Instant Happiness – um conto sobre a felicidade

O conto Instant Happiness foi originalmente publicado no meu primeiro livro “Canções para ninar adultos”, lançado pela Editora Patuá. Ele pode ser encomendado para todo Brasil pelo site da Patuá.

hipster-computer

 

Como se estivesse com a cabeça inteira dentro d’água e alguém começasse a tocar realejo na beira do rio.”
Caio Fernando Abreu, Caixinha de Música, in “Morangos Mofados”

A cabeça resistia, afundada nos sulcos cheirosos que marcavam o travesseiro dela. A maciez da cama era o único refúgio para felicidade do mundo. Pensar no futuro o enchia de ansiedade, e ansiedade leva os fracos a trilhar os caminhos do medo. Kiko era fraco, feminino e fixado na ideia de que a a busca pela felicidade era a grande cruzada de sua vida. (Também gostava de Legião Urbana, o que negava veementemente.) Pri (mignon, tatuada, cabelo descolorido) parecia ser uma das respostas para o enigma. Colecionava gatos e projetos de vida. O perfume singelamente adocicado dos sulcos deixados no travesseiro era dela. As fotos coloridas que decoravam a parede eram dela também: o casal sorridente, uma ilustração moderninha, Toulouse-Lautrec, Matisse, gatos e 3 retratos feitas com uma Lomo. A alegria escorria fácil das mãos da menina. Por que as mulheres são assim? Os mesmos hormônios responsáveis por TPM e abstinência de chocolate eram os guias da tranquilidade feminina, mais palpável e espiritual que o materialismo macho?

O mundo apita urgente, surdo aos anseios de Kiko. Queria fazer samba e amor até mais tarde, mas escorrega da cama depois de apertar “soneca” 3 vezes no iPhone. Os olhos, que parecem colados com Super Bonder, enxergam mal o quartinho instalado pertinho da Avenida Paulista. Tinha que trabalhar. Questão de ordem: o trabalho é o imposto que se paga para ser feliz? Um enigma fundamental da humanidade, para ele, era a obrigatoriedade de se trabalhar. Essa questão filosófica ficava lado a lado com as menores “Deus existe?” e “qual o sentido da vida”? Se a gente voltasse a ser índio (peladão, numa mata tropical) ia, no mínimo, ter que plantar e caçar pra não morrer de fome. E ficar peladão numa mata tropical não lhe parecia o sinônimo de diversão garantida. A escapatória escapava de suas mãos finas.

No banheiro apertado, gotas quentes respingavam em seu corpo sem pelos e vapor abundante desentupia as narinas de fumante. O cheiro de sabonete molhado lembrava a infância. A memória gosta de nos trazer fotografias felizes do passado. O velho sempre parece mais pleno que o presente. “Será que dá pra arrumar um emprego que a gente realmente se amarre? Algo pra carregar como uma missão de vida? Meu pai acha que todo trabalho é um fardo. Se fosse bom, não pagavam a gente pra fazer, argumentava ele. Mas, porra, duvido que o Bono Vox tenha depressão todo dia que acorda pra fazer um mega show ou salvar criancinhas africanas.”

Intranquilo, engolia nacos amanteigados de pão umedecidos por leite com Toddy. Saudades do café da manhã turco: queijo feta, pepino, tomate, ovo cozido, azeitonas pretas e pão. “Viajar é a melhor coisa da vida”. Será que ele era incapaz de pensar algo que não soasse absolutamente clichê? “Porra! Nasci loiro de olhos azuis, tenho cidadania européia, sou homem. A felicidade veio tatuada nos meus genes.” Pri já tinha saído pra trabalhar e a faxineira estava atrasada. Sorriu para paisagem da janela. Às vezes tinha medo que um acesso de loucura o arremessasse prédio abaixo, como o Arnaldo Baptista dos Mutantes. (“Eu vou correndo buscar a glóriaaaaa”). Hoje não, hoje sentia-se esperançoso. Era o suficiente para marchar pelo exército de corpos nas ruas, abrir caminho pela carne flácida do mundo e entrar no metrô. O fone de ouvido toca o disco novo do Rapture. Bandas de rock parecem ser a solução instantânea para felicidade. Mas só duram 3 meses. 3 meses é o prazo de validade de um disco nos anos 2000. Isso se ele for bom! Depois disso, ai de nós, temos que garimpar algo novo, em meio a milhares de inutilidades estocadas em sites de download pirata. E, em semanas esplendorosas, somos recompensados por um disco como “In The Grace of Love”, do Rapture (“How deep is your love?”). Ou “Certa manhã acordei de sonhos intranquilos”, do Otto. (“Tem sempre um lado que pesa e um lado que flutua”). E olha que ele nunca tinha gostado de Otto, nem de mangue beat. Mas aquele disco era a dor transformada em música e, como a vacina que converte vírus em remédio, música sobre dor é o antídoto perfeito para sofrimento e angústia juvenil. (“Não precisa falar, nem saber de mim. E até pra morrer, é preciso existir.”)

