Garoto Alado

asas

por Fred Di Giacomo

Suvenir City era uma cidade pequena, onde novidades voavam com velocidade da luz. Algumas novidades voavam com velocidade do som e outras preferiam voar de avião mesmo. A última grande notícia fora a do menino com asas. Ele era um daqueles tipos estranhos, sempre sozinho no recreio, ruim de bola e grudado em livros. Um dia levantou da cama com um sobretudo preto. Seus pais estranharam. Lembraram-se dos massacres de alunos ocorridos nas escolas americanas. A tal “máfia do casaco”: garotos excluídos pelos colegas vestiram-se com sobretudos negros e abriram fogo dentro da escola. Um horror. Ficaram com medo e o pai preocupado tratou de ter um diálogo franco com o filho:

_ Filho, você está se sentindo bem?
_ Sei lá, pai, estou meio diferente…
_Drogas?
_ Pai, eu nunca nem bebi.
_ Ah, não? Certo… Continua virgem?
_ Pai, eu nunca nem beijei uma menina…
_ Ah, certo. Bem… Você vai matar alguns coleguinhas hoje?
_ Não pai, eu não tenho nenhuma arma. E eu tremo demais. Se fosse matar alguns alunos provavelmente atiraria no meu pé…
_Correto, então acho que está tudo bem. Tome seu café, senão vamos nos atrasar, eu te dou uma carona.

Café com leite tinha gosto de café com leite. Para o menino com asas tinha gosto de angústia. Leite com chocolate tinha gosto de tristeza. E café preto tinha gosto de ódio. Naquela manhã, achou o café com leite muito bom e sentiu um gostinho de luz no fim do túnel bem aprazível para uma manhã nublada. Manhãs nubladas tinham cheiro de nostalgia e forma de velhas fotos preto-e-branco.

Menino alado saiu de casa com sobretudo piche e entrou no carro do pai. Menino alado tinha sentido um comichão nas costas algumas semanas atrás. Menino alado entrou na escola, subiu na caixa d’água e voou alto. Ninguém entendeu. Acharam que eram drogas ou que ele era veado. Chamaram a polícia e os bombeiros. Chamaram o padre e um psicólogo. Chamaram também uma pizza. Meia aliche, meia calabresa como o diretor do colégio gostava. Menino alado voou alto, por entre os prédios de Suvenir City. Via o mundo diferente lá de cima. Cantou What a wonderful world, flutuando sobre dEUS.


O diretor parecia desesperado e gritava para que o moleque descesse. Um promotor veio ver se o menino tinha alvará ou brevê. Multou-o em trezentos euros ou 900 reais. Multou a escola também. O diretor ficou desesperado e arrancou os fios de cabelo da careca. Depois, um juiz revogou a sentença, porque não existia brevê ou alvará para meninos alados. A escola até lucrou um pouco com a propaganda. Muitas crianças achavam que estudando lá iriam sair voando. Tudo isso foi depois, na hora, o diretor careca devorava a pizza meia aliche, meia calabresa, bufando e gritando para o moleque descer. Ele nem escutava, só queria agora a língua dos anjos.

O capitão da polícia ligou para o governador, que preferiu se abster, como sempre. Os políticos estão sempre em cima do muro em questões isentas de benefícios. Quando não se recebe por uma decisão é melhor abster-se. Passaram-se horas e o capitão sem saber o que fazer. Na dúvida, seguiu as ordens do diretor careca.
_Atire nesse moleque, ele é um terrorista, ele é um terrorista!_ Gritava com a boca cheia e as mãos engorduradas. Achava que era um atentado em Suvenir City, como o que vira na televisão: os árabes tinham derrubado duas torres com aviões tripulados, nos Estados Unidos. Quem sabe o menino não quisesse derrubar o coreto ou a fonte com suas asas? Atiraram: seis tiros de pistola, seis de trinta e oito e dois de escopeta. Erraram quase tudo. A polícia brasileira não tem o treinamento específico para acertar crianças com asas. Um tiro, no entanto, varou as asas do garoto… Ele foi caindo em direção ao horizonte, caindo e desapareceu fundido ao sol.

Ninguém sabe se está vivo ou não. Nunca voltou a cidade. E quem por ventura ganha asas as mantêm bem escondidas com jaquetas de couro e sobretudos pretos. Mesmo no verão, que em Suvenir City é bem quente.

Fred Di Giacomo é escritor e jornalista multimídia. O conto “Garoto Alado” faz parte do seu primeiro livro “Canções para ninar adultos“, lançado em 2012 pela editora Patuá. “Canções” foi publicado  em um formato inspirado nos velhos compactos de vinil e é dividido entre Lado A (com contos fantástico) e lado B (com contos mais marginais). Fred também é autor do infantil “Haicais Animais“, criador do projeto Glück – uma investigação sobre a felicidade e autor do roteiro de diversos jogos e newsgames.

O homem que colecionava dedicatórias

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Algumas pessoas colecionam selos, lágrimas, tampas de garrafa, sonhos, maços de cigarro ou discos. Já conheci até quem colecionasse embalagens de pasta de dente. Eu coleciono livros. Ou melhor, dedicatórias em livros. Sempre fui fascinado pelas frases que as pessoas escrevem quando dão um livro de presente. Deve ser porque não conheci meu pai direito… Explico: o velho morreu quando eu tinha três anos. Deixou-me, no entanto, um exemplar de a Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, com uma dedicatória que dizia: “Para meu filho, Pietro, um livro que marcou minha infância. Um dia você será um homem e então desbravaremos os 7 mares juntos. Com amor, seu pai”.

Um ataque cardíaco o matou pouco depois e, obviamente, nunca desbravamos os sete mares. Na verdade, nunca saí do Brasil, apesar de ter viajado bastante pelo país rodando sebos e lojas de artigos usados atrás de dedicatórias interessantes para minha coleção. Detalhe tragicômico: tampouco aprendi a nadar, o que me impediria de desbravar qualquer riacho, quanto mais os sete mares.

Criei um modo peculiar de catalogar meus livros: separo-os por temas de dedicatórias. Dedicatórias de amor estão nas primeiras prateleiras; depois, vêm as de amizade, as de parentes e as de autores famosos. Geralmente as pessoas não entendem o que um volume de Paulo Coelho tem a ver com um do Mia Couto ou outro do John Fante; muitos até ficam bravos e chocados com o fato de eu ter, em minha coleção, obras tão ruins quanto Carta entre amigos, do Gabriel Chalita, e O primeiro terço – talvez o pior livro da geração beat, escrito pelo anti-herói Neal Cassady. (Cassady, na verdade, foi mais bem-sucedido como “muso” de seus contemporâneos, inspirando obras de Bukowski, Allen Ginsberg e Jack Kerouack). Mas a mim pouco importa se são livros geniais ou medíocres – são as dedicatórias que me deixam apaixonado. Vejam só: em um livro considerado por todos literariamente nulo como Homens são de Marte e as mulheres são de Vênus, eu achei uma das dedicatórias mais interessantes que já vi:

“Querida Leitãozinho, comprei este livro para você com a esperança de que entenda como os homens são seres realmente desprezíveis e absolutamente diferentes de nós, mulheres. Espero que, lendo um livro bobo como este, você perceba que não há nada mais natural do que uma mulher se apaixonar por outra mulher. Não é pecado, mesmo que seus pais a façam pensar assim. Nosso amor é a coisa mais linda que existe; não há motivo para escondê-lo.
Beijos, meu leitãozinho rosa. Da sua pianista.”
15/03/2001.

Quem seriam essas mulheres? Teria a “Leitãozinho” (não riam, nenhum apelido romântico escapa do ridículo, vocês bem sabem) se convencido de que os homens são realmente os seres mais desprezíveis da face da Terra? Teria a “pianista” conseguido convencer a sua amante a desencanar dos mandamentos dos pais?

Essas dedicatórias sem nome deixavam-me ainda mais intrigado. Quando a dedicatória vinha com um nome completo, muitas vezes eu procurava pela pessoa numa busca pela internet ou na lista telefônica. Cheguei a ter uma coleção de mais de dez livros com dedicatórias de uma mesma família. E uma outra, quase tão grande, de um casal que vivera um romance entre os anos 60 e 80. Acompanhei pelos livros o namoro hippie construído com Eros e Civilização, do Marcusse. e A Erva do Diabo, de Castañeda. O casamento celebrado com uma bela edição de Macunaíma, de Mário de Andrade, em formato grande, capa dura e ilustrada. Separaram-se na época das eleições presidenciais de 1989; o marido aparentemente tinha “encaretado” e a mulher, fiel aos velhos ideais, se decepcionara com ele. O sujeito deu para a esposa um livro da fase parnasiana (e ruim) de Manuel Bandeira com uma dedicatória seca:“As mais belas poesias que um salário medíocre pode comprar. Beijo.”

E ela o presenteou com “El libro de los abrazos”, do Eduardo Galeano, precedido da dramática frase:
“Um livro para abraçar o menino que queria mudar o mundo e tentar despertá-lo dentro desse homem cinza que deixa a falta de dinheiro lhe tirar o sono e os sonhos. Abraços.”

