Minha cidade era pequena como minhas ambições – Fred Di Giacomo

Minha cidade era pequena como minhas ambições. Havia um posto de gasolina, uma igreja luterana, dois prédios de 6 andares, três farmácias concorrentes. Houve uma vez um circo itinerante. No circo eles não tinham elefantes, equilibristas, nem mágicos. Eles tinham pequenas aberrações e uma câmara de pesadelos.

***

Nunca levei meus sonhos muito a sério. Sonhos pra mim consistiam numa sessão noturna de cinema grátis proporcionada por meu cérebro. Minha cidade já não tinha cinema algum. Repetindo a sina de tantas outras salas, a que aqui existia virou igreja evangélica. Aliás, foi no extinto “Cine Kane” que um dia assisti “Batman: Returns”, do Tim Burton, antagonizado por um Pinguim realmente assustador, vivido por Danny DeVito. Aquela matinê foi minha primeira vez no cinema. Por 10 anos sonhei com a cena final do filme, na qual o vilão morto é carregado em direção às águas geladas de um rio por uma legião de enlutados pinguins.

Daí em diante, nunca mais sonhei.

***

Um dos poucos retratos conhecidos da trupe do Circo D'Arca, sem data conhecida.


Não sonhar me deixou tremendamente excitado com a ideia da “Câmara de Pesadelos Ocultos” do “Circo Arkham”. Arkham era um nome muito difícil de pronunciar e os caipiras da minha cidade preferiam chamá-lo de “Circo d’ Arca”, em referência à “Câmara”. Além da Arca, as atrações deste distinto freak show incluíam um macaco de olhos injetados (que utilizava uma pequena asa delta para dar rasantes muito próximos às cabeças do público), um anão, uma mulher-barbada, um lutador de kung fu, um sonâmbulo que adivinhava o futuro e um suposto “Homem-Elefante”. Cético, papai garantia ser tudo armação:

_Efeitos especiais, garoto, o mundo são ilusões cuspidas por computadores.

Sobre o “macaco alado”, o que vocês já sabem: o animal tinha olhos injetados. Esqueçamos os olhos, concentremo-nos em suas cordas vocais: o pequeno símio gritava histericamente enquanto planava sobre nossas massas encefálicas. Seu grito era humano. Por causa dessa humanidade latente naquele serzinho – que se vestia como um antigo ascensorista de hotel, chapeuzinho vermelho caído de lado na cabeça e fardão combinando – julgávamos que ele pudesse ser filho do Anão. Sim, o pequeno Anão, líder daquela trupe, o pequeno Anão que berrava na entrada do circo:

_Bem-vindos, garotos, ao mundo do bizarro e do sobrenatural! Não tenham medo, bravos garotos do interior. Deixem que Cesare lhes leia o futuro nos olhos. Nosso sonâmbulo nunca erra… Nem nunca inventa verdades! Ou, então, se forem realmente corajosos, provem os delírios da “Câmara de Pesadelos Obscuros”.

O Anão não tinha barba, não tinha asa delta, não tinha força e não tinha nem um metro de altura. Ele e o macaco eram minhas atrações favoritas no circo. Compactas e intensas.

***
Conseguiram manter nossa ansiedade encaixotada até que o primeiro adolescente experimentasse a “Arca”. Então, nos tornamos viciados em medo.

***

Pense rápido: qual é seu pior pesadelo?

***

O pior pesadelo de Pedro Plínio envolvia uma grande leitoa grávida. Sem anestesia, homens parecidos com médicos abriam a porca com um bisturi. A mamãe suína guinchava de dor. Um homem muito grande entrava no recinto segurando Pedro Plínio pelo pescoço e obrigava o rapaz a se enfiar na barriga da porca que estrebuchava. Espremido entre os porquinhos natimortos, ele se encolhia em posição fetal, enquanto a barriga materna era costurada. Afogado em vísceras, ele acordava com apinéia.

***

Sem saber explicar exatamente por que, Pedro Plínio assistiu seu pior pesadelo repetir-se 12 vezes em um único dia. Quando o “Circo Arca” deixou a cidade, Pedro Plínio seguiu-o com os olhos esbugalhados, a barba rala, um canto de cuspe na boca e nenhum dinheiro no bolso. O parco orçamento como açougueiro queimou-se em sessões diárias de horror.

Assim como Pedro, os jovens da cidade tinha sede de novidades e emoções fortes. Todos vangloriavam-se por terem andado nas maiores montanhas-russas da região, por tirarem rachas de carro nas estradas e por comerem as virgens dos sítios no pêlo e sem medo de pais brabos. Não podiam resistir à tentação de experimentarem a câmara de pesadelos.

***
As sessões eram individuais, duravam 15 minutos e deviam ser pagas com antecedência. Seus piores pesadelos ou seu dinheiro de volta. Pesadelos são uma alta descarga de adrenalina, uma sensação que nenhuma outra droga lhe dá. Eu sei. Eu experimentei. E depois tentei:

LSD- mescalina – maconha – álcool – barbitúricos – cocaína – peyote – daime – lança-perfume – doce – bala – ópio – televisão – sexo pago – internet.

***
Nosso grande sonho era ter as 20 pratas necessárias para uma pequena sessão de terror naquela caixa obscura e apertada. Com o tempo, os preços foram inflacionando: 35, 40, 50… Até chegarem ao absurdo de 100 pratas POR SESSÃO. Três meses depois do início daquela febre, o Circo Arca deixou nossa pequena vila empobrecida. Levavam em seus trailers nossos salários, nossos modernos televisores, nossos porcos, galinhas e algumas de nossas mais belas crianças. Não que todos os pais tenham seguido o exemplo de Endrigo Borges, que trocou a delicada filha de 15 anos por 3 sessões extra de seu pesadelo favorito. Aparentemente, Endrigo sonhava estar em uma bela ilha grega, de frente para o azul tranquilo do mar Egeu, no interior de uma casinha branca encravada nas montanhas vulcânicas. Cercado por primaveras de folhas verdes e flores róseas, Endrigo Borges era seviciado por uma mulher gigante e farta que empalava-o com um salto agulha finíssimo. A dor, no entanto, era provocada por uma pequena formiga que lhe devorava o globo ocular.

Imaginar a pequena Margarida Borges nas mãos daquele Anão monstruoso me enche de tristeza. No entanto, a maioria das crianças deixou nossa tribo e seguiu o Circo por livre e espontânea vontade. Hipnotizadas, elas marcharam pelo interior do país em direção ao norte, atrás de seus piores pesadelos, tal qual a lenda do “Flautista de Hamelin”.

