“Não existe racismo no Brasil”

_Não existe racismo no Brasil.
_Em que Brasil?
_No nosso Brasil, pô! Aqui nunca foi que nem nos Estados Unidos, que nem na Alemanha, essas porras todas, saca? Não foi um troço oficial.
_Sei lá, sempre convivi com racismo
_Mas você é branco, cara.
_Por isso mesmo. Sempre convivi com racistas, ué.
_Ih, lá vem papinho de comunista barbudo, ha, ha, ha.
_Lembra quando meu irmão ficou com uma menina negra na festa de RP, na faculdade?
_Não lembro não… Ficou, é? Seu irmão também é bem safadão, né?
_Eu lembro bem. Vocês disseram que ela parecia o Kanu.
_Kanu?!
_Aquele jogador da Nigéria…
_Falamos?!
_Sim, pô, não lembra?
_Ha, ha, ha, nóis é foda… Devia ser baranga também, né? Ah, fala sério, isso já é politicamente correto demais. Não pode falar quando uma mulher é feia? Se fosse branca a gente zoava também.
_Mas não foi só com essa. Quase todas mulheres negras da nossa faculdade tinha apelidos secretos lembra?
_Lembro não…
_Eu lembro bem. Um mais escroto que o outro: Predador, Macunaíma, Aquático…
_Pô, não é bem assim. Olha só, vou confessar uma coisa… Cê já comeu uma neguinha? Eu já. E gostei, viu, velho? Elas pegam fogo lá embaixo…
_ Olha aí, bem o que eu disse.
_Pô, mas tô falando que gostei da negra, porra!
_Cê tá começando com aquele papo de “eu não sou racista, até peguei uma negra…”
_Porra, cara, papinho chato. Daqui a pouco você vai defender cota.
_Sei lá, cara, eu acho que tem que existir cota pra compensar uma política oficial que permitiu que negros fossem escravos por 300 anos no Brasil. Eles não vieram pra cá por opção. E até hoje a vida dos caras é mais difícil. Posso dar um exemplo que vivi?
_Manda.
_Trabalhei como jornalista dez anos, né?
_Claro, puta orgulho, passou pelas maiores revistas do Brasil. Vários prêmios e tal.
_Pois é… E não podia ter negro na capa das revistas.
_Como assim?
_Falavam que não vendia, que o público não se identificava com o negro.
_Ah, duvido, isso é teoria da conspiração, vai.
_Aconteceu comigo, cara, tô falando. Comigo e com meus colegas.
_Pô, mas não é racismo, veja bem, você mesmo disse que o negro na capa não vende revista… O dono vai fazer o quê? Caridade?
_Porra, mas isso é segregação. Só uma raça tem direito de ser enxergada? Desse jeito você cria uma imagem de que só o branco é bonito, só ele é bem sucedido. Jornalismo não é só mais um negócio, como vender tomate ou parafuso. Jornalismo é um serviço que a gente presta pro público, cara. Temos que informar, mostrar a realidade. Selecionando quem pode ou não aparecer em capa de revista, você cria uma realidade paralela, um imagem de que o negro não existe fora das notícias policiais, saca?  E se você não colocar o negro na capa, como vai saber se a revista com ele vende ou não?
_Pode ser, sei lá, eu não manjo dessas coisas cabeça.
_Cara, e não é só uma questão de capa de revista. Fui produzir um ensaio com várias modelos praa um site. Ensaio sensual, saca?
_Ha, ha, ha, cê é safadão, igualzinho seu irmão, né?
_Pô, hoje em dia eu tenho vergonha desse trampo, meio machista…
_Ih…Tô falando que você tá comunista demais? Essa sua namorada feminista tá colocando muita merda na sua cabeça. A gente precisa pegar um puteirinho pra você renovar os ares.
_Porra, se concentra na minha história!
_Manda.
_O fotógrafo selecionou as seis modelos mais gatas da agência. Aí, ele me ligou e perguntou “Tem uma das meninas que é “morena”. Tem problema?” E eu falei “Como assim?” E ele: “Não me leve a mal, eu não sou racista, mas é que tive muito problema aí com modelo negra, sabe? O pessoal não gosta.”
_Por que não vende? Mas não é pra capa de revista…
_Ah, cara, tinha mil desculpas: achavam que era feio, que tinha cara de pobre, que não era sofisticado…
_E você?
_Mandei fotografar, claro. Não conseguiria ficar no trabalho se tivesse cortado alguém só por causa da cor. Aconteceu uma coisa parecida com uma amiga que trabalhava na maior revista do Brasil.
_Pô, é a única revista que eu leio. Essa eu assino e sou fã.
_Então, uma vez essa amiga estava precisando entrevistar e fotograr “populares” pra uma pauta, sabe?
_Sei, sei, pra mostrar o “brasilsão”, né?
_Isso, aí pediram pra ela  assim: “precisamos de um pedreiro pra matéria, mas não pega um preto, tá? Pega um mais clarinho”. Cê acredita nessa instrução? Nem o pedreiro da revista podia ser negro.
_Ah, mas isso deve ser exceção. Dois casos isolados.
_Pô, teve outra amiga minha que fez uma matéria de beleza na mesma revista.
_ E aí? Ela colocou foto de uma negra e ficaram putos?
_Ficaram putos e mandaram ela tirar. Disseram que o público não se identificava.
_Porra, cara, do jeito que você tá falando parece que é mais difícil um negro sair na capa de uma revista do que entrar numa universidade no Brasil.
_ Se bem que nossa faculdade era pública, mas tinha no máximo o quê? Dois negros pra cada 40 alunos?
_Mas era faculdade em São Paulo, né? É um estado mais branco. É uma questão de porcentagem.
_30% da população é negra em São Paulo. 30%, cara.  2 alunos por sala dá só 5%…. É a mesma coisa do meu bairro, lembra?
_Nossa, cara, eu lembro, sim.  Sua casa era da hora, mas o bairro era mó biqueira, dava medo de te visitar lá, ha, ha, ha.
_Então, eu era o único branco da área. E fui o único que fiz faculdade.
_Tá bom, tá bom, eu sei que você gosta de preto. Tua ex tinha até um pézinho na cozinha, né? Ka, Ka. Ka.
_A mãe dela era negra e o pai era branco. Ela nasceu mais clara e o irmão nasceu mais escuro. Por isso o irmão sofria preconceito no condomínio onde eles passavam o verão.
_Jura? Mesmo sendo da mesma família?
_Pois é, um dia eu e ela entramos no elevador do prédio, lá na Fradique Coutinho. Uma senhorinha simpática entrou junto, com os poodles na coleira e falou assim pra gente: “que casal jovem e sorridente. É bom ver gente bonita assim no prédio! Ali no 32 mora uma baianada que só por Deus, sabe? Tudo preto. E ainda acho que são bicha. Preto e bicha? Não dá sabe? Esse povo do norte não tem educação”.
_Pior que teu vô é baiano, né?
_E a família dela era negra.
_Ah, mano, sei lá. Não gosto de discutir coisa séria, manja? Tudo isso que você falou é verdade, mesmo? Por que você nunca falou disso antes? Por que você nunca postou no Face?
_Pô, cara eu bem queria que isso tudo fosse ficção, mas pensa bem, vou postar uma coisa dessas no Facebook? Depois nunca mais arrumo emprego nenhum, né?

