Os 47 livros que li em 2018

2017 não foi um ano fácil. E nem tô falando da economia que derreteu (apesar dela ter influenciado nos meus trabalhos), nem das tretas na política (que derrubam um pouco nosso humor todos os dias). Pra resumir a história, vamos dizer que a coisa começou com uma pessoa da família presa injustamente (já solta, graças) e terminou com meu filho na UTI. No meio do caminho, diversas pedras.

Pra ajudar a bicar essas pedrinhas inconvenientes pra longe, ainda bem, existem os livros. E minha retrospectiva do ano eu faço por meio deles. Mesmo com a correria do filhote pequeno e as visitas aos hospitais, deu pra ler 47 livros em 2017. Uma boa parte foi pra pesquisa do meu primeiro romance (que a princípio se chama “Desamparo”) – um pequeno épico sobre uma cidade no noroeste paulista. (Meu romance deve sair ainda no primeiro semestre e ele foi um dos ganhadores do edital da prefeitura de São Paulo. \o/.) Mas também deu pra me aprofundar na minha listinha de “clássicos pra ler”, me divertir lendo biografias de roqueiros e artistas e desbravar alguma poesia.

Abaixo vão os livros que li esse ano por categoria e classificação de corações. Como sempre, não avaliei livros de conhecidos. 😀

PS: Quem me lembrou de publicar minha lista esse ano foi meu amigo Rafael Kenski.

CLÁSSICOS
O leopardo,
Giuseppe Tomasi di Lampedusa ♥♥♥♥♥
Steppenwolf (Lobo da Estepe),
Herman Hesse ♥♥♥♥♥
Hamlet,
William Shakespeare ♥♥♥♥♥
Cem anos de solidão, Gabriel Garcia Marquez, ♥♥♥♥♥
Hunger, Knut Hamsun ♥♥♥♥
Ninguém escreve ao coronel,
Gabriel García Marquez ♥♥♥ ♥/2
Robinson Crusoe, Daniel Defoe ♥♥♥
Passagem para a Índia, E.M. Forster ♥♥♥

LITERATURA BRASILEIRA
Um defeito de cor, Ana Maria Gonçalves ♥♥♥♥ ♥/2
A Paixão segundo G.H.,
Clarice Lispector ♥♥♥♥
Os Sertões (Campanha de Canudos), Euclides da Cunha ♥♥♥ ♥/2
O analista de Bagé, Luis Fernando Veríssimo ♥♥♥

POESIA
Livro sobre nada,
Manoel de Barros ♥♥♥♥
Um amor feliz, Wisława Szymborska ♥♥♥♥
Mar absoluto e outros poemas, Cecilia Meireles ♥♥♥
Velório sem defunto,
Mario Quintana ♥♥ ♥/2.

SOBRE LITERATURA
O Cânone Ocidental, Harold Bloom ♥♥♥♥♥
Panaroma do Finnegans Wake,
James Joyce/Haroldo e Augusto de Campos. ♥♥♥♥♥
Romancista como vocação, Haruki Murakami ♥♥♥♥♥

FILOSOFIA E HUMANIDADES
 A conquista da felicidade, Betrand Russell, ♥♥♥♥♥
 Sejamos todos feministas, Chimamanda Ngozi ♥♥♥♥

QUADRINHOS
Sin City: The Hard Goodbye Curator’s Collection,
Frank Miller ♥♥♥
Habibi,
Craig Thompson  ♥♥  ♥/2 

SOBRE MÚSICA
My bloody roots,
Max Cavalera ♥♥♥
The Beatles: A história por trás de todas canções, Steve Turner ♥♥♥
Cliff Burton: a vida e a morte do baixista do Metallica, Joel Mciver ♥♥♥

BIOGRAFIAS e JORNALISMO
Prisioneiras, Drauzio Varella ♥♥♥♥♥
Abusado, Caco Barcellos ♥♥♥♥♥
Roberto Civita: O Dono da Banca, Carlos Maranhão ♥♥♥♥♥
Entre duas fileiras,
Gerald Thomas ♥♥♥♥

PESQUISA HISTÓRICA PRO MEU PRIMEIRO ROMANCE
Tenente Galinha – Caçador de homens: Eu sou a lei!,
Adherbal Oliveira Figueiredo ♥♥♥♥
A Carne e o Sangue – a Imperatriz D. Leopoldina, D. Pedro I e Domitila, a Marquesa de Santos,
Mary Del Priore ♥♥♥ ♥/2
O passado, passado a limpo,
Glaucia M. de Castilho Muçouçah Brandão ♥♥♥ ♥/2
Penápolis: História e Geografia,
Fausto Ribeiro de Barros ♥♥♥
Padre Claro Monteiro do Amaral,
Fausto Ribeiro de Barros ♥♥♥
Achêgas para a história de Penápolis,
Fausto Ribeiro de Barros ♥♥♥ 
Salto do Avanhandava: História e documentação,
Orentino Martins ♥♥ ♥/2
Minha vida de menina,
Helena Morley ♥♥  ♥/2
Andanças,
Oroncio Vaz de Arruda Filho ♥♥ ♥/2
Maria Chica: o símbolo da mulher pioneira nos campos do Avanhandava,
Adolpho Hecht e Ricardo Carneiro ♥♥
Dioguinho: o matador de punhos de renda,
João Garcia ♥♥
Maria Chica: a saga de uma heroína,
Glaucia Maria de Castilho Muçoçah Brandão ♥
Roberto Clark: meu avô,
Fernando José Clark Xavier Soares ♥
Fernando Ribeiro de Barros: o Conquistador de Paris,
Joaquim Cavalcanti de Oliveira Lima Neto ♥/2

LIVROS DE AMIGOS E CONHECIDOS
 Se eu quiser falar com Deus, Dimas Mietto
Amorte chama semhora, Jr. Bellé
Penápolis: nativos, povoamento, ferrovia e os ciclos econômicos, Alessandra Jorge Nadai e Cladivaldo A. Donzelli

 

 

 

 

 

Argonauta 2.0

Cana, cana, cana, cana
Céu azul e nuvens brancas
Um zé doidim, uma cigana;
simplicidade; progresso esgana.
Cana, cana, cana, cana
Céu azul e nuvens brancas
mágicorealismo da terra seca
Flutua pela cidade plana
***
Hoje, acordei desesperado
Precisando de Penápolis no sangue
Hoje, acordei angustiado
Ansiando pelo azulhorizonte.

