Argonauta 2.0

Cana, cana, cana, cana
Céu azul e nuvens brancas
Um zé doidim, uma cigana;
simplicidade; progresso esgana.
Cana, cana, cana, cana
Céu azul e nuvens brancas
mágicorealismo da terra seca
Flutua pela cidade plana
***
Hoje, acordei desesperado
Precisando de Penápolis no sangue
Hoje, acordei angustiado
Ansiando pelo azulhorizonte.

Na Rondon, destemidos postes
eletrificam o verdemar.
O marrom raro dos cupinzeiros
beatifica naivés a pintar.
Cana, cana, cana, cana
Céu azul e nuvens brancas,
Fundada sobre Coroados e colonos,
Argonautas deste seco oceano.
O calor, o caipira e a cana,
Males da cidade arcana.

***
Aí, queria ter do poeta o sangue
De Granada e da revolução.
Minha bisa veio de España
Lá como cá, retorce à mão
árvores nuas que bailam pra lua,
o sol que agita o rojo sangre

Um matuto, um vira-lata,
A benzedeira, a pipa pirata;
Este sangue quente, a seca sede
Esta cana rente, a mole rede

(Vierde que te quiero vierde)

Cana, cana, cana, cana
Céu azul e nuvens brancas
Ayer abuelita en Montilla,
Hoy Penápolis; el sueño mañana.

A igrejinha de Penápolis

Ainda que eu falasse a língua dos livros

O amor pelos livros eu herdei dos meus pais,
Essa era a única riqueza que eles estocavam em casa
Enquanto colecionavam pequenas dívidas e davam aulas
Em escolas públicas da periferia de Penápolis.

Ler era a língua deles
E eu precisava ler, se quisesse tocá-los
Especialmente meu pai
Que não falava a língua dos homens
Apenas a língua datilografada das páginas pintadas de pigmento preto.

Então, eu ambicionei mais
Eu quis ser parte daquele clube que chegava em casa, impresso a quilômetros de distância em gráficas de São Paulo e do Rio de Janeiro
Eu quis escrever meu nome na pedra que o tempo come
Mas come mais lento e com mais amor que os demais
O tempo tem carinho pelos escritores
Porque eles dedicam sua vida a recordar
E gravar pequenos acontecimentos extraordinárias em cápsulas invioláveis que chamam de livros
E eu chamo de vida.

Escrever era minha única opção
Para sobreviver
Para não enlouquecer
Para continuar.

Antes de ter dinheiro para pagar terapia
Eu escrevia
Por todos 18 anos de virgindade casta
Eu escrevia
Por todos aqueles anos sem dinheiro no bolso
Sim, eu escrevia
E ainda escrevo
Ainda que as palavras
Arredias
Insistam em soar vazias.

Assista ao festival cRássico de rock/punk “Destruindo a Rotina” – realizado em Penápolis, em 2001, no Bar do Nori

Era uma atípica noite fria em Penápolis (uma cidade no interior paulista que costuma ser MUITO quente), quando um festival atípico cheio de músicas esquisitas começou a se desenrolar no antigo “Bar do Nori” (localizado na rua conhecida como “Avenida”, onde se localizavam os barzinhos das cidades.)

Assista ao festival “Destruindo a Rotina”

A organização do festival “Destruindo a Rotina” começou meses antes pelas mãos dos irmãos Fred (no caso, eu) & Gabriel Di Giacomo e do baterista André “Ramone” Gubolin. Nós rodamos Penápolis atrás de patrocínio, alugamos som, descolamos uma lona tosca, emprestamos a bateria do brother Gilvan (que tocava na banda Militantes do clássico politicamente incorreto “Mulher burra só serve pra meter”) e divulgamos o festival na imprensa local. Conseguimos também uma parceria com o tatuador Pombal que sorteou tatoos e estava com sua banca montada na hora e também um esquema de venda de camisetas de rock. As bandas convidadas eram de Rio Preto, Araçatuba e Penápolis – mas, claro, algumas furaram na hora. Pelo que lembro o pessoal de Araçatuba foi comprar cigarro e nunca mais voltou, hehehe.

Os irmãos Fred e Gabriel Di Giacomo momentos antes do festival "Destruindo a Rotina", em 2001.

O começo dos anos 2000 era uma época de renascimento pro  rock de Penápolis. Depois de uma primeira geração de bandas bem legais  (como o Hëllisch, a Tuna,  o HellFire – que deu origem ao Necroriser – e o Dr. Ratazana), surgiam novos grupos, fanzines, festivais em colégio e até um programa de rádio da União Municipal dos Estudantes (que tocava Ratos de Porão pela manhã, intercalado com poemas do Augusto dos Anjos e piadas internas da pior qualidade). Entre as várias bandas de garagem que pipocavam havia uma vertente punk representada por Praga de Mãe, Militantes, Cretin Family e Grito Feminino que foi responsável por organizar os primeiros festivais que dariam origem ao que hoje é o grande organizado “Plis Rock” . O primeiro festival que eu ajudei a organizar tinha o simpático nome de “1º Massacre da Guitarra Elétrica”. Depois vieram o “Carna Rock”, “Carna Rock 2” (já no Bar do Nori) e o 1º Encontro Regional de Rock que ficou mais nas mãos do Gilvan e marcou a “profissionalização” da parada, com apoio da prefeitura e tudo. Aliás, lembro de quando eu, o Gabriel Di Giacomo, o Gilvan e o Marcão do Valle entramos no gabinete do prefeito de Penápolis (acho que era o Firmino na época) com calças rasgadas, spike e coturnos pra negociar “apoio” pro movimento. Saímos todos de lá com “bandeirinhas” de Penápolis como brinde, hehehe,

Tosqueira aguda: primeira e única demo da banda Praga de Mãe que fez seu primeiro show no "Destruindo a Rotina"

Entre os destaques do “Destruindo a Rotina” rolou a volta da banda Dr. Ratazana (que tinha registrado um show foda no Colégio “Coração de Maria”, em 1997, e me fez  querer montar banda e começar a consumir coisas pesadas como o punk rock), a estreia do “Praga de Mãe” (uma das poucas bandas da “cena” que investia em músicas próprias) e os shows das bandas de Rio Preto “Xios Porks” e “Caso Geral”. Também rolaram shows do Militantes (a banda de Penápolis que mais tocou pelas cidades da região, na época) e do Garage Metallica. Não lembro ao certo, se foi nesse dia que o Cretin Family estreou, ainda como “Ramones Brasil”.
Enfim, as filmagens acima não mentem: as condições eram precárias, o som era estourado, a maioria das bandas era pedreira, MAS havia uma paixão juvenil que fazia tudo soar lindo. Era um festival de rock pesado viabilizado por moleques de 16 anos no meio de uma cidade movida à sertanejo e baladas eletrônicas. Pra quem não tinha lojas de instrumentos decentes, nem rádios rocks, nem Hangar 110, nem “Galeria do Rock”, aquele foi um dos dias mais legais das nossa vida.

