Virginia Woolf – Galeria de Anti-Heróis

Uma imagem fala mais que mil segunda-feiras

Virginia Woolf foi um dos maiores nomes da literatura do século XX

Virgina Woolf (1882 – 1941), foi uma escritora, editora e um dos maiores nomes da história do movimento modernista. Entre suas obras destacam-se “Mrs Dalloway” e “Passeio ao Farol”. Você pode conhecer um pouco mais da vida da autora inglesa no filme “As Horas”.

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Anaïs Nin – Galeria de Anti-Heróis

Uma imagem fala mais que mil segunda-feiras

Anaïs Nin: boa de trago e boa de texto

Anaïs Nin (1903 – 1977), escritora, autora de “Delta de Vênus” e “Henry, June e Eu”. Parte de sua vida foi retratada no ótimo filme “Henry & June”

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Leia análise de “A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen”, de Eugen Herrigel: o livro que apresentou o zen budismo para o mundo ocidental

A arte genuína não conhece nem fim nem intenção, Kenzo Awa

Capa da edição brasileira de “A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen”

O livro “A arte cavalheiresca do arqueiro zen”, do filósofo alemão Eugen Herrigel(1884-1955), tem o mérito de ser um dos principais responsáveis por introduzir e popularizar o pensamento zen budista no ocidente. Grande parte desse mérito se deve ao fato do livro ser curtíssimo (a edição da editora Pensamento tem 91 páginas) e escrito numa linguagem simples, que traduz os pensamentos do zen para leitores comuns.

Herriegl passou alguns anos(1924-1929) no Japão, ensinando filosofia na Tohoku Imperial University. Interessado no pensamento oriental, ele começou a estudar o kyudo (arte do arco e flecha) com o mestre Kenzô Awa (1880-1939), enquanto sua mulher estudava a arte dos arranjos florais.

Posteriormente, Herrigel relacionaria a arte do arqueirismo com o pensamento zen, produzindo uma série de estudos que dariam origem ao livro. A forma de relacionar um trabalho manual com o desenvolvimento espiritual (“… a obra interior que ele deve realizar é muito mais importante que as obras exteriores”) dialoga diretamente com livros posteriores que se inspirariam na obra de Herriegel, como o clássico “Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas” de Robert M. Pirsig, no qual o autor ensina que a escalada da montanha é muito mais importante que chegar ao cume.

Eugen Herrigel praticando arqueirismo

Muita viagem? Um trecho que resume bem a ideia do livro é essa fala do mestre Kenzo sobre o arqueirismo: “(…) não se deve envergonhar pelos tiros errados. Da mesma maneira, não deve felicitar-se pelos que se realizam plenamente. O senhor precisa libertar-se desse flutuar entre o prazer e o desprazer. Precisa aprender a sobrepor-se a ele com uma descontraída imparcialidade, alegrando-se como se outra pessoa tivesse feito aqueles disparos. Isso também tem que ser praticado incansavelmente, pois o senhor não imagina a importância que tem.”

Atingir o equilíbrio, evitar a busca pelo prazer ou tristeza pela falha, preocupar-se mais com o ato do que com suas conseqüências. Seguir os instintos. “Comer quando se tem vontade de comer e dormir quando se tem vontade de dormir”. O pensamento zen oriental, apresentado por Herrigel, pouco tem a ver com nossa forma pós-moderna e ocidental de viver. Mas é uma boa oportunidade de enxergar que toda regra é burra e que existem formas muito velhas de pensar, que parecem mais modernas que o hype que engolimos diariamente como a hóstia da nossa (não)religião descolada.

Compre o livro aqui e ajude nosso blog!

Veja também:
-A filosofia pop de “Zen e a Arte da Manutenção de motocicletas”
-Confira o lado ocidental do conhecimento na “Odisséia” de Homero

Jazz: Vontade de matar ao som de Count Basie – conto

Essa versão atualizada de “Jazz: Vontade de matar ao som de Count Basie” foi publicada originalmente no livro de contos “Canções para ninar adultos“, de Fred Di Giacomo, lançado pela editora Patuá no final de  2012. A história faz parte do lado B do livro.

