“A Ilha” – um conto do livro “Canções para ninar adultos”, ilustrado por Sabrina Barrios e escrito por Fred Di Giacomo

por Fred Di Giacomo

Eu escrevi  “A Ilha” em 2005, quando estava na faculdade. Tive a ideia central pro conto deitado na cama, um pouco antes de pegar no sono. Originalmente ele faria parte de um livro que chamaria “Amor em Tempos de Aids” e acabou dando origem ao “Canções para ninar adultos“, lançado em 2012 pela Editora Patuá. “A Ilha” é uma pequena fábula sobre amor, controle, desejo e utopia – influenciada pelo mestre Saramago – e é também um dos contos que acabou me dando a ideia pro título do livro, um dos que se encaixa no conceito de “conto de fadas para adultos”.

As ilustrações foram feitas pela minha amiga e artista plástica Sabrina Barrios, quando participávamos de um coletivo chamado Clube de Ideias.  Esse versão de “A Ilha” é um pouco diferente da que estava publicada neste blog. Ela passou por uma revisão do pessoal da Editora Patuá, que modificou alguns parágrafos e deixou o texto mais claro e menos truncado.

Se você curtir o conto, experimente a bela edição publicada pela Patuá, você pode comprar online aqui.

***

Desejo

Fazia muito tempo que estavam ali: o jovem e a menina. Tanto tempo que já nem sabiam mais o que tinha acontecido direito. Eram os únicos sobreviventes de um naufrágio, disso tinham certeza, do resto não lembravam muito: se eram parentes, se haviam se conhecido no acidente, se viajavam de barco ou avião. Nem do seu nome recordavam-se, perderam-se, assim, sem passado, sem memória e sem nomes, tendo de inventar novamente a vida. Às vezes, a menina sonhava com a mãe. Não lembrava direito, mas entendia o que era uma mãe; quando sonhava sentia o cheiro de proteção e o calor do afeto. Ela devia ter por volta de cinco anos e ele quinze. A diferença de idade os afastava. Não podia ser seu pai, e nem seu amante – estava no ápice das descobertas sexuais e sentia muita vontade de ter uma mulher. Decidiram que quando ela fizesse quinze anos poderiam casar; até lá, seriam como irmãos.

A menina inventou que o jovem se chamava Desejo e ele a chamou de Utopia. Viviam sozinhos, com as árvores e os peixes, alimentavam-se de cocos e frutas e andavam nus. Desejo era loiro de cabelos encaracolados e Utopia tinha cabelos negros curtos e uma pinta na bochecha. Desejo ensinava tudo que sabia a Utopia sobre o pouco que lembrava da vida antiga e sobre o que aprendia a cada dia na ilha. No início ele brincava com ela também, mas, quanto mais Desejo crescia, menos queria ser criança. Quando Desejo completou dezoito anos, começou a sonhar que Utopia era uma moça grande, com boca carnuda e seios fartos, e que os dois dormiam juntos e tinham uma porção de filhos. Às vezes, o rapaz  acordava excitado pelo sonho e sentia vergonha. Resolveu, então, que era melhor os dois dormirem separados e construiu uma divisória na cabana. A menina não entendeu direito por que Desejo tinha feito uma divisória e por que Desejo se cobria, agora, com uma folha. Foi por esses tempos que ela conheceu dois amigos imaginários: A Vergonha e o Pudor. Mas, logo, Utopia se encheu dos amigos; ela não gostava da Vergonha e achava o Pudor muito sério. Ficou mais alguns anos amiga de Ninguém, até que se irritou, porque Ninguém nunca estava lá quando ela precisava e Ninguém falava muito com ela. Ninguém sabia por que Desejo tinha coberto seu corpo e Ninguém contava para ela. Utopia achou que Desejo e Ninguém eram bobos e foi brincar com outros amigos.

A tristeza da menina se dava porque, naquela ilha, ela sem Ninguém só tinha o Desejo e o Mar, e então começou a ficar amiga do Mar. Às vezes ela queria que o Mar fosse seu pai, porque não se lembrava dele direito. Às vezes ela sonhava que era filha do Vento ou da Terra, e que sua mãe era uma virgem como Nossa Senhora, seja lá o que isso significasse… O Mar era seu amigo, e sempre a abraçava e lhe contava segredos; o Mar tinha segredos que não acabavam nunca, e quanto mais fundo ela ia com o Mar, mais ela aprendia. Desejo ignorava que Utopia tivesse tantos amigos. Na sua cabeça de quase adulto, ele via a menina brincando sozinha, e ficava com pena. Às vezes, construía algum brinquedo pra ela com madeira e bambu. Sempre que completava um ano do acidente eles comemoravam o aniversário dos dois. Desejo fazia uma festa e pescava um peixe; ficavam ele, Utopia e mais Ninguém na praia contando as estrelas. Quanto mais Utopia crescia, mais o moço se apaixonava por ela. Desejo sempre falava do tempo em que os dois se casariam – ele esperava por aquilo com muito afinco. Quando Utopia menstruou pela primeira vez, Desejo começou a construir uma casa maior para os dois morarem juntos. E Desejo aprendeu a fazer uma rede pra poder amar Utopia. Utopia parecia não se empolgar muito com isso, mas o rapaz achava que era normal por causa da idade dela.