Na Rondon, destemidos postes
eletrificam o verdemar.
O marrom raro dos cupinzeiros
beatifica naivés a pintar.
Cana, cana, cana, cana
Céu azul e nuvens brancas,
Fundada sobre Coroados e colonos,
Argonautas deste seco oceano.
O calor, o caipira e a cana,
Males da cidade arcana.

***
Aí, queria ter do poeta o sangue
De Granada e da revolução.
Minha bisa veio de España
Lá como cá, retorce à mão
árvores nuas que bailam pra lua,
o sol que agita o rojo sangre

Um matuto, um vira-lata,
A benzedeira, a pipa pirata;
Este sangue quente, a seca sede
Esta cana rente, a mole rede

(Vierde que te quiero vierde)

Cana, cana, cana, cana
Céu azul e nuvens brancas
Ayer abuelita en Montilla,
Hoy Penápolis; el sueño mañana.

A igrejinha de Penápolis

Ainda que eu falasse a língua dos livros

O amor pelos livros eu herdei dos meus pais,
Essa era a única riqueza que eles estocavam em casa
Enquanto colecionavam pequenas dívidas e davam aulas
Em escolas públicas da periferia de Penápolis.

Ler era a língua deles
E eu precisava ler, se quisesse tocá-los
Especialmente meu pai
Que não falava a língua dos homens
Apenas a língua datilografada das páginas pintadas de pigmento preto.

Então, eu ambicionei mais
Eu quis ser parte daquele clube que chegava em casa, impresso a quilômetros de distância em gráficas de São Paulo e do Rio de Janeiro
Eu quis escrever meu nome na pedra que o tempo come
Mas come mais lento e com mais amor que os demais
O tempo tem carinho pelos escritores
Porque eles dedicam sua vida a recordar
E gravar pequenos acontecimentos extraordinárias em cápsulas invioláveis que chamam de livros
E eu chamo de vida.

Escrever era minha única opção
Para sobreviver
Para não enlouquecer
Para continuar.

Antes de ter dinheiro para pagar terapia
Eu escrevia
Por todos 18 anos de virgindade casta
Eu escrevia
Por todos aqueles anos sem dinheiro no bolso
Sim, eu escrevia
E ainda escrevo
Ainda que as palavras
Arredias
Insistam em soar vazias.

A Torre

“O Rei está falido e bipolar”,
Disse o bispo deprimido
à rainha em pânico.
“Pelo menos temos a Torre”,
suspirou o último dos peões,
“a Torre é nosso pilar.”

O reino negro está
coberto pela teia prateada
E a viúva ceifadeira segue
espalhando paralisia pelas casas brancas.
“Pelo menos temos a Torre”, recitou o cavalo hidrófobo,
“a Torre é nosso pilar”.

Por toda muralha já se vê o mofo melancólico
enroscando o reino adversário
“Que amarga vitória”, lamentou-se o envelhecido rei alquebrado,
“Nossos adversários eram nosso espelho,
nossa âncora e nossa cultura.
Pelo menos temos a Torre
e a Torre é nosso pilar.”

***
“Mas que diabos é essa sujeira no tabuleiro?
Esses destroços e esses ossos?
Limpem essa porcaria, pra que a Torre possa se equilibrar”
Mas nenhuma das figuras daquele tablado
– Nem mesmo o Valete descartado –
Ousaram revelar:
aquilo era o resto da Torre
esmigalhada ao luar.

Argonauta


Argonauta
Cana, cana, cana, cana
Céu azul e nuvens brancas
Um zé doidim, uma cigana;
simplicidade que o progresso esgana.
Cana, cana, cana, cana
Céu azul e nuvens brancas
fantástico realismo da terra seca
Flutua pela cidade plana
***

Hoje, acordei desesperado
Precisando de Penápolis no sangue
Hoje, acordei angustiado
Ansiando pelo azulhorizonte.

Na Rondon, destemidos postes
eletrificam o verdemar.
O marrom raro dos cupinzeiros
beatifica naivés crianças.
Cana, cana, cana, cana
Céu azul e nuvens brancas,
Fundada sobre Coroados e colonos,
Argonautas deste seco oceano.
O calor, o caipira e a cana,
Muita saúva e pouca saúde
Os males do sertão são.

Aí, queria ter o sangue do poeta
De Granada e da revolução.
Minha bisa veio de España
Onde o sol também retorce as árvores
E agita o rojo sangre
Um matuto, um vira-lata,
A benzedeira e a pipa;
Este sangue, esta sede
Quanta cana, esta rede

(Vierde que te quiero vierde)

Cana, cana, cana, cana
Céu azul e nuvens brancas
Ayer abuelita en Montilla,
Hoy Penápolis; el sueño mañana.”

Um poema de Fred Di Giacomo em homenagem a Penápolis, Granda e Federico García Lorca de quem herdou o nome.

Escritor multimídia Fred Di Giacomo lança “Guia poético e prático para sobreviver ao século XXI”

Capa do livro "Guia poético e prático para sobreviver ao século XXI", de Fred Di Giacomo

Capa do livro “Guia poético e prático para sobreviver ao século XXI”, de Fred Di Giacomo

Guia poético e prático para sobreviver ao século XXI” é uma tentativa poética de construir pontes literárias entre mundos distantes, numa época em que o ódio ergue muros e nos isola. São poemas caipira punk que revezam lirismo com pancadaria, Mano Brown com Walt Whitman, Penápolis com Pinheiros, Konstantinos Kaváfis com Beyoncé – delicadas fotos do interior (do Estado e do poeta) com coquetéis molotov que explodem “na cabeça do século”.

