Entrevista: Garotos Podres

Esses dias assisti o documentário “Botinada” do Gastão Moreira e fiquei empolgadaço e saudosista com o velho punk rock. Em homenagem, resgatei está entrevista com os Garotos Podres, originalmente publicada no Zine Kaos, feita por mim via e-mail em algum lugar entre 2002 e 2003.

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A banda punk Garotos Podres

Os Garotos Podres são umas das bandas mais injustiçadas do Rock Brasileiro, perseguidos pela censura no regime militar e por acusações infundadas de nazismo vindas das classes mais xiitas do punk, a banda segue firme desde o início dos anos 80 quando surgiu no ABC paulistas, se destacando como uma das mais importantes bandas do punk rock nacional e compondo clássicos como “Papai-Noel, Velho batuta” e “Anarquia Oi”. Vai abaixo entrevista com o vocalista dessa lenda do underground nacional, Mau.

por Fred Di Giacomo

1. Bom pessoal , vocês estão preparando seu quinto álbum, né? Como anda o processo de produção e qual a diferença em relação aos primeiros discos?
É isso aí! … estamos preparando o nosso 5º álbum, o “Garotozil de Podrezepan 100 mg”, que deve sair em agosto ou setembro de 2003! Atualmente toda a produção está pronta só falta “mandar prensar” (vai sair independente … nós mesmos vamos lançá-lo!)
Acredito que em relação aos outros álbuns, este é melhor gravado (caprichamos na produção), e regata muito do “humor-crítico” do nosso primeiro álbum (o “Mais Podres do que Nunca”)

2. Também foi lançado pela Rotten Record o tributo ao Garotos Podres, o que vocês acharam do resultado? Qual é o cover favorito de vocês?
Gostamos muito do “Tributo”! … a maioria das “versões” ficaram melhores do que as “originais” ! A versão de “Meu Bem”, dos Kães Vadius, ficou do caralho!!!
3. Os Garotos Podres têm sofrido perseguição de alguns seguimentos do movimento punk que os acusam de serem nazistas, principalmente por causa da música Füher e da estética oi. Essa perseguição já encheu o saco? O que vocês tem a dizer sobre o assunto?
Putaqueopariu! … Isto já encheu o saco!! … Estes caras que ficam “falando besteiras”, simplesmente não sabem de porra nenhuma e tem o “dedo maior que o cérebro”!!! … Não sabem que o movimento “Oi!” nada tem a ver com “nazismo”, e não sabem que a música “Füher”, foi escrita na época dos massacres dos campos de refugiados palestinos de “Sabra” e “Chatila” (no sul do Líbano) por tropas israelenses (comandadas por “Ariel Sharon”). Não entendem que a intenção da música é colocar “no mesmo saco” os “nazistas” e a “extrema direita israelense” que defende a matança indiscriminada e a deportação em massa de palestinos! …
A coisa é tão ridícula que em nosso último show em Recife, tinha uns caras nos questionando, perguntando coisas do tipo: “Vocês são nazis?” … “Não gostam de nordestinos?”. Acontece que a mãe do Sukata é pernambucana de Caruarú! …
Qualquer dia desses, ainda vamos “perder a paciência” e pegar um desses “burros” pela orelha e dar umas boas “botinadas” na bunda! …
4. Citem 5 discos para o garoto que está interessado em conhecer o estilo de som de vocês.(ska/punk/oi…)
Acho que tem algumas “coletâneas” (compilações) que são clássicas. A primeira delas é a “Strength thro Oi!”, que marcou o surgimento da “Oi! music” na Inglaterra.
Em relação ao “Ska”, a coletânea “Carry on Ska”, é fundamental. Para se conhecer um pouco do “Skinhead Reggae”, uma coletânea fantástica é a “Skinhead Jamboree”.
Além dessa três coletâneas, indicaria mais duas, fundamentais para se conhecer um pouco mais do “punk/oi” (ou “street punk”): a “Kaos in France” e a “Kaos in Europe”.
5. Os Garotos Podres se orgulham de fazer o mesmo som do início da carreira, o que vocês tem ouvido ultimamente? Alguma coisa nova ou os velhos clássicos do começo?
Ultimamente temos ouvido o mesmo que ouvíamos há vinte anos atrás! … Acho que “paramos um pouco no tempo” … Continuamos a ouvir ainda os “clássicos” do Punk Rock do final dos anos 70, a “Oi! music” do início dos anos 80, o “Ska Two Tone” do final dos 70 e início dos 80 e, o “Reggae” do final dos anos 60!!!!!! … Estas são as nossas influências!!!

