Entrevista com Nelson Triunfo: pioneiro do rap nacional fala sobre educação, Facção Central e literatura marginal

Entrevista realizada originalmente para o Zine Kaos, em 2004, feita quando o ativista do hip hop, b.boy e cantor, Nelson Triunfo, dançou ao lado da Nação Zumbi, em show no dia do trabalhador, no Sesc-Bauru.

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Neson Triunfo dança break em show da Nação Zumbi, Bauru. Foto: Renato Bueno

1)Qual a importância dos fanzines na cultura hip hop?
Nelson Triunfo
– Ele é importante não só para o hip hop, mas pro rock, pro reggae, pra outras comunidades, outras tribos. Contanto que seja um fanzine que tenha informação e passe a informação correta.

2)O que você acha dessas novas bandas, como Facção Central, que tem uma linguagem mais pesada?

N.T.– Cara, faz parte. Eu particularmente não escuto muito não. Porque eu sou um cara que não gosta da coisa que fala só do pesado, eu já tive vários problemas e isso me lembra algumas coisas que eu não gosto muito. Então eu procuro viver o melhor da vida, eu procuro o lado mais positivo.

3)Qual a diferença do cara que só canta rap e do que atua no movimento hip hop?
N.T.- Cada um faz uma coisa. No caso do meu trabalho eu sou muito ligado ao lado educativo, ao lado cultural. Eu me sinto feliz em poder orientar as pessoas, fazer workshops. Isso é o hip hop. Tem outros que são artistas mesmo, que sobem no palco, e só fazem show e gravam cd pra lá e pra cá. Eu não sou contra eles, até porque trabalhar o social não é só querer fazer. Você tem que ter um preparo sobre isso, porque muitas vezes você querer se meter a fazer esse trabalho, sem ter o know-how, sem ter o conhecimento pode até atrapalhar a pessoa, passando a informação errada.

4)Como é que você enxerga a literatura da periferia, que é uma coisa que vem crescendo muito?
N.T.– Isso é muito bom.Como é que nós vamos educar nossos jovens, se o livro não tem a realidade deles? Porque, então, eles vão numa oficina de hip hop por livre e espontânea vontade, mas não vão à aula. As próprias professoras pra eles às vezes são bruxas. E isso é complicado. Você vê, meu filho tem doze anos e ontem nós fizemos um show aqui, (onde) ele foi o cabeça do show todinho. Tudo isso é interessante pra ele. Ele faz o show como se estivesse jogando vídeo game. A primeira vez que eu pus ele no palco eu quase chorei de emoção. Eu digo: “Meu Deus o que eu to fazendo com ele aí. Ele quer fazer isso, mas não tem responsabilidade, será que ele vai errar?” E ele tava orientando a banda como tocar… Aí, eu fui vendo que pra ele aquilo ali era diversão, né cara?

5)Pra encerrar, o que você achou de ter participado do show com a Nação Zumbi?
N.T.– A Nação quando começou, o Chico Science gostava muito de mim. Ele sabia que eu era de Pernambuco e quando ele era moleque eu já fazia som com James Brown, Toni Tornado e todo mundo que vinha aqui. E lá (em Pernambuco) eles são pessoas que lêem muito. Eu era do interior, né? Com 15 anos, eu sabia falar sobre o mundo. Conhecia os mapas, os rios. Eu sempre fui 1o. da classe, não talvez porque eu era o mais inteligente, mas porque eu estudava. Eu era um “papa-conhecimento”, tinha isso pra mim como um desafio. E até hoje eu leio muito.

