“Deve ter no estoque” – quadrinho escracha “nova direita brasileira”

Genial quadrinho do site “Dinâmica de Bruto“, do Bruno Maron, escracha os “novos conservadores” brasileiros. Em tempos de “Guia politicamente incorretos”, Veja e partido “Novo” é um alívio que alguém ache tanto pensamento reaça uó. Dica do designer e brother Gabriel Gianordoli.

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Granta transforma conto de Roberto Bolaño em história em quadrinhos feita em HTML5

Pra edição de terror da revista literária Granta um grupo de designers e animadores transformaram a história “The Colonel’s Son’”  do escritor chileno Roberto Bolaño em uma HQ animada programada em HTML5.

É um multimídia não interativo, mas já está bem a frente de outras produções em HTML5. E  tem zumbis! Zumbis existencialistas… Confira o trampo aqui.

Zumbis cults viram HQ em HTML5

Chiquinha – Quadrinista se destaca em meio dominado por homens

Agora na nossa seção artística de quinta-feira, você também confere o trabalho de jovens quadrinistas

Uma das poucas mulheres a se destacar nos quadrinhos nacionais, Fabiene Bento, mais conhecida como Chiquinha (Porto Alegre, 1984) publica seus trabalhos na Mad,  na Folhateen e na Sexy Premium. Um de seus hábitos prediletos é escrachar as atitudes dos nossos pobres jovens. Confira mais do trabalho dela aqui!

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Cachalote – Teaser animado da HQ de Daniel Galera e Rafael Coutinho

Teaser animado da fodástica HQ “Cachalote” de Rafael Coutinho e Daniel Galera. Foi o melhor quadrinho que li esse ano, vale muito a pena comprar!

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ZAP Comix – Robert Crumb, Gilbert Shelton e outros

Ele (Crumb falou com todo mundo , e teve culhões para fazer esse gibis. Reinventou o gibi. Ele tomou isso como outros de sua geração tomaram a música. Existem poucas pessoas que você pode dizer que literalmente se tornaram o ponto de partida para todo um mundo. Crumb teve a grande visão, a visão ardente”. Bill Griffith, colaborador da Zap Comix!

Capa da edição brasileira da Zap Comix

 

Os beats já eram homens maduros quando o Flower Power explodiu no final dos loucos anos 60. Os hippies ainda eram muito ingênuos pra escrever seus livros na mesma época. Enquanto Jimi Hendrix tacava fogo na guitarra, Timothy Leary pregava a expansão da mente através do LSD e Zé Celso revolucionava o teatro no Oficina, quem escrevia a literatura daquela geração desbundada? Os livros eram o registro em papel daqueles ecos lisérgicos?

Não. A literatura não era apenas a poesia dos velhos (e bons) beats. Ela era composta pelas resenhas musicais de caras como Lester Bangs e pelos rabiscos malucos de quadrinistas underground como o gênio Robert Crumb. Crumb era só um desenhista de cartões postais, vindo de uma família desajustada e com gosto por músicas e roupas antigas, quando começou a fazer seus primeiros quadrinhos. Não é o tipo de gente que você imagina que seria chamado para desenhar a clássica capa de “Cheap Thrills” da Janis e que depois se negaria a desenhar uma para os Stones. Mas lá vai nosso nerd, vindo de Cleveland para desenhar sozinho o número zero da Zap Comix. As ruas da Califórnias estavam prontas para aquele petardo? Bom, acontece que o cara que deveria imprimir a ZAP sumiu do mapa com os originais e lá foi Crumb desenhar a edição número 1 inteira, sozinho novamente, e revolucionar a indústria dos quadrinhos. Desde a Mad original não se via tamanha afronta. Sexo, drogas, nonsense, gírias. Tudo fazendo rir. Críticas sociais, morais, e culturais que vinham em formato de humor sacana e barato. Edições tiradas em impressoras off set baratas que estavam revolucionando a indústria. E distribuídas inicialmente no carrinho de bebê da mulher de Crumb.

