Ron Carter homenageia Miles Davis no Sesc, ouça músicas do baixista


Ron Carter – baixista fodão que tocou com o gênio do jazz Miles Davis – toca no Sesc Pinheiros dias 21, 22 e 23 de outubro. As informações básicas vão abaixo. Também separei dois vídeos do cara mandando ver. Um, nos anos 60, com Davis e companhia e outro de 1994 fazendo hip hop ao lado do francês Mc Solaar no documentário Red Hot +. (Projeto musical bacana que rolava nos anos 90 e procurava alertar o mundo sobre os riscos do HIV).

 

 

O quê?
Ron Carter
SESC Pinheiros
Dia(s) 21/10, 22/10, 23/10
Sexta e sábado, às 21h; Domingo, às 18h.

Com Miles Davis

Fazendo hip hop

-Todas notícias de jazz

5 sons pioneiros do rap nacional

O hip hop chegou no Brasil nos anos 80, numa transição do que era o black power dos anos 70, para o que seria o rap nacional. B.boys, MC’s e alguns grafiteiros se reuniam no centro de São Paulo, perto da estação São Bento para dançar e trocar ideia sobre música. Em 1988, André Jung e Nasi, da banda Ira!, produziram a coletânea “Hip Hop Cultura de Rua” para o selo Eldorado. Foi o disco que lançou Thaíde e DJ Hum(com “Corpo Fechado”) e Mc Jack(de “A minha banana”). Algum tempo depois, sairia “Consciência Black” estrelando Racionais Mc’s e sua “Pânico na Zona Sul”. Um dos primeiros hits do movimento foi a ingênua e dançante “Nome de menina” de Pepeu. Junto com nomes como Código 13 e Athaliba e a Firma, ele fazia o hip hop revezar crítica social com músicas dançantes e animadas. Nélson Triunfo era o grande nome do break e, nos anos 90, a cena cresceria muito com várias bandas gravando discos em todos os estados do Brasil, principalmente depois da forcinha dada pela estreia de Gabriel, o Pensador – um branco de classe média que ajudou a popularizar o som entre todas os grupos sociais.

Cada do crássico pioneiro do rap brasileiro

***

Quando eu fiz a lista dos 10 clássicos do rap nacional, meu critério foram músicas que foram importantes na época de seu lançamento, influenciaram outros grupos e ficaram na cabeça dos amantes do estilo até hoje. Mas faltaram alguns sons pioneiros, que hoje em dia não são mais tão lembrados, mas foram importantes por abrir caminho para tudo que veio depois. Desses, eu escolhi seis pra você curtir e relembrar. Aumente o som e divirta-se!

1)Nome de menina – Pepeu

2)Política – Athaliba e a Firma

3)Corpo Fechado – Thaíde e DJ Hum

4)A minha banana – Mc Jack

5)Pânico na Zona Sul – Racionais Mc’s

Bônus:
Ndee Naldinho merece estar em qualquer lista de pioneiros do hip hop, sua história com o rap começa nos anos 80, quando a cena surgiu no Brasil. Como nasci em 84, só comecei a escutar som de verdade nos anos 90, quando descobri “Melô da Lagartixa” numa fita cassete de um camarada. Não achei a data exata da música, por isso deixei ela como bônus aqui nessa lista de sons das antigas.

Melô da Largatixa – Ndee Naldinho

Cabeça de Nêgo – Sabotage

Sexta-feira é dia do santo descer com os vídeos de estimação do Punk Brega
Acho que essa é uma das músicas mais bonitas de rap nacional que já ouvi. A mistura de MPB, ponto de macumba e hip hop cantada por Sabotage e o Instituto é genial. É foda, sempre que escuto esse som fico triste por imaginar quanta coisa legal o Sabota poderia ter feito, se não tivesse sido assasinado. E fico pensando: quantos Sabotagens a gente não perde sem nem terem chegado a gravar um disco, por terem feito a escolha errada? Ou pela falta de escolha…
Veja também:
– 5 sons pioneiros do rap nacional
– 10 clássicos do hip hop brasileiro

 