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Reportagem Kaótica: Fred Di Giacomo, ECM e Renato Bueno(foto). 01/05/2004

Confira a performance de Nelson Triunfo no clássico clipe “Senhor Tempo Bom”, de Thaíde e DJ HUm

5 discos para começar a ouvir rap nacional

Eu nunca fui “do” hip hop, mas sempre gostei de rap – principalmente rap nacional. Ouvi Racionais Mc’s pela primeira vez na rádio, lá em Penápolis, a música era “Fim de Semana no Parque”, do disco “Raio X – Brasil”. Depois, um amigo do meu irmão aprensentou pra gente Ndee Naldinho, D Menos Crime e Xis. Pavilhão 9, Doctors Mc’s e Thaíde e DJ Hum eu conheci pela Mtv mesmo, no finado programa “Yo”. Meus amigos punks não gostavam de rap, os roqueiros e os manos não se davam muito bem nas quebradas de Penápolis.

Fiz a lista abaixo pensando num cara como eu era em 1996, um cara que está a fim de ouvir rap, mas não é um grande especialista no estilo. Tem muitas bandas nacionais que acabaram sendo “one hit bands”, tem muito disco nacional que sofre por produção tosca. Esses abaixo são grandes discos não só do hip hop mas da música popular brasileria. Podem ser apreciados por qualquer fã de boa música e servem pra quem não tem muita intimidade com o gênero abrir sua cabeça.

1) Sobrevivendo no Inferno – Racionais Mc’s


Se eu pudesse salvar só um disco de rap pra alguém ouvir no futuro, esse disco seria “Sobrevivendo no Inferno”, dos Racionais Mc’s – um dos melhores álbuns já gravados no Brasil. “Sobrevivendo…” foi lançado em 1997 e traz uma série de hits (“Diário de um detento”, “Capítulo 4, versículo 3”, “Mágico de Oz”, entre outros), uma produção seca e classuda e o Racionais momentos antes de se tornar um fenômeno nacional. Depois de “Sobrevivendo no Inferno” qualquer moleque sabia cantar de cabo a rabo as longas letras de Mano Brown e Edy Rock, repetindo suas rimas e tentando imitar a entonação grave de suas vozes.  As letras, estrelas principais do disco, alternam crônicas da vida cotidiana com contos do mundo do crime que prendem o ouvido do fã na caixa de som, palavra por palavra , ávido pra saber o final de cada “história”. Destaque ainda para a versão de “Jorge da Capadócia”, do mestre Jorge Ben, com sampler de “Ike’s Rap II” do Isaac Hayes (a mesma que o Portishead usou em Glory Box) . Ah, o disco vendeu absurdos um milhão e meio de cópias (:-O) e o clipe de “Diário de um Detento” foi o grande campeão no VMB, prêmio da Mtv Brasileira
Ano: 1997
Uma música:
“Diário de um detento”


2)Rap é compromisso – Sabotagem


Sabotage é uma dessas figuras em que é difícil separar o mito do artista. Morto jovem, com um passado misterioso no crime e uma carreira multimídia em ascensão (tinha participado de dois filmes, “Carandiru” e “O Invasor”), ele partiu cedo demais, mas deixou esse clássico do rap, comparável só aos Racionais em culto e ao Criolo em hype. Agradando playboys e manos, com uma mistura de ritmos – natural para quem curtira Pixinguinha e Chico Buarque – e uma bela produção de Zé Gonzales e Ganjaman, Sabotage deixou esse clássico que inclui “Respeito é pra quem tem”, “Rap é compromisso”, “Um bom lugar”, entre outras pérolas. A participação da família RZO é fundamental na construção dos refrões poderosos e até alguns famosos dão as caras na vocal como Black Alien (Planet Hemp) e Chorão (Charlie Brown Jr.).
Ano: 2000
Uma música: “Um bom lugar”


3)Traficando informação – MV Bill


Por muito tempo o Rio de Janeiro ficou um pouco à margem dos holofotes do rap nacional. Enquanto bandas de Brasília e de São Paulo dominavam a cena, o Rio assistia bondes de funk e grupos que misturavam o rock com o rap dominando o cenário. E aí MV Bill chegou com esse disco seco, pesado e com ótimas rimas que contava histórias longas e cruas em letras como “Soldado do Morro”, “Traficando Informação” e “Um crioulo com uma arma na mão”. Lançado em 2000, ele faturou o Prêmio Hútuz de álbum do ano e revelou em Bill uma espécie de Mano Brown mais disposto a dialogar com a mídia: dando entrevistas, participando de programas da Globo (mesmo que descendo a lenha na emissora durante a apresentação) e lançando o respeitado documentário “Falcão” que conta a história dos jovens solados do morro, cuja infância foi perdida na guerra das drogas.
Ano: 2000
Uma música: “Soldado do morro”