Veja também:
– Uma breve história do rock de Penápolis

-Carlão: um dos nomes que fizeram o rock de Penápolis

“Penápolis” – poema de Fred Di Giacomo

originalmente postado em 19 de Agosto de 2009

A igrejinha de Penápolis

Gosto da luz de Penápolis
Quente e intensa
O cinza de São Paulo
Não compensa

Oratório criado pela artista plástica penapolense Cecília Di Giacomo

Poema escrito pelo jornalista penapolense Fred Di Giacomo, autor do livro de contos “Canções para ninar adultos”, publicado em 2012 pela editora Patuá.

Veja também:
-Quer comprar meu livro?

-Dos gênios e dos astros eu só compartilho o fracasso
-Conheça o meu primeiro livro
-Curte contos e crônicas? Leia alguns aqui!

Breve História do Rock de Penápolis (1985 – 2003)

Praga de Mãe, em 2001

Destruindo a Rotina

Achei no meio das minhas coisas um fanzine que nunca lancei contando de forma rápida a história do rock alternativo de Penápolis. Acompanhei as coisas de perto a partir de 1997, quando assisti o tal show do Dr. Ratazana no Colégio Coração de Maria. Pra história antes disso contei com a memória do André Gubolin, baterista de diversas bandas  e co-organizador do festival “Destruindo a Rotina”. Quem lembrar de mais algum detalhe pode deixar comentários abaixo. A história aqui vai até 2003, quando eu já estava fora de Penápolis e oPraga de Mãe acabou.

Pré-História
Penápolis uma pequena cidade de cerca de 60.000 habitantes. Deserto roqueiro onde se encontrava o maior combustível  para  as bandas de garagem: o tédio. Sem muitas opções  de lazer não havia outra escolha a nãe ser se trancar em casa e rolar um som.

A cena toda se iniciou  na segunda metade da década de oitenta: as vilas da cidade fervilhavam, gangues de metaleiros brigavam entre si e se reuniam para ouvir death e trash metal. Nessa época surgiu a banda “Bárbaros do Metal”. Chegou a rolar um certo intercâmbio com as cidades próximas como Araçatuba. Ocorreram alguns pequenos festivas precários nas vilas e até o Clube Corinthians tinha noites dedicadas ao rock. O undeground estava forte.

Apesar dessa  euforia inicial, com o fim da  sua única banda, a cena se desfez aos poucos. As brigas entre as gangues também acabaram  pichando o movimento. O rock voltaria apenas no início dos anos 90, saindo um pouco da periferia e migrando do metal para o punk

Hêllisch, 1996

 

Por volta de 1990, surgiram duas bandas fundamentais para a cena local: N.D.A. e Hëllisch. A Hëllisch surgiu de uma brincadeira entre amigos. Era uma galera que sempre se reunia: roqueiros, fãs de Ramones, adolescentes sem ter o que fazer. Eles se encontavam na escola “OCEU Positivo” e ficavam rolando som com os instrumentos da fanfarra, tudo na brincadeira e sem qualquer noção musical. Foi uma alegria  pra galera quando eles conseguiram tirar o primeiro som dos Ramones. Dessas jams surgiu a banda Orgasmo de Mandruvá, ainda com Alberico, que daria origem a Hëllisch. A Hëllisch foi a primeira, e por muito tempo única, banda de punk rock da cidade. Tocavam basicamente Ramones, mas também Raimundos, Sex Pistols e outras. Junto a Hëllisch surgiu o N.D.A., banda de pop/rock formada por Fernando, Rodrigo e Lucas Cazzela. As duas bandas tocaram por muito tempo sozinhas, sempre buscando novos lugares para se apresentar e reunindo cada vez mais roqueiros. Com a saída de Alberico, o Hëllisch passou a contar com Caio, no vocal; Cotonete, no baixo; Sassi na guitarra e Ifo, na bateria. Era um tempo de camaradagem  e extremo amadorismo, com a turma sempre junta.

Posteriormente, Ifo saiu e quem assumiu a baqueta foi o camarada da banda, Pio. Havia toda uma galera junta da banda como Gilson “Punk”, André “Hëllichato” e as amigas Fernandas ou as “The Fers”. Em 1996, a cena se fortaleceu com a volta das bandas de metal. Primeiro o thrash do Kreusá, formado por Eduardo “Vermeyo”, Miguel Podre e Evandro e depois o MIND de André “Ramone” Gubolin(o Hëllichato), André Sinistro e Deley. Depois o Kreusá se tornaria HellFire, uma das melhores bandas da cidade, que contava ainda com Pevi no baixo.

A cena ia se expandindo e conquistando novos espaços: bares, escolas e praças. Valia tudo para tocar ao vivo. O N.D.A ficou célebre pelos covers de Mamonas Assassinas, incorporando, inclusive, a performance bem-humorada da banda nos palcos, com fantasias e tudo mais. Com o fim do N.D.A, Lucas formou a Tuna com Sandro, Ivan e Turcão. A banda madava covers de rock nacional e internacional, alternando um set acústico com rock mais tradicional. Entre 1997 e 1998, surgiria o Dr. Ratazana, formada por jovens de classe média que estudavam  no colégio “Coração de Maria”. A banda fazia um som punk pop/grunge, com covers de Green Day, Nirvana e Raimundos. Inicialmente formada por Alexandre Soares, Matheus, Daniel “Pará” e Mancuso, logo o Ratazana teve sua formação alterada. A banda iria ensaiar com a bateria emprestada de André Ramone, cuja banda MIND havia terminado. André acabou tocando um pouco no ensaio e, como Mancuso não sabia  tocar direito,acabou ganhando seu lugar… Estrearam em um show antológico no “Colégio Coração de Maria” pra um bando de pirralhos empolgados. Essa foi uma das melhores apresentações da banda que quebrou tudo. Outro bom show foi um festival no antigo Kai Kan, que reuniu o Dr. Ratazana, o 1,99 e o HellF|ire. O HellFire, inclusive, em grande forma e com um público fiel que havia sobrado das sementes plantadas pelos metaleiros das vilas da cidade.  Mas, sem dúvida, o festival que melhor representou essa geração do rock de Penápolis foi o “Urbano Acústico: Concerto de Férias” realizado, óbvio, durante as férias escolares. Tuna, Dr. Ratazana, HellFire e Hëllisch(com Cotonete na bateria) subiram no palco nessa ordem e fizeram  a “Avenida”, principal point dos jovens penapolenses, tremer com 5000 watts de potência. Nessa época, algumas bandas já tinham fita demo, caso do Dr. Ratazana e da Hëllisch.(Pioneira nas fitas demo e que posteriormente gravou também um cd independente). Logo o Dr. Ratazana acabou e André ficou tocando em duas bandas o 1,99(depois Katalepsya) com Bicão e Igor, e a Jam, um projeto deles com Cotonete.  Em 1999, Igor se afastou rapiddamente da Katalepsya e entraram Gabriel e Fábio. A banda passou a tocar metal – de Iron Maiden à músicas próprias de death metal, mas logo Igor voltou e Katalepsya e Jam se fundiram.