Utopia estava então com doze anos e começara a virar “mocinha”. Ficava muito curiosa com seu novo corpo: sangrava uma vez por mês, tinha alguns pelos ralos lá embaixo e sofria com dores nos peitos. Um dia acordou com uns biquinhos e, de uma hora pra outra, seus seios começaram a crescer. Sentiu-se mal porque estava ficando diferente de Desejo. Perguntou a ele e ele riu, dizendo que ela estava virando uma mocinha. Utopia não gostava de envelhecer e, quanto mais Desejo crescia, mais ela tinha medo dele. Queria ser criança pra sempre. O único que a entendia era o Mar; olhava pra ele e via seu reflexo, uma moça igual a ela, com seios e pelos lá embaixo. Desejo era tão diferente e incontrolável, enquanto o Mar era tão calmo e sábio… Um dia ela contou ao Mar que estava apaixonada, e que não ia se casar com Desejo. Iria fugir de Desejo o quanto fosse possível.

Utopia

Desejo já estava se tornando um homem. Faltava um ano para se casar – então ele contava vinte e quatro. Já aprendera a pescar, plantar e construir utensílios de madeira, nadava como um peixe e o Mar era seu amigo. Aprendera tudo o que sabia com a Natureza; a única coisa que faltava era poder amar uma mulher. O rapaz podia sentir o amor dentro dele, queimando-o como fogo, mas era só uma ideia vaga, não algo prático. Queria compartilhar aquele sentimento com alguém, mas parecia que Utopia nunca era grande o suficiente. Agora, a menina passava os dias nadando e sempre voltava com um caranguejo ou estrela marinha.  Dizia que eram presentes que o Mar lhe dava, e se enfeitava com pedrinhas e corais. Desejo sabia que o Mar era traiçoeiro e tinha medo de que um dia ele levasse Utopia. Quando Utopia menstruou pela primeira vez, Desejo fez uma roupa para ela. Seu objetivo era controlar Desejo, porque ele era um rapaz de palavra e só queria possuí-la depois que se casassem. Nesses tempos Utopia já estava apaixonada – o Mar a enchia de presentes e, em troca, ela passava horas dentro dele.

— Desejo vai ficar muito surpreso quando descobrir que eu não sou mais mocinha. Por mais que Desejo me tente, eu me entreguei, antes, para o Mar.

O Mar sabia que a moça era dele; ela havia fugido uma vez, mas devia voltar algum dia. Só Desejo poderia levar a moça para outro destino. Quando Utopia completou quinze anos, o Mar deu a ela uma pérola, que lhe serviu como um anel de noivado. A menina, agora moça, jurou ao Mar que só amaria ele e mais Ninguém. O Mar pediu que ela somente o amasse e ponto. E assim fez.

Desejo estava muito feliz porque aquele era o dia do aniversário dos dois. Ele havia preparado tudo muito bem: fizera o aguardente com as frutas da ilha e pescara siris, camarões e caranguejos. Construíra sua casa com um quarto grande e uma rede confortável, além de fazer uma coroa de flores para que Utopia ficasse ainda mais linda no dia de seu aniversário. Mas parecia que Utopia se perdia, quanto mais velha ficava. A moça já mal conversava com Desejo, e os dois nem pareciam irmãos. No dia de seu casamento, a menina ficou no Mar toda a manhã e só voltou para casa à noitinha.

