. Olhos azuis pequenos que ainda chamavam a atenção de mulheres suicidas. Meu corpo não era dos piores; quase trinta e nenhuma barriga. Fazia cem flexões, dia sim, dia não, e meditação uma vez por semana. Se eu parasse de tomar pílulas talvez voltasse com a Yoga.

Certo, enchi um copo com café preto e abri a geladeira. Estava quase vazia, mas tinha o que eu precisava. Doce de marolo. Sim, um doce mineiro delicioso que eu comprava sempre que voltava pra minha terra natal. Num mundo high-tech nada como manter um pouco das raízes. E eu tinha raízes, não importava que elas estivessem bombeando seiva podre e viciada para o resto do meu corpo. Agora, mãos a obra, um jornalista nunca pode ficar parado!

Sentei ao computador, conectei a internet. Digitei as palavras mágicas: “Malucos por HIV”, nada. Fui colocando um a um os termos em inglês. Comecei uma busca por fetiches na rede mundial de computadores: Incesto, zoofilia, sadomasoquismo, estupros. Tinha gosto para todas as fantasias bizarras na rede. O anonimato é um passe livre para nossas fantasias animalescas. Tinha um professor de Yoga que dizia que acabando a luz elétrica do mundo o homem voltaria a ser bicho. Aí, seria cada um por si.

Fotos de mulheres posando de meninas, com roupas de colegial e poucos pelos pubianos. Velhas trepando e grávidas sendo possuídas por dois caras. Porra, imagina o filho dessas mulheres? Meu Deus, em que mundo vivemos? Salas de bate-papo gays: “E ai, podrão, quer me foder?” Podrão? Achava que os gays eram mais sensíveis e românticos. Acho que ao invés dos homens aprenderem com as mulheres e os homossexuais, todo mundo foi contaminado por nossa brutalidade e testosterona. Era péssimo, um mundo sem sentimentos. Não senti tesão com todo aquele sexo explícito, mas continuei. Recebi propostas para mijar em cima, comer maridos e mulheres, espancar e estuprar. Cada sala de bate-papo, cada clique do mouse me levava para um mundo mais obscuro. Bare backing. Era isso, o nome da prática. Uma descrição da filosofia dos caras em um site: “Eles acreditam que ao disseminar a Aids e torná-la a regra, não a exceção, estarão poupando a si mesmos e a comunidade do medo da infecção e das preocupações com o sexo seguro. Uma lógica invertida graças à possibilidade atual de convivência com a doença”. Cara, em que mundo a gente vive? Eu tava rezando para aquele exame dar negativo e os caras torcendo para serem infectados. “Convertion party” era o nome da balada deles: “O dia da transformação”. Um anúncio num site homoerótico: “Procuro por Gift Givers. Tratar com Carlos, e um e-mail.” Gift Givers eram os caras que se dispunham a contaminar os outros. Muito caridoso, anotei o e-mail do cara e fui procurá-lo em um programa de mensagens instantâneas. Fácil de achá-lo no MSN: “CarlosBugChaser”:

Brandojornalistadocaralho fala pra CarlosBugChaser: Descobri teu endereço num site de Bare backing!
CarlosBugChaser fala pra Brandojornalistadocaralho: Você é entendido?
Brandojornalistadocaralho fala pra CarlosBugChaser:Sou um curioso…
CarlosBugChaser fala pra Brandojornalistadocaralho: Policial?
Brandojornalistadocaralho fala pra CarlosBugChaser: Jornalista…
CarlosBugChaser fala pra Brandojornalistadocaralho: Ah! Achei que você estivesse afim…
Brandojornalistadocaralho fala pra CarlosBugChaser: Você ainda ta procurando um Gift Giver?
CarlosBugChaser fala pra Brandojornalistadocaralho: Na verdade eu estou sempre na procura, nunca sei se fui contaminado ou não. Não faço o teste há um ano. Prefiro ter a ilusão de que cada noite vai ser a minha primeira noite. É como estar sempre perdendo a virgindade.
(Veado, maluco).Respirei fundo.
Brandojornalistadocaralho fala pra CarlosBugChaser: Você pode me dar uma entrevista?
CarlosBugChaser fala pra Brandojornalistadocaralho: Você vai publicar meu nome/ fotos?
Brandojornalistadocaralho fala pra CarlosBugChaser: Tudo depende de você…
CarlosBugChaser fala pra Brandojornalistadocaralho: Quero privacidade, sou professor universitário, não posso me expor assim…
Brandojornalistadocaralho fala pra CarlosBugChaser: Professor do que?
CarlosBugChaser fala pra Brandojornalistadocaralho: Filosofia…