4)Preste atenção – Thaíde e DJ Hum

Pioneiros do hip hop nacional desde os tempos das rodas de break no metrô São Bento, Thaíde e Dj Hum formaram uma dupla respeitadíssima que teve vários bons momentos e pelo menos esse grande clássico – redondo de cabo a rabo. Com um som mais positivo e dançante que muitos de seus pares, a dupla emplacou o grande hit “Senhor Tempo Bom” sobre o movimento black power brasileiro e mantém o ritmo swingado na enérgica “Afro Brasileiro”. A mensagem mais social vem em “Malandragem dá um tempo”, outra grande canção do disco cheio de introduções e vinhetas que revelam o talento nas pick ups do DJ Hum.
Ano: 1996
Uma música:
 “Senhor Tempo Bom”

5)Nó na orelha – Criolo


Lançado em 2011, “Nó na Orelha” não é um disco típico do rap nacional, mas é um bom exemplo do alcance musical que o gênero pode atingir. Espécie de continuação do que o coletivo de produtores Instituto estava fazendo com Sabotage antes do artista ser assassinado, esse belo disco traz rap, samba, reggae e música brega, tudo com arranjos de primeira, bases de qualidade internacional e as rimas cadenciadas de Criolo, um carismático vocalista disposto a fazer a ponte entre o rap e outros estilos sonoros. Entre as várias faixas boas destacam-se “Subirusdoistiozin”, “Não exister amor em SP”, “Linha de Frente” e  “Lion Man”
Ano: 2011
Uma música: “Subirusdoistiozim”

Veja também:
-5 sons pioneiros do hip hop brasileiro
– 10 músicas clássicas do rap nacional
-5 discos injustiçados do rap nacional

5 sons pioneiros do rap nacional

O hip hop chegou no Brasil nos anos 80, numa transição do que era o black power dos anos 70, para o que seria o rap nacional. B.boys, MC’s e alguns grafiteiros se reuniam no centro de São Paulo, perto da estação São Bento para dançar e trocar ideia sobre música. Em 1988, André Jung e Nasi, da banda Ira!, produziram a coletânea “Hip Hop Cultura de Rua” para o selo Eldorado. Foi o disco que lançou Thaíde e DJ Hum(com “Corpo Fechado”) e Mc Jack(de “A minha banana”). Algum tempo depois, sairia “Consciência Black” estrelando Racionais Mc’s e sua “Pânico na Zona Sul”. Um dos primeiros hits do movimento foi a ingênua e dançante “Nome de menina” de Pepeu. Junto com nomes como Código 13 e Athaliba e a Firma, ele fazia o hip hop revezar crítica social com músicas dançantes e animadas. Nélson Triunfo era o grande nome do break e, nos anos 90, a cena cresceria muito com várias bandas gravando discos em todos os estados do Brasil, principalmente depois da forcinha dada pela estreia de Gabriel, o Pensador – um branco de classe média que ajudou a popularizar o som entre todas os grupos sociais.

Cada do crássico pioneiro do rap brasileiro

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Quando eu fiz a lista dos 10 clássicos do rap nacional, meu critério foram músicas que foram importantes na época de seu lançamento, influenciaram outros grupos e ficaram na cabeça dos amantes do estilo até hoje. Mas faltaram alguns sons pioneiros, que hoje em dia não são mais tão lembrados, mas foram importantes por abrir caminho para tudo que veio depois. Desses, eu escolhi seis pra você curtir e relembrar. Aumente o som e divirta-se!