Fred Di Giacomo procura transformar a sensação desconfortável de solidão e não pertencimento em um santuário de versos e samplers de rimas, que emulam a mítica casa da Tia Ciata, onde escritores modernistas, como Manuel Bandeira e Mario de Andrade, ouviam a música revolucionária de Ismael Silva, Pixinguinha e Donga com impacto transformador para nossa antropofágica cultura.

Se interessou pelo livro? Adquira o seu aqui! 😀

Caipira punk de Penápolis, cidade do sertão paulista; o escritor e artista multimídia Fred Di Giacomo já foi chamado de “polymath” (algo como “renascentista”) pela Vice americana e elogiado por fazer ” um free-jazz que junta o repertório de vasta leitura com a velocidade fragmentada da sua geração (…) rápido nos diálogos como um devasso de pornô-chat” pelo jornalista Xico Sá (que assina a orelha do seu primeiro livro). Fred usa plataformas como livros, games, poemas, sites, músicas e infográficos para contar histórias, se comunicar com os leitores e produzir arte.

 

Entrevista sobre o livro:

Navio Negreiro 2.0

morier

Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Amontoado no navio negreiro

E batalhamos dinheiro!

Um trocado, dinheiro
Um programa, dinheiro
Uma vida, dinheiro
Uma laje, dinheiro
Uma aula, dinheiro
Uma chupeta, dinheiro
Batalhando, batalhando, batalhando
dinheiro.

O tempo inteiro!

Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Amontoado no navio negreiro

Olha lá quem vai passando
É Oxóssi que vão carregando
Olha lá Oxóssi cavalgando
Seu cavalo Fernando
Seu cavalo vai sangrando
Baledo, bambeando
Mais uma morte vou cantando
O sangue espumando
que polícia vai ‘rrancando

Era assim ontem, era, sim
Capitão do Mato, no interim
de ontem e hoje, tão ruim
De caçar, matar pra mim

Que sou branco, mas por favor
Sou branco, mas não senhor
Sou branco, mas tenho horror
Do navio negreiro com roda e motor
Que ronda a quebrada espalhando dor
Enquanto eu ouço um tambor,
No funk e no samba é só o amor.
Mas na calada, na quebrada, quanto horror.
Seu delegado você não é doutor
Seu delegado você é um feitor

Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Amontoado no navio negreiro

Fernando não era bandido
Isso que é o mais doído
Era um trabalhador sofrido

Que a polícia meteu bala de fuzil
Fernando morreu, sumiu
Mais um óbito no Brasil
“Se é preto foda-se, nunca existiu”
Aqui só gostam branco, amarelo cor de anil
O resto que vá pra puta que os pariu

Dona Ana não era puta
Por favor, seu policia, escuta
Criou 4 filhos com conduta
Nunca entrava em disputa
Dona Ana era astuta
Sem diploma ou batuta
Limpar chão era sua luta

Limpar chão, limpar chão
Limpar com sua mão
carvão
clarear o chão do patrão
clarear o chão do Capitão
Limpar chão, limpar chão
Que lamento que tensão
A molecada sem pai, sem atenção
Sem escola ou educação
Limpar chão, limpar chão

Chão sujo de sangue
Vontade de apoiar a gangue
Que mandava na rua do Mangue
Vontade também de tirar sangue
água com açúcar, suco Tang

Nada acalma
Nada sossega a alma
Na cara estala a palma
No âmago instala o trauma

Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Amontoado no navio negreiro

Tanto esforço
Tanto, sonho, seu moço
Agora fundo do poço
Chuparam a vida até o caroço
É tanto esforço
E eu que torço, torço
Pra que, seu moço?
Agora esse alvoroço
Dói até o osso
Até o osso

Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Amontoado no navio negreiro

Como era há 500 anos
Como era há 500 anos
Como era há 500 anos

(Em Órum, um canto
Um lamento de Fernando
Que já dura 500 anos)

“Em quinhentos anos nada mudou
Eu era um escravo e ainda sou
índios, negros e brancos pobres
são a base da imensa pirâmide que dorme
Imponente o gigante Brasil não levanta
O país do futuro suas dores canta
Com a alma dilacerada e a fé em Deus
Esperando na Terra o que Jesus prometeu

Nada mudou, mas vai mudar
Nada mudou, vamos mudar
Nada mudou, vamos mudar?”

Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Amontoado no navio negreiro

Somos um povo guerreiro
Somos um povo
Somos um.

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Fred Di Giacomo é escritor e jornalista multimídia; autor de “
Canções para ninar adultos” (Ed. Patuá) e “Haicais Animais” (Ed. Panda Books), criador do projeto Glück — uma investigação sobre a felicidade e roteirista de diversos jogos e newsgames. Ele também toca baixo na Banda de Bolso. Seus poemas estão espalhados aqui.

Garoto Alado

asas

por Fred Di Giacomo

Suvenir City era uma cidade pequena, onde novidades voavam com velocidade da luz. Algumas novidades voavam com velocidade do som e outras preferiam voar de avião mesmo. A última grande notícia fora a do menino com asas. Ele era um daqueles tipos estranhos, sempre sozinho no recreio, ruim de bola e grudado em livros. Um dia levantou da cama com um sobretudo preto. Seus pais estranharam. Lembraram-se dos massacres de alunos ocorridos nas escolas americanas. A tal “máfia do casaco”: garotos excluídos pelos colegas vestiram-se com sobretudos negros e abriram fogo dentro da escola. Um horror. Ficaram com medo e o pai preocupado tratou de ter um diálogo franco com o filho:

_ Filho, você está se sentindo bem?
_ Sei lá, pai, estou meio diferente…
_Drogas?
_ Pai, eu nunca nem bebi.
_ Ah, não? Certo… Continua virgem?
_ Pai, eu nunca nem beijei uma menina…
_ Ah, certo. Bem… Você vai matar alguns coleguinhas hoje?
_ Não pai, eu não tenho nenhuma arma. E eu tremo demais. Se fosse matar alguns alunos provavelmente atiraria no meu pé…
_Correto, então acho que está tudo bem. Tome seu café, senão vamos nos atrasar, eu te dou uma carona.

