Jazz: Vontade de matar ao som de Count Basie – conto

Essa versão atualizada de “Jazz: Vontade de matar ao som de Count Basie” foi publicada originalmente no livro de contos “Canções para ninar adultos“, de Fred Di Giacomo, lançado pela editora Patuá no final de  2012. A história faz parte do lado B do livro.

O gênio do jazz Countie Basie

“Sangue fresco tinha gosto de Bourbon”. Gostava de lamber o sangue depois de matar. Fazia-o lembrar de suas raízes animais. Depois poderia voltar a ser o “homem bom”. Depois poderia voltar a ser Humano. Irritava-o fingir no imenso teatro de mentiras que é a vida. Na peça da sua existência representava um cirurgião-dentista. Queria ser médico, mas o vestibular era muito difícil. Queria ser médico, gostava de sangue. Isso se via logo de cara. Lambuzava-se. Deixou vinte e cinco reais no quarto, beijou a boca da puta e foi embora.

As ruas de São Paulo eram imundas e cheias de gente feia. Pessoas com cara de cocô, pareciam montes de merda ambulante. Pelo menos estavam em paz com os animais internos. Corja de assassinos e ladrões arrastando-se pelas sarjetas. Queria estar em Porto Alegre… Uma loira fenomenal do outro lado da rua. Cara de safada. Óculos escuros, batom vermelho, salto alto. Vestidinho sacana demarcando a bunda. Pernas fabulosas e seios vulcânicos. Silicone. Brasileiras não têm peitos daqueles. Talvez seja gringa. Não, as gringas não têm uma bunda daquelas. Meu Deus, como rebolava!

Odiava silicone, tinha gosto de plástico. Gostava de rasgar a carne na boca e sentir as hemácias explodindo com o contato dos dentes. Era um sádico – tinha vontade de estuprar a loiraça ali mesmo, no meio da rua. Encostá-la na parede, rasgar sua calcinha e currá-la no meio da multidão com cara de cocô. Essa ideia passava pela cabeça de metade daqueles “homens bons”. A maioria deles estupraria uma dona daquelas se a sociedade não os jogasse atrás das grades por isso. A maioria rezava para que acontecesse uma guerra ou o fim do mundo para estuprar as mulheres que nunca iriam comer.

Nosso amigo: baixo, magro, brasileiro de nascença, óculos quadrados, aros negros. Nosso amigo: ser humano do sexo masculino, cirurgião-dentista. Nosso amigo: R.G. 43.466.247-9. Nosso amigo era um cidadão respeitável. Sua mulher chamava-o de “chuchu”. Sua filha dizia que ele era o “melhor pai do mundo”. A empregada dizia que ele era justo e respeitador. Mulata sacana! Transava com todos aqueles negros, pobres e nordestinos, tinha uma porção de filhos a parideira, uma bunda gigante e ele ali segurando os testículos para não enfiar-lhe por trás quando ela estivesse abrindo o forno ou esfregando o chão de quatro. Suava só de pensar. Teve uma ereção. A loira entrou num cabeleireiro chique. “A LOIRA” entrou num cabeleireiro chique. AQUELA LOIRA FENOMENAL, OBRA PRIMA DE DEUS, entrou num cabeleireiro chique. Devia ser ricaça, a vagabunda! Uma loira daquelas se casava com quem ela quisesse. Não precisava trabalhar nem se prostituir várias vezes. Bastava vender a alma para um velho brocha… E rico!

