Argonauta


Argonauta
Cana, cana, cana, cana
Céu azul e nuvens brancas
Um zé doidim, uma cigana;
simplicidade que o progresso esgana.
Cana, cana, cana, cana
Céu azul e nuvens brancas
fantástico realismo da terra seca
Flutua pela cidade plana
***

Hoje, acordei desesperado
Precisando de Penápolis no sangue
Hoje, acordei angustiado
Ansiando pelo azulhorizonte.

Na Rondon, destemidos postes
eletrificam o verdemar.
O marrom raro dos cupinzeiros
beatifica naivés crianças.
Cana, cana, cana, cana
Céu azul e nuvens brancas,
Fundada sobre Coroados e colonos,
Argonautas deste seco oceano.
O calor, o caipira e a cana,
Muita saúva e pouca saúde
Os males do sertão são.

Aí, queria ter o sangue do poeta
De Granada e da revolução.
Minha bisa veio de España
Onde o sol também retorce as árvores
E agita o rojo sangre
Um matuto, um vira-lata,
A benzedeira e a pipa;
Este sangue, esta sede
Quanta cana, esta rede

(Vierde que te quiero vierde)

Cana, cana, cana, cana
Céu azul e nuvens brancas
Ayer abuelita en Montilla,
Hoy Penápolis; el sueño mañana.”

Um poema de Fred Di Giacomo em homenagem a Penápolis, Granda e Federico García Lorca de quem herdou o nome.

Escritor multimídia Fred Di Giacomo lança “Guia poético e prático para sobreviver ao século XXI”

Capa do livro "Guia poético e prático para sobreviver ao século XXI", de Fred Di Giacomo

Capa do livro “Guia poético e prático para sobreviver ao século XXI”, de Fred Di Giacomo

Guia poético e prático para sobreviver ao século XXI” é uma tentativa poética de construir pontes literárias entre mundos distantes, numa época em que o ódio ergue muros e nos isola. São poemas caipira punk que revezam lirismo com pancadaria, Mano Brown com Walt Whitman, Penápolis com Pinheiros, Konstantinos Kaváfis com Beyoncé – delicadas fotos do interior (do Estado e do poeta) com coquetéis molotov que explodem “na cabeça do século”.

Fred Di Giacomo procura transformar a sensação desconfortável de solidão e não pertencimento em um santuário de versos e samplers de rimas, que emulam a mítica casa da Tia Ciata, onde escritores modernistas, como Manuel Bandeira e Mario de Andrade, ouviam a música revolucionária de Ismael Silva, Pixinguinha e Donga com impacto transformador para nossa antropofágica cultura.

Se interessou pelo livro? Adquira o seu aqui! 😀

Caipira punk de Penápolis, cidade do sertão paulista; o escritor e artista multimídia Fred Di Giacomo já foi chamado de “polymath” (algo como “renascentista”) pela Vice americana e elogiado por fazer ” um free-jazz que junta o repertório de vasta leitura com a velocidade fragmentada da sua geração (…) rápido nos diálogos como um devasso de pornô-chat” pelo jornalista Xico Sá (que assina a orelha do seu primeiro livro). Fred usa plataformas como livros, games, poemas, sites, músicas e infográficos para contar histórias, se comunicar com os leitores e produzir arte.

 

Entrevista sobre o livro:

Navio Negreiro 2.0

morier

Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Amontoado no navio negreiro

E batalhamos dinheiro!

Um trocado, dinheiro
Um programa, dinheiro
Uma vida, dinheiro
Uma laje, dinheiro
Uma aula, dinheiro
Uma chupeta, dinheiro
Batalhando, batalhando, batalhando
dinheiro.

O tempo inteiro!

Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Amontoado no navio negreiro

Olha lá quem vai passando
É Oxóssi que vão carregando
Olha lá Oxóssi cavalgando
Seu cavalo Fernando
Seu cavalo vai sangrando
Baledo, bambeando
Mais uma morte vou cantando
O sangue espumando
que polícia vai ‘rrancando

Era assim ontem, era, sim
Capitão do Mato, no interim
de ontem e hoje, tão ruim
De caçar, matar pra mim

Que sou branco, mas por favor
Sou branco, mas não senhor
Sou branco, mas tenho horror
Do navio negreiro com roda e motor
Que ronda a quebrada espalhando dor
Enquanto eu ouço um tambor,
No funk e no samba é só o amor.
Mas na calada, na quebrada, quanto horror.
Seu delegado você não é doutor
Seu delegado você é um feitor

Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Amontoado no navio negreiro

Fernando não era bandido
Isso que é o mais doído
Era um trabalhador sofrido

Que a polícia meteu bala de fuzil
Fernando morreu, sumiu
Mais um óbito no Brasil
“Se é preto foda-se, nunca existiu”
Aqui só gostam branco, amarelo cor de anil
O resto que vá pra puta que os pariu

Dona Ana não era puta
Por favor, seu policia, escuta
Criou 4 filhos com conduta
Nunca entrava em disputa
Dona Ana era astuta
Sem diploma ou batuta
Limpar chão era sua luta

Limpar chão, limpar chão
Limpar com sua mão
carvão
clarear o chão do patrão
clarear o chão do Capitão
Limpar chão, limpar chão
Que lamento que tensão
A molecada sem pai, sem atenção
Sem escola ou educação
Limpar chão, limpar chão

Chão sujo de sangue
Vontade de apoiar a gangue
Que mandava na rua do Mangue
Vontade também de tirar sangue
água com açúcar, suco Tang

Nada acalma
Nada sossega a alma
Na cara estala a palma
No âmago instala o trauma

Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Amontoado no navio negreiro

Tanto esforço
Tanto, sonho, seu moço
Agora fundo do poço
Chuparam a vida até o caroço
É tanto esforço
E eu que torço, torço
Pra que, seu moço?
Agora esse alvoroço
Dói até o osso
Até o osso

Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Amontoado no navio negreiro

Como era há 500 anos
Como era há 500 anos
Como era há 500 anos

(Em Órum, um canto
Um lamento de Fernando
Que já dura 500 anos)

“Em quinhentos anos nada mudou
Eu era um escravo e ainda sou
índios, negros e brancos pobres
são a base da imensa pirâmide que dorme
Imponente o gigante Brasil não levanta
O país do futuro suas dores canta
Com a alma dilacerada e a fé em Deus
Esperando na Terra o que Jesus prometeu

Nada mudou, mas vai mudar
Nada mudou, vamos mudar
Nada mudou, vamos mudar?”

Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Amontoado no navio negreiro

Somos um povo guerreiro
Somos um povo
Somos um.

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Fred Di Giacomo é escritor e jornalista multimídia; autor de “
Canções para ninar adultos” (Ed. Patuá) e “Haicais Animais” (Ed. Panda Books), criador do projeto Glück — uma investigação sobre a felicidade e roteirista de diversos jogos e newsgames. Ele também toca baixo na Banda de Bolso. Seus poemas estão espalhados aqui.

Garoto Alado

asas

por Fred Di Giacomo

Suvenir City era uma cidade pequena, onde novidades voavam com velocidade da luz. Algumas novidades voavam com velocidade do som e outras preferiam voar de avião mesmo. A última grande notícia fora a do menino com asas. Ele era um daqueles tipos estranhos, sempre sozinho no recreio, ruim de bola e grudado em livros. Um dia levantou da cama com um sobretudo preto. Seus pais estranharam. Lembraram-se dos massacres de alunos ocorridos nas escolas americanas. A tal “máfia do casaco”: garotos excluídos pelos colegas vestiram-se com sobretudos negros e abriram fogo dentro da escola. Um horror. Ficaram com medo e o pai preocupado tratou de ter um diálogo franco com o filho:

_ Filho, você está se sentindo bem?
_ Sei lá, pai, estou meio diferente…
_Drogas?
_ Pai, eu nunca nem bebi.
_ Ah, não? Certo… Continua virgem?
_ Pai, eu nunca nem beijei uma menina…
_ Ah, certo. Bem… Você vai matar alguns coleguinhas hoje?
_ Não pai, eu não tenho nenhuma arma. E eu tremo demais. Se fosse matar alguns alunos provavelmente atiraria no meu pé…
_Correto, então acho que está tudo bem. Tome seu café, senão vamos nos atrasar, eu te dou uma carona.

Café com leite tinha gosto de café com leite. Para o menino com asas tinha gosto de angústia. Leite com chocolate tinha gosto de tristeza. E café preto tinha gosto de ódio. Naquela manhã, achou o café com leite muito bom e sentiu um gostinho de luz no fim do túnel bem aprazível para uma manhã nublada. Manhãs nubladas tinham cheiro de nostalgia e forma de velhas fotos preto-e-branco.

Menino alado saiu de casa com sobretudo piche e entrou no carro do pai. Menino alado tinha sentido um comichão nas costas algumas semanas atrás. Menino alado entrou na escola, subiu na caixa d’água e voou alto. Ninguém entendeu. Acharam que eram drogas ou que ele era veado. Chamaram a polícia e os bombeiros. Chamaram o padre e um psicólogo. Chamaram também uma pizza. Meia aliche, meia calabresa como o diretor do colégio gostava. Menino alado voou alto, por entre os prédios de Suvenir City. Via o mundo diferente lá de cima. Cantou What a wonderful world, flutuando sobre dEUS.


O diretor parecia desesperado e gritava para que o moleque descesse. Um promotor veio ver se o menino tinha alvará ou brevê. Multou-o em trezentos euros ou 900 reais. Multou a escola também. O diretor ficou desesperado e arrancou os fios de cabelo da careca. Depois, um juiz revogou a sentença, porque não existia brevê ou alvará para meninos alados. A escola até lucrou um pouco com a propaganda. Muitas crianças achavam que estudando lá iriam sair voando. Tudo isso foi depois, na hora, o diretor careca devorava a pizza meia aliche, meia calabresa, bufando e gritando para o moleque descer. Ele nem escutava, só queria agora a língua dos anjos.

