Argonauta 2.0

Cana, cana, cana, cana
Céu azul e nuvens brancas
Um zé doidim, uma cigana;
simplicidade; progresso esgana.
Cana, cana, cana, cana
Céu azul e nuvens brancas
mágicorealismo da terra seca
Flutua pela cidade plana
***
Hoje, acordei desesperado
Precisando de Penápolis no sangue
Hoje, acordei angustiado
Ansiando pelo azulhorizonte.

Na Rondon, destemidos postes
eletrificam o verdemar.
O marrom raro dos cupinzeiros
beatifica naivés a pintar.
Cana, cana, cana, cana
Céu azul e nuvens brancas,
Fundada sobre Coroados e colonos,
Argonautas deste seco oceano.
O calor, o caipira e a cana,
Males da cidade arcana.

***
Aí, queria ter do poeta o sangue
De Granada e da revolução.
Minha bisa veio de España
Lá como cá, retorce à mão
árvores nuas que bailam pra lua,
o sol que agita o rojo sangre

Um matuto, um vira-lata,
A benzedeira, a pipa pirata;
Este sangue quente, a seca sede
Esta cana rente, a mole rede

(Vierde que te quiero vierde)

Cana, cana, cana, cana
Céu azul e nuvens brancas
Ayer abuelita en Montilla,
Hoy Penápolis; el sueño mañana.

A igrejinha de Penápolis

São Paulo foi feita para os carros (ou “o Escândalo do metrô só vai aparecer quando alguém morrer?”)

O amigo e designer Gabriel Gianordoli já está se tornando editor involuntário desse blog, tamanha é a quantidade de bons links que ele posta no Facebook. Compartilho com vocês e recomendo muito a leitura do excelente texto do site “Cidades para que(m)?” que discute o péssimo transporte público de São Paulo, a pequena extensão de sua malha de metrô e a decisão consciente dos governos do estado e município de investirem sempre nos carros (privilegiando os ricos e aumentando os engarrafamentos). Enquanto nas melhores cidades do mundo, todo mundo anda de transporte público ou bicicleta, em São Paulo (e no Brasil em geral) continua sendo cool ficar preso no engarrafamento com seu carrão novo. E ninguém fala nada sobre a corrupção na licitação do metrô no governo do PSDB.

Tristeza não tem fim.

– Leia aqui o ótimo texto

Um banho de enxurrada no dia em que terminei meu segundo romance.

A chuva não mais caia, mas cheguei molhado em casa.

Eu caminhava empolgado, pelas ruas da zona Sula, porque terminara de escrever, finalmente, meu segundo romance – “Dândis”.

Hum... Refrescante, né?

(Não que o primeiro  – “Memórias de um perdedor” – tenha sido publicado. Ele é sincero demais, seco demais, autobiográfico… Deixo-o envelhecer na gaveta para ver se, como um vinho, ele melhora com o tempo. )

O “Dândis” não é autobiográfico, mas é autocrítico. Tem o pior de mim e da minha geração de um jeito bem-humorado. Cheio de humor negro, ele sacaneia nossos moderninhos e descolados loucos para fazerem um mochilão pela Europa ou pra criar um app de iPhone sustentável.

Bom, revisei o romance e fui levar pra imprimir. Duas cópias dele ficaram os olhos da cara, mas tudo bem, ainda não inventaram uma lei de incentivo à cultura que banque o xerox de originais. Depois de uma lenta hora de impressão, eu estava pronto para voltar pra casa, mas uma chuva torrencial despencava em São Paulo. Uns 15 minutos de espera e me mandei.

Atentem: a chuva parou, mas cheguei molhado em casa.

