A próxima vítima

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por Fred Di Giacomo

Primeiro lincharam os bandidos e eu aplaudi
Depois lincharam os suspeitos e eu entendi
As próximas foram as bruxas e eu me calei
Quando fizeram justiça com os travestis, eu me isentei

E quando a justiça com as próprias mãos chegar aos ateus, os negros
As mulheres infiéis, os malucos e os homossexuais
Quando as mãos dos justiceiros estiverem na minha garganta
Eu só vou abrir a boca pra gritar:
“Que porra é essa, eu sou como vocês.
Eu sou normal.
Eu sou de bem….”

Entrevista de emprego

sem-dinheiro-pobre-duro-1392837894475_360x420Pra conseguir o emprego
Precisava de inglês
Precisava ler o jornal
Precisava de gravata
Precisava de experiência internacional
Precisava de tanta coisa
tanta coisa, mas tanta coisa
Que ele ali
de frente pra vaga
Só precisava mesmo
era de um prato de comida
Que alimentasse o espírito
E colorisse a vida.

“Não existe racismo no Brasil”

_Não existe racismo no Brasil.
_Em que Brasil?
_No nosso Brasil, pô! Aqui nunca foi que nem nos Estados Unidos, que nem na Alemanha, essas porras todas, saca? Não foi um troço oficial.
_Sei lá, sempre convivi com racismo
_Mas você é branco, cara.
_Por isso mesmo. Sempre convivi com racistas, ué.
_Ih, lá vem papinho de comunista barbudo, ha, ha, ha.
_Lembra quando meu irmão ficou com uma menina negra na festa de RP, na faculdade?
_Não lembro não… Ficou, é? Seu irmão também é bem safadão, né?
_Eu lembro bem. Vocês disseram que ela parecia o Kanu.
_Kanu?!
_Aquele jogador da Nigéria…
_Falamos?!
_Sim, pô, não lembra?
_Ha, ha, ha, nóis é foda… Devia ser baranga também, né? Ah, fala sério, isso já é politicamente correto demais. Não pode falar quando uma mulher é feia? Se fosse branca a gente zoava também.
_Mas não foi só com essa. Quase todas mulheres negras da nossa faculdade tinha apelidos secretos lembra?
_Lembro não…
_Eu lembro bem. Um mais escroto que o outro: Predador, Macunaíma, Aquático…
_Pô, não é bem assim. Olha só, vou confessar uma coisa… Cê já comeu uma neguinha? Eu já. E gostei, viu, velho? Elas pegam fogo lá embaixo…
_ Olha aí, bem o que eu disse.
_Pô, mas tô falando que gostei da negra, porra!
_Cê tá começando com aquele papo de “eu não sou racista, até peguei uma negra…”
_Porra, cara, papinho chato. Daqui a pouco você vai defender cota.
_Sei lá, cara, eu acho que tem que existir cota pra compensar uma política oficial que permitiu que negros fossem escravos por 300 anos no Brasil. Eles não vieram pra cá por opção. E até hoje a vida dos caras é mais difícil. Posso dar um exemplo que vivi?
_Manda.
_Trabalhei como jornalista dez anos, né?
_Claro, puta orgulho, passou pelas maiores revistas do Brasil. Vários prêmios e tal.
_Pois é… E não podia ter negro na capa das revistas.
_Como assim?
_Falavam que não vendia, que o público não se identificava com o negro.
_Ah, duvido, isso é teoria da conspiração, vai.
_Aconteceu comigo, cara, tô falando. Comigo e com meus colegas.
_Pô, mas não é racismo, veja bem, você mesmo disse que o negro na capa não vende revista… O dono vai fazer o quê? Caridade?
_Porra, mas isso é segregação. Só uma raça tem direito de ser enxergada? Desse jeito você cria uma imagem de que só o branco é bonito, só ele é bem sucedido. Jornalismo não é só mais um negócio, como vender tomate ou parafuso. Jornalismo é um serviço que a gente presta pro público, cara. Temos que informar, mostrar a realidade. Selecionando quem pode ou não aparecer em capa de revista, você cria uma realidade paralela, um imagem de que o negro não existe fora das notícias policiais, saca?  E se você não colocar o negro na capa, como vai saber se a revista com ele vende ou não?