***

Aliás, caro leitor, você tem algum bom disco pra indicar?

***

h

Madrugada, instante messenger. MSN ou Gtalk.

(…)

Kiko1984:Você acha que por baixo de todo esse néon – todo esse glitter – a gente vai encontrar a felicidade?
Jef – Paranoid Android:Encontrar o q?
Kiko1984:A felicidade.
Jef – Paranoid Android:Ser feliz na vida mesmo, ou tipo descolar cocaína? 😛
Kiko1984:Na vida. Alegria artificial, não. Eu digo, sei lá… To meio bêbado.
Jef – Paranoid Android:Hum… A Pri tá aí?
Kiko1984:Tá sim, tá dormindo atrás de mim. Acho ela mais bonita ainda dormindo… Parece uma foto, saca? Congelada no sono. Dá vontade de ser uma pessoa melhor por causa dela, hehehe.
Jef – Paranoid Android:Então, para de blablabla e liga a webcam…
Kiko1984:Pra q?
Jef – Paranoid Android:Um pouco de descontração: vou mostrar meu grande e belo pa…
Kiko1984:Para, Jef! Vai que a Pri acorda…
Jef – Paranoid Android:Ah, vc bem que curtiu ver esse monumento ao vivo, na loucura de Viena, hein, Kiko? 😉
Kiko1984:Foi só com vc, mano. Para, eu gosto de mulher, para com isso!!!!! Se a Pri acordar…
Jef – Paranoid Android:Acorda nada… Olha pra cá, olha.
Kiko1984:Vai se foder, mano! Vou te bloquear nessa porra. Desiste de me comer, Jef.

Jef – Paranoid Android:Tá bom, tá bom, não precisa ficar putinho, vou voltar a ser o amigo gay comportado.Fala aí da sua grande crise existencial.
Kiko1984:…
Jef – Paranoid Android:Ih, Kiko, você já foi mais leve, hein? Tá precisando voltar a fazer Pilates, querido, assistir um filme bom, bater punheta… Quer que eu peça perdão de joelhos? Olha só, ó: to ajoelhado. E minhas intenções são decentes. Confesso que pequei. Juro, por São Sebastião, nunca mais seduzir um pobre amigo hetero convicto. Serei apenas a bichinha sensível que ouve suas dores e….
Kiko1984:Hehehehe, para, seu tonto.
Jef – Paranoid Android:Ufa, achei que você ia virar um homofóbico enrustido e aparecer na minha casa com uma lâmpada na mão pra arrebentar minha pobre cabecinha genial. Se tomar tal atitude, please, publique o livro que está no meu computador na óbvia pasta “literatura”. O nome é “Instant Happiness” e fala – coincidência – sobre a busca pela felicidade.
Kiko1984:Não viaja, Jef. Pare de escrever merda e presta atenção. Tava pensando aqui. Será que a gente tem chance de ser feliz? Tem o direito à felicidade, mas só não sabe como? Será que a felicidade está passando na nossa frente que nem um patinho numa barraca de tiro ao alvo, só que a gente não consegue acertar? A gente fica viajando que nosso sonhos são muito improváveis e que só grandes coisas poderiam fazer a gente feliz – tipo morar um ano na Europa, fazer um mochilão pelo mundo…
Jef – Paranoid Android:Ou publicar um livro, dirigir um filme, montar um restaurante vegetariano. 🙂
Kiko1984:Isso, as coisas talvez sejam mais simples. Como uma musiquinha fofinha do Little Joy.
Jef – Paranoid Android:Música é vida! Tô com Mika na cabeça hoje. Também é música alegre, neam?
Kiko1984:Às vezes eu olho daqui, da janela do meu quarto, no vigésimo andar, e me dá uma vontade de pular. Tipo um imã puxando pra baixo, pro fim, eu acho…
Jef – Paranoid Android:Pára, Kiko!!! Assim você me deixa preocupado… Parou a terapia?
Kiko1984:Não, não é uma coisa racional. Porque, teoricamente, eu sou feliz. Teoricamente não tem nada errado na minha vida, saca?
Jef – Paranoid Android:Não tem mesmo. Escuta, gato, quem tem que ficar se perguntando se é feliz ou não – pensando em como alcançar a felicidade – é o porteiro do meu prédio. Ele rala. A gente vive num videoclipe, Kiko. A gente SÓ tem motivo pra ser feliz, neam?

