Meu canto

Escrevi essa música num final de semana antes de mudar pra São Paulo rumo ao meu primeiro emprego. Que bom que desde então a vida tem sido boa comigo. Ainda canto ela mentalmente sempre que pego um avião. É minha pequena oração pessoal, um mantra que me conecta com as coisa boas e simples da vida.

2001-praga-mae

Hoje não tem choro de criança
Nasceu um raio de esperança
Hoje não vai ter futebol

Dei oi pro vizinho e abri um vinho
Não me sinto mais um estranho no ninho
Quando saio na rua não estou mais sozinho

Hoje é dia de ver o menino nascer
É dia de ver o menino nascer
É dia de ver o menino.

Moleques pediram manga no meu quintal
Calor de rachar mas isso é normal
Hoje não tem batida policial

Hoje não tem pais brigando
Não tem crianças chorando
Não há dor em nenhum canto

Hoje é dia de ver o menino nascer
É dia de ver o menino nascer
É dia de ver o menino

Hoje não tem batucada, não vai chover
Velhos decidiram não vão morrer
Hoje é dia do santo descer

Charles saiu da cadeia
As crianças vão dormir de barriga cheia
As pessoas pararam pra ver a lua cheia

Hoje é dia de ver o menino nascer
É dia de ver o menino nascer
É dia de ver o menino

Eu canto minha casa,
meu canto
Meu bairro,
meu santo
Eu canto
pra você viver.
(Pra você viver!)

Eu canto minha casa,
meu canto
Meu bairro,
meu santo
Eu canto
pra você viver.
(Pra você viver!)

Hoje é dia de ver
Hoje é dia D
Hoje é dia de ver o menino nascer

Insônia

– Mais rabiscos poéticos
insonia-poesia
Enquanto dormem depressivos e pouco amados
Nós – os neuróticos – ficamos acordados
Sem conseguir cerrar as pálpebras
Contando carnerinhos que atravessam as molduras dos sonhos
Rumo ao terreno onírico dos pensamentos medonhos

“Ela me ama de verdade?”
“Deus de nós tem piedade?”
“Serei eu feliz na vida?”
“Sou um bufão ou suicida?”
“Qual é a origem dessas dúvidas?”
“São lágrimas a desbotar minha íris úmida?”

Uma ida ao banheiro
Uma oração
Vontade de comer
Mudar de posição

E a madrugadora aurora devora a escuridão
Antes que Morpheu cumpra sua missão.

Fred Di Giacomo odeia ter insônia, mas dorme tarde por livre e espontânea vontade todos os dias, porque é o único jeito de ter tempo para escrever.

“Free Jazz com palavras” – Jademir Rocha & Fred Di Giacomo

Sim, quinta-feira é a ditadura da arte. Quem não gostar será fuzilado por um pelotão de aquarelas!

jazz-pintura-jademir-rocha-1

Jademir Rocha ganha a vida cuidando de dentes e obturações, mas gosta mesmo – há anos – de pintar e tocar seu sax. Entre desenhos de jazz com grafite, aquarelas e pequenos artesanatos, ele vive em São Paulo em busca de novos discos para sua coleção.

 Inspirado pela série de desenhos de jazz de Jademir, Fred Di Giacomo pediu alguns para ilustrar seu livro ainda imaginário chamado “Bebop Beat”, composto de poemas feitos no calor do momento, seguindo seu fluxo de consciência ao som de Miles Davis e John Coltrane. O primeiro resultado da parceria está aí:

Free Jazz com palavras
Segura só esse solo, sussurrou Ulysses
E se pôs a tocar uma odisséia sonora
Minha mãezinha do céu, Homero é um maestro com as palavras!
Elas voam na estratosfera azul do Harlem, enquanto Têlemaco repete o riff
E Penélope costura notas num bordado de arpejos e beijos
O Cíclope pede um trago a detona o contrabaixo
Eu escuto João Donato, e Posídon é a pedra no meu sapato
Gosto das palavras assim, free jazz e meu fluxo de consciência

O resto é pop.

Fred Di Giacomo mora em Berlim e é autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais. Ele trabalhou por sete anos e meio na Editora Abril como editor-chefe dos sites do Núcleo Jovem e toca na Banda de Bolso.
jazz-ilustracao-jademir-rocha-1

 

Veja também:

– 6 discos para começar a escutar jazz
-“Odisséia”: o clássico que fundou a literatura ocidental

“Navio negreiro” – poema de Castro Alves

Navio negreiro” é um dos poemas mais conhecidos do baiano Castro Alves. Para ilustrar essa comovente crítica abolicionista, selecionei a única foto conhecida de um navio de escravos, tirada em 1882.

Foto de um navio negreiro em 1882, feita por Marc Ferrez.

Foto de um navio negreiro em 1882, feita por Marc Ferrez.

Navio Negreiro
Castro Alves
I

‘Stamos em pleno mar… Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm… cansam
Como turba de infantes inquieta.

‘Stamos em pleno mar… Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro…
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro…

‘Stamos em pleno mar… Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes…
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?…

‘Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas…

Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.

Bem feliz quem ali pode nest’hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento…
E no mar e no céu — a imensidade!

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!

Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia…
………………………………………………….

Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.

II

Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.

Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!

O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!

Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu …
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu! …

III

Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais … inda mais… não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí… Que quadro d’amarguras!
É canto funeral! … Que tétricas figuras! …
Que cena infame e vil… Meu Deus! Meu Deus! Que horror!