6. A banda tem discos lançados e excursionou por alguns países da Europa. Qual é a recepção do seu trabalho lá fora?

Temos CDs, LPs e Eps lançados em Portugal, Alemanha, França, Canadá e EUA. Fizemos uma “mini-tour” pela Europa em 95. Somos mais conhecidos fora do Brasil do que aqui. Quando tocamos na Europa, ficamos impressionados com a receptividade, principalmente em Portugal e Alemanha. Tocamos em todos os dias da semana (inclusive nas “segundas-feiras”). Em Berlim conhecemos uma moçada da Polônia que tinha vindo à Alemanha, só para ver o nosso show! … Foi realmente uma experiência inesquecível!!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

7. Qual a sua opinião sobre as bandas de hardcore melódico que formam uma grande parte do “novo punk nacional” como Cpm22, Dead Fish e Dance of Days?
Eu (Mau), particularmente não gosto dessa onda “americanizada” do assim chamado “Hardcore Melódico”. Embora seja bem tocado e gravado, parece que não tem “alma”! … Prefiro mesmo os “clássicos” do Punk Rock dos anos 70 e 80!!

8. No disco Canções de Ninar, há uma música, “Saddam Hussein is Rock n’ Roll” que se tornou atual com a invasão dos EUA no Iraque(tem até o George Bush no meio, só que na época era o Bush pai). Qual a opinião de vocês sobre a nova Guerra do Iraque e o imperialismo americano?
Bem ou mal, até os anos 80 havia um certo “equilíbrio estratégico” entre as grandes “potências”. Após a dissolução da URSS e o fim da guerra fria, os EUA passaram a ter uma postura cada vez mais agressiva em relação ao resto do mundo, pois não há mais uma outra “superpotência nuclear” capaz de enfrentar o poderio norte-americano.
É dentro deste contexto que podemos analisar a atual intervenção imperialista dos EUA no Iraque. O que mais assusta é que os EUA deixaram bem claro que não pretendem parar por aí! … Antes mesmo de invadir o Iraque, ficaram com aquela história de “eixo do mal”, e ameaçaram claramente o Irã, a Coréia do Norte, Cuba, etc. Seguramente os EUA de hoje são a maior ameaça a paz mundial. As atitudes de George W. Bush lembram um pouco a postura de Adolf Hitler antes da Segunda Guerra Mundial. Antes de invadir a Polônia (acontecimento que deu início à guerra), Hitler invadiu a Checoslováquia, anexou a Áustria etc. Sinceramente espero que o povo norte-americano consiga se livrar da “extrema direita” que se apossou do poder dos EUA, pois Bush é hoje, uma ameaça muito maior do que Hitler foi no passado …. basta lembrar que ao contrário de Bush, Hitler não tinha “armas nucleares capazes de destruir várias vezes o mundo”.
9. Mudando o assunto pra política, vocês vem da região do ABC e a postura de vocês os aproxima do movimento metalúrgico dos anos 80. O que vocês acham da eleição do Lula pra presidente e do seu início de governo?
Acho que a eleição de Lula à presidência foi indubitavelmente um avanço! … Pela primeira vez um trabalhador chega à presidência de um país tradicionalmente governado por representantes de oligarquias decadentes!
Em 1980 estávamos no “olho do furacão” … Estudava numa escola bem ao lado do Paço Municipal de S. Bernardo do Campo, e costumava “matar aulas” para ver as assembléias e manifestações. Foi nessa época que “experimentei” a minha primeira bomba de gás lacrimogêneo na cara! … A primeira apresentação dos Garotos Podres foi num festival beneficente ao “Fundo de Greve” do Sindicato dos Metalúrgicos de Sto André. Acho que vimos surgir e crescer a CUT e o PT, e que, a chegada do Lula à presidência, nada mais é que o coroamento dos esforços da classe operária em mais de 20 anos de luta.
Entretanto não devemos ter ilusões! … A chegada de Lula a presidência é apenas uma etapa!! … Embora o PT ocupe a presidência, o poder “de fato” ainda está nas mãos daqueles que sempre controlaram o país! … É portanto o momento dos trabalhadores se mobilizarem, e levar o “governo Lula” a assumir as posições históricas do PT e das esquerdas brasileiras … Somente a “luta de classes” pode fazer isso!

Garotos Podres tocam “Anarquia oi!” no programa “Viva Noite”, apresentado pelo Faustão.

10. Agora, as infames rapidinhas,o que vocês pensam a respeito de:
a) Hip-Hop?
…Não gosto da música, mas as letra são fantásticas! …Na verdade são poemas musicados!!
b) Virús 27? … Gostamos muito da banda! … Infelizmente faz muito tempo que não nos vemos!
c) Socialismo: “O Capitalismo é um sistema econômico decadente que aos poucos desaparece, assim como o sol que se põe por detrás das montanhas do Ocidente. E o Socialismo, radiante primavera dos povos, lança os seus primeiros raios de luz sobre a humanidade, afastando as trevas da noite, assim como o sol que se levanta por de trás das montanhas do Oriente”
d) Cuba? … Atualmente? … A mais avançada trincheira dos povos oprimidos do “terceiro mundo” contra o “imperialismo norte-americano”!
11. Vale a pena fazer rock no Brasil? Qualquer comentário ou mensagem pra molecada que queiram deixar, sintam-se a vontade…
Vale a pena fazer rock no Brasil? … Se for para ganhar dinheiro, tentar viver da música … Lógico que não (nenhum de nós dos Garotos Podres vivemos da banda, todos trabalhamos em alguma coisa!) … Acho que hoje, só faz rock’n’roll no Brasil, quem realmente gosta e sente prazer no que faz! … Quem quiser conhecer um pouco mais da banda, é só acessar a nossa hp: http://www.garotopodre.cjb.net/ Um abraço a todos!