Filosofia? Filosofia? Caramba! Um mundo onde os filósofos brincam de roleta-russa com a AIDS tinha que ser um mundo muito doente mesmo. E eu preocupado com meu relacionamento com a Tarsila… Parecia que ela estava ali, na minha frente, conversando comigo:
_Oi, amor, aonde a gente errou?
_Você sabe que nós nunca tivemos essa conversa, Brando.
_Sei, Tarsila, a gente nunca conversou o suficiente…
_A gente sempre dormia….
_ Você primeiro, sacaninha.
_ Você me deixava muito cansada, querido.
_Achei que você ficava puta porque nunca gozava….
_Às vezes sim, às vezes não, mas nosso dia-a-dia era muito corrido pra transar ou conversar, era um ou outro e você estava sempre querendo transar.
_Me desculpe, Tarsila, nunca fui cem por cento sincero com você.
_ A gente perde muito tempo medindo as palavras, Brando. A gente perde muito tempo esperando a hora certa e depois vê que a hora certa passou…
_Eu to com medo de morrer, Tarsila…
_Se essa fosse uma conversa real eu juro que te abraçava, querido.
_ Você me ama?
_Não, mas você é um puta cara legal.
_Cê, me amou algum dia, Tarsila?
_ Eu achava que não, mas vendo agora, sim. Afinal, eu não perderia seis meses da minha vida com um cara que não me fazia gozar, se não gostasse muito dele.
_ To me sentindo melhor agora, amor, queria que a gente tivesse conversado isso de verdade.
_ Eu sei, querido, você é um meninão que precisa de colo.
_ Eu preciso de você, Tarsila, aonde a gente errou? Quando isso tudo começou?

Estava com minha cabeça apoiada nos joelhos, sentado no chão, encostado na parede do escritório. Tava me sentindo muito mal e sozinho. Aonde a gente tinha errado? Aonde tudo tinha começado a desandar? Teve um tempo em que havia uma esperança: o rock n’ roll tinha Bob Dylan e John Lennon, o homem tinha chegado a Lua, os estudantes tomavam as ruas de Paris, o cinema estava se tornando arte. Os comunistas achavam que a revolução iria mudar tudo e os capitalistas acreditavam que vencendo os comunas o mundo seria um lugar seguro de novo. Todo mundo tinha uma esperança de que as coisas iriam melhorar. Todo mundo acreditava na raça humana. Havia o budismo, a Yoga e a teoria da libertação. Havia amor livre, pílula, revolução sexual. Vacinas, maconha, LSD, estados alterados da mente. Quando foi que a gente se perdeu?

Quando foi que o sonho acabou?

A nossa geração nasceu na ressaca de tudo isso. Nasci em 1978, num mundo sem Hendrix, Morrison ou Joplin. Quando eu tinha quinze anos já não existia Muro de Berlim, nem comunismo e nem rock n’ roll. O capitalismo tinha vencido e as coisas não estavam melhores. Ninguém tinha mais uma coisa para acreditar, não havia mais um horizonte. As utopias tinham morrido. A AIDS castrou toda liberdade sexual. Amar naqueles tempos se tornou proibido. Tudo virou seco e efêmero. A vida feita de surdez e passividade. Surdez e passividade! Quinze minutos do “novo” eram o suficiente. Propagandas, videoclipes, radiação, poluição, câncer, telejornais, efeitos especiais, tv a cabo. Num piscar de olhos trocaram nossas máquinas de escrever por computadores e os computadores passaram a ser trocados de ano em ano. Nossos velhos videogames e revistas em quadrinhos não valiam mais nada naquele mundo novo. Passamos a andar mais rápido para não sermos atropelados pelo futuro. O futuro chegava tão rápido que não se esperava mais nada dele. Só sabíamos que com todas mudanças, nada de novo iria realmente mudar nossas vidas. Então corríamos rápido e pensávamos rápido, para não lembrarmos que a morte estava chegando. Que cada dia vivido era um dia a menos, em que não fizemos nada de relevante. Só apertamos um monte de botões, e nos finais de semana dançamos uma música nova movidos por drogas e luzes multicoloridas. Porque estamos fazendo isso, eu não sei. Só paro pra pensar enquanto faço minhas necessidades fisiológicas, e tudo o que penso é: “Tarsila, onde foi que erramos”?