Com o fim do Ratazana, Matheus entrou na Hëllisch e Pará no Sandman, banda criada por Lucas Cazella para dar prosseguimento ao seu trabalho com a finada Tuna. Tocavam com eles, ainda, Sandro e Bruno Campanha.

Segunda geração

Gilvan da banda Militantes, organizador dos primeiros festivais

 

Até ai o rock da cidade não passara por uma renovação. Em 1999 as coisas seriam diferentes. Começaram a aparecer novos roqueiros que, influenciados por Dr Ratazana, Hëllisch e Cia, resolveram procurar fazer um som. Um desses primeiros frutos foi o trio formado por Fred Di Giacomo, Rafael Kiwi e Tiago. A banda terminou logo, quando Fred foi atropelado por uma moto indo ao ensaio de bicicleta, mas esse embrião acabou dando origem, ao grupode de grunge Jockeypaul, futura Dinastia.


Outro festival rolou na Avenida com Sandman, Hëllisch, Katalepsya e Jockeypaul. No final do ano explodiram novas bandas. The Sexmaniacs de punk rock escrachado, Andarilhos do Asfalto de rock e punk  e Kisher que rolava Legião Urbana e punk. 

O The Sexmaniacs teve vida curta e com a saída do baterista Shell deu origem ao Thelema, de Rodrigo “Popó” Peters, João Flávio, Tori e Maurício. Depois saiu Rodrigo  e entrou Alexandre Soares(ex-Dr Ratazana) passando pra um som mais pop com covers de Bon Jovi e Cássia Eller. Os Andarilhos do Asfalto também logo mudaram.  Formados pelos irmãos Di Giacomo(Fred e Gabriel) e Bruno “Brisa” Jardim a banda diminuiu o nome para Andarilhos e passou a contar com Edgar “Gaznso” na guitarra. Tocando som próprio(“Fuga para parte Alguma”, “Censurado”, etc) punk tosco e donos de performances piradas, a banda se apresentou ao lado de Jockeypaul e Thelema até conhecer  a galera da Vila América.  A Vila América foi entre 1999 e 2000 um celeiro de bandas. Garotos roqueiros, ligados ao movimento estudantil, na maioria de origem humilde e com afinidade com punk e grunge, eles deram origem aos Militantes(ex-Kisher), Stranger(ex-Punks de Brinquedo) e posteriormente Indigentes. Essas bandas unidas aos Andarilhos passaram a organizar a nova cena local realizando diversos festivais com bandas de todo o noroeste paulista. Surgiu um forte intercâmbio com as cidades próximas como Araçatuba, Birigui, Rio Preto, Coroados e outras. A dobradinha mais recorrente que se pode ver nos palcos foi Andarilhos/Militantes que tocavam em todos os buracos possíveis, e se apresentaram, inclusive, ao vivo na Rádio Difusora. Outras bandas que apareceram, mas tiveram vida curta foram a Black Star, a Ponto G e os Gametas. Hëllisch e HellFire já haviam saído da cidade.  A Tuna voltou a ativa e chegou a gravar cd. Surgiram fanzines, incialmente o Ira!(dos irmãos Di Giacomo(ex-editores do Afrociberdeli@, ao lado de Rodrigo Popó) e em 2001 uma série como o “Manifesto Feminista”  e o “Rock Brasil”. Ao lado das bandas um galera sempre comparecia aos shows e mantinha os contatos com o pessoal de fora: Rakel, Bia, Bina, Thaiana, Silvia, Peru, Andrei… Fred, Gabriel e Gilvan conseguiram um programa de rádio na Bandeirantes. Entre os festivais destacaram-se “O 1º Massacre da Guitarra Elétrica” e o “2º Karna Rock”, ambos com a presença de Andarilhos(agora com Wilson nos vocais e Marcão do Valle na guitarra), dos Militantes(formados por Junior, Gilvan, Ga, Vandinho e Duardo) e de bandas de fora. Os festivais contaram com a presença maciça de público, o que demonstrava a força da nova cena local. Um busão cheio de anarcopunks de Araçatuba, ostentando uma bandeira do MST, decorou as ruas da pacata “princesinha da Noroeste”.
Em 2001, até março, o que se viu foi uma continuação desse movimento de bandas com som agressivo e fé no lema punk do “faça você mesmo”. Mas em abril os Andarilhos se separaram e os Militantes(já experientes em shows pela região, especialmente no centro cultural anarcopunk Quilombola, de Araçatuba) começaram a parar de tocar. Dos Andarilhos surgiu o trio 100% punk/hardcore Praga de Mãe. Programou-se o festival “Destruindo a Rotina” com oito bandas, entre elas o Dr Ratazana(de volta com a formação original), o Praga de Mãe e os Militantes.

Hardcore feminista era a praia do Grito Feminino

Muitas coisas viriam depois. Uma banda formada só por meninas(Grito Feminino), hardcore melódico, trocas de cartas e zines, mais shows pela região, apoio da prefeitura para realizar o 1º Encontro Regional de Rock. Uma nova geração iria arregaçar suas mangas e formar seus próprios grupos de garagem mantendo vivo o espírito rock ‘n’ roll de uma cidade caipiria. Já que em Penápolis, o tédio – principal combustível do rock – continua abundante.
Fred Di Giacomo (ex-Andarilhos, ex-Praga de Mãe, ex-Mullets, ex-Cuecas Rosas, ex-Milhouse,  ex-editor dos zines Ira! e Afrociberdeli@ e atualmente na Banda de Bolso), com a colaboração de André “Ramone” Gubolin.

Tiros, tretas e vagabundagem. (Aconteceu no meu bairro.)