O capitão da polícia ligou para o governador, que preferiu se abster, como sempre. Os políticos estão sempre em cima do muro em questões isentas de benefícios. Quando não se recebe por uma decisão é melhor abster-se. Passaram-se horas e o capitão sem saber o que fazer. Na dúvida, seguiu as ordens do diretor careca.
_Atire nesse moleque, ele é um terrorista, ele é um terrorista!_ Gritava com a boca cheia e as mãos engorduradas. Achava que era um atentado em Suvenir City, como o que vira na televisão: os árabes tinham derrubado duas torres com aviões tripulados, nos Estados Unidos. Quem sabe o menino não quisesse derrubar o coreto ou a fonte com suas asas? Atiraram: seis tiros de pistola, seis de trinta e oito e dois de escopeta. Erraram quase tudo. A polícia brasileira não tem o treinamento específico para acertar crianças com asas. Um tiro, no entanto, varou as asas do garoto… Ele foi caindo em direção ao horizonte, caindo e desapareceu fundido ao sol.

Ninguém sabe se está vivo ou não. Nunca voltou a cidade. E quem por ventura ganha asas as mantêm bem escondidas com jaquetas de couro e sobretudos pretos. Mesmo no verão, que em Suvenir City é bem quente.

Fred Di Giacomo é escritor e jornalista multimídia. O conto “Garoto Alado” faz parte do seu primeiro livro “Canções para ninar adultos“, lançado em 2012 pela editora Patuá. “Canções” foi publicado  em um formato inspirado nos velhos compactos de vinil e é dividido entre Lado A (com contos fantástico) e lado B (com contos mais marginais). Fred também é autor do infantil “Haicais Animais“, criador do projeto Glück – uma investigação sobre a felicidade e autor do roteiro de diversos jogos e newsgames.

O homem que colecionava dedicatórias

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Algumas pessoas colecionam selos, lágrimas, tampas de garrafa, sonhos, maços de cigarro ou discos. Já conheci até quem colecionasse embalagens de pasta de dente. Eu coleciono livros. Ou melhor, dedicatórias em livros. Sempre fui fascinado pelas frases que as pessoas escrevem quando dão um livro de presente. Deve ser porque não conheci meu pai direito… Explico: o velho morreu quando eu tinha três anos. Deixou-me, no entanto, um exemplar de a Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, com uma dedicatória que dizia: “Para meu filho, Pietro, um livro que marcou minha infância. Um dia você será um homem e então desbravaremos os 7 mares juntos. Com amor, seu pai”.

Um ataque cardíaco o matou pouco depois e, obviamente, nunca desbravamos os sete mares. Na verdade, nunca saí do Brasil, apesar de ter viajado bastante pelo país rodando sebos e lojas de artigos usados atrás de dedicatórias interessantes para minha coleção. Detalhe tragicômico: tampouco aprendi a nadar, o que me impediria de desbravar qualquer riacho, quanto mais os sete mares.

Criei um modo peculiar de catalogar meus livros: separo-os por temas de dedicatórias. Dedicatórias de amor estão nas primeiras prateleiras; depois, vêm as de amizade, as de parentes e as de autores famosos. Geralmente as pessoas não entendem o que um volume de Paulo Coelho tem a ver com um do Mia Couto ou outro do John Fante; muitos até ficam bravos e chocados com o fato de eu ter, em minha coleção, obras tão ruins quanto Carta entre amigos, do Gabriel Chalita, e O primeiro terço – talvez o pior livro da geração beat, escrito pelo anti-herói Neal Cassady. (Cassady, na verdade, foi mais bem-sucedido como “muso” de seus contemporâneos, inspirando obras de Bukowski, Allen Ginsberg e Jack Kerouack). Mas a mim pouco importa se são livros geniais ou medíocres – são as dedicatórias que me deixam apaixonado. Vejam só: em um livro considerado por todos literariamente nulo como Homens são de Marte e as mulheres são de Vênus, eu achei uma das dedicatórias mais interessantes que já vi:

“Querida Leitãozinho, comprei este livro para você com a esperança de que entenda como os homens são seres realmente desprezíveis e absolutamente diferentes de nós, mulheres. Espero que, lendo um livro bobo como este, você perceba que não há nada mais natural do que uma mulher se apaixonar por outra mulher. Não é pecado, mesmo que seus pais a façam pensar assim. Nosso amor é a coisa mais linda que existe; não há motivo para escondê-lo.
Beijos, meu leitãozinho rosa. Da sua pianista.”
15/03/2001.

Quem seriam essas mulheres? Teria a “Leitãozinho” (não riam, nenhum apelido romântico escapa do ridículo, vocês bem sabem) se convencido de que os homens são realmente os seres mais desprezíveis da face da Terra? Teria a “pianista” conseguido convencer a sua amante a desencanar dos mandamentos dos pais?

Essas dedicatórias sem nome deixavam-me ainda mais intrigado. Quando a dedicatória vinha com um nome completo, muitas vezes eu procurava pela pessoa numa busca pela internet ou na lista telefônica. Cheguei a ter uma coleção de mais de dez livros com dedicatórias de uma mesma família. E uma outra, quase tão grande, de um casal que vivera um romance entre os anos 60 e 80. Acompanhei pelos livros o namoro hippie construído com Eros e Civilização, do Marcusse. e A Erva do Diabo, de Castañeda. O casamento celebrado com uma bela edição de Macunaíma, de Mário de Andrade, em formato grande, capa dura e ilustrada. Separaram-se na época das eleições presidenciais de 1989; o marido aparentemente tinha “encaretado” e a mulher, fiel aos velhos ideais, se decepcionara com ele. O sujeito deu para a esposa um livro da fase parnasiana (e ruim) de Manuel Bandeira com uma dedicatória seca:“As mais belas poesias que um salário medíocre pode comprar. Beijo.”

E ela o presenteou com “El libro de los abrazos”, do Eduardo Galeano, precedido da dramática frase:
“Um livro para abraçar o menino que queria mudar o mundo e tentar despertá-lo dentro desse homem cinza que deixa a falta de dinheiro lhe tirar o sono e os sonhos. Abraços.”

Passei tanto tempo me debruçando sobre as dedicatórias que o óbvio aconteceu: me apaixonei por uma delas. Era, talvez, a coisa mais triste que já lera na vida. Uma dedicatória que uma garota escrevera para si mesma. Aquilo me pareceu a coisa mais solitária do mundo. Uma pessoa se autopresentear, num Natal fracassado, e escrever uma dedicatória tão…

“Não chore, menina – as coisas ainda vão melhorar.
Não desista, menina – você tem talento, um dia eles vão ver.
Não os ouça, menina – você pode escrever.
Não trabalhe tanto, menina – um dia a fábrica inteira vai saber que você não é só uma secretária.
Não odeie seu pai, menina – é difícil ele aceitar que o mano virou irmã.
Não sinta vergonha, menina – você não tem culpa de aquele nojento ter mexido com você; você fez tudo que pôde para ele não tocá-la, mas ele tinha uma arma.
Não pense que você é louca, menina – um dia um príncipe encantado vai aparecer.
Não se sinta ridícula – príncipes encantados existem. Pelo menos essa ideia enche nosso coração de esperança.

Feliz Natal, menina – sim, já é Natal. E este é o presente que você comprou para si mesma. Assim você não estará sozinha. Você vai estar acompanhada do maravilhoso Caio Fernando Abreu e deste Ovo Apunhalado.
Ana Paula dos Anjos, 25/12/05.”

Uma “autodedicatória”, num Natal solitário, parecia roteiro de um filme melodramático ou letra de tango. Era realmente muito triste, e meus olhos marejaram. Eu quis conhecer aquela menina, dizer-lhe que ela não estava sozinha. Que eu havia lido aquela dedicatória infinitamente triste e compreendia aquele sentimento. Que eu era o maior colecionador de dedicatórias do mundo e que nenhuma, nem mesmo a de Érico Veríssimo à Clarice Lispector, havia mexido tanto comigo. Aquilo fora escrito havia apenas dois anos; a menina devia estar viva ainda, provavelmente em São Paulo. Mas agora ela não tinha mais nem sua edição de O Ovo Apunhalado para acompanhá-la. Será que ela havia se tornando uma escritora? Procurei seu nome no Google e em sites sobre novos autores, mas não achei nenhuma Ana Paula dos Anjos. Será que ela continuava trabalhando como secretária numa fábrica? Mas havia tantas fábricas em São Paulo, e tantas secretárias, que seria impossível localizá-la só a partir dessa informação. Tornei-me obcecado por aquela dedicatória – decorei todas as linhas e ainda as anotei em diversos lugares diferentes para não correr o risco de esquecê– las. Era impressionante como poucas palavras podiam trazer tantas imagens fortes como aquelas. Havia um emprego ruim numa fábrica, um pai que não aceitava o filho homossexual, um estupro ou tentativa de estupro, e dois desejos clássicos: o reconhecimento como escritora e a descoberta de um grande amor. Era um roteiro maravilhoso para um livro. Eu que havia lido muito, graças ao meu hobby, sabia que aquela era uma boa história. Se eu tivesse mais talento poderia escrevê-la e publicá-la. Quando eu alcançasse sucesso, a menina, que tinha um interesse literário evidente, tomaria conhecimento e viria tirar satisfações:

— Como você teve coragem de se tornar um escritor usando a história da minha vida?
E eu explicaria que era apaixonado por ela, lhe cederia metade dos direitos autorais e financiaria seu livro com os lucros. Viveríamos felizes; ela escrevendo e eu colecionando dedicatórias em seus tomos.
***

