O homem que colecionava dedicatórias

IMG_0598

Algumas pessoas colecionam selos, lágrimas, tampas de garrafa, sonhos, maços de cigarro ou discos. Já conheci até quem colecionasse embalagens de pasta de dente. Eu coleciono livros. Ou melhor, dedicatórias em livros. Sempre fui fascinado pelas frases que as pessoas escrevem quando dão um livro de presente. Deve ser porque não conheci meu pai direito… Explico: o velho morreu quando eu tinha três anos. Deixou-me, no entanto, um exemplar de a Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, com uma dedicatória que dizia: “Para meu filho, Pietro, um livro que marcou minha infância. Um dia você será um homem e então desbravaremos os 7 mares juntos. Com amor, seu pai”.

Um ataque cardíaco o matou pouco depois e, obviamente, nunca desbravamos os sete mares. Na verdade, nunca saí do Brasil, apesar de ter viajado bastante pelo país rodando sebos e lojas de artigos usados atrás de dedicatórias interessantes para minha coleção. Detalhe tragicômico: tampouco aprendi a nadar, o que me impediria de desbravar qualquer riacho, quanto mais os sete mares.

Criei um modo peculiar de catalogar meus livros: separo-os por temas de dedicatórias. Dedicatórias de amor estão nas primeiras prateleiras; depois, vêm as de amizade, as de parentes e as de autores famosos. Geralmente as pessoas não entendem o que um volume de Paulo Coelho tem a ver com um do Mia Couto ou outro do John Fante; muitos até ficam bravos e chocados com o fato de eu ter, em minha coleção, obras tão ruins quanto Carta entre amigos, do Gabriel Chalita, e O primeiro terço – talvez o pior livro da geração beat, escrito pelo anti-herói Neal Cassady. (Cassady, na verdade, foi mais bem-sucedido como “muso” de seus contemporâneos, inspirando obras de Bukowski, Allen Ginsberg e Jack Kerouack). Mas a mim pouco importa se são livros geniais ou medíocres – são as dedicatórias que me deixam apaixonado. Vejam só: em um livro considerado por todos literariamente nulo como Homens são de Marte e as mulheres são de Vênus, eu achei uma das dedicatórias mais interessantes que já vi:

“Querida Leitãozinho, comprei este livro para você com a esperança de que entenda como os homens são seres realmente desprezíveis e absolutamente diferentes de nós, mulheres. Espero que, lendo um livro bobo como este, você perceba que não há nada mais natural do que uma mulher se apaixonar por outra mulher. Não é pecado, mesmo que seus pais a façam pensar assim. Nosso amor é a coisa mais linda que existe; não há motivo para escondê-lo.
Beijos, meu leitãozinho rosa. Da sua pianista.”
15/03/2001.

Quem seriam essas mulheres? Teria a “Leitãozinho” (não riam, nenhum apelido romântico escapa do ridículo, vocês bem sabem) se convencido de que os homens são realmente os seres mais desprezíveis da face da Terra? Teria a “pianista” conseguido convencer a sua amante a desencanar dos mandamentos dos pais?

Essas dedicatórias sem nome deixavam-me ainda mais intrigado. Quando a dedicatória vinha com um nome completo, muitas vezes eu procurava pela pessoa numa busca pela internet ou na lista telefônica. Cheguei a ter uma coleção de mais de dez livros com dedicatórias de uma mesma família. E uma outra, quase tão grande, de um casal que vivera um romance entre os anos 60 e 80. Acompanhei pelos livros o namoro hippie construído com Eros e Civilização, do Marcusse. e A Erva do Diabo, de Castañeda. O casamento celebrado com uma bela edição de Macunaíma, de Mário de Andrade, em formato grande, capa dura e ilustrada. Separaram-se na época das eleições presidenciais de 1989; o marido aparentemente tinha “encaretado” e a mulher, fiel aos velhos ideais, se decepcionara com ele. O sujeito deu para a esposa um livro da fase parnasiana (e ruim) de Manuel Bandeira com uma dedicatória seca:“As mais belas poesias que um salário medíocre pode comprar. Beijo.”

