“Conversas com Woody Allen”, resenha do livro de Eric Lax

publicado originalmente em 04/10/2009

“O único conselho em que posso pensar é que só o trabalho conta”.

“Não influenciei ninguém de forma significativa”, afirma Woody Allen no final do livro de entrevistas conduzidas por Eric Lax.  Woody parece reticente em dar qualquer tipo de aula ou lição para as novas gerações, ou mesmo em reconhecer sua grande influência para o cinema mundial.  (Ele provavelmente nunca assistiu “Apenas o Fim” filme brasileiro inspirado em “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, ou, então, “Harry e Sally” que deu origem a dezenas de comédias sobre relacionamento). É engraçado essa reticência, porque todo o livro “Conversas com Woody Allen” é uma grande aula sobre cinema, escrita e processo criativo.

Vamos lá: todo bom livro é um bom professor, muito melhor do que os que você vai encontrar – na maioria das vezes – nas faculdades. Afinal, quem poderia ter aula de existencialismo com Sartre ou lingüística com Guimarães Rosa? Nessa série de entrevistas, que vai dos anos 70 até o final dos anos 2000(O único filme de Woody que não é comentado é o recente “Vicky Cristina Barcelona”), Eric Lax conversou com Allen, assistiu suas gravações e acompanhou seu processo de edição. Dividiu as conversas, então, em 7 temas: “ A ideia”, “Escrever”, “Casting, Atores e Atuação”, “Filmagens, sets, locações”, “Direção”, “Montagem”, “Trilha Sonora” e “A Carreira”. Lá está tudo que você queria saber do tio Allen, mas tinha medo de perguntar: “Como Woody escolhe a ideia que vai filmar?” “Como ele faz um roteiro?” “A trilha sonora entra só no final da edição?” Além de todos os detalhes do seu método de criação, Allen fala de suas influências (Bob Hope e Ingmar Bergman, entre outros) e de sua filosofia de vida: vivemos num mundo sem deus, onde se nós não nos policiarmos, ninguém vai nos vigiar ou punir.

Entre um excesso de autocrítica aqui e um pouco  de pessimismo ali, Allen confessa que seu grande sonho era ser um diretor de cinema “sério”, e mostra sua frustração por ser reconhecido apenas como cômico. Vale a pena ler e se deparar com a quantidade de angústia por trás da cara de baixinho-nerd-engraçado.

“Conversas com Woody Allen: seus filmes, o cinema e a filmagem”
Editora Cosac Naify
512 páginas

“Carcereiros” – resenha do livro de Drauzio Varella

"Carcereiros" é um livro obrigatório em tempos de PCC e mensalão

Espécie de continuação do best-sellerEstação Carandiru”, “Carcereiros” tira os presos do palco principal e coloca em seus lugares os homens responsáveis por vigiar as cadeias do Brasil – especialmente os que trabalharam no Carandiru, onde Varella foi médico voluntário por muitos anos.

Mais que no livro anterior, aqui Varella se torna personagem ativo da narrativa, não só no no seu trabalho semanal atendendo as mazelas dos detentos, mas em cervejas com os carcereiros depois do expediente , em festas com os funcionários com que trabalhou tantos anos ou em sua própria casa. Sem medo da subjetividade, o médico deixa claro que conta as histórias vividas camaradas de longa data.

Em alguns capítulos, histórias de traição, coragem e violência lembram bons momentos de um disco dos Racionais Mc’s. Em outros, Varella se arrisca numa reflexão mais profunda sobre a situação do sistema carcerário brasileiro, as origens do PCC (que nasceu como uma reação dos presos ao massacre do Carandiru) e a relação da “classe média” com o mundo marginal. Contador de causos habilidoso, o médico – entre diversas narrações cinematográficas, ora trágicamente violentas, ora engraçadas e heróicas -propõe até possíveis soluções para a situação “medieval” das nossas cadeias, tão em discussão em tempos de condenação dos mensaleiros e de ataques do PCC.

“Carcereiros” é um livro humano, como são humanos sangue, adrenalina, covardia e também a solidariedade e esperança. Importante para aceitarmos que não existem soluções simples para problemas complexos. Uma leitura prazerosamente necessária.

“Os últimos dias de paupéria (Do lado de dentro)” – O livro que reuniu os escritos do poeta Torquato Neto

“Existirmos, a que será que se destina?”