Descobri aquele livro no final de 2006. Quase um ano se passou e Ana Paula dos Anjos ainda era um mistério para mim. Tinha rodado todos os sebos de São Paulo e mais as cidades do interior, Rio de Janeiro e Pernambuco atrás de alguma dedicatória que pudesse me dar uma pista. Enfim, resolvi que para me livrar daquela angústia precisaria de ajuda profissional. Pode soar ridículo, mas confesso que liguei o computador e procurei por um detetive particular. “Será que ainda existiam detetives particulares?”, pensava. Isso parecia coisa tão antiga, um clichê saído de filmes preto-e-branco e livros baratos… Fato era que não sabia mais o que fazer. Não poderia dar queixa na polícia sobre o desaparecimento de uma menina que eu nem conhecia. Nem sabia como era seu rosto, mas não me importava – eu a amaria mesmo que ela fosse horrível. Cheguei a pensar que a amaria mesmo que ela fosse um homem, mas me envergonhei desse pensamento. A pesquisa no Google revelou centenas de escritórios de detetives particulares. Sim, eles ainda existiam. Um deles me chamou a atenção pelo nome:
“Dos Anjos Detetives: Investigações conjugais, empresariais, flagrantes, localizações de pessoas, entre outras. Atuamos em São Paulo e região.”
Será que o próprio dono da agência era parente da Ana Paula? Bom, isso seria muita sorte! O sobrenome dos dois era o mesmo e aquela parecia ser uma empresa menor – e, consequentemente, mais barata – que as outras. Anotei o endereço num cartão de livraria e fui dormir. Naquela noite tive um sonho e me lembrei dele ao acordar. Isso é raro. Costumo não dar muita atenção para meus devaneios pouco criativos, que não passam muito de fantasias eróticas ou situações constrangedoras nas quais apareço pelado em público. Nada digno de nota ou que escape dos clichês. Tantos livros lidos, tantas ideias vazias. Mas nessa noite sonhei com dedicatórias. Em meio ao pó e fitas VHS, eu reencontrara o antigo tomo de A Ilha de Tesouro que meu pai me dera, perdido num sebo gigante, no centro de São Paulo. Aquele sebo possuía todos os livros do mundo, e cada livro continha – numa dedicatória – um momento memorável da vida de cada ser humano que habitou nosso planeta. Era uma bizarra babel de declarações de amor, ódio, separações, presentes de dia dos namorados e tardes de autógrafos. Aquilo, para mim, era como um imenso supermercado doando comida grátis. Autoajuda, romances policiais, biografias, histórias pornográficas – todos os volumes do mundo se acumulavam em estantes quilométricas que pareciam ter sido pinçadas de um conto de Borges. Mas o tempo era escasso. Batiam quinze para as seis da tarde e o sebo iria fechar em breve. Não poderia garimpar muito ali. Anos atrás, eu havia escrito uma dedicatória emocionada, respondendo as linhas do meu velho sobre navegar os sete mares, e doado a obra para uma escola. Resolvi folhear suas páginas novamente:

“Pietro… Quantos anos será que você tem hoje? Que história triste a sua… Um menino colecionando dedicatórias. Deixei a minha num livro de Caio Fernando Abreu. E a esqueci num sebo. Uma dedicatória que escrevi para mim mesma e achei que fosse a coisa mais triste do mundo. Mas você escreveu uma para um pai morto e passou a vida toda colecionando fragmentos da vida alheia. E isso me parece infinitamente desolador e triste. Gostaria de te encontrar algum dia e lhe dizer que entendo sua solidão. Quem sabe já não ficamos lado a lado em algum sebo da Augusta?
Carinho,
Ana Paula 25/12/2006”

Ilustração para o livro "Canções para ninar adultos" coloca Saramago, Lewis Carrol, Borges e Kafka estrelando a capa do disco "Secos e Molhados"

Ilustração para o livro “Canções para ninar adultos” coloca Saramago, Lewis Carrol, Borges e Kafka estrelando a capa do disco “Secos e Molhados”

Qual era a possibilidade de aquilo acontecer? Ela havia me encontrado! Naquele mar de mensagens esperançosas e juras de amor, Ana Paula tinha encontrado um pedaço de mim e tatuado nele suas impressões. Era gozado como eu me sentia menos só. Alguém captara a tristeza mesquinha que eu sentia por ter perdido o pai. Não me importava se eu nunca iria encontrá-la, se ela era casada ou se eu descobrisse que Ana Paula dos Anjos era a maior baranga do Brasil. Eu precisava encontrar aquela mulher e partilhar com ela minha dor. Deixei uma nova dedicatória no seu livro:

“Ana Paula, li suas dedicatórias, tanto no livro do Caio Fernando Abreu, quanto na Ilha do Tesouro. Gostaria de saber o que você faz da vida hoje, se saiu da fábrica, se conseguiu se tornar uma escritora. Seu pai aceitou seu irmão? Passei um ano inteiro atrás de você só pra descobrir que você estava atrás de mim. Se você encontrar esse Ovo Apunhalado novamente, e reconhecê-lo como seu companheiro naquele Natal triste de 2005, não hesite em me ligar. Mesmo que os anos já tenham passado, mesmo que você esteja casada e mãe de três filhos. Mesmo que você seja uma romancista rica e famosa. Deixo aqui meu endereço, telefone e e-mail. Já não coleciono dedicatórias. Apenas abro os livros, esperançoso de que neles haja uma mensagem sua, como uma garrafa solta no mar. Apenas um sinal que me faça continuar buscando”.
Com amor,
Pietro, 18/09/2007
***

Sonhos não mentem, achava eu. E, na manhã seguinte, acordei destinado a ir até a Consolação atrás dos detetives. Parecia que minha vida se tornaria uma aventura noir, como os livros de Chester Himes. Imaginava que as ruas da zona Sul se transformavam no Harlem dos anos 60 e eu estaria próximo de entrar no escritório decadente de dois detetives durões.

Nem três quarteirões andara, quando uma música muito triste martelou forte minha espinha. Ela era soprada duma casinha simples, mas bem-conservada, que devia estar de pé há pelo menos 60 anos. A voz do rádio era grave, dramática e fora de moda. Por trás daquele portão baixo, que revelava uma jardim meticulosamente cuidado, habitado por gordos girassóis e margaridas raras, emanava uma canção com cheiro da minha infância, uma canção que meu avô ouvia em sua potente vitrola, quando não assistia aos filmes de Bud Spencer e Terence Hill. Cessou o som mecânico e uma bela voz de mulher jovem me rasgou no meio. Como se a banda ainda tocasse, aquela voz enchia o bairro com sua melancolia, e atualizava, para os dias de hoje, uma música quase brega, sobre como uma cadeira vazia lembrava o pai morto. A menina parecia cantar sozinha, enquanto realizava alguma tarefa doméstica, mas era impossível enxergá-la por aquele ângulo. Apenas sua voz reinava no espaço.

Parado diante do portãozinho azul, o tempo correndo sem que notasse – eu não conseguia ficar triste. Só conseguia ouvi-la. Imóvel e dolorosamente apaixonado.

2008-2011

Fred Di Giacomo é escritor e jornalista multimídia. O conto “O homem que colecionava dedicatórias” abre seu primeiro livro “Canções para ninar adultos“, lançado em 2012 pela editora Patuá. “Canções” foi publicado  em um formato inspirado nos velhos compactos de vinil e é dividido entre Lado A (com contos fantástico) e lado B (com contos mais marginais). Fred também é autor do infantil “Haicais Animais“, criador do projeto Glück – uma investigação sobre a felicidade e autor do roteiro de diversos jogos e newsgames.

Instant Happiness – um conto sobre a felicidade

O conto Instant Happiness foi originalmente publicado no meu primeiro livro “Canções para ninar adultos”, lançado pela Editora Patuá. Ele pode ser encomendado para todo Brasil pelo site da Patuá.

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Como se estivesse com a cabeça inteira dentro d’água e alguém começasse a tocar realejo na beira do rio.”
Caio Fernando Abreu, Caixinha de Música, in “Morangos Mofados”

A cabeça resistia, afundada nos sulcos cheirosos que marcavam o travesseiro dela. A maciez da cama era o único refúgio para felicidade do mundo. Pensar no futuro o enchia de ansiedade, e ansiedade leva os fracos a trilhar os caminhos do medo. Kiko era fraco, feminino e fixado na ideia de que a a busca pela felicidade era a grande cruzada de sua vida. (Também gostava de Legião Urbana, o que negava veementemente.) Pri (mignon, tatuada, cabelo descolorido) parecia ser uma das respostas para o enigma. Colecionava gatos e projetos de vida. O perfume singelamente adocicado dos sulcos deixados no travesseiro era dela. As fotos coloridas que decoravam a parede eram dela também: o casal sorridente, uma ilustração moderninha, Toulouse-Lautrec, Matisse, gatos e 3 retratos feitas com uma Lomo. A alegria escorria fácil das mãos da menina. Por que as mulheres são assim? Os mesmos hormônios responsáveis por TPM e abstinência de chocolate eram os guias da tranquilidade feminina, mais palpável e espiritual que o materialismo macho?

O mundo apita urgente, surdo aos anseios de Kiko. Queria fazer samba e amor até mais tarde, mas escorrega da cama depois de apertar “soneca” 3 vezes no iPhone. Os olhos, que parecem colados com Super Bonder, enxergam mal o quartinho instalado pertinho da Avenida Paulista. Tinha que trabalhar. Questão de ordem: o trabalho é o imposto que se paga para ser feliz? Um enigma fundamental da humanidade, para ele, era a obrigatoriedade de se trabalhar. Essa questão filosófica ficava lado a lado com as menores “Deus existe?” e “qual o sentido da vida”? Se a gente voltasse a ser índio (peladão, numa mata tropical) ia, no mínimo, ter que plantar e caçar pra não morrer de fome. E ficar peladão numa mata tropical não lhe parecia o sinônimo de diversão garantida. A escapatória escapava de suas mãos finas.

No banheiro apertado, gotas quentes respingavam em seu corpo sem pelos e vapor abundante desentupia as narinas de fumante. O cheiro de sabonete molhado lembrava a infância. A memória gosta de nos trazer fotografias felizes do passado. O velho sempre parece mais pleno que o presente. “Será que dá pra arrumar um emprego que a gente realmente se amarre? Algo pra carregar como uma missão de vida? Meu pai acha que todo trabalho é um fardo. Se fosse bom, não pagavam a gente pra fazer, argumentava ele. Mas, porra, duvido que o Bono Vox tenha depressão todo dia que acorda pra fazer um mega show ou salvar criancinhas africanas.”

Intranquilo, engolia nacos amanteigados de pão umedecidos por leite com Toddy. Saudades do café da manhã turco: queijo feta, pepino, tomate, ovo cozido, azeitonas pretas e pão. “Viajar é a melhor coisa da vida”. Será que ele era incapaz de pensar algo que não soasse absolutamente clichê? “Porra! Nasci loiro de olhos azuis, tenho cidadania européia, sou homem. A felicidade veio tatuada nos meus genes.” Pri já tinha saído pra trabalhar e a faxineira estava atrasada. Sorriu para paisagem da janela. Às vezes tinha medo que um acesso de loucura o arremessasse prédio abaixo, como o Arnaldo Baptista dos Mutantes. (“Eu vou correndo buscar a glóriaaaaa”). Hoje não, hoje sentia-se esperançoso. Era o suficiente para marchar pelo exército de corpos nas ruas, abrir caminho pela carne flácida do mundo e entrar no metrô. O fone de ouvido toca o disco novo do Rapture. Bandas de rock parecem ser a solução instantânea para felicidade. Mas só duram 3 meses. 3 meses é o prazo de validade de um disco nos anos 2000. Isso se ele for bom! Depois disso, ai de nós, temos que garimpar algo novo, em meio a milhares de inutilidades estocadas em sites de download pirata. E, em semanas esplendorosas, somos recompensados por um disco como “In The Grace of Love”, do Rapture (“How deep is your love?”). Ou “Certa manhã acordei de sonhos intranquilos”, do Otto. (“Tem sempre um lado que pesa e um lado que flutua”). E olha que ele nunca tinha gostado de Otto, nem de mangue beat. Mas aquele disco era a dor transformada em música e, como a vacina que converte vírus em remédio, música sobre dor é o antídoto perfeito para sofrimento e angústia juvenil. (“Não precisa falar, nem saber de mim. E até pra morrer, é preciso existir.”)