Passei tanto tempo me debruçando sobre as dedicatórias que o óbvio aconteceu: me apaixonei por uma delas. Era, talvez, a coisa mais triste que já lera na vida. Uma dedicatória que uma garota escrevera para si mesma. Aquilo me pareceu a coisa mais solitária do mundo. Uma pessoa se autopresentear, num Natal fracassado, e escrever uma dedicatória tão…

“Não chore, menina – as coisas ainda vão melhorar.
Não desista, menina – você tem talento, um dia eles vão ver.
Não os ouça, menina – você pode escrever.
Não trabalhe tanto, menina – um dia a fábrica inteira vai saber que você não é só uma secretária.
Não odeie seu pai, menina – é difícil ele aceitar que o mano virou irmã.
Não sinta vergonha, menina – você não tem culpa de aquele nojento ter mexido com você; você fez tudo que pôde para ele não tocá-la, mas ele tinha uma arma.
Não pense que você é louca, menina – um dia um príncipe encantado vai aparecer.
Não se sinta ridícula – príncipes encantados existem. Pelo menos essa ideia enche nosso coração de esperança.

Feliz Natal, menina – sim, já é Natal. E este é o presente que você comprou para si mesma. Assim você não estará sozinha. Você vai estar acompanhada do maravilhoso Caio Fernando Abreu e deste Ovo Apunhalado.
Ana Paula dos Anjos, 25/12/05.”

Uma “autodedicatória”, num Natal solitário, parecia roteiro de um filme melodramático ou letra de tango. Era realmente muito triste, e meus olhos marejaram. Eu quis conhecer aquela menina, dizer-lhe que ela não estava sozinha. Que eu havia lido aquela dedicatória infinitamente triste e compreendia aquele sentimento. Que eu era o maior colecionador de dedicatórias do mundo e que nenhuma, nem mesmo a de Érico Veríssimo à Clarice Lispector, havia mexido tanto comigo. Aquilo fora escrito havia apenas dois anos; a menina devia estar viva ainda, provavelmente em São Paulo. Mas agora ela não tinha mais nem sua edição de O Ovo Apunhalado para acompanhá-la. Será que ela havia se tornando uma escritora? Procurei seu nome no Google e em sites sobre novos autores, mas não achei nenhuma Ana Paula dos Anjos. Será que ela continuava trabalhando como secretária numa fábrica? Mas havia tantas fábricas em São Paulo, e tantas secretárias, que seria impossível localizá-la só a partir dessa informação. Tornei-me obcecado por aquela dedicatória – decorei todas as linhas e ainda as anotei em diversos lugares diferentes para não correr o risco de esquecê– las. Era impressionante como poucas palavras podiam trazer tantas imagens fortes como aquelas. Havia um emprego ruim numa fábrica, um pai que não aceitava o filho homossexual, um estupro ou tentativa de estupro, e dois desejos clássicos: o reconhecimento como escritora e a descoberta de um grande amor. Era um roteiro maravilhoso para um livro. Eu que havia lido muito, graças ao meu hobby, sabia que aquela era uma boa história. Se eu tivesse mais talento poderia escrevê-la e publicá-la. Quando eu alcançasse sucesso, a menina, que tinha um interesse literário evidente, tomaria conhecimento e viria tirar satisfações:

— Como você teve coragem de se tornar um escritor usando a história da minha vida?
E eu explicaria que era apaixonado por ela, lhe cederia metade dos direitos autorais e financiaria seu livro com os lucros. Viveríamos felizes; ela escrevendo e eu colecionando dedicatórias em seus tomos.
***

Descobri aquele livro no final de 2006. Quase um ano se passou e Ana Paula dos Anjos ainda era um mistério para mim. Tinha rodado todos os sebos de São Paulo e mais as cidades do interior, Rio de Janeiro e Pernambuco atrás de alguma dedicatória que pudesse me dar uma pista. Enfim, resolvi que para me livrar daquela angústia precisaria de ajuda profissional. Pode soar ridículo, mas confesso que liguei o computador e procurei por um detetive particular. “Será que ainda existiam detetives particulares?”, pensava. Isso parecia coisa tão antiga, um clichê saído de filmes preto-e-branco e livros baratos… Fato era que não sabia mais o que fazer. Não poderia dar queixa na polícia sobre o desaparecimento de uma menina que eu nem conhecia. Nem sabia como era seu rosto, mas não me importava – eu a amaria mesmo que ela fosse horrível. Cheguei a pensar que a amaria mesmo que ela fosse um homem, mas me envergonhei desse pensamento. A pesquisa no Google revelou centenas de escritórios de detetives particulares. Sim, eles ainda existiam. Um deles me chamou a atenção pelo nome:
“Dos Anjos Detetives: Investigações conjugais, empresariais, flagrantes, localizações de pessoas, entre outras. Atuamos em São Paulo e região.”
Será que o próprio dono da agência era parente da Ana Paula? Bom, isso seria muita sorte! O sobrenome dos dois era o mesmo e aquela parecia ser uma empresa menor – e, consequentemente, mais barata – que as outras. Anotei o endereço num cartão de livraria e fui dormir. Naquela noite tive um sonho e me lembrei dele ao acordar. Isso é raro. Costumo não dar muita atenção para meus devaneios pouco criativos, que não passam muito de fantasias eróticas ou situações constrangedoras nas quais apareço pelado em público. Nada digno de nota ou que escape dos clichês. Tantos livros lidos, tantas ideias vazias. Mas nessa noite sonhei com dedicatórias. Em meio ao pó e fitas VHS, eu reencontrara o antigo tomo de A Ilha de Tesouro que meu pai me dera, perdido num sebo gigante, no centro de São Paulo. Aquele sebo possuía todos os livros do mundo, e cada livro continha – numa dedicatória – um momento memorável da vida de cada ser humano que habitou nosso planeta. Era uma bizarra babel de declarações de amor, ódio, separações, presentes de dia dos namorados e tardes de autógrafos. Aquilo, para mim, era como um imenso supermercado doando comida grátis. Autoajuda, romances policiais, biografias, histórias pornográficas – todos os volumes do mundo se acumulavam em estantes quilométricas que pareciam ter sido pinçadas de um conto de Borges. Mas o tempo era escasso. Batiam quinze para as seis da tarde e o sebo iria fechar em breve. Não poderia garimpar muito ali. Anos atrás, eu havia escrito uma dedicatória emocionada, respondendo as linhas do meu velho sobre navegar os sete mares, e doado a obra para uma escola. Resolvi folhear suas páginas novamente:

“Pietro… Quantos anos será que você tem hoje? Que história triste a sua… Um menino colecionando dedicatórias. Deixei a minha num livro de Caio Fernando Abreu. E a esqueci num sebo. Uma dedicatória que escrevi para mim mesma e achei que fosse a coisa mais triste do mundo. Mas você escreveu uma para um pai morto e passou a vida toda colecionando fragmentos da vida alheia. E isso me parece infinitamente desolador e triste. Gostaria de te encontrar algum dia e lhe dizer que entendo sua solidão. Quem sabe já não ficamos lado a lado em algum sebo da Augusta?
Carinho,
Ana Paula 25/12/2006”

Ilustração para o livro "Canções para ninar adultos" coloca Saramago, Lewis Carrol, Borges e Kafka estrelando a capa do disco "Secos e Molhados"

Ilustração para o livro “Canções para ninar adultos” coloca Saramago, Lewis Carrol, Borges e Kafka estrelando a capa do disco “Secos e Molhados”

Qual era a possibilidade de aquilo acontecer? Ela havia me encontrado! Naquele mar de mensagens esperançosas e juras de amor, Ana Paula tinha encontrado um pedaço de mim e tatuado nele suas impressões. Era gozado como eu me sentia menos só. Alguém captara a tristeza mesquinha que eu sentia por ter perdido o pai. Não me importava se eu nunca iria encontrá-la, se ela era casada ou se eu descobrisse que Ana Paula dos Anjos era a maior baranga do Brasil. Eu precisava encontrar aquela mulher e partilhar com ela minha dor. Deixei uma nova dedicatória no seu livro:

“Ana Paula, li suas dedicatórias, tanto no livro do Caio Fernando Abreu, quanto na Ilha do Tesouro. Gostaria de saber o que você faz da vida hoje, se saiu da fábrica, se conseguiu se tornar uma escritora. Seu pai aceitou seu irmão? Passei um ano inteiro atrás de você só pra descobrir que você estava atrás de mim. Se você encontrar esse Ovo Apunhalado novamente, e reconhecê-lo como seu companheiro naquele Natal triste de 2005, não hesite em me ligar. Mesmo que os anos já tenham passado, mesmo que você esteja casada e mãe de três filhos. Mesmo que você seja uma romancista rica e famosa. Deixo aqui meu endereço, telefone e e-mail. Já não coleciono dedicatórias. Apenas abro os livros, esperançoso de que neles haja uma mensagem sua, como uma garrafa solta no mar. Apenas um sinal que me faça continuar buscando”.
Com amor,
Pietro, 18/09/2007
***

Sonhos não mentem, achava eu. E, na manhã seguinte, acordei destinado a ir até a Consolação atrás dos detetives. Parecia que minha vida se tornaria uma aventura noir, como os livros de Chester Himes. Imaginava que as ruas da zona Sul se transformavam no Harlem dos anos 60 e eu estaria próximo de entrar no escritório decadente de dois detetives durões.