E ela o presenteou com “El libro de los abrazos”, do Eduardo Galeano, precedido da dramática frase:
“Um livro para abraçar o menino que queria mudar o mundo e tentar despertá-lo dentro desse homem cinza que deixa a falta de dinheiro lhe tirar o sono e os sonhos. Abraços.”

Passei tanto tempo me debruçando sobre as dedicatórias que o óbvio aconteceu: me apaixonei por uma delas. Era, talvez, a coisa mais triste que já lera na vida. Uma dedicatória que uma garota escrevera para si mesma. Aquilo me pareceu a coisa mais solitária do mundo. Uma pessoa se autopresentear, num Natal fracassado, e escrever uma dedicatória tão…

“Não chore, menina – as coisas ainda vão melhorar.
Não desista, menina – você tem talento, um dia eles vão ver.
Não os ouça, menina – você pode escrever.
Não trabalhe tanto, menina – um dia a fábrica inteira vai saber que você não é só uma secretária.
Não odeie seu pai, menina – é difícil ele aceitar que o mano virou irmã.
Não sinta vergonha, menina – você não tem culpa de aquele nojento ter mexido com você; você fez tudo que pôde para ele não tocá-la, mas ele tinha uma arma.
Não pense que você é louca, menina – um dia um príncipe encantado vai aparecer.
Não se sinta ridícula – príncipes encantados existem. Pelo menos essa ideia enche nosso coração de esperança.

Feliz Natal, menina – sim, já é Natal. E este é o presente que você comprou para si mesma. Assim você não estará sozinha. Você vai estar acompanhada do maravilhoso Caio Fernando Abreu e deste Ovo Apunhalado.
Ana Paula dos Anjos, 25/12/05.”

Uma “autodedicatória”, num Natal solitário, parecia roteiro de um filme melodramático ou letra de tango. Era realmente muito triste, e meus olhos marejaram. Eu quis conhecer aquela menina, dizer-lhe que ela não estava sozinha. Que eu havia lido aquela dedicatória infinitamente triste e compreendia aquele sentimento. Que eu era o maior colecionador de dedicatórias do mundo e que nenhuma, nem mesmo a de Érico Veríssimo à Clarice Lispector, havia mexido tanto comigo. Aquilo fora escrito havia apenas dois anos; a menina devia estar viva ainda, provavelmente em São Paulo. Mas agora ela não tinha mais nem sua edição de O Ovo Apunhalado para acompanhá-la. Será que ela havia se tornando uma escritora? Procurei seu nome no Google e em sites sobre novos autores, mas não achei nenhuma Ana Paula dos Anjos. Será que ela continuava trabalhando como secretária numa fábrica? Mas havia tantas fábricas em São Paulo, e tantas secretárias, que seria impossível localizá-la só a partir dessa informação. Tornei-me obcecado por aquela dedicatória – decorei todas as linhas e ainda as anotei em diversos lugares diferentes para não correr o risco de esquecê– las. Era impressionante como poucas palavras podiam trazer tantas imagens fortes como aquelas. Havia um emprego ruim numa fábrica, um pai que não aceitava o filho homossexual, um estupro ou tentativa de estupro, e dois desejos clássicos: o reconhecimento como escritora e a descoberta de um grande amor. Era um roteiro maravilhoso para um livro. Eu que havia lido muito, graças ao meu hobby, sabia que aquela era uma boa história. Se eu tivesse mais talento poderia escrevê-la e publicá-la. Quando eu alcançasse sucesso, a menina, que tinha um interesse literário evidente, tomaria conhecimento e viria tirar satisfações:

— Como você teve coragem de se tornar um escritor usando a história da minha vida?
E eu explicaria que era apaixonado por ela, lhe cederia metade dos direitos autorais e financiaria seu livro com os lucros. Viveríamos felizes; ela escrevendo e eu colecionando dedicatórias em seus tomos.
***