1)Nome de menina – Pepeu

2)Política – Athaliba e a Firma

3)Corpo Fechado – Thaíde e DJ Hum

4)A minha banana – Mc Jack

5)Pânico na Zona Sul – Racionais Mc’s

Bônus:
Ndee Naldinho merece estar em qualquer lista de pioneiros do hip hop, sua história com o rap começa nos anos 80, quando a cena surgiu no Brasil. Como nasci em 84, só comecei a escutar som de verdade nos anos 90, quando descobri “Melô da Lagartixa” numa fita cassete de um camarada. Não achei a data exata da música, por isso deixei ela como bônus aqui nessa lista de sons das antigas.

Melô da Largatixa – Ndee Naldinho

5 discos injustiçados do rap nacional

Existem algumas unanimidades do hip hop nacional: mídia e fãs adoram Racionais Mc’s, todos respeitam a história doThaíde, Sabotage virou herói, etc. Nada contra, os três são excelentes artistas brasileiros, mas sempre senti um pouco de preconceito com as grupos que incorporaram elementos de rock ao seu som, ou contra MC’s que não tenham vindo diretamente das comunidades pobres. Por isso fiz a lista abaixo. Talvez, daqui uns anos, ela seja bem indexada no Google e gere polêmica. Muita gente pode reclamar: “Pô, o que esse cara entende de rap, deve ser mó playboy, etc.” A intenção aqui não é cagar regra, mas provocar reflexão e tentar resgatar discos bons que não seguem a cartilha do hip hop nacional clássico. Quem não tiver preconceito vai se surpreender.

-Mais listas
-Sabotage cantando a bela “Cabeça de Nêgo”

Faces do Subúrbio – Faces do Subúrbio

Lançado originalmente de forma independente, o disco de estreia dos recifenses do Faces do Subúrbio misturava não só o rock com rap, mas também embolada(ritmo tradicional brasileiro que lembra o hip hop), acrescentando pandeiros à pick up e guitarras. A banda teve bastante destaque na onda do Mangue Beat, mas nunca chegou a ser popular em São Paulo. É um bom disco pra quem se interessa pela fusão de hip hop com ritmos nacionais.

Ouça:Homens Fardados“, “Os Tais” e “P.P.O.R”
Eu tiro é onda – Marcelo D2


Seguindo na mistura de ritmos nativos com as batidas do rap, encontramos “Eu tiro é Onda”, primeiro álbum solo de D2 e pioneiro na mistura de hip hop com samba e bossa nova. “Pô, cara, mas D2 injustiçado?”, você pergunta. Obviamente o MC carioca fez muito sucesso com seu segundo álbum(“A procura da batida perfeita”), mas muita gente do hip hop mais tradicional ainda torce o nariz pro D2, tanto por seu som ser mais pop, quanto por ele ter um passado roqueiro/mainstream.

Ouça:1967“, “Samba de Primeira”, “Eu tive um sonho”
3)Cadeia Nacional – Pavilhão 9


Antes do fenômeno “Sobrevivendo no Inferno”, o Pavilhão 9 foi o grupo de rap mais comentado de São Paulo. Venderam 10.000 discos rapidamente, foram capa da Veja SP e contaram com a participação de Marcelo D2, Nação Zumbi e Sepultura em seu terceiro disco. O grupo se apresentava mascarado e se servia de fartas doses de rock pesado para compor seu som. O problema é que a aproximação com o rock os afastou dos puristas do hip hop, mas não os habilitou para o sucesso no mundo rock ‘n’ roll. Perdidos entre duas tribos, o grupo deixou essa pancada clássica para quem não se importa com rótulos.

Ouça: Mandando Bronca“, “Opalão Preto” e “Otários Fardados”.

4)Gabriel, o Pensador – Gabriel, o Pensador

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A importância do primeiro disco de Gabriel, o Pensador pro rap brasileiro é análoga ao surgimento dos Beastie Boys nos EUA: “Rapper branco de classe média, em um momento em que o hip hop era visto com preconceito pela sociedade, consegue destaque com o som negro e abre caminho para as grandes bandas do gênero”. É bobagem ficar menosprezando o trabalho do Pensador por sua classe social ou sua cor. Crítica, com rimas espertas e bases cruas, essa é uma das estreias mais impactantes da música brasileira e merecia ser respeitada como uma das boas bolachas do rap brasuca.