O gênio do jazz Countie Basie

“Sangue fresco tinha gosto de Bourbon”. Gostava de lamber o sangue depois de matar. Fazia-o lembrar de suas raízes animais. Depois poderia voltar a ser o “homem bom”. Depois poderia voltar a ser Humano. Irritava-o fingir no imenso teatro de mentiras que é a vida. Na peça da sua existência representava um cirurgião-dentista. Queria ser médico, mas o vestibular era muito difícil. Queria ser médico, gostava de sangue. Isso se via logo de cara. Lambuzava-se. Deixou vinte e cinco reais no quarto, beijou a boca da puta e foi embora.

As ruas de São Paulo eram imundas e cheias de gente feia. Pessoas com cara de cocô, pareciam montes de merda ambulante. Pelo menos estavam em paz com os animais internos. Corja de assassinos e ladrões arrastando-se pelas sarjetas. Queria estar em Porto Alegre… Uma loira fenomenal do outro lado da rua. Cara de safada. Óculos escuros, batom vermelho, salto alto. Vestidinho sacana demarcando a bunda. Pernas fabulosas e seios vulcânicos. Silicone. Brasileiras não têm peitos daqueles. Talvez seja gringa. Não, as gringas não têm uma bunda daquelas. Meu Deus, como rebolava!

Odiava silicone, tinha gosto de plástico. Gostava de rasgar a carne na boca e sentir as hemácias explodindo com o contato dos dentes. Era um sádico – tinha vontade de estuprar a loiraça ali mesmo, no meio da rua. Encostá-la na parede, rasgar sua calcinha e currá-la no meio da multidão com cara de cocô. Essa ideia passava pela cabeça de metade daqueles “homens bons”. A maioria deles estupraria uma dona daquelas se a sociedade não os jogasse atrás das grades por isso. A maioria rezava para que acontecesse uma guerra ou o fim do mundo para estuprar as mulheres que nunca iriam comer.

Nosso amigo: baixo, magro, brasileiro de nascença, óculos quadrados, aros negros. Nosso amigo: ser humano do sexo masculino, cirurgião-dentista. Nosso amigo: R.G. 43.466.247-9. Nosso amigo era um cidadão respeitável. Sua mulher chamava-o de “chuchu”. Sua filha dizia que ele era o “melhor pai do mundo”. A empregada dizia que ele era justo e respeitador. Mulata sacana! Transava com todos aqueles negros, pobres e nordestinos, tinha uma porção de filhos a parideira, uma bunda gigante e ele ali segurando os testículos para não enfiar-lhe por trás quando ela estivesse abrindo o forno ou esfregando o chão de quatro. Suava só de pensar. Teve uma ereção. A loira entrou num cabeleireiro chique. “A LOIRA” entrou num cabeleireiro chique. AQUELA LOIRA FENOMENAL, OBRA PRIMA DE DEUS, entrou num cabeleireiro chique. Devia ser ricaça, a vagabunda! Uma loira daquelas se casava com quem ela quisesse. Não precisava trabalhar nem se prostituir várias vezes. Bastava vender a alma para um velho brocha… E rico!

