Documentário “AfroPunk” retrata participação dos negros no punk rock

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Apesar do rock n’ roll ter sido criado por negros como Chuck Berry e Little Richards que aceleraram e eletrificaram o blues, aos poucos o gênero foi absorvido pelo mainstream caucasiano ao ponto de ter virado para muitos “coisa de branco”. Negros fazendo rock eram uma “excentricidade”, mesmo com gênios como Jimi Hendrix destoando da fórmula.

Afro-Punk
Quando surgiu nos anos 70, o punk rock – apesar do discurso anti-sistema – era basicamente branco (com uma pequena exceção para Pat Smear do Germs que depois tocou no Foo Fighters e no Nirvana). A coisa mudou (um poquinho) nos anos 80 com a lenda do hardcore Bad Brains, formada completamente por negros, Jean Beauvoir do Plasmatics e D.H. Peligro na batera dos Dead Kennedys.

Assista ao documentário “AfroPunk” completo (sem legendas)

O ótimo documentário “Afro-Punks” (que você pode assistir acima) debate o tema de maneira sensível e crítica. Ele acompanha 4 jovens punks negros e mescla cenas de suas vidas com depoimentos de músicos de grandes bandas (como Dead Kennedys, TV on the Radio, Fishbone,  Cro-Mags, entre outras) e performances ao vivo que vão de Bad Brains aos “novatos” do Cipher. A ideia aqui não é contar uma história “cronológica”, nem mostrar músicos comentando como seus discos foram compostos; o buraco é mais embaixo e o filme acabou se transformando em um movimento “Afro-Punk“, que envolve desde um site legal até um festival anual com bandas que incluem afro-descendentes em seus line ups.

Os punks (e roqueiros negros) do Brasil
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Da esquerda pra direita: Clemente dos Inocentes, Gritando HC, Clemente e Renato Rocha a frente da Legião Urbana

O documentário me fez pensar em como temos proporcionalmente menos negros no punk (e no rock em geral) brasileiro. Nos anos 80 basicamente só os Inocentes (liderados pelo grande Clemente) , o baixista Renato Rocha (do Legião Urbana) e o Crânio (punk e segurança do Madame Satã, que faz uma ponta no filme “Cidade Oculta“).  A partir dos anos 90 a coisa fica um pouco mais plural com bandas como  Gritando H.C. (liderada pelo falecido Donald), Devotos do Ódio (criado em 1988) e Gangrena Gasosa no lado mais punk e  Planet Hemp, Funk Fuckers, Nação Zumbi e O Rappa dando as caras no rock nacional. Sem falar nas bandas que fundiam rap com rock pesado como o Pavilhão 9 e o Câmbio Negro. Vale lembrar, também, que em 1997, Max Cavalera deixou o Sepultura e foi substituído pelo afro-americano Derrick Green, uma grande fã do hardcore do Bad Brains.

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Da esquerda pra direita: Canibal dos Devotos, Derrick Green do Sepultira, B.Negão e o Planet Hemp ainda com Skunk

Talvez, no Brasil, o rock/punk seja menos “branco”. Que vocês acham?

Veja também:

– Assista ao show do Bad Brains no CBGB, em 1982
-Mais um pouco da história dos negros no punk rock

Action Figure (bonequinho) do Zé do Caixão – Objetos de desejo 4

Queridos amigos,

Aceito como presente de desaniversário, despedida, Natal ou amizade o GENIAL BONEQUINHO DO ZÉ DO CAIXÃO , aka Coffin Joe, que você pode visualizar abaixo. Pago com gratidão :-+

Quem não comprar esse bonequinho do Zé do Caixão estará, PRATICAMENTE, amaldiçoado!

Mas por que você quer essa merda, Fred?
Como você bem sabe, o Zé do Caixão é o personagem de terror mais clássico do cinema (e do imaginário) brasileiro. Ele foi criado pelo diretor autodidata José Mojica Marins, que aprendeu a filmar sozinho e sempre produziu películas marcantes no esquema “faça você mesmo”. Entre os filmes mais legais do Zé do Caixão estão “O Despertar da Besta” (também conhecido como “Ritual dos Sádicos”) e “À Meia-Noite Levarei a sua alma”.