***

Aliás, caro leitor, você tem algum bom disco pra indicar?

***

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Madrugada, instante messenger. MSN ou Gtalk.

(…)

Kiko1984:Você acha que por baixo de todo esse néon – todo esse glitter – a gente vai encontrar a felicidade?
Jef – Paranoid Android:Encontrar o q?
Kiko1984:A felicidade.
Jef – Paranoid Android:Ser feliz na vida mesmo, ou tipo descolar cocaína? 😛
Kiko1984:Na vida. Alegria artificial, não. Eu digo, sei lá… To meio bêbado.
Jef – Paranoid Android:Hum… A Pri tá aí?
Kiko1984:Tá sim, tá dormindo atrás de mim. Acho ela mais bonita ainda dormindo… Parece uma foto, saca? Congelada no sono. Dá vontade de ser uma pessoa melhor por causa dela, hehehe.
Jef – Paranoid Android:Então, para de blablabla e liga a webcam…
Kiko1984:Pra q?
Jef – Paranoid Android:Um pouco de descontração: vou mostrar meu grande e belo pa…
Kiko1984:Para, Jef! Vai que a Pri acorda…
Jef – Paranoid Android:Ah, vc bem que curtiu ver esse monumento ao vivo, na loucura de Viena, hein, Kiko? 😉
Kiko1984:Foi só com vc, mano. Para, eu gosto de mulher, para com isso!!!!! Se a Pri acordar…
Jef – Paranoid Android:Acorda nada… Olha pra cá, olha.
Kiko1984:Vai se foder, mano! Vou te bloquear nessa porra. Desiste de me comer, Jef.

Jef – Paranoid Android:Tá bom, tá bom, não precisa ficar putinho, vou voltar a ser o amigo gay comportado.Fala aí da sua grande crise existencial.
Kiko1984:…
Jef – Paranoid Android:Ih, Kiko, você já foi mais leve, hein? Tá precisando voltar a fazer Pilates, querido, assistir um filme bom, bater punheta… Quer que eu peça perdão de joelhos? Olha só, ó: to ajoelhado. E minhas intenções são decentes. Confesso que pequei. Juro, por São Sebastião, nunca mais seduzir um pobre amigo hetero convicto. Serei apenas a bichinha sensível que ouve suas dores e….
Kiko1984:Hehehehe, para, seu tonto.
Jef – Paranoid Android:Ufa, achei que você ia virar um homofóbico enrustido e aparecer na minha casa com uma lâmpada na mão pra arrebentar minha pobre cabecinha genial. Se tomar tal atitude, please, publique o livro que está no meu computador na óbvia pasta “literatura”. O nome é “Instant Happiness” e fala – coincidência – sobre a busca pela felicidade.
Kiko1984:Não viaja, Jef. Pare de escrever merda e presta atenção. Tava pensando aqui. Será que a gente tem chance de ser feliz? Tem o direito à felicidade, mas só não sabe como? Será que a felicidade está passando na nossa frente que nem um patinho numa barraca de tiro ao alvo, só que a gente não consegue acertar? A gente fica viajando que nosso sonhos são muito improváveis e que só grandes coisas poderiam fazer a gente feliz – tipo morar um ano na Europa, fazer um mochilão pelo mundo…
Jef – Paranoid Android:Ou publicar um livro, dirigir um filme, montar um restaurante vegetariano. 🙂
Kiko1984:Isso, as coisas talvez sejam mais simples. Como uma musiquinha fofinha do Little Joy.
Jef – Paranoid Android:Música é vida! Tô com Mika na cabeça hoje. Também é música alegre, neam?
Kiko1984:Às vezes eu olho daqui, da janela do meu quarto, no vigésimo andar, e me dá uma vontade de pular. Tipo um imã puxando pra baixo, pro fim, eu acho…
Jef – Paranoid Android:Pára, Kiko!!! Assim você me deixa preocupado… Parou a terapia?
Kiko1984:Não, não é uma coisa racional. Porque, teoricamente, eu sou feliz. Teoricamente não tem nada errado na minha vida, saca?
Jef – Paranoid Android:Não tem mesmo. Escuta, gato, quem tem que ficar se perguntando se é feliz ou não – pensando em como alcançar a felicidade – é o porteiro do meu prédio. Ele rala. A gente vive num videoclipe, Kiko. A gente SÓ tem motivo pra ser feliz, neam?

Kiko1984:É, é sim…

(…)

Kiko1984:Então, por que a gente não consegue?

15/10/2010 – 15/11/2011

Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais“ . Ele foi pioneira na criação de newsgames (jogos jornalísticos no Brasil) e escreve sobre felicidade no Glück Project.

“Gênesis” – conto do livro “Canções para ninar adultos”

Gênesis foi um dos contos do livro “Canções para ninar adultos” que mais me deu trabalho. Espécie de sessão de terapia transformada em fábula, ele fala sobre o tema universal do pai ameaçado pelo envelhecimento e o crescimento do filho que pode tomar seu lugar. Tem óbvias referências à Bíblia e à mitologia grega (Cronos e Urano…) e influência de José Saramago. Foi reescrito diversas vezes, e ainda não me convenci de ter encontrado as palavras certas para narrar a saga de Corisco.  Dá pra encomendar o livro “Canções para ninar adultos” aqui ó.

***

Gênesis
“E Ele disse: Pega agora o teu filho, o teu único, a quem amas, Isaac, e vai à terra de Moriá. E lá o oferece em holocausto em uma das montanhas que eu indicarei.”  (Gênesis, Capítulo 22, versículo 2)

Ninguém contará os anos desprendidos até ali. Não importa. Mirem-se naquele ponto cinza aproximando-se contra a luz. A figura que caminha em nossa direção é a do velho pai. A brancura de sua barba já não pode ser disfarçada; suas costas curvam-se sutilmente e os olhos traem a percepção. Ele não sabe, mas está prestes a iniciar a nossa saga.

No tempo que observamos agora, o senhor (vamos chamá-lo alegoricamente de Abraão1) tinha cinco filhos. Dois haviam saído de casa e habitavam o velho continente. Um terceiro, casado, era pastor na região das montanhas. Os mais novos acabavam de ser convocados, numa estrondosa explosão paterna, a adentrar, um de cada vez, a sala principal da ampla cabana. Naquele vagaroso dia de verão, a natureza ignorava a agitação humana. Cada folha despencando das árvores esperava uma eternidade para alcançar o solo. Os gritos desesperados do filho de dentro aterrorizavam o filho de fora. Com voz firme, Abraão chamou o segundo: — Vinde, semente minha, não hesites em obedecer-me.

Zeneu engoliu em seco e entrou. O cômodo escuro estava iluminado por aromáticas velas desgastadas que disfarçavam o cheiro de sangue fresco. Pitágoras, encolhido num canto empoeirado, chorava baixinho. Zeneu não percebera, mas, assim como sucederia com ele minutos depois, o pé de Pitágoras tinha sido esmigalhado.

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***

O canto ingênuo dos pássaros não combina com o choro pesado dessa mulher que vocês enxergam no interior da cabana. Ela acaba de descobrir a tragédia que tatuou suas crias. O nome com que os pais da matriarca batizaram-na foi Ariadne. Seus filhos estão aleijados e tentam adaptar-se à dolorosa condição. Abraão parece ter rejuvenescido anos. Sai sempre na frente da prole: para arar o campo, para ordenhar as vacas, para pastorear ovelhas e para caçar o tempo perdido. Zeneu e Pitágoras esforçam-se para acompanhá-lo. É-lhes indecifrável o súbito acesso de violência paterna. Por que Abraão emergira em crueldade naquele dia banal? Ainda nos é desconhecida a resposta. Por mais que o pai gritasse, ralhasse e humilhasse as crias, nunca mais encostaria as mãos em Zeneu ou Pitágoras. Suas próximas vítimas habitam dias futuros. Rejuvenescido, o patriarca procura Ariadne todas as noites para espalhar suas sementes. O desejo transborda do corpo e faz com que ele namore bananeiras, cabras e esposas maduras. Nunca mulheres virgens, nem jovens, nem solteiras. Não quer filhos de outros ventres, e do ventre de sua mulher só saem rebentos marcados. Ao acordarem para a vida, os pequenos têm o pé esquerdo estraçalhado. São já sete aleijados em idades diversas e, por mais branca que sua comprida barba fique, Abraão sente-se forte como nunca. Carrega toras de madeira nos ombros, cavalga alazões selvagens, enfrenta serpentes sorrateiras e faz-se temido por todos os pequenos deformados. Nunca foi violento com nenhum depois de tê-los “batizado”. Esse batismo ocorre assim: cada criança parida por Ariadne é arrancada, ainda aos berros, pelo pai, que esmaga o pequeno e rosado pé com um martelo dourado. Herança paterna assegurada, o cordão umbilical continua inteiriço, até que a mãe tenha forças para rompê-lo. O nome do descendente é dado antes da aplicação do castigo preventivo.

***

Dias correm sem que se faça importante descrevê-los. Por todo o inverno nenhum viajante se aproximou da casa. Depois de vasta solidão, a primeira conhecida a visitar a família foi a Tragédia. Era tempo de plantar sementes e germinava no ventre materno o pequenino Plutão. Plutão nascera anêmico, torto dos ossos e com membros atrofiados. Seu choro era um fiapo, um discreto miado que pouco se ouvia. Prevendo o pior, Ariadne, que tivera as forças sequestradas pelo parto, balbuciou misericórdia: — Por favor, meu marido, por favor, meu senhor… Este, não. O pequeno não vai aguentar. Seu corpo é tão carente… Um golpe do martelo vai levá-lo para sempre… Pelo nosso amor, eu lhe imploro…

Abraão contempla a triste figura profundamente. O pequenino não parece grande ameaça, mas quem conhece os caminhos que o futuro reserva para Plutão? E, se hesitasse, o que pensariam de sua fraqueza as demais crianças? Perceberiam-no débil? Reconheceriam-no senil? Não podia confiar no acaso. Firme, mas com coração pesaroso, esmigalha a perninha de Plutão. O enterro da criança se dá no mesmo dia.

