Uma breve história do ódio (e da violência) no Brasil

Achamos que somos um bando de gente pacífica cercados por pessoas violentas”. A frase que bem define o brasileiro e o ódio no qual estamos imersos é do historiador Leandro Karnal. A ideia de que nós, nossas famílias ou nossa cidade são um poço de civilidade em meio a um país bárbaro é comum no Brasil. O “mito do homem cordial”, costumeiramente mal interpretado, acabou virando o mito do “cidadão de bem amável e simpático”. Pena que isso seja uma mentira. “O homem cordial não pressupõe bondade, mas somente o predomínio dos comportamentos de aparência afetiva”, explica o sociólogo Antônio Cândido. O brasileiro se obriga a ser simpático com os colegas de trabalho, a receber bem a visita indesejada e a oferecer o pedaço do chocolate para o estranho no ônibus. Depois fala mal de todos pelas costas, muito educadamente.”

Trabalhadores tomam geral em foto "Todos Negros" de Luiz Morier

Trabalhadores tomam geral em foto “Todos Negros” de Luiz Morier

Quando comecei a tocar o projeto Glück com a Karin Hueck, minha ideia era investigar a felicidade, esse conceito que só é levado a sério no Brasil pelos publicitários. A maior parte dos nossos textos trata sobre autoconhecimento, saúde e relações pessoais, mas é impossível ignorar o ódio, quando se fala de felicidade no Brasil. Em meio a morte de cinegrafista nas manifestações, justiceiros no Rio de Janeiro, e comentários agressivos em todos os portais de notícias, fica difícil só falar de felicidade. Por isso fiz essa breve “História do ódio no Brasil”. Acho pertinente divulgá-la aqui no Punk Brega também. Espero que vocês curtam:
http://www.gluckproject.com.br/a-historia-do-odio-no-brasil/

Jair Bolsonaro queima o filme do Brasil pregando ódio e homofobia em documentário inglês

Jair Bolsonaro...

Jair Bolsonaro…

O famoso comediante e ator  inglês Stephen Fry (que atuou em “V de Vingança” e deu nome ao primeiro disco do cantor Zeca Baleiro) realizou o documentário “Out there” para a BBC, onde investiga o aumento do ódio e  dos crimes contra os homossexuais no mundo e aponto o Brasil (ao lado de Uganda e Rússia) como um dos países onde esse ódio mais aumenta.

No Brasil, Fry entrevista a mãe do menino Alexandre Ivo, morto brutalmente aos 14 anos por ser gay, e o deputado Jair Bolsonaro que afirma que os “brasileiros não gostam de homossexuais” e que vai organizar uma marcha hetero e “não convidará o ator”.

Assistam Jair Bolsonaro envergonhando o Brasil com sua falta de educação e excesso de preconceito:

O garoto Alexandre Ivo morto aos 14 anos por ser gay

O garoto Alexandre Ivo morto aos 14 anos por ser gay

“Ódio” de Peter Bagge é o quadrinho que retratou a geração grunge

(Resenha originalmente publicada nos sites Zine Kaos e The Watchtower, 2003.)

Fede a Espírito Adolescente!!!
Quadrinhos grunges dão voz a geração perdida dos anos 90
Capa do coletânea "Ódio" publicada pela Via Lettera

Capa do coletânea “Ódio” publicada pela Via Lettera

por Fred Di Giacomo, eu mesmo

Literatura pop e listas dos 5 mais, sebos e vinis, garotas e álcool, estilo de vida rock n’ roll vivido por “adolescentes” de 32 anos e ódio. Os quadrinhos de Peter Bagge foram o maior sucesso da editora Fantagraphics e caíram nas graças de uma geração de losers fãs de rock independente, que viviam à base de subemprego e cerveja barata. Seu ícone seria o anti-herói Buddy Bradley rodeado por seus amigos freakies Funtum, George, Valerie (a namorada ninfomaníaca) e sua ex, Lisa . Buddy e o Ódio tiveram um significado semelhante para a geração de Seattle ao da revista Chiclete com Banana e do personagem Bob Cuspe, do quadrinista Angeli, para o punk tupiniquim.

Tudo cheira a vida real nas páginas de Ódio, seus traços exagerados, acentuando as expressões dos personagens, são influência do pai dos quadrinhos underground americano, Crumb, e sua narrativa ácida, mesclando escatologia com sacadas inteligentes, retrata fielmente o cotidiano dos jovens que como eu e você viveram os anos 90. As festas, os diálogos, as crises de relacionamento tudo leva a crer que o nanquim da caneta foi substituído por sangue humano, o cheiro de “pisicotrópicos”, fumaça de cigarro e cerveja é o mesmo das festas de repúblicas universitárias. As ambições de Bradley e seu amigo Funtum não são lá grande coisa. Bradley trabalha num sebo e Funtum vive de “bicos” , os dois sonham em ter um fanzine, mas mal conseguem decidir se irão escrever sobre rock ou sobre quadrinhos. Todo jovem envolvido com a “cultura alternativa” vai encontrar algum traço de sua vida na ponta da caneta de Peter Bagge.

Peter Bagge

A crítica se torna mais séria quando entram em cena os irmãos de Buddy: Butch e Babs (ele um jovem fascista americano e ela uma mãe solteira, convertida em fundamentalista cristã), e ai Bagge destila todo seu sarcasmo e ódio contra a sociedade americana. Desse sarcasmo não escapam ninguém, nem os pseudo-intelectuais como George, colega de Bradley, “um negro que não curte rap”, nem os integrantes da cena alternativa, nem mesmo o próprio autor, alter-ego de Buddy Braldley, retratado na última história do álbum , uma viagem surreal onde ele reflete sobre os caminhos de sua obra rumo a um apelo mais comercial e pop. Peter diz que não participou ativamente da cena grunge por já ter mais de 30 anos na época e “não gostar do cheiro de cigarro nos clubes de rock”, mas foi amigo de alguns dos principais participantes, tendo desenhado uma capa para a banda TAD. Antes de morar na Seattle do grunge, Bagge morou na Nova York do início dos anos 80 época do Punk e da New Wave.

Ódio foi publicado aqui pela Via Lettera, editora do veterano tradutor Jotapê Martins, em 2001 num álbum com 6 histórias longas e mais três curtas. Nos Estados Unidos, após uma crise semelhante a do já citado Angeli com a personagem Rê Bordosa, o autor resolveu “matar” a revista Hate (criada em 1990), transformando-a numa publicação anual, para não limitar sua arte a esses personagens e procurar novos rumos. Por trás de todo oba-oba em cima de seu parentesco com o grunge, de baixo da camiseta de flanela por fora da calça, o all star e o cabelo desgrenhado de Peter Bagge, Ódio tem como principal qualidade o fato de ser um retrato fiel e sem firulas de seu tempo. Uma fotografia do principal personagem da tragédia humana : o homem comum.

Fred Di Giacomo, 07/11/03
Leia também:

 

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