Ouça: “Lôraburra”, “Retrato de um Playboy”, “Tô Feliz(Matei o presidente)

5)Câmbio Negro – Câmbio Negro

Saída das quebradas de Ceilândia, a banda liderada pela voz grave de X teve uma trajetória parecida com o Pavilhão 9. Começaram fazendo hip hop tradicional com DJ e depois acrescentaram guitarra, baixo, bateria e influências de rock pesado. Além dos grooves de “Esse é meu país” e “Círculo Vicioso”, o disco conta com a sinistra “Um tipo acima de qualquer suspeita” sobre um tarado que ataca mulheres de todas as cidades até acabar na cadeia “chupando de todo mundo, chamando de meu bem”. Um dos melhores e mais criativos álbuns de rap nacional

Ouça: “Esse é meu país”, “Círculo Vicioso” e “Um tipo acima de qualquer suspeita“.

10 músicas clássicas do rap nacional

-Mais notícias de música
-Mano Brown fala sobre  Serra, Dilma, Lula e PCC

Primeira edição da revista "Pode crê", de 1993, garimpada pelo blog "Olha onde a favela chegou"

 Sim, sim, dava pra fazer umas 3 listas com clássicos do rap nacional. A primeira poderia ser só com  as músicas do começo do movimento, de caras como Athaliba e a Firma, Pepeu e Ndee Naldinho. Outras poderiam trazer as que  fizeram mais sucesso ou com as que foram mais influentes. Eu não pretendo rabiscar nenhuma dessas. A ideia aqui não foi listar as melhores, mas 10 músicas que marcaram época e que são conhecidas(ou deveriam) por todo mundo que curte hip hop. A maioria delas conseguiu ultrapassar a barreira de gêneros e fez sucesso fora do mundo do rap também. Tentei equilibrar aquelas boas pra animar bailes, com outras mais preocupadas em passar uma mensagem.  Foquei no final dos anos 90 porque foi a época em que ouvi mais esse som, e é de lá que vem meu saudosismo com “um tempo bom que não volta nunca mais”.

-Outras listas

Diário de um detento – Racionais Mc’s
“Fim de semana no parque” foi uma das primeiras músicas dos Racionais que ouvi – no rádio mesmo – no meio dos anos 90. Eu era bem moleque e alguns anos depois eles estourariam com “Sobrevivendo no Inferno”. Ouvi esse disco diversas vezes, prestando atenção em cada detalhe das letras. “Diário de um detento” virou, provavelmente a música mais conhecida do rap nacional. Do playboy do colégio ao empacotador do supermercado, todo mundo sabia a letra de cor. Tem outras boas mais antigas(“Mulheres Vulgares”, “Hey Boy”, “Pânico na Zona Sul”), mas poucas marcaram tanto quanto esse relato do cotidiano no Carandiru.

Senhor Tempo Bom – Thaíde e DJ Hum
Muita gente acha que o grande clássico de Thaíde é “Corpo Fechado” que saiu  na coletânea “Hip Hop Cultura de Rua”, de 1988. Ela tem sua importância pioneira,  mas “Senhor tempo bom” se tornou um hino, uma homenagem funkeada aos clássicos black power que acabou se tornando, ela mesma, um clássico, animando bailes por todo o Brasil desde que foi lançada em 1996.


Rap é compromisso
– Sabotage
Infelizmente, Sabotage só lançou um disco em vida. Foi o suficiente para entrar pro pódio do hip hop nacional com uma cadência chapada nas rimas e influências de samba, chorinho e MPB que faziam a diferença em seus raps. Ao lado de “Respeito é pra quem tem” e “Um bom lugar”, “Rap é compromisso” é uma das melhores composições que Sabota deixou antes de ser assassinado.