Descobri aquele livro no final de 2006. Quase um ano se passou e Ana Paula dos Anjos ainda era um mistério para mim. Tinha rodado todos os sebos de São Paulo e mais as cidades do interior, Rio de Janeiro e Pernambuco atrás de alguma dedicatória que pudesse me dar uma pista. Enfim, resolvi que para me livrar daquela angústia precisaria de ajuda profissional. Pode soar ridículo, mas confesso que liguei o computador e procurei por um detetive particular. “Será que ainda existiam detetives particulares?”, pensava. Isso parecia coisa tão antiga, um clichê saído de filmes preto-e-branco e livros baratos… Fato era que não sabia mais o que fazer. Não poderia dar queixa na polícia sobre o desaparecimento de uma menina que eu nem conhecia. Nem sabia como era seu rosto, mas não me importava – eu a amaria mesmo que ela fosse horrível. Cheguei a pensar que a amaria mesmo que ela fosse um homem, mas me envergonhei desse pensamento. A pesquisa no Google revelou centenas de escritórios de detetives particulares. Sim, eles ainda existiam. Um deles me chamou a atenção pelo nome:
“Dos Anjos Detetives: Investigações conjugais, empresariais, flagrantes, localizações de pessoas, entre outras. Atuamos em São Paulo e região.”
Será que o próprio dono da agência era parente da Ana Paula? Bom, isso seria muita sorte! O sobrenome dos dois era o mesmo e aquela parecia ser uma empresa menor – e, consequentemente, mais barata – que as outras. Anotei o endereço num cartão de livraria e fui dormir. Naquela noite tive um sonho e me lembrei dele ao acordar. Isso é raro. Costumo não dar muita atenção para meus devaneios pouco criativos, que não passam muito de fantasias eróticas ou situações constrangedoras nas quais apareço pelado em público. Nada digno de nota ou que escape dos clichês. Tantos livros lidos, tantas ideias vazias. Mas nessa noite sonhei com dedicatórias. Em meio ao pó e fitas VHS, eu reencontrara o antigo tomo de A Ilha de Tesouro que meu pai me dera, perdido num sebo gigante, no centro de São Paulo. Aquele sebo possuía todos os livros do mundo, e cada livro continha – numa dedicatória – um momento memorável da vida de cada ser humano que habitou nosso planeta. Era uma bizarra babel de declarações de amor, ódio, separações, presentes de dia dos namorados e tardes de autógrafos. Aquilo, para mim, era como um imenso supermercado doando comida grátis. Autoajuda, romances policiais, biografias, histórias pornográficas – todos os volumes do mundo se acumulavam em estantes quilométricas que pareciam ter sido pinçadas de um conto de Borges. Mas o tempo era escasso. Batiam quinze para as seis da tarde e o sebo iria fechar em breve. Não poderia garimpar muito ali. Anos atrás, eu havia escrito uma dedicatória emocionada, respondendo as linhas do meu velho sobre navegar os sete mares, e doado a obra para uma escola. Resolvi folhear suas páginas novamente:

“Pietro… Quantos anos será que você tem hoje? Que história triste a sua… Um menino colecionando dedicatórias. Deixei a minha num livro de Caio Fernando Abreu. E a esqueci num sebo. Uma dedicatória que escrevi para mim mesma e achei que fosse a coisa mais triste do mundo. Mas você escreveu uma para um pai morto e passou a vida toda colecionando fragmentos da vida alheia. E isso me parece infinitamente desolador e triste. Gostaria de te encontrar algum dia e lhe dizer que entendo sua solidão. Quem sabe já não ficamos lado a lado em algum sebo da Augusta?
Carinho,
Ana Paula 25/12/2006”

Ilustração para o livro "Canções para ninar adultos" coloca Saramago, Lewis Carrol, Borges e Kafka estrelando a capa do disco "Secos e Molhados"

