Uma pequena história do hip hop brasileiro através de 50 clássicos do estilo

Abaixo preparamos uma playlist com 50 clássicos do rap nacional. Do começo comercial com Miele e Black Juniors, passando pelos pioneirismo festivo de MC Jack, N dee Naldinho e Sampa Crew até encontrar a veia engajada de Thaíde & DJ Hum e Racionais Mc’s que definiram o estilo como conhecemos hoje. A seleção é sentimental e muita coisa boa ficou de fora, mas procuramos registrar a variedade do hip hop brasileiro contada em 50 músicas importantes e influentes.

5 discos para começar a ouvir rap nacional

Eu nunca fui “do” hip hop, mas sempre gostei de rap – principalmente rap nacional. Ouvi Racionais Mc’s pela primeira vez na rádio, lá em Penápolis, a música era “Fim de Semana no Parque”, do disco “Raio X – Brasil”. Depois, um amigo do meu irmão aprensentou pra gente Ndee Naldinho, D Menos Crime e Xis. Pavilhão 9, Doctors Mc’s e Thaíde e DJ Hum eu conheci pela Mtv mesmo, no finado programa “Yo”. Meus amigos punks não gostavam de rap, os roqueiros e os manos não se davam muito bem nas quebradas de Penápolis.

Fiz a lista abaixo pensando num cara como eu era em 1996, um cara que está a fim de ouvir rap, mas não é um grande especialista no estilo. Tem muitas bandas nacionais que acabaram sendo “one hit bands”, tem muito disco nacional que sofre por produção tosca. Esses abaixo são grandes discos não só do hip hop mas da música popular brasileria. Podem ser apreciados por qualquer fã de boa música e servem pra quem não tem muita intimidade com o gênero abrir sua cabeça.

1) Sobrevivendo no Inferno – Racionais Mc’s


Se eu pudesse salvar só um disco de rap pra alguém ouvir no futuro, esse disco seria “Sobrevivendo no Inferno”, dos Racionais Mc’s – um dos melhores álbuns já gravados no Brasil. “Sobrevivendo…” foi lançado em 1997 e traz uma série de hits (“Diário de um detento”, “Capítulo 4, versículo 3”, “Mágico de Oz”, entre outros), uma produção seca e classuda e o Racionais momentos antes de se tornar um fenômeno nacional. Depois de “Sobrevivendo no Inferno” qualquer moleque sabia cantar de cabo a rabo as longas letras de Mano Brown e Edy Rock, repetindo suas rimas e tentando imitar a entonação grave de suas vozes.  As letras, estrelas principais do disco, alternam crônicas da vida cotidiana com contos do mundo do crime que prendem o ouvido do fã na caixa de som, palavra por palavra , ávido pra saber o final de cada “história”. Destaque ainda para a versão de “Jorge da Capadócia”, do mestre Jorge Ben, com sampler de “Ike’s Rap II” do Isaac Hayes (a mesma que o Portishead usou em Glory Box) . Ah, o disco vendeu absurdos um milhão e meio de cópias (:-O) e o clipe de “Diário de um Detento” foi o grande campeão no VMB, prêmio da Mtv Brasileira
Ano: 1997
Uma música:
“Diário de um detento”


2)Rap é compromisso – Sabotagem


Sabotage é uma dessas figuras em que é difícil separar o mito do artista. Morto jovem, com um passado misterioso no crime e uma carreira multimídia em ascensão (tinha participado de dois filmes, “Carandiru” e “O Invasor”), ele partiu cedo demais, mas deixou esse clássico do rap, comparável só aos Racionais em culto e ao Criolo em hype. Agradando playboys e manos, com uma mistura de ritmos – natural para quem curtira Pixinguinha e Chico Buarque – e uma bela produção de Zé Gonzales e Ganjaman, Sabotage deixou esse clássico que inclui “Respeito é pra quem tem”, “Rap é compromisso”, “Um bom lugar”, entre outras pérolas. A participação da família RZO é fundamental na construção dos refrões poderosos e até alguns famosos dão as caras na vocal como Black Alien (Planet Hemp) e Chorão (Charlie Brown Jr.).
Ano: 2000
Uma música: “Um bom lugar”


3)Traficando informação – MV Bill


Por muito tempo o Rio de Janeiro ficou um pouco à margem dos holofotes do rap nacional. Enquanto bandas de Brasília e de São Paulo dominavam a cena, o Rio assistia bondes de funk e grupos que misturavam o rock com o rap dominando o cenário. E aí MV Bill chegou com esse disco seco, pesado e com ótimas rimas que contava histórias longas e cruas em letras como “Soldado do Morro”, “Traficando Informação” e “Um crioulo com uma arma na mão”. Lançado em 2000, ele faturou o Prêmio Hútuz de álbum do ano e revelou em Bill uma espécie de Mano Brown mais disposto a dialogar com a mídia: dando entrevistas, participando de programas da Globo (mesmo que descendo a lenha na emissora durante a apresentação) e lançando o respeitado documentário “Falcão” que conta a história dos jovens solados do morro, cuja infância foi perdida na guerra das drogas.
Ano: 2000
Uma música: “Soldado do morro”

4)Preste atenção – Thaíde e DJ Hum

Pioneiros do hip hop nacional desde os tempos das rodas de break no metrô São Bento, Thaíde e Dj Hum formaram uma dupla respeitadíssima que teve vários bons momentos e pelo menos esse grande clássico – redondo de cabo a rabo. Com um som mais positivo e dançante que muitos de seus pares, a dupla emplacou o grande hit “Senhor Tempo Bom” sobre o movimento black power brasileiro e mantém o ritmo swingado na enérgica “Afro Brasileiro”. A mensagem mais social vem em “Malandragem dá um tempo”, outra grande canção do disco cheio de introduções e vinhetas que revelam o talento nas pick ups do DJ Hum.
Ano: 1996
Uma música:
 “Senhor Tempo Bom”

5)Nó na orelha – Criolo


Lançado em 2011, “Nó na Orelha” não é um disco típico do rap nacional, mas é um bom exemplo do alcance musical que o gênero pode atingir. Espécie de continuação do que o coletivo de produtores Instituto estava fazendo com Sabotage antes do artista ser assassinado, esse belo disco traz rap, samba, reggae e música brega, tudo com arranjos de primeira, bases de qualidade internacional e as rimas cadenciadas de Criolo, um carismático vocalista disposto a fazer a ponte entre o rap e outros estilos sonoros. Entre as várias faixas boas destacam-se “Subirusdoistiozin”, “Não exister amor em SP”, “Linha de Frente” e  “Lion Man”
Ano: 2011
Uma música: “Subirusdoistiozim”

Veja também:
-5 sons pioneiros do hip hop brasileiro
– 10 músicas clássicas do rap nacional
-5 discos injustiçados do rap nacional

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