— Onde você estava, Utopia? Eu preparei nosso casamento com tanto carinho, pesquei caranguejos, siris e camarões, teci uma rede e até lhe fiz uma coroa de flores…
— Eu estava com o Mar.
— Você deveria ter cuidado com o Mar, ele é traiçoeiro. Não esqueça que foi ele quem levou a nossa gente.
— Eles devem estar num lugar melhor do que essa ilha maldita. Não aguento mais ver sua cara todo dia; não aguento mais você, Desejo. Desejo me querendo, Desejo me tentando… Eu tenho nojo do Desejo! Eu quero sumir com o Mar!
— Não diga isso, Utopia! Eu te amo tanto… Como você pode falar assim comigo? Eu sempre te cultivei, Utopia, como uma flor, e você me despreza como se eu fosse o mais vil dos homens? Minha Utopia, onde eu errei? Quando eu te perdi?
— Eu não sou sua Utopia, eu não sou de Ninguém! Eu não tenho dono, eu não tenho destino traçado, foi tudo um acidente…
— Como um acidente? Você me traiu, Utopia!
— Um acidente, pois por acaso eu conheci o Mar, e com ele descobri o mundo. Me apaixonei pelo Mar e seus mistérios, o Mar e seus presentes. Eu preciso do Mar. Me identifico com ele, que também tem seu lado feminino, no qual vejo meu reflexo, a Mar. Não só “o Mar”, como a Mar é linda também.
— Minha Utopia, completamente perdida, minha Utopia está morta! Onde se escondeu aquele sonho? Onde se perdeu minha menina? Cuidei de você como o mais valioso dos tesouros, a pus numa redoma de vidro. Num mundo em que só existíamos você e eu, como evita me amar?
— Entenda, Desejo, que você é muito importante para mim, mas que eu quero o Mar. Entenda que nasci para Mar e dele sou parte, nele encontrarei minha família, meus pais… Não suporto mais morar nesta prisão!
— Impossível, eu não vou aceitar isso! Você tem que ser minha, eu esperei muito por esse momento!

E Desejo partiu para cima de Utopia, agarrou-a pelos cabelos, agora compridos, e beijou sua boca vermelha e carnuda. Sentiu seu peito contras os seios da menina, e um calor correu por seu corpo. Desejo enlouqueceu. Desejo estava cego, atirou a menina na areia e pulou sobre ela. Arrancou a folha que cobria os pelos, já não mais ralos, de Utopia e colocou a mão em sua parte de baixo: estava molhada, com água salgada.

Mar

— Mas como? Quem?
— O Mar! O Mar entrou em mim, Desejo. Ele me transformou em mulher, antes de você! Há tanto Mar dentro de mim que você nunca vai poder tirar… Por isto estou molhada: por causa do Mar. São dele as lágrimas que saem dos meus olhos, salgadas também. Eu sou do Mar, Desejo. Você pode me possuir agora, mas eu nunca vou te amar.

Desejo havia quebrado a Utopia, que estava deitada no chão chorando, encolhida. Abraçada aos joelhos em posição fetal, de seus olhos saíam pequenos pedaços de água do Mar. A pérola que havia ganhado reluzia, presa aos seus cabelos negros. Desejo perdeu, então, o controle – começou a chorar e notou que o Mar também o contaminara. Tentou conter as gotas salgadas que saíam de seus olhos. Odiava o Mar, pois ele lhe roubara tudo: seu passado, sua memória, seu amor, seu tempo. Fez-se amigo do Mar, mesmo sabendo que o Mar o destruiria. O Desejo estava dentro do Mar, e o Mar dentro do Desejo. Ficou louco de vez. Saiu correndo e gritando, vermelho, enquanto arrancava os tufos loiros da cabeça,
desesperado. Gritou muito alto e Ninguém ouviu. Aquele dia o Mar estava bravo, agitado. Desejo pulou no Mar com ódio, mas o Mar o abraçou e o estrangulou. As lágrimas de Desejo fundiram-se com o Mar, e o Mar entrou em Desejo pelos pulmões, sufocando-o. Desejo sumiu, então, no meio da noite e do Mar.

Utopia ficou perdida na Ilha, a noite toda, e vagou sozinha sem Ninguém. Estava apaixonada pelo Mar, mas sentia-se mal por ter perdido Desejo. No dia seguinte o Mar já estava calmo, e Utopia, solitária, resolveu que era hora de ficarem juntos para sempre. Entrou no Mar e ali se deixou, sentindo-o dentro do seu corpo, descobrindo o amor. As ondas levaram-na para longe – finalmente o Mar recuperara o que era dele.

Da ilha nada mais restou, nenhuma testemunha, Ninguém soube o que aconteceu. Ninguém ficou lá. Só.

Conheça as histórias por trás do livro “Canções para ninar adultos”, em entrevista para a TV São Judas

Foi ao ar, no final de 2012, minha primeira entrevista para TV sobre o livro “Canções para ninar adultos”. A entrevista foi feita pela Maria José Petri da TV São Judas. Foi um espaço bem bacana (27 minutos) pra discutir sobre os contos, a influência da música na minha escrita, as histórias reais por trás da ficção… Enfim, assiste ai:

Fred Di Giacomo e Maria José Pretti no programa “Arte Letra”

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