Nem três quarteirões andara, quando uma música muito triste martelou forte minha espinha. Ela era soprada duma casinha simples, mas bem-conservada, que devia estar de pé há pelo menos 60 anos. A voz do rádio era grave, dramática e fora de moda. Por trás daquele portão baixo, que revelava uma jardim meticulosamente cuidado, habitado por gordos girassóis e margaridas raras, emanava uma canção com cheiro da minha infância, uma canção que meu avô ouvia em sua potente vitrola, quando não assistia aos filmes de Bud Spencer e Terence Hill. Cessou o som mecânico e uma bela voz de mulher jovem me rasgou no meio. Como se a banda ainda tocasse, aquela voz enchia o bairro com sua melancolia, e atualizava, para os dias de hoje, uma música quase brega, sobre como uma cadeira vazia lembrava o pai morto. A menina parecia cantar sozinha, enquanto realizava alguma tarefa doméstica, mas era impossível enxergá-la por aquele ângulo. Apenas sua voz reinava no espaço.

Parado diante do portãozinho azul, o tempo correndo sem que notasse – eu não conseguia ficar triste. Só conseguia ouvi-la. Imóvel e dolorosamente apaixonado.

2008-2011

Fred Di Giacomo é escritor e jornalista multimídia. O conto “O homem que colecionava dedicatórias” abre seu primeiro livro “Canções para ninar adultos“, lançado em 2012 pela editora Patuá. “Canções” foi publicado  em um formato inspirado nos velhos compactos de vinil e é dividido entre Lado A (com contos fantástico) e lado B (com contos mais marginais). Fred também é autor do infantil “Haicais Animais“, criador do projeto Glück – uma investigação sobre a felicidade e autor do roteiro de diversos jogos e newsgames.

3 fábulas chinesas saídas das quebradas

1.

O Bola se achava o maioral da quebrada porque controlava a maior parte das biqueiras da Vila. Um dia ele se assustou ao ver o franzino Mãozinha com a morena mais linda do culto. “Como é que aquele cara tão desmilinguido (e sem uma mão!!!) podia andar com uma deusa daquelas?” Bola era mais forte, mais bonito, mais valente e melhor de futebol que o Mãozinha. Ele infernizava o rapaz desde pequeno – aquela afronta não podia ficar assim.

Bola decidiu que iria conquistar a morena mais bonita da quebrada pra ele. No primeiro dia, Bola levou flores pra morena, mas ela disse não. No segundo dia, Bola levou chocolates pra morena e ela disse não. No terceiro dia, Bola levou um pequeno colar pra morena e ela disse novamente não. Irritado, o rapaz não teve dúvida: forçou a pobre morena a satisfazer-lhe as vontades ali mesmo, na casa do Mãozinha.

Bola sentia-se seguro violentando a mulher do aleijão porque sabia ser mais forte e mais valente. Ele não sabia, no entanto, que o Mãozinha chegaria mais cedo naquele dia, nem que o maneta seria corajoso o suficiente para descarregar o trezoitão em sua cabeça gorda. Seus miolos espirraram na parede, no exato momento em que seu prazer espirrava de seu corpo suado.

Bola esqueceu que ele – apesar de valente, bonito, forte e bom de futebol – não tinha o peito de aço.

2.
Galeguinho gostava de fumar um do bom pra ficar chinesinho. Enquanto seu amigo Larica dizia que o mato lhe deixava louco, Galeguinho achava que ficava mais inteligente. “A fumaça na cuca é um anabolizante para os neurônios”, pensava ele.

Um dia, Larica tomou chá de cogumelo e contou pro Galeguinho que o efeito era cem vezes mais forte que o do causado pela maconha. Isso deixou o  jovem ambicioso muito animado: “Ficarei cem vezes mais esperto bebericando esse chá!”.

Depois da chuva vem sempre o cogumelo de Zebu, e Galeguinho se fartou do psicodélico chá. Em seu sonho maluco, Galeguinho sonhou que era uma borboleta voando pelos campos da China. Quando acordou, Galeguinho não sabia se era o Galeguinho que sonhara ser uma borboleta ou se era uma borboleta sonhando ser Galeguinho. Talvez a borboleta fosse o Galeguinho! E talvez o Galeguinho fosse a borboleta!

O rapaz acabou no manicômio judiciário de Franco da Rocha.

3.
O cabo Du sempre pedia uma coxinha e um pastel na venda da Dona Isabel. Dona Isabel – que tinha 5 filhos e era viúva – explicava que não podia vender fiado, mas o policial prometia proteção em troca da boquinha grátis. Num dia ensolarado, 7 moleques da turma do Vandinho entraram na venda da Dona Isabel e levaram tudo. Desesperada, a pobre viúva foi pedir proteção para o cabo Du.

“Sinto muito, Dona Isabel, mas a turma do Vandinho tem as costas quentes. Não posso fazer nada. Na próxima, eu adianto o teu lado.”

Dona Isabel assentiu, humilde, com a cabeça preenchida por cabelos brancos. Na próxima vez que colou na vendinha, o cabo roliço devorou seu pastel de frango com goles gordos de guaraná Super Plá e deixou a coxinha pro final. O crocante surpresa da delícia salgada era caco de vidro moído que encheu a goela do cabo de sangue e rasgalhou-lhe as tripas, mandando-o embora de rabecão.

Na hora da agonia, o polícia rezava e implorava para que Deus o salvasse, mas nosso Senhor fingiu-se de besta porque aprendeu há anos que não se deve dar moral aos mentirosos e vacilões.

Entrevista com Nelson Triunfo: pioneiro do rap nacional fala sobre educação, Facção Central e literatura marginal

Entrevista realizada originalmente para o Zine Kaos, em 2004, feita quando o ativista do hip hop, b.boy e cantor, Nelson Triunfo, dançou ao lado da Nação Zumbi, em show no dia do trabalhador, no Sesc-Bauru.

***

Neson Triunfo dança break em show da Nação Zumbi, Bauru. Foto: Renato Bueno

1)Qual a importância dos fanzines na cultura hip hop?
Nelson Triunfo
– Ele é importante não só para o hip hop, mas pro rock, pro reggae, pra outras comunidades, outras tribos. Contanto que seja um fanzine que tenha informação e passe a informação correta.

2)O que você acha dessas novas bandas, como Facção Central, que tem uma linguagem mais pesada?

N.T.– Cara, faz parte. Eu particularmente não escuto muito não. Porque eu sou um cara que não gosta da coisa que fala só do pesado, eu já tive vários problemas e isso me lembra algumas coisas que eu não gosto muito. Então eu procuro viver o melhor da vida, eu procuro o lado mais positivo.

3)Qual a diferença do cara que só canta rap e do que atua no movimento hip hop?
N.T.- Cada um faz uma coisa. No caso do meu trabalho eu sou muito ligado ao lado educativo, ao lado cultural. Eu me sinto feliz em poder orientar as pessoas, fazer workshops. Isso é o hip hop. Tem outros que são artistas mesmo, que sobem no palco, e só fazem show e gravam cd pra lá e pra cá. Eu não sou contra eles, até porque trabalhar o social não é só querer fazer. Você tem que ter um preparo sobre isso, porque muitas vezes você querer se meter a fazer esse trabalho, sem ter o know-how, sem ter o conhecimento pode até atrapalhar a pessoa, passando a informação errada.

4)Como é que você enxerga a literatura da periferia, que é uma coisa que vem crescendo muito?
N.T.– Isso é muito bom.Como é que nós vamos educar nossos jovens, se o livro não tem a realidade deles? Porque, então, eles vão numa oficina de hip hop por livre e espontânea vontade, mas não vão à aula. As próprias professoras pra eles às vezes são bruxas. E isso é complicado. Você vê, meu filho tem doze anos e ontem nós fizemos um show aqui, (onde) ele foi o cabeça do show todinho. Tudo isso é interessante pra ele. Ele faz o show como se estivesse jogando vídeo game. A primeira vez que eu pus ele no palco eu quase chorei de emoção. Eu digo: “Meu Deus o que eu to fazendo com ele aí. Ele quer fazer isso, mas não tem responsabilidade, será que ele vai errar?” E ele tava orientando a banda como tocar… Aí, eu fui vendo que pra ele aquilo ali era diversão, né cara?

5)Pra encerrar, o que você achou de ter participado do show com a Nação Zumbi?
N.T.– A Nação quando começou, o Chico Science gostava muito de mim. Ele sabia que eu era de Pernambuco e quando ele era moleque eu já fazia som com James Brown, Toni Tornado e todo mundo que vinha aqui. E lá (em Pernambuco) eles são pessoas que lêem muito. Eu era do interior, né? Com 15 anos, eu sabia falar sobre o mundo. Conhecia os mapas, os rios. Eu sempre fui 1o. da classe, não talvez porque eu era o mais inteligente, mas porque eu estudava. Eu era um “papa-conhecimento”, tinha isso pra mim como um desafio. E até hoje eu leio muito.

