A Torre

“O Rei está falido e bipolar”,
Disse o bispo deprimido
à rainha em pânico.
“Pelo menos temos a Torre”,
suspirou o último dos peões,
“a Torre é nosso pilar.”

O reino negro está
coberto pela teia prateada
E a viúva ceifadeira segue
espalhando paralisia pelas casas brancas.
“Pelo menos temos a Torre”, recitou o cavalo hidrófobo,
“a Torre é nosso pilar”.

Por toda muralha já se vê o mofo melancólico
enroscando o reino adversário
“Que amarga vitória”, lamentou-se o envelhecido rei alquebrado,
“Nossos adversários eram nosso espelho,
nossa âncora e nossa cultura.
Pelo menos temos a Torre
e a Torre é nosso pilar.”

***
“Mas que diabos é essa sujeira no tabuleiro?
Esses destroços e esses ossos?
Limpem essa porcaria, pra que a Torre possa se equilibrar”
Mas nenhuma das figuras daquele tablado
– Nem mesmo o Valete descartado –
Ousaram revelar:
aquilo era o resto da Torre
esmigalhada ao luar.

“Fechem os olhos dos jornais”, trecho de Vladimir Maiakóvski

O dia tá #TENSO e a amiga Mariana Nadai me manda essas fotos de mulheres paquistanesas deformadas por homens que as atacaram com ácido. Quem tiver estômago pode conferir outras vítimas dessa prática bizarra

Tamanha violência me faz nunca mais ler uma notícia. Que tristeza é o mundo pra algumas pessoas….

 

“os jornais me espreitam

anunciando minha despedida:

anúncios! eu-havido
em nota funerária= rodapé:

(letras mínimas!)

 

o passamento, passa tempo

os jornais me observam

já na véspera, vespertina

— jamais, nunca, ninguém.

 

morte anunciada nos jornais

o poema antecipa a morte

em suicídio ou despedida

 

“Fechem, fechem os olhos dos jornais!” [*]

 

É no poema que me recolho

encolho

olho

o.

 

Vou ao meu funeral, cantando.

_____

[*] Trecho de “A Mãe e o Crepúsculo Morto pelos Alemães” (1914), de Vladimir Maiakóvski, em tradução de Haroldo de Campos).

 

Pin Up Way of Life

A pin up que decora meu banheiroPoesia e foto do @freddigiacomo

Pin up Way of Life
Minha gata anda carne e osso – mais carne do que osso
Minha musa anda – tléc tléc – Largo da Batata, Leblon, mulher colosso
Tléc, tléc – de salto Anabela, plataforma, sandalinha ou All Star
Tléc, tléc – só não vai de salto fino, porque a nega tem que andar

Unhas vermelhas, pés pequenos, pernas fartas
Dos meus dedos fortes ficam roxas as marcas
Seu seios são duas montanhas que escalo
Roberto Carlos canta, cavalgo cavalo

Minha gata está viva! Sim, viva e corada
A anoréxica modelo não a lembra em nada
Cadáver ossudo, pele pálida,olhos mortos
Não!Seu corpo tem curvas, seus caminhos são tortos

Minha musa não é top model; é pin-up
Minha musa não é madrinha da bateria; é destaque
No meio da ala, seios fartos e nus – samba de verdade
Seu corpo todo exala perfume, me enche de vontade

É a rainha do povo, rosário da nação
Dos bebuns do boteco, dos operários na construção.
Enche meus olhos, meus desejos perversos
Me inspira a rima, colore meus versos

Essa poesia faz parte do livro ainda inédito “O melhor de mim mesmo“. Exija nas melhores editoras 😛 

-Fotos de gatas pin ups

publicado originalmente 13 de Novembro de 2011

-Compre meu livro “Canções para ninar adultos”

– Leia mais poesias
-Conheça “Gaiola” da Banda de Bolso 

 

Ser ou não ser do HaiKai Erótico

Entre uma preliminar e uma tosse
Seria um haikai erótico
Uma ejaculação precoce?