Kiko1984:É, é sim…

(…)

Kiko1984:Então, por que a gente não consegue?

15/10/2010 – 15/11/2011

Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais“ . Ele foi pioneira na criação de newsgames (jogos jornalísticos no Brasil) e escreve sobre felicidade no Glück Project.

“3 livros sobre…” reúne listas, resenhas e curiosidades bacanas sobre literatura

Resenhas curtas que não dão sono instigam o leitor a roubar comprar o livro em questão, listas com capas lindas e curiosidades sobre literatura (como a polêmica envolvendo o suposto plágio de “A Vida de Pi” em cima do brasileiro “Max e os Felinos”); esses são alguns dos temas que vocês vão encontrar no novo site que criei em parceria com a jornalista e esposa Karin Hueck – o 3 livros sobre.

Eu e a Karin sempre fomos apaixonados por livros – destes que fazem listas do que lemos no ano, grifam frases e ficham as obras favoritas. Resolvemos, então, transformar nossos papos de bar num site puxado pelas listas de “3 livros sobre”. Nesse formato você já encontra lá “3 livros sobre… o Holocausto“, “3 livros sobre… sexo“, “3 livros sobre… drogas“, entre outros.

Também tem trechos legais de livros, como o que você confere abaixo, enfim, cola lá e confere 🙂

Aliás, a Karin é editora da SUPERINTERESSANTE e eu coordeno a equipe responsável pelos sites jovens da Abril. Eu também sou autor do livro “Canções para ninar adultos

"On the Road" no post "Capas para os melhores livros do mundo"

“Conversas com Woody Allen”, resenha do livro de Eric Lax

publicado originalmente em 04/10/2009

“O único conselho em que posso pensar é que só o trabalho conta”.

“Não influenciei ninguém de forma significativa”, afirma Woody Allen no final do livro de entrevistas conduzidas por Eric Lax.  Woody parece reticente em dar qualquer tipo de aula ou lição para as novas gerações, ou mesmo em reconhecer sua grande influência para o cinema mundial.  (Ele provavelmente nunca assistiu “Apenas o Fim” filme brasileiro inspirado em “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, ou, então, “Harry e Sally” que deu origem a dezenas de comédias sobre relacionamento). É engraçado essa reticência, porque todo o livro “Conversas com Woody Allen” é uma grande aula sobre cinema, escrita e processo criativo.

Vamos lá: todo bom livro é um bom professor, muito melhor do que os que você vai encontrar – na maioria das vezes – nas faculdades. Afinal, quem poderia ter aula de existencialismo com Sartre ou lingüística com Guimarães Rosa? Nessa série de entrevistas, que vai dos anos 70 até o final dos anos 2000(O único filme de Woody que não é comentado é o recente “Vicky Cristina Barcelona”), Eric Lax conversou com Allen, assistiu suas gravações e acompanhou seu processo de edição. Dividiu as conversas, então, em 7 temas: “ A ideia”, “Escrever”, “Casting, Atores e Atuação”, “Filmagens, sets, locações”, “Direção”, “Montagem”, “Trilha Sonora” e “A Carreira”. Lá está tudo que você queria saber do tio Allen, mas tinha medo de perguntar: “Como Woody escolhe a ideia que vai filmar?” “Como ele faz um roteiro?” “A trilha sonora entra só no final da edição?” Além de todos os detalhes do seu método de criação, Allen fala de suas influências (Bob Hope e Ingmar Bergman, entre outros) e de sua filosofia de vida: vivemos num mundo sem deus, onde se nós não nos policiarmos, ninguém vai nos vigiar ou punir.