Porra, tava com a cabeça no meio das pernas quando o telefone tocou, era minha editora. “Brando, você ta adiantando a matéria?” Sim senhora, sim, senhorita. “Eu tenho uma fonte para você, é um imigrante ilegal nos Estados Unidos, pega o telefone”.

Ta certo, além do cara ser imigrante nos Estados Unidos ele é um Bug Chaser… Babaca completo. As hordas bárbaras invadem o império em declínio. “A história se repete duas vezes: primeiro como tragédia e depois como farsa”, já dizia o velho Marx. Lembro dos meus tempos como correspondente em Washington. Paranóia total! Tinha meros 24 anos e escrevia numa revista de música… Foi logo depois daquele troço das torres gêmeas. O clima era de nervosismo, todo mundo esperava um ataque com armas químicas e o presidente Bush preparava a ofensiva contra o Iraque. 2002, estávamos no século vinte e um e eu no coração do poderoso império, cercado por soldados com fuzis, pessoas apressadas e turistas do terceiro mundo tirando fotos de Abraham Lincoln sentado em sua imensa cadeira de pedra. O império estava em crise econômica e moral. Bill Clinton havia sido quase deposto por causa de uma gulosa e manifestantes erguiam cartazes contra o aborto perto da Casa Branca. Eu fotografava tudo e pensava que deveria escrever um livro. Fazia frio de rachar, minha orelha parecia congelada e eu jurava que nunca mais usaria blusa no Brasil. Nunca tinha enfrentado neve e dezessete graus negativos.

Liguei pro tal imigrante ilegal. Seu nome era Marky.
_ Hello, is Marky there?
_ Just a minute, please… Hey, Marky!
_Hello!
_ Hey, Marky, aqui é o Brando, eu escrevo pro Diário do Fim do Mundo.
_ Ah, sim, eu estava esperando sua ligação, senhor Brando. Faz muito tempo que eu não falo português.
_ Eu sei, mas eu não estou te ligando para praticar conversação.
_ Sim, você quer saber detalhes sobre a minha conversão…
_ Ah, você conseguiu?
_ Fiz o teste há seis meses, estou soropositivo, senhor Brando, estou marcado para morrer!
Ok, era o ponto de tensão, eu precisava pensar rápido e não deixar o cara começar a chorar. Tinha que usar toda a minha objetividade jornalística.
_ Quando você recebeu a “dádiva”, senhor Marky?
_ Provavelmente há um ano, Brando. Eu freqüentei diversas “Convertion Partys” nesse período.
_Certo, o que te levou a isso?
_ Eu me sentia, especial, sabe? Eu era parte de um clube, uma coisa única. Isso me dava muito tesão também. A adrenalina, o medo…
_ E agora?
_ Destruí minha vida, não há um dia que eu não pense que vou morrer. Não há um só dia em que eu não me arrependa por essa decisão.
(Sei como você se sente, cara. Não há um só dia em que eu não me arrependa por ter transado sem camisinha. Isso come meu cérebro, com certeza).
_As coisas não foram como você esperava, então, Marky?
_ Não, senhor Brando. Sinto-me mal com todos esses remédios. É horrível tomar tantas pílulas com horários tão regulares. Fora os efeitos colaterais. A AIDS não é uma brincadeira, senhor Brando. Acho que é isso que você tem que mostrar para os seus leitores. Sexo não é uma brincadeira, em tempos de AIDS.

Sexo não é uma brincadeira? A gente já tem que se preocupar com ejaculação precoce, impotência, tamanho do pau, gravidez, frigidez, DST… Quem foi o desgraçado que inventou a AIDS? Quem foi o filho da puta! “Certo, senhor Brando, sexo não é uma brincadeira”. Desejei sorte pro cara e desliguei o telefone. Comecei a escrever a matéria até a hora marcada para a entrevista com o Carlos.

Era um restaurante chique para a elite paulistana. Nunca tinha levado a Tarsila num desses. Ela era moderninha demais, preferia comida indiana e eu preferia raves onde pudesse comprar doce e ecstasy. O que levava um professor universitário, bem sucedido, com grana para pagar um almoço num restaurante desses a querer se infectar com o vírus HIV? Um cara instruído, ciente de todos os riscos?