Ilustração para o livro “Canções para ninar adultos” coloca Saramago, Lewis Carrol, Borges e Kafka estrelando a capa do disco “Secos e Molhados”

Qual era a possibilidade de aquilo acontecer? Ela havia me encontrado! Naquele mar de mensagens esperançosas e juras de amor, Ana Paula tinha encontrado um pedaço de mim e tatuado nele suas impressões. Era gozado como eu me sentia menos só. Alguém captara a tristeza mesquinha que eu sentia por ter perdido o pai. Não me importava se eu nunca iria encontrá-la, se ela era casada ou se eu descobrisse que Ana Paula dos Anjos era a maior baranga do Brasil. Eu precisava encontrar aquela mulher e partilhar com ela minha dor. Deixei uma nova dedicatória no seu livro:

“Ana Paula, li suas dedicatórias, tanto no livro do Caio Fernando Abreu, quanto na Ilha do Tesouro. Gostaria de saber o que você faz da vida hoje, se saiu da fábrica, se conseguiu se tornar uma escritora. Seu pai aceitou seu irmão? Passei um ano inteiro atrás de você só pra descobrir que você estava atrás de mim. Se você encontrar esse Ovo Apunhalado novamente, e reconhecê-lo como seu companheiro naquele Natal triste de 2005, não hesite em me ligar. Mesmo que os anos já tenham passado, mesmo que você esteja casada e mãe de três filhos. Mesmo que você seja uma romancista rica e famosa. Deixo aqui meu endereço, telefone e e-mail. Já não coleciono dedicatórias. Apenas abro os livros, esperançoso de que neles haja uma mensagem sua, como uma garrafa solta no mar. Apenas um sinal que me faça continuar buscando”.
Com amor,
Pietro, 18/09/2007
***

Sonhos não mentem, achava eu. E, na manhã seguinte, acordei destinado a ir até a Consolação atrás dos detetives. Parecia que minha vida se tornaria uma aventura noir, como os livros de Chester Himes. Imaginava que as ruas da zona Sul se transformavam no Harlem dos anos 60 e eu estaria próximo de entrar no escritório decadente de dois detetives durões.

Nem três quarteirões andara, quando uma música muito triste martelou forte minha espinha. Ela era soprada duma casinha simples, mas bem-conservada, que devia estar de pé há pelo menos 60 anos. A voz do rádio era grave, dramática e fora de moda. Por trás daquele portão baixo, que revelava uma jardim meticulosamente cuidado, habitado por gordos girassóis e margaridas raras, emanava uma canção com cheiro da minha infância, uma canção que meu avô ouvia em sua potente vitrola, quando não assistia aos filmes de Bud Spencer e Terence Hill. Cessou o som mecânico e uma bela voz de mulher jovem me rasgou no meio. Como se a banda ainda tocasse, aquela voz enchia o bairro com sua melancolia, e atualizava, para os dias de hoje, uma música quase brega, sobre como uma cadeira vazia lembrava o pai morto. A menina parecia cantar sozinha, enquanto realizava alguma tarefa doméstica, mas era impossível enxergá-la por aquele ângulo. Apenas sua voz reinava no espaço.

Parado diante do portãozinho azul, o tempo correndo sem que notasse – eu não conseguia ficar triste. Só conseguia ouvi-la. Imóvel e dolorosamente apaixonado.

2008-2011

Fred Di Giacomo é escritor e jornalista multimídia. O conto “O homem que colecionava dedicatórias” abre seu primeiro livro “Canções para ninar adultos“, lançado em 2012 pela editora Patuá. “Canções” foi publicado  em um formato inspirado nos velhos compactos de vinil e é dividido entre Lado A (com contos fantástico) e lado B (com contos mais marginais). Fred também é autor do infantil “Haicais Animais“, criador do projeto Glück – uma investigação sobre a felicidade e autor do roteiro de diversos jogos e newsgames.