-Gostou? Confira outros objetos de desejo desse blogueiro punk brega

Veja também:
– Os 5 filmes de terror favoritos do Zé do Caixão
-Entrevista EXCLUSIVA com Zé do Caixão
-As incríveis action figures do filme “Selvagens da Noite/Warriors”

Não existe solução fácil: assista ao documentário “Notícias de uma guerra particular” e tente achar uma jeito simples de acabar com a violência.

Infelizmente, resolver o problema da violência não é tão simples como a gente gostaria.

Duvidam?

Cena do documentário "Notícias de uma guerra particular"

Assistam a esse documentário já meio velho (“Notícias de uma guerra particular”, da Kátia Lund e do João Moreira Salles ) e tentem achar uma solução fácil pra todos os problemas apresentados:

Assistiram? Estão com preguiça? Bom, algumas coisas que eu achei bem foda e bem esclarecedoras:

1) A parte em que o escritor Paulo Lins (autor do best-seller “Cidade de Deus”) fala que a violência e as mortes nos morros sempre existiram, mas a classe média só começou a se preocupar com ela quando o tráfico cresceu e a violência espirrou no assalto.

2) A parte quando o ex-chefe da Polícia Civil do Rio, Hélio Luz, admite que a polícia é corrupta e é corrupta porque a gente quer. Ele questiona coisas como: “Você aceitaria uma polícia que não aceita um cafezinho?” “Que multa quando tem que multar?” “Que não deixa segurança de supermercado dar porrada em menor de idade?” “Que prende filho de rico quando atropela?” “Que prende o usuário de drogas no Posto 9?” É interessante que ele define a função da polícia brasileira como “garantir a segurança da elite”

3) Quando um menor infrator preso diz que seu primeiro trabalho aos 11 anos foi QUEIMAR um X-9 (gíria pra dedo duro). Queimar… Caramba, qual o futuro pra um moleque cuja “missão” aos 11 anos era botar fogo numa pessoa viva? E é interessante observar que a prática de “queimar vivo” rolava no morro vinte anos atrás (todo mundo viu isso no “Tropa de Elite”) e chegou ao asfalto agora com os tristes casos de dentistas incendiados vivos. 🙁

4)Quando um casal de moradores da favela diz que a polícia invade a casa dos moradores e, se encontrar televisão ou DVD caros, “toma pra ela” porque acha que coisa cara na favela é coisa roubada. Mesmo com nota fiscal – salienta a esposa. E o marido acrescenta que a “polícia quando invade o morro bate em velho, aleijado e criança”. Lembra bastante o que os bandidos têm feito hoje em dia torturando e roubando famílias em assaltos violentos, né?

5) O momento em que o capitão Pimentel do Bope (que inspirou o personagem do Capitão Nascimento) diz que a guerra nunca vai acabar porque a única presença do Estado na favela é a policial e só a polícia não resolve. Repito, o “Capitão Nascimento” disse que só polícia não é a solução pro problema do tráfico e da violência.

Mortes de policiais são uma dura realidade da guerra do tráfico

Tudo isso não quer dizer que polícia é má, que o ladrão é bom ou coisa que o valha. Isso seria tão simplista quanto achar que a violência é a solução de tudo. Tudo isso mostra que uma questão muito complexa (que envolve distribuição de renda, educação, melhores salários pra polícia e inclusão dos moradores de favela na nossa sociedade) está sendo reduzida a uma solução simples (cadeia e bala) e o resultado disso vai ser mais gente revoltada, órfã, viúva.

Gente mais violenta

5 melhores filmes de terror, segundo Zé do Caixão

Em entrevista para o programa “5 contra 1, da Mundo Estranho, o diretor José Mojica Marins (vulgo, Zé do Caixão) listou os 5 melhores filmes de terror em sua opinião. O “top 5” de clássicos você confere abaixo:

Segundo Mojica, Polanski nunca mais acertou depois de "O Bebê de Rosemary"

1) “Bebê de Rosemary”, Roman Polanski, 1968

Assista ao trailer do filme de terror favorito de Zé do Caixão

"Poltergeist", co-escrito por Steven Spielberg, agrada Mojica pelo visual

3) “A Torre de Londres”, Rowland V. Lee, 1939

A "Torre de Londres" impressionou Mojica em sua infância


4) “O Gabinete do Dr. Caligari”, Robert Wiene, 1920

Zé do Caixão admira o resultado atingido, apesar dos poucos recursos, no clássico “Dr Caligari”

5) “Hannibal”, Ridley Scott, 2001

E pra acabar um filme de "horror natural", segundo o mestre do terror brasileiro

Quer assistir a entrevista completa com o mestre do terror José Mojica Marins? Demorou!