***

É legal que a gente encontre fácil no Brasil a edição da Conrad de “Reações Psicóticas” de Lester Bangs, famoso crítico musical americano. Seria legal termos essa facilidade com a obra de Torquato Neto (1944-1972), um dos nossos Lester Bangs.

Torquato Neto era um blogueiro dos anos 70. Escrevia a coluna “Geléia Geral” no jornal Última Hora, onde cobria a vida cultural brasileira (especialmente do Rio), com foco na música, no cinema e num pouco de literatura. Do teatro ele não gostava muito, mas anunciava as novidades, assim como uma ou outra notinha sobre artes plásticas. É legal acompanhar dia após dia, na sua “Geléia Geral”, a história da música brasileira (e mundial) nos ricos anos 71 e 72. Torquato, saudosista, reclamava que a MPB estava muito parada. Pra quem lê hoje soa como ironia. Eram os anos de “Fa-Tal” da Gal (Com “Vapor Barato” e “Pérola Negra”), “Transa” o (disco em inglês) cult do Caetano, “Construção” do Chico Buarque (com a faixa título mais “Cotidiano”, “Deus lhe pague”, “Valsinha” e meia dúzia de clássicos) e o discão do rei Roberto Carlos que trazia “Detalhes”, “Debaixo dos Caracói dos seus cabelos” e “Como dois e dois”. Lá fora, John Lennon estava de música nova: Imagine. E Torquato avisava a galera pra se ligar em uma banda inglesa que estava amadurecendo bem; o Pink Floyd. (Ainda dois anos distante de lançar seu mega-sucesso “The Dark Side of the Moon”). E os Novos Baianos começavam a se tornar íntimos de João Gilberto. (influência que daria origem ao clássico “Acabou Chorare”).

No cinema, Torquato era do time dos “undigrudis”: Ivan Cardoso, Rogério Sganzerla e, claro, Zé do Caixão. Descia a lenha no cinema novo, de Cacá Diegues e Arnaldo Jabor, que passara a ser patrocinado com grana estatal. Só poupava Glauber das críticas. E se empolgava com a tecnologia das câmeras Super 8. 40 anos antes de Youtube e das filmadoras digitais ele previa: todo mundo vai ser cineasta.

Torquato encarnando o Nosferatu Brasileiro

 

“Os últimos dias de paupéria” (organizado por Wally Salomão e Ana Maria Silva de Araújo Duarte) foi publicado postumamente. Torquato estava preparando um livro ( que devia chamar-se “Do lado de dentro”) quando se suicidou com gás de cozinha no dia do seu aniversário de 28 anos. Morreu sem publicar nenhum livrinho em vida. Deixou suas crônicas musicais, suas letras (“Geléia Geral” e “Louvação” com Gil, mais uma dezena com Caetano, Jards Macalé, Edu Lobo e a parceria póstuma de “Go Back” com os Titãs), algumas cartas (numa das quais conta como fumou haxixe com JIMI HENDRIX) e poesias – era poeta tropicalista, amigos dos concretistas e admirador da poesia marginal de Chacal, então estreante. Também dirigiu e atuou em alguns filmes Super 8. Sua empolgação com música-cinema-literatura não o segurou na vida, deprimido com a falta de liberdade da ditadura e a falta de bom gosto da esquerda. Nasceu no tempo errado. Inspirou Caetano numa de suas melhores letras; “Cajuína”, do álbum “Cinema Transcendental” (1979). Aquela que começa existencialista assim:
“Existirmos, a que será que se destina?”.

Veja também:
– “Bandido da Luz Vermelha”, clássico do cinema marginal brasileiro

-A época em que Gal Costa foi musa dos doidões brasileiros

>Apocalypse Now: retrato existencialista de um dos maiores nadas da história

originalmente postado em Dezembro de 2007
>

Retrato existencialista de um dos maiores nadas da história

Flash 1: A visão área da mata tropical no sudeste asiático. Flash 2: Helicópteros bombardeiam uma aldeia de mulheres e crianças ao som das Valquírias de Wagner. Flash 3: Um assassino emerge do pântano com uma faca na mão. Flash 4: O horror!

A seqüência de imagens vêm a cabeça daqueles que assistiram Apocalipse Now(um dos clássicos do diretor Francis Ford Coppola) retrato acidamente poético da Guerra do Vietnã, relançado há algum tempo na “versão do diretor”.