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Reportagem Kaótica: Fred Di Giacomo, ECM e Renato Bueno(foto). 01/05/2004

Confira a performance de Nelson Triunfo no clássico clipe “Senhor Tempo Bom”, de Thaíde e DJ HUm

Jazz: Vontade de matar ao som de Count Basie – conto

Essa versão atualizada de “Jazz: Vontade de matar ao som de Count Basie” foi publicada originalmente no livro de contos “Canções para ninar adultos“, de Fred Di Giacomo, lançado pela editora Patuá no final de  2012. A história faz parte do lado B do livro.

O gênio do jazz Countie Basie

“Sangue fresco tinha gosto de Bourbon”. Gostava de lamber o sangue depois de matar. Fazia-o lembrar de suas raízes animais. Depois poderia voltar a ser o “homem bom”. Depois poderia voltar a ser Humano. Irritava-o fingir no imenso teatro de mentiras que é a vida. Na peça da sua existência representava um cirurgião-dentista. Queria ser médico, mas o vestibular era muito difícil. Queria ser médico, gostava de sangue. Isso se via logo de cara. Lambuzava-se. Deixou vinte e cinco reais no quarto, beijou a boca da puta e foi embora.

As ruas de São Paulo eram imundas e cheias de gente feia. Pessoas com cara de cocô, pareciam montes de merda ambulante. Pelo menos estavam em paz com os animais internos. Corja de assassinos e ladrões arrastando-se pelas sarjetas. Queria estar em Porto Alegre… Uma loira fenomenal do outro lado da rua. Cara de safada. Óculos escuros, batom vermelho, salto alto. Vestidinho sacana demarcando a bunda. Pernas fabulosas e seios vulcânicos. Silicone. Brasileiras não têm peitos daqueles. Talvez seja gringa. Não, as gringas não têm uma bunda daquelas. Meu Deus, como rebolava!

Odiava silicone, tinha gosto de plástico. Gostava de rasgar a carne na boca e sentir as hemácias explodindo com o contato dos dentes. Era um sádico – tinha vontade de estuprar a loiraça ali mesmo, no meio da rua. Encostá-la na parede, rasgar sua calcinha e currá-la no meio da multidão com cara de cocô. Essa ideia passava pela cabeça de metade daqueles “homens bons”. A maioria deles estupraria uma dona daquelas se a sociedade não os jogasse atrás das grades por isso. A maioria rezava para que acontecesse uma guerra ou o fim do mundo para estuprar as mulheres que nunca iriam comer.

Nosso amigo: baixo, magro, brasileiro de nascença, óculos quadrados, aros negros. Nosso amigo: ser humano do sexo masculino, cirurgião-dentista. Nosso amigo: R.G. 43.466.247-9. Nosso amigo era um cidadão respeitável. Sua mulher chamava-o de “chuchu”. Sua filha dizia que ele era o “melhor pai do mundo”. A empregada dizia que ele era justo e respeitador. Mulata sacana! Transava com todos aqueles negros, pobres e nordestinos, tinha uma porção de filhos a parideira, uma bunda gigante e ele ali segurando os testículos para não enfiar-lhe por trás quando ela estivesse abrindo o forno ou esfregando o chão de quatro. Suava só de pensar. Teve uma ereção. A loira entrou num cabeleireiro chique. “A LOIRA” entrou num cabeleireiro chique. AQUELA LOIRA FENOMENAL, OBRA PRIMA DE DEUS, entrou num cabeleireiro chique. Devia ser ricaça, a vagabunda! Uma loira daquelas se casava com quem ela quisesse. Não precisava trabalhar nem se prostituir várias vezes. Bastava vender a alma para um velho brocha… E rico!

O nosso amigo tinha problemas de ereção. Com a mulher não conseguia nada há um ano; suspeitava que ela tivesse um amante. O eletricista ou o velho amigo de nosso amigo, Marcos. Não importava! Alguém estava comendo a Márcia e não era ele. Com as outras gozava rápido demais, tinha fimose. Queria ficar mais tempo para elas não irem embora tão rápido. Queria transar gostoso, para depois ganhar um abraço carinhoso e poder dormir de conchinha. Mas elas nunca gozavam, fingidas, mulher que não goza fica mal-humorada e arruma um amante. Eram as leis da vida. Por isso queria estar em Porto Alegre, tinha visitado a cidade apenas uma vez, mas lhe parecia um bom lugar. Agradável. Gostava de imaginá-la como Pasárgada. Sem negros com paus enormes comendo suas mulheres, só um negrinho que tocava piano e cantava jazz. Lá num barzinho gaúcho. Montes de bichas moderninhas, artistas intelectuais e ele, o último dos homens comuns. Homo sapiens sapiens heterossexual, espécie em extinção. Tomando Black Label pela primeira vez após trinta anos de trabalho fixo e carteira assinada. O negrinho até que tocava bem: Count Basie, Benny Goodman. Um baixista o acompanhava, tocaram uma do Mingus. Sim, Charles Mingus, seu moleque ignorante! O rei do contrabaixo! Aqueles moleques e veados não conheciam nada. Ouviam as notas para parecerem bem cool, mas não viam a hora de aquilo acabar para correrem para casa e escutarem um pouco de rock‘n’roll. Ou rap! Ou algum ritmo novo e sem alma. Ou qualquer merda que esses jovens enfiavam em nossos ouvidos achando que era arte. A arte morreu com o último romântico. Hoje só existiam barulho e velhos broxas, lentos demais para seu tempo.

Pegou um ônibus, depois o metrô. Nem os dentistas ganhavam bem naqueles tempos de crise nas infinitas terras. Aliás, alguns ganhavam, mas ele não, era o clássico exemplo de classe média em queda livre, que já tinha descido pra classe média baixa e continuava despencando. No ônibus tinha um cara enconchando uma morena de bunda enorme. Não parava de se esfregar na mulher, aproveitando-se da superlotação, do balanço do “busão” e da falta de cavalheirismo dos homens sentados. Às vezes o nosso amigo queria dar lugar para uma senhora, mas não sabia como fazê-lo, não tinha iniciativa. Ficava pensando no que falar e, quando se dava conta, já era seu ponto e tinha que se levantar de qualquer jeito. A morena desceu com uma mancha na calça jeans, e o tarado tinha um sorriso de satisfação na cara. Bastardo! No metrô um velho segurava a Bíblia sagrada e disparava a palavra de Deus como se fosse receita de bolo ou aula de ginástica em academia. A gente não deveria ficar velho, era cruel demais. Deveriam matar a gente antes… Tinha um negro lá no fundo. Com cara de suspeito. Nosso amigo passou a carteira pro bolso da frente e segurou firme. Era um cirurgião-dentista prevenido.

Enfim em casa. Cheiro de comida fresca e perfume barato da mulher. A menina brincava em frente à TV. Beijou a mulher. Comeu, tomou banho, mandou a menina ir para a cama. Assistiu ao telejornal. Pensou na vida. E pensou que a morte já não era tão má, àquela altura do campeonato. A mulher disse que ia se deitar. Gelou. Queria estar em Porto Alegre. Passou a mão no seu peito e perguntou se ele não iria com ela. Falou daquele jeito que só a “nossa mulher” sabe falar. Talvez ela não tivesse um amante. Ouviu um “naipe de metais” alto. Devia ser o Count Basie tocando pra ele. Ligou a vitrola, colocou um vinil do Nat King Cole. Fazia tempo que não dançavam. Apertou-a forte contra o peito. Ela riu, estava feliz. Bonita. Nem parecia que tinha quarenta e cinco. Como era linda! E tinha cheiro de felicidade. Foram para a cama, com vinte anos a menos de idade. Apagaram a luz, escovaram os dentes. Fizeram todas as preliminares, sem sacanagem. Só com amor.

Brochou. Como sempre.

Ela disse que não tinha problema. Quando nosso amigo fechou os olhos, ela começou a se tocar. Tinha um amante, com certeza. Ele queria estar em Porto Alegre.

Hoje, no começo do dia, tinha provado aquela xota cheia de sangue de menstruação. Um dia iria matar de verdade. Até lá, tinha que reconquistar sua mulher. Tocava jazz na sua cabeça. Uma big band liderada por Humphrey Bogart. Estaria sonhando? Casablanca. Fitava sua mulher e dizia: “Estou de olho em você, garota”. Sublime. Como diziam os Ramones: “Hoje seu amor, amanhã o mundo”.

20/02/05, ouvindo Count Basie.

Para ler ao som de: “One o’ Clock Jump”

Veja também:

-Joguei meu iPhone nas águas sujas do Tietê

-Leia “A Ilha” conto do livro “Canções para ninar adultos”

-Assista entrevista com Fred Di Giacomo, autor de “Canções para ninar adultos”

“Viagem ao fim da noite” – Louis-Ferdinand Céline

-Compre o livro “Viagem ao fim da noite” na livraria Cultura e ajude esse blog


Pessimista. Futuro colaboracionista do nazismo. Ácido. Dono de uma escrita crua e erudita ao mesmo tempo. Essa, carregada de neologismo, gírias, palavrões e exclamações em excesso jogadas ali, no meio das palavras. Assim é Céline e assim se desenrola “Viagem ao fim da noite“, seu primeiro e cáustico romance lançado em 1932. Influência seminal de Bukowski, dos beats e, principalmente, de Henry Miller – que rescreveu “Trópico de Câncer” após ler a “Viagem”, Céline inaugura uma nova fase na literatura mundial, dando voz às massas pobres – sem idealizá-las – e escrevendo de uma forma extremamente autobiográfica.
“Quase todos os desejos do pobre são punidos com prisão.”