***
Em casa, comentários sobre a Arca eram proibidos por papai. Não se falava no assunto, mas ele enchia o vazio de nossas conversas. O número de crimes, de internações, de histórias pervertidas que rondavam a cidade parecia aumentar, mesmo que ninguém tivesse dados ou estatísticas oficiais. Alguns defendiam a Arca como terapia holística e medicina alternativa, diziam que uma pessoa que desfrutava de suas sessões não tinha motivos para cometer qualquer perversão na vida real. As experiências vividas naquele pequeno espaço serviriam como a própria realidade.

***
Estive lá algumas vezes, confesso. Reencontrei-me com o funeral de pinguins levando um homem morto para águas geladas. No entanto, o homem não era mais um vilão dos quadrinhos. Em despeito da ambientação gótica, das grandes torres, da névoa e do cheiro de frio, não estávamos em uma história do Batman. O homem que os pinguins carregavam era meu pai. Por semanas paguei pra ver meu velho ser enterrado. E eu sorria, enquanto as lágrimas escorriam de meus olhos. A dor era tão funda, a carne lacerada era tão cara a mim, que aquele raio de dissabor atravessava a realidade e era cuspido do outro lado como um prazer inalcançável. E esse prazer… Esse prazer era o inconfessável.

***

No dia em que a Arca me presenteou um pesadelo no qual eu e meu pai éramos esquartejados, enquanto uma tribo de hunos violentos violava minha mãe, minhas tias e minha pequena irmã, eu resolvi desistir do Circo. Instantes depois, fui tomado pelas crises de abstinência.

***

Um cheiro de açúcar no ar – chovera. Papai caminha em direção ao circo. Acha que em casa todos dormem.

Meus olhos evitam cerrar-se. Eu espreito o velho na noite. Com que direito? Quem sou eu para julgar o homem que eu enterrei em meus sonhos tantas vezes seguidas? A cada passo dado, cada passo cansado, as solas grandes de meu pai afundam quentes na lama fria. Seus ombros curvados levam – pesada – a culpa do mundo.

Quando papai passou a subtrair jantares de sua rotina, quando a barba tomou lugar em sua face como mato selvagem que cresce em terrenos baldios, quando gritos de terror passaram a serem ouvidos em nossa casa em plena madrugada; então eu soube que toda decência da cidade havia ser perdido.

***

Envergonhado, com a cabeça baixa, o ex-homem bom dá suas notas amassadas para o Anão asqueroso. Aguardo alguns segundos. Um sorriso torpe do pequenino capataz assente que eu entre junto por uma quantia generosa. Preciso descobrir qual pesadelo pesa pro meu pai. Dentro da câmara escura, entre o cheiro de mofo e o gelo seco, meu velho se encolhe – retraído. Ali, no nada, suas retinas filmam seu devaneio favorito:

Por mais uma noite seguida, ele é vítima dos olhos decepcionados do seu filho, que o flagra na fraqueza do vício. Tão humano que dá nojo.

Instant Happiness – trecho do livro “Canções para ninar adultos”

Este trecho faz parte do conto Instant Happiness do livro “Canções para ninar adultos”. Compre o livro aqui!

-Outros contos

(…)

Kiko1984:
Você acha que por baixo de todo esse néon – todo esse glitter – a gente vai encontrar a felicidade?
Jef – Paranoid Android:Encontrar o q?
Kiko1984:A felicidade.
Jef – Paranoid Android:Ser feliz na vida mesmo, ou tipo descolar cocaína? 😛
Kiko1984:Na vida. Alegria artificial, não. Eu digo, sei lá… To meio bêbado.
Jef – Paranoid Android:Hum… A Pri tá aí?
Kiko1984:Tá sim, tá dormindo atrás de mim. Acho ela mais bonita ainda dormindo… Parece uma foto, saca? Congelada no sono. Dá vontade de ser uma pessoa melhor por causa dela, hehehe.
Jef – Paranoid Android:Então, para de blablabla e liga a webcam…
Kiko1984:Pra q?
Jef – Paranoid Android:Um pouco de descontração: vou mostrar meu grande e belo pa…
Kiko1984:Para, Jef! Vai que a Pri acorda…
Jef – Paranoid Android:Ah, vc bem que curtiu ver esse monumento ao vivo, na loucura de Viena, hein, Kiko? 😉
Kiko1984:Foi só com vc, mano. Para, eu gosto de mulher, para com isso!!!!! Se a Pri acordar…
Jef – Paranoid Android:Acorda nada… Olha pra cá, olha.
Kiko1984:Vai se foder, mano! Vou te bloquear nessa porra. Desiste de me comer, Jef.

Jef – Paranoid Android:Tá bom, tá bom, não precisa ficar putinho, vou voltar a ser o amigo gay comportado.Fala aí da sua grande crise existencial.
Kiko1984:
Jef – Paranoid Android:
Ih, Kiko, você já foi mais leve, hein? Tá precisando voltar a fazer Pilates, querido, assistir um filme bom, bater punheta… Quer que eu peça perdão de joelhos? Olha só, ó: to ajoelhado. E minhas intenções são decentes. Confesso que pequei. Juro, por São Sebastião, nunca mais seduzir um pobre amigo hetero convicto. Serei apenas a bichinha sensível que ouve suas dores e….
Kiko1984:Hehehehe, para, seu tonto.
Jef – Paranoid Android:Ufa, achei que você ia virar um homofóbico enrustido e aparecer na minha casa com uma lâmpada na mão pra arrebentar minha pobre cabecinha genial. Se tomar tal atitude, please, publique o livro que está no meu computador na óbvia pasta “literatura”. O nome é “Instant Happiness” e fala – coincidência – sobre a busca pela felicidade.
Kiko1984:Não viaja, Jef. Pare de escrever merda e presta atenção. Tava pensando aqui. Será que a gente tem chance de ser feliz? Tem o direito à felicidade, mas só não sabe como? Será que a felicidade está passando na nossa frente que nem um patinho numa barraca de tiro ao alvo, só que a gente não consegue acertar? A gente fica viajando que nosso sonhos são muito improváveis e que só grandes coisas poderiam fazer a gente feliz – tipo morar um ano na Europa, fazer um mochilão pelo mundo…
Jef – Paranoid Android:Ou publicar um livro, dirigir um filme, montar um restaurante vegetariano. 🙂
Kiko1984:Isso, as coisas talvez sejam mais simples. Como uma musiquinha fofinha do Little Joy.
Jef – Paranoid Android:Música é vida! Tô com Mika na cabeça hoje. Também é música alegre, neam?
Kiko1984:Às vezes eu olho daqui, da janela do meu quarto, no vigésimo andar, e me dá uma vontade de pular. Tipo um imã puxando pra baixo, pro fim, eu acho…
Jef – Paranoid Android:Pára, Kiko!!! Assim você me deixa preocupado… Parou a terapia?
Kiko1984:Não, não é uma coisa racional. Porque, teoricamente, eu sou feliz. Teoricamente não tem nada errado na minha vida, saca?
Jef – Paranoid Android:Não tem mesmo. Escuta, gato, quem tem que ficar se perguntando se é feliz ou não – pensando em como alcançar a felicidade – é o porteiro do meu prédio. Ele rala. A gente vive num videoclipe, Kiko. A gente SÓ tem motivo pra ser feliz, neam?