Café com leite tinha gosto de café com leite. Para o menino com asas tinha gosto de angústia. Leite com chocolate tinha gosto de tristeza. E café preto tinha gosto de ódio. Naquela manhã, achou o café com leite muito bom e sentiu um gostinho de luz no fim do túnel bem aprazível para uma manhã nublada. Manhãs nubladas tinham cheiro de nostalgia e forma de velhas fotos preto-e-branco.

Menino alado saiu de casa com sobretudo piche e entrou no carro do pai. Menino alado tinha sentido um comichão nas costas algumas semanas atrás. Menino alado entrou na escola, subiu na caixa d’água e voou alto. Ninguém entendeu. Acharam que eram drogas ou que ele era veado. Chamaram a polícia e os bombeiros. Chamaram o padre e um psicólogo. Chamaram também uma pizza. Meia aliche, meia calabresa como o diretor do colégio gostava. Menino alado voou alto, por entre os prédios de Suvenir City. Via o mundo diferente lá de cima. Cantou What a wonderful world, flutuando sobre dEUS.


O diretor parecia desesperado e gritava para que o moleque descesse. Um promotor veio ver se o menino tinha alvará ou brevê. Multou-o em trezentos euros ou 900 reais. Multou a escola também. O diretor ficou desesperado e arrancou os fios de cabelo da careca. Depois, um juiz revogou a sentença, porque não existia brevê ou alvará para meninos alados. A escola até lucrou um pouco com a propaganda. Muitas crianças achavam que estudando lá iriam sair voando. Tudo isso foi depois, na hora, o diretor careca devorava a pizza meia aliche, meia calabresa, bufando e gritando para o moleque descer. Ele nem escutava, só queria agora a língua dos anjos.

O capitão da polícia ligou para o governador, que preferiu se abster, como sempre. Os políticos estão sempre em cima do muro em questões isentas de benefícios. Quando não se recebe por uma decisão é melhor abster-se. Passaram-se horas e o capitão sem saber o que fazer. Na dúvida, seguiu as ordens do diretor careca.
_Atire nesse moleque, ele é um terrorista, ele é um terrorista!_ Gritava com a boca cheia e as mãos engorduradas. Achava que era um atentado em Suvenir City, como o que vira na televisão: os árabes tinham derrubado duas torres com aviões tripulados, nos Estados Unidos. Quem sabe o menino não quisesse derrubar o coreto ou a fonte com suas asas? Atiraram: seis tiros de pistola, seis de trinta e oito e dois de escopeta. Erraram quase tudo. A polícia brasileira não tem o treinamento específico para acertar crianças com asas. Um tiro, no entanto, varou as asas do garoto… Ele foi caindo em direção ao horizonte, caindo e desapareceu fundido ao sol.

Ninguém sabe se está vivo ou não. Nunca voltou a cidade. E quem por ventura ganha asas as mantêm bem escondidas com jaquetas de couro e sobretudos pretos. Mesmo no verão, que em Suvenir City é bem quente.

Fred Di Giacomo é escritor e jornalista multimídia. O conto “Garoto Alado” faz parte do seu primeiro livro “Canções para ninar adultos“, lançado em 2012 pela editora Patuá. “Canções” foi publicado  em um formato inspirado nos velhos compactos de vinil e é dividido entre Lado A (com contos fantástico) e lado B (com contos mais marginais). Fred também é autor do infantil “Haicais Animais“, criador do projeto Glück – uma investigação sobre a felicidade e autor do roteiro de diversos jogos e newsgames.

O homem que colecionava dedicatórias

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Algumas pessoas colecionam selos, lágrimas, tampas de garrafa, sonhos, maços de cigarro ou discos. Já conheci até quem colecionasse embalagens de pasta de dente. Eu coleciono livros. Ou melhor, dedicatórias em livros. Sempre fui fascinado pelas frases que as pessoas escrevem quando dão um livro de presente. Deve ser porque não conheci meu pai direito… Explico: o velho morreu quando eu tinha três anos. Deixou-me, no entanto, um exemplar de a Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, com uma dedicatória que dizia: “Para meu filho, Pietro, um livro que marcou minha infância. Um dia você será um homem e então desbravaremos os 7 mares juntos. Com amor, seu pai”.

Um ataque cardíaco o matou pouco depois e, obviamente, nunca desbravamos os sete mares. Na verdade, nunca saí do Brasil, apesar de ter viajado bastante pelo país rodando sebos e lojas de artigos usados atrás de dedicatórias interessantes para minha coleção. Detalhe tragicômico: tampouco aprendi a nadar, o que me impediria de desbravar qualquer riacho, quanto mais os sete mares.