_ Eu sei o que você deve estar se perguntando, Brando. Por quê? Eu mesmo não tenho uma resposta. Por que vivemos? Como devemos levar nossas vidas? Não, sei. Eu poderia casar e ter filhos. Eu poderia ter um parceiro estável. Mas isso não me realiza.
_ Você pensa na pessoa que pode estar se contaminando?
_ Todo mundo é livre na vida, Brando. Ninguém é obrigado a nada.
_As pessoas podem se arrepender. Acabei de falar ao telefone, com um garoto arrependido.
_ O problema dessa geração é que eles acham que a vida é um vídeo game. Que após o “game over” eles vão poder voltar a jogar do começo. Só se vive uma vez, aqui e agora! Eu tenho tudo que quis. O jeito que escolhi para viver a vida é testando a morte a cada dia.
_ Como você conheceu o bare backing?
_ Nos Estados Unidos, fiz meu mestrado lá. Freqüentava os clubes undergrounds gays. No começo, era só um fetiche, depois passei para prática. Acho que assim é mais fácil. Com a vida que levava ia acabar me contaminando de qualquer jeito. Se for pra se contaminar, que seja pelo menos por vontade própria! Não gosto de acreditar em destino, gosto de ser agente da minha vida. Sou um homem livre, Brando, por incrível que isso possa parecer.
_ Você não tem medo das conseqüências? Sabe que o coquetel não é cem por cento eficiente, conhece os efeitos colaterais?
_ Eu não quero viver para sempre, Brando. Todo mundo vai morrer algum dia. Eu posso morrer ao atravessar a rua, sem nunca desenvolver o HIV, você pode se contaminar com sua “fiel namorada heterossexual”. A gente não pode escolher quais vão ser as alternativas da vida, mas podemos escolher entre uma delas. Eu escolhi viver no limite.
_ Já fez teste de HIV?
_ Ainda não, prefiro acreditar que cada nova transa, vai ser o dia em que receberei meu “pequeno presente”. É mais romântico e excitante assim. Faz cada noite, ser “a grande noite”. Quantas grandes noites você teve, Brando? Sua primeira? A primeira vez em que teve uma mulher gozando em seus braços? Quantas vezes você sai da rotina? A escolha é sua. Viver rápido e intensamente ou apagar aos poucos…
_ Desculpe, mas o entrevistado não sou eu…
_Eu sei. Tenho um encontro esta noite. Você gostaria de comparecer? Pode fazer umas fotos, sem mostrar nossos rostos.
_Ah, sinto muito, mas tenho um compromisso agora. Muito obrigado, senhor Carlos.

Sai de lá acuado, ele havia dominado a entrevista. Não importava, eu já tinha o que escrever. A matéria iria se chamar “Amor em tempos de AIDS”, o começo ia ser assim: “Aonde tudo tinha começado a desandar? Teve um tempo em que havia uma esperança: o rock n’ roll tinha Bob Dylan e John Lennon, o homem tinha chegado na Lua, os estudantes tomavam as ruas de Paris, o cinema estava se tornando arte….”

Eu tinha que pegar meu exame de HIV, roleta-russa da vida. Toda ela diante de meus olhos. Era como consultar o Oráculo na Grécia antiga, um pedaço de papel que vai definir seu destino. Segui sozinho pelas ruas imundas de São Paulo, acompanhado pela presença invisível de Tarsila. Parei no boteco mais sujo e vomitei todas as desilusões na privada. Um sonho escorreu pelo chão e foi devorado pelos ratos.

19 de junho de 2005.

Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais“ . Ele foi pioneira na criação de newsgames (jogos jornalísticos no Brasil) e toca na Banda de Bolso.

Leia também:
-Preto no Branco: Um palhaço triste e uma mina indecisa
-Estudantes de comunicação no Fórum Social Mundial 2005

A ilha – Fred Di Giacomo – versão original

Uma versão atualizada e editada deste conto pode ser encontrada no meu primeiro livro “Canções para ninar adultos“, publicado em 2012, pela Editora Patuá.

***

Ilustrações de Sabrina Barrios feitas originalmente para o blog Clube de Ideias

Fazia muito tempo que estavam ali: o jovem e a menina. Tanto tempo que já nem sabiam mais o que tinha acontecido direito. Eram os únicos sobreviventes de um naufrágio, disso tinham certeza, do resto não lembravam muito: se eram parentes, se haviam se conhecido no acidente, se viajavam de barco ou avião. Nem do seu nome recordavam-se, perderam-se, assim, sem passado, sem memória e sem nomes, tiveram que inventar de novo a vida. Às vezes, a menina sonhava com a mãe. Não lembrava direito, mas entendia o que era uma mãe, quando sonhava sentia o cheiro de proteção e o calor do afeto. Ela devia ter por volta de cinco anos e ele quinze. A diferença de idade os afastava. Não podia ser seu pai, e nem seu amante, estava no ápice das descobertas sexuais e sentia muita vontade de ter uma mulher. Decidiram que quando ela fizesse quinze anos poderiam casar, até então seriam como irmãos.