“Os pobres são privilegiados. A miséria é gigantesca, utiliza para limpar as misérias do mundo a sua cara, como um pano de chão.”

Céline: celebrado pela esquerda no começo de carreira, acabou virando simpatizante dos nazistas

Seu alter-ego, Ferndinand Bardamu, também luta na Primeira Guerra Mundial, vai trabalhar em plantações na África colonial, mora nos EUA e depois – médico formado – clinica nos subúrbios da França. Numa versão mais trágica da vida do autor, Bardamu é medíocre, perde pacientes para as moléstias, vive sem dinheiro, não conhece o amor – só guardando sentimentos carinhosos para a americana Molly e algumas crianças que aparecem no livro.

“Nunca estamos muito pesarosos que um adulto se vá, é sempre um pulha a menos na face da terra, é o que pensamos, ao passo que uma criança é, afinal, mais incerto. Há o futuro.”

Seu companheiro de viagem ao fim da noite é Robinson, trapaceiro que se envolverá até no assassinato de uma senhora, crime muito mais perverso e menos sofrido que o de Raslkolnikov, em “Crime e Castigo”. Robinson e Bardamu fazem dos protagonistas de “On The Road” heróis cheios de glamour. Dão caráter a Macunaíma, o herói que não tinha nenhum. O absurdo da guerra que Hemingway retrata em “Adeus às armas” nunca foi tão nonsense como no começo de “Viagem…” – quando o quase anarquista Bardamu se alista sem nenhum motivo em especial. O retrato da exploração colonial de “Coração das Trevas” de Conrad, parece lírico diante do cinismo e crueza com que Céline descreve o preconceito, a escravidão e o comércio entre brancos e negros. Cada palavra escrita por Céline é uma arma; uma pílula de revolta, ódio e horror.

“Os ricos não precisam matar uns aos outros para comer”.

A de se destacar que este francês está no seleto rol de escritores que realmente inventaram uma linguagem própria. Sua prosa – mesmo traduzida – soa como um dialeto particular, uma tentativa de reproduzir a oralidade e o fluxo de consciência, sem perder a erudição. Um Guimarães Rosa dos becos. O romance explicita o absurdo do imperialismo, do taylorismo e da guerra, sem propor grandes mudanças, saídas ou esperanças. Talvez seja por isso que, para desilusão da esquerda que aclamou seus dois primeiros romances, Céline tenha se tornado colaborador do nazismo na ditadura de Vichy. Sua crítica, ódio incurável e insatisfação niilista o levariam de encontro às soluções populistas de Hitler.

“É triste as pessoas se deitando, a gente percebe muito bem que não ligam a mínima se as coisas andam como gostariam, a gente vê muito bem que não tentam compreender o porquê de estarmos aqui.”

“Quando não se tem imaginação, morrer não é nada; quando se tem, morrer é demais. É essa minha opinião”.

“Nós dois não chorávamos. Não tínhamos nenhum lugar onde pegar lágrimas”.

Outros malditos que a gente adora:

-Henry Miller e o sexo como razão de viver
-Bukowski: o genial bêbado brigão
-Leia algumas poesias marginais

TIC-TAC, o maior anão do mundo.

publicado originalmente em 2 de Outubro de 2007

Tic-Tac, tic-tac. O anão. Ah, não! Não cabia mais em seu próprio corpo. Sentia medo, sentia amor, sentia idéias novas e sentia muito.
Tic-Tac, tic-tac. Era o coração do anão batendo. Coração gigante, que já não cabia naquele peitozinho frágil.
Tic-Tac, tic-tac. O maior anão do mundo era o menor gigante também. Um pequeno homem com alma de titã.
Tic-Tac, tic-tac. A cabeça doendo, o sexo querendo. O coração desejando. Era os minutos no relógio , a batida do Carnaval, os tiros no morro.
Tic-Tac, tic-tac. Seu corpo já não agüentava o peso da alma, a força das asas. O espírito queria lhe fugir pela boca. O pequenino o segurava com as mãos. Fechava os dentes para não cuspir o âmago.
Tic-Tac, tic-tac.Caminhava rápido pela rua, virando depressa como sempre. Sentia-se mal, sentia-se…
Tic-Tac, tic-tac. E finalmente aconteceu, como um orgasmo eletrônico. Agora feliz percebeu: crescia sem parar.
Tic-Tac, tic-tac. BUM! Explodiu numa noite carioca o primeiro homem bomba do subúrbio fluminense.
06/02/05.

Um anão terrorista do mundo real

 

Mulheres II: Quando acordam

Este conto é um trecho do livro “Memórias de um Perdedor”, em breve nos melhores botecos. “Memórias de um perdedor” conta a história de um caipira nerd de sua infância até a faculdade.

-Compre meu livro “Canções para ninar adultos”

Bom dia!

 

Quando acorda, olhinhos fechados, Nathália tem cara de azul, gosto de esperança, cheiro de paz. Me lembra incenso queimando. Viajo longe… Fico olhando seu rosto, tentando ler uma história, mas sua pele macia não tem rugas e nem verbos. Só farejo vestígios de uma boa notícia, meu instinto jornalístico é mais forte que minhas desilusões com a profissão. Ela bate o despertador e volta pro sono. Murmura, cansada, quase pedindo:

_ São seis ainda, vou dormir mais meia horinha…

Tudo bem, meu anjo, durma quanto quiser, enquanto isso, peço pra dEUS(se eLE existir), que estique essa meia hora em um dia, pra que essa menina possa descansar de todo uma vida, pelo menos dessa vez.

Seus cabelos são lisos, negros, olhos puxadinhos, boca carnuda, parece índia. Só um ano mais velha, mas toda uma vida na minha frente. ELA: trabalha desde os dezesseis. EU: me desfaço em lágrimas e borro as calças por um estágio de duzentos reais ao mês. Se mantém na cidade com nove horas diárias de trampo numa empresa de suco em pó. Embalam de tudo por lá: suco, sonhos, lágrimas e suor dos operários, desidratam, tiram toda água e humanidade e depois deixam os funcionários voltarem sentindo um buraco em seus corpos. Nem passa em casa, vai pra aula, vender seus sonhos em troca de “comunicação social com habilitação em jornalismo”. Fala comigo e o tempo para. Meiga, quase uma menina, com histórias que deixariam todas minhas noivas neuróticas a ponto do suicídio. Gosto de ouvi-la. Quando chega em casa vira suco.

_Eu falo demais, né?

Não, linda, adoro te ouvir, você me fez voltar a escrever depois da síndrome de pânico, da hipocondria e do coração partido. Parece que eu não escolho mulheres ou pretendentes, mas boas histórias. E você é cheia de boas histórias, me conte uma, vai:

_ Tinha uma indiazinha que morava na quebrada de São Paulo, Freguesia do Ó .
_Como chamava essa indiazinha?
_Hum… Chamava Iracema!
_A virgem dos lábios de mel?
_Não, nada mais de virgem, os pais não gostavam da ideia, mas ela transou com um namorado legal, até, aos dezessete anos…
_E o que fazia essa indiazinha? Caçava, pescava? Fazia artesanato?
_ Não, artesanato é coisa de hippie. Trabalhava e estudava!
_ Hum… Que mais?
_ Bom, um dia, cacique bateu na sua esposa e a indiazinha partiu pra cima dele
_Jura?
_ Sim, dizem que era de uma tribo de amazonas guerreiras.
_Certo, certo,que mais?
_ Bom, deixa eu ver, o irmão da indiazinha, resolveu virar mulher…
_ E aí?
_Aí, o cacique o expulsou da aldeia, mas sua mulher não deixou. O cacique saiu de casa, e sua mulher cortou os pulsos.
_ (…*) É um mundo horrível, não é?(…) Vem, dá um abraço!

O mundo é horrível e ela me abraça, enroscada no meu corpo, mas quem precisa daquilo sou eu. Naquele emaranhado o (quase) homem de um metro e oitenta é, na verdade, embalado pela menina-mulher de um e sessenta e quatro. Ela aninha a cabeça no meu peito e sua respiração na minha pele faz um bem danado.

_É, a tribo só se reuniu quando Iracema foi estudar fora. Aí, um dia, um homem mau a parou na rua. Ele tinha nos olhos toda a cólera dos novos tempos. Toda raiva sem sentido que as pessoas frustradas carregam. Assaltou-a e tentou violentá-la. Falou e fez coisas horríveis. Ela nunca pôde falar pro cacique ou pra mãe.
_ (…*)(…*)Os homens são uns animais, né? Deviam ser todos castrados… (…*) Ela não ficou com trauma de sexo?
_ De sexo não, mas ficou com medo de sair de casa por um ano…
_ E aí?
_Aí, ela encontrou um louco que pensava que era príncipe, um bufão. E ele animou sua vida, enquanto as cicatrizes fechavam.

