Ainda que eu falasse a língua dos livros

O amor pelos livros eu herdei dos meus pais,
Essa era a única riqueza que eles estocavam em casa
Enquanto colecionavam pequenas dívidas e davam aulas
Em escolas públicas da periferia de Penápolis.

Ler era a língua deles
E eu precisava ler, se quisesse tocá-los
Especialmente meu pai
Que não falava a língua dos homens
Apenas a língua datilografada das páginas pintadas de pigmento preto.

Então, eu ambicionei mais
Eu quis ser parte daquele clube que chegava em casa, impresso a quilômetros de distância em gráficas de São Paulo e do Rio de Janeiro
Eu quis escrever meu nome na pedra que o tempo come
Mas come mais lento e com mais amor que os demais
O tempo tem carinho pelos escritores
Porque eles dedicam sua vida a recordar
E gravar pequenos acontecimentos extraordinárias em cápsulas invioláveis que chamam de livros
E eu chamo de vida.

Escrever era minha única opção
Para sobreviver
Para não enlouquecer
Para continuar.

Antes de ter dinheiro para pagar terapia
Eu escrevia
Por todos 18 anos de virgindade casta
Eu escrevia
Por todos aqueles anos sem dinheiro no bolso
Sim, eu escrevia
E ainda escrevo
Ainda que as palavras
Arredias
Insistam em soar vazias.

A Torre

“O Rei está falido e bipolar”,
Disse o bispo deprimido
à rainha em pânico.
“Pelo menos temos a Torre”,
suspirou o último dos peões,
“a Torre é nosso pilar.”

O reino negro está
coberto pela teia prateada
E a viúva ceifadeira segue
espalhando paralisia pelas casas brancas.
“Pelo menos temos a Torre”, recitou o cavalo hidrófobo,
“a Torre é nosso pilar”.

Por toda muralha já se vê o mofo melancólico
enroscando o reino adversário
“Que amarga vitória”, lamentou-se o envelhecido rei alquebrado,
“Nossos adversários eram nosso espelho,
nossa âncora e nossa cultura.
Pelo menos temos a Torre
e a Torre é nosso pilar.”

***
“Mas que diabos é essa sujeira no tabuleiro?
Esses destroços e esses ossos?
Limpem essa porcaria, pra que a Torre possa se equilibrar”
Mas nenhuma das figuras daquele tablado
– Nem mesmo o Valete descartado –
Ousaram revelar:
aquilo era o resto da Torre
esmigalhada ao luar.

Escritor multimídia Fred Di Giacomo lança “Guia poético e prático para sobreviver ao século XXI”

Capa do livro "Guia poético e prático para sobreviver ao século XXI", de Fred Di Giacomo

Capa do livro “Guia poético e prático para sobreviver ao século XXI”, de Fred Di Giacomo

Guia poético e prático para sobreviver ao século XXI” é uma tentativa poética de construir pontes literárias entre mundos distantes, numa época em que o ódio ergue muros e nos isola. São poemas caipira punk que revezam lirismo com pancadaria, Mano Brown com Walt Whitman, Penápolis com Pinheiros, Konstantinos Kaváfis com Beyoncé – delicadas fotos do interior (do Estado e do poeta) com coquetéis molotov que explodem “na cabeça do século”.

Fred Di Giacomo procura transformar a sensação desconfortável de solidão e não pertencimento em um santuário de versos e samplers de rimas, que emulam a mítica casa da Tia Ciata, onde escritores modernistas, como Manuel Bandeira e Mario de Andrade, ouviam a música revolucionária de Ismael Silva, Pixinguinha e Donga com impacto transformador para nossa antropofágica cultura.

Se interessou pelo livro? Adquira o seu aqui! 😀

Caipira punk de Penápolis, cidade do sertão paulista; o escritor e artista multimídia Fred Di Giacomo já foi chamado de “polymath” (algo como “renascentista”) pela Vice americana e elogiado por fazer ” um free-jazz que junta o repertório de vasta leitura com a velocidade fragmentada da sua geração (…) rápido nos diálogos como um devasso de pornô-chat” pelo jornalista Xico Sá (que assina a orelha do seu primeiro livro). Fred usa plataformas como livros, games, poemas, sites, músicas e infográficos para contar histórias, se comunicar com os leitores e produzir arte.