O nosso amigo tinha problemas de ereção. Com a mulher não conseguia nada há um ano; suspeitava que ela tivesse um amante. O eletricista ou o velho amigo de nosso amigo, Marcos. Não importava! Alguém estava comendo a Márcia e não era ele. Com as outras gozava rápido demais, tinha fimose. Queria ficar mais tempo para elas não irem embora tão rápido. Queria transar gostoso, para depois ganhar um abraço carinhoso e poder dormir de conchinha. Mas elas nunca gozavam, fingidas, mulher que não goza fica mal-humorada e arruma um amante. Eram as leis da vida. Por isso queria estar em Porto Alegre, tinha visitado a cidade apenas uma vez, mas lhe parecia um bom lugar. Agradável. Gostava de imaginá-la como Pasárgada. Sem negros com paus enormes comendo suas mulheres, só um negrinho que tocava piano e cantava jazz. Lá num barzinho gaúcho. Montes de bichas moderninhas, artistas intelectuais e ele, o último dos homens comuns. Homo sapiens sapiens heterossexual, espécie em extinção. Tomando Black Label pela primeira vez após trinta anos de trabalho fixo e carteira assinada. O negrinho até que tocava bem: Count Basie, Benny Goodman. Um baixista o acompanhava, tocaram uma do Mingus. Sim, Charles Mingus, seu moleque ignorante! O rei do contrabaixo! Aqueles moleques e veados não conheciam nada. Ouviam as notas para parecerem bem cool, mas não viam a hora de aquilo acabar para correrem para casa e escutarem um pouco de rock‘n’roll. Ou rap! Ou algum ritmo novo e sem alma. Ou qualquer merda que esses jovens enfiavam em nossos ouvidos achando que era arte. A arte morreu com o último romântico. Hoje só existiam barulho e velhos broxas, lentos demais para seu tempo.

Pegou um ônibus, depois o metrô. Nem os dentistas ganhavam bem naqueles tempos de crise nas infinitas terras. Aliás, alguns ganhavam, mas ele não, era o clássico exemplo de classe média em queda livre, que já tinha descido pra classe média baixa e continuava despencando. No ônibus tinha um cara enconchando uma morena de bunda enorme. Não parava de se esfregar na mulher, aproveitando-se da superlotação, do balanço do “busão” e da falta de cavalheirismo dos homens sentados. Às vezes o nosso amigo queria dar lugar para uma senhora, mas não sabia como fazê-lo, não tinha iniciativa. Ficava pensando no que falar e, quando se dava conta, já era seu ponto e tinha que se levantar de qualquer jeito. A morena desceu com uma mancha na calça jeans, e o tarado tinha um sorriso de satisfação na cara. Bastardo! No metrô um velho segurava a Bíblia sagrada e disparava a palavra de Deus como se fosse receita de bolo ou aula de ginástica em academia. A gente não deveria ficar velho, era cruel demais. Deveriam matar a gente antes… Tinha um negro lá no fundo. Com cara de suspeito. Nosso amigo passou a carteira pro bolso da frente e segurou firme. Era um cirurgião-dentista prevenido.

Enfim em casa. Cheiro de comida fresca e perfume barato da mulher. A menina brincava em frente à TV. Beijou a mulher. Comeu, tomou banho, mandou a menina ir para a cama. Assistiu ao telejornal. Pensou na vida. E pensou que a morte já não era tão má, àquela altura do campeonato. A mulher disse que ia se deitar. Gelou. Queria estar em Porto Alegre. Passou a mão no seu peito e perguntou se ele não iria com ela. Falou daquele jeito que só a “nossa mulher” sabe falar. Talvez ela não tivesse um amante. Ouviu um “naipe de metais” alto. Devia ser o Count Basie tocando pra ele. Ligou a vitrola, colocou um vinil do Nat King Cole. Fazia tempo que não dançavam. Apertou-a forte contra o peito. Ela riu, estava feliz. Bonita. Nem parecia que tinha quarenta e cinco. Como era linda! E tinha cheiro de felicidade. Foram para a cama, com vinte anos a menos de idade. Apagaram a luz, escovaram os dentes. Fizeram todas as preliminares, sem sacanagem. Só com amor.

Brochou. Como sempre.

Ela disse que não tinha problema. Quando nosso amigo fechou os olhos, ela começou a se tocar. Tinha um amante, com certeza. Ele queria estar em Porto Alegre.

Hoje, no começo do dia, tinha provado aquela xota cheia de sangue de menstruação. Um dia iria matar de verdade. Até lá, tinha que reconquistar sua mulher. Tocava jazz na sua cabeça. Uma big band liderada por Humphrey Bogart. Estaria sonhando? Casablanca. Fitava sua mulher e dizia: “Estou de olho em você, garota”. Sublime. Como diziam os Ramones: “Hoje seu amor, amanhã o mundo”.

20/02/05, ouvindo Count Basie.

Para ler ao som de: “One o’ Clock Jump”

Veja também:

-Joguei meu iPhone nas águas sujas do Tietê

-Leia “A Ilha” conto do livro “Canções para ninar adultos”

-Assista entrevista com Fred Di Giacomo, autor de “Canções para ninar adultos”

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