Kiko1984:É, é sim…

(…)

Kiko1984:Então, por que a gente não consegue?

Foto + texto: @freddigiacomo

-Leia e dance

 

Reflexões d’um blogueiro anônimo – Fred Di Giacomo

originalmente postado 7 de Setembro de 2010

Caía em tentação: pastéis ou livros?

Pra parecer uma pessoa legal, mantinha um blog com atualizações diárias. Bolava um conto revolucionário que usasse alguma nova rede social, talvez o Formspring, talvez o Google Maps. Quando era moleque gostava de fantasiar que era um gênio pra justificar falta de mulher: “Algum dia, todas vão querer dar pra mim, só basta elas saberem tudo que tenho aqui dentro”. E o que havia ali dentro? Azia? Gases? Alguns Nuggets?

Molhava a bolacha maizena no café preto, imaginando estar em Paris. Farelos se aglomeravam no fundo da xícara; papinha. Quando pequeno, o prazer era meter o biscoito na xícara dos pais. Eles achavam graça. Até ele fazer 7 anos. Aí era “pára, moleque chato”.
Gostava de baixar músicas na internet. Dava uma sensação de transgressão. Tipo roubar no supermercado. “The National é a melhor banda da atualidade”. Ouvia baixinho, lembrava Smiths. “Quem não gosta de Smiths bom sujeito não é.” Né?

***
(No boteco intelectual paulistano)
_ Tem pastel de quê?
_ Agora tem só de palmito.
_ O mais foda é o de carne seca, né?
_ Ah, o de carne de sol saí muito. Mas o de queijo também é bom.
_Qual o Marçal Aquino pede?
_Quem?
_O escritor. Aquele que fez o “Invasor”
_ O Fábio Bá?
_É Fábio Moon, e ele escreve quadrinhos. O Marçal tem barba e é mais velho.
_Sou novo aqui, desculpe.

“Pô, olha lá. O Xico Sá chegou. Eu queria ser jornalista igual ele. Não faz plantão, escreve o que der na telha e compõe umas músicas com o Mundo Livre.” Todo jornalista é um artista frustrado. Será? Tem uns que querem ser William Bonner… Ele não era jornalista. Nesse erro não caíra. Estudava História -na USP. Tava no quinto ano. Você não sabe como é difícil se formar em quatro lá na USP, tem muitas optativas. Na real, se formar cedo pra quê? Dar aula? Pô, professor hoje em dia é carcereiro. De que adianta ter tido aulas com a Marilena Chauí? De que adianta saber quem foi o Florestan Fernandes. Os moleques escrevem quiseram com Z. Aliás, os professores escrevem quiseram com Z. “Meu pai tava certo?” Dizia o velho:

_ Estude direito e preste um concurso. Depois você faz história como hobby.

Ta quase pensando em desistir de ser escritor. Escrever dá trabalho pra cacete. “Acho que sempre estou uns dois episódios atrasados na vida. Talvez a melhor forma de parecer legal agora fosse um tumblr, não um blog. Olha só, o Daniel Galera ta aí também. Eu acho que consigo escrever melhor que ele. “ Pensa em escrever um  sobre o Xico Sá e mandar pro cara. “Xico Sá, o único jornalista feliz”. Se ele deixar um comentário lá no blog será a glória.

“Deixe esse bolo de ameixa e vem mexer. Comigo.”

_ Posso pegar essa cadeira ou vem mais alguém aí? _ pergunta o garçom novato, forte sotaque paraibano.
Hoje não vem ninguém. Tá todo mundo duro lá na História. Aqui é bem legal. Tem um sebo dentro do bar. Cheiro de livro. Se ficar rico, vai comprar todos os livros que sonhou. Poesia no Twitter? Já fizeram. Os caras todos usam barba e camisa xadrez. Camiseta é coisa de moleque, de blogueiro. “Porra, a vida seria muito mais fácil se eu tivesse nascido bonito. Aí, eu não precisava escrever nada, tirava umas fotos e virava Colírio.”
***
No fundo tudo que a gente faz é pra conseguir sexo. Né, não?

Queria ter o trabalho e as mulheres de Xico Sá.

 

-Mais desses continhos exóticos
-O dia em que tentei matar Paulo Coelho

TIC-TAC, o maior anão do mundo.

publicado originalmente em 2 de Outubro de 2007

Tic-Tac, tic-tac. O anão. Ah, não! Não cabia mais em seu próprio corpo. Sentia medo, sentia amor, sentia idéias novas e sentia muito.
Tic-Tac, tic-tac. Era o coração do anão batendo. Coração gigante, que já não cabia naquele peitozinho frágil.
Tic-Tac, tic-tac. O maior anão do mundo era o menor gigante também. Um pequeno homem com alma de titã.
Tic-Tac, tic-tac. A cabeça doendo, o sexo querendo. O coração desejando. Era os minutos no relógio , a batida do Carnaval, os tiros no morro.
Tic-Tac, tic-tac. Seu corpo já não agüentava o peso da alma, a força das asas. O espírito queria lhe fugir pela boca. O pequenino o segurava com as mãos. Fechava os dentes para não cuspir o âmago.
Tic-Tac, tic-tac.Caminhava rápido pela rua, virando depressa como sempre. Sentia-se mal, sentia-se…
Tic-Tac, tic-tac. E finalmente aconteceu, como um orgasmo eletrônico. Agora feliz percebeu: crescia sem parar.
Tic-Tac, tic-tac. BUM! Explodiu numa noite carioca o primeiro homem bomba do subúrbio fluminense.
06/02/05.

