“O Gabinete do Dr. Caligari”: Uma metáfora do totalitarismo (Assista o filme completo)

gabinet-dr-caligari

A mente de um louco nas telas de cinema, a consciência sombria traduzida em imagens góticas que tanto simbolizam uma história de terror quanto representam uma crítica ao totalitarismo. “O Gabinete do Dr. Caligari” é um marco do cinema mundial infinitamente resenhado e comentado. Sua importância é indiscutível, foi o primeiro e mais importante filme do chamado expressionismo alemão que reinou entre 1918 e 1928. Antecedeu os clássicos “Nosferatu” de Murnau e “Metrópolis” de Fritz Lang, tornando-se o primeiro sucesso do cinema de horror. Segundo Fritz Lang, no livro “O Século do Cinema” de Glauber Rocha, não existia um movimento expressionista organizado no cinema austríaco/alemão, esse foi apenas um rótulo achado pela imprensa para catalogar aquele cinema primitivo de começo de século. Polêmicas a parte, não se pode negar as semelhanças estéticas entre as obras desses autores e a influência dessa escola de arte no filme de Wiene.

O roteiro é aparentemente simples: Francis, um homem internado em um hospício, fala a um outro, em flashback, de uma série de assassinatos cometidos em uma cidade do interior alemão (Holstewall) a partir da chegada de uma feira itinerante na qual se destaca o Dr. Caligari (Werner Kraus), uma espécie de pai do Zé do Caixão* com sua cartola e sobretudo negros, que controla Cesare, um sonâmbulo (Conrad Veidt) que dorme em um caixão e aparentemente prediz o futuro. Francis havia ido à feira com seu amigo Alan (Hans Heinrich), que tem sua morte prevista por Cesare ao visitar a “cabine” do velho doutor (daí a origem do nome do filme). Após o assassinato de Alan as suspeitas recaem sobre o Dr. Caligari e inicia-se uma luta contra o tempo para impedir novos assassinatos e provar a culpa do doutor, que revela-se alter-ego do chefe do hospício da cidade.

A astúcia do roteiro está no final, que muitos dizem ter sido criado sobre pressão dos produtores.(Se você ainda não viu o filme e não que saber o final, pule essa parte) Antes mesmo de obras como “Sexto Sentido” ou “Os Outros”, nas quais o fim muda completamente o sentido da história, Wiene transporta o narrador para o hospício, como um louco, sendo a primeira história um delírio e o Dr. Calegari, na verdade, um bondoso médico.

Cubismo-gabinete-dr-caligari

Uma das marcas que garantiram imortalidade à película de Wiene é o retrato surrealista do universo narrado por Francis, representando os delírios de um doente mental. Os cenários, criados em pedaços de madeira e pano pelos pintores expressionistas Walter Reimann e Walter Rohrig e pelo cenógrafo Hermann Warm (que hoje fazem parte do acervo do Museu do Cinema Henri Langlois, em Paris) são contorcidos, escuros e criam um ambiente de opressão, tal qual as catedrais barrocas. O tempo é desterritorializado, não há menções à época em que se passa o filme, assim como ocorre na maioria das obras expressionistas. A maquiagem é pesada e tudo remete a um mundo confuso, assim como era a Alemanha da pós-guerra, marcada pelos traumas impostos pela derrota na Primeira Grande Guerra, as crises econômicas e a ascendência do nazismo ao poder. O nazismo, inclusive, selou o destino dos dois atores principais: Conrad Veidt fugiu da Alemanha para se tornar um astro nos Estados Unidos (interpretando o nazista em “Casablanca”) e Werner Krauss permaneceu na Alemanha para se tornar então o ator principal do filme de propaganda anti-semita “Jud Suss”.

O “Gabinete do Dr. Calegari” é um aviso, uma premonição do mal que viria varrer a Europa nas décadas de 30 e 40. Assim como “O Vampiro de Dusseldorf” de Lang, o filme de Wiene expõe os efeitos do autoritarismo, totalitarismo e da forma de influenciar as massas através do hipnotismo. É uma obra crua, de um tempo em que o cinema era mudo, preto e branco e começava a buscar sua linguagem própria. Uma vitória para o diretor que conseguiu transmitir com imagens fortes toda a angústia, medo e opressão vividos na entreguerras. Mal sabia Wiene que diante do horror de Hitler, seu Dr. Calegari poderia estar ao lado de Rapunzel nas histórias de carochinha.