Desejo

A menina inventou que o jovem chamava Desejo e ele a chamou de Utopia. Viviam sozinhos, com as árvores e os peixes, se alimentavam de cocos e frutas e andavam nus. Desejo era loiro de cabelos encaracolados e Utopia tinha cabelos negros curtos e uma pinta na bochecha. Desejo ensinava tudo que sabia a Utopia, sobre o pouco que lembrava da vida antiga e sobre o que aprendia a cada dia na ilha. No começo ele brincava com ela também, mas quanto mais Desejo crescia, menos queria ser criança. Quando Desejo fez dezoito anos começou a sonhar que Utopia era uma moça grande, com boca carnuda e seios fartos, os dois dormiam juntos e tinham uma porção de filhos. Às vezes, o rapaz acordava excitado pelo sonho e sentia vergonha. Resolveu,então, que era melhor os dois dormirem separados e construiu uma divisória na cabana. A menina não entendeu direito porque Desejo tinha feito uma divisória e por que o Desejo se cobria, agora, com uma folha. Foi por esses tempos que ela conheceu dois amigos imaginários: A Vergonha e o Pudor. Mas logo, Utopia se encheu dos amigos, ela não gostava da Vergonha e achava o Pudor muito sério. Ficou mais alguns anos amiga de Ninguém, até que ficou brava. Porque Ninguém nunca estava lá quando ela precisava e Ninguém falava muito com ela. Ninguém sabia por que Desejo tinha coberto seu corpo e Ninguém contava pra ela. Utopia achou que Desejo e Ninguém eram bobos e foi brincar com outros amigos.

A tristeza da menina era porque naquela ilha, ela sem Ninguém só tinha o Desejo e o Mar, e então começou a ficar amiga do Mar. Às vezes ela queria que o Mar fosse seu pai, porque não se lembrava dele direito. Às vezes ela sonhava que era filha do Vento ou da Terra, e que sua mãe era uma virgem como Nossa Senhora, seja lá o que isso significasse… O Mar era seu amigo, e sempre a abraçava e lhe contava segredos, o Mar tinha segredos que não acabavam nunca, e quanto mais fundo ela ia com o Mar, mais ela aprendia.

Desejo ignorava que Utopia tivesse tantos amigos, na sua cabeça de quase adulto ele via a menina brincando sozinha, e ficava com pena. Às vezes, construía algum brinquedo pra ela com madeira e bambu. Sempre que completava um ano do acidente eles comemoravam o aniversário dos dois. Desejo fazia uma festa e pescava um peixe, ficavam ele, Utopia e mais Ninguém na praia contando as estrelas. Quanto mais Utopia crescia, mais o moço se apaixonava por ela. Desejo sempre falava do tempo em que os dois se casariam , ele esperava aquilo com muito afinco. Quando Utopia menstruou pela primeira vez, Desejo começou a construir uma casa maior para os dois morarem juntos. E Desejo aprendeu a fazer uma rede pra poder amar Utopia. Utopia parecia não se empolgar muito com isso, mas o rapaz achava que era normal pela idade dela.

Utopia estava então com doze anos e começara a virar mocinha. Sentia-se muito curiosa com seu novo corpo: sangrava uma vez por mês, estava com alguns pelos ralos lá embaixo e sentia dor nos peitos. Um dia acordou com uns biquinhos e, de uma hora pra outra, seus seios começaram a crescer. Sentiu-se mal porque estava ficando diferente de Desejo. Perguntou pra ele, e ele riu, disse que ela estava virando uma mocinha. Utopia não gostava de envelhecer, e quanto mais Desejo crescia, mais ela tinha medo dele. Queria ser criança pra sempre. O único que a entendia era o Mar, olhava pra ele e via seu reflexo, uma moça igual a ela, com seios e pelos lá embaixo. Desejo era tão diferente, incontrolável, e o Mar era tão calmo e sábio. Um dia ela contou pro Mar que estava apaixonada, e que não ia casar com Desejo. Ia fugir de Desejo o quanto fosse possível.