Criei um modo peculiar de catalogar meus livros: separo-os por temas de dedicatórias. Dedicatórias de amor estão nas primeiras prateleiras; depois, vêm as de amizade, as de parentes e as de autores famosos. Geralmente as pessoas não entendem o que um volume de Paulo Coelho tem a ver com um do Mia Couto ou outro do John Fante; muitos até ficam bravos e chocados com o fato de eu ter, em minha coleção, obras tão ruins quanto Carta entre amigos, do Gabriel Chalita, e O primeiro terço – talvez o pior livro da geração beat, escrito pelo anti-herói Neal Cassady. (Cassady, na verdade, foi mais bem-sucedido como “muso” de seus contemporâneos, inspirando obras de Bukowski, Allen Ginsberg e Jack Kerouack). Mas a mim pouco importa se são livros geniais ou medíocres – são as dedicatórias que me deixam apaixonado. Vejam só: em um livro considerado por todos literariamente nulo como Homens são de Marte e as mulheres são de Vênus, eu achei uma das dedicatórias mais interessantes que já vi:

“Querida Leitãozinho, comprei este livro para você com a esperança de que entenda como os homens são seres realmente desprezíveis e absolutamente diferentes de nós, mulheres. Espero que, lendo um livro bobo como este, você perceba que não há nada mais natural do que uma mulher se apaixonar por outra mulher. Não é pecado, mesmo que seus pais a façam pensar assim. Nosso amor é a coisa mais linda que existe; não há motivo para escondê-lo.
Beijos, meu leitãozinho rosa. Da sua pianista.”
15/03/2001.

Quem seriam essas mulheres? Teria a “Leitãozinho” (não riam, nenhum apelido romântico escapa do ridículo, vocês bem sabem) se convencido de que os homens são realmente os seres mais desprezíveis da face da Terra? Teria a “pianista” conseguido convencer a sua amante a desencanar dos mandamentos dos pais?

Essas dedicatórias sem nome deixavam-me ainda mais intrigado. Quando a dedicatória vinha com um nome completo, muitas vezes eu procurava pela pessoa numa busca pela internet ou na lista telefônica. Cheguei a ter uma coleção de mais de dez livros com dedicatórias de uma mesma família. E uma outra, quase tão grande, de um casal que vivera um romance entre os anos 60 e 80. Acompanhei pelos livros o namoro hippie construído com Eros e Civilização, do Marcusse. e A Erva do Diabo, de Castañeda. O casamento celebrado com uma bela edição de Macunaíma, de Mário de Andrade, em formato grande, capa dura e ilustrada. Separaram-se na época das eleições presidenciais de 1989; o marido aparentemente tinha “encaretado” e a mulher, fiel aos velhos ideais, se decepcionara com ele. O sujeito deu para a esposa um livro da fase parnasiana (e ruim) de Manuel Bandeira com uma dedicatória seca:“As mais belas poesias que um salário medíocre pode comprar. Beijo.”

E ela o presenteou com “El libro de los abrazos”, do Eduardo Galeano, precedido da dramática frase:
“Um livro para abraçar o menino que queria mudar o mundo e tentar despertá-lo dentro desse homem cinza que deixa a falta de dinheiro lhe tirar o sono e os sonhos. Abraços.”

Passei tanto tempo me debruçando sobre as dedicatórias que o óbvio aconteceu: me apaixonei por uma delas. Era, talvez, a coisa mais triste que já lera na vida. Uma dedicatória que uma garota escrevera para si mesma. Aquilo me pareceu a coisa mais solitária do mundo. Uma pessoa se autopresentear, num Natal fracassado, e escrever uma dedicatória tão…

“Não chore, menina – as coisas ainda vão melhorar.
Não desista, menina – você tem talento, um dia eles vão ver.
Não os ouça, menina – você pode escrever.
Não trabalhe tanto, menina – um dia a fábrica inteira vai saber que você não é só uma secretária.
Não odeie seu pai, menina – é difícil ele aceitar que o mano virou irmã.
Não sinta vergonha, menina – você não tem culpa de aquele nojento ter mexido com você; você fez tudo que pôde para ele não tocá-la, mas ele tinha uma arma.
Não pense que você é louca, menina – um dia um príncipe encantado vai aparecer.
Não se sinta ridícula – príncipes encantados existem. Pelo menos essa ideia enche nosso coração de esperança.

Feliz Natal, menina – sim, já é Natal. E este é o presente que você comprou para si mesma. Assim você não estará sozinha. Você vai estar acompanhada do maravilhoso Caio Fernando Abreu e deste Ovo Apunhalado.
Ana Paula dos Anjos, 25/12/05.”

Uma “autodedicatória”, num Natal solitário, parecia roteiro de um filme melodramático ou letra de tango. Era realmente muito triste, e meus olhos marejaram. Eu quis conhecer aquela menina, dizer-lhe que ela não estava sozinha. Que eu havia lido aquela dedicatória infinitamente triste e compreendia aquele sentimento. Que eu era o maior colecionador de dedicatórias do mundo e que nenhuma, nem mesmo a de Érico Veríssimo à Clarice Lispector, havia mexido tanto comigo. Aquilo fora escrito havia apenas dois anos; a menina devia estar viva ainda, provavelmente em São Paulo. Mas agora ela não tinha mais nem sua edição de O Ovo Apunhalado para acompanhá-la. Será que ela havia se tornando uma escritora? Procurei seu nome no Google e em sites sobre novos autores, mas não achei nenhuma Ana Paula dos Anjos. Será que ela continuava trabalhando como secretária numa fábrica? Mas havia tantas fábricas em São Paulo, e tantas secretárias, que seria impossível localizá-la só a partir dessa informação. Tornei-me obcecado por aquela dedicatória – decorei todas as linhas e ainda as anotei em diversos lugares diferentes para não correr o risco de esquecê– las. Era impressionante como poucas palavras podiam trazer tantas imagens fortes como aquelas. Havia um emprego ruim numa fábrica, um pai que não aceitava o filho homossexual, um estupro ou tentativa de estupro, e dois desejos clássicos: o reconhecimento como escritora e a descoberta de um grande amor. Era um roteiro maravilhoso para um livro. Eu que havia lido muito, graças ao meu hobby, sabia que aquela era uma boa história. Se eu tivesse mais talento poderia escrevê-la e publicá-la. Quando eu alcançasse sucesso, a menina, que tinha um interesse literário evidente, tomaria conhecimento e viria tirar satisfações:

— Como você teve coragem de se tornar um escritor usando a história da minha vida?
E eu explicaria que era apaixonado por ela, lhe cederia metade dos direitos autorais e financiaria seu livro com os lucros. Viveríamos felizes; ela escrevendo e eu colecionando dedicatórias em seus tomos.
***

Descobri aquele livro no final de 2006. Quase um ano se passou e Ana Paula dos Anjos ainda era um mistério para mim. Tinha rodado todos os sebos de São Paulo e mais as cidades do interior, Rio de Janeiro e Pernambuco atrás de alguma dedicatória que pudesse me dar uma pista. Enfim, resolvi que para me livrar daquela angústia precisaria de ajuda profissional. Pode soar ridículo, mas confesso que liguei o computador e procurei por um detetive particular. “Será que ainda existiam detetives particulares?”, pensava. Isso parecia coisa tão antiga, um clichê saído de filmes preto-e-branco e livros baratos… Fato era que não sabia mais o que fazer. Não poderia dar queixa na polícia sobre o desaparecimento de uma menina que eu nem conhecia. Nem sabia como era seu rosto, mas não me importava – eu a amaria mesmo que ela fosse horrível. Cheguei a pensar que a amaria mesmo que ela fosse um homem, mas me envergonhei desse pensamento. A pesquisa no Google revelou centenas de escritórios de detetives particulares. Sim, eles ainda existiam. Um deles me chamou a atenção pelo nome:
“Dos Anjos Detetives: Investigações conjugais, empresariais, flagrantes, localizações de pessoas, entre outras. Atuamos em São Paulo e região.”
Será que o próprio dono da agência era parente da Ana Paula? Bom, isso seria muita sorte! O sobrenome dos dois era o mesmo e aquela parecia ser uma empresa menor – e, consequentemente, mais barata – que as outras. Anotei o endereço num cartão de livraria e fui dormir. Naquela noite tive um sonho e me lembrei dele ao acordar. Isso é raro. Costumo não dar muita atenção para meus devaneios pouco criativos, que não passam muito de fantasias eróticas ou situações constrangedoras nas quais apareço pelado em público. Nada digno de nota ou que escape dos clichês. Tantos livros lidos, tantas ideias vazias. Mas nessa noite sonhei com dedicatórias. Em meio ao pó e fitas VHS, eu reencontrara o antigo tomo de A Ilha de Tesouro que meu pai me dera, perdido num sebo gigante, no centro de São Paulo. Aquele sebo possuía todos os livros do mundo, e cada livro continha – numa dedicatória – um momento memorável da vida de cada ser humano que habitou nosso planeta. Era uma bizarra babel de declarações de amor, ódio, separações, presentes de dia dos namorados e tardes de autógrafos. Aquilo, para mim, era como um imenso supermercado doando comida grátis. Autoajuda, romances policiais, biografias, histórias pornográficas – todos os volumes do mundo se acumulavam em estantes quilométricas que pareciam ter sido pinçadas de um conto de Borges. Mas o tempo era escasso. Batiam quinze para as seis da tarde e o sebo iria fechar em breve. Não poderia garimpar muito ali. Anos atrás, eu havia escrito uma dedicatória emocionada, respondendo as linhas do meu velho sobre navegar os sete mares, e doado a obra para uma escola. Resolvi folhear suas páginas novamente:

“Pietro… Quantos anos será que você tem hoje? Que história triste a sua… Um menino colecionando dedicatórias. Deixei a minha num livro de Caio Fernando Abreu. E a esqueci num sebo. Uma dedicatória que escrevi para mim mesma e achei que fosse a coisa mais triste do mundo. Mas você escreveu uma para um pai morto e passou a vida toda colecionando fragmentos da vida alheia. E isso me parece infinitamente desolador e triste. Gostaria de te encontrar algum dia e lhe dizer que entendo sua solidão. Quem sabe já não ficamos lado a lado em algum sebo da Augusta?
Carinho,
Ana Paula 25/12/2006”

Ilustração para o livro "Canções para ninar adultos" coloca Saramago, Lewis Carrol, Borges e Kafka estrelando a capa do disco "Secos e Molhados"

Ilustração para o livro “Canções para ninar adultos” coloca Saramago, Lewis Carrol, Borges e Kafka estrelando a capa do disco “Secos e Molhados”

Qual era a possibilidade de aquilo acontecer? Ela havia me encontrado! Naquele mar de mensagens esperançosas e juras de amor, Ana Paula tinha encontrado um pedaço de mim e tatuado nele suas impressões. Era gozado como eu me sentia menos só. Alguém captara a tristeza mesquinha que eu sentia por ter perdido o pai. Não me importava se eu nunca iria encontrá-la, se ela era casada ou se eu descobrisse que Ana Paula dos Anjos era a maior baranga do Brasil. Eu precisava encontrar aquela mulher e partilhar com ela minha dor. Deixei uma nova dedicatória no seu livro:

“Ana Paula, li suas dedicatórias, tanto no livro do Caio Fernando Abreu, quanto na Ilha do Tesouro. Gostaria de saber o que você faz da vida hoje, se saiu da fábrica, se conseguiu se tornar uma escritora. Seu pai aceitou seu irmão? Passei um ano inteiro atrás de você só pra descobrir que você estava atrás de mim. Se você encontrar esse Ovo Apunhalado novamente, e reconhecê-lo como seu companheiro naquele Natal triste de 2005, não hesite em me ligar. Mesmo que os anos já tenham passado, mesmo que você esteja casada e mãe de três filhos. Mesmo que você seja uma romancista rica e famosa. Deixo aqui meu endereço, telefone e e-mail. Já não coleciono dedicatórias. Apenas abro os livros, esperançoso de que neles haja uma mensagem sua, como uma garrafa solta no mar. Apenas um sinal que me faça continuar buscando”.
Com amor,
Pietro, 18/09/2007
***

Sonhos não mentem, achava eu. E, na manhã seguinte, acordei destinado a ir até a Consolação atrás dos detetives. Parecia que minha vida se tornaria uma aventura noir, como os livros de Chester Himes. Imaginava que as ruas da zona Sul se transformavam no Harlem dos anos 60 e eu estaria próximo de entrar no escritório decadente de dois detetives durões.