(Esse conto foi originalmente publicado no site Enraizados e faz parte do meu primeiro livro Canções para ninar adultos“. Dedicado a todos amigos do meu bairro)

por Fred Di Giacomo

Não sei quem mata mais a fome, o fuzil ou Ebola. Não sei quem sofre mais, os pretos daqui ou os de Angola,

O Invasor”, Sabotage.

Mestre Sabotagem atuando no filme "Carandiru"

Mestre Sabotagem atuando no filme “Carandiru”

 

_Escuta, vamos matar esse puto logo e sair daqui, não tô afim de preocupação pra minha cabeça.

_ Porra, Bino, você tá amarelando, meu irmão? O negócio é baba, pega o padre, bota uma bala na cabeça dele e boa. Trabalho feito.

_Caralho, Betão, você acha que sair por ai matando padre é um esporte bem agradável, né?

_Ih, calma vocês dois. Vamos agilizar o negócio. O cara vai estar no acampamento sexta, a gente espera na estrada e faz o serviço: simples assim.

Quem falou foi o Fino, o Mudo não falou nada. Ele nunca falava.

***

Tava tocando Bezerra da Silva, cd de camelô. O cheiro de gordura queimando se espalhava pelo bairro. Criança chorando no vizinho. Sempre. Seis caras e três mulheres. Cerveja “Conte” barata e caipirinha com pinga 21. R$ 2,28 no supermercado. Mais barato que maconha. Tinha uma mão de cinco reais também. Mas só o Gil e o Bina fumavam. A galera não curtia, nem pegava bem com os vizinhos. Foda. A Tat chegou, já tava barriguda. De 6 meses. Caralho, como o tempo passa rápido: a mina brincava na rua ontem e hoje já era essa mulher. “Nega linda”, que nem rosnava o Gil, sacana. O pai do moleque tava na Holanda. “Alguma bolsa de estudo?” Não, tráfico internacional. Sem brincadeira. A galera ainda pagava pau. No duro. Mó ascensão social. Não to contando histórinha de Jornal Nacional, é um negócio que eu ouvi na minha vizinhança.

Cheiro de gordura queimando. Sol quente, asfalto esburacado. Parede descascando. Muros baixos cada vez crescendo mais. Vira-latas na rua revirando lixo. Salivando. Cheiro de gordura queimando, mais uma vez. Seu Wilson não gostava da vizinhança, tinha mudado muito. Aglomerado de pobres. Quase todos vivendo como negros, sejam brancos ou mulatos. Som alto. Seis horas, rua cheia de bicicletas voltando do trabalho. Sete horas rua cheia de bicicletas indo pro culto. Pernas que pedalam usando chinelos. Havaianas, as legítimas. Pernas entrelaçadas nas construções inacabadas. Meninas virando mulheres. Aquilo já tinha sido um bairro de classe média baixa, quase todo mundo vivendo como quase brancos. Quase todo mundo, quase cidadão. Agora era o Senhor Wilson contra o mundo, trancado em casa. Tinha TV por assinatura e computador. Tinha medo de assalto e reumatismo. Tinha se aposentado depois de quarenta anos de serviços diversos. Tinha vindo do nordeste sem curso superior. Tinha sobrevivido.

***

_ Caralho, Betão, você tá maluco? A gente não conhece essa cidade, mermão. Porra, onde você ta metendo esse carro.

_Se liga, Bino, caralho! To falando que você tá frouxo. Meu Deus, é por aqui que a gente pega a estrada.

_Betão, seu preto, filha da puta. Se ninguém matar a gente, eu te mato.

_Vai tomar no cu, branquelo! Vou te mostrar o que o negão tem de bom.

_Aposto que o meu pau é maior que de qualquer preto filho da puta.

_Ah, eu aposto vinte conto! Aposto no duro, vou até parar o carro agora.

_Para então, tiziu. Macaco do caralho!

_ Macaco não, hein, seu branquelo! Vou te mostrar a serpente africana.

_ Se o seu pau for maior que o meu, eu chupo ele.

_ Cê vai chupar, então.

Pararam.

Cena do filme "Guido deve morrer", primeira aparição dos matadores Pedro, Bino e Mudo

Cena do filme “Guido deve morrer”, primeira aparição dos matadores Pedro e Bino

***

Cerveja rodando. Vagabundagem sentada na frente da calçada. Silmara com o Wilsinho. Bina conversando com o Juninho e o Bola. Gil em cima da Tat. Sheila dançando. Geninho sentado no canto, batendo o pé, tentando acompanhar o ritmo. Homens brancos não sabem dançar.

_Orra, Bina, a Sheila tá filézinho, hein, mano?

_ Só.

_Se liga, Juninho. Cê não pega ela nem fudendo, a Sheila só fica com boy.

_ Ih, Bola. Cê é gordo, não enxerga nem o pau. Não entende de mulher, mano.

_Vai lá então, garanhão.

_ Que cê acha, Bina?

_ Desisti das mulheres, mano, só como puta.

_ Se acha da hora?
_O foda é que eu acabo ficando amigo e paro. Fico com dó, mó nóia.

_Vai lá, Juninho! O Gil já ta garfando a Tat, grávida e tudo.

_ Treta, hein?

_ Só vai ter treta, se alguém sair falando merda. O macho dela não precisa saber, né? O cara é do movimento, mó foda.

_ Pode crer, vou lá na Sheila, então.

Era loirinha, de olho castanho. Bunda redonda, peitinho arrebitado. Usava shortinho jeans, marcando a lordose, e blusinha de alcinha. Chinelinho Havaiana vermelho. Cabelo solto, compridão até a bunda. Sabia que era gostosa. Dançava requebrando até embaixo. Um crime. Juninho foi. Ficaram o Bina e o Bola. O Bina tinha trinta e dois anos, careca, bigodinho fino. Mulato mais pra negro. Magro. Poeta. Tinha sido punk. Tinha rodado o mundo com a mochila nas costas e uns fanzines dentro. Desenhava pra caralho. Trampava no curtume, turma da noite. Hoje era do rap. Bebia muito, falava pouco.

Daí chegou um opalão com som fudido. Dentro estavam o Morcego, o Renatinho e o Lu Furacão. Tudo turbinado: colarzão de ouro, óculos escuros, camisa de marca. E o Gil fazendo a Tat, lá no fundo. Tinham que segurar os nego lá na frente e avisar o moleque, senão iam querer honrar o amigo que tava tomando chifre lá da Holanda. O Bina foi lá, ofereceu cerveja. A Sheila também foi, ofereceu esperança. A Silmara foi pro fundo avisar os dois.