Um anão terrorista do mundo real

 

Eu, trago.

Originalmente postado em agosto de 2010

Foto: Wandeclayt

Diante da garrafa, eu – mal intencionado.
Um longo trago
E ela me engole… inteiro e gelado.

Veja também:
-Quer comprar meu livro?

-Dos gênios e dos astros eu só compartilho o fracasso
-Conheça o meu primeiro livro
-Curte contos e crônicas? Leia alguns aqui!

Mulheres II: Quando acordam

Este conto é um trecho do livro “Memórias de um Perdedor”, em breve nos melhores botecos. “Memórias de um perdedor” conta a história de um caipira nerd de sua infância até a faculdade.

-Compre meu livro “Canções para ninar adultos”

Bom dia!

 

Quando acorda, olhinhos fechados, Nathália tem cara de azul, gosto de esperança, cheiro de paz. Me lembra incenso queimando. Viajo longe… Fico olhando seu rosto, tentando ler uma história, mas sua pele macia não tem rugas e nem verbos. Só farejo vestígios de uma boa notícia, meu instinto jornalístico é mais forte que minhas desilusões com a profissão. Ela bate o despertador e volta pro sono. Murmura, cansada, quase pedindo:

_ São seis ainda, vou dormir mais meia horinha…

Tudo bem, meu anjo, durma quanto quiser, enquanto isso, peço pra dEUS(se eLE existir), que estique essa meia hora em um dia, pra que essa menina possa descansar de todo uma vida, pelo menos dessa vez.

Seus cabelos são lisos, negros, olhos puxadinhos, boca carnuda, parece índia. Só um ano mais velha, mas toda uma vida na minha frente. ELA: trabalha desde os dezesseis. EU: me desfaço em lágrimas e borro as calças por um estágio de duzentos reais ao mês. Se mantém na cidade com nove horas diárias de trampo numa empresa de suco em pó. Embalam de tudo por lá: suco, sonhos, lágrimas e suor dos operários, desidratam, tiram toda água e humanidade e depois deixam os funcionários voltarem sentindo um buraco em seus corpos. Nem passa em casa, vai pra aula, vender seus sonhos em troca de “comunicação social com habilitação em jornalismo”. Fala comigo e o tempo para. Meiga, quase uma menina, com histórias que deixariam todas minhas noivas neuróticas a ponto do suicídio. Gosto de ouvi-la. Quando chega em casa vira suco.

_Eu falo demais, né?

Não, linda, adoro te ouvir, você me fez voltar a escrever depois da síndrome de pânico, da hipocondria e do coração partido. Parece que eu não escolho mulheres ou pretendentes, mas boas histórias. E você é cheia de boas histórias, me conte uma, vai:

_ Tinha uma indiazinha que morava na quebrada de São Paulo, Freguesia do Ó .
_Como chamava essa indiazinha?
_Hum… Chamava Iracema!
_A virgem dos lábios de mel?
_Não, nada mais de virgem, os pais não gostavam da ideia, mas ela transou com um namorado legal, até, aos dezessete anos…
_E o que fazia essa indiazinha? Caçava, pescava? Fazia artesanato?
_ Não, artesanato é coisa de hippie. Trabalhava e estudava!
_ Hum… Que mais?
_ Bom, um dia, cacique bateu na sua esposa e a indiazinha partiu pra cima dele
_Jura?
_ Sim, dizem que era de uma tribo de amazonas guerreiras.
_Certo, certo,que mais?
_ Bom, deixa eu ver, o irmão da indiazinha, resolveu virar mulher…
_ E aí?
_Aí, o cacique o expulsou da aldeia, mas sua mulher não deixou. O cacique saiu de casa, e sua mulher cortou os pulsos.
_ (…*) É um mundo horrível, não é?(…) Vem, dá um abraço!

O mundo é horrível e ela me abraça, enroscada no meu corpo, mas quem precisa daquilo sou eu. Naquele emaranhado o (quase) homem de um metro e oitenta é, na verdade, embalado pela menina-mulher de um e sessenta e quatro. Ela aninha a cabeça no meu peito e sua respiração na minha pele faz um bem danado.

_É, a tribo só se reuniu quando Iracema foi estudar fora. Aí, um dia, um homem mau a parou na rua. Ele tinha nos olhos toda a cólera dos novos tempos. Toda raiva sem sentido que as pessoas frustradas carregam. Assaltou-a e tentou violentá-la. Falou e fez coisas horríveis. Ela nunca pôde falar pro cacique ou pra mãe.
_ (…*)(…*)Os homens são uns animais, né? Deviam ser todos castrados… (…*) Ela não ficou com trauma de sexo?
_ De sexo não, mas ficou com medo de sair de casa por um ano…
_ E aí?
_Aí, ela encontrou um louco que pensava que era príncipe, um bufão. E ele animou sua vida, enquanto as cicatrizes fechavam.

Sou um palhaço triste, já escrevi e repito, agora, você me tirou dessa. Obrigado. Olho pra sua cara, seis e meia da manhã. O primeiro ônibus passa sete e vinte e leva até o centro. O segundo você pega quinze pras oito. Volta direto pra aula às sete da noite. Amanhã, vou pensar que sou uma franga com medo da vida e você é forte como ferro. Mas agora, só olho pra você, abraço seu corpo, e peço que dEUS transforme sua meia hora de sono num dia inteiro.

*(…) = Silêncio da vida real.

***

Quando acorda, Ana tem cara de vermelho. Faz barulho, um barulho estranho, meio perdida. Quando volta ao nosso planeta, é toda um sorriso bonito, gosto de curiosidade, cheiro de auto-estima, parece criança feliz, descobrindo o mundo com uns olhões arregalados. Nunca transamos, mas adoro acordar com ela ao meu lado. Sentir seu corpo inteiro junto ao meu, todo branco, cheio de pontas vermelhas. Ela beija minha boca com gosto, diz que é boa porque babada.

Ana gosta de meninas e gosta um pouco de mim. Já gostou mais, mas ainda somos amigos. Nunca cheguei nem perto da sua virgindade. Ela só dorme com mulheres, diz que casa virgem. Pelo menos, de homens. Beijo cada dedo do seu pé e ela fica louca, se contorce. Depois pratica com a namorada, diz que a iniciei nos “prazeres do pé”.

Completa em sua ingenuidade.

Às vezes, ficamos horas na cama, nus, beijando corpos, átomos, células e futuros cadáveres. Todo mundo é um necrófilo por antecipação.