-Mais contos

Chester Himes: o pai dos detetives negros mais invocados da literatura

“Não ri pra mim. Eu não sou dentista. Dentista arruma dentes. Eu arrebento dentes”. Grave Digger Jones, personagem criado por Chester Himes

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Poucas vezes eu compro um livro sem ter uma referência. Sem que alguém tenha me indicado, que eu tenha lido uma boa reportagem sobre o autor ou visto um filme legal inspirado nele. Comprei “O Harlem é escuro” do Chester Himes (1909-1984), edição de bolso da L&PM, completamente às cegas. Gostei do título, da capa e da orelha e arrisquei. Isso foi no ano passado. Achei do caralho. Os personagens principais, os detetives Jones Coveiro e Ed Caixão(os nomes em inglês são muito mais legais), são dois policiais negros durões do Harlem que investigam crimes comuns nos Estados Unidos racista dos anos 50 e 60. As histórias fluem no ritmo do Jazz, dos conflitos raciais e do uísque barato. Acabei de ler agora “Um jeito tranqüilo de matar”. Tão bom quanto o anterior. O final é até melhor e tem a gangue com o melhor nome da história “Os Mulçumanos Supermaneiros”.

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Uma história de detetives não mexia tanto comigo desde o clássico “O Falcão Maltês”, de Dashiell Hammet  (um de meus livros favoritos). Algum dia ainda faço uma análise mais demorado dos livros do Himes. Por enquanto, só gostaria de lembrar um pouco da história do escritor: Himes nasceu numa família de classe média negra na época em que os Estados Unidos ainda era separado por leis racistas. Sua vida se desestruturou quando seu irmão sofreu um acidente (que o deixou cego) e os médicos de um hospital de brancos se recusaram a tratá-lo. Depois disso Himes foi expulso da faculdade e preso por assalto. Na cadeia, passou a escrever contos que foram publicados em grandes revistas americanas. Nos anos 50, Himes mudou para França com sua esposa.

É, amigos, esqueçam o Shaft, os agentes mais legais do pedaço são Coffin Ed e Grave Digger Jones. E tenho dito.

PS: Ah, vale lembrar que algumas das histórias de Himes viraram filme, inclusive o “Perigosamente Harlem” com Danny Glover

Cartaz do filme "Perigosamente Harlem"

Cartaz do filme “Perigosamente Harlem”

Veja também:
– “Afro-Punk”: documenta a participação de músicos negros no punk rock

-Conto: Vontade de matar ao som de Count Basie

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