 

Entrevista sobre o livro:

“Free Jazz com palavras” – Jademir Rocha & Fred Di Giacomo

Sim, quinta-feira é a ditadura da arte. Quem não gostar será fuzilado por um pelotão de aquarelas!

jazz-pintura-jademir-rocha-1

Jademir Rocha ganha a vida cuidando de dentes e obturações, mas gosta mesmo – há anos – de pintar e tocar seu sax. Entre desenhos de jazz com grafite, aquarelas e pequenos artesanatos, ele vive em São Paulo em busca de novos discos para sua coleção.

 Inspirado pela série de desenhos de jazz de Jademir, Fred Di Giacomo pediu alguns para ilustrar seu livro ainda imaginário chamado “Bebop Beat”, composto de poemas feitos no calor do momento, seguindo seu fluxo de consciência ao som de Miles Davis e John Coltrane. O primeiro resultado da parceria está aí:

Free Jazz com palavras
Segura só esse solo, sussurrou Ulysses
E se pôs a tocar uma odisséia sonora
Minha mãezinha do céu, Homero é um maestro com as palavras!
Elas voam na estratosfera azul do Harlem, enquanto Têlemaco repete o riff
E Penélope costura notas num bordado de arpejos e beijos
O Cíclope pede um trago a detona o contrabaixo
Eu escuto João Donato, e Posídon é a pedra no meu sapato
Gosto das palavras assim, free jazz e meu fluxo de consciência

O resto é pop.

Fred Di Giacomo mora em Berlim e é autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais. Ele trabalhou por sete anos e meio na Editora Abril como editor-chefe dos sites do Núcleo Jovem e toca na Banda de Bolso.
jazz-ilustracao-jademir-rocha-1

 

Veja também:

– 6 discos para começar a escutar jazz
-“Odisséia”: o clássico que fundou a literatura ocidental

“Fechem os olhos dos jornais”, trecho de Vladimir Maiakóvski

O dia tá #TENSO e a amiga Mariana Nadai me manda essas fotos de mulheres paquistanesas deformadas por homens que as atacaram com ácido. Quem tiver estômago pode conferir outras vítimas dessa prática bizarra

Tamanha violência me faz nunca mais ler uma notícia. Que tristeza é o mundo pra algumas pessoas….

 

“os jornais me espreitam

anunciando minha despedida:

anúncios! eu-havido
em nota funerária= rodapé:

(letras mínimas!)

 

o passamento, passa tempo

os jornais me observam

já na véspera, vespertina

— jamais, nunca, ninguém.

 

morte anunciada nos jornais

o poema antecipa a morte

em suicídio ou despedida

 

“Fechem, fechem os olhos dos jornais!” [*]

 

É no poema que me recolho

encolho

olho

o.

 

Vou ao meu funeral, cantando.

_____

[*] Trecho de “A Mãe e o Crepúsculo Morto pelos Alemães” (1914), de Vladimir Maiakóvski, em tradução de Haroldo de Campos).

 

Dos heróis de hoje

Publicado originalmente em 2 de Agosto de 2010
-Mais dessas poesias azedas, por favor!

Cada geração tem os heróis que lhe apetece, néam?

O ombudsman do universo lança as dores do mundo ao mar

Todas as histórias tristes
Que botaram nas minhas costas para carregar
Queria deixar
No mar
E que, como lágrimas de desengano,
Elas passassem também a ser
Oceano

Às vezes choro nos ombros alheios, mas muitas vezes meus ombros pesam, por servirem como Ombudsman do universo. Alivio a tensão neste bloguinho e seus textos chorões e seresteiros. Mais disso no livro ainda não publicado “O Melhor de mim mesmo“.

foto by @freddigiacomo

Veja também:

-Compre meu livro “Canções para ninar adultos”

– Leia mais poesias
-Conheça “Gaiola” da Banda de Bolso 

 

Publicado originalmente em 23 de Outubro de 2011

Ser ou não ser do HaiKai Erótico

Entre uma preliminar e uma tosse
Seria um haikai erótico
Uma ejaculação precoce?