Nem três quarteirões andara, quando uma música muito triste martelou forte minha espinha. Ela era soprada duma casinha simples, mas bem-conservada, que devia estar de pé há pelo menos 60 anos. A voz do rádio era grave, dramática e fora de moda. Por trás daquele portão baixo, que revelava uma jardim meticulosamente cuidado, habitado por gordos girassóis e margaridas raras, emanava uma canção com cheiro da minha infância, uma canção que meu avô ouvia em sua potente vitrola, quando não assistia aos filmes de Bud Spencer e Terence Hill. Cessou o som mecânico e uma bela voz de mulher jovem me rasgou no meio. Como se a banda ainda tocasse, aquela voz enchia o bairro com sua melancolia, e atualizava, para os dias de hoje, uma música quase brega, sobre como uma cadeira vazia lembrava o pai morto. A menina parecia cantar sozinha, enquanto realizava alguma tarefa doméstica, mas era impossível enxergá-la por aquele ângulo. Apenas sua voz reinava no espaço.

Parado diante do portãozinho azul, o tempo correndo sem que notasse – eu não conseguia ficar triste. Só conseguia ouvi-la. Imóvel e dolorosamente apaixonado.

2008-2011

Fred Di Giacomo é escritor e jornalista multimídia. O conto “O homem que colecionava dedicatórias” abre seu primeiro livro “Canções para ninar adultos“, lançado em 2012 pela editora Patuá. “Canções” foi publicado  em um formato inspirado nos velhos compactos de vinil e é dividido entre Lado A (com contos fantástico) e lado B (com contos mais marginais). Fred também é autor do infantil “Haicais Animais“, criador do projeto Glück – uma investigação sobre a felicidade e autor do roteiro de diversos jogos e newsgames.

Instant Happiness – um conto sobre a felicidade

O conto Instant Happiness foi originalmente publicado no meu primeiro livro “Canções para ninar adultos”, lançado pela Editora Patuá. Ele pode ser encomendado para todo Brasil pelo site da Patuá.

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Como se estivesse com a cabeça inteira dentro d’água e alguém começasse a tocar realejo na beira do rio.”
Caio Fernando Abreu, Caixinha de Música, in “Morangos Mofados”

A cabeça resistia, afundada nos sulcos cheirosos que marcavam o travesseiro dela. A maciez da cama era o único refúgio para felicidade do mundo. Pensar no futuro o enchia de ansiedade, e ansiedade leva os fracos a trilhar os caminhos do medo. Kiko era fraco, feminino e fixado na ideia de que a a busca pela felicidade era a grande cruzada de sua vida. (Também gostava de Legião Urbana, o que negava veementemente.) Pri (mignon, tatuada, cabelo descolorido) parecia ser uma das respostas para o enigma. Colecionava gatos e projetos de vida. O perfume singelamente adocicado dos sulcos deixados no travesseiro era dela. As fotos coloridas que decoravam a parede eram dela também: o casal sorridente, uma ilustração moderninha, Toulouse-Lautrec, Matisse, gatos e 3 retratos feitas com uma Lomo. A alegria escorria fácil das mãos da menina. Por que as mulheres são assim? Os mesmos hormônios responsáveis por TPM e abstinência de chocolate eram os guias da tranquilidade feminina, mais palpável e espiritual que o materialismo macho?

O mundo apita urgente, surdo aos anseios de Kiko. Queria fazer samba e amor até mais tarde, mas escorrega da cama depois de apertar “soneca” 3 vezes no iPhone. Os olhos, que parecem colados com Super Bonder, enxergam mal o quartinho instalado pertinho da Avenida Paulista. Tinha que trabalhar. Questão de ordem: o trabalho é o imposto que se paga para ser feliz? Um enigma fundamental da humanidade, para ele, era a obrigatoriedade de se trabalhar. Essa questão filosófica ficava lado a lado com as menores “Deus existe?” e “qual o sentido da vida”? Se a gente voltasse a ser índio (peladão, numa mata tropical) ia, no mínimo, ter que plantar e caçar pra não morrer de fome. E ficar peladão numa mata tropical não lhe parecia o sinônimo de diversão garantida. A escapatória escapava de suas mãos finas.

No banheiro apertado, gotas quentes respingavam em seu corpo sem pelos e vapor abundante desentupia as narinas de fumante. O cheiro de sabonete molhado lembrava a infância. A memória gosta de nos trazer fotografias felizes do passado. O velho sempre parece mais pleno que o presente. “Será que dá pra arrumar um emprego que a gente realmente se amarre? Algo pra carregar como uma missão de vida? Meu pai acha que todo trabalho é um fardo. Se fosse bom, não pagavam a gente pra fazer, argumentava ele. Mas, porra, duvido que o Bono Vox tenha depressão todo dia que acorda pra fazer um mega show ou salvar criancinhas africanas.”