Entre um excesso de autocrítica aqui e um pouco  de pessimismo ali, Allen confessa que seu grande sonho era ser um diretor de cinema “sério”, e mostra sua frustração por ser reconhecido apenas como cômico. Vale a pena ler e se deparar com a quantidade de angústia por trás da cara de baixinho-nerd-engraçado.

“Conversas com Woody Allen: seus filmes, o cinema e a filmagem”
Editora Cosac Naify
512 páginas

“Carcereiros” – resenha do livro de Drauzio Varella

"Carcereiros" é um livro obrigatório em tempos de PCC e mensalão

Espécie de continuação do best-sellerEstação Carandiru”, “Carcereiros” tira os presos do palco principal e coloca em seus lugares os homens responsáveis por vigiar as cadeias do Brasil – especialmente os que trabalharam no Carandiru, onde Varella foi médico voluntário por muitos anos.

Mais que no livro anterior, aqui Varella se torna personagem ativo da narrativa, não só no no seu trabalho semanal atendendo as mazelas dos detentos, mas em cervejas com os carcereiros depois do expediente , em festas com os funcionários com que trabalhou tantos anos ou em sua própria casa. Sem medo da subjetividade, o médico deixa claro que conta as histórias vividas camaradas de longa data.

Em alguns capítulos, histórias de traição, coragem e violência lembram bons momentos de um disco dos Racionais Mc’s. Em outros, Varella se arrisca numa reflexão mais profunda sobre a situação do sistema carcerário brasileiro, as origens do PCC (que nasceu como uma reação dos presos ao massacre do Carandiru) e a relação da “classe média” com o mundo marginal. Contador de causos habilidoso, o médico – entre diversas narrações cinematográficas, ora trágicamente violentas, ora engraçadas e heróicas -propõe até possíveis soluções para a situação “medieval” das nossas cadeias, tão em discussão em tempos de condenação dos mensaleiros e de ataques do PCC.

“Carcereiros” é um livro humano, como são humanos sangue, adrenalina, covardia e também a solidariedade e esperança. Importante para aceitarmos que não existem soluções simples para problemas complexos. Uma leitura prazerosamente necessária.

Assista ao book trailer do meu livro “Canções para ninar adultos”

Fiquei muito feliz com o lançamento do meu livro Canções para ninar adultos dia 25/10/12 no bar Canto Madalena. Vários amigos apareceram! (e autografei mais de 100 livros, he, he, he.)

Foi muito bom rever tanta gente legal e conhecer gente nova, inclusive muitos autores da Editora Patuá. Obrigado a todo mundo que colou no evento.

Agora queria aproveitar para divulgar esse belo teaser animado pelo Alisson Lima, talentoso ilustrador de Belo Horizonte. O Alisson foi o responsável pelos vídeos e ilustrações de dois newsgames da SUPER, o Filosofighters e o ApocalipCity. Assistam que a coisa ficou fina.

Canções para ninar adultos – Teaser do livro de Fred Di Giacomo from Fred Di Giacomo Rocha on Vimeo.

Capa do disco "Canções para ninar adultos"

“Os últimos dias de paupéria (Do lado de dentro)” – O livro que reuniu os escritos do poeta Torquato Neto

“Existirmos, a que será que se destina?”

***

É legal que a gente encontre fácil no Brasil a edição da Conrad de “Reações Psicóticas” de Lester Bangs, famoso crítico musical americano. Seria legal termos essa facilidade com a obra de Torquato Neto (1944-1972), um dos nossos Lester Bangs.