5 discos injustiçados do rap nacional

Existem algumas unanimidades do hip hop nacional: mídia e fãs adoram Racionais Mc’s, todos respeitam a história doThaíde, Sabotage virou herói, etc. Nada contra, os três são excelentes artistas brasileiros, mas sempre senti um pouco de preconceito com as grupos que incorporaram elementos de rock ao seu som, ou contra MC’s que não tenham vindo diretamente das comunidades pobres. Por isso fiz a lista abaixo. Talvez, daqui uns anos, ela seja bem indexada no Google e gere polêmica. Muita gente pode reclamar: “Pô, o que esse cara entende de rap, deve ser mó playboy, etc.” A intenção aqui não é cagar regra, mas provocar reflexão e tentar resgatar discos bons que não seguem a cartilha do hip hop nacional clássico. Quem não tiver preconceito vai se surpreender.

-Mais listas
-Sabotage cantando a bela “Cabeça de Nêgo”

Faces do Subúrbio – Faces do Subúrbio

Lançado originalmente de forma independente, o disco de estreia dos recifenses do Faces do Subúrbio misturava não só o rock com rap, mas também embolada(ritmo tradicional brasileiro que lembra o hip hop), acrescentando pandeiros à pick up e guitarras. A banda teve bastante destaque na onda do Mangue Beat, mas nunca chegou a ser popular em São Paulo. É um bom disco pra quem se interessa pela fusão de hip hop com ritmos nacionais.

Ouça:Homens Fardados“, “Os Tais” e “P.P.O.R”
Eu tiro é onda – Marcelo D2


Seguindo na mistura de ritmos nativos com as batidas do rap, encontramos “Eu tiro é Onda”, primeiro álbum solo de D2 e pioneiro na mistura de hip hop com samba e bossa nova. “Pô, cara, mas D2 injustiçado?”, você pergunta. Obviamente o MC carioca fez muito sucesso com seu segundo álbum(“A procura da batida perfeita”), mas muita gente do hip hop mais tradicional ainda torce o nariz pro D2, tanto por seu som ser mais pop, quanto por ele ter um passado roqueiro/mainstream.

Ouça:1967“, “Samba de Primeira”, “Eu tive um sonho”
3)Cadeia Nacional – Pavilhão 9


Antes do fenômeno “Sobrevivendo no Inferno”, o Pavilhão 9 foi o grupo de rap mais comentado de São Paulo. Venderam 10.000 discos rapidamente, foram capa da Veja SP e contaram com a participação de Marcelo D2, Nação Zumbi e Sepultura em seu terceiro disco. O grupo se apresentava mascarado e se servia de fartas doses de rock pesado para compor seu som. O problema é que a aproximação com o rock os afastou dos puristas do hip hop, mas não os habilitou para o sucesso no mundo rock ‘n’ roll. Perdidos entre duas tribos, o grupo deixou essa pancada clássica para quem não se importa com rótulos.

Ouça: Mandando Bronca“, “Opalão Preto” e “Otários Fardados”.

4)Gabriel, o Pensador – Gabriel, o Pensador

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A importância do primeiro disco de Gabriel, o Pensador pro rap brasileiro é análoga ao surgimento dos Beastie Boys nos EUA: “Rapper branco de classe média, em um momento em que o hip hop era visto com preconceito pela sociedade, consegue destaque com o som negro e abre caminho para as grandes bandas do gênero”. É bobagem ficar menosprezando o trabalho do Pensador por sua classe social ou sua cor. Crítica, com rimas espertas e bases cruas, essa é uma das estreias mais impactantes da música brasileira e merecia ser respeitada como uma das boas bolachas do rap brasuca.