Sou um palhaço triste, já escrevi e repito, agora, você me tirou dessa. Obrigado. Olho pra sua cara, seis e meia da manhã. O primeiro ônibus passa sete e vinte e leva até o centro. O segundo você pega quinze pras oito. Volta direto pra aula às sete da noite. Amanhã, vou pensar que sou uma franga com medo da vida e você é forte como ferro. Mas agora, só olho pra você, abraço seu corpo, e peço que dEUS transforme sua meia hora de sono num dia inteiro.

*(…) = Silêncio da vida real.

***

Quando acorda, Ana tem cara de vermelho. Faz barulho, um barulho estranho, meio perdida. Quando volta ao nosso planeta, é toda um sorriso bonito, gosto de curiosidade, cheiro de auto-estima, parece criança feliz, descobrindo o mundo com uns olhões arregalados. Nunca transamos, mas adoro acordar com ela ao meu lado. Sentir seu corpo inteiro junto ao meu, todo branco, cheio de pontas vermelhas. Ela beija minha boca com gosto, diz que é boa porque babada.

Ana gosta de meninas e gosta um pouco de mim. Já gostou mais, mas ainda somos amigos. Nunca cheguei nem perto da sua virgindade. Ela só dorme com mulheres, diz que casa virgem. Pelo menos, de homens. Beijo cada dedo do seu pé e ela fica louca, se contorce. Depois pratica com a namorada, diz que a iniciei nos “prazeres do pé”.

Completa em sua ingenuidade.

Às vezes, ficamos horas na cama, nus, beijando corpos, átomos, células e futuros cadáveres. Todo mundo é um necrófilo por antecipação.

Um dia beijou o professor de literatura, agora têm um caso. “E a gente, Ana, o que nós temos??”
Não sei se te amo, se vou te amar ou se te amei. Sei que gosto muito de ficar com você. Um abraço seu cura minha carência, meu medo da vida, meu medo da morte. Nos teus braços, sou imortal por um instante. No teu abraço, uma eternidade supérflua.

Ela ainda fica comigo, porque sou o único que não me apaixono por seus cabelos cor de fogo. Todos, homens e mulheres estão aos seus pés. Eu também estaria se não fosse cego e louco. Um perdido na vida, não faço por mal. Ela sabe disso e se diverte. Deixa que eu beije seu piercing no mamilo, puxo com os dentes, coloco a mão no meio da suas pernas. O telefone toca. Uma “EX”. Primeiro minha, e depois a dela.

A minha quando acorda é verde, tem cheiro de braveza, mas gosto de desafio. Sonhei que um dia as duas se beijavam. Não importa, a Ana sai voando pela sala e volta no dia seguinte, até que eu enjoe das preliminares e ela enjoe de barba. Então cada um de nós vai procurar dormir com uma mulher diferente. E a história acaba assim.

***

Quando acordo sozinho a vida parece cinza, tem gosto de vazio e cheiro de solidão. Abraço forte o travesseiro e fico acordando com falta de ar. Sozinho, de cueca, o mesmo pesadelo de sempre, sinto como se fosse morrer e me cago de medo. Sou mais um perdido numa noite suja. Só. As mulheres com seus sorrisos preenchem meu eu. Sou viciado em seus hormônios e, sem seus encantos, só brEU.
Só.
EU

“De perto nem os anjos têm asas.”

Boa noite, querido leitor

-Mais contos

-Sexo virtual, pop e desencontros

-Mulheres: Anjas Tortas

Cinema Marginal (Era pra ser uma história de amor)

Acordou com um corpo estranho ao seu lado, ao menos o tal corpo respirava. O “seu” enlaçado pelas mãos daquele homem. “Onde estou”? Às vezes, esquecia quem era, não tinha uma identidade completa, um milhão de fragmentos, caleidoscópio de mulher, átomos, células, sonhos… E ele ali. “Ta, é o Alex, transamos de novo, acho que ele vai se apaixonar”…

Tinha viagem marcada, levantou rápido, olhou o celular, atrasada, como sempre. Banheiro, banho, troca de células mortas, troca de pele, como uma serpente se enroscando na toalha, todas as curvas molhadas secando com o contato do pano. Seios e nádegas fartas, num corpo delicado e pequeno. Era Luisa, agora lembrava, 24 anos, formada há dois em comunicação social habilitação em salvação de almas, trabalhava numa ONG de educação popular, “Paulo Freire vai pro céu”. O corpo ao seu lado já fora seu namorado, melhor amigo, irmão, pai, amante, bufão, agora trabalhava 12 horas por dia numa revista de comportamento e tentava fazer cinema à noite. Agora, era um corpo amolecido, cansado, frustrado, transformado em proletário não pela catequização comunista, mas pela realidade da vida, que colocava ferramentas, porcas e argamassa nas mãos dos poetas e os mandava construir sonhos concretos. Sonhos que o dinheiro pudesse comprar ou que pudessem caber nas páginas dos jornais e revistas.Estava escrevendo seu grande roteiro que não terminava nunca. Era a história dos dois, numa visão hermafrodita, fluxo psicológico bissexual e outras conversas intelectualóides, sem fim, como aquelas noites, que se repetiam eternas, os dois depois de umas cervejas, conversas sem sentido, acabando juntos, um dentro do outro, ele falando sem parar, os olhos dela fechando… A moça dormia, sonhava e esquecia tudo. Voltava a ser uma menina e o corpo era só dela. E o amor era só uma figurinha num álbum de dois reais. Acordava sem nem lembrar, conversavam sem pressa, com a intimidade dos casais que comemoram as bodas de ouro e, então, ele partia pra mais 12 horas de jornalismo, sem direito a ventre livre ou lei dos sexagenários. Sem saber quando voltariam a se ver. E quando os dois já quase esqueciam quem eram, se encontravam numa noite pra mais cervejas e conversas sem sentido. Ad infintum, num eterno retorno…

Comeu pão integral com requeijão e café preto. Alex tomou só café e falou do seu roteiro. Era inteligente, o rapaz, já estava com cabelos brancos e ainda não tinha ganho dinheiro suficiente pra comprar sua câmera digital. Estava todo empolgado porque tinha entrevistado o cineasta e lenda Zé do Caixão.

O dia que entrevistei Zé do Caixão para o programa "5 contra 1" da Mundo Estranho

O dia que entrevistei Zé do Caixão para o programa “5 contra 1” da Mundo Estranho

_ Eu vi ele de pertinho, nega, ta velhinho e com bafo de fumo e cachaça, é um gênio, um gênio, quando eu fizer meu filme ele vai ter papel garantido!

Falava rápido e enrolado. Luisa torcia pra que um dia o tal filme saísse, ela também estava dirigindo seu documentário. Era sobre as crianças de rua, a ONG tinha conseguido um incentivo do governo pra rodar a película e cadastrar as crianças em instituições de caridade. Saiu, o moço, sem saber se um dia voltaria a vê-la ou não. Ficou, a moça, sem saber se voltaria a vê-lo ou não.

Limpou a lagriminha do rosto, deu adeus aos potes de aveia, fotos e pinturas na parede, entrou no carro, ligou o som e deu ignição. VRRUUMMM! Pessoas, cachorros, pedras, lojas cheias de logotipos, luminosos, cores, VRRRUMMM! Vento no cabelo num dia qualquer do começo do século. “Paulo Freire vai pro céu”, crianças negras, mulatas, brancas encardidas, narizes sujos, cabelos desgrenhados. “Tia! Tia! Vai ter comida?”

Câmera filmando: FILMA, FILMA, FILMA, FILMA, POBRE, POBRE, POBRE, POBRE.

(Rápida interferência, a história do CINEMA MARGINAL, roteiro de Alex):

Cena 2.

Panorâmica de bairro de periferia.

Cineasta _ Esse bairro chama-se Novo Brasil, de novo tem apenas os eletrodomésticos comprados em milhões de prestações, é mais uma foto do subdesenvolvimento. Não há promessas, índices ou dados de campanha que nos convençam de que o país está melhorando quando se vê a desgraça na qual se encontra o Novo Brasil. Novo Brasil é um aborto da humanidade, um sonho que podia ser mais não foi. Fodido. Uma boca de drogas há um quarteirão, crianças fumam crack à noite. Bebês choram – a trilha sonora do gueto – casais brigam, choro, carros velhos, choro, carroças, choro, cocô de cachorro, choro. As pessoas parecem pedaços de cocô ambulante. E são. E no sétimo dia, Deus descansou. E, descansado, cagou os pobres.

Cenas de bagunça

Cena 3.

Magrão(olhando pra câmera) _ Seu moço, seu moço o que o senhor ta fazendo ai?

Cineasta _ Isso se chama cinema!

Magrão _Cinema é de comer seu moço?

Cineasta _Não, mas mata a fome que nem televisão.

Magrão _ A sim, to compreendendo… Vai passar na televisão? Na Grobo? Posso mandar um alô pra rapaziada?

Cineasta _ Não vai passar na Globo, não. Isso aqui não é comercial.

Magrão _ A não vai não, é? Mas porque, ceis num gosta da Grobo, não, seu moço?