Um dia beijou o professor de literatura, agora têm um caso. “E a gente, Ana, o que nós temos??”
Não sei se te amo, se vou te amar ou se te amei. Sei que gosto muito de ficar com você. Um abraço seu cura minha carência, meu medo da vida, meu medo da morte. Nos teus braços, sou imortal por um instante. No teu abraço, uma eternidade supérflua.

Ela ainda fica comigo, porque sou o único que não me apaixono por seus cabelos cor de fogo. Todos, homens e mulheres estão aos seus pés. Eu também estaria se não fosse cego e louco. Um perdido na vida, não faço por mal. Ela sabe disso e se diverte. Deixa que eu beije seu piercing no mamilo, puxo com os dentes, coloco a mão no meio da suas pernas. O telefone toca. Uma “EX”. Primeiro minha, e depois a dela.

A minha quando acorda é verde, tem cheiro de braveza, mas gosto de desafio. Sonhei que um dia as duas se beijavam. Não importa, a Ana sai voando pela sala e volta no dia seguinte, até que eu enjoe das preliminares e ela enjoe de barba. Então cada um de nós vai procurar dormir com uma mulher diferente. E a história acaba assim.

***

Quando acordo sozinho a vida parece cinza, tem gosto de vazio e cheiro de solidão. Abraço forte o travesseiro e fico acordando com falta de ar. Sozinho, de cueca, o mesmo pesadelo de sempre, sinto como se fosse morrer e me cago de medo. Sou mais um perdido numa noite suja. Só. As mulheres com seus sorrisos preenchem meu eu. Sou viciado em seus hormônios e, sem seus encantos, só brEU.
Só.
EU

“De perto nem os anjos têm asas.”

Boa noite, querido leitor

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-Mulheres: Anjas Tortas

De como me tornei serviçal de um vampiro em tempos de Gripe Suína

-Compre meu livro “Canções para ninar adultos”

Punk Brega aproveita o hype em cima de vampiros e epidemias para lançar mais um conto, que será publicado semanalmente às segundas-feiras.

Ilustração: Sabrina Barrios

Era uma descida longa até minha casa. Ficava no largo, depois das obras do Metrô. Um sobrado. Eu morava em cima, embaixo tinha uma loja de armas e munições, na frente um cabeleireiro e uma loja de pesca. Tinha uma doença nova na cidade, uma gripe. “Gripe Suína” chamaram, parece que o governador José Serra disse que você só pegava de porquinhos. A gente não podia “passar a mão nos porquinhos, nem beijar os porquinhos”. Ok, governador José Serra, o Dumba nunca beijou um porquinho e agora estava na fila do hospital municipal de Diadema, com caganeira, dores no peito e febre alta.
Esses políticos são uns imbecis mesmo, não sei por que tem gente que ainda vota. Meu título de eleitor é lá de Luziânia a cidade onde eu nasci. Não conhece? Foda-se. Ninguém conhece aquela porra, só meu pai, um inútil total, que achou que íamos ter uma vida melhor lá. Achou, né? Ele é que encontrou uma vida melhor lá: uma amazonense bunduda, que tinha uma peixaria. Tiveram um caso por 3 anos até mamãe colocar ele pra fora. Ele foi. E nunca mais voltou se mandou pra Amazonas e pau na minha bunda magra. Tive que ficar com minha mãe e minha irmã, Katiúscia. Mas não quero que você tenha pena de mim, ok? Essa história não é pior que as outras. Tem gente que nasce com HIV e dá entrevista rindo na tv. Tem família inteira chacinada e o filho sobrevivente vira ativista de ONG. Eu não virei ativista, nem apareci na tv. Por enquanto. Mas eu era o melhor aluno do colégio estadual “Paulo Maluf”, gostava de português e história. Acho bonito quem fala o português direitinho, sem muita gíria, tipo o professor Pasquale lá.
***
_Fala, Magrão, firmeza?
Sou magro. Tenho 1,79 de altura e peso 60kg. Sempre fui assim. Gosto de comer, mas às vezes não dá tempo. Gosto de trabalhar mais ou menos. É bom ter grana pra gastar, é ruim ficar perdendo tempo com trampo. Jogo na Mega-Sena. Trocaria uns dois anos de vida por uns 200.000 reais, fácil. Viver sem ter dinheiro ou ter dinheiro e viver pouco? Prefiro a segunda opção. Mas não tenho a mínima vocação pra bandido, trambiqueiro ou coisa que o valha. Não gosto de sangue.
Chego no sobrado. Ta garoando em São Paulo. Não é novidade. Terra da garoa é poético só pra quem está dentro do carro ou debaixo do guarda-chuva. Podia ter nascido carioca.
-Boa noite, Gusmão
-Boa noite, Fino.
-Vendeu muita arma, hoje?
-Vendi nada, depois dessa lei de desarmamento ta foda, né? Quase ninguém mais tem porte, aí nego prefere comprar no paralelo.
-Pode crer, fora que é mais barato, né?
-Total. Cidadão que quer se defender tem que desembolsar uma pusta fábula.
-Pode crer, vou subir. Boa noite, Gusmão.
-Boa noite, Fininho.
Fininho o escambau! Deixa ele ver meu fininho aqui. Ninguém me chama pelo nome. Mas pelo menos não me chamam mais de Cazuza igual na escola. Os caras ficavam me tirando de aidético e eu, magrelo, tinha que ouvir pra não apanhar. Bando de vacilão. Bom, chegar em casa agora ligar a TV e fazer um rango. To com vontade de ovo frito molinho com arroz. Pô, podia ter um bacon pra fazer que nem café da manhã gringo. Cê ta vendo? Eu não quero muita coisa. Um pouco de bacon já ia me deixar felizão. Coço a careca enquanto penso no que fazer. É gostoso. Às vezes esqueço o que estava fazendo e dou uma coçadinha na careca pra lembrar. Um “agradinho pro cérebro”. É engraçado? Eu sou um cara engraçado. É esquisito? Tá, eu também sou um cara esquisito.
Massa, ta passando filme de vampiro na televisão. Eu curto pra caralho vampiro. Pô, deve ser louco só comer sangue, as minas pagando pau, viver vários anos. E olha só os vampiros: Brad Pitt e Tom Cruise. Será que eu ia ficar parecendo o Brad Pitt se fosse vampiro? Um Brad Pitt com dois dentões. Pô, aí eu saía da seca. Faz uns seis meses que não dou uma. Acho que desde a Tat Boca de Caçapa. Há, que boquinha! Melhor boquete da Zona Sul. O Dumba que me apresentou. Chupou ele também. Aliás, chupou a galera toda. Foda-se. Será que eu ligo pro Dumba? Coitado, com a gripe do porquinho… Será que ele ta se cagando na fila? Nossa, mó vergonha deve ser. Eu colocava uma fralda, eu acho. Mas não ia caber, né? Sei lá, esse ovo ta cheiroso. Vou rangar e depois fumar um Hollywood na janela.
Eu curto essa vista, saca? O largo vazio de noite. De dentro de casa até que a garoa é bonitinha. Estrela não dá pra ver aqui. Mas, também, já vi bastante em Luziânia e estrela é tudo igual, parece uma árvore de natal gigante. Eu gosto de Natal. Mas não por causa do Jesus. Por causa das propagandas da Coca-Cola, saca? Dos ursinhos brancos, que tinha, lembra? Porra, era mó legal. O clima do natal é massa, né? As lojas ficam abertas até tarde, tem comida boa, mas de Jesus eu não gosto muito. Esse lance de religião é um saco, ta ligado? Minha mãe é crente. Putz, ela não queria que a gente trepasse, que eu fumasse, que bebesse. Nossa, mano, um pé no saco. Minha irmã é meio crente também, mas ela pega uns caras. Tô ligado. Assim, não que ela seja safadona, saca? Estilo cachorrona, Mulher Melancia, essas porras. Ela é sussa até, mas namora uns caras ai. Bom, eu acho religião meio que coisa de ignorante. O professor de história descia a lenha em religião, inquisição, alcorão, essas coisas. Ele era um cara inteligente, saca? Tipo filósofo, barbudo, óculos. Pô, eu curtia. E tive um amigo também. O Igor. Mano, aquele cara era do mal, do mal. Tipo vampirão, pele pálida, só falava de capeta, bíblia negra, fez pacto de São Cipriano, mó sacrilégio. E o cara era cabeça, hein? Putz, lia altos livros, “Os Divina Comédias”, “Diário de um Mago”, “Brumas de Avalon”, o cara era foda. Por isso que eu já fico esperto com esse lance de religião.
Olha ai, o vizinho estranhão saindo de casa. Coroa bizarro, não fala com ninguém. Sai pra dar rolê com o rotweiller de noite, recebe umas putas na madruga, que eu to ligado, mas não cumprimenta ninguém, quase não sai. E tem grana. Pô, e o mané não fecha a casa com chave. Sobradinho velho, no meio das lojas. Só um doido desse pra ter grana e morar aqui no largo. Se bem que com o metrô sendo construído vai valorizar. Certeza. Ele deve estar apostando nisso pra fazer mais grana. Rico é tudo esperto. Quer saber, vou dar uma entrada na casa dele. Não tenho nada pra fazer. E ele sempre demora uma meia-hora pra voltar. Como diria eu mesmo: Foda-se.