Criticado por Glauber Rocha e elogiado por Paulo Francis, o longa-metragem lançado em 1979 deixou poucas pessoas neutras. Baseado no livro de Joseph Conrad(Coração das Trevas), o filme é um dos raros exemplares de adaptação que se iguala ou até supera a obra original. Para isso, Coppola mudou drasticamente o cenário: das selvas do Congo para o Vietnã, do período neocolonialista para a Guerra Fria. O enredo mantém os elementos básicos do romance; o coronel Kurtz está louco, Willard será o homem designado para eliminá-lo.

No longa, Kurtz – vivido pelo já gordo, mas não menos talentoso , Marlon Brando – é um personagem misterioso que teria visto o horror da guerra nos olhos e se tornado insano. Perdido na busca pela razão dos ser humano, o coronel acaba se tornando um assassino, aspirante a Deus, que passa a agir independentemente, nem ao lado dos americanos, nem ao lado dos vietcongues. Willard (vivido por Martin Sheen) é um capitão do exército sem laços com o mundo. (Recém separado da mulher sente que o Vietnã é “seu lar”.) Sua missão é secreta: terá que subir o rio com uma pequena tripulação(O sério chefe do barco; Clean, um adolescente negro; Lance, um surfista da Califórnia e Cheff, um cozinheiro de New Orleans.) até a divisa com o Camboja.
No caminho se desenrolará toda uma viagem existencialista, uma busca, um conflito com a selva, com nosso lado animal, com a tênue linha que nos separa das mais brutais das bestas, no mais brutal dos jogos humanos: a guerra. De fundo, a trilha sonora eficiente, que inclui o clássico “The End” dos Doors, cruzando perfeitamente com as imagens, formando o videoclipe do final dos tempos.

A idéia de Apocalipse Now Redux era dar ao público a versão original do filme como pensada por Francis Ford Coppola, antes dos cortes propostos pelo estúdio para torna-lo mais “vendável”. Pode cheirar a caça-níquel, mas não, as cenas realmente acrescentam à narrativa do filme. São três trechos principais: o roubo da prancha do Coronel Kilgore, a cena em que Willard e seus homens transam com as coelhinhas da playboy em troca de combustível e uma longa seqüência na fazenda de uma família de colonos franceses, que é a mais importante de todas. Nessa cena o diretor faz as críticas mais diretas ao conflito do Vietnã através da fala dos fazendeiros. Lá aponta-se todo o vazio da guerra, toda a falta de sentido. Num dos diálogos o antigo oficial questiona Willard: “por que vocês estão lutando nessa guerra? Por nada. Esse é o maior nada da história” ou como diria Kurtz olhando nos olhos da morte : “o Horror”…

 

Fred Di Giacomo. 27/09/03

“A Theory of fun for game design”, Raph Koster – Resenha

Publicado originalmente, por mim mesmo, no blog Newsgames, da @revistasuper.

Capa do livro "A Theory of Fun for Game Design"

Capa do livro “A Theory of Fun for Game Design”

– 7 livros sobre newsgames que você tem que ler

Despretensiosamente pretensioso, “A theory of fun for game design” sempre divide suas duplas de páginas entre uma de teoria, com texto tradicional, e outra com um cartoon divertido que ilustra o tema central do capítulo.  Seu autor, Raph Koster, é escritor, pesquisador e chief creative officer da Sony Online Entertainment. Em linguagem pop e fluida, Koster defende a diversão como parte fundamental do processo de aprendizado, essencial para o desenvolvimento humano.  E  jogos (que ele chega e definir como “exercícios para nossos cérebros”)  têm como ingrediente básico de sua mecânica a diversão.   Mas vale a nota: jogos usam a diversão como ferramenta de aprendizado (aprendizado aqui não se aplica só a “ir pra escola”, vai desde aprender a tocar um instrumento até aprender a dirigir um avião), mas não precisam ter a diversão como seu único fim. É aí que Koster entra na parte mais “cabeçuda do livro”: para ele está na hora dos games deixaram de ser apenas entretenimento para ganharam o status de arte. Para isso, precisam variar sua temática (ainda muito ligada às funções básicas de sobrevivência do homem primitivo) e evoluir para tratar de questões não resolvidas da condição humana. Segundo Koster, as primeiras pinturas e as primeiras narrativas também eram focadas em atividades básicas: caçar, guerrear, explorar o território. Elas se tornaram arte quando passaram a tratar de temas mais complexos e abstratos.  Para ele, arte e entretenimento não são palavras que distinguem categorias, elas distinguem a intensidade de um meio.