Veja também:

-Mais listas

– 5 filmes mais violentos da história

Assista a “Cidade Oculta” (1986), filme de Chico Botelho que mistura Will Eisner, vanguarda paulistana e rock n’ roll

Lá em Penápolis (interior de São Paulo), meus pais tinham uma bela coleção de  discos de vinil com vários clássicos da MPB, do rock e da música clássica, mas também algumas raridades. A trilha sonora do filme “Cidade Oculta”, dirigido por Chico Botelho, era uma delas. O filme era muito difícil de ser encontrado, por isso eu passei minha infância e adolescência ouvindo as músicas do Arrigo Barnabé (com participações de Ney Matogrosso, Patife Band e Tetê Spíndola), olhando as fotos do encarte e imaginando como seria aquela história cheia de punks, belas mulheres e tiras com armas.

Bom, graças ao Youtube, encontrei o “Cidade Oculta” completinho na internet. Você pode assisti-lo logo abaixo (enquanto ninguém tira do ar), e conhecer um pouco mais sobre a história e o enredo em minha apressada resenha que segue depois.

Confira o filme “Cidade Oculta” completo

Antes de rasgar elogios a este clássico do cinema paulista, deixe-me fazer alguma crítica ao filme de Chico Botelho. Primeiro um pouco de contexto: “Cidade Oculta” foi filmado em uma época de transição no cinema nacional; mais precisamente no gap entre o auge do Cinema Novo dos anos 70 e a retomada dos cinema nacional nos anos 90 com “Carlota Joaquina” (dirigido por Carla Camurati, protagonista de “Cidade  Oculta”). Neste período, o cinema brasileiro teve diversas fases “undrigrudis” cheias de boas intenções e com pouquíssimo dinheiro. Tivemos, por exemplo, o cinema marginal do genial Rogério Sganzerla, as pornochanchadas da Boca do Lixo, o cinema mais engajado do começo dos anos 80 (“Pixote”, “Eles não usam black tie” e “O Homem que virou suco”) e ,ainda,  o que se chama de cinema “pós-moderno” ou “neon-realismo” brasileiro. Nessa escola, destaca-se a trilogia da noite paulistana composta por “Cidade Oculta” (1986), de Chico Botelho, “Anjos da Noite” (1987), de Wilson Barros, e “A Dama do Cine Shanghai” (1988), de Guilherme de Almeida Prado. Particularmente, acho que “Cidade Oculta” também dialogo com erótico “O Olho Mágico do Amor”, principalmente por ambos se passarem em São Paulo, contarem com o mesma turma de atores (Arrigo Barnabé e Carla Camurati estão nos dois filmes, Sérgio Mamberti atua em “Olho Mágico” e seu irmão Cláudio em “Cidade”) e estarem recheados de participações de “celebridades malditas”. Bom, dado o contexto histórico, vale o aviso: “Cidade Oculta” não é uma superprodução. Seus cenários são simples, algumas atuações de personagens coadjuvantes são extremamente caricatas e o roteiro é às vezes simplório, dando “saltos” para resolver situações. (Exemplo: o protagonista Anjo acaba jurado de morte pelo policial Ratão por dar um soco na cara do tira em uma explosão de raiva pouco verosímil. A partir dai o policial passa a procurá-lo dia a noite, matando inclusive bastante gente no caminho).

Muito bem, se você está disposto a descontar esses tropeços, “Cidade Oculta” é um filme interessantíssimo e muito original que foge das regras do Cinema Novo e dos clichês de filmes brasileiros numa mistura frenética de quadrinhos, rock n’ roll e cinema noir. Ou seja, um “Sin City” lançando anos antes, um pré-Tarantino de terceiro mundo. O cenário aqui é urbano e futurista, uma São Paulo sombria cheia de punks, policiais corruptos, drogas, armas e boates de rock n’ roll. A inspiração pro roteiro sãos as HQs de Will Eisneir (especialmente seu detetive Spirit) e os filmes noir, como o clássico “O Falção Maltês/Relíquia Macabra”. Artistas de outras áreas colaboram fortemente no processo criativo o que rende ao filme um caráter multimídia e pop. O músico da vanguarda paulistana Arrigo Barnabé assinou a excelente trilha sonora, participou do roteiro e foi o ator principal. O cartunista Luis Gê (que desenhou a HQ “Tubarões Voadores” que vinha encartada com o disco do mesmo nome de Arrigo) também colaborou com a história. Os músicos Itamar  Assumpção, Clemente e Tonhão (da banda punk Inocentes) e a Patife Band fazem pontas. Jô Soares (que havia atuado em “A Mulher de Todos” de Sganzerla) faz uma participação especial, assim como o músico underground Goemon e Satã (ator que acompanhava Zé do Caixão em suas apresentações). As melhores atuações estão com a belíssima Carla Camurati (que interpreta a dançarina e criminosa Shirley Sombra) e o ótimo Cláudio Mamberti que vive Ratão – um policial junkie, campeão número 1 no combate às drogas. Em tempos de Bolsonaro bombando, o filme nunca pareceu tão atual.

