Ainda que eu falasse a língua dos livros

O amor pelos livros eu herdei dos meus pais,
Essa era a única riqueza que eles estocavam em casa
Enquanto colecionavam pequenas dívidas e davam aulas
Em escolas públicas da periferia de Penápolis.

Ler era a língua deles
E eu precisava ler, se quisesse tocá-los
Especialmente meu pai
Que não falava a língua dos homens
Apenas a língua datilografada das páginas pintadas de pigmento preto.

Então, eu ambicionei mais
Eu quis ser parte daquele clube que chegava em casa, impresso a quilômetros de distância em gráficas de São Paulo e do Rio de Janeiro
Eu quis escrever meu nome na pedra que o tempo come
Mas come mais lento e com mais amor que os demais
O tempo tem carinho pelos escritores
Porque eles dedicam sua vida a recordar
E gravar pequenos acontecimentos extraordinárias em cápsulas invioláveis que chamam de livros
E eu chamo de vida.

Escrever era minha única opção
Para sobreviver
Para não enlouquecer
Para continuar.

Antes de ter dinheiro para pagar terapia
Eu escrevia
Por todos 18 anos de virgindade casta
Eu escrevia
Por todos aqueles anos sem dinheiro no bolso
Sim, eu escrevia
E ainda escrevo
Ainda que as palavras
Arredias
Insistam em soar vazias.

Carta aos pais (Ou o que o filme “A Dama de ferro” e pais idealistas podem ensinar pra você.)

Punk Brega interrompe suas atividades paranormais para fazer uma pequena análise de “A Dama de Ferro” com pegada de autoajuda.

Ah, o maravilhoso mundo dos clichês! Nem sempre ser clichê é um problema. Na real, alguns clichês merecem ser repetidos sempre porque é necessário que eles fiquem guardadinhos lá na memória da gente. Destaco um dos que me parece fazer mais sentido: “a principal herança que os pais podem deixar pros filhos é a educação.”

Meryl Streep na pele de Margaret Thatcher

(Calma! Não desista de ler, o momento autoajuda já acabou)

Acabei de assistir ao filme “A Dama de Ferro”, sobre os feitos (e a velhice gagá) da ex-primeira-ministra da Grã-Bretanha Margaret Thatcher. Não vou gastar linhas desse blog com a brilhante atuação (ganhadora do Oscar) de Meryl Streep no filme. O ponto que me tocou, em particular, foi a relação de Thatcher com o pai, um pequeno comerciante e político conservador inglês que a incentivou a:

1)Estudar
2) Não seguir o lugar-comum
3) Fazer a diferença no mundo.

Confesso, o tiozinho idealista me lembrou meus pais. E, que fique claro, meus velhos estão longe de serem pequenos comerciantes conservadores. Os dois são professores de esquerda, daqueles que escolherem trabalhar com educação pública pra fazer do mundo um lugar melhor. E, provavelmente, devem achar Thatcher a encarnação do demônio (E aí, pais, vocês acham isso mesmo?). Mas são mais parecidos com o pai da “dama de ferro” do que podem imaginar. Como o velho comerciante inglês do filme, meus pais não me deixaram rios de dinheiro de herança e nem me bombardearam com milhares de cursos extra-curriculares na adolescência, mas me deram duas ferramentas essenciais: amor por aprender e pensamento criativo. Acredito – pela minha pequena experiência no mercado de trabalho, na faculdade e na escola – que tudo que você aprende em cursos (línguas, informática, meditação e datilografia) entra na categoria de ferramentas para executar boas ideias. Se você tiver amor por aprender vai conseguir absorver o conhecimento necessário para sua atividade e, mais importante, vai se adaptar quando esses conhecimentos não forem mais essenciais e novos paradigmas aparecerem. O mais difícil, e o principal diferencial, é ter as tais boas ideias e saber planejar sua execução. Essa é a característica mais rara de encontrar quando quero achar alguém pra trabalhar na minha equipe. Gente que pensa “fora da caixinha”, que tem raciocínio lógico e que quer fazer o mundo rodar do melhor jeito possível.

Meus pais em algum momento do começo dos anos 80

Se eu consegui passar perto disso em alguns momentos da vida, devo muito ao que aqueles dois professores dos cafundós de Penápolis me deram do melhor jeito que sabem fazer as coisas: ensinando.

E pra acabar nosso post de autojuda, vamos com o filósofo e best-seller Chico Science: “se você tiver numa bifurcação e precisar escolher um dos caminhos, escolha o menos percorrido”.

 

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