Putz, to com um pelo encravado na bunda que ta chato. Olha só, o velhote deixou a porta aberta. Há, há, há, que otário. Uma coçadinha na cabeça. Que eu vou fazer primeiro? Ah, pode crer, ver o que tem na geladeira.
Nossa, mas essa casa parece um museu. Vários quadros antigos, mobília de madeira, isso deve ser muito das antigas. Pô, e deve valer uma nota. Deixa eu sentar aqui nessa cadeirona. Pô, foda. E uns livros em várias línguas. Muito louca a sala. Onde será que é a cozinha? Quadro, quadro, quadro, espada. Espada?! Caraca! Essa eu vou levar pra casa. Igual daquele filme “Coração Valente”. Ah, e olha a sala de TV! TV de plasma. Mano, eu vou conversar com os caras do movimento pra roubar esse tiozinho. Não, eu não vou roubar nada, mas sei lá, fazer uma preza com os caras, às vezes eu descolo um troco nessas. Ah, e tchan tchan tchan tchan: a geladeira está aqui. Mano, tomara que o cara tenha bacon. Tô na instiga pra comer um pouquinho.
_Mas que porra é essa?! Só tem carne e suco de tomate na casa desse velho?
Putz, alguém mexeu na porta, acho que vou…
_Se esconder? Não dá mais tempo, amigo…
-Caraca, como você chegou aqui? Larga o meu pescoço, velho maldito, eu só estava olhando, não ia roubar nada, eu juro.
-Ah, é? E o que você estava fazendo na frente da minha geladeira? Calma, Cérbero, pare de latir.
-Meu, deixa esse cachorro longe de mim, pelo amor de Deus. Se esse bicho me morde ele arranca uma perna.
-Você deveria temer mais o que eu posso fazer do que as mordidas de Cérbero.
_Ah, é? Que você vai fazer? Comer minha bunda?
Naquela hora, não sei como, mas o velho me jogou longe. Me arrebentei todo no chão e ele foi metendo bicas em mim, com aquele cachorro gigante latindo, me derrubando escada abaixo rumo ao porão. O lugar tinha um cheiro esquisito, mistura de açougue com mofo, umas teias de aranhas escrotonas e parecia que não era limpo há um bom tempo. Tentei me levantar, cuspindo sangue, mas meu corpo se paralisou quando vi em minha volta um monte de corpos pendurados em ganchos. Não sei se eram homens, ou bichos, talvez os porquinhos do governador José Serra. Travei. Cocei a carequinha pra lembrar o que ia fazer, mas o velho e o cachorro não me deram folga. Num salto ele estava em cima de mim, eu com as costas no chão, ele com os joelhos no meu ombro. “Me fudi”, pensei, “esse velho veado vai me currar e depois pendurar num desses ganchos”. Mas comecei a sacar a fria que eu tinha me metido de verdade, quando olhei pra cara dele. Não era humano. Era bestial. Presas afiadas escapavam de seus caninos, seus olhos estavam vermelhos, injetados de sangue, seu hálito exalava morte, suas mãos eram garras de um predador pronto para matar.
_ Satanás _ gritei tentando fazer uma cruz com os dedos das mãos _ que demônio é você?! Um vampiro.
_Ha, há, há, seu mortal imbecil, só agora você percebeu aonde se meteu? Confesso que esse seu porte físico de esqueleto nunca me atraiu, mas agora que você mexeu na minha geladeira e descobriu meu segredo, não vou ter alternativa…
_CARACA, seu Drácula! Me dá um autógrafo, pelamordedeus! Esse é meu último pedido.
-Imbecil, pra que você precisaria de um autógrafo se vai morrer?
_Sei lá, eu ia chegar no céu com moral. Tipo, “saca só São Pedro, tenho um autógrafo do conde Drácula”.
_Tolo, a morte não é como imagina sua religião. E eu não sou Drácula. Sou um vampiro menor, atolado nessa decadência brasileira.
_Pô, eu sempre gostei de vampiros. E na verdade eu não tenho religião não, mano. Digo… Senhor vampiro. Pô, ser morto por um vampiro vai ser style, mas você não precisa de um ajudante, não? Nos filmes de terror tem sempre um cara feio que fica tomando conta do caixão durante o dia. Feio eu já sou, só falta…
_Um servo? Sim, talvez um servo fosse útil para mim. Você seria meu carniçal, eu poderia te dar algumas gotas do meu sangue, pra você experimentar um aperitivo do meu poder imortal. Mas não sei, você é tão sujo e asqueroso.
Confesso que ser chamado de sujo e asqueroso por um vampiro não era a coisa mais irada que poderia me acontecer. Na verdade era um lixo, mas minha auto-estima era que nem o clima no Pólo Sul, nunca saía dos valores negativos. E nesse momento o velhote sanguessuga já não estava mais andando sobre mim e sim, dando voltas pelo porão, observado pelo fiel Cérbero.
_ Olhe, magricela, eu realmente preciso de um ajudante. Mas vou ter que testá-lo. E, entenda, sua vida humana terá acabado se você se juntar a mim. Você estará vendendo sua alma a Lúcifer por um preço barato.
_Doutor, minha alma não vale muito mesmo. E eu sempre quis que alguma coisa legal acontecesse na minha vida. Isso é a coisa mais empolgante que podia me acontecer, saca? Trabalhar pra um vampiro! Eu sempre soube que ia ser alguma coisa na vida e, como eu já disse, eu não curto religiões e sempre me amarrei em vampiros. Tá, eu não gosto muito de sangue, mas quando você for sugar alguma donzela virgem eu posso olhar pro lado.
_Donzelas virgens não são tão fáceis de encontrar hoje em dia…
_Por isso que você ta sempre acompanhado das minas do “Jacksons’s Girls”, né? Tô, ligado, eu sempre vejo o movimento das primas aqui na sua casa.
_Eu pago bem para sugar o sangue delas.
_E você não as mata depois?
_Não, eu sou quase vegetariano. Está vendo essas carcaças aqui? São porcos…
_E você não tem medo da tal gripe suína?
_Imbecil! Vampiros não tem sistema respiratório, vampiros não pegam gripe. Vampiros estão mortos. E a gripe suína não é transmitida por porcos, seu idiota!
_Putz, é mesmo, que vacilo. Bom, mas acho melhor a gente acabar com essa discussão que daqui a pouco vai amanhecer. Vai pro seu caixão que eu fico de guarda aqui.
_Você acha que eu confiaria tão inocentemente, num humano desprezível que veio saquear minha casa.
_Pô, cara, se não confia, então, me hipnotiza, me suga, me sodomiza. Sei lá, o que vocês vampiros velhos gostam de fazer. Eu já disse, estou disposto a vender minha alma, bem baratinho pra você, em troca de um trabalho, um lugar pra dormir e umas gotinhas desse seu suco de sangue mágico. É tipo Viagra isso? Tipo maconha, tipo o quê?
_Meu caro, isso lhe fará ter as mulheres mais belas e mesmo que você quisesse as mais horríveis elas pareceriam as mais belas pra você.
_Pô, mas isso é tipo cachaça, então…
_Chega de imbecilidades. Sua alma não terá salvação. Que geração perdida. Goethe nunca teria escrito “Fausto” se conhecesse você.
_Fausto Silva?
_Esqueça, imbecil. Você começa a trabalhar hoje. Um ser tão tosco só poder ser um servo obediente e fiel.