O nosso amigo tinha problemas de ereção. Com a mulher não conseguia nada há um ano; suspeitava que ela tivesse um amante. O eletricista ou o velho amigo de nosso amigo, Marcos. Não importava! Alguém estava comendo a Márcia e não era ele. Com as outras gozava rápido demais, tinha fimose. Queria ficar mais tempo para elas não irem embora tão rápido. Queria transar gostoso, para depois ganhar um abraço carinhoso e poder dormir de conchinha. Mas elas nunca gozavam, fingidas, mulher que não goza fica mal-humorada e arruma um amante. Eram as leis da vida. Por isso queria estar em Porto Alegre, tinha visitado a cidade apenas uma vez, mas lhe parecia um bom lugar. Agradável. Gostava de imaginá-la como Pasárgada. Sem negros com paus enormes comendo suas mulheres, só um negrinho que tocava piano e cantava jazz. Lá num barzinho gaúcho. Montes de bichas moderninhas, artistas intelectuais e ele, o último dos homens comuns. Homo sapiens sapiens heterossexual, espécie em extinção. Tomando Black Label pela primeira vez após trinta anos de trabalho fixo e carteira assinada. O negrinho até que tocava bem: Count Basie, Benny Goodman. Um baixista o acompanhava, tocaram uma do Mingus. Sim, Charles Mingus, seu moleque ignorante! O rei do contrabaixo! Aqueles moleques e veados não conheciam nada. Ouviam as notas para parecerem bem cool, mas não viam a hora de aquilo acabar para correrem para casa e escutarem um pouco de rock‘n’roll. Ou rap! Ou algum ritmo novo e sem alma. Ou qualquer merda que esses jovens enfiavam em nossos ouvidos achando que era arte. A arte morreu com o último romântico. Hoje só existiam barulho e velhos broxas, lentos demais para seu tempo.

Pegou um ônibus, depois o metrô. Nem os dentistas ganhavam bem naqueles tempos de crise nas infinitas terras. Aliás, alguns ganhavam, mas ele não, era o clássico exemplo de classe média em queda livre, que já tinha descido pra classe média baixa e continuava despencando. No ônibus tinha um cara enconchando uma morena de bunda enorme. Não parava de se esfregar na mulher, aproveitando-se da superlotação, do balanço do “busão” e da falta de cavalheirismo dos homens sentados. Às vezes o nosso amigo queria dar lugar para uma senhora, mas não sabia como fazê-lo, não tinha iniciativa. Ficava pensando no que falar e, quando se dava conta, já era seu ponto e tinha que se levantar de qualquer jeito. A morena desceu com uma mancha na calça jeans, e o tarado tinha um sorriso de satisfação na cara. Bastardo! No metrô um velho segurava a Bíblia sagrada e disparava a palavra de Deus como se fosse receita de bolo ou aula de ginástica em academia. A gente não deveria ficar velho, era cruel demais. Deveriam matar a gente antes… Tinha um negro lá no fundo. Com cara de suspeito. Nosso amigo passou a carteira pro bolso da frente e segurou firme. Era um cirurgião-dentista prevenido.

Enfim em casa. Cheiro de comida fresca e perfume barato da mulher. A menina brincava em frente à TV. Beijou a mulher. Comeu, tomou banho, mandou a menina ir para a cama. Assistiu ao telejornal. Pensou na vida. E pensou que a morte já não era tão má, àquela altura do campeonato. A mulher disse que ia se deitar. Gelou. Queria estar em Porto Alegre. Passou a mão no seu peito e perguntou se ele não iria com ela. Falou daquele jeito que só a “nossa mulher” sabe falar. Talvez ela não tivesse um amante. Ouviu um “naipe de metais” alto. Devia ser o Count Basie tocando pra ele. Ligou a vitrola, colocou um vinil do Nat King Cole. Fazia tempo que não dançavam. Apertou-a forte contra o peito. Ela riu, estava feliz. Bonita. Nem parecia que tinha quarenta e cinco. Como era linda! E tinha cheiro de felicidade. Foram para a cama, com vinte anos a menos de idade. Apagaram a luz, escovaram os dentes. Fizeram todas as preliminares, sem sacanagem. Só com amor.

Brochou. Como sempre.

Ela disse que não tinha problema. Quando nosso amigo fechou os olhos, ela começou a se tocar. Tinha um amante, com certeza. Ele queria estar em Porto Alegre.