Desejo já estava se tornando homem. Faltava um ano para se casar, então ele tinha vinte e quatro. Já aprendera a pescar, plantar e construir utensílios de madeira, nadava como um peixe e o Mar era seu amigo. Aprendera tudo que sabia com a Natureza, a única coisa que faltava era poder amar uma mulher. O rapaz podia sentir o amor dentro dele, queimava o como fogo, mas era só uma idéia vaga, não era prático. Queria compartilhar aquele sentimento com alguém, mas parecia que Utopia nunca era grande o suficiente. Agora, a menina passava os dias nadando e sempre voltava com um caranguejo ou estrela marinha. Dizia que eram presentes que o Mar lhe dava, e se enfeitava com pedrinhas e corais. Desejo sabia que o Mar era traiçoeiro e tinha medo que um dia ele levasse Utopia. Quando Utopia menstruou pela primeira vez Desejo fez uma roupa para ela. Era pra controlar Desejo, porque ele era um rapaz de palavra e só queria possuí-la depois que casassem.

Utopia

Nesses tempos Utopia já estava apaixonada, o Mar lhe enchia de presentes e em troca ela ficava horas dentro dele.

– Desejo vai ficar muito surpreso, quando descobrir que eu não sou mais mocinha. Por mais que Desejo me tente, eu me entreguei, antes, pro Mar.

O Mar sabia que a moça era dele, ela havia fugido uma vez, mas devia voltar algum dia. Só Desejo podia levar a moça pra outro destino. Um dia o Mar deu a Utopia uma pérola, foi seu presente de quinze anos, serviu como um anel de noivado. A menina, agora moça, jurou pro Mar que só amaria ele e mais Niguém. O Mar pediu que ela só o amasse e ponto. E assim fez.

Desejo estava muito feliz porque hoje era o dia do aniversário dos dois, ele tinha preparado tudo muito bem. Havia feito aguardente com as frutas da ilha, pescado siris, camarões e caranguejos. Construíra sua casa com um quarto grande e uma rede confortável. Fez uma coroa de flores para que Utopia ficasse ainda mais linda no dia de seu aniversário. Mas parecia que Utopia se perdia, quanto mais velha ficava. A moça já mal conversava com Desejo, e os dois nem pareciam irmãos. No dia do seu casamento a menina ficou no Mar toda a manhã e só voltou pra casa de noitinha.

_ Onde você estava Utopia? Eu preparei nosso casamento com tanto carinho, pesquei caranguejos, siris, camarões, teci uma rede e até lhe fiz uma coroa de flores.
_Eu estava com o Mar…
_Você devia ter cuidado com o Mar, ele é traiçoeiro, não esquece que foi ele quem levou a nossa gente.
_ Eles devem estar num lugar melhor do que essa ilha maldita, não agüento mais ver sua cara todo dia, não agüento mais você, Desejo. Desejo me querendo, Desejo me tentando… Eu tenho nojo do Desejo! Eu quero sumir com o Mar.
_Não, fale isso Utopia! Eu te amo tanto! Como você pode falar assim comigo? Eu sempre te cultivei Utopia, como uma flor, e você me despreza como o mais vil dos homens? Minha Utopia, aonde eu errei? Quando eu te perdi?
_ Eu não sou sua Utopia, eu não sou de Ninguém! Eu não tenho dono, eu não tenho destino traçado, foi tudo um acidente…
_ Como um acidente? Você me traiu, Utopia!
_Um acidente, por acaso eu conheci o Mar, e com ele descobri o mundo. Me apaixonei pelo Mar e seus mistérios, o Mar e seus presentes. Eu preciso do Mar. Me identifico com ele, o Mar também tem seu lado feminino, no qual vejo meu reflexo, a Mar. Não só “O” MAR, e a Mar é linda também.
_Minha Utopia, completamente perdida, minha Utopia está morta! Aonde se escondeu aquele sonho? Aonde se perdeu minha menina? Cuidei de ti como o mais valioso dos tesouros, te pus numa redoma de vidro. Num mundo aonde só existíamos você e eu, como evitas me amar?
_Entenda, Desejo, você é muito importante pra mim, mas quero o Mar, entenda, nasci para Mar e dele sou parte, nele encontrarei minha família, meus pais… Não suporto mais morar nessa prisão!
_ Impossível, eu não vou aceitar isso! Você tem que ser minha, eu esperei muito por esse momento!