Depois do meu primeiro “expediente”, fui até minha casa e levei tudo que tinha pra morada do meu novo “patrão”. Comprei no camelô um óculos escuro invocado, tipo Ray-Ban, e descolei uma arma que o Gusmão arranjou mesmo sem documentação em nome da nossa “velha amizade”. Falei pra mamãe que agora era segurança e talvez ficasse sem dar notícias por algum tempo. A Katiúscia estranhou que contratassem alguém tão magro como eu para ser segurança. Minha vida sexual continuava nula, mas eu estava curtindo essa “nova fase”. Pena que não pudesse abrir o bico com ninguém, com o risco de que o velho arrancasse minha cabeça. Dusseldorf era seu nome. Demorei um bocado pra conseguir pronunciar. Ele me explicou que tinha aquele sotaque estranho porque era alemão. Tinha sido “convertido” no começo do século XX, o que para um vampiro era pouco tempo. Mudara para o Brasil depois da Segunda Guerra Mundial(período no qual virou uma espécie de hiena carniceira, só se alimentando dos mortos em combate). Logo se estabeleceu em São Paulo, no bairro de Pinheiros, que segundo ele é o mais antigo da cidade. Parece que tribos indígenas eram aglomeradas ali, pelos jesuítas, em volta da igreja do Largo de Pinheiros. Mas isso muito antes dele chegar aqui, lá pelo século XVI. Eu gostava do vampirão porque ele era inteligente e me ensinava uma porrada de coisas, mas não confiava em mim e queria me testar antes de me dar umas gotinhas do seu super-sangue.
_Saco de ossos!
_Sim, Dusseldorf.
_Você pode me chamar de mestre Dusseldorf? É assim que os lacaios tratam seus amos.
_Cara, a Lacraia era de uma cidade perto da minha, sabia? Ela nasceu em Promissão.
_Eu disse lacaio, seu energúmeno.
_Ah, desculpe…
_Enfim, saco de ossos, vou precisar de sua ajuda.
_Tá, o que você quer?
_Dois porcos frescos para eu sugar seu sangue.
_Putz, e as vagabas do “Jackson’s Girls”?
_ Vagabas? Que linguajar chulo, saco de ossos. Eu deveria drená-lo agora mesmo e deixar sua carne barata para Cérbero.
_Foi mal, foi mal… Mestre.
_Duas garotas do “Jackson’s Girls” estão com suspeita de Gripe Suína. Ele preferiu fechar a casa.
_ Puta epidemia louca, né?
_ É bem melhor do que a Espanhola, e eu sobrevivi a ela mesmo já tendo uma certa idade…
_Com quantos anos você, você… Se converteu, passou dessa pra melhor, começou a curtir mais pescoços do que mulheres, sei lá.
_ Cinquenta! Mas chega de suas imbecilidades! Arrume as carcaças de porco frescas para que eu ainda possa sugar seu sangue quente. Rápido!
***
Puta merda, como eu ia arranjar uma carcaça de porco fresca? Era mais fácil arrumar um porco vivo. Será que os vampiros vegetarianos não matavam nem animais? Eu, hein, puta boiolagem. Aliás, eu tinha quase 70% de certeza de que o Dusseldorf dava marcha ré no quibe cru. Ele passava o dia ouvindo uns compositores clássicos “barulhentos” como um tal de Arnold Schoenberg e também o Wagner. Eu tomei uma coça uma vez porque disse que o Schoenberg era pior que rock ‘n’ roll. Ele odiava rock ‘n’ roll, dizia que a música tinha morrido com “os ritmos primitivos do jazz”. Rap e funk para ele não mereciam nem ser discutidos. De samba ele gostava, por ser uma “autêntica forma de expressão tribal”. Inclusive, ele tinha uma amigona que adorava samba e tinha um terreiro. Era a Mãe Dirce, que vendia umas ervas na carrocinha lá no Largo. Eu tinha medo dela e não curtia muito quando ela ficava fumando o charutão e trocando uma ideia com o Dusseldorf. Pra ele não fazia diferença, né? Ele não respirava mesmo, a fumaceira do charuto nem dava nada. Segui com meus óculos escuros em direção à Avenida Rebouças. Eu ia ficar de tocaia em frente ao açougue esperando os caras trazerem as carnes. O caminhão passava cedinho, no começo do dia. Pedi um conhaque pro dono do bar e esperei.
Foram uns três conhaques até ela aparecer. Não sei se era emo, gótica ou punk. Era uma dessas branquelas que curtem trepar com defunto em cemitério. Mas era linda. Cabelo azul, bocona carnuda pintada de preto, sombra no olho, peitão apertado num tomara que caia, micro saia mostrando as coxonas brancas e cortunão com salto. Fiquei duro na hora. Pensei: “Putz, magrelo, não vai esquecer os porcos do sanguessuga”, mas aí, a minha seca falou mais alto. Meses sem dar uma trepada. Conhacão na cabeça. Sabe como é? Foda-se.
_E ai, gatinha, ta bebendo o que?
_Rabo de galo, to sem grana.
_Oh, irmão, pega pra gatinha o que ela quiser.
_Tem vinho ai? _ ela falou com seu jeito blasé.
_Vinho pra gatinha, irmão.
_ Você usa sempre óculos escuros de noite?
_Eu uso, e você usa sempre batom preto?
_Sim.
_Hum… Você é emo?
_Posso quebrar essa garrafa na sua cabeça?
_OK, hum, você gosta de vampiros?
_Você não tem cara de ser jogador de RPG…
_RPG?
_Esquece…
_Hum, bom… E se eu dissesse que conheço um vampiro?
_Hum, bom… Eu diria que você é louco.
_Bom, ele se chama Dusseldorf e vai me dar um pouco do seu sangue vampiresco pra eu beber, se eu levar dois porcos frescos pra ele.
_Dusseldorf? Como no filme? Gostei da sua criatividade… Seus óculos são Ray-Ban?
_ É, são… Porque você não toma mais um vinho, me ajuda a pegar duas carcaças de porco e depois vai comigo pra casa do “mestre” pra ouvirmos um Schoenberg?
_Carcaça de porco, vinho e expressionismo alemão? Cara, você é uma das figuras mais engraçadas que eu já conheci… Só espero que esse teu mestre do RPG ai não queira me sacrificar em algum ritual maluco.
“Quem vai te devorar, gostosa, sou eu”.
***
Tive que pagar quase uma garrafa de vinho pra emo gostosa resolver ir comigo atrás das carcaças frescas dos porquinhos do governador José Serra gripado. Sabe? Eu sempre me sinto vivo quando estou bêbado. É o único momento em que eu realmente acredito que as coisas vão dar certo. Nem gripe, nem vampiro, nem Aids, nem fome, nem bala, nem político ladrão, vão me derrubar. To me sentindo corajoso pacas. E hoje essa branquinha do cabelo azul vai sentir meu foguete aterrissando no meio das pernas dela. Pode crer, olha lá os malucos deixando as carnes no açougue. Porra, tudo que eu queria era poder pegar os porcos sem ninguém perceber, mas não vai ter jeito. O açougue vai abrir já-já.
_Passa os porcos pra mim!
_Abaixa a arma rapaz!
_Abaixo o caralho! Vou levar duas carcaças de porco agora. Deixa eu ver se ta fresco.
Dei uma mordidona no porcão e a emozinha começou a vomitar e gritar que “aquilo era nojentoe ela ia correndo pra casa”. A vadia nem me avisou que um dos caras do matadouro estava chegando atrás de mim com um pedação de carne e deu com tudo na minha cabeça. Foda-se.

