“O socialismo é uma doutrina totalmente triunfante no mundo”, afirma Antonio Candido

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Antonio Candido (1918 – ) é considerado um dos maiores intelectuais brasileiros. Sociólogo, literato e professor universitário ele acumula prêmios como 3 Jabutis (premiação máxima da literatura brasileira). Em uma entrevista ao site Brasil de Fato, Candido defende a teoria de que o socialismo é a doutrina triunfante no mundo. Confira a argumentação de Candido no trecho abaixo:

Antonio Candido – Ah, claro, inteiramente. Aliás, eu acho que o socialismo é uma doutrina totalmente triunfante no mundo. E não é paradoxo. O que é o socialismo? É o irmão-gêmeo do capitalismo, nasceram juntos, na revolução industrial. É indescritível o que era a indústria no começo. Os operários ingleses dormiam debaixo da máquina e eram acordados de madrugada com o chicote do contramestre. Isso era a indústria. Aí começou a aparecer o socialismo. Chamo de socialismo todas as tendências que dizem que o homem tem que caminhar para a igualdade e ele é o criador de riquezas e não pode ser explorado. Comunismo, socialismo democrático, anarquismo, solidarismo, cristianismo social, cooperativismo… tudo isso. Esse pessoal começou a lutar para o operário não ser mais chicoteado, depois para não trabalhar mais que doze horas, depois para não trabalhar mais que dez, oito; para a mulher grávida não ter que trabalhar, para os trabalhadores terem férias, para ter escola para as crianças. Coisas que hoje são banais. Conversando com um antigo aluno meu, que é um rapaz rico, industrial, ele disse: “O senhor não pode negar que o capitalismo tem uma face humana”. O capitalismo não tem face humana nenhuma. O capitalismo é baseado na mais-valia e no exército de reserva, como Marx definiu. É preciso ter sempre miseráveis para tirar o excesso que o capital precisar. E a mais-valia não tem limite. Marx diz na “Ideologia Alemã”: as necessidades humanas são cumulativas e irreversíveis. Quando você anda descalço, você anda descalço. Quando você descobre a sandália, não quer mais andar descalço. Quando descobre o sapato, não quer mais a sandália. Quando descobre a meia, quer sapato com meia e por aí não tem mais fim. E o capitalismo está baseado nisso. O que se pensa que é face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele com suor, lágrimas e sangue. Hoje é normal o operário trabalhar oito horas, ter férias… tudo é conquista do socialismo. O socialismo só não deu certo na Rússia.

O Germinal, Émile Zóla

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por Fred Di Giacomo, o cara que escreve tudo aqui.

Sufocado pelo pó negro da hulha, do carvão, o grito dos mineiros explorados ecoa pelas profundezas das galerias construídas com o sangue do povo para fazer a máquina da Revolução Industrial funcionar. Foi esse grito que Émile Zola traduziu em 1881 na sua obra prima “Germinal”, uma romance realista sobre as lutas e dificuldades de uma comunidade de mineiros no interior da França.

Jornalista, assim como Balzac, um “gonzo do século XIX”, Zola defendia que “o romancista assumisse o papel de experimentador que pesquisa os caracteres hereditários do homem e as transformações que sofre em conseqüência do ambiente social em que está inserido”. A esse tipo de obra o francês chamou “romance experimental”. E é com uma riqueza de detalhes, que nos fazem crer que o livro foi escrito por um carvoeiro francês, que o autor descreve o dia-a-dia dos operários imundos das minas de Montsu usando uma linguagem realista/naturalista que nos faz lembrar “O Cortiço”, de Aluísio Azevedo, em sua descrição de miséria, comparando constantemente os homens e seus desejos aos animais, ressaltando a influência do meio na formação dos seres humanos, dando destaque aos instintos sexuais que levam os homens a se nivelar à mais selvagem das bestas. Afinal, no fundo somos todos animais, lutando contra a morte, fornicando, defecando e comendo numa luta diária pela sobrevivência.

-Gostou de Germinal? Então você vai curtir a Revolução dos Bichos. Leia aqui!