Veja também:
-Leia resenha sobre o primeiro disco dos Garotos Podres, “Mais podres do que nunca”

 

-As melhores frases punk

“O Gabinete do Dr. Caligari”: Uma metáfora do totalitarismo (Assista o filme completo)

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A mente de um louco nas telas de cinema, a consciência sombria traduzida em imagens góticas que tanto simbolizam uma história de terror quanto representam uma crítica ao totalitarismo. “O Gabinete do Dr. Caligari” é um marco do cinema mundial infinitamente resenhado e comentado. Sua importância é indiscutível, foi o primeiro e mais importante filme do chamado expressionismo alemão que reinou entre 1918 e 1928. Antecedeu os clássicos “Nosferatu” de Murnau e “Metrópolis” de Fritz Lang, tornando-se o primeiro sucesso do cinema de horror. Segundo Fritz Lang, no livro “O Século do Cinema” de Glauber Rocha, não existia um movimento expressionista organizado no cinema austríaco/alemão, esse foi apenas um rótulo achado pela imprensa para catalogar aquele cinema primitivo de começo de século. Polêmicas a parte, não se pode negar as semelhanças estéticas entre as obras desses autores e a influência dessa escola de arte no filme de Wiene.

O roteiro é aparentemente simples: Francis, um homem internado em um hospício, fala a um outro, em flashback, de uma série de assassinatos cometidos em uma cidade do interior alemão (Holstewall) a partir da chegada de uma feira itinerante na qual se destaca o Dr. Caligari (Werner Kraus), uma espécie de pai do Zé do Caixão* com sua cartola e sobretudo negros, que controla Cesare, um sonâmbulo (Conrad Veidt) que dorme em um caixão e aparentemente prediz o futuro. Francis havia ido à feira com seu amigo Alan (Hans Heinrich), que tem sua morte prevista por Cesare ao visitar a “cabine” do velho doutor (daí a origem do nome do filme). Após o assassinato de Alan as suspeitas recaem sobre o Dr. Caligari e inicia-se uma luta contra o tempo para impedir novos assassinatos e provar a culpa do doutor, que revela-se alter-ego do chefe do hospício da cidade.

A astúcia do roteiro está no final, que muitos dizem ter sido criado sobre pressão dos produtores.(Se você ainda não viu o filme e não que saber o final, pule essa parte) Antes mesmo de obras como “Sexto Sentido” ou “Os Outros”, nas quais o fim muda completamente o sentido da história, Wiene transporta o narrador para o hospício, como um louco, sendo a primeira história um delírio e o Dr. Calegari, na verdade, um bondoso médico.

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Uma das marcas que garantiram imortalidade à película de Wiene é o retrato surrealista do universo narrado por Francis, representando os delírios de um doente mental. Os cenários, criados em pedaços de madeira e pano pelos pintores expressionistas Walter Reimann e Walter Rohrig e pelo cenógrafo Hermann Warm (que hoje fazem parte do acervo do Museu do Cinema Henri Langlois, em Paris) são contorcidos, escuros e criam um ambiente de opressão, tal qual as catedrais barrocas. O tempo é desterritorializado, não há menções à época em que se passa o filme, assim como ocorre na maioria das obras expressionistas. A maquiagem é pesada e tudo remete a um mundo confuso, assim como era a Alemanha da pós-guerra, marcada pelos traumas impostos pela derrota na Primeira Grande Guerra, as crises econômicas e a ascendência do nazismo ao poder. O nazismo, inclusive, selou o destino dos dois atores principais: Conrad Veidt fugiu da Alemanha para se tornar um astro nos Estados Unidos (interpretando o nazista em “Casablanca”) e Werner Krauss permaneceu na Alemanha para se tornar então o ator principal do filme de propaganda anti-semita “Jud Suss”.

O “Gabinete do Dr. Calegari” é um aviso, uma premonição do mal que viria varrer a Europa nas décadas de 30 e 40. Assim como “O Vampiro de Dusseldorf” de Lang, o filme de Wiene expõe os efeitos do autoritarismo, totalitarismo e da forma de influenciar as massas através do hipnotismo. É uma obra crua, de um tempo em que o cinema era mudo, preto e branco e começava a buscar sua linguagem própria. Uma vitória para o diretor que conseguiu transmitir com imagens fortes toda a angústia, medo e opressão vividos na entreguerras. Mal sabia Wiene que diante do horror de Hitler, seu Dr. Calegari poderia estar ao lado de Rapunzel nas histórias de carochinha.

Frederico Di Giacomo Rocha, com a alma em preto e branco
08 de Maio de 2004

Assista o filme completo aqui:

Leia também:

-Mais artigos sobre cinema

-Documentário AfroPunk retrata participação dos negros no movimento punk

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