_Pode ser, sei lá, eu não manjo dessas coisas cabeça.
_Cara, e não é só uma questão de capa de revista. Fui produzir um ensaio com várias modelos praa um site. Ensaio sensual, saca?
_Ha, ha, ha, cê é safadão, igualzinho seu irmão, né?
_Pô, hoje em dia eu tenho vergonha desse trampo, meio machista…
_Ih…Tô falando que você tá comunista demais? Essa sua namorada feminista tá colocando muita merda na sua cabeça. A gente precisa pegar um puteirinho pra você renovar os ares.
_Porra, se concentra na minha história!
_Manda.
_O fotógrafo selecionou as seis modelos mais gatas da agência. Aí, ele me ligou e perguntou “Tem uma das meninas que é “morena”. Tem problema?” E eu falei “Como assim?” E ele: “Não me leve a mal, eu não sou racista, mas é que tive muito problema aí com modelo negra, sabe? O pessoal não gosta.”
_Por que não vende? Mas não é pra capa de revista…
_Ah, cara, tinha mil desculpas: achavam que era feio, que tinha cara de pobre, que não era sofisticado…
_E você?
_Mandei fotografar, claro. Não conseguiria ficar no trabalho se tivesse cortado alguém só por causa da cor. Aconteceu uma coisa parecida com uma amiga que trabalhava na maior revista do Brasil.
_Pô, é a única revista que eu leio. Essa eu assino e sou fã.
_Então, uma vez essa amiga estava precisando entrevistar e fotograr “populares” pra uma pauta, sabe?
_Sei, sei, pra mostrar o “brasilsão”, né?
_Isso, aí pediram pra ela  assim: “precisamos de um pedreiro pra matéria, mas não pega um preto, tá? Pega um mais clarinho”. Cê acredita nessa instrução? Nem o pedreiro da revista podia ser negro.
_Ah, mas isso deve ser exceção. Dois casos isolados.
_Pô, teve outra amiga minha que fez uma matéria de beleza na mesma revista.
_ E aí? Ela colocou foto de uma negra e ficaram putos?
_Ficaram putos e mandaram ela tirar. Disseram que o público não se identificava.
_Porra, cara, do jeito que você tá falando parece que é mais difícil um negro sair na capa de uma revista do que entrar numa universidade no Brasil.
_ Se bem que nossa faculdade era pública, mas tinha no máximo o quê? Dois negros pra cada 40 alunos?
_Mas era faculdade em São Paulo, né? É um estado mais branco. É uma questão de porcentagem.
_30% da população é negra em São Paulo. 30%, cara.  2 alunos por sala dá só 5%…. É a mesma coisa do meu bairro, lembra?
_Nossa, cara, eu lembro, sim.  Sua casa era da hora, mas o bairro era mó biqueira, dava medo de te visitar lá, ha, ha, ha.
_Então, eu era o único branco da área. E fui o único que fiz faculdade.
_Tá bom, tá bom, eu sei que você gosta de preto. Tua ex tinha até um pézinho na cozinha, né? Ka, Ka. Ka.
_A mãe dela era negra e o pai era branco. Ela nasceu mais clara e o irmão nasceu mais escuro. Por isso o irmão sofria preconceito no condomínio onde eles passavam o verão.
_Jura? Mesmo sendo da mesma família?
_Pois é, um dia eu e ela entramos no elevador do prédio, lá na Fradique Coutinho. Uma senhorinha simpática entrou junto, com os poodles na coleira e falou assim pra gente: “que casal jovem e sorridente. É bom ver gente bonita assim no prédio! Ali no 32 mora uma baianada que só por Deus, sabe? Tudo preto. E ainda acho que são bicha. Preto e bicha? Não dá sabe? Esse povo do norte não tem educação”.
_Pior que teu vô é baiano, né?
_E a família dela era negra.
_Ah, mano, sei lá. Não gosto de discutir coisa séria, manja? Tudo isso que você falou é verdade, mesmo? Por que você nunca falou disso antes? Por que você nunca postou no Face?
_Pô, cara eu bem queria que isso tudo fosse ficção, mas pensa bem, vou postar uma coisa dessas no Facebook? Depois nunca mais arrumo emprego nenhum, né?