Na real, foda-me.

***
Na cadeia as coisas até que estão sussa. Ninguém quer chegar perto de mim porque acham que eu sou louco. Digo que meu mestre vampiro vai aparecer a qualquer hora pra me salvar, mas a verdade é que às vezes acho que ele inventou toda essa história só pra se livrar de mim.

 

O Ghost Writter Gostava de Goonies

Gostava de unhas vermelhas em pés pequenos
Gostava de cerveja gelada em boteco sujo
Gostava de falar sacanagem nos ouvido tímidos
Gostava de dançar quando estava sozinho em casa
Gostava de comer sorvete depois do trabalho
Gostava de riffs sujos de guitarras limpas
Gostava do seu iPod, mas ainda escutava vinis
Gostava de assistir programas evangélicos na madrugada
Gostava do cheiros;cheiros da chuva e dos bons fumos
Gostava dos Beatles, mas preferia os Stones
Gostava do Cristo, mas não gostava da crença

E gostava de contos curtos

O Ghost Writter quer chocolate!!!

O Ghost Writter quer chocolate!!!

Esperando pelo meu homem

_Nossa! Já são dez horas e o Jorge não passou aqui ainda. Hoje eu to que nem aquela música do Velvet Undeground… I´Waiting for my Man.
_Carol, essa música não é sobre amor. È sobre droga. O Lou Reed fez pro traficante dele.
_Ah…

_Bom, mas sei lá, o Lou Reed era meio veado, né? Às vezes ele namorava o traficante…
_É, vai saber. Coloca a roupa que seu homem deve estar chegando

 

lou-reed-esperando-meu-homem

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