O livro, por enquanto, só foi publicado em inglês e pode ser encontrado na Amazon.  Ele mescla um pouco de dicas práticas de game design com teoria sobre o que é diversão, o que são jogos e por que os jogos são importantes. Tem tudo a ver com o pensamento de game designers como Jane McGonigal (que defende que games, e consequentemente a diversão, podem mudar o mundo) e Ian Bogost (quando fala sobre videogames serem vistos como arte).  E, no final das contas, consegue aplicar na prática sua teoria sobre diversão, ensinando conceitos complexos pro leitor sem deixá-lo entediado.

Veja também:
– O dia em que os gamers descobriram que podem mudar o mundo

-Darfur is Dying: Conheça o newsgames sobre a crise no Sudão

“O retrato de Dorian Gray”, Oscar Wilde – Resenha

Confesso, minha primeira impressão ao ler as floreadas linhas do único romance do autor irlandês Oscar Wilde (1854-1900) foi pouco empolgada. Era a obra mais feminina que eu já lera. E era escrita por um homem. Justo eu, acostumado ao excesso de testosterona exalado por Bukowski, Pedro Juan Gutiérrez e Henry Miller. Eu que já havia lido autores homossexuais, mas homossexuais libertários ou marginais, capazes de versos viris como os de Allen Ginsberg e Walt Whitman. E das mulheres, que vergonha, lera alguns poucos livros de Anaïs Nin, Rachel de Queiroz e Clarice Lispector. Sou um machista? Um cara fechado em literatura branca/heterossexual/ocidental? Talvez…

E lá, dessa caverna de ogros, me deparo com o parágrafo de abertura:

O ateliê estava repleto de odor substancioso das rosas, e quando a brisa de verão agitou-se por entre as árvores do jardim, entoou, pela porta aberta, o aroma acentuado do lilás, ou o perfume mais delicado do pilriteiro rosáceo.

Seria Oscar Wilde um hipster?

E, então, por trás da afetação dos personagens e das frases polidas com precisão por Wilde, se revela a alma de uma juventude narcisista, hedonista, fútil. Não há nada que você, com sua extraordinária beleza, não possa fazer. Quem aconselha é o experiente dândi Henry Wotton, apresentado ao jovem Dorian Gray – dono de uma beleza extraordinária, que hipnotiza todos que o conhecem – pelo pintor Basil Hallward. É Basil quem fará o retrato de Gray que, magicamente, passará a envelhecer no lugar de seu modelo. O tempo corre, mas o jovem – obcecado em sua busca por prazer – seguirá belíssimo e todos seus (muitos) pecados ficarão impressos apenas na tela pintada por Hallward. (Essa tela, terá papel semelhante à consciência deixada por Macunaíma na beira de um rio, na famosa rapsódia escrita por Mário de Andrade.) 

Calma, esse livro foi escrito quando? 1889? Mas ele parece falar direto à geração “colírios”, aos metrossexuais e aos emos. Aos playboys filhos de donos de grandes empresas de comunicação (RBS) e aos goleiros Brunos da vida. Uma pessoa extremamente bela está acima do bem e do mal? A morte de “seres menores” deve aborrecê-la? Quem são os deuses que habitam um mundo superior, o Olimpo das celebridades, as festas da alta sociedade e que observam intrigados a pequenez da escória (Que inclui eu que sou torto, você que é pobre e ela que é gorda.) Mas Henry e Dorian pedem: E, por favor, não converse assuntos sérios. Nada é sério, hoje em dia. Não deveria sê-lo, ao menos

 “O retrato de Dorian Gray” está longe de ser simples crítica social ou moral. Nem tão pouco é um elogio ao esteticismo defendido duante anos por Oscar Wilde – ele mesmo visto como figura excêntrica, envolvido em escândalos que condenavam sua homossexualidade e seu relacionamento com jovens ingleses. Este livro tem a qualidade das grandes obras de arte que conseguem tratar diversos temas universais e ainda falar direto ao âmago do leitor. É uma profunda reflexão sobre valor da arte e a produção artística. Sobre o belo, sobre o narcisismo e sobre uma juventude que parece não ter envelhecido em nada mais de um século depois.