IV

Era um sonho dantesco… o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros… estalar de açoite…
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar…

Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente…
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais …
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos… o chicote estala.
E voam mais e mais…

Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
“Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!…”

E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais…
Qual um sonho dantesco as sombras voam!…
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!…

V

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura… se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co’a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?…
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa…
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!…

São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus…
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . .

São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe… bem longe vêm…
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N’alma — lágrimas e fel…
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.

Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis…
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus …
… Adeus, ó choça do monte,
… Adeus, palmeiras da fonte!…
… Adeus, amores… adeus!…

Depois, o areal extenso…
Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos… desertos só…
E a fome, o cansaço, a sede…
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p’ra não mais s’erguer!…
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.

Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d’amplidão!
Hoje… o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar…
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar…

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder…
Hoje… cúm’lo de maldade,
Nem são livres p’ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute… Irrisão!…

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro… ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!…
Ó mar, por que não apagas
Co’a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! …

VI

Existe um povo que a bandeira empresta
P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!…
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!…
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa… chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! …

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança…
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!…

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! … Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!
——————————————————-

-Compre o livro “Navio Negreiro” de Castro Alves na Livraria Cultura

– Leia mais poesias

Abuelita – uma homenagem à minha avó Hermínia

publicado originalmente dia 08/09/2009

Acreditava que minha vózinha
Era um anjo
Gosto de pensar nisso
Porque gente que nem ela: boa
Que ama, cuida e doa
É ruim de ver na vida
Eu acho que voa

Minha avó Hermínia com seus netos em Penápolis, 1988

Uma homenagem de Frico à Vó Hermínia que faleceu no final de 2012. O poema foi retirado de “Menino Uterino e outros poemas da infância” e pelo menos ela leu essas palavras em vida 🙂

Veja também:

 

-Quer comprar meu livro?
-Dos gênios e dos astros eu só compartilho o fracasso
-Conheça o meu primeiro livro
-Curte contos e crônicas? Leia alguns aqui!

 

Gaiola

por Fred Di Giacomo

 

gaiola-foto-fred-giacomo-sevilha

A cada despedaço meu que arrancas
Eu choro mais completo
E só seu cheiro sangra
Próximo e por perto.
O ódio,
o óbvio
o óbito

É saber que a cada rasgo
Que tua língua faz
leva a amar mais

leve querer mais

que minhas asas se quebrem
Pra eu poder entrar quente e
cru
na tua gaiola.

aberta

Veja também:

-Compre meu livro “Canções para ninar adultos”

– Leia mais poesias
-Conheça “Gaiola” da Banda de Bolso 

Dos gênios e dos astros só compartilho o fracasso – Fred Di Giacomo

-Mais poesias

Bukowski bebe no meio de uma entrevista

Bebi tanto quanto Bukowski
Mas não escrevi nada próximo a ele
Carrego o pavor de aviões do Scorsese
Mas isso não me fez filmar como ele
Tive as taras e fetiches de Crumb
Mas nunca desenhei como ele
Tenho o toque e o pânico do Rei
E nunca encantarei como ele

Dos gênios e dos astros
Só compartilho os defeitos e o fracasso
Suas qualidades
Eu passo.

08/2010

Meu plano maquiavélico é transformar o Punk Brega no depósito dos meus rabiscos, contos e poesias. Quem cair aqui por acaso será obrigado a se defrontar com essas porcas linhas. Vou diminuir o ritmo de publicação das matérias, listas e resenhas. Esse poema faz parte do livro que terminei de escrever agora “O melhor de mim mesmo“.

Leia também:
-Dos heróis de hoje
-Insônia

publicado originalmente em 23 de Janeiro de 2011

Dos heróis de hoje

Publicado originalmente em 2 de Agosto de 2010
-Mais dessas poesias azedas, por favor!

Cada geração tem os heróis que lhe apetece, néam?

O ombudsman do universo lança as dores do mundo ao mar

Todas as histórias tristes
Que botaram nas minhas costas para carregar
Queria deixar
No mar
E que, como lágrimas de desengano,
Elas passassem também a ser
Oceano

Às vezes choro nos ombros alheios, mas muitas vezes meus ombros pesam, por servirem como Ombudsman do universo. Alivio a tensão neste bloguinho e seus textos chorões e seresteiros. Mais disso no livro ainda não publicado “O Melhor de mim mesmo“.

foto by @freddigiacomo

Veja também:

-Compre meu livro “Canções para ninar adultos”

– Leia mais poesias
-Conheça “Gaiola” da Banda de Bolso 

 

Publicado originalmente em 23 de Outubro de 2011

Desenhar com palavras – Poeminha

-Compre meu livro “Canções para ninar adultos”

Desenhar com as palavras
Quisera eu
Desenhar com as palavras
Num jorro criativo
Da força de um Manara

Quisera eu
pintar com minha guitarra
Como Crumb com nanquim
Mais cruel que Che Guevara

Quisera eu
Ter nascido cigarra
deixar de ser formiga
Pra pintar a nossa saga.

08/2010

Mais um poeminha que quero um dia publicar num livrinho com nome, mas sem editora, chamado “O melhor de mim mesmo”. Sigam-me os bons em @freddigiacomo.

 

Arte do mestre Milo Manara

 

publicado originalmente 4 de Fevereiro de 2012

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...