A mágoa de Ariadne faz com que ela se negue a deitar-se novamente com o marido. Nem a privação de comida, nem as surras e castigos convencem a esposa a voltar para o leito do patriarca. Em um lampejo de violência, Abraão recorre à autoridade de seus músculos, mas desiste quando encontra, nos olhos da amada, o ódio amaldiçoador das mulheres seviciadas. O que Ariadne espera dele? Não pode mais abrir mão de seu ritual. Sem ele, perderia o segredo da sua juventude, e os pequenos diabinhos reinariam sobre o casal original, saltitando léguas a sua frente, tomando conta da casa e conhecendo terras e pessoas com as quais os dois jamais poderiam sonhar. Não, nada feito; o mundo não deve insistir em rodar.

Eu preciso da vida dos meus filhos, Abraão. Quero que eles tenham sua existência garantida, mesmo que aleijada. Não quero enterrar, nunca mais, um pedaço meu.

Nos primeiros suspiros da madrugadora aurora, Abraão sai em direção à pradaria, sozinho e pensativo. Lá, medita à base de ervas e água do orvalho. No sétimo dia, pode retornar a casa iluminado. Os filhos terão sete anos para ficar fortes e nutridos – e então se tornarão homens completos. Tirando o excesso de alegria dos olhos daqueles demônios, Abraão espera prepará-los para o fardo da vida real. E evita que andem por caminhos que suas pegadas não tenham marcado ainda.

***

O pai já cruzava a faixa dos 70 anos quando desposou Helena, jovem viúva de seu filho Menelau. Menelau era estéril e morrera sem deixar descendentes. Fazia parte da tradição tribal que o irmão mais velho desposasse a viúva e garantisse sucessores para o morto. Mas reparem em Helena; sintam o cheiro de mel vindo do seu corpo, percebam a pele sedosa feita de pêssego, os seios firmes como seu caráter e o verde do oceano represado em seus olhos. Helena brilhava, sim; brilhava e irradiava juventude. Isso era o suficiente para que Abraão a tomasse como mulher, alterando o código dos antigos. Agora o mais velho da família deveria desposar as viúvas, contanto que suas sementes ainda fossem férteis. Corria, pelas redondezas do vilarejo, o boato de que Abraão já não podia efetivar sua descendência. Ariadne não lhe dava filhos havia três anos. Fiel, a mulher havia gerado, em seus 60 anos de vida, 27 rebentos para Abraão – 22 aleijados, dois mortos e três, os mais velhos, exilados pelo medo do castigo paterno. As mágoas e os anos vividos faziam-na sentir o ventre endurecendo. Os sangramentos já não vinham visitá-la e o viço abandonara sua pele ao apetite faminto das rugas.

No céu escuro, a lua esconde-se, solidária ao sofrimento daquelas mulheres. Dentro da cabana, Abraão conduz Helena pelo braço. A jovem castanha tem os cachos enfeitados com uma coroa de flores brancas. Um vestido de linho fino toma emprestada a beleza de seu corpo, que treme de medo. Abraão ordenou a Ariadne que fosse dormir no quarto ao lado, com os filhos mais novos; poderia retomar seu lugar na segunda-feira. Agora os finais de semana ficam guardados para Helena. Acabado o domingo, a anciã deve trocar os lençóis manchados de amor e voltar ao posto de matriarca. Com os olhos umidamente salgados, a companheira de Abraão assente calada. Não pode olhar no rosto da antiga nora quando a vê passar em direção ao quarto. Sente um misto de humilhação, inveja e pena. Cerra a porta do quarto e não consegue dormir a noite toda, atormentada pelos gemidos regozijantes do velho tigre que reencontrara, no final da vida, o prazer pela caça.

São necessários três meses desse novo ritual para que Helena se encontre prenhe. De seu ventre, fecundado pela seiva do grande pai, floresce o descendente do morto Menelau. Chamam-no Corisco e sua chegada é anunciada por um estridente cantar de pássaros, aparentemente animados com o radiante céu que se firma ironicamente sobre a tragédia.

***
Corisco não foi criado como o restante da prole de Abraão. Seus privilégios brotam do ódio que Helena carrega por submeter seu filho às regras estabelecidas pelo ex-sogro. Casara-se com Menelau livre de tais obrigações. Agora angustia-se, procurando saídas para mudar o destino da criança. De seu charme e cheiro suave fez uso para convencer o amante de que Corisco seria um ano e meio mais novo. Assim pôde adiar a data do castigo. Tantos partos seguidos naquela casa e a idade avançada do ancião ajudaram na sustentação da farsa.

O caçula da tribo tem olhos azuis quase transparentes, cabelos loiros crespos e pele avermelhada. Más línguas dizem que o menino lembra um pequeno macaco albino. É, porém, extremamente astuto e aprende com rapidez. Cantando, ajudando nas tarefas domésticas e pedindo conselhos procura agradar o velho pai. Seus irmãos invejam-no, mas optam por não entregar a verdadeira idade de Corisco. Além da lealdade fraternal, sonham que ele liberte os demais da tirania instalada. Talvez repouse em suas pequenas mãos a salvação de toda aquela gente.

Num anoitecer qualquer, enquanto brinca no quarto, Corisco escuta Abraão sussurrando com Ariadne.

Feições de homem têm se fixado nas formas juvenis de Corisco. Não adianta a bela Helena insistir na ladainha de que o garoto vive os seis anos de idade. É tempo de apresentá-lo a meu martelo.

Abraão, meu marido, tens deixado a jovem ninfa assumir o controle de tuas ideias. De que adianta tu seres a cabeça, se ela é o pescoço que decide para onde vais olhar? Nenhum de nossos filhos teve os mimos dos quais esse mico branco goza.

Tuas palavras foram embebidas no ciúme, mulher. Não sejas tão áspera com Helena! Tu invejas sua beleza e os finais de semana que ela passa em nosso leito.

Compreendo que eu não possa mais ser o jardim onde florescem tuas sementes, mas não queria que tu te lambuzasses com ela em nossos lençóis…

Pares de resmungar, velha esposa. Poupa-me de tuas lamúrias e vá apanhar meu martelo!

Desesperado, o pequeno Corisco procura uma escapatória que modifique seu destino. Seus olhos ziguezagueiam, ligeiros, por todos os cantos da casa até estancarem na janela. É através dessa abertura rústica que ele avista o grande penhasco. Sua face ilumina-se.

Sorridente, o menino convoca o patriarca para correr com ele até o desfiladeiro. Carinhosamente trepa em suas costas largas e cobre a velha calva de beijos. Helena olha para os dois e sorri esperança, desejando que o carcomido coração de Abraão amoleça. Abraão inveja a velocidade com que Corisco pisa a relva verde. O pequeno risco vermelho dispara diante da íris cansada daquele homem velho que aleija os próprios filhos. Verde, vermelho. Verde, vermelho. Verde, vermelho. O corisco infantil rola na grama camuflando-se na pradaria. De repente, desaparece. Abraão estanca e coça a barba. Um gemido alto vindo lá de baixo faz com que corra até o limite do penhasco. Um frágil risco vermelho agoniza no solo.

Pai, tu que me deste a vida, acode-me, por favor. Não posso mais sentir as pernas.

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***

Os dias passam na cama para Corisco. De lá, ele vigia a janela, as ovelhas e o pai. Os irmãos solidários visitam-lhe o leito, mas alegram-se por dentro: “Corisco achava que escaparia do castigo; agora, no lugar de uma perna, perdeu as duas”. Helena culpa-se silenciosamente e morre em segredo. O destino havia perseguido sua pobre criança e a punido em dobro. Abraão sente-se aliviado. Prefere quando a natureza age como sua aliada.

Secretamente, Corisco planeja fuga. Havia simulado o acidente para ganhar tempo. Em raras madrugadas, testa os pés em corridas pelas pradarias escurecidas, mas prefere não arriscar-se. Teme que as estrelas o denunciem. Aproveita-se da situação de vítima: anda de cavalinho nas costas dos irmãos pernetas, rouba nacos de carne do prato do pai e inferniza a velha Ariadne com manhas e choradeiras. Só teme pela saúde da mãe. Sabe que ela suicida-se diariamente, angustiada pelo sofrimento do filho, e isso o impede de manter aquela farsa ad infinitum.

Numa noite sem lua, fugiu para parte alguma.

***

O que irritava Corisco é que seu corpo insistia em não crescer. Já rodava pelo nada havia um extenso tempo. Tinha trabalhado como pastor nas redondezas, atuado como anão albino num circo e procurado seus irmãos mais velhos no continente. Calculava que haviam corrido cinco aniversários seus. Devia ter, então, dezesseis anos. Nenhum pelo cobria suas partes ou sua face. Nenhum centímetro seu corpo esticara ao longo de toda a viagem. Temia que a dieta pobre e as privações o tivessem retardado, mas não fazia sentido. Lembrava que os irmãos aleijados também não haviam progredido muito. Os esmagados logo ao nascer pareciam, todos, velhos anões – pequenos e impotentes. Os castigados depois dos sete anos eram gordos e flácidos, com traços femininos e pouca fibra a modelar os músculos. Menelau fazia parte dessa leva e não conseguira implantar um filho sequer na jovem Helena. Apreensivo, Corisco pensou muito à beira de um rio, sozinho, em terras estrangeiras. Haveria de rodar incompleto por todo canto, caso não convencesse o centenário Abraão a libertar seus filhos. Sem muita convicção, seguiu mais de um ano em travessia que o levaria de volta para casa.


***

Era costume da gente de Abraão refletir olhando para o rio, mas o patriarca não fazia mais isso com medo de reconhecer sua velhice refletida nas águas. De volta à tribo, Corisco passou bom tempo observando a família a distância, até que tivesse uma oportunidade de convencer o pai de que os filhos precisavam andar completos.