Ouça: “Lôraburra”, “Retrato de um Playboy”, “Tô Feliz(Matei o presidente)

5)Câmbio Negro – Câmbio Negro

Saída das quebradas de Ceilândia, a banda liderada pela voz grave de X teve uma trajetória parecida com o Pavilhão 9. Começaram fazendo hip hop tradicional com DJ e depois acrescentaram guitarra, baixo, bateria e influências de rock pesado. Além dos grooves de “Esse é meu país” e “Círculo Vicioso”, o disco conta com a sinistra “Um tipo acima de qualquer suspeita” sobre um tarado que ataca mulheres de todas as cidades até acabar na cadeia “chupando de todo mundo, chamando de meu bem”. Um dos melhores e mais criativos álbuns de rap nacional

Ouça: “Esse é meu país”, “Círculo Vicioso” e “Um tipo acima de qualquer suspeita“.

Umbabarauma 2010 – Mano Brown, Jorge Ben, Pupillo, Céu, Thalma de Freitas e grande elenco

Como amiguinhos muito bem informados, vocês sabem que a Nike já cagou bastante no mundo. Seja na Copa de 98( :-P, hehehe), seja colocando criancinha nos confins da Ásia pra costurar bola e tênis. Mas ok, se era pra eles fazerem alguma coisa decente, eles bancaram esse clipe + música + documentário que tirou Mano Brown do isolamento musical e o jogou cara a cara com Jorge Ben, Pupillo da Nação Zumbi, DJ Zegon, Daniel Ganjaman e as cantoras Negresko Sis (Anelis Assumpção, Céu e Thalma de Freitas).Parece que o negócio ficou bom. Vamos esperar pra ouvir.

10 músicas clássicas do rap nacional

-Mais notícias de música
-Mano Brown fala sobre  Serra, Dilma, Lula e PCC

Primeira edição da revista “Pode crê”, de 1993, garimpada pelo blog “Olha onde a favela chegou”

 Sim, sim, dava pra fazer umas 3 listas com clássicos do rap nacional. A primeira poderia ser só com  as músicas do começo do movimento, de caras como Athaliba e a Firma, Pepeu e Ndee Naldinho. Outras poderiam trazer as que  fizeram mais sucesso ou com as que foram mais influentes. Eu não pretendo rabiscar nenhuma dessas. A ideia aqui não foi listar as melhores, mas 10 músicas que marcaram época e que são conhecidas(ou deveriam) por todo mundo que curte hip hop. A maioria delas conseguiu ultrapassar a barreira de gêneros e fez sucesso fora do mundo do rap também. Tentei equilibrar aquelas boas pra animar bailes, com outras mais preocupadas em passar uma mensagem.  Foquei no final dos anos 90 porque foi a época em que ouvi mais esse som, e é de lá que vem meu saudosismo com “um tempo bom que não volta nunca mais”.

-Outras listas

Diário de um detento – Racionais Mc’s
“Fim de semana no parque” foi uma das primeiras músicas dos Racionais que ouvi – no rádio mesmo – no meio dos anos 90. Eu era bem moleque e alguns anos depois eles estourariam com “Sobrevivendo no Inferno”. Ouvi esse disco diversas vezes, prestando atenção em cada detalhe das letras. “Diário de um detento” virou, provavelmente a música mais conhecida do rap nacional. Do playboy do colégio ao empacotador do supermercado, todo mundo sabia a letra de cor. Tem outras boas mais antigas(“Mulheres Vulgares”, “Hey Boy”, “Pânico na Zona Sul”), mas poucas marcaram tanto quanto esse relato do cotidiano no Carandiru.

Senhor Tempo Bom – Thaíde e DJ Hum
Muita gente acha que o grande clássico de Thaíde é “Corpo Fechado” que saiu  na coletânea “Hip Hop Cultura de Rua”, de 1988. Ela tem sua importância pioneira,  mas “Senhor tempo bom” se tornou um hino, uma homenagem funkeada aos clássicos black power que acabou se tornando, ela mesma, um clássico, animando bailes por todo o Brasil desde que foi lançada em 1996.


Rap é compromisso
– Sabotage
Infelizmente, Sabotage só lançou um disco em vida. Foi o suficiente para entrar pro pódio do hip hop nacional com uma cadência chapada nas rimas e influências de samba, chorinho e MPB que faziam a diferença em seus raps. Ao lado de “Respeito é pra quem tem” e “Um bom lugar”, “Rap é compromisso” é uma das melhores composições que Sabota deixou antes de ser assassinado.