Hoje, no começo do dia, tinha provado aquela xota cheia de sangue de menstruação. Um dia iria matar de verdade. Até lá, tinha que reconquistar sua mulher. Tocava jazz na sua cabeça. Uma big band liderada por Humphrey Bogart. Estaria sonhando? Casablanca. Fitava sua mulher e dizia: “Estou de olho em você, garota”. Sublime. Como diziam os Ramones: “Hoje seu amor, amanhã o mundo”.

20/02/05, ouvindo Count Basie.

Para ler ao som de: “One o’ Clock Jump”

Veja também:

-Joguei meu iPhone nas águas sujas do Tietê

-Leia “A Ilha” conto do livro “Canções para ninar adultos”

-Assista entrevista com Fred Di Giacomo, autor de “Canções para ninar adultos”

Joguei meu iPhone nas águas sujas do Tietê – conto

um conto de Fred Di Giacomo, publicado no livro “Canções para ninar adultos” (Editora Patuá)

Joguei meu iPhone no meio das águas sujas do Tietê. Era o que precisava ser feito. Era o que eu tinha que fazer.

***
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— Você foi feliz?
— Como assim, Alex? Pergunta estranha…
— Não, vô, queria saber se você foi feliz, de verdade. Se sua vida valeu a pena.

Meu avô era um self-made man. Eu era um bundão. Ela tinha saído do sertão do Ceará, trampado como porteiro, peão, engraxate, estudado engenharia, passado em concurso público, ganhado dinheiro, criado os filhos, comprado dois apartamentos (um na praia, claro) e uma dezena de carros e pagado as contas de todos os almoços da família. TO-DOS. Porque meu pai não tinha grana. Ele era formado em sociologia e trabalhava em ONG. E isso tinha sido a grande luta da família desde que eu me entendo por gente. Meu avô era um cabra ferrado na vida que ganhou dinheiro. Meu pai era um cara que perdeu dinheiro. Pra ser feliz. Mas agora estava decepcionado. Trabalhar com menor abandonado não é fácil. Eu sei, eu o vi chegar a vida toda esmagado em casa, fazendo dívidas, se atolando no cartão de crédito e, muitas vezes, ele fazia tudo isso para tentar ajudar quem não queria ser ajudado. As histórias eram tristes:

— Essa semana a Rota aprontou de novo.
— Rodrigo, precisa desses assuntos na mesa? – minha mãe achava que na hora de comer não devia se falar de fofoca, doença ou tragédia. Era uma mulher sábia.
— Foi uma execução sem motivo. Pegaram seis moleques, lá no centro. Os seis cheirando cola, benzina, alguma dessas químicas. Os policiais fizeram a molecada beber tudo. E depois ficaram esperando pra ver a pivetada estrebuchar. Teve um que demorou pra apagar. E aí eles botaram no carro e ficaram dando volta com ele, até morrer. Os comerciantes da área acharam certo. Na verdade, essa era a piada do dia.

***
De volta ao almoção de domingo na casa da minha avó. Macarrão, frango, Coca-Cola e doce-de-leite.

— A vida foi boa comigo, Alex. Eu comprei carro, casa, e, se não tivesse feito o que fiz, não tava podendo ajudar seu pai.
— Eu sei que o senhor foi bem sucedido, vô. Tô perguntando se o senhor foi feliz. O senhor fez o que queria da vida? Hum… Não “da vida”. Fez o que queria “pra vida”?
— Se a gente faz o que quer da vida, morre de fome, menino. Olha o seu pai… Eu falei pra ele cursar engenharia, sabia que ninguém vivia de fazer ciências sociais. Isso é hobby de rico. Mas ele não me escutou, agora tá aí…

Eu devia ter defendido meu pai? Sei lá, acho que isso quis dizer que o vô não era feliz. Eu não era feliz. Eu tinha momentos de felicidade. Li numa entrevista na revista Trip que a felicidade é uma distorção de humor, assim como a tristeza. Que o melhor é ser sereno. Eu acho bom ser sereno, tranquilo. Mas prefiro ser feliz. Tentar ser, pelo menos.