Estamos agora numa tarde tristemente temperada. Pressinto que o final da saga que narro se aproxima. Abraão, observado por Corisco, lamenta-se de costas para o rio. Choraminga a morte de Helena, falecida há um ano de saudades do filho. As lamúrias de Abraão machucam as forças de Corisco. Achava que poderia viver próximo à mãe, mas descobre-se órfão. Entra nas águas e nada até o pai. O barulho do mergulho seco chama a atenção do velho carrasco que, distraidamente, olha para o rio. Alegra-se ao reconhecer seu rosto tão jovem no reflexo. “A boa Helena deve estar orando por mim no paraíso: veja como minha face mantém-se rija com o passar do tempo”. A imagem de Corisco sob as águas alimenta a vaidade patriarcal. Subitamente, o filho puxa a cabeça de Abraão em direção ao rio. Surpreendido, o homem deixa-se arrastar. Corisco queria apenas vingar a mãe e os irmãos, afogando o algoz ancestral, mas se choca ao perceber que, naquele momento, pela primeira vez em sua história, abraça o velho pai. Os dois corpos de homem se entrelaçam e, num paternal movimento, misturam as gerações.

Nunca poderemos saber se pai aninhava filho ou se filho aninhava pai. Choravam tanto que suas lágrimas abundantes poderiam fazer o rio transbordar-se em mar.

***

O dia se acabava num céu amplo e alaranjado que aos poucos se apagava – escuro. Das águas lodacentas da tristeza, levantou-se o primeiro homem inteiro a enxergar aqueles tempos novos.

29/11/2011 – 0/12/2011

1 Abraão, do hebraico Abhraham, que tem semelhança sonora com ‘Ab Hamôn, “Pai de Multidão”.

Fred Di Giacomo mora em Berlim e é autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais. Ele trabalhou por sete anos e meio na Editora Abril como editor-chefe dos sites do Núcleo Jovem e toca na Banda de Bolso.

Leia também:
-Assista entrevista com o escritor Fred Di Giacomo falando sobre “Canções para ninar adultos”
– Leia o conto “Sexo virtual, pop e desencontros”
 -Leia o conto “Preto no Branco” sobre um palhaço triste e pobre e sua musa indecisa

Jazz: Vontade de matar ao som de Count Basie – conto

Essa versão atualizada de “Jazz: Vontade de matar ao som de Count Basie” foi publicada originalmente no livro de contos “Canções para ninar adultos“, de Fred Di Giacomo, lançado pela editora Patuá no final de  2012. A história faz parte do lado B do livro.

O gênio do jazz Countie Basie

“Sangue fresco tinha gosto de Bourbon”. Gostava de lamber o sangue depois de matar. Fazia-o lembrar de suas raízes animais. Depois poderia voltar a ser o “homem bom”. Depois poderia voltar a ser Humano. Irritava-o fingir no imenso teatro de mentiras que é a vida. Na peça da sua existência representava um cirurgião-dentista. Queria ser médico, mas o vestibular era muito difícil. Queria ser médico, gostava de sangue. Isso se via logo de cara. Lambuzava-se. Deixou vinte e cinco reais no quarto, beijou a boca da puta e foi embora.

As ruas de São Paulo eram imundas e cheias de gente feia. Pessoas com cara de cocô, pareciam montes de merda ambulante. Pelo menos estavam em paz com os animais internos. Corja de assassinos e ladrões arrastando-se pelas sarjetas. Queria estar em Porto Alegre… Uma loira fenomenal do outro lado da rua. Cara de safada. Óculos escuros, batom vermelho, salto alto. Vestidinho sacana demarcando a bunda. Pernas fabulosas e seios vulcânicos. Silicone. Brasileiras não têm peitos daqueles. Talvez seja gringa. Não, as gringas não têm uma bunda daquelas. Meu Deus, como rebolava!

Odiava silicone, tinha gosto de plástico. Gostava de rasgar a carne na boca e sentir as hemácias explodindo com o contato dos dentes. Era um sádico – tinha vontade de estuprar a loiraça ali mesmo, no meio da rua. Encostá-la na parede, rasgar sua calcinha e currá-la no meio da multidão com cara de cocô. Essa ideia passava pela cabeça de metade daqueles “homens bons”. A maioria deles estupraria uma dona daquelas se a sociedade não os jogasse atrás das grades por isso. A maioria rezava para que acontecesse uma guerra ou o fim do mundo para estuprar as mulheres que nunca iriam comer.

Nosso amigo: baixo, magro, brasileiro de nascença, óculos quadrados, aros negros. Nosso amigo: ser humano do sexo masculino, cirurgião-dentista. Nosso amigo: R.G. 43.466.247-9. Nosso amigo era um cidadão respeitável. Sua mulher chamava-o de “chuchu”. Sua filha dizia que ele era o “melhor pai do mundo”. A empregada dizia que ele era justo e respeitador. Mulata sacana! Transava com todos aqueles negros, pobres e nordestinos, tinha uma porção de filhos a parideira, uma bunda gigante e ele ali segurando os testículos para não enfiar-lhe por trás quando ela estivesse abrindo o forno ou esfregando o chão de quatro. Suava só de pensar. Teve uma ereção. A loira entrou num cabeleireiro chique. “A LOIRA” entrou num cabeleireiro chique. AQUELA LOIRA FENOMENAL, OBRA PRIMA DE DEUS, entrou num cabeleireiro chique. Devia ser ricaça, a vagabunda! Uma loira daquelas se casava com quem ela quisesse. Não precisava trabalhar nem se prostituir várias vezes. Bastava vender a alma para um velho brocha… E rico!

O nosso amigo tinha problemas de ereção. Com a mulher não conseguia nada há um ano; suspeitava que ela tivesse um amante. O eletricista ou o velho amigo de nosso amigo, Marcos. Não importava! Alguém estava comendo a Márcia e não era ele. Com as outras gozava rápido demais, tinha fimose. Queria ficar mais tempo para elas não irem embora tão rápido. Queria transar gostoso, para depois ganhar um abraço carinhoso e poder dormir de conchinha. Mas elas nunca gozavam, fingidas, mulher que não goza fica mal-humorada e arruma um amante. Eram as leis da vida. Por isso queria estar em Porto Alegre, tinha visitado a cidade apenas uma vez, mas lhe parecia um bom lugar. Agradável. Gostava de imaginá-la como Pasárgada. Sem negros com paus enormes comendo suas mulheres, só um negrinho que tocava piano e cantava jazz. Lá num barzinho gaúcho. Montes de bichas moderninhas, artistas intelectuais e ele, o último dos homens comuns. Homo sapiens sapiens heterossexual, espécie em extinção. Tomando Black Label pela primeira vez após trinta anos de trabalho fixo e carteira assinada. O negrinho até que tocava bem: Count Basie, Benny Goodman. Um baixista o acompanhava, tocaram uma do Mingus. Sim, Charles Mingus, seu moleque ignorante! O rei do contrabaixo! Aqueles moleques e veados não conheciam nada. Ouviam as notas para parecerem bem cool, mas não viam a hora de aquilo acabar para correrem para casa e escutarem um pouco de rock‘n’roll. Ou rap! Ou algum ritmo novo e sem alma. Ou qualquer merda que esses jovens enfiavam em nossos ouvidos achando que era arte. A arte morreu com o último romântico. Hoje só existiam barulho e velhos broxas, lentos demais para seu tempo.

Pegou um ônibus, depois o metrô. Nem os dentistas ganhavam bem naqueles tempos de crise nas infinitas terras. Aliás, alguns ganhavam, mas ele não, era o clássico exemplo de classe média em queda livre, que já tinha descido pra classe média baixa e continuava despencando. No ônibus tinha um cara enconchando uma morena de bunda enorme. Não parava de se esfregar na mulher, aproveitando-se da superlotação, do balanço do “busão” e da falta de cavalheirismo dos homens sentados. Às vezes o nosso amigo queria dar lugar para uma senhora, mas não sabia como fazê-lo, não tinha iniciativa. Ficava pensando no que falar e, quando se dava conta, já era seu ponto e tinha que se levantar de qualquer jeito. A morena desceu com uma mancha na calça jeans, e o tarado tinha um sorriso de satisfação na cara. Bastardo! No metrô um velho segurava a Bíblia sagrada e disparava a palavra de Deus como se fosse receita de bolo ou aula de ginástica em academia. A gente não deveria ficar velho, era cruel demais. Deveriam matar a gente antes… Tinha um negro lá no fundo. Com cara de suspeito. Nosso amigo passou a carteira pro bolso da frente e segurou firme. Era um cirurgião-dentista prevenido.

Enfim em casa. Cheiro de comida fresca e perfume barato da mulher. A menina brincava em frente à TV. Beijou a mulher. Comeu, tomou banho, mandou a menina ir para a cama. Assistiu ao telejornal. Pensou na vida. E pensou que a morte já não era tão má, àquela altura do campeonato. A mulher disse que ia se deitar. Gelou. Queria estar em Porto Alegre. Passou a mão no seu peito e perguntou se ele não iria com ela. Falou daquele jeito que só a “nossa mulher” sabe falar. Talvez ela não tivesse um amante. Ouviu um “naipe de metais” alto. Devia ser o Count Basie tocando pra ele. Ligou a vitrola, colocou um vinil do Nat King Cole. Fazia tempo que não dançavam. Apertou-a forte contra o peito. Ela riu, estava feliz. Bonita. Nem parecia que tinha quarenta e cinco. Como era linda! E tinha cheiro de felicidade. Foram para a cama, com vinte anos a menos de idade. Apagaram a luz, escovaram os dentes. Fizeram todas as preliminares, sem sacanagem. Só com amor.

Brochou. Como sempre.

Ela disse que não tinha problema. Quando nosso amigo fechou os olhos, ela começou a se tocar. Tinha um amante, com certeza. Ele queria estar em Porto Alegre.

Hoje, no começo do dia, tinha provado aquela xota cheia de sangue de menstruação. Um dia iria matar de verdade. Até lá, tinha que reconquistar sua mulher. Tocava jazz na sua cabeça. Uma big band liderada por Humphrey Bogart. Estaria sonhando? Casablanca. Fitava sua mulher e dizia: “Estou de olho em você, garota”. Sublime. Como diziam os Ramones: “Hoje seu amor, amanhã o mundo”.

20/02/05, ouvindo Count Basie.

