Dinner With Henry Miller – Documentário (1979)

Sexta-feira, nossa sessão de cinema garimpa documentários perdidos na imensidão da web

Achado pelo garimpeiro cultural @ricardolombardi, esse documentário dirigido por Richard Young e John Chesko, em 1979, traz ele – Henry Miller, o escritor que todos nós amamos – comendo, sendo “entrevistado” pela gatíssima última mulher Brenda Venus e falando sobre a vida. Parece chato? Bom, o que pode parecer besteira quando falamos de outros escritores, é justamente o filé mignon da obra de Henry Miller. Em seus livros, as empolgantes elocubrações sobre a vida cotidiana fazem do homem comum o herói de uma jornada instigante.
-Documentário retrata vida e obra de Crumb

Confesso que ainda não assisti o documentário inteiro, mas o que vi já deu água na boca.

Mais sobre Miller:
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-“Trópico de Câncer”: o grande clássico de HM

Fiel aos prazeres da carne até o final

Nosso GG em Havana, Pedro Juan Gutiérrez

O escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez

O escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez

-Outras resenhas de livros

por Fred Di Giacomo

GG pôs a mão no bolso e pegou umas moedas. O homem se despediu imediatamente. A cidade sob a chuva era ainda mais bonita. Olhou o panorama por alguns minutos. Sentiu que a atmosfera estava mais fresca e limpa. Bateram na porta. Traziam uma bandeja de prata com uma garrafa de uísque, gelo, água e copos. Serviu uma dose generosa, com pouca água e dois cubos de gelo, e, sorrindo, parcimoniosamente, brindou a si mesmo olhando para a cidade molhada:

– Bem-vindo a Havana, mister Greene. O senhor é nosso hóspede de honra.

Não espere aqui o Pedro Juan Guitiérrez que escreve com o fígado em “Trilogia Suja de Havana”. Em seu novo ciclo literário – no qual se insere “Nosso GG em Havana” – o cubano escreve com o cérebro. O livro é rápido. As frases continuam curtas. Sexo, sangue e rumba ainda marcam sua presença. Mas essa não é mais uma obra autobiográfica sobre a Cuba contemporânea. Aqui Guitérrez traz uma trama de espionagem e mistério, envolvendo o escritor britânico Graham Green (de “O Americano Tranquilo”). Se for pra traçar um paralelo com Bukowski – com quem Gutiérrez é sempre comparado – este seria o seu “Pulp”, momento em que o velho Buk deixou de lado a autobiografia para se aventurar pelas histórias de detetive fantásticas.

A Cuba de “Nosso GG em Havana” não é nem a ilha dos anos 60, marcada pela revolução de Fidel Castro, e nem o Estado agonizante que muitos retratam hoje em dia. Pela escrita crua de Gutiérrez, nós somos levados ao país pré-revolução, quando cassinos, prostitutas e turistas americanos eram os principais elementos do cenário caribenho. Carrões potentes e modernos rodavam pelas ruas infestadas de gringos. Mafiosos controlavam o jogo e mulatas sensuais enlouqueciam a imaginação.

Capa do livro "Nosso GG em Havana"

Capa do livro “Nosso GG em Havana”

É nesse cenário dos anos 50, que Pedro Juan cria sua trama fictícia – pincelada de situações fantásticas – envolvendo Green, boxeadores decadentes, o famoso e bem dotado Super-Homem, caçadores de nazistas e organizações secretas comunistas. Não tem o mesmo fôlego e inspiração de suas obras anteriores e peca pela “pressa do autor em acabar o livro”, mas é uma dose curta um coquetel que mistura ritmos caribenhos, sangue e sacanagem.

– Leia análise da “Trilogia Suja de Havana”, de Pedro Juan Gutiérrez
– Resenha do livro “Misto Quente”, de Charles Bukowski

O Clube da Luta de Jane Austen

O site do Telegraph e o blog Casmurros avisaram: a nova bizarrice envolvendo a escritora inglesa Jane Austen é essa versão do “Clube da Luta”, cheia de personagens da autora de “Orgulho e Preconceito” quebrando o pau. Primeiro lançaram versões das obras de Austen recheadas de zumbis e agora vemos as damas da sociedade trocando socos ao som de uma trilha a la Tarantino.

