Ouça o disco novo “mundo livre s/a vs Nação Zumbi”

Capa do disco "Mundo Livre s/a vs Nação Zumbi"

Quando a Deck Disk lançou o álbum “Raimundos vs Ultraje a Rigor” (com uma banda fazendo covers de sucessos da outra), eu confesso que achei um lance meio caça-níqueis. Talvez porque o Ultraje já tenha regravado diversas músicas em álbuns ao vivo, acústicos e de covers. Ou talvez tenha sido só preconceito mesmo. Acontece que agora a Deck está lançando esse lindo e sensacional “Mundo livre s.a. vs Nação Zumbi” com as duas bandas fundadoras do movimento mangue beat gravando covers uma da outra. Vai ouvindo enquanto eu falo:

Bom, o lado do Mundo Livre s/a abre a bolachinha e é uma das coisas mais energéticas e “jovens” que eles gravaram em anos. E olha que eu acho o último disco de inéditas deles (“Novas Lendas da Etnia Toshi Babaa”) bem bom. Mesmo sendo um disco de regravações (de muitas das melhores canções da da fase Chico Science e algumas da Nação Zumbi), eles não seguiram o caminho fácil do cover e investiram em ótimas versões com arranjos criativos e psicodélicos – ora muito pops, ora porradas punks como as que gravaram em seu segundo disco “Guentando a Ôia”. É engraçado que influências do começo de carreira deles como Clash e Titãs parecem ressurgir quando Fred 04 e cia regravam músicas de seus velhos chapas de Recife. O lado da Nação Zumbi também é bom, com destaque para primeira música (“Livre Iniciativa”) que ficou mais “hit” que a original e traz coloridos novos para a tradicional fórmula da Nação. O mal desse lado da bolacha é um mal antigo: o vocal do Jorge du Peixe continua lá monocromática e um pouco cansativo. Pra quem é fã, maravilha. Já quem acha o estilo do cantor repetitivo vai enjoar rápido. Destaque também para  a safada”Bolo de Ameixa” que abre com um riffão de guitarra pesada.

O clima todo do disco – apesar da ótima e intrincada produção – é de uma grande celebração entre amigos. Uma celebração pelos mais de 20 anos de mangue beat e de amizade entre as bandas. E funciona pro movimento pernambucano como os discos “O Barulho dos Inocentes” e “Feijoada Acidente?” (do Ratos de Porão) funcionaram para o punk nacional. Compra aí que vale a pena!

Camisa de Vênus”, 1983 – Camisa de Vênus

camisa-de-venus

Os cinco malucos da capa são mal encarados e carregam polêmica encharcada até os ossos. A banda começou num terreno improvável: a Salvador de 1982. Nas rádios tocava Gilberto Gil, Pepeu Gomes e Axé. A Bahia era a terra de Antônio Carlos Magalhães, do carnaval e do acarajé. Mas os 5 da capa gostam de rock ‘n’ roll e punk rock, falam palavrões e se declaram “a única banda heterossexual do mundo”. Espete sua agulha ou dê play na MP3. Vamos dissecar mais um crássico do nosso (punk) rock brazuca.

Polêmica 1
Depois de fazer sucesso com seu primeiro compacto(“Controle Total”, versão de “Complete Control”, do Clash), a banda formada pelo radialista e rocker Marcelo Nova, Robério Santana (Baixo), Karl Franz Hummel (guitarra base), Gustavo Mullen (Guitarra solo) e Aldo Machado (Bateria) já lotava casas em Salvador e recebeu proposta de contrato para gravar um disco, que inicialmente deveria sair pela pequena Fermata. De olho no potencial que aqueles roqueiros poderiam atingir no auge do Brock dos anos 80, a Som Livre se dispôs a lançar a bolacha que levava o nome da banda em 1983. Aí que rolou a primeira confusão. Com a promessa de ganhar divulgação na Globo e demais televisões os engravatados da Som Livre propuseram a Marceleza e Cia que o Camisinha mudasse para um nome “mais família”. Putos da vida, os caras propuseram chamar-se “Capa de Pica” e foram demitidos. Passaram meses ralando em São Paulo à base de sanuíches até que a RGE oferecesse um contrato para os caras e eles estourassem no Brasil inteiro com o hit “Eu não matei Joana a Darc”. Rádios conquistas, a gravadora relançaria “Camisa de Vênus” com o selinho “incluindo Bete Morreu”.