Começo da polêmica e incestuosa HQ "Joe Blow"

E outros artistas foram se unindo a Crumb. Cada um representando uma subcultura. Spain Rodriguez (operário membro de uma gnague latina), Rick Griffin (surfista e ilustrador), Robertt Williams (marginalzinho e aspirante a artista), Victor Moscoso (espanhol que já tinha experiência na indústria de HQs), Gilbert Shelton (dividia o tempo entre uma gangue de motoqueiros e uma revista underground), Siclay Wilson (cursava Belas Artes e servia o exército a contragosto). Aos poucos aquela gangue de surfistas, hippies, latinos e freakies ia ligando suas histórias na tomada e eletrocutando os leitores. A Zap não tinha periodicidade fixa, mas vendia surpreendentemente bem. Dizia-se até que ela iria matar Super-Homem e Cia.

Crumb, o gênio tarado

A coletânea publicada no Brasil pela Conrad reúne 14 números publicados entre 1967 e 1998. É um delicioso aperitivo para quem quer se introduzir no mundo da ZAP. Conta ainda com uma primorosa introdução escrita por Rogério de Campos, o homem por trás da Conrad. E uma experiência inspiradora de produção independente que ajudou a subverter e transformar a indústria que a rodeava.

Zap foi o start. Mas a coisa teria acontecido mesmo sem o Crumb, porque todos os artistas underground estavam caminhando nessa direção – Griffin, Mouse, Kelley, eu no sul da Califórnia, Gilbert Shelton. Havia um grande ódio contra a autoridade e o governo, e os quadrinhos eram uma tremenda forma de expressão”, Robert Williams.

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“Ódio” de Peter Bagge é o quadrinho que retratou a geração grunge

(Resenha originalmente publicada nos sites Zine Kaos e The Watchtower, 2003.)

Fede a Espírito Adolescente!!!
Quadrinhos grunges dão voz a geração perdida dos anos 90
Capa do coletânea "Ódio" publicada pela Via Lettera

Capa do coletânea “Ódio” publicada pela Via Lettera

por Fred Di Giacomo, eu mesmo

Literatura pop e listas dos 5 mais, sebos e vinis, garotas e álcool, estilo de vida rock n’ roll vivido por “adolescentes” de 32 anos e ódio. Os quadrinhos de Peter Bagge foram o maior sucesso da editora Fantagraphics e caíram nas graças de uma geração de losers fãs de rock independente, que viviam à base de subemprego e cerveja barata. Seu ícone seria o anti-herói Buddy Bradley rodeado por seus amigos freakies Funtum, George, Valerie (a namorada ninfomaníaca) e sua ex, Lisa . Buddy e o Ódio tiveram um significado semelhante para a geração de Seattle ao da revista Chiclete com Banana e do personagem Bob Cuspe, do quadrinista Angeli, para o punk tupiniquim.

Tudo cheira a vida real nas páginas de Ódio, seus traços exagerados, acentuando as expressões dos personagens, são influência do pai dos quadrinhos underground americano, Crumb, e sua narrativa ácida, mesclando escatologia com sacadas inteligentes, retrata fielmente o cotidiano dos jovens que como eu e você viveram os anos 90. As festas, os diálogos, as crises de relacionamento tudo leva a crer que o nanquim da caneta foi substituído por sangue humano, o cheiro de “pisicotrópicos”, fumaça de cigarro e cerveja é o mesmo das festas de repúblicas universitárias. As ambições de Bradley e seu amigo Funtum não são lá grande coisa. Bradley trabalha num sebo e Funtum vive de “bicos” , os dois sonham em ter um fanzine, mas mal conseguem decidir se irão escrever sobre rock ou sobre quadrinhos. Todo jovem envolvido com a “cultura alternativa” vai encontrar algum traço de sua vida na ponta da caneta de Peter Bagge.