Bela foto da pin up plus size Kerosene Deluxe

Esse haikai faz parte de mais um projeto de @freddigiacomo que as editoras estão vacilando em não publicar: “Os PornoHaikais”

Veja também:
-Quer comprar meu livro?

-Dos gênios e dos astros eu só compartilho o fracasso
-Curte contos e crônicas? Leia alguns aqui!

-Mais haikais legais
-Musas com cérebro

Um parque de diversões da cabeça – Lawrence Ferlinghetti

Selecionei aqui três poemas do livro “Um parque de diversões da cabeça” e mais alguns quadros do poeta beat Lawrence Ferlinghetti

Lawrence_Ferlinghetti_House_Boat_Days_Never_Play_Cards_with_a_Guy_Called_787_64
House Boat Days Never Play Cards with a Guy Called Doc 1993


10
.


Em toda minha vida jamais deitei com a beleza
confidenciando a mim mesmo
seus encantos exuberantes
Jamais deitei com a beleza em toda a minha vida
e tampouco menti junto a ela
confidenciando a mim mesmo
como a beleza jamais morre
mas jaz afastada
entre os aborígenes
da arte
e paira muito acima dos campos de batalhas
do amor
Ela está acima disto tudo
oh sim
Está sentada no mais seleto dos
bancos do templo
lá onde os diretores de arte encontram-se
para escolher o que há de ficar eterno
E eles sim deitaram-se com a beleza
suas vidas inteiras
E deliciaram-se com a ambrosia
e sorveram os vinhos do Paraíso
Portanto sabem com precisão
como algo belo é uma jóia
rara rara
e como nunca nunca
poderá desvanecer-se
num investimento sem tostão

Oh não jamais deitei

em Regaços da Beleza como esses
receoso de levantar-me à noite
com medo de perder de alguma forma
algum movimento que a beleza pudesse esboçar
No entanto dormi com a beleza
da minha própria e bizarra maneira
e aprontei uma ou duas cenas muito loucas
com a beleza em minha cama
e daí transbordou um poema ou dois
para esse mundo que parece o de Bosch
20.

Na confeitaria barata para além do El*
foi onde pela primeira vez

me apaixonei
pela irrealidade

Os drops reluziam na semi-obscuridade
daquele entardecer de setembro
Um gato deslizava sobre o balcão entre

pirulitos
e pães de forma
e Oh chicletes de bola

Lá fora as folhas caíam ao morrerem
O vento soprava para longe o sol

Uma garota entrou apressada
O cabelo molhado pela chuva
Seus seios sufocando na loja minúscula

Lá fora as folhas caíam
e gritavam

Cedo demais! Cedo demais!

*El: a elevada do metrô.(N. do T.)

28
Dove sta amoré
Donde está o amor
Dove sta amoré
Aqui jaz o amor
Amora jazz amor
Num lírico encanto
Cantos de amor da serra
Canto que em si se encerra
Cantos de cor singela
Cantos de dor sincera
À noite pelos cantos
Dove sta amoré
Aqui jaz o amor
Amora jazz amor
Aqui jaz o amor

Tradução dos poemas: Eduardo Bueno
Um vídeo de Felinghetti:
Participação do poeta com “Last Prayer” no último show da The Band, grupo que ficou famoso por acompanhar Bob Dylan
-Conheça o livro “O uivo” de Allen GinsbergUm quadro de Ferlinghetti:

Samothrace with Rainbow, 1992, Lawrence Ferlinghetti


O americano Lawrence Ferlinghetti (24/03/1919) é poeta, tradutor, pintor e co-fundador da editora e livraria City Lights, responsável pelo lançamento de diversas obras fundamentais da literatura beat. Seu trabalho mais famoso é “Um parque de diversões da cabeça”, de 1958.

-Conheça “Trópico de Capricórnio” de Henry Miller
, lançado nos EUA por Lawrence Ferlinghetti