Intranquilo, engolia nacos amanteigados de pão umedecidos por leite com Toddy. Saudades do café da manhã turco: queijo feta, pepino, tomate, ovo cozido, azeitonas pretas e pão. “Viajar é a melhor coisa da vida”. Será que ele era incapaz de pensar algo que não soasse absolutamente clichê? “Porra! Nasci loiro de olhos azuis, tenho cidadania européia, sou homem. A felicidade veio tatuada nos meus genes.” Pri já tinha saído pra trabalhar e a faxineira estava atrasada. Sorriu para paisagem da janela. Às vezes tinha medo que um acesso de loucura o arremessasse prédio abaixo, como o Arnaldo Baptista dos Mutantes. (“Eu vou correndo buscar a glóriaaaaa”). Hoje não, hoje sentia-se esperançoso. Era o suficiente para marchar pelo exército de corpos nas ruas, abrir caminho pela carne flácida do mundo e entrar no metrô. O fone de ouvido toca o disco novo do Rapture. Bandas de rock parecem ser a solução instantânea para felicidade. Mas só duram 3 meses. 3 meses é o prazo de validade de um disco nos anos 2000. Isso se ele for bom! Depois disso, ai de nós, temos que garimpar algo novo, em meio a milhares de inutilidades estocadas em sites de download pirata. E, em semanas esplendorosas, somos recompensados por um disco como “In The Grace of Love”, do Rapture (“How deep is your love?”). Ou “Certa manhã acordei de sonhos intranquilos”, do Otto. (“Tem sempre um lado que pesa e um lado que flutua”). E olha que ele nunca tinha gostado de Otto, nem de mangue beat. Mas aquele disco era a dor transformada em música e, como a vacina que converte vírus em remédio, música sobre dor é o antídoto perfeito para sofrimento e angústia juvenil. (“Não precisa falar, nem saber de mim. E até pra morrer, é preciso existir.”)

***

Aliás, caro leitor, você tem algum bom disco pra indicar?

***

h

Madrugada, instante messenger. MSN ou Gtalk.

(…)

Kiko1984:Você acha que por baixo de todo esse néon – todo esse glitter – a gente vai encontrar a felicidade?
Jef – Paranoid Android:Encontrar o q?
Kiko1984:A felicidade.
Jef – Paranoid Android:Ser feliz na vida mesmo, ou tipo descolar cocaína? 😛
Kiko1984:Na vida. Alegria artificial, não. Eu digo, sei lá… To meio bêbado.
Jef – Paranoid Android:Hum… A Pri tá aí?
Kiko1984:Tá sim, tá dormindo atrás de mim. Acho ela mais bonita ainda dormindo… Parece uma foto, saca? Congelada no sono. Dá vontade de ser uma pessoa melhor por causa dela, hehehe.
Jef – Paranoid Android:Então, para de blablabla e liga a webcam…
Kiko1984:Pra q?
Jef – Paranoid Android:Um pouco de descontração: vou mostrar meu grande e belo pa…
Kiko1984:Para, Jef! Vai que a Pri acorda…
Jef – Paranoid Android:Ah, vc bem que curtiu ver esse monumento ao vivo, na loucura de Viena, hein, Kiko? 😉
Kiko1984:Foi só com vc, mano. Para, eu gosto de mulher, para com isso!!!!! Se a Pri acordar…
Jef – Paranoid Android:Acorda nada… Olha pra cá, olha.
Kiko1984:Vai se foder, mano! Vou te bloquear nessa porra. Desiste de me comer, Jef.

Jef – Paranoid Android:Tá bom, tá bom, não precisa ficar putinho, vou voltar a ser o amigo gay comportado.Fala aí da sua grande crise existencial.
Kiko1984:…
Jef – Paranoid Android:Ih, Kiko, você já foi mais leve, hein? Tá precisando voltar a fazer Pilates, querido, assistir um filme bom, bater punheta… Quer que eu peça perdão de joelhos? Olha só, ó: to ajoelhado. E minhas intenções são decentes. Confesso que pequei. Juro, por São Sebastião, nunca mais seduzir um pobre amigo hetero convicto. Serei apenas a bichinha sensível que ouve suas dores e….
Kiko1984:Hehehehe, para, seu tonto.
Jef – Paranoid Android:Ufa, achei que você ia virar um homofóbico enrustido e aparecer na minha casa com uma lâmpada na mão pra arrebentar minha pobre cabecinha genial. Se tomar tal atitude, please, publique o livro que está no meu computador na óbvia pasta “literatura”. O nome é “Instant Happiness” e fala – coincidência – sobre a busca pela felicidade.
Kiko1984:Não viaja, Jef. Pare de escrever merda e presta atenção. Tava pensando aqui. Será que a gente tem chance de ser feliz? Tem o direito à felicidade, mas só não sabe como? Será que a felicidade está passando na nossa frente que nem um patinho numa barraca de tiro ao alvo, só que a gente não consegue acertar? A gente fica viajando que nosso sonhos são muito improváveis e que só grandes coisas poderiam fazer a gente feliz – tipo morar um ano na Europa, fazer um mochilão pelo mundo…
Jef – Paranoid Android:Ou publicar um livro, dirigir um filme, montar um restaurante vegetariano. 🙂
Kiko1984:Isso, as coisas talvez sejam mais simples. Como uma musiquinha fofinha do Little Joy.
Jef – Paranoid Android:Música é vida! Tô com Mika na cabeça hoje. Também é música alegre, neam?
Kiko1984:Às vezes eu olho daqui, da janela do meu quarto, no vigésimo andar, e me dá uma vontade de pular. Tipo um imã puxando pra baixo, pro fim, eu acho…
Jef – Paranoid Android:Pára, Kiko!!! Assim você me deixa preocupado… Parou a terapia?
Kiko1984:Não, não é uma coisa racional. Porque, teoricamente, eu sou feliz. Teoricamente não tem nada errado na minha vida, saca?
Jef – Paranoid Android:Não tem mesmo. Escuta, gato, quem tem que ficar se perguntando se é feliz ou não – pensando em como alcançar a felicidade – é o porteiro do meu prédio. Ele rala. A gente vive num videoclipe, Kiko. A gente SÓ tem motivo pra ser feliz, neam?

Kiko1984:É, é sim…

(…)

Kiko1984:Então, por que a gente não consegue?

15/10/2010 – 15/11/2011

Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais“ . Ele foi pioneira na criação de newsgames (jogos jornalísticos no Brasil) e escreve sobre felicidade no Glück Project.

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