“Pulp” – Charles Bukowski – Resenha

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por Fred Di Giacomo


-(…). Eu sou boa.
-Em quê? Sabe estenografia?
-Não, mas faço coisas pequenas ficarem grandes
-Como?
-Você sabe!
-Não, não sei.
-Imagine.
-Balões?
-Você é engraçado.
-Já me disseram.

O texto da contracapa de “Pulp”, na edição da L&PM, começa com a frase “Eis um Bukowski puro-sangue”. Puro-sangue, certo? Não. “Pulp” pode ser facilmente reconhecido como livro de Bukowski porque estão lá seu humor ácido, suas ótimas frases de efeito, os diálogos fortes, os palavrões, a bebida e as mulheres, mas é provavelmente o romance mais atípico do velho Buk. Ao contrário de todos os seus outros romances, “Pulp” não é descaradamente autobiográfico, seu personagem central não é o alter-ego do autor, Henry Chinaski, mas o detetive Nick Belane. Belane tem 55 anos, está acima do peso, é durão, bebe, aposta nos cavalos e está sozinho, depois de três divórcios. Ok, ele é também uma das facetas de Bukowski, mas sua arma não é a máquina de escrever e sim um 32. Ele é um advogado de segunda classe em Los Angeles com problemas para pagar o aluguel e que não é exatamente o melhor no seu ramo, mas tem estilo.

-Leia resenha de “Misto Quente”, livro que retrata a triste infância de Bukowski
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A história começa bem, com uma sensual “Dona Morte” encomendando um serviço surreal a Belane. Ela precisa encontrar Celine, o escritor francês maldito que influenciou toda uma geração de escritores marginais, em especial Bukowski, e morreu em 1961. “Celine está morto” tenta se convencer Belane, mas não adianta ele tentar colocar ordem no que vai acontecer em “Pulp”, cada vez mais seus casos vão ficando obscuros, incluindo alienígenas, uma deliciosa mulher que estaria traindo o marido e principalmente misterioso Pardal Vermelho – uma possível referência a editora de Buk, Black Sparrow, ou ao maior clássico dos livros de detetives modernos, o “Falcão Maltês”.

No entanto, o excesso de referências à subliteratura(a quem o autor dedica a obra) e a fantasia e filmes B, acaba tornando o meio do livro um pouco esquizofrênico, um excesso de sátira que impede que ele chegue ao nível dos melhores Bukowskis como “Misto Quente” ou “Fabulário Geral do Delírio Cotidiano”. É como o caso de Quentin Tarantino em “Kill Bill” ou “Grindhouse”. Tarantino também dedicou um filme (“Pulp Fiction”) ao gênero pulp – revistas feitas com papel de baixa qualidade (a “polpa”) a partir do início da década de 1920, que geralmente tratavam de ficção científica e fantasia. Seus dois primeiros filmes foram aclamados como obras-primas, mas apesar do sucesso de Kill Bill, há um excesso de referências ali que quase soterra o filme. Na ideia de homenagear um gênero menor, o autor acaba fazendo mais uma grande sopa de referências e piadas internas àquele gênero do que uma grande obra.

Bom, mas além de ser o livro mais “pretensioso artisticamente” de Buk, com bons momentos como o sonho maluco que Belane tem no capítulo 17, “Pulp” vale por ser o romance onde o autor se despede da vida. Por trás de todos os personagens frakies e diálogos divertidos, “Pulp” é um livro sobre a morte. Talvez por isso o autor tenha adotado a ficção desta vez. Ninguém pode contar o próprio fim sendo realista. Se em “Misto Quente” ele narra sua infância, em “Cartas na Rua” seu trabalho como carteiro e em “Hollywood” sua experiência como roteirista de cinema, aqui Bukowski nos fala sobre a velhice e o fim da vida(“Pulp” é o último romance dele e foi concluído alguns meses antes de sua morte em março de 1994.) Nisso, ele se assemelha ao livro póstumo, que conta com ilustrações de Crumb, “O Capitão saiu e os marinheiros tomaram conta do navio”, o mais filosófico de Bukowski. E é no final do livro que ele volta a crescer. O capítulo 39 é uma poderosa descrição de como o autor se sente em relação à vida. Começa com Belane entre suas duas clientes gostosas/misteriosas: “Ali estava eu, basicamente, sentado entre o Espaço e a Morte”. E depois “Porque eu não podia simplesmente ser um cara assistindo a um jogo de beisebol?(…) Por que eu não podia ser um galo num galinheiro, catando milho?” Buk nunca conseguiu ser um cara comum, “um galo no galinheiro”, sempre se sentiu um estrangeiro numa sociedade que não fazia o menor sentido pra ele. A vida funcionava como a relação entre Belane e os mendigos que lhe pediam dinheiro: “Às vezes eu dava e às vezes não”.