Para ler ao som de: “One o’ Clock Jump”

Veja também:

-Joguei meu iPhone nas águas sujas do Tietê

-Leia “A Ilha” conto do livro “Canções para ninar adultos”

-Assista entrevista com Fred Di Giacomo, autor de “Canções para ninar adultos”

Joguei meu iPhone nas águas sujas do Tietê – conto

um conto de Fred Di Giacomo, publicado no livro “Canções para ninar adultos” (Editora Patuá)

Joguei meu iPhone no meio das águas sujas do Tietê. Era o que precisava ser feito. Era o que eu tinha que fazer.

***
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— Você foi feliz?
— Como assim, Alex? Pergunta estranha…
— Não, vô, queria saber se você foi feliz, de verdade. Se sua vida valeu a pena.

Meu avô era um self-made man. Eu era um bundão. Ela tinha saído do sertão do Ceará, trampado como porteiro, peão, engraxate, estudado engenharia, passado em concurso público, ganhado dinheiro, criado os filhos, comprado dois apartamentos (um na praia, claro) e uma dezena de carros e pagado as contas de todos os almoços da família. TO-DOS. Porque meu pai não tinha grana. Ele era formado em sociologia e trabalhava em ONG. E isso tinha sido a grande luta da família desde que eu me entendo por gente. Meu avô era um cabra ferrado na vida que ganhou dinheiro. Meu pai era um cara que perdeu dinheiro. Pra ser feliz. Mas agora estava decepcionado. Trabalhar com menor abandonado não é fácil. Eu sei, eu o vi chegar a vida toda esmagado em casa, fazendo dívidas, se atolando no cartão de crédito e, muitas vezes, ele fazia tudo isso para tentar ajudar quem não queria ser ajudado. As histórias eram tristes:

— Essa semana a Rota aprontou de novo.
— Rodrigo, precisa desses assuntos na mesa? – minha mãe achava que na hora de comer não devia se falar de fofoca, doença ou tragédia. Era uma mulher sábia.
— Foi uma execução sem motivo. Pegaram seis moleques, lá no centro. Os seis cheirando cola, benzina, alguma dessas químicas. Os policiais fizeram a molecada beber tudo. E depois ficaram esperando pra ver a pivetada estrebuchar. Teve um que demorou pra apagar. E aí eles botaram no carro e ficaram dando volta com ele, até morrer. Os comerciantes da área acharam certo. Na verdade, essa era a piada do dia.

***
De volta ao almoção de domingo na casa da minha avó. Macarrão, frango, Coca-Cola e doce-de-leite.

— A vida foi boa comigo, Alex. Eu comprei carro, casa, e, se não tivesse feito o que fiz, não tava podendo ajudar seu pai.
— Eu sei que o senhor foi bem sucedido, vô. Tô perguntando se o senhor foi feliz. O senhor fez o que queria da vida? Hum… Não “da vida”. Fez o que queria “pra vida”?
— Se a gente faz o que quer da vida, morre de fome, menino. Olha o seu pai… Eu falei pra ele cursar engenharia, sabia que ninguém vivia de fazer ciências sociais. Isso é hobby de rico. Mas ele não me escutou, agora tá aí…

Eu devia ter defendido meu pai? Sei lá, acho que isso quis dizer que o vô não era feliz. Eu não era feliz. Eu tinha momentos de felicidade. Li numa entrevista na revista Trip que a felicidade é uma distorção de humor, assim como a tristeza. Que o melhor é ser sereno. Eu acho bom ser sereno, tranquilo. Mas prefiro ser feliz. Tentar ser, pelo menos.

Todos meus amigos estavam tentando ser felizes. Mas o mais próximo disso que conseguíamos alcançar era ficar bêbado, mesmo. Por isso todo mundo – os manos e os hipsters – gostavam da música nova do Criolo. Ela dizia: “Os bares estão cheios de almas tão vazias”, e também dizia que não existia amor em SP. Eu tinha escrito antes num verso: “São Paulo, eu queria te abraçar”. Acho São Paulo a cidade mais incrível e mais triste do mundo. Parece uma musa banguela. Uma prostituta por quem o freguês se apaixona e insiste em querer tirar da vida. Eu sempre gostei de mulheres tristes. Tristes e loucas. Eu queria tomar conta delas e queria que elas tomassem conta de mim.

— Entendi, vô. Eu acho muito importante o que você fez. Sua história é bonita, mas… Eu tava pensando na minha vida…
— Não pensa não, filho. Pensar não enche barriga de ninguém.
— Alex, para de ficar tão preocupado e come mais. Nunca vi meu netinho tão magrinho… Você sabe que a vó te ama, né, filho?

Minha avó parecia feliz. Até que começaram a aparecer os primeiros sintomas do Alzheimer. Isso foi despertando o lado mais cruel dela. Uma raiva forte do meu avô, que nunca lhe deu muita atenção, nunca estava em casa, nunca tinha tempo para o filho. Mas teve tempo para arrumar amante, né? E ela ali, sempre tão fiel, sempre tão correta…

E meu pai? Foi feliz? Não sei, não tenho coragem de perguntar ao velho. O que sei é que ele foi um idealista, um exemplo, e agora chora porque teve que cortar seus canais de TV a cabo. Todo mundo vai querer comprar roupas boas quando ficar velho? Não faço ideia; hoje o buraco que carrego não é esse. Um colega de trabalho queria muito dirigir um filme, mas tem medo. A outra queria viajar por seis meses pelo mundo, mas tem medo também. Muita gente não sabe o que quer, mas acha que vai conseguir. Eu sinto falta de fazer algo relevante. O que eu posso fazer para melhorar o mundo, sem virar um político feladaputa ou um pregador messiânico? Às vezes parece que a única opção para viver bem é fazer propaganda de sabonete e margarina.

Nessas propagandas, as pessoas sempre são felizes.

***

— Alex, isso é muito chato.
— Por quê, Sabrina?
— Porque é muito duro, muito sujo. Poesia é muito brega.
— Ha, ha, ha. É mesmo. Ninguém lê poesia.
— Lê o que então, Jeferson?
— Pô, conto. Sei lá, coisas mais bem-humoradas.
— É, Alex, o Jeferson falou uma coisa que é verdade. A arma da nossa geração é o humor. A revolução vai vir dos memes e dos tumblrs.
— Se você for ver, Alex, hoje em dia quem manda no mundo são os blogueiros. Não tem mais esse negócio de Globo, Abril….
— Porra, a internet mudou tudo.

(Mudou?)

— Sei lá, vocês devem estar certos. Acho que tô bêbado.

***

Um resumo nada empolgante da vida deste cronista até aqui: nasceu pobre. Bem, pobre não. Classe média baixa. Estudou muito. Fez uma boa faculdade. Começou a trabalhar. Ganhou dinheiro. Subiu alguns degraus na vida. Trabalha em algo que não faz sentido pra ele. Mas paga iPhone, viagem pra Europa, cerveja artesanal, balada descolada. Na Europa, viu um grafite no banheiro: “Capitalism is dead, sent from my iPhone”.

Sentiu-se, ele também, um rebelde de iPhone.

***

Não sei para onde vou, mas hoje pedi demissão do meu emprego. Minha chefe me chamou de imaturo, disse que a geração Y não aguenta o tranco. Que o que eu estava fazendo era coisa de riquinho mimado. Que desse jeito o Brasil nunca iria pra frente mesmo. Eu sorri para ela. Não sabia por quê, mas me sentia terrivelmente bem e leve.

Como não me sentia desde o dia em que fiz um crachá naquela multinacional.

***

Joguei meu iPhone no meio das águas sujas do Tietê. Era o que precisava ser feito. Era que eu tinha que fazer.

Para ouvir ao som de:

Leia também:
-Assista entrevista com o escritor Fred Di Giacomo falando sobre “Canções para ninar adultos”
– Leia o conto “Sexo virtual, pop e desencontros”
 -Leia o conto “Preto no Branco” sobre um palhaço triste e pobre e sua musa indecisa

“A Ilha” – um conto do livro “Canções para ninar adultos”, ilustrado por Sabrina Barrios e escrito por Fred Di Giacomo

por Fred Di Giacomo

Eu escrevi  “A Ilha” em 2005, quando estava na faculdade. Tive a ideia central pro conto deitado na cama, um pouco antes de pegar no sono. Originalmente ele faria parte de um livro que chamaria “Amor em Tempos de Aids” e acabou dando origem ao “Canções para ninar adultos“, lançado em 2012 pela Editora Patuá. “A Ilha” é uma pequena fábula sobre amor, controle, desejo e utopia – influenciada pelo mestre Saramago – e é também um dos contos que acabou me dando a ideia pro título do livro, um dos que se encaixa no conceito de “conto de fadas para adultos”.

As ilustrações foram feitas pela minha amiga e artista plástica Sabrina Barrios, quando participávamos de um coletivo chamado Clube de Ideias.  Esse versão de “A Ilha” é um pouco diferente da que estava publicada neste blog. Ela passou por uma revisão do pessoal da Editora Patuá, que modificou alguns parágrafos e deixou o texto mais claro e menos truncado.

Se você curtir o conto, experimente a bela edição publicada pela Patuá, você pode comprar online aqui.

***

Desejo

Fazia muito tempo que estavam ali: o jovem e a menina. Tanto tempo que já nem sabiam mais o que tinha acontecido direito. Eram os únicos sobreviventes de um naufrágio, disso tinham certeza, do resto não lembravam muito: se eram parentes, se haviam se conhecido no acidente, se viajavam de barco ou avião. Nem do seu nome recordavam-se, perderam-se, assim, sem passado, sem memória e sem nomes, tendo de inventar novamente a vida. Às vezes, a menina sonhava com a mãe. Não lembrava direito, mas entendia o que era uma mãe; quando sonhava sentia o cheiro de proteção e o calor do afeto. Ela devia ter por volta de cinco anos e ele quinze. A diferença de idade os afastava. Não podia ser seu pai, e nem seu amante – estava no ápice das descobertas sexuais e sentia muita vontade de ter uma mulher. Decidiram que quando ela fizesse quinze anos poderiam casar; até lá, seriam como irmãos.