Fogo na Bomba
– De Menos Crime
“Fogo na Bomba” ultrapassou os limites do rap, virou grito de guerra de maconheiros espalhados por todo Brasil, ganhou espaço em show de rock e foi um dos grandes hits de 1999. Ralando desde 1987 em São Mateus, os manos do De Menos Crime fizeram muita gente que nem curtia hip hop ter o refrão dessa música na ponta da língua. Pra quem gostar vale ouvir “Burguesia” e “A Bola do Mundo”


Tic Tac
– Doctors Mc’s
Tic Tac deve ter sido um dos clipes de rap mais exibidos no extinto Yo!,  da Mtv. Pra mim ela tem um puta gosto de nostalgia. O Doctors normalmente fazia um som mais animado, bom pra galera bater cabeça, mas foi nessa baladinha bem-humorada que os caras conseguiram criar um clássico maior que a própria banda.

Us mano e as mina – Xis
Outro megahit que ultapassou os limites do hip hop, “Us Mano e as mina” tinha a força de um refrão de torcida e fez a galera começar os anos 2000 cantando rap. Xis já estava na correria há anos, tocava a gravadora 4P com KL Jay, tinha passado pelo DMN e gravado “De Esquina”, com Dentinho. Mas foi na simplicidade divertida dessa faixa que ele encontrou o caminho pro sucesso.

O Trem – RZO
O RZO é respeitado por toda sua história, gravou diversas músicas, fez parcerias com artistas que vão de Charlie Brown Jr a Sabotage, passando pelo Instituto. A banda de Pirituba, revelou – também – o talento de Sabotage e Negra Li pro mundo. Mas pra mim, o grande momento dos caras é essa música, presente no disco “Todos são manos”, de 1999.

Cada um por sim – Sistema Negro
O Sistema Negro foi o responsável por colocar Campinas no mapa do rap. Em 1994, “Cada um por si” virou um clássico instântaneo das festas de hip hop – e do já citado Yo!. Diziam que o som dos caras era gangsta, mas as letras eram muito mais retrato e crítica da violência, do que a apologia que os rappers gringos faziam. Faz parte do disco “Ponto de Vista”.

Casa Cheia – Detentos do Rap
Antes de 509-E e outras bandas formadas na cadeia fazerem sucesso, o Detentos do Rap abriu caminho com “Apologia ao crime”, gravado em 1998 na Casa de Detenção de São Paulo. O disco vendeu 30.000 cópias e tornou o refrão “É o Carandiru está de casa cheia/Muito veneno no ar/ e muita droga na veia” um crássico.


De Esquina
– Dentinho e Xis
Em 1997, os rappers Dentinho e Xis(então no DMN) se juntaram pra gravar esse rap que fala sobre a paranoia da cocaína. A faixa foi produzida pelo Thaíde, abriu caminho pra carreira solo de Xis e ganhou até versão samba na voz da cantora Cássia Eller.

Veja também:
– 5 discos para quem quer começar a ouvir rap brasileiro
-5 músicas pioneiras do hip hop brasileiro
-5 discos injustiçados do rap nacional
-Sabotage cantando a bela “Cabeça de Nêgo”
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Tiros, tretas e vagabundagem. (Aconteceu no meu bairro.)

(Esse conto foi originalmente publicado no site Enraizados e faz parte do meu primeiro livro Canções para ninar adultos“. Dedicado a todos amigos do meu bairro)

por Fred Di Giacomo

Não sei quem mata mais a fome, o fuzil ou Ebola. Não sei quem sofre mais, os pretos daqui ou os de Angola,

O Invasor”, Sabotage.

Mestre Sabotagem atuando no filme "Carandiru"

Mestre Sabotagem atuando no filme “Carandiru”

 

_Escuta, vamos matar esse puto logo e sair daqui, não tô afim de preocupação pra minha cabeça.

_ Porra, Bino, você tá amarelando, meu irmão? O negócio é baba, pega o padre, bota uma bala na cabeça dele e boa. Trabalho feito.