Fogo na Bomba
– De Menos Crime
“Fogo na Bomba” ultrapassou os limites do rap, virou grito de guerra de maconheiros espalhados por todo Brasil, ganhou espaço em show de rock e foi um dos grandes hits de 1999. Ralando desde 1987 em São Mateus, os manos do De Menos Crime fizeram muita gente que nem curtia hip hop ter o refrão dessa música na ponta da língua. Pra quem gostar vale ouvir “Burguesia” e “A Bola do Mundo”


Tic Tac
– Doctors Mc’s
Tic Tac deve ter sido um dos clipes de rap mais exibidos no extinto Yo!,  da Mtv. Pra mim ela tem um puta gosto de nostalgia. O Doctors normalmente fazia um som mais animado, bom pra galera bater cabeça, mas foi nessa baladinha bem-humorada que os caras conseguiram criar um clássico maior que a própria banda.

Us mano e as mina – Xis
Outro megahit que ultapassou os limites do hip hop, “Us Mano e as mina” tinha a força de um refrão de torcida e fez a galera começar os anos 2000 cantando rap. Xis já estava na correria há anos, tocava a gravadora 4P com KL Jay, tinha passado pelo DMN e gravado “De Esquina”, com Dentinho. Mas foi na simplicidade divertida dessa faixa que ele encontrou o caminho pro sucesso.

O Trem – RZO
O RZO é respeitado por toda sua história, gravou diversas músicas, fez parcerias com artistas que vão de Charlie Brown Jr a Sabotage, passando pelo Instituto. A banda de Pirituba, revelou – também – o talento de Sabotage e Negra Li pro mundo. Mas pra mim, o grande momento dos caras é essa música, presente no disco “Todos são manos”, de 1999.

Cada um por sim – Sistema Negro
O Sistema Negro foi o responsável por colocar Campinas no mapa do rap. Em 1994, “Cada um por si” virou um clássico instântaneo das festas de hip hop – e do já citado Yo!. Diziam que o som dos caras era gangsta, mas as letras eram muito mais retrato e crítica da violência, do que a apologia que os rappers gringos faziam. Faz parte do disco “Ponto de Vista”.

Casa Cheia – Detentos do Rap
Antes de 509-E e outras bandas formadas na cadeia fazerem sucesso, o Detentos do Rap abriu caminho com “Apologia ao crime”, gravado em 1998 na Casa de Detenção de São Paulo. O disco vendeu 30.000 cópias e tornou o refrão “É o Carandiru está de casa cheia/Muito veneno no ar/ e muita droga na veia” um crássico.


De Esquina
– Dentinho e Xis
Em 1997, os rappers Dentinho e Xis(então no DMN) se juntaram pra gravar esse rap que fala sobre a paranoia da cocaína. A faixa foi produzida pelo Thaíde, abriu caminho pra carreira solo de Xis e ganhou até versão samba na voz da cantora Cássia Eller.

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Tiros, tretas e vagabundagem. (Aconteceu no meu bairro.)

(Esse conto foi originalmente publicado no site Enraizados e faz parte do meu primeiro livro Canções para ninar adultos“. Dedicado a todos amigos do meu bairro)

por Fred Di Giacomo

Não sei quem mata mais a fome, o fuzil ou Ebola. Não sei quem sofre mais, os pretos daqui ou os de Angola,

O Invasor”, Sabotage.

Mestre Sabotagem atuando no filme "Carandiru"

Mestre Sabotagem atuando no filme “Carandiru”

 

_Escuta, vamos matar esse puto logo e sair daqui, não tô afim de preocupação pra minha cabeça.

_ Porra, Bino, você tá amarelando, meu irmão? O negócio é baba, pega o padre, bota uma bala na cabeça dele e boa. Trabalho feito.

_Caralho, Betão, você acha que sair por ai matando padre é um esporte bem agradável, né?

_Ih, calma vocês dois. Vamos agilizar o negócio. O cara vai estar no acampamento sexta, a gente espera na estrada e faz o serviço: simples assim.