Frederico Di Giacomo Rocha, com a alma em preto e branco
08 de Maio de 2004

Assista o filme completo aqui:

Leia também:

-Mais artigos sobre cinema

-Documentário AfroPunk retrata participação dos negros no movimento punk

Monty Python em busca do Cálice Sagrado, Terry Gilliam e Terry Jones *****

montypython-busca-calice-sagrado

Fui criado com meus pais falando como adoravam os filmes “A Vida de Braian” e “Em Busca do Cálice Sagrado” do Monty Python. Na faculdade alguns amigos alugaram o primeiro filme do Python com os melhores momentos da série de TV. Agora, na Editora Abril, a adoração ao grupo é unânime do mais bobo ao mais cool, todos adoram os humoristas britânicos que alcançaram sucesso mundial nos anos 70. Então, imagine minha decepção ao assistir pela primeira vez um filme da trupe(Monty Python e o Sentido da Vida de 1983) e achá-lo apenas “ok”. Eu devia ser muito burro mesmo. Justo eu, que sempre gostara de ver e fazer humor… Bom, meu amigo Marquito me emprestou há um mês ou mais o segundo filme dos caras “Monty Python em busca do Cálice Sagrado”, de 1975, o primeiro feito exclusivamente para o cinema. Depois de muita enrolação coloquei o dvd pra rodar e esperei conseguir descobrir a genialidade escondida ali. Não precisei fazer esforço. “Em Busca do Cálice Sagrado” é recheado de piadas boas(desde os créditos iniciais), sacadas na forma de narrar a história, nonsense, pastelão, pequenas críticas as instituições e um ritmo fluente que no final te faz ficar com aquela sensação (clichê) de “já acabou”?

Escrito pelos 6 Python (Terry Gilliam, Terry Jones, John Cleese, Eric Idle, Graham Chapman e Michael Palin) e dirigido pelos dois Terry(Sendo que o Gilliam começou como cartunista da revista Mad e hoje é diretor respeitado de filmes como “Brazil” e os “12 Macacos”), o filme conta a história do valente Rei Arthur(que está sempre à pé simulando cavalgar um cavalo, com seu escudeiro atrás batendo dois cocos para fazer o barulho do animal) que reúne os cavaleiros da Távola Redonda( Sir Bevedere, Sir Lancelot, Sir Robin e Sir Galahad) e sai em busca do Santo Graal, missão que recebeu do próprio Deus. A partir daí segue-se uma saraivada de piadas que detona a Idade Média, os contos de cavalaria e lembra bastante o filme italiano “O Incrível Exército de Brancaleone”, de 1965(que por sua vez lembra bastante o livro Dom Quixote). Assim como no filme de Brancaleone, algumas animações com referências da arte da Idade Média, são usadas para dividir os “capítulos” da saga do Rei Arthur. No entanto, todas essas ilustrações são acompanhadas de piadas que as esculacham. O filme é cheio de metalinguagem, com os personagens constantemente conversando com o espectador, fazendo referências à cenas específicas(“Olhem lá é o velho da cena 24”) e à produção do filme(“De repente o cartunista tem um infarte”). Sem falar dos inimigos que os heróis tem pela frente como os clássicos “Cavaleiros que dizem Ni” e o “Coelho Assassino”.

em-busca-calice-sagrado

Uma mistura de linguagens e estilos humorísticos que influenciou grande parte dos filmes dos anos 80, que usaram a fórmula de avalanche de piadas e massificaram em coisas mais comerciais como “Corra que a polícia vem ai”.

Abaixo você assiste o trailer do filme:

-Mais trailers legais

Misto-Quente, Charles Bukowski

-Leia mais artigos sobre Bukowski
-Quer experimentar alguns contos sujos?
-Compre o Misto-Quente aqui


A VIDA COMO ELA É: Resenha do livro Misto-Quente

Retrato autobiográfico do nascimento de um gênio marginal

“Éramos uma piada, mas as pessoas tinham medo de rir na nossa frente.”
Charles Bukowski, Ham on Rye.