Seu Wilson estava de olho no esquema. Era o pessoal do movimento, melhor chamar a polícia rápido. Polícia corrupta. Direto parava um taticão na boca do bairro. Parava, ficava uns dez minutos e saía, de boa. Diziam que era batida, mas os traficantes nunca estavam lá. A polícia brasileira tem dois patrões: rico ladrão e pobre ladrão. Ligou mesmo assim. Seu Wilson estava pensando em mudar do bairro.

***

 4 pistoleiros discutindo a aposta:

_ “Cê” vai chupar!

_ O caralho!

_ Isso mesmo, “cê” vai chupar o caralho, ou eu vou por na tua bunda.

_ Calma ai, moçada. _ O Fino saiu do carro.

_Tu tem uma puta pica mesmo, Betão, agora vamos cair na estrada. _ O Fino tentava acalmar os ânimos. O Mudo tava quieto no carro. O Bino entrou rápido, com medo da “serpente negra”.

O Morcego estranhou o Honda Civic parado ali na frente, rodeado por homens de terno e óculos escuros.

_ Ei, boy, que você tá fazendo aqui?

_Se liga, Morcego, o cara tá com a pica de fora. Puta sacanagem dos playboys. Tão achando que tão na Gozolândia.

_ Filha da puta, guarda esse pau, maluco!_ Apontou a PT.

O Betão apontou a dele. A cena congelou. Betão com as “duas” armas em riste. O Fino de costas. Os três traficantes apontando os berros. Close no carro, Mudo girando a chave na ignição. Volta o movimento. Uma bala castra o orgulho do Betão. Fino toma dois tiros nas costas. O Honda Civic sai em disparada. Os três traficantes correm atrás com os canos na mão e dão de cara com o taticão. Seu Wilson olha pela janela, ri. Fez sua parte e botou na bunda dos marginais. Liga pro jornal, põe um anúncio nos classificados. Queria escrever “Vendo terreno no inferno”. Velho exagerado, nem repara que o som rolou até de madrugada.

Periferia é periferia, né?

2005

Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais“ . Ele foi pioneira na criação de newsgames (jogos jornalísticos no Brasil) e toca na Banda de Bolso.

Para ler ao som de “Periferia é Periferia” dos Racionais Mc’s:

 

Colegiais passeiam no zoológico humano.

Esse conto eu escrevi durante a faculdade, em 2005, para um livro que eu estava bolando chamado “Amor em Tempos de Aids”. Acabou que meu primeiro livro mesmo foi o “Canções para ninar adultos” e eu integrei este conto num romance que vai chamar “Memórias de um perdedor”.

***
Colegiais passeiam no zoológico humano.

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Pra que servem poemas surreais, poesia concreta e literatura fantástica? Eu já gostei de escrever poemas concretos. E também já gostei de mulher, hoje só transo homem. Putz, quem eu to querendo enganar? Hoje eu não transo nada, nem homem, nem mulher, não como nem bunda peluda. Sou um perdedor, um maldito fracasso, uma estrela cadente ardendo no espaço. Um cachorro faminto esperando a gorjeta, eternamente caído numa imunda sarjeta.

A vida anda passando a mão em mim, ouvi em algum lugar. Foi uma poetisa. “Parece que quem ta me comendo é o tempo”, ela falou também. Isso eu percebi de longa data, o tempo ta me devorando, e eu aqui: alguns litros de pinga, um punhado de lágrimas, sonhos imbecis, um monte de bosta dentro do corpo. O que eu mais tenho pra oferecer pros outros é isso: bosta.

Escutem essa, meus vizinhos são todos uns pobres de merda. Ficam o dia todo ouvindo música ruim nas rádios Am e nos fins de semana matam um gato e assam. Eu finjo que gosto de pobre, mas tenho nojo. Acho que pobre é pior que cocô de cachorro. Queria morar num mundo onde todas as pessoas fossem bonitas, ricas e cheirosas. Um mundo onde todos morassem em shopping centers enormes e todas mulheres tivessem implantes de silicone. Meu vizinho trabalha de dia e a mãe dele ouve uma rádio evangélica e música sertaneja, enquanto isso. Quando ele chega, à noite, ouve rap e rock n’ roll. Tem um funk que ele gosta assim, ó: “Se dinheiro fosse bosta, pobre ia nascer sem cu”. Poético, um brinde a verdadeira música popular brasileira! Esse é o lirismo dos novos tempos! To de saco cheio, sabe como é? Ninguém gosta de gente feia, quem nasce feio só se fode. Eu sei disso, fui feio pra cacete na adolescência. E como disse Joãozinho Trinta: “Pobre gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual”. E universitário, claro, meu amigo Joãozinho. Lá na faculdade, Universidade Infernal Paulista, eu curso Ciências Sociais e todo mundo quer salvar a terra, todo mundo quer discutir miséria e valorizar a “cultura regional tradicional”. Um monte de molequinho, playboy, maconheiro, que nunca chegou perto dum pobre de verdade, nunca sentiu o cheiro azedo de um viciado em crack, nem comeu churrasco de sebo no fim de semana… E sorte deles! Ninguém deveria ter que conviver com essas belezas exóticas, o mundo tinha que ter sido escrito assim ó: um poema parnasiano.

Lembro até hoje do dia em que minha escola foi fazer uma excursão pra visitar o zoológico humano, abre aspas: “periferia”. Era uma escola de padres, muito caridosa e a intenção dos padrecos era levar o pessoal pra conhecer a REALIDADE. A realidade assim, no duro, sem erro de impressão, com r maiúsculo mesmo, meu bem. Eles resolveram pôr minha classe numa perua pra doar cesta básica lá numa casa onde o filho tava preso e a irmã tava morrendo de AIDS. Nossa, gente, que educativo! Fiquei puto da vida e me senti numa excursão pro Circo de Aberrações. Algumas pessoas estavam levando o negócio a sério, outros estavam de saco cheio, outros iam se sentir muito tocados e começar a doar um real de dízimo na igreja ou fazer caridade. Ou dar uns trocados pros moleques que vinham pedir moedas perto dos trailers de lanche. Trocados não, comida ou roupa porque pra pobre não se pode dar dinheiro… Vai que eles compram droga, né? Meu Deus do céu, esses pobres são fogo, se a gente não toma conta os bichinhos vão lá e gastam dinheiro em pinga! Então vamos lá com a perua dos padres, dar uma cesta básica e ver como é estar morrendo aos poucos de HIV. Assim, a molecada pensa duas vezes quando for transar sem camisinha, porque a AIDS é uma das poucas coisas realmente democráticas no mundo, tal qual morte e dor de corno. Deveriam incluir a AIDS na constituição dos eSTADOS uNIDOS, afinal, não são eles os defensores da liberdade e da democracia?