Peter Bagge

A crítica se torna mais séria quando entram em cena os irmãos de Buddy: Butch e Babs (ele um jovem fascista americano e ela uma mãe solteira, convertida em fundamentalista cristã), e ai Bagge destila todo seu sarcasmo e ódio contra a sociedade americana. Desse sarcasmo não escapam ninguém, nem os pseudo-intelectuais como George, colega de Bradley, “um negro que não curte rap”, nem os integrantes da cena alternativa, nem mesmo o próprio autor, alter-ego de Buddy Braldley, retratado na última história do álbum , uma viagem surreal onde ele reflete sobre os caminhos de sua obra rumo a um apelo mais comercial e pop. Peter diz que não participou ativamente da cena grunge por já ter mais de 30 anos na época e “não gostar do cheiro de cigarro nos clubes de rock”, mas foi amigo de alguns dos principais participantes, tendo desenhado uma capa para a banda TAD. Antes de morar na Seattle do grunge, Bagge morou na Nova York do início dos anos 80 época do Punk e da New Wave.

Ódio foi publicado aqui pela Via Lettera, editora do veterano tradutor Jotapê Martins, em 2001 num álbum com 6 histórias longas e mais três curtas. Nos Estados Unidos, após uma crise semelhante a do já citado Angeli com a personagem Rê Bordosa, o autor resolveu “matar” a revista Hate (criada em 1990), transformando-a numa publicação anual, para não limitar sua arte a esses personagens e procurar novos rumos. Por trás de todo oba-oba em cima de seu parentesco com o grunge, de baixo da camiseta de flanela por fora da calça, o all star e o cabelo desgrenhado de Peter Bagge, Ódio tem como principal qualidade o fato de ser um retrato fiel e sem firulas de seu tempo. Uma fotografia do principal personagem da tragédia humana : o homem comum.

Fred Di Giacomo, 07/11/03
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Chiclete com Banana – Angeli

Quase vinte anos depois o mundo dos quadrinhos não abortou outro feto tão engraçado.

Chiclete Com Banana N° 21 - 0001

Faltam quadrinhos nacionais nas bancas. Faltam boas revistas de humor também, se você tem mais de catorze anos e já não acha graça na MAD….Certa vez, numa palestra com o Fernado Gonzalez em Bauru, alguém propôs a ele fazer uma revista junto a outros cobras como Laerte e Angeli. Ele rodeou, rodeou, mas não conseguiu dar uma boa desculpa para não tocar o projeto. Por quê? Porque se alguma dia isso acontecesse seria um sucesso. Ou melhor, já foi.

Eram os anos oitenta e quadrinhos de massa no Brasil se restringiam a Turma da Mônica. Havia o punk, havia a “abertura política” e a cultura pop estava se espalhando pelo país. Fome e rock n’ roll. Em meio ao caos, uma trupe de novos chargistas vindos do quadrinho político (entre eles Angeli e Laerte) se depararam com a contra-cultura (pelas mãos de Glauco) e passaram a espalhar seus rabiscos pelo país. Angeli foi o primeiro a lançar-se em vôos independentes. Desenhando na Folha de S. Paulo desde os 17 anos, ele publicou livros com suas charges que foram sucesso. Foi o estalo para que seu editor, Toninho Mendes, o convidasse para um título regular nas bancas em 1985.

-Conheça “Ódio” a HQ da geração grunge
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A “Chiclete com Banana”, bimestral, foi lançada pela editora Circo e era uma pérola de sarcasmo e bom humor. Tudo que a MAD brasileira fez depois estava lá, desde as tiras de uma página nas contra-capas às piadinhas com os preços passando pela sessão de cartas bem humoradas (ilustradas por desenhos toscos dos leitores) e pelos relatórios nonsense que o Ota copiou. Isso tudo pelas mãos de mais aplicado discípulo tupiniquim de Crumb: Arnaldo Angeli Filho.

A produção da Chiclete era tosca. Nada de pagemaker ou super equipes de arte, era tudo montado pelas mãos de Angeli num esquema que lembrava os fanzines de onde o próprio Angeli havia surgido (zine O Balão). No entanto, a primeira edição esgotou sua tiragem, que dobrou na segunda e na terceira novamente. A revista, que vinha com um selo de “aprovada no código de ética” para adultos, chegou à histórica marca de 110.000 exemplares, número nunca igualado por uma HQ independente no Brasil. As histórias recheadas de sexo, palavrões, drogas e violência podem não causar tanto arrepio hoje, mas na época eram um grito de subversão numa sociedade acorrentada por vinte anos de ditadura. O estilo underground da revista quebrava o padrão de humor brasileiro que não tinha nem nas tiras de Belmonte nem na turma do Pasquim um antecessor a altura da anarquia proposta por “Angel Villa”. Com o crescimento da cria de Angeli, novos colaboradores deram as caras: Paulo Caruso, Glauco Matoso, Hubert, Glauco e Laerte. Esses dois últimos criaram com Angeli uma das mais bem sucedidas tiras do Brasil: Los Três Amigos, que estrearam em uma “edição especial em duas colores e dublada em portunhol e espanhes” na Chiclete com Banana número 20!