Leia análise de “A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen”, de Eugen Herrigel: o livro que apresentou o zen budismo para o mundo ocidental

A arte genuína não conhece nem fim nem intenção, Kenzo Awa

Capa da edição brasileira de “A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen”

O livro “A arte cavalheiresca do arqueiro zen”, do filósofo alemão Eugen Herrigel(1884-1955), tem o mérito de ser um dos principais responsáveis por introduzir e popularizar o pensamento zen budista no ocidente. Grande parte desse mérito se deve ao fato do livro ser curtíssimo (a edição da editora Pensamento tem 91 páginas) e escrito numa linguagem simples, que traduz os pensamentos do zen para leitores comuns.

Herriegl passou alguns anos(1924-1929) no Japão, ensinando filosofia na Tohoku Imperial University. Interessado no pensamento oriental, ele começou a estudar o kyudo (arte do arco e flecha) com o mestre Kenzô Awa (1880-1939), enquanto sua mulher estudava a arte dos arranjos florais.

Posteriormente, Herrigel relacionaria a arte do arqueirismo com o pensamento zen, produzindo uma série de estudos que dariam origem ao livro. A forma de relacionar um trabalho manual com o desenvolvimento espiritual (“… a obra interior que ele deve realizar é muito mais importante que as obras exteriores”) dialoga diretamente com livros posteriores que se inspirariam na obra de Herriegel, como o clássico “Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas” de Robert M. Pirsig, no qual o autor ensina que a escalada da montanha é muito mais importante que chegar ao cume.

Eugen Herrigel praticando arqueirismo

Muita viagem? Um trecho que resume bem a ideia do livro é essa fala do mestre Kenzo sobre o arqueirismo: “(…) não se deve envergonhar pelos tiros errados. Da mesma maneira, não deve felicitar-se pelos que se realizam plenamente. O senhor precisa libertar-se desse flutuar entre o prazer e o desprazer. Precisa aprender a sobrepor-se a ele com uma descontraída imparcialidade, alegrando-se como se outra pessoa tivesse feito aqueles disparos. Isso também tem que ser praticado incansavelmente, pois o senhor não imagina a importância que tem.”

Atingir o equilíbrio, evitar a busca pelo prazer ou tristeza pela falha, preocupar-se mais com o ato do que com suas conseqüências. Seguir os instintos. “Comer quando se tem vontade de comer e dormir quando se tem vontade de dormir”. O pensamento zen oriental, apresentado por Herrigel, pouco tem a ver com nossa forma pós-moderna e ocidental de viver. Mas é uma boa oportunidade de enxergar que toda regra é burra e que existem formas muito velhas de pensar, que parecem mais modernas que o hype que engolimos diariamente como a hóstia da nossa (não)religião descolada.

Compre o livro aqui e ajude nosso blog!

Veja também:
-A filosofia pop de “Zen e a Arte da Manutenção de motocicletas”
-Confira o lado ocidental do conhecimento na “Odisséia” de Homero

Conheça as histórias por trás do livro “Canções para ninar adultos”, em entrevista para a TV São Judas

Foi ao ar, no final de 2012, minha primeira entrevista para TV sobre o livro “Canções para ninar adultos”. A entrevista foi feita pela Maria José Petri da TV São Judas. Foi um espaço bem bacana (27 minutos) pra discutir sobre os contos, a influência da música na minha escrita, as histórias reais por trás da ficção… Enfim, assiste ai:

Fred Di Giacomo e Maria José Pretti no programa “Arte Letra”

Em breve sai o primeiro livro deste blogueiro: “Canções para ninar adultos”

Algumas pessoas colecionam selos, lágrimas, tampas de garrafa, sonhos, maços de cigarro ou discos. Já conheci até quem colecionasse embalagens de pasta de dente. Eu coleciono livros. Ou melhor, dedicatórias em livros. (O Homem que colecionava dedicatórias, Fred Di Giacomo)