O “Germinal” é sem dúvida um livro básico para aquele que quer entender o crepúsculo do marxismo e as revoltas populares do século XIX. Como um jornalista diante de uma grande reportagem, Émile Zola reúne os fatos que marcaram sua época como a criação da Internacional Socialista, as teorias de Karl Marx, de Charles Darwin, os atentados anarquistas, todas as ideologias revolucionárias que incendiaram um século fascinante, uma era conhecida outrora como a primavera dos povos! Lá está cada personagem típico, representante de correntes e classes do período. Há o terrorista anarquista na pele do russo Suavarin, o socialista moderado (ou social-democrata) vivido pelo taberneiro Rasseneur e o líder operário comunista, o protagonista Etienne. Chamá-lo de herói no sentido romântico da palavra não caberia aqui. No realismo do “Germinal”, o “mocinho” Etienne é cheio de dúvidas, deixa-se dominar pelo orgulho em certas horas (quando julga-se superior aos outros mineiros) e passa a maior parte da história frustrado amorosamente. Aqui o herói, o líder, é desacreditado, apedrejado, olhado com desconfiança, traído como o foram milhares de vezes os líderes revolucionários. Etienne guarda algumas leves semelhanças com Raskolnikof de “Crime e Castigo” em suas reflexões ardentes, seus delírios, sua indecisão diante de necessidade de matar, sua vaidade que no romance russo vai ao extremo de o protagonista dividir a humanidade em seres “extraordinários” e “ordinários”. Ambos são levados pela miséria a atos desesperados.

A história de “Germinal” cheia de nuances e personagens seria impossível de ser narrada aqui. Resumidamente ela destaca o trajeto de um desempregado vagando pelas estradas da França, em uma período de depressão econômica (como a dupla de andarilhos em “Ratos e homens” de Steinbeck), que chega a uma região carbonífera e acaba empregando-se numa das minas para fugir da fome. Ao mesmo tempo que trava contato com as idéias socialistas o “ex-andarilho”, Etienne se apaixona por Catherine, filha de uma família que a gerações trabalha e morre na mina Voeux. A própria mina acaba tornando-se personagem principal na história. Sempre alimentando-se dos trabalhadores ela tem sua “morte” narrada com tons dramáticos. Um dos pontos principais do livro é a greve liderada por Etienne.

Apesar da clara tendência socialista do autor, da defesa dos proletariados e do final esperançoso, não existe maniqueísmo nas palavras de Zola. Até a burguesia tem seus lances de heroísmo (como no caso do engenheiro Negrél) e bondade. A massa, por sua vez, também é capaz das mas brutais injustiças e muitas vezes questiona-se se os trabalhadores apenas querem tornar-se novos burgueses.

A linguagem simples de Zola reconstitui sem firulas um retrato exato do cotidiano da época, mais forte talvez que as descrições frias dos historiadores. O “Germinal” é uma ferramenta fundamental para se entender a luta dos trabalhadores, o ambiente propício para a expansão do socialismo e os acontecimentos espremidos entre a “Revolução Francesa”, a “Revolução Industrial” e a “Primeira Guerra Mundial”. Lê-lo é embarcar no drama dos mineiros com os pulmões negros de hulha, das mães que assistem as filhas definharem de fome, dos homens que servem de alimento para o capital, da lenta metamorfose dos camponeses de outrora em máquinas com almas.

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Entrevista: Garotos Podres

Esses dias assisti o documentário “Botinada” do Gastão Moreira e fiquei empolgadaço e saudosista com o velho punk rock. Em homenagem, resgatei está entrevista com os Garotos Podres, originalmente publicada no Zine Kaos, feita por mim via e-mail em algum lugar entre 2002 e 2003.

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A banda punk Garotos Podres

Os Garotos Podres são umas das bandas mais injustiçadas do Rock Brasileiro, perseguidos pela censura no regime militar e por acusações infundadas de nazismo vindas das classes mais xiitas do punk, a banda segue firme desde o início dos anos 80 quando surgiu no ABC paulistas, se destacando como uma das mais importantes bandas do punk rock nacional e compondo clássicos como “Papai-Noel, Velho batuta” e “Anarquia Oi”. Vai abaixo entrevista com o vocalista dessa lenda do underground nacional, Mau.

por Fred Di Giacomo

1. Bom pessoal , vocês estão preparando seu quinto álbum, né? Como anda o processo de produção e qual a diferença em relação aos primeiros discos?
É isso aí! … estamos preparando o nosso 5º álbum, o “Garotozil de Podrezepan 100 mg”, que deve sair em agosto ou setembro de 2003! Atualmente toda a produção está pronta só falta “mandar prensar” (vai sair independente … nós mesmos vamos lançá-lo!)
Acredito que em relação aos outros álbuns, este é melhor gravado (caprichamos na produção), e regata muito do “humor-crítico” do nosso primeiro álbum (o “Mais Podres do que Nunca”)