Ok, o garotinho se chama Henry Chinaski, mas poderia se chamar Fred Di Giacomo, Eduardo Moraes, Charles Bukowski ou qualquer outro nome de garoto(a) que nunca foi o mais bonito(a) da classe, nunca foi o primeiro a ser escolhido no jogo de futebol ou já passou um recreio sozinho. Como todo mundo de carne e osso Henry também é um perdedor e a escola é seu purgatório pessoal. Seu pequeno inferno. Freud deve ter algum estudo sobre os efeitos devastadores da escola na personalidade e ego das pessoas. Humilhações, repressão e castigos são o que você suporta durante pelo menos dez malditos anos da sua vida, e nos Estados Unidos o negócio parece ser pior. Numa terra onde status é tudo, o universo escolar é dividido entre os perdedores (os losers) e os “caras legais”. Não há meio termo; ou você está com eles ou eles estão contra você. Tive uma conversa com meu primo Joe (que nasceu e mora nos EUA) sobre a “high school” e ele realmente tinha pavor, não é à toa que os americanos saem matando seus coleguinhas de classe. Não é à toa, que em sua música “School”, Kurt Cobaintenha se limitado a gritar “Vocês não vão acreditar, é a minha sina. Sem recreio. Você está na minha escola outra vez”.

Perdedor, Chinaski é um perdedor. No entanto, isso não faz dele um coitadinho. Ele sacaneia os outros assim como a vida o sacaneia. O alter-ego de Bukowski (como em quase todos os livros do “velho tarado”, essa é uma história autobiográfica) não teve muita sorte na vida. Sua família tem o alcoolismo no sangue, seu pai o espanca e sua mãe é uma estúpida histérica. O moleque não tem meias palavras: “eu devo ter sido adotado”. Seus pais o proíbem de brincar com os garotos da rua. (“Eles pensavam que nós éramos ricos”) A vizinhança é imunda, um bairro pobre de Los Angeles, para onde os Chinaski se mudaram logo depois que chegaram da Alemanha. Na escola não há muita esperança, Henry tem poucos amigos e é sempre o penúltimo a ser escolhido para o time de beisebol, sua principal preocupação é se segurar para não ir ao banheiro. ( “Eu chegava em casa e não tinha mais vontade de ir ao banheiro, o cocô já tinha endurecido dentro de mim”)

A linguagem é direta, seca. Socos no estômago do leitor são distribuídos a cada página, mas com um maldito humor negro e a tão comentada ironia. Isso diferencia “Misto-Quente” de outros clássicos sobre a juventude americana. Ele é uma versão underground de Tom Sawyer, um primo distante de Huck Finn. Vive num terreno arrasado pela depressão como o de “Ratos e Homens” de Steinbeck. O livro chegou mesmo a ter sua importância comparada pros anos 80 com a de “O Apanhador no Campo de Centeio” pros anos 50. Sem seu humor, Bukowski teria estourado a cabeça antes de publicar qualquer coisa. Ele foi um autor que não se contentou com as “verdades” dos livros, leu como um desesperado, mas também viveu a vida desesperadamente. As salvações para o moleque são essas: A ironia e os livros…

Um dia Henry tem que ir ver o discurso do presidente para fazer uma redação da escola. Ele sabe que se não cortar a grama naquele sábado seu pai vai surra-lo como sempre. O fedelho decide, então, inventar um discurso, com toda a pompa e todos os detalhes. A professora lhe dá dez e pede que leia em voz alta. Ele descobre um talento (“(…) era isso que eles queriam: Mentiras. Mentiras maravilhosas. Era disso que precisavam. As pessoas eram idiotas, seria fácil pra mim.”) Aos poucos aquele moleque vai reunindo em torno de si outros desajustados, freakies, losers como ele. (“Eu era como um lixo que atraía moscas, ao invés de uma flor desejada por borboletas e abelhas”). Ele começa a ganhar algum destaque, mesmo em meio a todos os seus problemas, como define com uma passagem mais ou menos assim: “havia alguma coisa dentro de mim, eu sabia, podia ser todo aquele cocô endurecido…”. Chinaski vira um durão, era isso o que ele mais desejava. Podia não ter as garotas (e ele realmente se dá mal com elas, eternamente virgem e sempre desperdiçando as oportunidades que surgem), mas ganhou algum respeito. Aos poucos vai se embrenhando em uma vida marginal de vadiagem, álcool e brigas que contrapõe-se com seu talento florescente para a literatura. Ele estava sozinho, mas tinha os livros. Era mais um daqueles garotos que passavam horas se divertindo sozinho, brincando com seus amigos invisíveis, criando suas próprias histórias que aos poucos vão ganhando o papel.