Muitas pessoas faliram por ter investido na prosa da vida. É uma honra arruinar-se por causa da poesia. Oscar Wilde, “O Retrato de Dorian Gray”

Cidade de Deus: Realidade em ritmo de videoclipe.

Publicado em: 24 de Novembro de 2007

(Em 2003, eu tinha 19 anos, estudava jornalismo na Unesp-Bauru e tinha saído pela primeira vez do Brasil. Minha tia tinha me pagado uma viagem de um mês pros States com direito a curso intensivo de inglês. Lá eu me deparei com o fenômeno “City of God”. Alguns meses depois escrevi a resenha abaixo pro meu extinto zine Kaos)

Dois moleques chorando com a mão estendida à espera de um tiro. Seu crime : roubar um frango pra comer. A sentença: um dos dois não vai sair de lá vivo. O carrasco: um garoto pouco mais velho, aspirante a traficante. O cenário: uma ruela estreita da Cidade de Deus, no entanto, podia ser qualquer outro buraco miserável do Brasil, mudam-se os atores e o enredo é o mesmo.

Muito já deve ter sido escrito sobre Cidade de Deus, não só em português, mas em todas as línguas do mundo. Lembro quando estava nos Estados Unidos de ter lido resenhas elogiosas na Rolling Stone e no Washington Post, “City of God” “seria o que Martin Scorcese teria tentado fazer em Gangues de Nova York e não conseguira”. Um misto de Pulp Fiction e Pixote. Um crossover de realidade e videoclipe.

A história todo mundo já sabe, baseada na obra mezzo ficção, mezzo realidade de Paulo Lins, narra a saga da favela Cidade de Deus no Rio de Janeiro de seus início nos anos 60 até o final dos anos 70, contando também a evolução do tráfico de drogas e a trajetória de Buscapé, um garoto que leva “vida de otário” tentando se virar sem entrar pro crime.

Crianças assassinas, jovens estupradas, policiais corruptos, o horror do Conrad, o nível mais baixo de miséria e violência. O que assusta em Cidade de Deus é que tudo ali é real, qualquer um pode trombar com um Zé Pequeno (o traficante sociopata do filme) pela frente, qualquer um pode perder a vida por um motivo idiota. A situação de calamidade não é problema só dos “pobres”. Os ricos são seqüestrados, tem seus filhos , usam drogas ou são assaltados no semáforo. Contratam-se seguranças, blindam-se carros, erguem-se muros. Milhares de dólares gastos à toa, o mal tem que ser cortado pela raiz, apesar de nossa elite burra ignorar, sem justiça social a situação só vai piorar.

“Eu fumo, eu cheiro, já roubei e já matei. Sou homem feito”. Essa é a lei que rege o cotidiano de milhares de jovens brasileiros que se envolvem com o crime por falta de oportunidade. Eu poderia falar aqui das tomadas de câmera, revolucionárias.da forma de narrativa empolgante, do uso de atores amadores, da excelente trilha sonora(uma capítulo à parte que inclui clássicos que vão de Cartola à Carl Douglas, passando por Tim Maia na fase Racional), mas o que vale a pena mesmo no filme é a história. É a chance do povo brasileiro se olhar no espelho.Sejamos sinceros, nosso mundo não é a realidade branca, classe média do Leblon assistida nas novelas da Globo. Somos um povo pobre, favelado,mestiço. Acho muito importante que cada vez mais o negro seja protagonista no cinema nacional. Madame Satã, Cidade de Deus, Carandiru, O Homem que Copiava, cada vez mais o negro consegue espaço nas telas.