Versão 2 da capa, com ajuda do designer Thiago Lacaz

É isto mesmo amiguinhos, este blogueiro aqui acaba de fechar com a Editora Patuá o lançamento de seu primeiro livro: “Canções para ninar adultos”, reunindo 22 contos. O livro será no formato de compacto (como os velhos singles em vinil) e os contos serão divididos em Lado A (histórias com pitadas de fantástico) e lados B (contos mais realistas; feios, sujos e malvados). No final do livro, um cardápio irá indicar algumas canções para ouvir durante a leitura. (A seleção vai do rap dos Racionais à música clássica de Dvorák, passando por Rapture, Otto, Bob Dylan e Count Basie). A orelha deve ser escrita pelo jornalista e escritor Xico Sá. Deve sair em setembro, se os ventos do sul continuarem a soprar quentes.

A cabeça resistia, afundada nos sulcos cheirosos que marcavam o travesseiro dela. A maciez da cama era o único refúgio para felicidade do mundo. Pensar no futuro o enchia de ansiedade, e ansiedade leva os fracos a trilhar os caminhos do medo. Kiko era fraco, feminino e fixado na ideia de que a a busca pela felicidade era a grande cruzada de sua vida. (Também gostava de Legião Urbana, o que negava veementemente.) (Instant Happiness, in “Canções para ninar adultos”)

Primeira versão da capa pro livro.

Das águas lodacentas da tristeza, levantou-se o primeiro homem inteiro a enxergar aqueles tempos novos.  (Gênesis, in “Canções para ninar adultos”)

-Saiba mais sobre o livro no blog oficial

Pra abrir o apetite um miniconto que estará no Lado B do disco, digo, do livro:

Paulo Coelho
Pôde, enfim, dormir tranquilo
– o fatigado alquimista
Quando redigiu seu primeiro fracasso.

Livros que eu li em 2011 – Retrospectiva

Eu gosto de listas e gosto de livros. Por isso faço essa retrospectiva todos os anos, que me dá uma sensação de “que legal, não gastei todas minhas horas livres no bar.” Livros são aulas com os melhores professores da humanidade e diálogos com caras que você não encontra fácil no boteco da esquina. Acho que esse ano fiz as pazes com alguns clássicos, descobri alguma coisa de literatura contemporânea e me dediquei um pouquinho à teorias de web/games.

-Livros que li em 2010


39)Lord of the Flies,
William Golding***
38)Caprichos e Relaxos, Paulo Leminski *****
37) Religião para Ateus, Alain de Botton *****
36) Alguma Poesia, Carlos Drummond de Andrade *****
35) José, Carlos Drummond de Andrade ****
34) A Rosa do Povo, Carlos Drummond de Andrade ***
33) A Theory of Fun for Game Design, Raph Koster *** */*
32) Lolita, Vladimir Nabokov *****
31) Tartufo, Moliére *** */*
30) A insustentável leveza do ser, Milan Kundera *****
29) Livro das Perguntas, Pablo Neruda ***
28) Máquina de Pinball, Clarah Averbuck, ****
27) Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, Mia Couto *****
26) O primeiro terço, Neal Cassady *
25) O Guia do Mochileiro das Galáxias, Douglas Adams** */*
24) Ficções, Jorge Luis Borges ****
23) A Arte da Guerra, Sun Tzu **
22) Crash: uma breve história da economia – da Grécia Antiga ao século XXI, Alexandre Versignassi *****
21) Mingutas, Edson Veiga Jr. *** */*
20)A invenção de Morel, Adolfo Bioy Casares ****
19) A Noite do Oráculo, Paul Auster ****
18) Obra Completa, Murilo Rubião *** */*
17)Women, Charles Bukowski *****
16)Carnaval, Manuel Bandeira ***
15) Mar Inquieto, Yukio Mishima ***
14) Beat Memories: The Photographs of Allen Ginsberg, National Gallery of Art ****
13) Vida, Keith Richards **
12)Sonetos do Amor Obscuro e Divã do Tamarit, Federico Garcia Lorca ***
11)1984, George Orwell *****
10)Hamlet no Holodeck – o Futuro da Narrativa no Ciberespaço, Janet H Murray ***