Bela foto da pin up plus size Kerosene Deluxe

Esse haikai faz parte de mais um projeto de @freddigiacomo que as editoras estão vacilando em não publicar: “Os PornoHaikais”

Veja também:
-Quer comprar meu livro?

-Dos gênios e dos astros eu só compartilho o fracasso
-Curte contos e crônicas? Leia alguns aqui!

-Mais haikais legais
-Musas com cérebro

Um parque de diversões da cabeça – Lawrence Ferlinghetti

Selecionei aqui três poemas do livro “Um parque de diversões da cabeça” e mais alguns quadros do poeta beat Lawrence Ferlinghetti

Lawrence_Ferlinghetti_House_Boat_Days_Never_Play_Cards_with_a_Guy_Called_787_64
House Boat Days Never Play Cards with a Guy Called Doc 1993


10
.


Em toda minha vida jamais deitei com a beleza
confidenciando a mim mesmo
seus encantos exuberantes
Jamais deitei com a beleza em toda a minha vida
e tampouco menti junto a ela
confidenciando a mim mesmo
como a beleza jamais morre
mas jaz afastada
entre os aborígenes
da arte
e paira muito acima dos campos de batalhas
do amor
Ela está acima disto tudo
oh sim
Está sentada no mais seleto dos
bancos do templo
lá onde os diretores de arte encontram-se
para escolher o que há de ficar eterno
E eles sim deitaram-se com a beleza
suas vidas inteiras
E deliciaram-se com a ambrosia
e sorveram os vinhos do Paraíso
Portanto sabem com precisão
como algo belo é uma jóia
rara rara
e como nunca nunca
poderá desvanecer-se
num investimento sem tostão

Oh não jamais deitei

em Regaços da Beleza como esses
receoso de levantar-me à noite
com medo de perder de alguma forma
algum movimento que a beleza pudesse esboçar
No entanto dormi com a beleza
da minha própria e bizarra maneira
e aprontei uma ou duas cenas muito loucas
com a beleza em minha cama
e daí transbordou um poema ou dois
para esse mundo que parece o de Bosch
20.

Na confeitaria barata para além do El*
foi onde pela primeira vez

me apaixonei
pela irrealidade

Os drops reluziam na semi-obscuridade
daquele entardecer de setembro
Um gato deslizava sobre o balcão entre

pirulitos
e pães de forma
e Oh chicletes de bola

Lá fora as folhas caíam ao morrerem
O vento soprava para longe o sol

Uma garota entrou apressada
O cabelo molhado pela chuva
Seus seios sufocando na loja minúscula

Lá fora as folhas caíam
e gritavam

Cedo demais! Cedo demais!

*El: a elevada do metrô.(N. do T.)

28
Dove sta amoré
Donde está o amor
Dove sta amoré
Aqui jaz o amor
Amora jazz amor
Num lírico encanto
Cantos de amor da serra
Canto que em si se encerra
Cantos de cor singela
Cantos de dor sincera
À noite pelos cantos
Dove sta amoré
Aqui jaz o amor
Amora jazz amor
Aqui jaz o amor

Tradução dos poemas: Eduardo Bueno
Um vídeo de Felinghetti:
Participação do poeta com “Last Prayer” no último show da The Band, grupo que ficou famoso por acompanhar Bob Dylan
-Conheça o livro “O uivo” de Allen GinsbergUm quadro de Ferlinghetti:

Samothrace with Rainbow, 1992, Lawrence Ferlinghetti


O americano Lawrence Ferlinghetti (24/03/1919) é poeta, tradutor, pintor e co-fundador da editora e livraria City Lights, responsável pelo lançamento de diversas obras fundamentais da literatura beat. Seu trabalho mais famoso é “Um parque de diversões da cabeça”, de 1958.

-Conheça “Trópico de Capricórnio” de Henry Miller
, lançado nos EUA por Lawrence Ferlinghetti
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