Torquato Neto era um blogueiro dos anos 70. Escrevia a coluna “Geléia Geral” no jornal Última Hora, onde cobria a vida cultural brasileira (especialmente do Rio), com foco na música, no cinema e num pouco de literatura. Do teatro ele não gostava muito, mas anunciava as novidades, assim como uma ou outra notinha sobre artes plásticas. É legal acompanhar dia após dia, na sua “Geléia Geral”, a história da música brasileira (e mundial) nos ricos anos 71 e 72. Torquato, saudosista, reclamava que a MPB estava muito parada. Pra quem lê hoje soa como ironia. Eram os anos de “Fa-Tal” da Gal (Com “Vapor Barato” e “Pérola Negra”), “Transa” o (disco em inglês) cult do Caetano, “Construção” do Chico Buarque (com a faixa título mais “Cotidiano”, “Deus lhe pague”, “Valsinha” e meia dúzia de clássicos) e o discão do rei Roberto Carlos que trazia “Detalhes”, “Debaixo dos Caracói dos seus cabelos” e “Como dois e dois”. Lá fora, John Lennon estava de música nova: Imagine. E Torquato avisava a galera pra se ligar em uma banda inglesa que estava amadurecendo bem; o Pink Floyd. (Ainda dois anos distante de lançar seu mega-sucesso “The Dark Side of the Moon”). E os Novos Baianos começavam a se tornar íntimos de João Gilberto. (influência que daria origem ao clássico “Acabou Chorare”).

No cinema, Torquato era do time dos “undigrudis”: Ivan Cardoso, Rogério Sganzerla e, claro, Zé do Caixão. Descia a lenha no cinema novo, de Cacá Diegues e Arnaldo Jabor, que passara a ser patrocinado com grana estatal. Só poupava Glauber das críticas. E se empolgava com a tecnologia das câmeras Super 8. 40 anos antes de Youtube e das filmadoras digitais ele previa: todo mundo vai ser cineasta.

Torquato encarnando o Nosferatu Brasileiro

 

“Os últimos dias de paupéria” (organizado por Wally Salomão e Ana Maria Silva de Araújo Duarte) foi publicado postumamente. Torquato estava preparando um livro ( que devia chamar-se “Do lado de dentro”) quando se suicidou com gás de cozinha no dia do seu aniversário de 28 anos. Morreu sem publicar nenhum livrinho em vida. Deixou suas crônicas musicais, suas letras (“Geléia Geral” e “Louvação” com Gil, mais uma dezena com Caetano, Jards Macalé, Edu Lobo e a parceria póstuma de “Go Back” com os Titãs), algumas cartas (numa das quais conta como fumou haxixe com JIMI HENDRIX) e poesias – era poeta tropicalista, amigos dos concretistas e admirador da poesia marginal de Chacal, então estreante. Também dirigiu e atuou em alguns filmes Super 8. Sua empolgação com música-cinema-literatura não o segurou na vida, deprimido com a falta de liberdade da ditadura e a falta de bom gosto da esquerda. Nasceu no tempo errado. Inspirou Caetano numa de suas melhores letras; “Cajuína”, do álbum “Cinema Transcendental” (1979). Aquela que começa existencialista assim:
“Existirmos, a que será que se destina?”.

Veja também:
– “Bandido da Luz Vermelha”, clássico do cinema marginal brasileiro

-A época em que Gal Costa foi musa dos doidões brasileiros

“O retrato de Dorian Gray”, Oscar Wilde – Resenha

Confesso, minha primeira impressão ao ler as floreadas linhas do único romance do autor irlandês Oscar Wilde (1854-1900) foi pouco empolgada. Era a obra mais feminina que eu já lera. E era escrita por um homem. Justo eu, acostumado ao excesso de testosterona exalado por Bukowski, Pedro Juan Gutiérrez e Henry Miller. Eu que já havia lido autores homossexuais, mas homossexuais libertários ou marginais, capazes de versos viris como os de Allen Ginsberg e Walt Whitman. E das mulheres, que vergonha, lera alguns poucos livros de Anaïs Nin, Rachel de Queiroz e Clarice Lispector. Sou um machista? Um cara fechado em literatura branca/heterossexual/ocidental? Talvez…

E lá, dessa caverna de ogros, me deparo com o parágrafo de abertura:

O ateliê estava repleto de odor substancioso das rosas, e quando a brisa de verão agitou-se por entre as árvores do jardim, entoou, pela porta aberta, o aroma acentuado do lilás, ou o perfume mais delicado do pilriteiro rosáceo.