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

9) As entrevistas da Paris Review, vários *****
8)O convidado Surpresa, Grégoire Bouillier *** */*
7)Viagem ao fim da noite, Louis Ferdinand Céline ****
6)Os anões, Verônica Stigger ** */*
5)El Cartero de Neruda, Antonio Skármeta ***


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

4)A vida de Pi,Yann Martel *****
3)O livro de Haicais, Mario Quintana ***
2)Antologia Breve, William Carlos Williams ***
1)Hells Angels, Hunther S. Thompson ****

“O Primeiro Terço” – Neal Cassady: Ícone beat escreve o pior livro de sua geração.

Diversos autores podem se acotovelar para decidir quem foi o cérebro da geração beat, mas seu rosto é definitivamente do malandro Neal Cassady (8 de fevereiro de 1926 – 4 de fevereiro de 1968).

Timothy Leary -o papa do LSD - e Neal Cassady no busão de Ken Kesey

Bonito, durão, amante da velocidade dos carros e das mulheres, esse James Dean da vida real foi o “muso” beatnick. Provavelmente nenhum cidadão comum teve sua história tão contada em livros clássicos quanto Cassady. O que o deixou famoso foi “On The Road”, obra prima de Jack Kerouac, em que Cassady inspirou o protagonista Dean Moriarty. Neal também aparece como N.C. em diversos poemas de Allen Ginsberg (inclusive “O Uivo“) e em livros de Ken Kesey (autor de “Um estranho no ninho”). Cassady foi motorista do ônibus psicodélico de Kesey nos anos 60 e ganhou uma edição de homenagem na revista editada pelo escritor, “Spit in the Ocean”. Além das citações em poesias, Allen Ginsberg – de quem Neal foi amante (sim ele também traçava homens) – tirou diversas fotos do anti-herói que acabaram  impressas em seu livro fotográfico “Beat Memories“. Por fim, Bukowski escreveu o epitáfio literário de Cassady, logo após esse ter sido encontrado morto no deserto mexicano. O conto está no livro “Notas de um velho safado.” Vale ressaltar que Neal era um dos poucos personagens da geração beat que o velho safado admirava.

Capa do livro "O Primeiro Terço", lançado pela L&PM.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mas  isso aqui não é uma resenha literária? Precisamos falar tanto da vida do autor de “O primeiro terço”? Sim, e é justo dizer que a principal obra de Cassady foi sua vida. “O primeiro terço” é um romance autobiográfico que relata a infância do autor em meio à pobreza dos Estados Unidos pós-crash da bolsa. Tem esse nome porque seria uma das três partes da autobiografia de Cassady, mas o escritor morreu antes de começar os outros dois livros e só deixou algumas cartas e fragmentos como espólio. Pelo relato histórico de um período importante na história americana e como curiosidade para os fás de literatura beat é válido. Mas como literatura não se sustenta. A linguagem em geral é pobre, em alguns momentos truncada e não se compara às obras das “melhores mentes de sua geração“. Tanto que na introdução da obra, o poeta e editor Lawrence Ferlinghetti dá esse “desconto” para a prosa de Cassady, deixando um clima de isso “é mais importante do que bom”. O autor tem alguns lampejos, em que parece encontrar sua voz, especialmente nas cartas para Kerouac, incluídas como anexo no final do livro. Para os interessados no assunto é um bom jeito de entender melhor o fascínio despertado por esse malandro fã de Proust em toda uma geração de intelectuais.

Siga o blog no Twitter: @punk_brega

Neal Cassady e a mulher, em foto do poeta Allen Ginsberg

 

“Beat Memories” – Allen Ginsberg

Burroughs e Kerouac trocam ideia no sofá

Toda quinta, selecionamos artistas underground e projetos pulsantes

O poeta Allen Ginsberg tinha o poder de captar imagens fotográficas com palavras. Mas a caneta não foi seu único instrumento artístico. Munido de uma máquina fotográfica ele retratou seus amigos e companheiros de copo e versos, ninguém menos que Burroughs, Jack Kerouac, Neal Cassidy e outros nomes fodas da geração beatnik.