Todos meus amigos estavam tentando ser felizes. Mas o mais próximo disso que conseguíamos alcançar era ficar bêbado, mesmo. Por isso todo mundo – os manos e os hipsters – gostavam da música nova do Criolo. Ela dizia: “Os bares estão cheios de almas tão vazias”, e também dizia que não existia amor em SP. Eu tinha escrito antes num verso: “São Paulo, eu queria te abraçar”. Acho São Paulo a cidade mais incrível e mais triste do mundo. Parece uma musa banguela. Uma prostituta por quem o freguês se apaixona e insiste em querer tirar da vida. Eu sempre gostei de mulheres tristes. Tristes e loucas. Eu queria tomar conta delas e queria que elas tomassem conta de mim.

— Entendi, vô. Eu acho muito importante o que você fez. Sua história é bonita, mas… Eu tava pensando na minha vida…
— Não pensa não, filho. Pensar não enche barriga de ninguém.
— Alex, para de ficar tão preocupado e come mais. Nunca vi meu netinho tão magrinho… Você sabe que a vó te ama, né, filho?

Minha avó parecia feliz. Até que começaram a aparecer os primeiros sintomas do Alzheimer. Isso foi despertando o lado mais cruel dela. Uma raiva forte do meu avô, que nunca lhe deu muita atenção, nunca estava em casa, nunca tinha tempo para o filho. Mas teve tempo para arrumar amante, né? E ela ali, sempre tão fiel, sempre tão correta…

E meu pai? Foi feliz? Não sei, não tenho coragem de perguntar ao velho. O que sei é que ele foi um idealista, um exemplo, e agora chora porque teve que cortar seus canais de TV a cabo. Todo mundo vai querer comprar roupas boas quando ficar velho? Não faço ideia; hoje o buraco que carrego não é esse. Um colega de trabalho queria muito dirigir um filme, mas tem medo. A outra queria viajar por seis meses pelo mundo, mas tem medo também. Muita gente não sabe o que quer, mas acha que vai conseguir. Eu sinto falta de fazer algo relevante. O que eu posso fazer para melhorar o mundo, sem virar um político feladaputa ou um pregador messiânico? Às vezes parece que a única opção para viver bem é fazer propaganda de sabonete e margarina.

Nessas propagandas, as pessoas sempre são felizes.

***

— Alex, isso é muito chato.
— Por quê, Sabrina?
— Porque é muito duro, muito sujo. Poesia é muito brega.
— Ha, ha, ha. É mesmo. Ninguém lê poesia.
— Lê o que então, Jeferson?
— Pô, conto. Sei lá, coisas mais bem-humoradas.
— É, Alex, o Jeferson falou uma coisa que é verdade. A arma da nossa geração é o humor. A revolução vai vir dos memes e dos tumblrs.
— Se você for ver, Alex, hoje em dia quem manda no mundo são os blogueiros. Não tem mais esse negócio de Globo, Abril….
— Porra, a internet mudou tudo.

(Mudou?)

— Sei lá, vocês devem estar certos. Acho que tô bêbado.

***

Um resumo nada empolgante da vida deste cronista até aqui: nasceu pobre. Bem, pobre não. Classe média baixa. Estudou muito. Fez uma boa faculdade. Começou a trabalhar. Ganhou dinheiro. Subiu alguns degraus na vida. Trabalha em algo que não faz sentido pra ele. Mas paga iPhone, viagem pra Europa, cerveja artesanal, balada descolada. Na Europa, viu um grafite no banheiro: “Capitalism is dead, sent from my iPhone”.

Sentiu-se, ele também, um rebelde de iPhone.

***

Não sei para onde vou, mas hoje pedi demissão do meu emprego. Minha chefe me chamou de imaturo, disse que a geração Y não aguenta o tranco. Que o que eu estava fazendo era coisa de riquinho mimado. Que desse jeito o Brasil nunca iria pra frente mesmo. Eu sorri para ela. Não sabia por quê, mas me sentia terrivelmente bem e leve.