E Desejo partiu pra cima de Utopia, agarrou-a pelos cabelos, agora compridos, e beijou sua boca vermelha e carnuda. Sentiu seu peito contras os seios da menina, e um calor correu por seu corpo. Desejo enlouqueceu, Desejo estava cego, atirou a menina na areia, e pulou sobre ela. Arrancou a folha que cobria os pelos, já não mais ralos de Utopia e colocou a mão em sua parte de baixo, estava molhada, com água salgada:
_Mas como? Quem?
_O Mar! O Mar entrou em mim, Desejo. Ele me transformou em mulher, antes de você! Há tanto Mar dentro de mim que você nunca vai poder tirar, por isso estou molhada, por causa do Mar. São dele as lágrimas que saem dos meus olhos, salgadas também, eu sou do Mar, Desejo. Você pode me possuir agora, mas nunca vou te amar.

O mar

Desejo tinha quebrado a Utopia, ela estava deitada no chão chorando, encolhida. Abraçada aos joelhos em posição fetal, de seus olhos saíam pequenos pedaços de água do Mar. A pérola que havia ganhado reluzia, presa aos seus cabelos negros. Desejo perdeu, então, o controle, começou a chorar e viu que o Mar também o contaminara. Tentou conter as gotas salgadas que saíam de seus olhos, odiava o Mar, ele lhe roubara tudo: seu passado, sua memória, seu amor, seu tempo. Fez-se amigo do Mar, mas sabia que o Mar lhe destruiria. O Desejo estava dentro do Mar, e o Mar dentro do Desejo. Ficou louco, de vez. Saiu correndo gritando, vermelho. Arrancavas os tufos loiros da cabeça, desesperado. Gritou muito alto e Ninguém ouviu. Aquele dia o Mar estava bravo, agitado, Desejo pulou no Mar com ódio, mas o Mar abraçou-o, estrangulou-o, as lágrimas de Desejo fundiram-se ao Mar. E o Mar entrou em Desejo pelos pulmões, sufocando-o. Desejo sumiu, então, no meio da noite e do Mar.

Utopia ficou perdida na Ilha, a noite toda, e vagou sozinha, sem Ninguém. Estava apaixonada pelo Mar, mas sentia-se mal por ter perdido Desejo. No dia seguinte o Mar já estava calmo, Utopia, solitária resolveu que era hora de ficarem juntos para sempre. Entrou no Mar, e ali ficou, sentindo-o dentro do seu corpo, descobrindo o amor. As ondas levaram-na longe, finalmente o Mar recuperara o que era dele.
***

Da ilha nada mais restou, nenhuma testemunha, Ninguém soube o que aconteceu. Ninguém ficou lá. Só.

20/07/05

Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais“ . Ele foi pioneira na criação de newsgames (jogos jornalísticos no Brasil) e escreve sobre felicidade no Glück Project.

“Buk, o velho tarado” – um conto de Fred Di Giacomo

-Leia mais contos

Falando em Bukowski ai vai um konto com a participação do próprio. Escrevi isso pro pseudo-livro “Amor em tempos de Aids” e acabou publicado no meu primeiro livro o “Canções para ninar adultos”. Quem tiver paciência que leia até o fim.