_Caralho, Betão, você acha que sair por ai matando padre é um esporte bem agradável, né?

_Ih, calma vocês dois. Vamos agilizar o negócio. O cara vai estar no acampamento sexta, a gente espera na estrada e faz o serviço: simples assim.

Quem falou foi o Fino, o Mudo não falou nada. Ele nunca falava.

***

Tava tocando Bezerra da Silva, cd de camelô. O cheiro de gordura queimando se espalhava pelo bairro. Criança chorando no vizinho. Sempre. Seis caras e três mulheres. Cerveja “Conte” barata e caipirinha com pinga 21. R$ 2,28 no supermercado. Mais barato que maconha. Tinha uma mão de cinco reais também. Mas só o Gil e o Bina fumavam. A galera não curtia, nem pegava bem com os vizinhos. Foda. A Tat chegou, já tava barriguda. De 6 meses. Caralho, como o tempo passa rápido: a mina brincava na rua ontem e hoje já era essa mulher. “Nega linda”, que nem rosnava o Gil, sacana. O pai do moleque tava na Holanda. “Alguma bolsa de estudo?” Não, tráfico internacional. Sem brincadeira. A galera ainda pagava pau. No duro. Mó ascensão social. Não to contando histórinha de Jornal Nacional, é um negócio que eu ouvi na minha vizinhança.

Cheiro de gordura queimando. Sol quente, asfalto esburacado. Parede descascando. Muros baixos cada vez crescendo mais. Vira-latas na rua revirando lixo. Salivando. Cheiro de gordura queimando, mais uma vez. Seu Wilson não gostava da vizinhança, tinha mudado muito. Aglomerado de pobres. Quase todos vivendo como negros, sejam brancos ou mulatos. Som alto. Seis horas, rua cheia de bicicletas voltando do trabalho. Sete horas rua cheia de bicicletas indo pro culto. Pernas que pedalam usando chinelos. Havaianas, as legítimas. Pernas entrelaçadas nas construções inacabadas. Meninas virando mulheres. Aquilo já tinha sido um bairro de classe média baixa, quase todo mundo vivendo como quase brancos. Quase todo mundo, quase cidadão. Agora era o Senhor Wilson contra o mundo, trancado em casa. Tinha TV por assinatura e computador. Tinha medo de assalto e reumatismo. Tinha se aposentado depois de quarenta anos de serviços diversos. Tinha vindo do nordeste sem curso superior. Tinha sobrevivido.

***

_ Caralho, Betão, você tá maluco? A gente não conhece essa cidade, mermão. Porra, onde você ta metendo esse carro.

_Se liga, Bino, caralho! To falando que você tá frouxo. Meu Deus, é por aqui que a gente pega a estrada.

_Betão, seu preto, filha da puta. Se ninguém matar a gente, eu te mato.

_Vai tomar no cu, branquelo! Vou te mostrar o que o negão tem de bom.

_Aposto que o meu pau é maior que de qualquer preto filho da puta.

_Ah, eu aposto vinte conto! Aposto no duro, vou até parar o carro agora.

_Para então, tiziu. Macaco do caralho!

_ Macaco não, hein, seu branquelo! Vou te mostrar a serpente africana.

_ Se o seu pau for maior que o meu, eu chupo ele.

_ Cê vai chupar, então.

Pararam.

Cena do filme "Guido deve morrer", primeira aparição dos matadores Pedro, Bino e Mudo

Cena do filme “Guido deve morrer”, primeira aparição dos matadores Pedro e Bino

***

Cerveja rodando. Vagabundagem sentada na frente da calçada. Silmara com o Wilsinho. Bina conversando com o Juninho e o Bola. Gil em cima da Tat. Sheila dançando. Geninho sentado no canto, batendo o pé, tentando acompanhar o ritmo. Homens brancos não sabem dançar.

_Orra, Bina, a Sheila tá filézinho, hein, mano?

_ Só.

_Se liga, Juninho. Cê não pega ela nem fudendo, a Sheila só fica com boy.

_ Ih, Bola. Cê é gordo, não enxerga nem o pau. Não entende de mulher, mano.