Tive a experiência de assistir Cidade de Deus duas vezes no cinema, uma em Bauru, aqui no Brasil, e outra nos EUA. Nos dois lugares o filme foi um sucesso, em Washington a sala estava lotada, as pessoas faziam fila pra assistir City of God. Acho que pra eles tudo aquilo era uma realidade distante, o filme valia como obra de arte. Ai está o mérito de Fernando Meirelles como diretor. Para mim, brasileiro que me criei do lado de uma “quebrada” e tive oportunidade de conhecer um ou outro Buscapé ou Benê, tudo aquilo era um documentário. Fiquei orgulhoso, Cidade de Deus era o filme “que Scorcese não fizera”. E fiquei aliviado por muitos ainda conseguirem sobreviver a tudo seguindo “o caminho do bem” da música de Tim Maia…

Fred Di Giacomo, jornalista e autor do livro de contos “Canções para ninar adultos”. 27/07/03

Assista o traile de Cidade de Deus:

Veja também:
– Apocalipse Now: Retrato existencialista de um dos maiores nadas da história
-Cidade de Deus: realidade em ritmo de videoclipe
– Tá atrás de resenhas e trailers? Clica aqui e veja mais! 

Cartaz do filme "Cidade de Deus"

“Singin’ Alone”: Disco independente dá graça a tristeza profunda de Arnaldo Baptista

“Não sei se tenho o rei na barriga, mas um frango não faz mal”. Arnaldo Baptista.

Arnaldo Baptista estava numa pior quando gravou o disco “Sigin’ Alone” no final de 1981 e inaugurou as gravações indies no Brasil. Fazia um bom tempo desde que ele tinha lançando o genial “Loki?”, em 1974, mais dois discos com a Patrulha do Espaço no final dos anos 70.  A volta a ativa seria o show “Shining Alone”, organizado com a ajuda de Luis Calanca, da Baratos Afins, que criaria sua gravadora independente só pra lançar o trabalho de Baptista. Os Mutantes e Rita Lee já eram passado e Arnaldo tinha entrado fundo em drogas e depressão. O show deu origem ao disco “Singin’ Alone”, no qual Arnaldo gravou todos os instrumentos. (Como Paul McCartney fez em seus dois primeiros solos). Antes de lançar o disco, nosso anti-herói passou pela famosa (e triste) internação em um hospital psiquiátrico de onde saiu caindo de uma janela do terceiro andar e entrando em coma por três meses.

A obra foi lançada em vinil em 1982 e teve um reedição em cd  nos anos 90 – atualmente fora de catálogo. O disco é bem menos pop que o trabalho com os Mutantes, e segue o tom melancólico de outros solos do artista, em belas músicas como “O Sol” e “I Fell in Love One Day”. Arnaldo faz uso de todos seus trocadilhos geniais para dar graça a dor pulsante. Quer fotografia mais precisa de um gênio sem dinheiro que a frase que abre essa resenha: “Não sei se tenho o rei na barriga, mas um frango não faz mal”?

-Entrevista exclusiva com Arnaldo Baptista sobre “Lóki?” e a tristeza
-Leia resenha do disco publicado no “Mofo”.

Faixa a faixa:
Lado A
01. I Feel In Love One Day
02. O Sol
03. Bomba H Sobre São Paulo
04. Hoje de Manhã Eu Acordei
05. Jesus, Come Back To Earth
06. The Cowboy

Lado B
01. Sitting On The Road Side
02. Ciborg
03. Corta Jaca
04. Coming Through The Waves of Silence
05. Young Blood
06. Train

“O Primeiro Terço” – Neal Cassady: Ícone beat escreve o pior livro de sua geração.

Diversos autores podem se acotovelar para decidir quem foi o cérebro da geração beat, mas seu rosto é definitivamente do malandro Neal Cassady (8 de fevereiro de 1926 – 4 de fevereiro de 1968).

Timothy Leary -o papa do LSD - e Neal Cassady no busão de Ken Kesey

Bonito, durão, amante da velocidade dos carros e das mulheres, esse James Dean da vida real foi o “muso” beatnick. Provavelmente nenhum cidadão comum teve sua história tão contada em livros clássicos quanto Cassady. O que o deixou famoso foi “On The Road”, obra prima de Jack Kerouac, em que Cassady inspirou o protagonista Dean Moriarty. Neal também aparece como N.C. em diversos poemas de Allen Ginsberg (inclusive “O Uivo“) e em livros de Ken Kesey (autor de “Um estranho no ninho”). Cassady foi motorista do ônibus psicodélico de Kesey nos anos 60 e ganhou uma edição de homenagem na revista editada pelo escritor, “Spit in the Ocean”. Além das citações em poesias, Allen Ginsberg – de quem Neal foi amante (sim ele também traçava homens) – tirou diversas fotos do anti-herói que acabaram  impressas em seu livro fotográfico “Beat Memories“. Por fim, Bukowski escreveu o epitáfio literário de Cassady, logo após esse ter sido encontrado morto no deserto mexicano. O conto está no livro “Notas de um velho safado.” Vale ressaltar que Neal era um dos poucos personagens da geração beat que o velho safado admirava.