Bem, eu já estava praguejando dentro da perua, mas isso era esperado, afinal, eu era o rebelde da classe, não acreditava em dEUS e tinha uma banda de rock. Nossa senhora, como eu era um garoto mal! Talvez eu até conseguisse limpar a bunda sozinho com um pouco de paciência. Enfim, estávamos saindo da escola e, sem que eu ficasse muito surpreso, a merda da perua começa a guiar em direção à minha casa. HÁ,HÁ,HÀ, já até podia ver a cena. Essa é a casa do coleguinha de vocês, Ernesto Samsa. A mãe dele é professora e vive com o cheque especial estourado, o vô dele ajuda a família e eles tomam refrigerante todo fim de semana. Ou talvez, eu tivesse me esquecido, mas a Gabriela podia estar com AIDS e o Marcelo preso. Não, a perua não parou em casa. Eu também era mais um bundão da classe média. Baixa, mas classe média: com escola, comida, televisores e carro na garagem. dEUS seja louvado, já nos dizia a velha nota de um real.

Bem, como eu ia escrevendo: a perua não parou em casa. Parou ali na rua transversal, no vizinho. Há meio quarteirão do meu lar doce lar. Lindo, se algum vizinho me vê naquela comitiva da ONU o que vão pensar? Ou vou ser o cara mais metido do bairro, ou talvez me torne um São Francisco de Assis auxiliando todos que moram lá perto, com cestas básicas e palavras de esperança. Nem a pau, já até lembrei quem é o tal que ta preso, o Tiziu, amigo dum conhecido do meu irmão. Os dois tinham assaltado uma vendinha, pelo que eu sabia, viviam envolvidos em treta. To fora, a perua pára na frente. Eu pulo rápido e ando uns 30 passos.

Sabe o que eu to pensando agora? Talvez eu tenha ficado com vergonha pelo zoológico ser minha vizinhança, talvez todo mundo que estivesse naquela perua nem se lembre desse dia. Pra todos pode ter sido só um dia qualquer, no qual fomos dispensados um pouco mais cedo. Quem sabe, se você cutucar a memória de um daqueles moleques, cinco anos depois, eles lembrem da boa ação que fizeram. E lembrem também de como comentaram com seus pais durante o almoço, assim que chegaram a suas casas. E como pensaram: “Sou um felizardo, tenho comida e minha irmã não está morrendo de AIDS, numa casa podre com muro de troncos de madeira”.

Eu não esqueço, essa merda de dia ficou marcada no meu diário de perdedor, fiquei puto na hora. Trinta passos e to na minha casa: bonita e espaçosa, tem três televisores e a gente sempre toma refrigerante no fim de semana. Coca-Cola, nada de “genéricos”. Minha casa é um feudo da classe média, em meio à barbárie, mesmo assim eu não tenho o prazer de esquecer a merda do mundo. Eu não tenho esse direito e dou graças a dEUS por isso. Aquele dia os moleques da escola de padres conheceram os pobres, voltaram para suas casas, como se tivessem assistido a um bom filme, e dormiram tranqüilos. Quando uma menina rica foi estuprada e um jovem de classe-média foi seqüestrado e morto eles clamaram por segurança, preocuparam-se com as “questões sociais”, ou deixaram de sair de casa no fim-de-semana. Depois esqueceram o resto do mundo, de novo. Eu to alerta, essa porra é um campo minado. Enquanto tiver gente comendo churrasco de sebo no fim de semana, ao mesmo tempo em que nossas famílias vão comer fora algo requintado, a panela de pressão vai permanecer apitando. E um dia ela estoura.

Bosta, e eu continuo sem mulher e sem poesia concreta. Pra que servem poesia concreta e mulheres num mundo desses? Li um conto lindo dum colega de ciências sociais sobre “um pé de manga que crescia nos céus límpidos de sua imaginação multicolor”. Talvez seja uma metáfora sobre a vida, a “nossa vida”, ou talvez ele só tenha um pau pequeno. Sei lá, nessa merda de mundo eu não perco tempo escrevendo firula, não sei se isso tem utilidade. Agora, uma mulher eu sei que pode adiantar pra alguma coisa ou outra. Isso que me deprime.

(17/07/05)

Da-região-desta-escola-há-séculos-o-chocalate-adoça-a-vida-de-outras-crianças-Região-do-Cacau-Bahia

Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais“ . Ele foi pioneira na criação de newsgames (jogos jornalísticos no Brasil) e escreve sobre felicidade no Glück Project.

Procurando sexo numa noite chata.

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Alessandra Negrini num clássico ensaio para a revista Playboy, onde encarnou uma prostituta

_Abra a boca, senhor Ernesto, um pouco mais. Isso! O senhor assistiu o jornal ontem? Mataram aquela freira que defendia os sem-terras.

O dentista sempre pergunta coisas que a gente não pode responder, não com todos aqueles aparelhos e brocas enfiados na garganta. Eram duas: a dentista e sua assistente. Pareciam saídas de um programa humorístico. Faziam piadas o tempo todo, comentários que você não podia responder. Eu poderia comer as duas, sem dúvida. Juntas. Minha cabeça doía. E minha boca ainda tinha um gosto estranho. Ressaca…

***

Tínhamos comemorado o aniversário do Marcelo ontem. Como nos velhos tempos. Os quatro amigos sentados em um bar naquela quentíssima cidade do interior. Cidade de terceiro mundo na entrada do século XXI. A cerveja era barata e tinha uma faculdade fuleira lá em frente. Passavam umas moças de minissaias e a gente ficava feliz só de ver. O Lucas e o Flávio estavam lá sentados. O Flávio tava virando intelectual e lia um livro atrás do outro. O Lucas estava virando velho e estava mais gordo e mais careca que nunca. Ia morar junto com a namorada agora. C’est la vie. Pedimos mais cerveja e brindamos mais um ano do Marcelo.

Passou meia-hora e chegaram mais conhecidos no lugar. Convidaram a gente para sentar, mas eu não queria. Gente CHATA, conversa desinteressante. É horrível fingir interesse por alguma merda desinteressante. Setenta por cento das pessoas no mundo são CHATAS, eu acho. Setenta e cinco por cento vai! As mulheres bonitas podem ser um bocado CHATAS, mas os caras sem chance! Nunca comeria um cara, ainda mais um cara CHATO. Às vezes, eu finjo interesse e encaro uma conversa com um desses tipos. Uma conversa que não vai me levar a lugar nenhum a não ser uma enxaqueca e a sensação de ter perdido o dia todo inutilmente. Sem fazer nada. Odeio fazer coisas por obrigação. Burocraticamente. Gosto da vida com paixão.