A história conta o retorno de Anjo (Arrigo Barnabé) às ruas paulistanas depois de 7 anos de cana (situação que lembra um pouco  o filme “O Selvagem da Motocicleta” de Francis Ford Coppola) por roubo de muamba. Anjo reencontra seu antigo comparsa Japa (Celso Saiki) que lidera uma gangue de punks (na qual Clemente e Tonhão fazem pontas).  É Japa que apresenta pra Anjo a linda Shirley Sombra que dança sensualmente na boate SP Zero (na vida real a clássica “Madame Satã”). Numa briga, Anjo acerta o corrupto policial Ratão que o jura de morte e passa a persegui-lo pelas ruas sombrias de São Paulo. Inclusive, uma das melhores cenas é a que mostra Ratão (depois de tomar baque na veia) rodando de carro pela metrópole cinza atrás de Anjo, enquanto a trilha explode a versão de Arrigo para “Poema em Linha Reta“, de Fernando Pessoa. Destacam-se na trilha o dueto de Arrigo e Ney Matogrosso na bela “Mente, Mente”, o hit potencial de  “Pô, amar é importante” e a sombria música título.

Entre as referências não declaradas, ainda é possível captar ecos de “Warriors/Selvagens da Noite” (1979), cult futurista americano sobre gangues em Nova York. Assim com em “Warriors”, em alguns momentos a história de “Cidade Oculta” é interrompida por um “narrador”, no caso um ventríloquo com sotaque latino. Outras vezes o filme é cortado por flashbacks que explicam a história passada de Anjo e Japa. As duas produções têm como pano de fundo a metrópole, que aqui aparece em belas cenas do skyline paulistano, em tomadas do rio Pinheiros (ou seria o Tietê) podrão e em rondas noturnas pela Liberdade e pelo centro da cidade.

No geral, o clima do filme é pessimista, os jovens sonhadores são esmagados pelo rato conservador e quem se ergue sobre as ruínas é Shirley Sombra, uma femme fatale forte, que não precisa da proteção masculina no mundo. Vale observar como esse pessimismo reflete as sensações da geração que criou este filme, espremida entre os sonhos dos idealistas anos 70 e a prosperidade do Plano Real. A ditadura havia acabado de acabar, Sarney estava às voltas com a inflação de 76%, o punk paulista se dividia em brigas intermináveis (apesar de musicalmente ainda estar no auge) e a vanguarda paulista de Arrigo, Itamar Assumpção e Patife Band nunca vingou nas rádios. O próprio diretor Chico Botelho só dirigiu dois filmes e morreu precocemente em 1991, depois de voltar com febre do Pará. O ator Celso Saiki*, que vive o carismático Japa, faleceu de Aids ( mesma algoz de outros grandes da geração 80 como Renato Russo e Cazuza) em 1994.

No entanto, ficou  pra posteridade esta experiência de cinema brasileiro “pop marginal” –  fugindo dos clichês do Brasil tropical – e que serve de  retrato para a criativa cena oitentista da cidade de São Paulo, verdadeira protagonista do filme.

O artista underground Goemon em cena em que canta num karaokê da Liberdade

*Um adendo: Celso atuou também no filme “Gaijin” de Tizuka Yamasaki, no “Telcurso Primeiro Grau” da Globo e dirigiu teatro e episódios do programa “Bambalalão”, da TV Cultura. 

Assista ao documentário “O dia que durou 21 anos”

Recomendo fortemente o documentário O dia que durou 21 anos, dirigido por Camilo Tavares e elogiadíssimo na imprensa americana. Ele está em cartaz nos cinemas, mas tem uma versão para a TV disponível no Youtube (abaixo).