Jack Kerouac em foto que virou capa do livro

-Conheça a obra-prima “O uivo” de Allen Ginsberg

Siga a gente no Twitter: @punk_brega

Neal Cassady posa na frente do cinema com a mulher

Livros que eu li em 2010 – Retrospectiva

Ainda no clima das listas de final de ano, refaço aqui minha tradicional (hahaha, tradicional mas só interessante pra mim mesmo, provavelmente) retrospectiva de livros que li no ano. Não fui tão nerd quanto em 2009, li um pouco menos e esqueci de ir anotando os livros enquanto ia terminando, mas acho que estão todos aí. Tentei voltar a ler um pouco de teoria, atacando um Marx aqui, um livro sobre jornalismo ali e outro sobre filosofia zen acolá…


25) Poema Sujo, Ferreira Gullar ****

24)Mãos de Cavalo, Daniel Galera *****

23)Newsgame: Jounalism at Play,
Bogost, Ferrari, Schweizer ****

22)O Manifesto Comunista, Karl Marx e Frederick Engels ****

21)Os prisioneiros,
Rubem Fonseca *** */*

20) O Alienista/O Espelho, Machado de Assis ****

19)A Arte de Causar Efeito Sem Causa, Lourenço Mutarelli, ***

18) Noturno do Chile, Roberto Bolaño ***

17)Nosso GG em Havana, Pedro Juan Gutiérrez **** */*

16) O Som e a Fúria, William Faulkner **** */*

15) Lúcia McCartney, Rubem Fonseca ****

14) O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde ****

13) Não devemos nada  a você, Daniel Sinker *****
12)Historia Das Ideias e Movimentos Anarquistas – Vol 1,
George Woodcock *****

11)Uma temporada no inferno, Arthur Rimbaud ****

10) O Amante de Lady Chatterley, D.H. Lawrence ***  *1/2

09)Oficina de Escritores – Um Manual para a Arte da Ficção, Stephen Koch ****

8)O Livro  dos Abraços, Eduardo Galeano *****

7) A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen, Eugen Herrigel ****

6) Septuagenarian Stew,
Charles Bukowski ***

5)Onde vivem os monstros, Maurice Sendak *** */*

4)Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley *** */*

3)Cuca Fundida, Woody Allen ***

2) Estação Carandiru, Drauzio Varella *** */*

1)Seis personagens a Procura de um autor, Luigi Pirandello *****

-Resenhas de livros
-Leia alguns contos

Quadrinhos:
7) Cachalote,
Daniel Galera e Rafael Coutinho *****
6) Zap Comix, R Crumb e vários ****
5)Gênesis, Robert Crumb *****
4)Beleléu, vários ****
3)Grito do Povo, Tardi e Vautrin **** */*
2)Complô: A História Secreta dos  Protocolos dos Sábios do Sião,
Will Eisner *****
1)O Sonhador , Will Eisner*** */*

Clássicos da literatura erótica – Top 5

-Conto picante: “Sexo virtual, pop e desencontros”

Sexta-feira quente na TV Punk Brega, preparamos um vídeo com os 5 maiores clássicos da literatura erótica. Confira abaixo ou leia o ranking, abaixo do player 😀

 

Tá com preguiça de assistir o vídeo? Confere o top 5 aí embaixo!

5) “Lolita” – Vladimir Nabokov
lolita-capa-literatura-erotica
4) “Decameron” – Boccaccio
decamerão-capa-eróticos

3) “Henry & June” – Anaïs Nïn
Henry -June-eroticos

2) “Trópico de Câncer” – Henry Miller

tropicofcancer-1

1)Kama Sutra – Mallanaga Vatsyayan

O maior clássico da literatura erótica vem da Índia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

-Compre agora: o “Kama Sutra” de Milo Manara

Leia também:
Conto: Mulheres – Anjas Tortas

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...