Chinaski não tinha um pai? Certo, mas ele tinha Hemingway e Dostoievsky. Com o escritor russo ele aprendeu: “Quem não quer matar seu pai”? O complexo de Édipo rodeia Chinaski por toda a obra. “Ele” é o cara sacana, “Ele” é o responsável por seu sofrimento, “Ele merece” morrer. Esse ódio por seu pai (na realidade um alcoólatra violento) permeia toda a obra do velho “Buk”, e é outro dos sentimentos mais antigos da humanidade, estudado por Freud como uma das raízes dos principais tabus da nossa sociedade. Essa capacidade de transformar o dia a dia em poesia, de pegar as bebedeiras triviais, as angústias adolescentes e transformá-las em arte é a mágica de Bukowski. Sim sua linguagem é chula, ele fala de sexo o tempo todo e não finaliza com chave de ouro, mas isso não é o que importa. Aliás no mundo de “South Park” falar palavrão não assusta mais ninguém. Tire todas “bucetas” e “merda” do texto e você ainda terá um livro genial. O que importa é seu retrato do homem comum.. O resto é excesso.

Misto-quente(Ham on Rye), publicado originalmente em 1982.

Fred Di Giacomo, brincou tanto de criar histórias que acabou passando-as pro papel no livro “Canções para ninar adultos”
26/05/04

-Frases de Charles Bukowski

 

“Chaos A.D.”: o clássico que levou o Sepultura para a fama mundial

A hora do caos.
Um grito tribal corta a modernidade.

A capa do clássico

A capa do clássico

 

Em 1993 o Sepultura já era um banda respeitada pela maioria dos metaleiros do mundo, seus dois últimos discos pela RoadRunner (Beneth The Remains e Arise) haviam recebido boa recepção do público e lhes aberto várias portas, rendendo uma série de turnês internacionais. Depois de 1993 a história foi outra, o Sepultura não era só mais uma banda de thrash metal, eles estavam na crista da onda, com videoclipes estourados na Mtv, shows ao lado dos principais nomes do rock (Ozzy, Pantera, Slayer, Alice in Chains, entre outros) e uma popularidade que talvez nenhum outro músico brasileiro tivesse alcançado. Para qualquer jovem que você perguntasse sobre o Brasil ele provavelmente iria citar o Carnaval, o futebol, o samba e o… Sepultura.


O clipe Territory, single do disco Chaos A.D.

O início do Caos são as batidas do coração de Zyon o filho de Max Cavalera no útero de sua mãe, logo as batidas se fundem com o groove de escola de samba vindo das baquetas de Igor Cavalera (então o maior batera de hardcore do mundo). A música é Refuse/Resist, um petardo sônico, com letra desesperada incitando a revolta. Nada mais de apocalipse e demônios nas letras dos mineiros, o inferno agora era na terra. Era a disputa de território entre judeus e palestinos, a destruição do sistema ecológico, o massacre do Carandiru, o cotidiano violento no qual todos nós aprendemos a sobreviver. Chaos A.D. é quase um disco conceitual, um manifesto terceiro mundista, homogêneo em sua diversidade ele traz um Sepultura politizado, voltado para o que se passava no Brasil e experimentando novas sonoridades.

Passada a fase ortodoxa do grupo a banda dos irmãos Cavalera agora misturava metal, hardcore e rock industrial com sons brasileiros (mistura que chegaria ao ápice no clássico Roots). Cabia ai então a acústica Kaiowas, um protesto contra a situação dos índios dessa tribo que se suicidavam devido à ocupação de suas terras. Os críticos compararam a música (que incluía percussão e solo de viola) a Led Zepellin com a diferença de que enquanto o Led misturava seu rock com sons asiáticos e africanos o Sepultura fazia a fusão com o som da sua própria terra. A partir de Chaos A.D. quem se interessasse pelo futuro do metal poderia procurar o Sepultura. O disco é considerado por muitos como influência básica no que viria a ser o new metal de Korn e Cia. O próprio Korn teria ficado ouvindo esse disco no estúdio enquanto gravavam. Lá já estavam as afinações graves e as baterias quebradas que estourariam nas paradas mundiais anos depois

sepultura-chaos-ad

O clima do disco era soturno, a trilha sonora de um futuro Ciberpunk, pesado,violento dominado por mega-corporações e transpirando capitalismo. O guitarrista Andréas Kisser deixou de lado o virtuosismo, para tirar novos timbres de sua guitarra minimalista uivante, o baixo de Paulo Jr, vinha muito grave,como um terremoto, cheio de efeitos, casando com o bumbo duplo furioso de Igor Cavalera, um gigante nas baquetas que injetava swing no hardcore mais agressivo.