A menina inventou que o jovem se chamava Desejo e ele a chamou de Utopia. Viviam sozinhos, com as árvores e os peixes, alimentavam-se de cocos e frutas e andavam nus. Desejo era loiro de cabelos encaracolados e Utopia tinha cabelos negros curtos e uma pinta na bochecha. Desejo ensinava tudo que sabia a Utopia sobre o pouco que lembrava da vida antiga e sobre o que aprendia a cada dia na ilha. No início ele brincava com ela também, mas, quanto mais Desejo crescia, menos queria ser criança. Quando Desejo completou dezoito anos, começou a sonhar que Utopia era uma moça grande, com boca carnuda e seios fartos, e que os dois dormiam juntos e tinham uma porção de filhos. Às vezes, o rapaz  acordava excitado pelo sonho e sentia vergonha. Resolveu, então, que era melhor os dois dormirem separados e construiu uma divisória na cabana. A menina não entendeu direito por que Desejo tinha feito uma divisória e por que Desejo se cobria, agora, com uma folha. Foi por esses tempos que ela conheceu dois amigos imaginários: A Vergonha e o Pudor. Mas, logo, Utopia se encheu dos amigos; ela não gostava da Vergonha e achava o Pudor muito sério. Ficou mais alguns anos amiga de Ninguém, até que se irritou, porque Ninguém nunca estava lá quando ela precisava e Ninguém falava muito com ela. Ninguém sabia por que Desejo tinha coberto seu corpo e Ninguém contava para ela. Utopia achou que Desejo e Ninguém eram bobos e foi brincar com outros amigos.

A tristeza da menina se dava porque, naquela ilha, ela sem Ninguém só tinha o Desejo e o Mar, e então começou a ficar amiga do Mar. Às vezes ela queria que o Mar fosse seu pai, porque não se lembrava dele direito. Às vezes ela sonhava que era filha do Vento ou da Terra, e que sua mãe era uma virgem como Nossa Senhora, seja lá o que isso significasse… O Mar era seu amigo, e sempre a abraçava e lhe contava segredos; o Mar tinha segredos que não acabavam nunca, e quanto mais fundo ela ia com o Mar, mais ela aprendia. Desejo ignorava que Utopia tivesse tantos amigos. Na sua cabeça de quase adulto, ele via a menina brincando sozinha, e ficava com pena. Às vezes, construía algum brinquedo pra ela com madeira e bambu. Sempre que completava um ano do acidente eles comemoravam o aniversário dos dois. Desejo fazia uma festa e pescava um peixe; ficavam ele, Utopia e mais Ninguém na praia contando as estrelas. Quanto mais Utopia crescia, mais o moço se apaixonava por ela. Desejo sempre falava do tempo em que os dois se casariam – ele esperava por aquilo com muito afinco. Quando Utopia menstruou pela primeira vez, Desejo começou a construir uma casa maior para os dois morarem juntos. E Desejo aprendeu a fazer uma rede pra poder amar Utopia. Utopia parecia não se empolgar muito com isso, mas o rapaz achava que era normal por causa da idade dela.

Utopia estava então com doze anos e começara a virar “mocinha”. Ficava muito curiosa com seu novo corpo: sangrava uma vez por mês, tinha alguns pelos ralos lá embaixo e sofria com dores nos peitos. Um dia acordou com uns biquinhos e, de uma hora pra outra, seus seios começaram a crescer. Sentiu-se mal porque estava ficando diferente de Desejo. Perguntou a ele e ele riu, dizendo que ela estava virando uma mocinha. Utopia não gostava de envelhecer e, quanto mais Desejo crescia, mais ela tinha medo dele. Queria ser criança pra sempre. O único que a entendia era o Mar; olhava pra ele e via seu reflexo, uma moça igual a ela, com seios e pelos lá embaixo. Desejo era tão diferente e incontrolável, enquanto o Mar era tão calmo e sábio… Um dia ela contou ao Mar que estava apaixonada, e que não ia se casar com Desejo. Iria fugir de Desejo o quanto fosse possível.

Utopia

Desejo já estava se tornando um homem. Faltava um ano para se casar – então ele contava vinte e quatro. Já aprendera a pescar, plantar e construir utensílios de madeira, nadava como um peixe e o Mar era seu amigo. Aprendera tudo o que sabia com a Natureza; a única coisa que faltava era poder amar uma mulher. O rapaz podia sentir o amor dentro dele, queimando-o como fogo, mas era só uma ideia vaga, não algo prático. Queria compartilhar aquele sentimento com alguém, mas parecia que Utopia nunca era grande o suficiente. Agora, a menina passava os dias nadando e sempre voltava com um caranguejo ou estrela marinha.  Dizia que eram presentes que o Mar lhe dava, e se enfeitava com pedrinhas e corais. Desejo sabia que o Mar era traiçoeiro e tinha medo de que um dia ele levasse Utopia. Quando Utopia menstruou pela primeira vez, Desejo fez uma roupa para ela. Seu objetivo era controlar Desejo, porque ele era um rapaz de palavra e só queria possuí-la depois que se casassem. Nesses tempos Utopia já estava apaixonada – o Mar a enchia de presentes e, em troca, ela passava horas dentro dele.

— Desejo vai ficar muito surpreso quando descobrir que eu não sou mais mocinha. Por mais que Desejo me tente, eu me entreguei, antes, para o Mar.

O Mar sabia que a moça era dele; ela havia fugido uma vez, mas devia voltar algum dia. Só Desejo poderia levar a moça para outro destino. Quando Utopia completou quinze anos, o Mar deu a ela uma pérola, que lhe serviu como um anel de noivado. A menina, agora moça, jurou ao Mar que só amaria ele e mais Ninguém. O Mar pediu que ela somente o amasse e ponto. E assim fez.

Desejo estava muito feliz porque aquele era o dia do aniversário dos dois. Ele havia preparado tudo muito bem: fizera o aguardente com as frutas da ilha e pescara siris, camarões e caranguejos. Construíra sua casa com um quarto grande e uma rede confortável, além de fazer uma coroa de flores para que Utopia ficasse ainda mais linda no dia de seu aniversário. Mas parecia que Utopia se perdia, quanto mais velha ficava. A moça já mal conversava com Desejo, e os dois nem pareciam irmãos. No dia de seu casamento, a menina ficou no Mar toda a manhã e só voltou para casa à noitinha.

— Onde você estava, Utopia? Eu preparei nosso casamento com tanto carinho, pesquei caranguejos, siris e camarões, teci uma rede e até lhe fiz uma coroa de flores…
— Eu estava com o Mar.
— Você deveria ter cuidado com o Mar, ele é traiçoeiro. Não esqueça que foi ele quem levou a nossa gente.
— Eles devem estar num lugar melhor do que essa ilha maldita. Não aguento mais ver sua cara todo dia; não aguento mais você, Desejo. Desejo me querendo, Desejo me tentando… Eu tenho nojo do Desejo! Eu quero sumir com o Mar!
— Não diga isso, Utopia! Eu te amo tanto… Como você pode falar assim comigo? Eu sempre te cultivei, Utopia, como uma flor, e você me despreza como se eu fosse o mais vil dos homens? Minha Utopia, onde eu errei? Quando eu te perdi?
— Eu não sou sua Utopia, eu não sou de Ninguém! Eu não tenho dono, eu não tenho destino traçado, foi tudo um acidente…
— Como um acidente? Você me traiu, Utopia!
— Um acidente, pois por acaso eu conheci o Mar, e com ele descobri o mundo. Me apaixonei pelo Mar e seus mistérios, o Mar e seus presentes. Eu preciso do Mar. Me identifico com ele, que também tem seu lado feminino, no qual vejo meu reflexo, a Mar. Não só “o Mar”, como a Mar é linda também.
— Minha Utopia, completamente perdida, minha Utopia está morta! Onde se escondeu aquele sonho? Onde se perdeu minha menina? Cuidei de você como o mais valioso dos tesouros, a pus numa redoma de vidro. Num mundo em que só existíamos você e eu, como evita me amar?
— Entenda, Desejo, que você é muito importante para mim, mas que eu quero o Mar. Entenda que nasci para Mar e dele sou parte, nele encontrarei minha família, meus pais… Não suporto mais morar nesta prisão!
— Impossível, eu não vou aceitar isso! Você tem que ser minha, eu esperei muito por esse momento!

E Desejo partiu para cima de Utopia, agarrou-a pelos cabelos, agora compridos, e beijou sua boca vermelha e carnuda. Sentiu seu peito contras os seios da menina, e um calor correu por seu corpo. Desejo enlouqueceu. Desejo estava cego, atirou a menina na areia e pulou sobre ela. Arrancou a folha que cobria os pelos, já não mais ralos, de Utopia e colocou a mão em sua parte de baixo: estava molhada, com água salgada.

Mar

— Mas como? Quem?
— O Mar! O Mar entrou em mim, Desejo. Ele me transformou em mulher, antes de você! Há tanto Mar dentro de mim que você nunca vai poder tirar… Por isto estou molhada: por causa do Mar. São dele as lágrimas que saem dos meus olhos, salgadas também. Eu sou do Mar, Desejo. Você pode me possuir agora, mas eu nunca vou te amar.

Desejo havia quebrado a Utopia, que estava deitada no chão chorando, encolhida. Abraçada aos joelhos em posição fetal, de seus olhos saíam pequenos pedaços de água do Mar. A pérola que havia ganhado reluzia, presa aos seus cabelos negros. Desejo perdeu, então, o controle – começou a chorar e notou que o Mar também o contaminara. Tentou conter as gotas salgadas que saíam de seus olhos. Odiava o Mar, pois ele lhe roubara tudo: seu passado, sua memória, seu amor, seu tempo. Fez-se amigo do Mar, mesmo sabendo que o Mar o destruiria. O Desejo estava dentro do Mar, e o Mar dentro do Desejo. Ficou louco de vez. Saiu correndo e gritando, vermelho, enquanto arrancava os tufos loiros da cabeça,
desesperado. Gritou muito alto e Ninguém ouviu. Aquele dia o Mar estava bravo, agitado. Desejo pulou no Mar com ódio, mas o Mar o abraçou e o estrangulou. As lágrimas de Desejo fundiram-se com o Mar, e o Mar entrou em Desejo pelos pulmões, sufocando-o. Desejo sumiu, então, no meio da noite e do Mar.

Utopia ficou perdida na Ilha, a noite toda, e vagou sozinha sem Ninguém. Estava apaixonada pelo Mar, mas sentia-se mal por ter perdido Desejo. No dia seguinte o Mar já estava calmo, e Utopia, solitária, resolveu que era hora de ficarem juntos para sempre. Entrou no Mar e ali se deixou, sentindo-o dentro do seu corpo, descobrindo o amor. As ondas levaram-na para longe – finalmente o Mar recuperara o que era dele.

Da ilha nada mais restou, nenhuma testemunha, Ninguém soube o que aconteceu. Ninguém ficou lá. Só.

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