2. Também foi lançado pela Rotten Record o tributo ao Garotos Podres, o que vocês acharam do resultado? Qual é o cover favorito de vocês?
Gostamos muito do “Tributo”! … a maioria das “versões” ficaram melhores do que as “originais” ! A versão de “Meu Bem”, dos Kães Vadius, ficou do caralho!!!
3. Os Garotos Podres têm sofrido perseguição de alguns seguimentos do movimento punk que os acusam de serem nazistas, principalmente por causa da música Füher e da estética oi. Essa perseguição já encheu o saco? O que vocês tem a dizer sobre o assunto?
Putaqueopariu! … Isto já encheu o saco!! … Estes caras que ficam “falando besteiras”, simplesmente não sabem de porra nenhuma e tem o “dedo maior que o cérebro”!!! … Não sabem que o movimento “Oi!” nada tem a ver com “nazismo”, e não sabem que a música “Füher”, foi escrita na época dos massacres dos campos de refugiados palestinos de “Sabra” e “Chatila” (no sul do Líbano) por tropas israelenses (comandadas por “Ariel Sharon”). Não entendem que a intenção da música é colocar “no mesmo saco” os “nazistas” e a “extrema direita israelense” que defende a matança indiscriminada e a deportação em massa de palestinos! …
A coisa é tão ridícula que em nosso último show em Recife, tinha uns caras nos questionando, perguntando coisas do tipo: “Vocês são nazis?” … “Não gostam de nordestinos?”. Acontece que a mãe do Sukata é pernambucana de Caruarú! …
Qualquer dia desses, ainda vamos “perder a paciência” e pegar um desses “burros” pela orelha e dar umas boas “botinadas” na bunda! …
4. Citem 5 discos para o garoto que está interessado em conhecer o estilo de som de vocês.(ska/punk/oi…)
Acho que tem algumas “coletâneas” (compilações) que são clássicas. A primeira delas é a “Strength thro Oi!”, que marcou o surgimento da “Oi! music” na Inglaterra.
Em relação ao “Ska”, a coletânea “Carry on Ska”, é fundamental. Para se conhecer um pouco do “Skinhead Reggae”, uma coletânea fantástica é a “Skinhead Jamboree”.
Além dessa três coletâneas, indicaria mais duas, fundamentais para se conhecer um pouco mais do “punk/oi” (ou “street punk”): a “Kaos in France” e a “Kaos in Europe”.
5. Os Garotos Podres se orgulham de fazer o mesmo som do início da carreira, o que vocês tem ouvido ultimamente? Alguma coisa nova ou os velhos clássicos do começo?
Ultimamente temos ouvido o mesmo que ouvíamos há vinte anos atrás! … Acho que “paramos um pouco no tempo” … Continuamos a ouvir ainda os “clássicos” do Punk Rock do final dos anos 70, a “Oi! music” do início dos anos 80, o “Ska Two Tone” do final dos 70 e início dos 80 e, o “Reggae” do final dos anos 60!!!!!! … Estas são as nossas influências!!!

6. A banda tem discos lançados e excursionou por alguns países da Europa. Qual é a recepção do seu trabalho lá fora?

Temos CDs, LPs e Eps lançados em Portugal, Alemanha, França, Canadá e EUA. Fizemos uma “mini-tour” pela Europa em 95. Somos mais conhecidos fora do Brasil do que aqui. Quando tocamos na Europa, ficamos impressionados com a receptividade, principalmente em Portugal e Alemanha. Tocamos em todos os dias da semana (inclusive nas “segundas-feiras”). Em Berlim conhecemos uma moçada da Polônia que tinha vindo à Alemanha, só para ver o nosso show! … Foi realmente uma experiência inesquecível!!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

7. Qual a sua opinião sobre as bandas de hardcore melódico que formam uma grande parte do “novo punk nacional” como Cpm22, Dead Fish e Dance of Days?
Eu (Mau), particularmente não gosto dessa onda “americanizada” do assim chamado “Hardcore Melódico”. Embora seja bem tocado e gravado, parece que não tem “alma”! … Prefiro mesmo os “clássicos” do Punk Rock dos anos 70 e 80!!