Chamar o Chaos A.D. de marco no rock dos anos 90 pode parecer pretensioso, mas não seria injusto, Dave Grohl (ex- Nirvana, Scream e atual frontman do Foo Fighters) disse um dia que se não existisse o Mötorhead esse seria o melhor disco de metal do mundo. Nada mal para um bando de moleques que só queria imitar o Venom. Á partir de 1993 todas as bandas brasileiras podiam sonhar em competir de igual pra igual com os gringos e não sem deixar de lado a brasilidade. O que seria a base para um outro caos vindo da lama dos manguezais de Recife, mas isso é outra história…

Fred Di Giacomo 28/10/03.

Assista o clipe da primeira faixa de Chaos A.D.: Refuse/Resist:

O Uivo – Allen Ginsberg

Escrevi isso pro site do Eduardo(ECM ou Lúcio), o extinto Watchtower. Tinha lá meus 19 anos, mas ainda concordo:
Sobrevivendo no Inferno.
Resenha do clássico beat “O Uivo e outros poemas” de Allen Ginsberg.

“Eu vi os expoentes da minha geração, destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus…”.

Willian Borroughs é adorado no rock n’ roll, tomou picos com os punks e gravou uma música com o U2, mas a literatura beatnik se abriu pra mim com “O Uivo e outros poemas”, obra que conquistou milhões de leitores e tornou seu autor mundialmente famoso. Ginsberg pode ter conhecido a aprovação e a popularidade de um autor consagrado, mas nunca deixou de lado seu estilo “pervertido”, seus versos longos, sua acidez que o enquadram na poesia marginal. Homossexual, usuário de drogas, filho de uma comunista com que teve uma relação delicada, o autor escreveu sua obra num período pré-libertação hippie, segunda metade da década de cinqüenta, quando ainda se sentiam os ecos do Macarthismo e toda paranóia da Guerra Fria. Perseguido e processado pela direita puritana americana e sem o apoio dos ortodoxos da esquerda, Ginsberg escrevia tudo em ritmo de fluxo psicológico, versos grandes que eram na verdade um apanhado de versos menores,como se cada uma de suas poesias fosse um conjunto de pequenos poemas representados por cada parágrafo. De um lado há a escrita coloquial, com uso de linguagem crua, referências a órgãos sexuais, sodomia, drogas e muito jazz, do outro as diversas citações de autores e trechos da liturgia hebraica que demonstram a erudição do poeta,ou como Cláudio Willer escreve em sua apresentação, que os beats se tornaram escritores por serem antes de tudo leitores.

“O Uivo” é um grito de derrota, de revolta, um relato autobiográfico de quem passou por internações em hospitais, de quem viu o horror com os olhos. Autobiográficos são todos os poemas do autor como “Kaddish para Naomi Ginsberg”, escrito para sua própria mãe, um longo poema marcado pela dor, onde ele relata sua conturbada relação edipiana, desde os tempos da militância no Partido Comunista, depois enlouquecida e paranóica, entrando e saindo de instituições psiquiátricas(destino repetido pelo filho), até sua morte. Tudo escrito sem pudor, com a caneta espirrando sangue, a ironia impregnando o papel, pintando o irmão, Eugene, como um advogado fracassado, a figura paterna distante, a mãe hora motivo de repúdio, ora de desejo.
Ginsberg foi um autor que aprendeu a escrever, não só com a literatura, mas também com a vida. Escreveu “O Uivo” depois de sair de Nova York, ter conhecido o mundo trabalhando em um navio e ter chegado à Califórnia onde conheceu Ferlinghetti e Gary Snider, entre outros. Foi internado em instituições psiquiátricas, andou com traficantes e junkies pelas ruas dos Estados Unidos. Seus versos têm o lirismo das calçadas sujas, dos becos, as rimas alteradas pelas drogas, os (anti) heróis são seus amigos beats, seu companheiro no hospício Carl Solomon e Neal Cassady, o “NC”, amante de Ginsberg e Kerouac (com quem viveu um triângulo amoroso, envolvendo a mulher do escritor) e morto de overdose.

A poesia anárquica de Ginsberg é revolucionária, sem ser partidária, retrata a morte sem lamentações, como uma superação. O poeta passa por toda realidade como um sobrevivente. A vida é curta e ele a viveu da forma mais intensa, o que importa é o instante, já que como Ginsberg diz “o universo morre conosco”.

Fred Di Giacomo 09/08/03
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...