Quem falou foi o Fino, o Mudo não falou nada. Ele nunca falava.

***

Tava tocando Bezerra da Silva, cd de camelô. O cheiro de gordura queimando se espalhava pelo bairro. Criança chorando no vizinho. Sempre. Seis caras e três mulheres. Cerveja “Conte” barata e caipirinha com pinga 21. R$ 2,28 no supermercado. Mais barato que maconha. Tinha uma mão de cinco reais também. Mas só o Gil e o Bina fumavam. A galera não curtia, nem pegava bem com os vizinhos. Foda. A Tat chegou, já tava barriguda. De 6 meses. Caralho, como o tempo passa rápido: a mina brincava na rua ontem e hoje já era essa mulher. “Nega linda”, que nem rosnava o Gil, sacana. O pai do moleque tava na Holanda. “Alguma bolsa de estudo?” Não, tráfico internacional. Sem brincadeira. A galera ainda pagava pau. No duro. Mó ascensão social. Não to contando histórinha de Jornal Nacional, é um negócio que eu ouvi na minha vizinhança.

Cheiro de gordura queimando. Sol quente, asfalto esburacado. Parede descascando. Muros baixos cada vez crescendo mais. Vira-latas na rua revirando lixo. Salivando. Cheiro de gordura queimando, mais uma vez. Seu Wilson não gostava da vizinhança, tinha mudado muito. Aglomerado de pobres. Quase todos vivendo como negros, sejam brancos ou mulatos. Som alto. Seis horas, rua cheia de bicicletas voltando do trabalho. Sete horas rua cheia de bicicletas indo pro culto. Pernas que pedalam usando chinelos. Havaianas, as legítimas. Pernas entrelaçadas nas construções inacabadas. Meninas virando mulheres. Aquilo já tinha sido um bairro de classe média baixa, quase todo mundo vivendo como quase brancos. Quase todo mundo, quase cidadão. Agora era o Senhor Wilson contra o mundo, trancado em casa. Tinha TV por assinatura e computador. Tinha medo de assalto e reumatismo. Tinha se aposentado depois de quarenta anos de serviços diversos. Tinha vindo do nordeste sem curso superior. Tinha sobrevivido.

***

_ Caralho, Betão, você tá maluco? A gente não conhece essa cidade, mermão. Porra, onde você ta metendo esse carro.

_Se liga, Bino, caralho! To falando que você tá frouxo. Meu Deus, é por aqui que a gente pega a estrada.

_Betão, seu preto, filha da puta. Se ninguém matar a gente, eu te mato.

_Vai tomar no cu, branquelo! Vou te mostrar o que o negão tem de bom.

_Aposto que o meu pau é maior que de qualquer preto filho da puta.

_Ah, eu aposto vinte conto! Aposto no duro, vou até parar o carro agora.

_Para então, tiziu. Macaco do caralho!

_ Macaco não, hein, seu branquelo! Vou te mostrar a serpente africana.

_ Se o seu pau for maior que o meu, eu chupo ele.

_ Cê vai chupar, então.

Pararam.

Cena do filme "Guido deve morrer", primeira aparição dos matadores Pedro, Bino e Mudo

Cena do filme “Guido deve morrer”, primeira aparição dos matadores Pedro e Bino

***

Cerveja rodando. Vagabundagem sentada na frente da calçada. Silmara com o Wilsinho. Bina conversando com o Juninho e o Bola. Gil em cima da Tat. Sheila dançando. Geninho sentado no canto, batendo o pé, tentando acompanhar o ritmo. Homens brancos não sabem dançar.

_Orra, Bina, a Sheila tá filézinho, hein, mano?

_ Só.

_Se liga, Juninho. Cê não pega ela nem fudendo, a Sheila só fica com boy.

_ Ih, Bola. Cê é gordo, não enxerga nem o pau. Não entende de mulher, mano.

_Vai lá então, garanhão.

_ Que cê acha, Bina?