-Mais contos

Wander Wildner: Galeria de Anti-Heróis

Born to be Wild

 

Wander Wildner (1959 – ) é um cantor e compositor gaúcho. Wander ficou famoso por ser o vocalista da banda de punk rock Replicantes, famosa por seu humor ácido em canções como “Surfista Calhorda”, “Nicotina” e “Festa Punk”. Ao sair da banda, Wander criou o estilo punk brega no disco “Baladas Sangrentas”, misturando influências punk rock à violões folk e letras inspiradas no cancioneiro mais popular e romântico. Entre suas músicas solo está o hit “Bebendo Vinho”, regravado pelo Ira!

Meu canto

Escrevi essa música num final de semana antes de mudar pra São Paulo rumo ao meu primeiro emprego. Que bom que desde então a vida tem sido boa comigo. Ainda canto ela mentalmente sempre que pego um avião. É minha pequena oração pessoal, um mantra que me conecta com as coisa boas e simples da vida.

2001-praga-mae

Hoje não tem choro de criança
Nasceu um raio de esperança
Hoje não vai ter futebol

Dei oi pro vizinho e abri um vinho
Não me sinto mais um estranho no ninho
Quando saio na rua não estou mais sozinho

Hoje é dia de ver o menino nascer
É dia de ver o menino nascer
É dia de ver o menino.

Moleques pediram manga no meu quintal
Calor de rachar mas isso é normal
Hoje não tem batida policial

Hoje não tem pais brigando
Não tem crianças chorando
Não há dor em nenhum canto

Hoje é dia de ver o menino nascer
É dia de ver o menino nascer
É dia de ver o menino

Hoje não tem batucada, não vai chover
Velhos decidiram não vão morrer
Hoje é dia do santo descer

Charles saiu da cadeia
As crianças vão dormir de barriga cheia
As pessoas pararam pra ver a lua cheia

Hoje é dia de ver o menino nascer
É dia de ver o menino nascer
É dia de ver o menino

Eu canto minha casa,
meu canto
Meu bairro,
meu santo
Eu canto
pra você viver.
(Pra você viver!)

Eu canto minha casa,
meu canto
Meu bairro,
meu santo
Eu canto
pra você viver.
(Pra você viver!)

Hoje é dia de ver
Hoje é dia D
Hoje é dia de ver o menino nascer

Como a desigualdade social aumenta a violência e separa o país

Ilustração da Cecilia Silveira para o blog Think Olga

Ilustração da Cecilia Silveira para o blog Think Olga

1) Os 85 mais ricos do mundo possuem a mesma riqueza que 50% da população mundial.
2) Sociedades mais desiguais tendem a ser mais violentas.
3) A mãe de família e trabalhadora Cláudia Silva Ferreira foi assassinada em um tiroteio em uma favela e teve seu corpo arrastado no asfalto por uma viatura policial. Muita gente achou aquela cena normal.

Pensando na dificuldade que temos de enxergar pobres e ricos como cidadãos de um mesmo país, como iguais, escrevi um artigo pro Glück cheio de recordações pessoais chamado “Ensaio sobre a cegueira social“. Espero que vocês gostem 🙂

Um trechinho:

Quando eu estava no ensino médio, minha escola organizou uma pequena excursão para “conhecer a realidade e pobreza do Brasil”. Iríamos sair na última aula para visitar uma família carente cuja mãe sozinha criava uma filha que tinha contraído HIV e um filho que agora estava preso. Iríamos entregar uma cesta básica para eles e conversar sobre a vida dura que levavam. A intenção das freiras que dirigiam nossa escola de classe média no interior do noroeste paulista era boa. Elas achavam que os meninos da elite penapolense precisavam valorizar suas vidas tranquilas e solidarizar-se com os que tinham nascido sem condições. Talvez a ideia fosse estreitar as pontes entre quem só convivia com pobres e negros quando estava com suas empregadas ou babás. Eu me sentia incomodado com a situação; apesar de entender a intenção didática da escola, aquilo também lembrava um passeio por algum tipo de zoológico humano. Algum tipo de espetáculo para se “assistir”, sem realmente enxergar as pessoas que estavam ali.

Deu o sinal da última aula e fomos todos com nossos uniformes vermelhos para uma Kombi lotada de boas intenções fundidas ao clima de uma alegre excursão para Porto Seguro. Rapidamente percebi que aquele caminho que a Kombi fazia não me era estranho. “Opa, pra onde estamos indo? Eu conheço esses vira-latas, essas casas de muro baixo, essas ruas esburacadas. Conheço essas tiazinhas sentadas na calçada, os pés calçando havaianas pedalando de volta pra casa, os moleques empinando pipa com cerol no bairro”.