Los Três Amigos eram alter-egos dos autores, cada um com características de seus criadores: Angel Villa era o conquistador de araque, Glauquito o doidão e Laerton el maricon. Maricon no, transformista! Como ele mesmo dizia. Os mariachis assassinos distribuíram balas pelo México muito antes de Antonio Banderas e a “Balada do Pistoleiro”. Assassinando Miguelitos (pequenos garotos com chapelão mexicano), atacando donzelas inocentes e enrabando seus cavalos, os três espalharam terror e risadas com seu humor ácido, violento e completamente sem moral. Ganharam posteriormente as páginas do caderno Folhateen por onde reinaram anos seguidos sempre gerando polêmica. Voltando a Chiclete com Banana…

A revista publicada pela Circo trazia além de charges, matérias humorísticas, fotonovelas, anúncios feitos especialmente para o Pasquim, entre outras porra-louquices. Os personagens clássicos de Angeli estavam todos nas páginas sangrentas da Chiclete, cada um representando um tipo comum na sociedade brasileira da época : Rhalah Rikota, Rê Bordosa, Walter Ego , Meia Oito e o punk Bob Cuspe. Bob era pra ser no começo uma sátira aos punk paulistas, mas seu criador acabou se identificando tanto com o personagem e a ideologia do mivimento que logo a revista se tornou a preferida de punks e headbangers. Muito antes da “Metalhead” e “Rock Brigade”, fãs de rock mandavam cartas atrás de contato com outros fãs. Metaleiros pediam um personagem cabeludo e punks detonavam o sistema em cartas seriíssimas. Sintam o drama :

“A sua revista Chiclete é uma chance dada aos punks de todo o mundo. Agora, estes filhos da puta, metal, heavy, black, new waves, querem atrapalhar nosso espaço. Na MAD eles encontrarão um espaço, aqui não, fora, foraa, foraaa!”
Lula Borozão, Brasília, DF.

Ou

“Sou um black metal revoltado e acho pagode coisa de viado. Pau no cu dos pagodeiros”.
EFA, Embu, SP.

Sem contar cartas enviadas por punks de um kibutz em Israel ou uma sessão toda destinada a cartas detonando a MAD. Surreal? O ano era 1987 e ainda tinha uma foto de uma leitora de costas mostrando a bunda ilustrando a página. Quem tem a manha hoje em dia? Quem tem a manha de detonar o Lulu “Argh” Santos com todas as letras e colocar Freud de moicano na capa??

As 52 páginas de cuspe na cara que saíam a cada dois meses duraram até a edição 22 e deram força para o surgimento de diversas outras publicações semelhantes como a revista “Circo” e a “Geraldão” (do Glauco), todas seguiam a linha inovadora criada por Angeli em sua revista. Ele mesmo admite que o seu caráter centralizador de querer fazer tudo sozinho acabou dificultando a produção regular do título; e também logo vieram as crises que abalaram a economia no final dos anos 80, diminuindo o poder de compra dos leitores ávidos por quadrinhos.

Plano Collor, sertanejo nas rádios, democracia. O cenário era diferente nos anos 90 para quem havia surgido na década passada. Não que os quadrinhos de Angeli não se atualizassem, mas o formato de revista regular se tornou inviável. Uma nova década viria junto com quadrinhos online e editoras especializadas em lançar álbuns de quadrinistas como Lourenço Mutareli, mas a Chiclete com Banana ficou na memória daqueles que puderam sentir o cheiro junkie do papel “pulp fiction” de suas páginas.

Veja também:
-Te gustas el punk rock?
-Homenagem ao cartunista Glauco

Frederico Di Giacomo Rocha
08 de Maio de 2004
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