_Vai lá então, garanhão.

_ Que cê acha, Bina?

_ Desisti das mulheres, mano, só como puta.

_ Se acha da hora?
_O foda é que eu acabo ficando amigo e paro. Fico com dó, mó nóia.

_Vai lá, Juninho! O Gil já ta garfando a Tat, grávida e tudo.

_ Treta, hein?

_ Só vai ter treta, se alguém sair falando merda. O macho dela não precisa saber, né? O cara é do movimento, mó foda.

_ Pode crer, vou lá na Sheila, então.

Era loirinha, de olho castanho. Bunda redonda, peitinho arrebitado. Usava shortinho jeans, marcando a lordose, e blusinha de alcinha. Chinelinho Havaiana vermelho. Cabelo solto, compridão até a bunda. Sabia que era gostosa. Dançava requebrando até embaixo. Um crime. Juninho foi. Ficaram o Bina e o Bola. O Bina tinha trinta e dois anos, careca, bigodinho fino. Mulato mais pra negro. Magro. Poeta. Tinha sido punk. Tinha rodado o mundo com a mochila nas costas e uns fanzines dentro. Desenhava pra caralho. Trampava no curtume, turma da noite. Hoje era do rap. Bebia muito, falava pouco.

Daí chegou um opalão com som fudido. Dentro estavam o Morcego, o Renatinho e o Lu Furacão. Tudo turbinado: colarzão de ouro, óculos escuros, camisa de marca. E o Gil fazendo a Tat, lá no fundo. Tinham que segurar os nego lá na frente e avisar o moleque, senão iam querer honrar o amigo que tava tomando chifre lá da Holanda. O Bina foi lá, ofereceu cerveja. A Sheila também foi, ofereceu esperança. A Silmara foi pro fundo avisar os dois.

Seu Wilson estava de olho no esquema. Era o pessoal do movimento, melhor chamar a polícia rápido. Polícia corrupta. Direto parava um taticão na boca do bairro. Parava, ficava uns dez minutos e saía, de boa. Diziam que era batida, mas os traficantes nunca estavam lá. A polícia brasileira tem dois patrões: rico ladrão e pobre ladrão. Ligou mesmo assim. Seu Wilson estava pensando em mudar do bairro.

***

 4 pistoleiros discutindo a aposta:

_ “Cê” vai chupar!

_ O caralho!

_ Isso mesmo, “cê” vai chupar o caralho, ou eu vou por na tua bunda.

_ Calma ai, moçada. _ O Fino saiu do carro.

_Tu tem uma puta pica mesmo, Betão, agora vamos cair na estrada. _ O Fino tentava acalmar os ânimos. O Mudo tava quieto no carro. O Bino entrou rápido, com medo da “serpente negra”.

O Morcego estranhou o Honda Civic parado ali na frente, rodeado por homens de terno e óculos escuros.

_ Ei, boy, que você tá fazendo aqui?

_Se liga, Morcego, o cara tá com a pica de fora. Puta sacanagem dos playboys. Tão achando que tão na Gozolândia.

_ Filha da puta, guarda esse pau, maluco!_ Apontou a PT.

O Betão apontou a dele. A cena congelou. Betão com as “duas” armas em riste. O Fino de costas. Os três traficantes apontando os berros. Close no carro, Mudo girando a chave na ignição. Volta o movimento. Uma bala castra o orgulho do Betão. Fino toma dois tiros nas costas. O Honda Civic sai em disparada. Os três traficantes correm atrás com os canos na mão e dão de cara com o taticão. Seu Wilson olha pela janela, ri. Fez sua parte e botou na bunda dos marginais. Liga pro jornal, põe um anúncio nos classificados. Queria escrever “Vendo terreno no inferno”. Velho exagerado, nem repara que o som rolou até de madrugada.

Periferia é periferia, né?

2005

Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais“ . Ele foi pioneira na criação de newsgames (jogos jornalísticos no Brasil) e toca na Banda de Bolso.

Para ler ao som de “Periferia é Periferia” dos Racionais Mc’s:

 

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