Meu bairro.

Naquela hora percebi que a casa dos “pobres” era a casa dos meus vizinhos. Literalmente. Ficava a meio quarteirão de casa, na Vila São João. O cara que estava preso era amigo de um colega. Quando chegamos na pequena e humilde casa de muro de madeira, eu pulei da Kombi correndo, caminhei vinte passos e entrei em casa. Sentia um misto de vergonha, raiva e humilhação. Tinha vergonha tanto dos meus vizinhos acharem que eu era um playboy, quanto dos meus colegas de classe me verem como mais um “pobre” do bairro. Alguém pra ter pena ou fazer caridade. Eu não queria que as pessoas tivessem pena de mim. Queria ser olhado de igual pra igual, olho no olho.”

O texto completo você lê aqui:  http://www.gluckproject.com.br/ensaio-sobre-a-cegueira-social/

A ilustraçnao acima foi feita pela Cecilia Silveira para o blog Think Olga, em homenagem à Claudia Ferreira

 

Indião do Hino Mortal cantando “Desequilibrio” com o Restos de Nada

 

Indião e sua banda o Hino Mortal

Indião e sua banda o Hino Mortal

Antes mesmo dos brasileiros descobrirem exatamente o que era punk rock, Indião já estava fazendo o único show da banda de pré-hardcore N.A.I. (Nós Acorrentados no Inferno), em 1979. Logo depois, ele integrou o Condutores de Cadáver que acabou em 1981, quando Índio seguiu para o “Hino Mortal” do clássico “Câncer”, regravado pelo Ratos de Porão no disco “Feijoada Acidente? – Brasil”? Assista as ideias do cara e ouça ele cantando “Desequilíbrio” nos vídeos abaixo.

Indião cantando “Desequilíbrio” com o Restos de Nada

Entrevista com Índio do Hino Mortal – Primeira parte

Entrevista com Índio do Hino Mortal – Primeira parte

Uma breve história do ódio (e da violência) no Brasil

Achamos que somos um bando de gente pacífica cercados por pessoas violentas”. A frase que bem define o brasileiro e o ódio no qual estamos imersos é do historiador Leandro Karnal. A ideia de que nós, nossas famílias ou nossa cidade são um poço de civilidade em meio a um país bárbaro é comum no Brasil. O “mito do homem cordial”, costumeiramente mal interpretado, acabou virando o mito do “cidadão de bem amável e simpático”. Pena que isso seja uma mentira. “O homem cordial não pressupõe bondade, mas somente o predomínio dos comportamentos de aparência afetiva”, explica o sociólogo Antônio Cândido. O brasileiro se obriga a ser simpático com os colegas de trabalho, a receber bem a visita indesejada e a oferecer o pedaço do chocolate para o estranho no ônibus. Depois fala mal de todos pelas costas, muito educadamente.”

Trabalhadores tomam geral em foto "Todos Negros" de Luiz Morier

Trabalhadores tomam geral em foto “Todos Negros” de Luiz Morier

Quando comecei a tocar o projeto Glück com a Karin Hueck, minha ideia era investigar a felicidade, esse conceito que só é levado a sério no Brasil pelos publicitários. A maior parte dos nossos textos trata sobre autoconhecimento, saúde e relações pessoais, mas é impossível ignorar o ódio, quando se fala de felicidade no Brasil. Em meio a morte de cinegrafista nas manifestações, justiceiros no Rio de Janeiro, e comentários agressivos em todos os portais de notícias, fica difícil só falar de felicidade. Por isso fiz essa breve “História do ódio no Brasil”. Acho pertinente divulgá-la aqui no Punk Brega também. Espero que vocês curtam:
http://www.gluckproject.com.br/a-historia-do-odio-no-brasil/

O Bispo – Documentário sobre Artur Bispo do Rosário

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Sexta a TV Punk Brega sintoniza os melhores vídeos da net pra você

“O Bispo” é uma das “vídeo-cartas” produzida por Fernando Gabeira nos anos 80. Um belo e curto documentário sobre o “artista louco” que passou a maior parte de sua vida internado em uma Colônia Psiquiátrica.

publicado originalmente em junho de 2006
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