O dono do bar tava expulsando a gente. Certo. Um dos caras disse pra irmos prum bar de putas. Ninguém tava afim, ainda. Fomos pra outro lugar aonde tinha uns músicos CHATOS com violão e teclado. Tocando canções populares e CHATAS. E cobravam “couvert artístico” a mais da gente. Eu queria que eles abaixassem o som. Dava vontade de pagar pros bastardos ficarem quietos. Tudo bem, chegamos tarde e eles logo pararam de torturar. Mais cervejas, conversas CHATAS. To com um puta buraco no estômago e sem grana. Nunca saio com muito dinheiro porque nunca tenho muito dinheiro. Sempre tenho que escolher entre beber ou comer. E na maioria das vezes acabo bêbado.

Bom, estão expulsando a gente daqui também. O dono do bar não parece ser um cara bem decente. É um japonês explorador e sempre erra o troco. Sempre dá dinheiro a menos. Puto! Os casais que estavam com a gente dão o fora. Casais são CHATOS e usam apelidos carinhosos o tempo todo, isso me arrepia. O amor é ridículo. Eu sou ridículo quando amo e chamava minha pequena de “bebezinho”. Ponto. Matem o autor. Ele é um tremendo CHATO.

_ Vamos atrás dumas putas!
_ Nada disso. _ Eu digo. _ Não pago por sexo.
_ Foda-se, a gente só vê elas dançando. No Star Drinks é dez reais com direito a uma cerveja e striptease.
_ Não tenho dinheiro nem pra comer um lanche, quanto mais uma mulher. E na minha situação um lanche é mais quente que uma mina.
_ Vamos pro bar da Márcia então, lá a entrada é grátis e pode ter uma puta cansada a fim de conversar e fazer uma chupeta de graça.
Nessa hora todo mundo era macho: o Lucas que tinha namorada e não traía, o Lorival que tava fazendo a proposta e também tinha namorada, o Porcão que era um gordo CHATO. Todo mundo menos eu, que tava cagando de fome.
Entramos nos carros. Noite quente, cidade vazia. O álcool só aumenta a solidão, estimula os hormônios. O desejo é um demônio que espreita o ser humano. Juventude e drogas só liberam o monstro. Dois carros na rua. Dois caras no da frente, quatro no nosso. Um pedaço de mau caminho, mini saia, sonhos possíveis e cabelos loiros adiante. Todo mundo grita como um bando de porcos! Assovios, juras de amor. Ela ri, de longe tem no máximo vinte anos.

A noite não está tão CHATA assim.

Peço pro Lucas parar. Ela continua vindo na nossa direção. Grito: “Ei moça, quer uma carona”. Nada. Ela mais perto. O Flávio repete. A pequena sorridente: “Ah, vou aceitar”. Entra no carro. Testosterona no ar. Paus enrijecidos. Imaginação levando até uma orgia.

_ Aonde você tava indo?
_ Tava procurando um bar aberto.
_ Onde você mora?
_ Moro em X (X é um bairro bem distante!).
_O que você ta fazendo aqui?
Silêncio.

O cheiro dela é uma mistura de suor, perfume vagabundo e álcool. Sexo pago. Ela parece estar entorpecida. Não esbanja muita reação. Responde às perguntas de forma burocrática. CHATA. Meu pau amolece. Chegamos de volta à rua do segundo bar. Paramos. Ela desce e os dois do outro carro também. O Porcão fala com a moça. Ela vai comprar cerveja. Sandalinha. Blusa de alcinha. Senta com as pernas abertas. Olhar perdido.

_ Porra! Como vocês deixaram essa mina ir embora? Vocês tinham que ter segurado ela. Começar a passar a mão no carro mesmo!
_ A culpa é do Ernesto!
_ É, vacilão! Ela deveria ter ido do meu lado!
A moça volta, nem anjo e nem demônio. Pra dizer a verdade nem parece humana. Um pedaço de carne pros caras devorarem. Um zumbi pra mim. Zumbi sem desodorante. Já não me excito com suas pernas roliças ou sua bunda carnuda. O gordo joga sua lábia. Parece um rinoceronte, barriga enorme, sua muito. Ela conta sem descrição quantos caras são.
_ Você não quer sair com a gente?
_ Fazer o quê?
_ Tomar uma cerveja, conversar…

Segundos de relutância. “Tá certo, mas eu vou com vocês que o outro carro ta meio apertadinho.” Capto a mensagem. O outro automóvel é um carrão, um Golf. Falo pro Lucas que é melhor irmos embora. Ele quer seguir o Lorival. Todos querem devorar a loirinha. Paramos numa rua escura. Os dois carros emparelhados. Eu só ouço alguns sussurros. Os vidros traseiros fechados. O gordo bolinando a moça. A voz do Lorival: “E, ai?” “Você agüenta seis?” “Tá certo”.
_ Pessoal, ela quer quarenta reais!

Quarenta conto?! Tô fora! Prometi pra mim mesmo segurar a onda no sexo, se estivesse limpo de AIDS. Não tenho coragem suficiente. Sexo em tempos de HIV é uma merda e tanto.
_ Cara, eu vou broxar se comer ela com vocês. Imagina o gordo pelado! – É o Marcelo.
_ Eu tenho namorada. _ O Lucas.
_ Eu como._ O Flávio.

Flashback. O diálogo que se passou no carro. Câmera fechando na cara do Lorival.
_ E ai, os pega?
_Que pega?
_ Os corre.
_ Que corre?
_ Os pega do corre.
_ Não to entendendo, moço.
_ A gente quer te comer..
_ Ah… Eu não vou dar pra seis caras de graça…
_ Quanto você quer? Vinte reais?
_ Vinte é muito pouco, dez reais de cada um, assim eu posso comprar o material escolar.
_ Quantos anos você tem?
_ Dezoito.

Ela tem no mínimo vinte e três anos agora, vendo de perto. Cara cansada.
_ Quarenta reais!
_ Quarenta ta bom.
_ Você agüenta seis?
_ Agüento. Mas vai um de cada vez, né?
_ Isso depende da empolgação na hora.
_ Hum… Moço, pede pros seus amigos me deixarem em casa depois.

Volta pros carros emparelhados. Ninguém é mais macho.
_ Deixa quieto, então. Ela pediu pra deixá-la de volta no segundo bar.
_ Deixa ela aí… _ o Lucas.
_ Vamos voltar, lá!