Como termina a contracapa citada no começo dessa resenha: “Tomara que a morte estivesse linda, gostosa e sexy – como está nesta história- quando encontrou o velho Buk poucos meses depois de ter posto o ponto final nesta pequena obra-prima”.


“Sempre fui de perna. Foi a primeira coisa que vi quando nasci. Mas então eu tentava sair. Desde então, tenho me virado no sentido contrário, e com um azar dos diabos.
Charles Bukowski, Pulp.

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Misto-Quente, Charles Bukowski

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A VIDA COMO ELA É: Resenha do livro Misto-Quente

Retrato autobiográfico do nascimento de um gênio marginal

“Éramos uma piada, mas as pessoas tinham medo de rir na nossa frente.”
Charles Bukowski, Ham on Rye.

Ok, o garotinho se chama Henry Chinaski, mas poderia se chamar Fred Di Giacomo, Eduardo Moraes, Charles Bukowski ou qualquer outro nome de garoto(a) que nunca foi o mais bonito(a) da classe, nunca foi o primeiro a ser escolhido no jogo de futebol ou já passou um recreio sozinho. Como todo mundo de carne e osso Henry também é um perdedor e a escola é seu purgatório pessoal. Seu pequeno inferno. Freud deve ter algum estudo sobre os efeitos devastadores da escola na personalidade e ego das pessoas. Humilhações, repressão e castigos são o que você suporta durante pelo menos dez malditos anos da sua vida, e nos Estados Unidos o negócio parece ser pior. Numa terra onde status é tudo, o universo escolar é dividido entre os perdedores (os losers) e os “caras legais”. Não há meio termo; ou você está com eles ou eles estão contra você. Tive uma conversa com meu primo Joe (que nasceu e mora nos EUA) sobre a “high school” e ele realmente tinha pavor, não é à toa que os americanos saem matando seus coleguinhas de classe. Não é à toa, que em sua música “School”, Kurt Cobaintenha se limitado a gritar “Vocês não vão acreditar, é a minha sina. Sem recreio. Você está na minha escola outra vez”.

Perdedor, Chinaski é um perdedor. No entanto, isso não faz dele um coitadinho. Ele sacaneia os outros assim como a vida o sacaneia. O alter-ego de Bukowski (como em quase todos os livros do “velho tarado”, essa é uma história autobiográfica) não teve muita sorte na vida. Sua família tem o alcoolismo no sangue, seu pai o espanca e sua mãe é uma estúpida histérica. O moleque não tem meias palavras: “eu devo ter sido adotado”. Seus pais o proíbem de brincar com os garotos da rua. (“Eles pensavam que nós éramos ricos”) A vizinhança é imunda, um bairro pobre de Los Angeles, para onde os Chinaski se mudaram logo depois que chegaram da Alemanha. Na escola não há muita esperança, Henry tem poucos amigos e é sempre o penúltimo a ser escolhido para o time de beisebol, sua principal preocupação é se segurar para não ir ao banheiro. ( “Eu chegava em casa e não tinha mais vontade de ir ao banheiro, o cocô já tinha endurecido dentro de mim”)

A linguagem é direta, seca. Socos no estômago do leitor são distribuídos a cada página, mas com um maldito humor negro e a tão comentada ironia. Isso diferencia “Misto-Quente” de outros clássicos sobre a juventude americana. Ele é uma versão underground de Tom Sawyer, um primo distante de Huck Finn. Vive num terreno arrasado pela depressão como o de “Ratos e Homens” de Steinbeck. O livro chegou mesmo a ter sua importância comparada pros anos 80 com a de “O Apanhador no Campo de Centeio” pros anos 50. Sem seu humor, Bukowski teria estourado a cabeça antes de publicar qualquer coisa. Ele foi um autor que não se contentou com as “verdades” dos livros, leu como um desesperado, mas também viveu a vida desesperadamente. As salvações para o moleque são essas: A ironia e os livros…