Cineasta _ Isso aqui é cinema marginal. Não passa na televisão.


não a globo

Magrão _ Se não passa na tv, ninguém assiste, né mesmo? Lá no meu barraco, pelo menos, né? Cê sabe, eu moro num puxadinho, atrás dos meus pais. Porque ta duro de arrumar um trampo, então eu fico lá, né? Pensando na vida, assim, como se diz? Refletindo né? Refletindo,mesmo.E acho que tudo que nóis aprende hoje é pela televisão. Esses dias mesmo eu tava vendo aquela mini-série bonita na televisão,aquela que mostra como qui os português descobriram o Brasil, um negócio complicado, né seu moço? Sangrento, mesmo.

Cineasta _ Cinema marginal só mostra realidade, é o cinema do povo. Não dá pra passar num canal vendido como a Globo.

Magrão _ Mais que qui adianta fazer cinema do povo, se ninguém vê? Assim, só to refletindo comigo mesmo, né? Porque eu não sou muito do conhecimento, né? Não tive uns estudo assim, mas di vez em quando eu gosto di pensa, de vez em quando. E acontece que não to entendendo assim: a utilidade desse cinema marginal.

(Passa casal na rua.)

Brando _ Cuidado meu bem, tem um bosta na rua.

Tarsila _(desviando de Magrão que vira pra câmera e olha para os dois bravo) Ai que nojo, quase que pisei!.

Cineasta _ O amigo, o amigo!

Magrão_ Eu?

Cineasta_ É você, você não sente falta de realidade na televisão? De povo na televisão, gente que nem você?

Magrão_ Ah, gente que nem eu? Sai fora! Quero ver gente feia? Quem gosta dessas coisa é intelectual, cumunista. Eu gosto de ver aquelas casona grande, Big Brother, mulher gostosa. Você gosta de vê trubufu? Trubufu a gente encara, né? Mais fica pensando nas moça da novela, assim de olhinho fechadinho.(fecha o olho e simula sexo).

Cineasta_ Meu amigo você está alienado, você está fora da realidade, a gente precisa colocar o povo na tela. A gente precisa ter um cinema brasileiro popular, marginal!.

Magrão_ Meu amigo, eu não sou marginal não,ta entendendo? Eu to me alinhando. Eu to me alinhando, pô!

Cineasta_ Então de um grito, vai! Mostra sua casa, onde você mora. Mostra pra gente o povo, pobre, feio, doente, banguela. Mostra pra gente seu José!

rogerio-duarte-en-cancer

Magrão _(tomando a câmera da mão do outro)Ih, vacilão, que seu José o caralho, me dá essa câmera ai. Da essa câmera que agora eu vou fazer um filme. Vou mostrar o POVO pra você(fala última frase com sorriso maldoso na boca.)

***

Luisa tem sérias crises de consciência por ser branca num país negro e rica num país pobre. As pessoas não escolhem como nascem e, provavelmente, os pobres escolheriam nascer ricos.

***

Segunda série do ginásio, ALEX é branco, homem, portador de cultura e preceitos éticos. Seus colegas na escola pública Augusto Pereira de Moraes, não. Renan(branco) para Eduardo(negro)

_Aposto que seu maior sonho é virar branco, né? Quem nem o Michael Jackson, todo negro deve querer ser branco…

ALEX fica inconformado é claro.

***

Se os pequenos meninos de rua querem ser brancos ou não, poucos sabem, eles querem comer e são levados pelo representante da prefeitura para isso. Filinto leva todas as crianças numa KOMBI branca antiga até a escola pública onde elas terão direito a um prato de comida e um saquinho de leite de soja sabor morango. È o salário recebido em troca do uso de suas imagens no filme de Luísa.

Luisa  alonga o corpo, está com dor nas costas. Precisa voltar a fazer capoeira, ficou parada nos últimos seis meses por causa da fisioterapia. A equipe de produção se despede, ela fica fazendo algumas anotações, ouve um barulho… Será um rato? Embaixo da mesa. È quase isso, uma garotinha mulata, de uns sete anos escondida…

_O que você está fazendo ai, menina? Não quer comer? Não ta com fome?

_Tô sim…

_E porque você não foi na kombi com os meninos?

_…

_Vou ligar pro Filinto!

_Não! Não, não liga pra ele não! Ele levou meu irmão ontem e eles não voltaram mais! Eu acho que ele ta fazendo alguma coisa ruim com as crianças…

_Como assim?! O Filinto? Mas ele tá na prefeitura há anos, ganhou o prêmio Betinho de Ação Social por ajudar o próximo!

_Tia, eu acho que ele tá fazendo coisa… Fazendo coisa com as crianças!

_Impossível! Vamos até lá que eu vou te mostrar que ele é um doce!

-Não, tia! Vai toma no cu! Vai cagá! Fia da puta! Eu num vou não!

Saiu correndo desesperada, chorando. Luisa pensa, a coisa pode ser séria… Seu faro jornalístico dispara. “I see dead people”. Pega a câmera, o carro, as boas intenções, e a esperança num mundo melhor e VRUMMM! Segue pra escola estadual “Francisco de Assis França”, enquanto ouve um disco do Tom Zé, e pensa em Alex. “Será que eu to fazendo certo em terminar? E se ele for o cara da minha vida?” Casais, pedras, cachorros, gatos, lojas, e mendigos. Toda rua é igual numa grande cidade do século XXI.

Luzes apagadas na escola estadual. Não há mais aula, é uma hora da tarde. Luisa sente cheiro de morte no ar. Arrepio correndo o corpo, sensação ruim no peito. Medo. Pula o muro, alongando o corpo inteiro como uma gata. Cai no chão, pés empoeirados dentro da sandália, olha pros lados. Barulho vindo da cozinha, fogão industrial, merenda para milhares de alunos: macarrão e arroz com coloral – tudo que a nutricionista elaborou era caro de mais pra ser comprado.

_ Vai, filhinho, chupa, chupa.

Abre a porta da cozinha, tudo vazio, só um pouco de carne cozinhando. “Vai, deixa eu colocar, só um pouquinho”. Sussurros, vindos de baixo. Corre os olhos pela cozinha, abre o armário de baixo, panelas e… tchan tchan tchan tchan um fundo falso. Desce até o final. “Isso, assim, tá vendo como é gostoso? Agora você vai sentir um geladinho…” Um adulto ri, uma criança chora, um adulto ri, uma criança chora. Há sempre um nenê chorando numa vizinhança pobre. Há sempre um grito de dor, e hoje um grito de morte. Corredor escuro, cheiro estranho, acende o isqueiro, MEU DEUS!

(Racha peito essa dor

desilusão, desengano.

A morte, El Salvador

Seres humanos são seres insanos,

Com uma arma ou uma flor.

Aqui brincamos um ano,

Agora só um grito, uma cor.

Racha peito, explode a dor

Morte aqui, El Salvador.

O sofrimento humano
É o único sentimento universal.

(O resto é sexo).

Seres humanos são seres insanos
Racha peito, explode a dor
Com uma arma ou uma flor
Racha peito, explode a dor.
O sangue tem sempre a mesma cor.
Racha peito, esta dor
Essa desilusão, desengano.
A morte aqui ou El Salvador.
Seres humanos são sempre insanos

O Sofrimento humano
É a única verdade universal.
(O resto se releva.)

MEU dEUS! Crianças mortas! Todas as crianças de rua, todo futuro abortado do Brasil, armazenados em freezers gigantes, congeladas, suas expressões de dor eternizadas! São sonhos. Eram pra ser, mas não foram. Um adulto ri, uma criança chora, ainda há tempo de impedir o bastardo, deitado numa sala, pequena, observado por mais dois garotinhos em choque, seu corpo treme sobre o corpo de um garoto. Toda civilização moderna pode ir pro inferno, todos os sonhos, tudo que pensou hoje de manhã é supérfluo, o mundo é horrível, não, é? O MUNDO É HORRÍVEL! A câmera registra tudo, um filme de horror, “Filinto gritou como um filha da puta!” E as crianças riram, riram, gostoso. “Mata ele tia, mata a bichinha” “Corta fora tia, corta o cuzão”. “Não vai haver amor nesse mundo nunca mais”. Suas últimas palavras:

_Querida, eles não são nada, ninguém se importa, eu estou pensando na ciência, você sabe quantas vidas um rim desses pode salvar? Você sabe quantas pessoas “de bem” morrem na fila de um transplante? Você não sabe nada, menina rica, você não sabe nada! Essas crianças não deviam ter nascido! Elas não existem! Não existe infância nos desertos de pedra das metrópoles do terceiro mundo! É tudo propaganda de refrigerante, é tudo propaganda de refrigerante.

Só existe alegria nas propagandas de margarina. Alex não consegue trabalhar em ONG’s por isso se prostitui numa revista de comportamento 12 horas por dia. É muito Bukowiski e pouco Guevara. Seus pais passaram a vida se dedicando ao próximo e acabaram num bairro igual ao de todas as crianças mortas na geladeira da história. O garoto não consegue e nem se conforma, ele só chora e chora, letras, versos e um poema no final desse conto. Já Luisa…

Luisa morreu aquele dia, quem saiu daquela escola era uma mulher completamente nova, desconhecida, agora mãe de três garotos:um negro, um branco e um roxo. Vomitou um bocadinho. E andou até a linha do horizonte. N’algum lugar do mundo….

N’ algum lugar do mundo…

Há uma alma queimando,
Há um sonho murchando,
Há um feto chorando.