Como não me sentia desde o dia em que fiz um crachá naquela multinacional.

***

Joguei meu iPhone no meio das águas sujas do Tietê. Era o que precisava ser feito. Era que eu tinha que fazer.

Para ouvir ao som de:

Leia também:
-Assista entrevista com o escritor Fred Di Giacomo falando sobre “Canções para ninar adultos”
– Leia o conto “Sexo virtual, pop e desencontros”
 -Leia o conto “Preto no Branco” sobre um palhaço triste e pobre e sua musa indecisa

“3 livros sobre…” reúne listas, resenhas e curiosidades bacanas sobre literatura

Resenhas curtas que não dão sono instigam o leitor a roubar comprar o livro em questão, listas com capas lindas e curiosidades sobre literatura (como a polêmica envolvendo o suposto plágio de “A Vida de Pi” em cima do brasileiro “Max e os Felinos”); esses são alguns dos temas que vocês vão encontrar no novo site que criei em parceria com a jornalista e esposa Karin Hueck – o 3 livros sobre.

Eu e a Karin sempre fomos apaixonados por livros – destes que fazem listas do que lemos no ano, grifam frases e ficham as obras favoritas. Resolvemos, então, transformar nossos papos de bar num site puxado pelas listas de “3 livros sobre”. Nesse formato você já encontra lá “3 livros sobre… o Holocausto“, “3 livros sobre… sexo“, “3 livros sobre… drogas“, entre outros.

Também tem trechos legais de livros, como o que você confere abaixo, enfim, cola lá e confere 🙂

Aliás, a Karin é editora da SUPERINTERESSANTE e eu coordeno a equipe responsável pelos sites jovens da Abril. Eu também sou autor do livro “Canções para ninar adultos

"On the Road" no post "Capas para os melhores livros do mundo"

“Conversas com Woody Allen”, resenha do livro de Eric Lax

publicado originalmente em 04/10/2009

“O único conselho em que posso pensar é que só o trabalho conta”.

“Não influenciei ninguém de forma significativa”, afirma Woody Allen no final do livro de entrevistas conduzidas por Eric Lax.  Woody parece reticente em dar qualquer tipo de aula ou lição para as novas gerações, ou mesmo em reconhecer sua grande influência para o cinema mundial.  (Ele provavelmente nunca assistiu “Apenas o Fim” filme brasileiro inspirado em “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, ou, então, “Harry e Sally” que deu origem a dezenas de comédias sobre relacionamento). É engraçado essa reticência, porque todo o livro “Conversas com Woody Allen” é uma grande aula sobre cinema, escrita e processo criativo.

Vamos lá: todo bom livro é um bom professor, muito melhor do que os que você vai encontrar – na maioria das vezes – nas faculdades. Afinal, quem poderia ter aula de existencialismo com Sartre ou lingüística com Guimarães Rosa? Nessa série de entrevistas, que vai dos anos 70 até o final dos anos 2000(O único filme de Woody que não é comentado é o recente “Vicky Cristina Barcelona”), Eric Lax conversou com Allen, assistiu suas gravações e acompanhou seu processo de edição. Dividiu as conversas, então, em 7 temas: “ A ideia”, “Escrever”, “Casting, Atores e Atuação”, “Filmagens, sets, locações”, “Direção”, “Montagem”, “Trilha Sonora” e “A Carreira”. Lá está tudo que você queria saber do tio Allen, mas tinha medo de perguntar: “Como Woody escolhe a ideia que vai filmar?” “Como ele faz um roteiro?” “A trilha sonora entra só no final da edição?” Além de todos os detalhes do seu método de criação, Allen fala de suas influências (Bob Hope e Ingmar Bergman, entre outros) e de sua filosofia de vida: vivemos num mundo sem deus, onde se nós não nos policiarmos, ninguém vai nos vigiar ou punir.