“O dia que durou 21 anos” mostra, através de uma brilhante pesquisa em documentos e gravações do governo americano, como os EUA inventaram uma “ameaça comunista” no Brasil de 1964 para derrubar o governo democrático de João Goulart. Fica claro que não existia tal ameaça. Para se ter uma ideia, o PCB (Partido Comunista Brasileiro) era ilegal durante o governo de Goulart. 

O filme traz conversas telefônicas oficiais dos presidentes John F.  Kennedy e Lydon B. Johnson tramando o golpe de 64 com o embaixador americano no Brasil e , inclusive, escolhendo Castelo Branco como ditador ideal para o Brasil.

Militares que apoiaram o golpe de 64 contam como o tiro (que era pra durar pouco) saiu pela culatra e resultou numa ditadura de 21 anos que atrasou muito o desenvolvimento do nosso país. Após o golpe, a “linha dura” prendeu e cassou, inclusive, políticos de direita como o governador Carlos Lacerda. Muitas das reformas que só aconteceram nos governos FHC e Lula  podiam ter sido antecipadas vinte anos e talvez nossa história tivesse sido diferente.

Algumas das opiniões da crítica internacional:

“Excelente, emocionante história”
The Hollywood Reporter – USA

“Revelador, merece aplausos”
Variety – USA

“Fascinante”
ScreenDaily -USA

“Pedra preciosa”
Luiz Carlos Merten – Estadão

“Um filme de verdade”
Nelson Pereira dos Santos – Cineasta

É triste, mas estamos pagando a conta desse atraso até hoje 🙁

Animação mistura quadrinhos, origami e filmes de western para contar a história do cowboy que queria matar a morte

A ideia original de Edson Oda era criar uma animação para o concurso de divulgação de “Django Livre”, novo filme do diretor Quentin Tarantino. Como “Malaria” era um projeto muito trabalhoso, Edson inscreveu “The Writer” na competição e acabou finalizando seu segundo projeto só agora há duas semanas.

Malaria from Edson Oda on Vimeo.

O resultado é uma mistura original de quadrinhos, stop motion, origami e filmes de western. Vale muito a pena assistir! Narrativa multimídia de primeira qualidade

“Conversas com Woody Allen”, resenha do livro de Eric Lax

publicado originalmente em 04/10/2009

“O único conselho em que posso pensar é que só o trabalho conta”.

“Não influenciei ninguém de forma significativa”, afirma Woody Allen no final do livro de entrevistas conduzidas por Eric Lax.  Woody parece reticente em dar qualquer tipo de aula ou lição para as novas gerações, ou mesmo em reconhecer sua grande influência para o cinema mundial.  (Ele provavelmente nunca assistiu “Apenas o Fim” filme brasileiro inspirado em “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, ou, então, “Harry e Sally” que deu origem a dezenas de comédias sobre relacionamento). É engraçado essa reticência, porque todo o livro “Conversas com Woody Allen” é uma grande aula sobre cinema, escrita e processo criativo.

Vamos lá: todo bom livro é um bom professor, muito melhor do que os que você vai encontrar – na maioria das vezes – nas faculdades. Afinal, quem poderia ter aula de existencialismo com Sartre ou lingüística com Guimarães Rosa? Nessa série de entrevistas, que vai dos anos 70 até o final dos anos 2000(O único filme de Woody que não é comentado é o recente “Vicky Cristina Barcelona”), Eric Lax conversou com Allen, assistiu suas gravações e acompanhou seu processo de edição. Dividiu as conversas, então, em 7 temas: “ A ideia”, “Escrever”, “Casting, Atores e Atuação”, “Filmagens, sets, locações”, “Direção”, “Montagem”, “Trilha Sonora” e “A Carreira”. Lá está tudo que você queria saber do tio Allen, mas tinha medo de perguntar: “Como Woody escolhe a ideia que vai filmar?” “Como ele faz um roteiro?” “A trilha sonora entra só no final da edição?” Além de todos os detalhes do seu método de criação, Allen fala de suas influências (Bob Hope e Ingmar Bergman, entre outros) e de sua filosofia de vida: vivemos num mundo sem deus, onde se nós não nos policiarmos, ninguém vai nos vigiar ou punir.