Capa do livro "O Primeiro Terço", lançado pela L&PM.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mas  isso aqui não é uma resenha literária? Precisamos falar tanto da vida do autor de “O primeiro terço”? Sim, e é justo dizer que a principal obra de Cassady foi sua vida. “O primeiro terço” é um romance autobiográfico que relata a infância do autor em meio à pobreza dos Estados Unidos pós-crash da bolsa. Tem esse nome porque seria uma das três partes da autobiografia de Cassady, mas o escritor morreu antes de começar os outros dois livros e só deixou algumas cartas e fragmentos como espólio. Pelo relato histórico de um período importante na história americana e como curiosidade para os fás de literatura beat é válido. Mas como literatura não se sustenta. A linguagem em geral é pobre, em alguns momentos truncada e não se compara às obras das “melhores mentes de sua geração“. Tanto que na introdução da obra, o poeta e editor Lawrence Ferlinghetti dá esse “desconto” para a prosa de Cassady, deixando um clima de isso “é mais importante do que bom”. O autor tem alguns lampejos, em que parece encontrar sua voz, especialmente nas cartas para Kerouac, incluídas como anexo no final do livro. Para os interessados no assunto é um bom jeito de entender melhor o fascínio despertado por esse malandro fã de Proust em toda uma geração de intelectuais.

Siga o blog no Twitter: @punk_brega

Neal Cassady e a mulher, em foto do poeta Allen Ginsberg

 

“Não devemos nada você” – Resenha do livro de Daniel Sinker

-Conheça a autobiografia de Dee Dee Ramone

nao-devemos-nada-a-voce

As coisas à sua volta acontecem muito rápido, você está ansioso pra fazer alguma coisa, mas não sabe por onde começar? Calma! Respire, compre (baixe ou roube) o livro “Não devemos nada a você” e leia todas as 30 entrevistas até o final. Pronto, agora você pode montar sua banda, seu coletivo, sua ONG ou sua própria gravadora. Você pode até mesmo sonhar em mudar o mundo e ter exemplos concretos de gente que trabalhou pra isso.

Inspiração é o que transborda das quase 300 páginas de conversas com figuras importantes da cena punk/alternativa americana que falaram com a revista Punk Planet, em seus 13 anos de vida. E lá estão veteranos do punk rock como Jello Biafra(ex-Dead Kennedys) e Ian Mackaye(ex-Minor Threat e Fugazi), mas também grupos novos como The Gossip e Los Crudos. Artistas hype como Miranda July, pensadores como Noam Chomsky e produtores como Steve Albini. Todos unidos pela vontade de fazer as coisas de forma independente, de achar uma alternativa ao status quo. “Do it yourself” grita para o leitor cada entrevista.

É bacana conhecer uma cena onde punk ou atitude alternativa não são coisas só de meninos rebeldes ou de figuras uniformizadas com moicanos e coturnos(nada contra moicanos, só contra padrões). Muitas das vozes de “Não devemos nada a você” saem de pessoas que vivem daquilo há anos. Que realmente fazem coisas práticas – como ajudar mulheres a abortar ou levar mantimentos para o Iraque – para mudar nossa sociedade. Pra quem se interessa por imprensa alternativa, rock, punk ou cultura independente é item obrigatório. Pra quem não se interessa por nada disso, é uma forma inspiradora de começar.

Leia alguns contos punks, se tiver coragem.

Capa da edição gringa – bem mais bacanuda que a nossa, né?

 

É só isso?
Não, também tem entrevistas com Thurston Moore(Sonic Youth), Bob Mould(Hüsker Dü & Sugar), Black Flag, Kathleen Hanna(Bikini Kill & Le Tigre), Sleater-Kinney, Porcell(Shelter), entre vários outros.


NÃO DEVEMOS NADA A VOCÊ

Organização e edição: Daniel Sinker
Edições Ideal
308 p. / R$ 40
www.idealshop.com.br

Daniel Sinker, criador da Punk Planet

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