Em algum lugar do mundo,
Um ponto, sim um ponto,
Um ponto que poderia ser, mas não foi.
Um ponto pode ser muita coisa:
Uma flor, um coração, uma criança
Ou um alvo em potencial.

Naquele jardim de esperanças,
A última foi queimada,
A minha foi roubada. A história acabou.

31/12/06.
Fred Di Giacomo é jornalista e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais”

Tiros, tretas e vagabundagem. (Aconteceu no meu bairro.)

(Esse conto foi originalmente publicado no site Enraizados e faz parte do meu primeiro livro Canções para ninar adultos“. Dedicado a todos amigos do meu bairro)

por Fred Di Giacomo

Não sei quem mata mais a fome, o fuzil ou Ebola. Não sei quem sofre mais, os pretos daqui ou os de Angola,

O Invasor”, Sabotage.

Mestre Sabotagem atuando no filme "Carandiru"

Mestre Sabotagem atuando no filme “Carandiru”

 

_Escuta, vamos matar esse puto logo e sair daqui, não tô afim de preocupação pra minha cabeça.

_ Porra, Bino, você tá amarelando, meu irmão? O negócio é baba, pega o padre, bota uma bala na cabeça dele e boa. Trabalho feito.

_Caralho, Betão, você acha que sair por ai matando padre é um esporte bem agradável, né?

_Ih, calma vocês dois. Vamos agilizar o negócio. O cara vai estar no acampamento sexta, a gente espera na estrada e faz o serviço: simples assim.

Quem falou foi o Fino, o Mudo não falou nada. Ele nunca falava.

***

Tava tocando Bezerra da Silva, cd de camelô. O cheiro de gordura queimando se espalhava pelo bairro. Criança chorando no vizinho. Sempre. Seis caras e três mulheres. Cerveja “Conte” barata e caipirinha com pinga 21. R$ 2,28 no supermercado. Mais barato que maconha. Tinha uma mão de cinco reais também. Mas só o Gil e o Bina fumavam. A galera não curtia, nem pegava bem com os vizinhos. Foda. A Tat chegou, já tava barriguda. De 6 meses. Caralho, como o tempo passa rápido: a mina brincava na rua ontem e hoje já era essa mulher. “Nega linda”, que nem rosnava o Gil, sacana. O pai do moleque tava na Holanda. “Alguma bolsa de estudo?” Não, tráfico internacional. Sem brincadeira. A galera ainda pagava pau. No duro. Mó ascensão social. Não to contando histórinha de Jornal Nacional, é um negócio que eu ouvi na minha vizinhança.

Cheiro de gordura queimando. Sol quente, asfalto esburacado. Parede descascando. Muros baixos cada vez crescendo mais. Vira-latas na rua revirando lixo. Salivando. Cheiro de gordura queimando, mais uma vez. Seu Wilson não gostava da vizinhança, tinha mudado muito. Aglomerado de pobres. Quase todos vivendo como negros, sejam brancos ou mulatos. Som alto. Seis horas, rua cheia de bicicletas voltando do trabalho. Sete horas rua cheia de bicicletas indo pro culto. Pernas que pedalam usando chinelos. Havaianas, as legítimas. Pernas entrelaçadas nas construções inacabadas. Meninas virando mulheres. Aquilo já tinha sido um bairro de classe média baixa, quase todo mundo vivendo como quase brancos. Quase todo mundo, quase cidadão. Agora era o Senhor Wilson contra o mundo, trancado em casa. Tinha TV por assinatura e computador. Tinha medo de assalto e reumatismo. Tinha se aposentado depois de quarenta anos de serviços diversos. Tinha vindo do nordeste sem curso superior. Tinha sobrevivido.

***

_ Caralho, Betão, você tá maluco? A gente não conhece essa cidade, mermão. Porra, onde você ta metendo esse carro.

_Se liga, Bino, caralho! To falando que você tá frouxo. Meu Deus, é por aqui que a gente pega a estrada.

_Betão, seu preto, filha da puta. Se ninguém matar a gente, eu te mato.

_Vai tomar no cu, branquelo! Vou te mostrar o que o negão tem de bom.

_Aposto que o meu pau é maior que de qualquer preto filho da puta.

_Ah, eu aposto vinte conto! Aposto no duro, vou até parar o carro agora.

_Para então, tiziu. Macaco do caralho!

_ Macaco não, hein, seu branquelo! Vou te mostrar a serpente africana.

_ Se o seu pau for maior que o meu, eu chupo ele.

_ Cê vai chupar, então.

Pararam.

Cena do filme "Guido deve morrer", primeira aparição dos matadores Pedro, Bino e Mudo

Cena do filme “Guido deve morrer”, primeira aparição dos matadores Pedro e Bino

***

Cerveja rodando. Vagabundagem sentada na frente da calçada. Silmara com o Wilsinho. Bina conversando com o Juninho e o Bola. Gil em cima da Tat. Sheila dançando. Geninho sentado no canto, batendo o pé, tentando acompanhar o ritmo. Homens brancos não sabem dançar.

_Orra, Bina, a Sheila tá filézinho, hein, mano?

_ Só.

_Se liga, Juninho. Cê não pega ela nem fudendo, a Sheila só fica com boy.

_ Ih, Bola. Cê é gordo, não enxerga nem o pau. Não entende de mulher, mano.

_Vai lá então, garanhão.

_ Que cê acha, Bina?

_ Desisti das mulheres, mano, só como puta.

_ Se acha da hora?
_O foda é que eu acabo ficando amigo e paro. Fico com dó, mó nóia.

_Vai lá, Juninho! O Gil já ta garfando a Tat, grávida e tudo.

_ Treta, hein?

_ Só vai ter treta, se alguém sair falando merda. O macho dela não precisa saber, né? O cara é do movimento, mó foda.

_ Pode crer, vou lá na Sheila, então.

Era loirinha, de olho castanho. Bunda redonda, peitinho arrebitado. Usava shortinho jeans, marcando a lordose, e blusinha de alcinha. Chinelinho Havaiana vermelho. Cabelo solto, compridão até a bunda. Sabia que era gostosa. Dançava requebrando até embaixo. Um crime. Juninho foi. Ficaram o Bina e o Bola. O Bina tinha trinta e dois anos, careca, bigodinho fino. Mulato mais pra negro. Magro. Poeta. Tinha sido punk. Tinha rodado o mundo com a mochila nas costas e uns fanzines dentro. Desenhava pra caralho. Trampava no curtume, turma da noite. Hoje era do rap. Bebia muito, falava pouco.

Daí chegou um opalão com som fudido. Dentro estavam o Morcego, o Renatinho e o Lu Furacão. Tudo turbinado: colarzão de ouro, óculos escuros, camisa de marca. E o Gil fazendo a Tat, lá no fundo. Tinham que segurar os nego lá na frente e avisar o moleque, senão iam querer honrar o amigo que tava tomando chifre lá da Holanda. O Bina foi lá, ofereceu cerveja. A Sheila também foi, ofereceu esperança. A Silmara foi pro fundo avisar os dois.

Seu Wilson estava de olho no esquema. Era o pessoal do movimento, melhor chamar a polícia rápido. Polícia corrupta. Direto parava um taticão na boca do bairro. Parava, ficava uns dez minutos e saía, de boa. Diziam que era batida, mas os traficantes nunca estavam lá. A polícia brasileira tem dois patrões: rico ladrão e pobre ladrão. Ligou mesmo assim. Seu Wilson estava pensando em mudar do bairro.

***

 4 pistoleiros discutindo a aposta:

_ “Cê” vai chupar!

_ O caralho!

_ Isso mesmo, “cê” vai chupar o caralho, ou eu vou por na tua bunda.

_ Calma ai, moçada. _ O Fino saiu do carro.

_Tu tem uma puta pica mesmo, Betão, agora vamos cair na estrada. _ O Fino tentava acalmar os ânimos. O Mudo tava quieto no carro. O Bino entrou rápido, com medo da “serpente negra”.

O Morcego estranhou o Honda Civic parado ali na frente, rodeado por homens de terno e óculos escuros.

_ Ei, boy, que você tá fazendo aqui?

_Se liga, Morcego, o cara tá com a pica de fora. Puta sacanagem dos playboys. Tão achando que tão na Gozolândia.

_ Filha da puta, guarda esse pau, maluco!_ Apontou a PT.

O Betão apontou a dele. A cena congelou. Betão com as “duas” armas em riste. O Fino de costas. Os três traficantes apontando os berros. Close no carro, Mudo girando a chave na ignição. Volta o movimento. Uma bala castra o orgulho do Betão. Fino toma dois tiros nas costas. O Honda Civic sai em disparada. Os três traficantes correm atrás com os canos na mão e dão de cara com o taticão. Seu Wilson olha pela janela, ri. Fez sua parte e botou na bunda dos marginais. Liga pro jornal, põe um anúncio nos classificados. Queria escrever “Vendo terreno no inferno”. Velho exagerado, nem repara que o som rolou até de madrugada.

Periferia é periferia, né?

2005

Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais“ . Ele foi pioneira na criação de newsgames (jogos jornalísticos no Brasil) e toca na Banda de Bolso.

Para ler ao som de “Periferia é Periferia” dos Racionais Mc’s:

 

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