Um dia Henry tem que ir ver o discurso do presidente para fazer uma redação da escola. Ele sabe que se não cortar a grama naquele sábado seu pai vai surra-lo como sempre. O fedelho decide, então, inventar um discurso, com toda a pompa e todos os detalhes. A professora lhe dá dez e pede que leia em voz alta. Ele descobre um talento (“(…) era isso que eles queriam: Mentiras. Mentiras maravilhosas. Era disso que precisavam. As pessoas eram idiotas, seria fácil pra mim.”) Aos poucos aquele moleque vai reunindo em torno de si outros desajustados, freakies, losers como ele. (“Eu era como um lixo que atraía moscas, ao invés de uma flor desejada por borboletas e abelhas”). Ele começa a ganhar algum destaque, mesmo em meio a todos os seus problemas, como define com uma passagem mais ou menos assim: “havia alguma coisa dentro de mim, eu sabia, podia ser todo aquele cocô endurecido…”. Chinaski vira um durão, era isso o que ele mais desejava. Podia não ter as garotas (e ele realmente se dá mal com elas, eternamente virgem e sempre desperdiçando as oportunidades que surgem), mas ganhou algum respeito. Aos poucos vai se embrenhando em uma vida marginal de vadiagem, álcool e brigas que contrapõe-se com seu talento florescente para a literatura. Ele estava sozinho, mas tinha os livros. Era mais um daqueles garotos que passavam horas se divertindo sozinho, brincando com seus amigos invisíveis, criando suas próprias histórias que aos poucos vão ganhando o papel.

Chinaski não tinha um pai? Certo, mas ele tinha Hemingway e Dostoievsky. Com o escritor russo ele aprendeu: “Quem não quer matar seu pai”? O complexo de Édipo rodeia Chinaski por toda a obra. “Ele” é o cara sacana, “Ele” é o responsável por seu sofrimento, “Ele merece” morrer. Esse ódio por seu pai (na realidade um alcoólatra violento) permeia toda a obra do velho “Buk”, e é outro dos sentimentos mais antigos da humanidade, estudado por Freud como uma das raízes dos principais tabus da nossa sociedade. Essa capacidade de transformar o dia a dia em poesia, de pegar as bebedeiras triviais, as angústias adolescentes e transformá-las em arte é a mágica de Bukowski. Sim sua linguagem é chula, ele fala de sexo o tempo todo e não finaliza com chave de ouro, mas isso não é o que importa. Aliás no mundo de “South Park” falar palavrão não assusta mais ninguém. Tire todas “bucetas” e “merda” do texto e você ainda terá um livro genial. O que importa é seu retrato do homem comum.. O resto é excesso.

Misto-quente(Ham on Rye), publicado originalmente em 1982.

Fred Di Giacomo, brincou tanto de criar histórias que acabou passando-as pro papel no livro “Canções para ninar adultos”
26/05/04

-Frases de Charles Bukowski

 

O pico de Allen Ginsberg com Sid Vicious no Inferno

(Ficou assim)

O pico de Allen Ginsberg com Sid Vicious no Inferno
Existe coisa mais junkie,
Que poesia beat
E música punk?

(Era assim)
Existe coisa mais junky,
Que música beat
E poesia punk?

sidtoy

 

Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais

Micro-resenha1: Hamlet, Príncipe da Dinamarca, William Shakespeare *****


Li “Romeu e Julieta” quando tinha uns 12 ou 13 anos e não me lembro muito das impressões. Fiquei um bom tempo longe do Shakespeare e hoje, dez anos depois, fui ler Macbeth pra variar um pouco minhas leituras que estavam quase 100% “beat + gonzo + literatura marginal”. Achei bom, mas não genial, fiquei com uma pontinha de “mas Shakespeare é só isso” na cabeça… E aí, fui ler “Hamlet”. E não precisei de mais nenhum argumento a favor do careca inglês. Estão lá todas as frases que viraram clichê: “Ser ou não ser”, “Há algo de podre no reino da Dinamarca”, “Há mais coisas entre o céu e a terra do que pode supor sua vã filosofia”. Está lá todo uma estrutura da busca de vingança que se torna tragédia que foi repetida centenas de vezes depois. Hamlet é o príncipe inconformado que não aceita que sua mãe tenha se casado com irmão de seu pai logo depois do patriarca ter morrido, supostamente picado por uma cobra. Quem irá alertar Hamlet sobre a falsidade da história é o próprio espectro de seu pai em busca de justiça. Na busca por vingança, Hamlet acabará destruindo a família de sua amada Ofélia, provocando uma busca pela “vingança da vingança”, 500 anos antes do filme coreano Old Boy e seu intrincado roteiro de vendeta.

-Assista um trecho do filme Hamlet!

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