Entre um excesso de autocrítica aqui e um pouco  de pessimismo ali, Allen confessa que seu grande sonho era ser um diretor de cinema “sério”, e mostra sua frustração por ser reconhecido apenas como cômico. Vale a pena ler e se deparar com a quantidade de angústia por trás da cara de baixinho-nerd-engraçado.

“Conversas com Woody Allen: seus filmes, o cinema e a filmagem”
Editora Cosac Naify
512 páginas

Rogério Sganzerla – Galeria de anti-heróis

Sganzerla estreou no cinema com seu filme mais conhecido "O Bandido da Luz Vermelha"

 

 

 

 

 

 
Rogério Sganzerla (Joaçaba, SC, 26 de novembro de 1946 — São Paulo, 9 de janeiro de 2004), cineasta.

Veja também:
-Mulheres inteligentes e sensuais na nossa galeria de musas cerebrais
-Outros anti-heróis do Punk Brega
-Frases de grandes caras

>Apocalypse Now: retrato existencialista de um dos maiores nadas da história

originalmente postado em Dezembro de 2007
>

Retrato existencialista de um dos maiores nadas da história

Flash 1: A visão área da mata tropical no sudeste asiático. Flash 2: Helicópteros bombardeiam uma aldeia de mulheres e crianças ao som das Valquírias de Wagner. Flash 3: Um assassino emerge do pântano com uma faca na mão. Flash 4: O horror!

A seqüência de imagens vêm a cabeça daqueles que assistiram Apocalipse Now(um dos clássicos do diretor Francis Ford Coppola) retrato acidamente poético da Guerra do Vietnã, relançado há algum tempo na “versão do diretor”.

Criticado por Glauber Rocha e elogiado por Paulo Francis, o longa-metragem lançado em 1979 deixou poucas pessoas neutras. Baseado no livro de Joseph Conrad(Coração das Trevas), o filme é um dos raros exemplares de adaptação que se iguala ou até supera a obra original. Para isso, Coppola mudou drasticamente o cenário: das selvas do Congo para o Vietnã, do período neocolonialista para a Guerra Fria. O enredo mantém os elementos básicos do romance; o coronel Kurtz está louco, Willard será o homem designado para eliminá-lo.

No longa, Kurtz – vivido pelo já gordo, mas não menos talentoso , Marlon Brando – é um personagem misterioso que teria visto o horror da guerra nos olhos e se tornado insano. Perdido na busca pela razão dos ser humano, o coronel acaba se tornando um assassino, aspirante a Deus, que passa a agir independentemente, nem ao lado dos americanos, nem ao lado dos vietcongues. Willard (vivido por Martin Sheen) é um capitão do exército sem laços com o mundo. (Recém separado da mulher sente que o Vietnã é “seu lar”.) Sua missão é secreta: terá que subir o rio com uma pequena tripulação(O sério chefe do barco; Clean, um adolescente negro; Lance, um surfista da Califórnia e Cheff, um cozinheiro de New Orleans.) até a divisa com o Camboja.
No caminho se desenrolará toda uma viagem existencialista, uma busca, um conflito com a selva, com nosso lado animal, com a tênue linha que nos separa das mais brutais das bestas, no mais brutal dos jogos humanos: a guerra. De fundo, a trilha sonora eficiente, que inclui o clássico “The End” dos Doors, cruzando perfeitamente com as imagens, formando o videoclipe do final dos tempos.

A idéia de Apocalipse Now Redux era dar ao público a versão original do filme como pensada por Francis Ford Coppola, antes dos cortes propostos pelo estúdio para torna-lo mais “vendável”. Pode cheirar a caça-níquel, mas não, as cenas realmente acrescentam à narrativa do filme. São três trechos principais: o roubo da prancha do Coronel Kilgore, a cena em que Willard e seus homens transam com as coelhinhas da playboy em troca de combustível e uma longa seqüência na fazenda de uma família de colonos franceses, que é a mais importante de todas. Nessa cena o diretor faz as críticas mais diretas ao conflito do Vietnã através da fala dos fazendeiros. Lá aponta-se todo o vazio da guerra, toda a falta de sentido. Num dos diálogos o antigo oficial questiona Willard: “por que vocês estão lutando nessa guerra? Por nada. Esse é o maior nada da história” ou como diria Kurtz olhando nos olhos da morte : “o Horror”…

 

Fred Di Giacomo. 27/09/03
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