Alessandra Negrini encarnando uma prostituta nas páginas da revista Playboy

Alessandra Negrini encarnando uma prostituta nas páginas da revista Playboy

Voltamos. Eu to quieto. O Flávio xinga: “Eu comia, eu comia”! Nem a pau! Os caras deixam ela. Mal a mina sai e eles reclamam: “Que catinga!” “Fedorenta!”. Fico com dó. Mas da pra sentir o cheiro saindo das janelas abertas. Paramos em frente ao primeiro bar. Tá fechado agora. O Marcelo distribui cigarros, todos fumam a derrota. Ninguém é mais macho. O Lorival tira o corpo fora. Eu digo:
_ Ela queria os dois, vocês deviam ter ido com ela.
_ Nem a pau! O Porcão que queria comer ela.
_ Eu não! Credo! Só pus a mão nos peitinhos, se não tivesse fedendo quem sabe…

Sentava com as pernas abertas, só não pus a mão lá, porque fiquei com nojo…
Ninguém é mais macho, são todos CHATOS. Fim de uma noite CHATA, em uma cidade CHATA. Ponto final em mais um de meus chatíssimos Kontos.

06/03/05.
Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais“ . Ele foi pioneira na criação de newsgames (jogos jornalísticos no Brasil) e escreve sobre felicidade no Glück Project.

Memórias de um perdedor: Capítulo 1

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Infância

“Quando era pequeno, a vida era um circo queria ser palhaço, queria ser artista voar pelo espaço, o tempo demorava para passar.”

1. Quando fiquei velho eu morri.

Esse é o fim , no começo tudo eram pequenos flashs. São Paulo era uma cidade grande e eu tinha um amigo ruivo que brincava comigo no parquinho. Um dia ele me meteu a mão na cara e nós nunca mais conversamos.
Não sei se eu era bundão, porque não tenho muitas lembranças até meus três, quatro anos de idade. Lembro que meu irmão mais novo estava sempre lá, sabe? Acho que nós nunca fomos apresentados um ao outro, assim como nunca me apresentaram a meu primo Fábio, mas eles sempre estavam lá. Ele nasceu um ano depois que eu, então na verdade sempre considerei que ele fosse parte de mim. Nunca soube distinguir direito onde eu terminava e onde começava o Marcelo. Só sei que ele tava brincando comigo e com meus primos quando a gente ia pra casa dos meus avós e que ele estava comigo quando a gente se mudou pra um buraco no interior de São Paulo: Patópolis.

Nenhum dos meus pais tinha realmente algo a ver com Patópolis, meu pai vinha de uma família simples de São Paulo. Minha avó era filha de imigrantes espanhóis pobres e meu avô tinha migrado da Bahia. Ele tinha trabalhado na roça, jogado futebol e sido vaqueiro em Goiás. Quando veio pra São Paulo arrumou um emprego público e passou a estudar direito à noite. Meu vô nunca parecia estar feliz e eu tinha medo dele. Minha vó adorava falar e me dava presentes. Eu adorava minha vó, seus presentes e o cheiro forte do seu perfume…. Quando meu vô realmente começou a ganhar dinheiro, meu pai já estava no colegial. E ai ele resolveu fazer Ciências Sociais! “Não rapazinho, você vai ser um advogado como seu pai”. Meu velho durou um ano no curso de direito com seu cabelo comprido e sua barba hippie, mas logo transferiu pra Ciências Sociais e teve que começar a trabalhar pra pagar a faculdade. Voltou a ser pobre…. O coitado nunca soube realmente como ganhar dinheiro, tudo que ganhou ele gastou em livros. Livros e idéias que ele passou pra gente como herança. Foi na faculdade que conheceu minha mãe. Ela era quase hippie e também gastava seu dinheiro em livros.

Minha mãe era uma garota linda: magra, de olhos verdes, boca carnuda e cabelos negros. Foi dela que eu herdei meus olhos, que no começo eram azuis. É impressionante como a gente muda pra pior com o tempo, né? Todo mundo dizia que eu era um bebê lindo, e quem vê minhas fotos dessa época concorda. Eu até fui uma criança bonitinha, mas a adolescência mudou tudo… Bom, voltemos a minha mãe: seu pai era médico e sua mãe tinha vindo de uma família aristocrática. Meu avô materno perdera uma fortuna jogando baralho. Ele realmente fora um viciado em jogo e por isso teve que sair de Pacú onde nasceu para ir pra Patópolis… Diz a lenda que, numa manhã, depois de passar a noite toda jogando buraco no clube, meu avô trouxe um colar grosso de ouro pra minha vó. Não que ele tivesse ganho uma bolada, aquilo era o equivalente a toda grana que ele perdera no dia. É, meu vô era um cara legal e os caras legais sempre chegam por último.

A família da minha mãe era uma típica família italiana: grande e barulhenta como todas as famílias italianas são. O natal era sempre muito divertido, tinha aquele arroz ruim com passas, mas a gente ganhava presentes e podia brincar com os primos. Eu sempre passava fome no natal porque odiava arroz com passas e aquelas coisas que eles colocam na comida de fim de ano Eu tinha um primo da minha idade que se chamava Fábio, e a gente sempre brincava junto. Eu, ele e o Marcelo. Um dia em Pacú, o Fábio também chegou me dando umas porradas sem eu saber porque. Eu não reagi porque não entendi porra nenhuma, não entendia porque na vida de repente te dão uma porrada na cara. O pai da minha mãe também chamava Fábio e era filho de italianos, ele vivia gritando palavrões e fazia macarrão nos domingos. Nós íamos comer na casa dele e eu achava meu vô muito engraçado. Ficava ouvindo suas histórias da Revolução Constitucionalista de 1932 e do dia em que ele viu Getúlio Vargas. Ele achava Getúlio um grande cara. Eu também achava Getúlio um grande cara e meu vô era um herói pra mim. Minha vó me lembrava morte. Ela queria me convencer que dEUS existia e vivia contando histórias de doenças e de pessoas tristes. Eu sempre me sentia doente quando escutava as conversas. Teve um dia, no quintal da casa dos meus avós, que ela perguntou porque eu e meu irmão não acreditávamos em dEUS, eu falei que ia decidir depois , mas o Marcelo disse:

-Eu odeio dEUS, porque ele é bicha!.

Se dEUS era veado ou não, nunca descobri, mas acho que minha avó nunca mais encheu o saco com essa história.

Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais“ . Ele foi pioneira na criação de newsgames (jogos jornalísticos no Brasil) e toca na Banda de Bolso.

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