Sim, molhado, um carro em alta velocidade passou do lado da calçada, atravessando a grande poça d´água, e ensopou o pedestre otário aqui.  Por sorte os originais do livro estavam escondidos embaixo da minha camiseta e sobreviveram 😛

Estou morando no Brooklin agora. Como você deve saber, os bairros classe média (e classe média pra cima) da Zona Sul de São Paulo não tem um bom sistema público de transporte. Mas tem muitas avenidas grandes onde os carros andam rápido (quando não estão engarrafadas). O paulistano classe média gosta de carro. Significa que ele ganhou na vida e pertence a uma casta superior àqueles que se apertam no ônibus lotado ou tomam banho de enxurrada na calçada. O motorista não se identifica com o pedestre que tomou banho de enxurrada, afinal ele não anda à pé. Lugar de pedestre não é na rua, oras. Ele no máximo concorda ser ruim que os bueiros entupidos resultem em poças d´água.

Não que isso o impeça de continuar jogando lixo pra fora da janela, né?

 

 

Não existe solidariedade em SP?

Hoje, chuva de granizo pipocando no parabrisas e refletida no retrovisor dos carros, presenciei uma dessas cenas erradas que rendem má fama ao paulistano médio.

A visibilidade era pouca, a chuva apertada e 4 motoristas resolveram parar todo o trânsito depois da ponte Eusébio Matoso para proteger seus valiosos carros do granizo que ameaçava riscar a lataria. Estancaram embaixo do pontilhão e lá ficaram segurando o trânsito até a tempestade afrouxar.

Quem se importa com todos ônibus, motos e carros se aglomerando atrás sob às pedras de gelo e parando a ponte e, quem sabe, o túnel da Rebouças? E se tiver alguma grávida, um doente ou um apaixonado louco pra reencontrar a mulher nos automóveis de trás?

“Foda-se”, comemoravam eles, “pago meus impostos, comungo, dou like pra salvar os índios Kaiowas. Se eu não cuidar do meu, quem vai?”

Meus amigos voltam da Europa querendo que o Brasil seja um país de primeiro mundo.

Meus amigos voltam da Europa querendo que o Brasil seja um país de primeiro mundo. Eles querem ciclovias, uma linha de metrô que cubra a cidade inteira, praças, limpeza urbana e direitos civis.


Sim, hoje em dia tenho amigos que vem e vão da Europa todo ano. Não era assim na pequena vila em que me criei em Penápolis. Lá, os amigos tinham um pouco menos de grana. Sendo realista, o Brasil todo tinha menos grana. Foi daquele buraquinho no interior que assisti os anos caóticos do Plano Cruzado 2, o Plano Collor, o Impeachment… E depois uma certa estabilidade do Plano Real. Saí de Penápolis no ano da eleição do Lula.

A vida tem sido boa pra mim de lá pra cá.

Grande parte dos meus amigos que voltam da Europa querendo que o Brasil seja um país de primeiro mundo moram em São Paulo, capital. Só que eles não votam em São Paulo. Eles trabalham em São Paulo, ganham dinheiro em São Paulo, gastam em São Paulo, encaram o trânsito de São Paulo… Eles começam, até, a ter filhos paulistanos. Só que seus títulos de eleitores são de Penápolis, Vitória, Porto Alegre, Recife, São Bernardo… Eles deixam a decisão de quem vai governar a cidade onde vivem nas mãos de uma entidade fantástica conhecida como “paulistano”. E aí toda a culpa de a cidade onde moramos no Brasil não ser como a Europa fica na mão desse ser “conservador”, “malufista”, “atrasado”. Esse ser que vai eleger um prefeito de terceiro mundo para reinar sobre cidadãos que sonham em morar no primeiro mundo. Ou, então, eles votam no Russomano mesmo.

Meus amigos voltam da Europa querendo que o Brasil seja um país de primeiro mundo. Meus amigos votam no Brasil querendo que tudo fique na mesma. E assim tudo segue igual, “Eta vida besta, meu Deus”.

Tony Montana distribui carisma por Pinheiros – Street Art

Direto da Rua Sumidouro, em São Paulo. Mais fotos de grafite no tumblr From The Streets of the World

Foto: @freddigiacomo

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