Polêmica ao quadrado
Mas pera aí, o Camisa de Vênus era punk? Bom, Marcelo nova odiava o rótulo de “punk baiano”, que colou na banda no começo de carreira. A real é que os caras do Camisa eram rockers que, de saco cheio da cena da época, se empolgaram com o retorno às raízes que os punks 77 propunham. Aliás, “Camisa de Vênus” é provavelmente o único disco de punk 77 feito no Brasil, já que a maioria dos punks paulistanos curtia mesmo era hardcore inglês e finlandês. No álbum, além das letras críticas/sacanas, do visual da banda – com cabelos espetados, roupas pretas e jaqueta – e dos instrumentos toscaços usados nas gravações, é marcante a presença de quatro versões de clássicos do punk britânico.

Mas e o som? Bom, vale lembrar que esse disco foi lançado antes de “Crucificados Pelo Sistema” do RDP, considerado o primeiro disco de uma banda punk/hc da América Latina. Em suas páginas, a revista Showbizz relembrou: “São Paulo já sabia. Mas o resto do Brasil só foi aprender a pogar mesmo com “Meu Primo Zé”, “Bete Morreu” e outras obras-primas do disco de estréia do grupo de Marcelo Nova.(…) Certo, com chupações creditadas e não-creditadas de Jam, Buzzcocks & Cia., mas bem aclimatado à baianidade irrevogável dos instrumentos (de péssima qualidade), dos instrumentistas e, principalmente, do sotaque de Marcelo.” O disco abre com “Passamos por isso”, que esculacha MPB e satiriza “Brasileirinho”(que o “inimigo da banda”, Pepeu Gomes tinha imortalizada em versão guitarreira). A vocal de Nova é quase declamado, suas letras são ácidas, o som da banda é abafado. “Metástase” tem a ótima letra chupada de “Where Next Columbus” do Crass. “Bete Morreu” é o primeiro hit do disco. Um catarro sádico, narrando o espancamento, estupro e morte de “Bete” a rainha da escola, patricinha perfeita. “Negue” adianta o punk brega de Wander Wildner em mais de 10 anos, trazendo uma versão raivosa para a clássica dor de corno da MPB. “O Adventista” transforma “I Believe” do Buzzcocks em hit, citando Xuxa e Pelé e Flávio Cavalcanti na letra. “Pronto para o suicídio” é a porrada mais punk do álbum, que acaba com outro hit roqueiro, “Meu Primo Zé”. Fazendo discursos em seus shows performáticos, Marcelo Nova colecionava inimigos na crítica e cena da época, detonando tudo na MPB com exceção de Raul Seixas(um de seus grandes ídolos) e os artistas marginais(como Walter Franco e Jards Macalé, que o Camisa regravaria).


“Bete Morreu” com áudio ruim e participação de Clemente, dos Inocentes

Polêmica – a vingança final 
Mas o Camisa de Vênus fazia plágios de bandas gringas? Apesar, de afirmarem que tinham um som original e não copiavam ninguém lá fora, os baianos realmente eram craques em fazer versões de músicas undegrounds estrangeiras. Tudo bem, Roberto e Erasmo Carlos também começaram assim, não é? No primeiro disco estão creditadas as “inspirações” em “That’s Entertainment” (The Jam) e “I Believe” (Buzzcocks). Mas os caras esqueceram de dar crédito em “Metástase” (“Where Next Columbus”, The Crass) e “Meu primo Zé” (“My Perfect Cousin”, Undertones). Em defesa de Marceleza, tem-se que afirmar que suas versões sempre incluíam atualizações para a realidade nacional, com exemplos do cotidiano brasileiro, e que suas letras “não chupadas” também não perdiam o fio da navalha. E pra acabar com a discussão, um trechinho de entrevista dos caras para Bizz, em janeiro de 1987:

BIZZ- E essa coisa de roubar refrões?
Marcelo – A gente sempre usa isso. Em cada disco tem uma música que a gente faz isso.
BIZZ – É uma brincadeira?
Marcelo – É uma brincadeira.
Gustavo – Que também pode ser levada a sério.
Marcelo – Não, é uma brincadeira, eu não estou plagiando, só estou tirando um sarrinho, posso?

Ouça o disco completo aqui:

Se você gostou desse disco, ouça também “Viva”, do Camisa de Vênus
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