_ Desisti das mulheres, mano, só como puta.

_ Se acha da hora?
_O foda é que eu acabo ficando amigo e paro. Fico com dó, mó nóia.

_Vai lá, Juninho! O Gil já ta garfando a Tat, grávida e tudo.

_ Treta, hein?

_ Só vai ter treta, se alguém sair falando merda. O macho dela não precisa saber, né? O cara é do movimento, mó foda.

_ Pode crer, vou lá na Sheila, então.

Era loirinha, de olho castanho. Bunda redonda, peitinho arrebitado. Usava shortinho jeans, marcando a lordose, e blusinha de alcinha. Chinelinho Havaiana vermelho. Cabelo solto, compridão até a bunda. Sabia que era gostosa. Dançava requebrando até embaixo. Um crime. Juninho foi. Ficaram o Bina e o Bola. O Bina tinha trinta e dois anos, careca, bigodinho fino. Mulato mais pra negro. Magro. Poeta. Tinha sido punk. Tinha rodado o mundo com a mochila nas costas e uns fanzines dentro. Desenhava pra caralho. Trampava no curtume, turma da noite. Hoje era do rap. Bebia muito, falava pouco.

Daí chegou um opalão com som fudido. Dentro estavam o Morcego, o Renatinho e o Lu Furacão. Tudo turbinado: colarzão de ouro, óculos escuros, camisa de marca. E o Gil fazendo a Tat, lá no fundo. Tinham que segurar os nego lá na frente e avisar o moleque, senão iam querer honrar o amigo que tava tomando chifre lá da Holanda. O Bina foi lá, ofereceu cerveja. A Sheila também foi, ofereceu esperança. A Silmara foi pro fundo avisar os dois.

Seu Wilson estava de olho no esquema. Era o pessoal do movimento, melhor chamar a polícia rápido. Polícia corrupta. Direto parava um taticão na boca do bairro. Parava, ficava uns dez minutos e saía, de boa. Diziam que era batida, mas os traficantes nunca estavam lá. A polícia brasileira tem dois patrões: rico ladrão e pobre ladrão. Ligou mesmo assim. Seu Wilson estava pensando em mudar do bairro.

***

 4 pistoleiros discutindo a aposta:

_ “Cê” vai chupar!

_ O caralho!

_ Isso mesmo, “cê” vai chupar o caralho, ou eu vou por na tua bunda.

_ Calma ai, moçada. _ O Fino saiu do carro.

_Tu tem uma puta pica mesmo, Betão, agora vamos cair na estrada. _ O Fino tentava acalmar os ânimos. O Mudo tava quieto no carro. O Bino entrou rápido, com medo da “serpente negra”.

O Morcego estranhou o Honda Civic parado ali na frente, rodeado por homens de terno e óculos escuros.

_ Ei, boy, que você tá fazendo aqui?

_Se liga, Morcego, o cara tá com a pica de fora. Puta sacanagem dos playboys. Tão achando que tão na Gozolândia.

_ Filha da puta, guarda esse pau, maluco!_ Apontou a PT.

O Betão apontou a dele. A cena congelou. Betão com as “duas” armas em riste. O Fino de costas. Os três traficantes apontando os berros. Close no carro, Mudo girando a chave na ignição. Volta o movimento. Uma bala castra o orgulho do Betão. Fino toma dois tiros nas costas. O Honda Civic sai em disparada. Os três traficantes correm atrás com os canos na mão e dão de cara com o taticão. Seu Wilson olha pela janela, ri. Fez sua parte e botou na bunda dos marginais. Liga pro jornal, põe um anúncio nos classificados. Queria escrever “Vendo terreno no inferno”. Velho exagerado, nem repara que o som rolou até de madrugada.

Periferia é periferia, né?

2005

Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais“ . Ele foi pioneira na criação de newsgames (jogos jornalísticos no Brasil) e toca na Banda de Bolso.

Para ler ao som de “Periferia é Periferia” dos Racionais Mc’s:

 

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