Seria Oscar Wilde um hipster?

E, então, por trás da afetação dos personagens e das frases polidas com precisão por Wilde, se revela a alma de uma juventude narcisista, hedonista, fútil. Não há nada que você, com sua extraordinária beleza, não possa fazer. Quem aconselha é o experiente dândi Henry Wotton, apresentado ao jovem Dorian Gray – dono de uma beleza extraordinária, que hipnotiza todos que o conhecem – pelo pintor Basil Hallward. É Basil quem fará o retrato de Gray que, magicamente, passará a envelhecer no lugar de seu modelo. O tempo corre, mas o jovem – obcecado em sua busca por prazer – seguirá belíssimo e todos seus (muitos) pecados ficarão impressos apenas na tela pintada por Hallward. (Essa tela, terá papel semelhante à consciência deixada por Macunaíma na beira de um rio, na famosa rapsódia escrita por Mário de Andrade.) 

Calma, esse livro foi escrito quando? 1889? Mas ele parece falar direto à geração “colírios”, aos metrossexuais e aos emos. Aos playboys filhos de donos de grandes empresas de comunicação (RBS) e aos goleiros Brunos da vida. Uma pessoa extremamente bela está acima do bem e do mal? A morte de “seres menores” deve aborrecê-la? Quem são os deuses que habitam um mundo superior, o Olimpo das celebridades, as festas da alta sociedade e que observam intrigados a pequenez da escória (Que inclui eu que sou torto, você que é pobre e ela que é gorda.) Mas Henry e Dorian pedem: E, por favor, não converse assuntos sérios. Nada é sério, hoje em dia. Não deveria sê-lo, ao menos

 “O retrato de Dorian Gray” está longe de ser simples crítica social ou moral. Nem tão pouco é um elogio ao esteticismo defendido duante anos por Oscar Wilde – ele mesmo visto como figura excêntrica, envolvido em escândalos que condenavam sua homossexualidade e seu relacionamento com jovens ingleses. Este livro tem a qualidade das grandes obras de arte que conseguem tratar diversos temas universais e ainda falar direto ao âmago do leitor. É uma profunda reflexão sobre valor da arte e a produção artística. Sobre o belo, sobre o narcisismo e sobre uma juventude que parece não ter envelhecido em nada mais de um século depois.

Muitas pessoas faliram por ter investido na prosa da vida. É uma honra arruinar-se por causa da poesia. Oscar Wilde, “O Retrato de Dorian Gray”

Poema do livro “Caprichos e Relaxos” de Paulo Leminski

Poema bebido direto do livro “Caprichos e Relaxos” de Paulo Leminski
tenho andado fraco
levanto a mão
é uma mão de macaco
tenho andado só
lembrando que sou pó
tenho andado tanto
diabo querendo ser santo
tenho andado cheio
o copo pelo meio
tenho andado sem pai
yo no creo en caminos
pero que los hay
hay
O grande poeta Paulo Leminski batendo ponto no bar

O grande poeta Paulo Leminski batendo ponto no bar

“Beat Memories” – Allen Ginsberg

Burroughs e Kerouac trocam ideia no sofá

Toda quinta, selecionamos artistas underground e projetos pulsantes

O poeta Allen Ginsberg tinha o poder de captar imagens fotográficas com palavras. Mas a caneta não foi seu único instrumento artístico. Munido de uma máquina fotográfica ele retratou seus amigos e companheiros de copo e versos, ninguém menos que Burroughs, Jack Kerouac, Neal Cassidy e outros nomes fodas da geração beatnik.

Jack Kerouac em foto que virou capa do livro

-Conheça a obra-prima “O uivo” de Allen Ginsberg

Siga a gente no Twitter: @punk_brega

Neal Cassady posa na frente do cinema com a mulher

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...