Entre um excesso de autocrítica aqui e um pouco  de pessimismo ali, Allen confessa que seu grande sonho era ser um diretor de cinema “sério”, e mostra sua frustração por ser reconhecido apenas como cômico. Vale a pena ler e se deparar com a quantidade de angústia por trás da cara de baixinho-nerd-engraçado.

“Conversas com Woody Allen: seus filmes, o cinema e a filmagem”
Editora Cosac Naify
512 páginas

Conheça as histórias por trás do livro “Canções para ninar adultos”, em entrevista para a TV São Judas

Foi ao ar, no final de 2012, minha primeira entrevista para TV sobre o livro “Canções para ninar adultos”. A entrevista foi feita pela Maria José Petri da TV São Judas. Foi um espaço bem bacana (27 minutos) pra discutir sobre os contos, a influência da música na minha escrita, as histórias reais por trás da ficção… Enfim, assiste ai:

Fred Di Giacomo e Maria José Pretti no programa “Arte Letra”

Sexo virtual, pop e desencontros – extraído do livro “Canções para ninar adultos”

Esse conto foi originalmente divulgado no blog do escritor e jornalista Edward Pimenta.  Ele faz parte do meu primeiro livro “Canções para ninar adultos“, disponível na livraria Cultura e no site da editora Patuá. O livro está sendo bem recebido com resenhas em revistas como Playboy, Vida Simples, Contigo! e sites da revista Gloss e Alfa, além de blogs independentes.

A sacanagem rolando solta no Chatroulette para alegria dos nerds…

Sexo virtual, pop e desencontros
Ela, pink, queria ir na “Post It”. Ele, preto, queria acordar cedo para conhecer o Mosteiro de São Bento.

— Os cantos gregorianos – sentenciava Alex, dedo no óculos, achando-se o maior intelectual do mundo – são uma das poucas heranças boas da igreja para a humanidade.

— Mas eu gosto de dançar, gatinho. E o único padre que dança é o Marcelo. Missa me lembra velório, gente velha e final de domingo…

— Olha, Amanda, não sei por que as pessoas decidiram que Britney Spears e Beyoncé sãocult. Todo indie agora é fã de Lady Gaga. Nos anos 90…

— Blá, blá, blá. Que papo de indie velho! Ninguém dança ouvindo Sonic Youth e Pavement.

— Escuta aqui, por que mulher acha tanta graça em dançar, hein?

— E por que homem só dança pra conseguir trepar?

— Era uma boa, né?

— O quê?

— A gente trepar, ué! Já faz uns dois dias…

— To meio machucadinha, Alex, te falei… Amanhã a gente faz, tá?

Ela vai dançar Mariah Carey. Ele entra fundo na pornografia. Fiquemos com ele: www.XVideos.com; velhos fetiches, closes ginecológicos entediantes. Será que tá rolando alguma coisa no Chatroulette? Só entrando pra descobrir quem está do outro lado da webcam:

1) Pica

2) Pica

3) Pica

4) Mina

Opa, uma mina!!!

Até Paris Hilton deu as caras no Chatroulette

 

Macho moderninho se mordendo de ciúmes: Where are you from?

Ninfeta americana atrás de aventuras virtuais: Washington – DC

Macho moderninho se mordendo de ciúmes: How old are you?

Ninfeta americana atrás de aventuras virtuais: 17

“Putz, dezessete? Mas que gostosinha… Ruiva de piercing no nariz e decote!”

Ninfeta americana atrás de aventuras virtuais: I like your beard!

“Que significa beard mesmo? Beard, beard… Ah, é: barba”. A maçaneta range. “Cazzo!” Fecha o laptop correndo. O pau duríssimo.

— Nossa, amor, tá feliz assim de me ver?

— Vem cá, vem…

— Tô machucadinha, você sabe, Alex. E morrendo de sono…

— Tava legal, lá?