8. No disco Canções de Ninar, há uma música, “Saddam Hussein is Rock n’ Roll” que se tornou atual com a invasão dos EUA no Iraque(tem até o George Bush no meio, só que na época era o Bush pai). Qual a opinião de vocês sobre a nova Guerra do Iraque e o imperialismo americano?
Bem ou mal, até os anos 80 havia um certo “equilíbrio estratégico” entre as grandes “potências”. Após a dissolução da URSS e o fim da guerra fria, os EUA passaram a ter uma postura cada vez mais agressiva em relação ao resto do mundo, pois não há mais uma outra “superpotência nuclear” capaz de enfrentar o poderio norte-americano.
É dentro deste contexto que podemos analisar a atual intervenção imperialista dos EUA no Iraque. O que mais assusta é que os EUA deixaram bem claro que não pretendem parar por aí! … Antes mesmo de invadir o Iraque, ficaram com aquela história de “eixo do mal”, e ameaçaram claramente o Irã, a Coréia do Norte, Cuba, etc. Seguramente os EUA de hoje são a maior ameaça a paz mundial. As atitudes de George W. Bush lembram um pouco a postura de Adolf Hitler antes da Segunda Guerra Mundial. Antes de invadir a Polônia (acontecimento que deu início à guerra), Hitler invadiu a Checoslováquia, anexou a Áustria etc. Sinceramente espero que o povo norte-americano consiga se livrar da “extrema direita” que se apossou do poder dos EUA, pois Bush é hoje, uma ameaça muito maior do que Hitler foi no passado …. basta lembrar que ao contrário de Bush, Hitler não tinha “armas nucleares capazes de destruir várias vezes o mundo”.
9. Mudando o assunto pra política, vocês vem da região do ABC e a postura de vocês os aproxima do movimento metalúrgico dos anos 80. O que vocês acham da eleição do Lula pra presidente e do seu início de governo?
Acho que a eleição de Lula à presidência foi indubitavelmente um avanço! … Pela primeira vez um trabalhador chega à presidência de um país tradicionalmente governado por representantes de oligarquias decadentes!
Em 1980 estávamos no “olho do furacão” … Estudava numa escola bem ao lado do Paço Municipal de S. Bernardo do Campo, e costumava “matar aulas” para ver as assembléias e manifestações. Foi nessa época que “experimentei” a minha primeira bomba de gás lacrimogêneo na cara! … A primeira apresentação dos Garotos Podres foi num festival beneficente ao “Fundo de Greve” do Sindicato dos Metalúrgicos de Sto André. Acho que vimos surgir e crescer a CUT e o PT, e que, a chegada do Lula à presidência, nada mais é que o coroamento dos esforços da classe operária em mais de 20 anos de luta.
Entretanto não devemos ter ilusões! … A chegada de Lula a presidência é apenas uma etapa!! … Embora o PT ocupe a presidência, o poder “de fato” ainda está nas mãos daqueles que sempre controlaram o país! … É portanto o momento dos trabalhadores se mobilizarem, e levar o “governo Lula” a assumir as posições históricas do PT e das esquerdas brasileiras … Somente a “luta de classes” pode fazer isso!

Garotos Podres tocam “Anarquia oi!” no programa “Viva Noite”, apresentado pelo Faustão.

10. Agora, as infames rapidinhas,o que vocês pensam a respeito de:
a) Hip-Hop?
…Não gosto da música, mas as letra são fantásticas! …Na verdade são poemas musicados!!
b) Virús 27? … Gostamos muito da banda! … Infelizmente faz muito tempo que não nos vemos!
c) Socialismo: “O Capitalismo é um sistema econômico decadente que aos poucos desaparece, assim como o sol que se põe por detrás das montanhas do Ocidente. E o Socialismo, radiante primavera dos povos, lança os seus primeiros raios de luz sobre a humanidade, afastando as trevas da noite, assim como o sol que se levanta por de trás das montanhas do Oriente”
d) Cuba? … Atualmente? … A mais avançada trincheira dos povos oprimidos do “terceiro mundo” contra o “imperialismo norte-americano”!
11. Vale a pena fazer rock no Brasil? Qualquer comentário ou mensagem pra molecada que queiram deixar, sintam-se a vontade…
Vale a pena fazer rock no Brasil? … Se for para ganhar dinheiro, tentar viver da música … Lógico que não (nenhum de nós dos Garotos Podres vivemos da banda, todos trabalhamos em alguma coisa!) … Acho que hoje, só faz rock’n’roll no Brasil, quem realmente gosta e sente prazer no que faz! … Quem quiser conhecer um pouco mais da banda, é só acessar a nossa hp: http://www.garotopodre.cjb.net/ Um abraço a todos!

Veja também:
-Leia resenha sobre o primeiro disco dos Garotos Podres, “Mais podres do que nunca”

 

-As melhores frases punk

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