***
Buk, o velho tarado.

Eu já não tinha tantas ilusões em relação à literatura naqueles tempos. Me achava limitado, mas as pessoas diziam que eu escrevia bem. Não poesia. Nada disso! Jornalismo. Jornalismo?! Que merda é essa? Qualquer um escreve jornalismo, é tudo enrolação pura, mentiras… Um jornalista pode escrever qualquer coisa. Eu fazia notícias com versos. Poemas construídos com realidade. Alguns tinham cheiro de incenso ou felicidade, outros tinham cheiro de diarréia e morte. As pessoas não percebiam, diziam que meu texto era “gostoso de ler…”
Veja só: vinte e um anos, desempregado, barba rala, medo de pegar AIDS. Nunca tinha tido emprego fixo e minha mãe vivia me xingado por isso. Nunca tinha sido feliz ao lado de alguém e ia morrer sozinho. Era mais novo que Cristo, mas já tinha bebido de tudo, menos álcool puro. Até Absinto falsificado e cachaça caseira. Meu fígado tinha diminuído dez centímetros em um ano. E eu tinha diarréia sempre que exagerava na manguaça. Bebia cinco vezes por semana e exagerava três. Tinha semanas que eu bebia todos os dias e exagerava cinco, era uma conta humilde perto de alcoólatras ilustres como o senhor Charles Bukowski, escritor, poeta e bebum de talento.
Bastardo! Tudo que eu escrevia soava como cópia subdesenvolvida daquele velho tarado. Eu queria matar o Bukowski de novo só para ser original. Maldito filho da puta. Dormi as quatro da manhã. Fiquei assistindo filme pornô na televisão.
Acordei antes do meio-dia. Mal-humorado. A folgada da minha irmã(ia usar “vagabunda”, mas achei que soaria como puta) nunca acordava cedo. Por mais barulho que se fizesse ficava sempre dormindo. O telefone podia se esgoelar todo e ela não levantava a carcaça do lençol, às vezes até o tirava da parede, para não ter que se preocupar. Eu ainda tinha um pouco de responsabilidade.
_ Alô, quem fala?
A voz que respondeu soava velha e cansada. Parecia ser familiar, mas eu não sabia quem era. Odeio quando começam a conversar sem se identificar. O cheiro de whiskey barato exalava pelo telefone:
_ Seu maricas, o que está fazendo acordado a essa hora?
_ Um filho da puta ligou aqui em casa e não desistiu até me tirar da cama.
_ E por que você não tirou o telefone do gancho?
_ Porque me sobra um pouco de responsabilidade. Se meus pais morrerem, por exemplo, como é que eu vou saber?
_Essas coisas a gente sempre fica sabendo. Notícia boa é que não chega nunca. É por isso que você nunca vai ser poeta de verdade.
_ Quem é você, hein, seu desgraçado? Me ligando antes do almoço pra discutir poesia?
_ Você é uma cópia juvenil e terceiro-mundista do Bukowski, isso é que você é.
_ Ah, essa não… Vou desligar o telefone, velho doente.
_ Não gosta de ouvir umas verdades, meu bem? E você nem agüenta beber que nem macho… Tem vinte e um anos e já quer parar de tomar uns tragos.
_ Quem é você pra cuidar da minha vida? “Cê” anda me espionando? Aposto que é pederasta! Quer fazer sexo pelo telefone, é, velho tarado? Eu tenho vinte e um anos, mas já tenho cabelos brancos, to ficando careca, tenho pêlos no nariz e dor nas costas.
_ É, você também é azarado. Só que não tem personalidade… Essa idéia de conversar no telefone com um autor que te inspirou… Isso eu fiz nos anos setenta com o Heminghway e de uma forma bem mais criativa.
_ Ah! Vai se foder! Quem é você? Bukowski?Você me inspirou tanto quanto Nélson Rodrigues ou Rubem Fonseca. Aliás, senhor sabe tudo, foi o livro do Rubem Fonseca que eu recomendei pro Bernardo aprender a escrever kontos.
_ Olha, garoto, você até pode ter futuro, mas tem que ler o dobro e passar fome.
_ Eu vou passar a mão na sua bunda, velho veado!
_Você é muito macho pelo telefone, né, garotão? Só que tem medo de morrer e nunca entrou em briga de verdade.
_ Teve aquela vez na quarta série…
_ Que você tomou um murrão no nariz?
_ Velho bastardo…
_ Olha garoto liguei só pra você não desistir de escrever. Você tem talento…
_ Na poesia?
_ No jornalismo…
_ Velho, maldito! Qualquer merda faz jornalismo! Você também fez faculdade de comunicação e virou carteiro…
_ A gente tem que viver a vida antes de escrever.
_ Quer que eu vire carteiro?
_ Quero que você vire homem. “É tão fácil ser poeta e tão difícil ser homem”. *
_ Certo, velho. Espero que você seja o Buk, mesmo, sabe por quê?
_ Você vai chorar de emoção e pedir um autógrafo?
_ Não, eu vou te matar! Ai ninguém mais vai achar que eu copio Bukowski.
_ Pode vir franguinho, eu ainda tenho um bom cruzado de direita.
_ Velho bêbado, ainda vou te mandar pro inferno!

Desliguei o telefone na cara do imbecil. Depois me arrependi. Achei que pudesse ser o Bukowski mesmo, afinal: nem todo mundo exala cheiro de álcool pelo telefone. Pelo menos, ele tinha dito que eu podia ter futuro. Resolvi continuar tomando cerveja e parar com a pinga. Continuei escrevendo jornalismo em versos e as pessoas continuaram falando que meu texto era “gostoso de ler”. Talvez não fosse nada. Acho que eu só estava ficando meio doido.

charles-bukowski-9230860-1-402

20/02/05.

Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais“ . Ele foi pioneira na criação de newsgames (jogos jornalísticos no Brasil) e toca na Banda de Bolso.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...