— Muito! Tocaram uns hits mega-antigos da Cher e da Christina Aguilera. Ninguém lembrava as letras, só eu.

— Que orgulho!

— Ah… Subi no palco.

— Porra, você não se segura, né? Tem que subir no palco só por que eu não tô junto?

— Ai, amor, no Vegas só tem gay.

— Pô, eu te conheci lá…

— Não surta, tá bom? Deixa de ser noiado, eu te amo muito! Vou tomar um banho agora… Depois tenho que comer alguma coisa, tô com uma master fome.

Por que para ela o amor era tão fácil? As coisas não eram tão eternas e seguras assim. Um dia ela poderia entrar no Vegas e se apaixonar por outro. Quem sabe se ela achasse um hetero que curtisse Barbra Streisand? Chega! Pensar em outra coisa para sufocar o ciúme… Queria começar a fumar charuto. Procura no Google: “charutos baratos”. Site de macumba. Vontade de ir num terreiro. Mas um pouco de medo. A americana era bem gostosinha. Queria fazer um pouco de sexo virtual. Masturbação já perdeu a graça. Só é legal quando tem algum vídeo bem escroto. No celular da Amanda, uma música da Rihanna. Só pode ser a mala da sogra ligando a essa hora da madrugada…

— Alô, a Amanda está?

— Quem gostaria?

— É o Chico, da festa “Post It”. Achei seu número na…

Desligou o celular gritando mentalmente. “Filha da puta! Quem era esse Chico ligando bêbado pra minha mulher? Mal o cadáver tinha esfriado e o desgraçado já estava testando o número da Amanda?”

Tudo bem, agora era a vez dele ir à forra. Bateu a porta amarela do apartamento, levando no bolso as chaves do carro dela, o cartão estourado, 50 pila em dinheiro e as piores intenções possíveis.

***

Quando, faminta, Amanda voltou ao quarto, a cama estava vazia. Só então percebeu que esquecera a carteira na balada.

Outros contos:
– Preto no Branco: um palhaço triste apaixonado pela mulher mais indecisa do mundo
– Minha cidade era pequena como minhas ambições
– Trailer do livro “Canções para ninar adultos”

Cartaz da festa Post It

“Carcereiros” – resenha do livro de Drauzio Varella

"Carcereiros" é um livro obrigatório em tempos de PCC e mensalão

Espécie de continuação do best-sellerEstação Carandiru”, “Carcereiros” tira os presos do palco principal e coloca em seus lugares os homens responsáveis por vigiar as cadeias do Brasil – especialmente os que trabalharam no Carandiru, onde Varella foi médico voluntário por muitos anos.

Mais que no livro anterior, aqui Varella se torna personagem ativo da narrativa, não só no no seu trabalho semanal atendendo as mazelas dos detentos, mas em cervejas com os carcereiros depois do expediente , em festas com os funcionários com que trabalhou tantos anos ou em sua própria casa. Sem medo da subjetividade, o médico deixa claro que conta as histórias vividas camaradas de longa data.

Em alguns capítulos, histórias de traição, coragem e violência lembram bons momentos de um disco dos Racionais Mc’s. Em outros, Varella se arrisca numa reflexão mais profunda sobre a situação do sistema carcerário brasileiro, as origens do PCC (que nasceu como uma reação dos presos ao massacre do Carandiru) e a relação da “classe média” com o mundo marginal. Contador de causos habilidoso, o médico – entre diversas narrações cinematográficas, ora trágicamente violentas, ora engraçadas e heróicas -propõe até possíveis soluções para a situação “medieval” das nossas cadeias, tão em discussão em tempos de condenação dos mensaleiros e de ataques do PCC.

“Carcereiros” é um livro humano, como são humanos sangue, adrenalina, covardia e também a solidariedade e esperança. Importante para aceitarmos que não existem soluções simples para problemas complexos. Uma leitura prazerosamente necessária.

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