Assista “Novos Baianos F.C.” – documentário de Solano Ribeiro

publicado originalmente em 22/02/2010
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Fuçando no Youtube num sábado a tarde, dei de cara com esse interessantíssimo documentário de 1973 sobre os Novos Baianos, dirigido por Solano Ribeiro – produtor musical responsável pelos clássicos “Festivais de Música Popular Brasileira” – para um TV alemã.

Não são apresentados grandes inovações de edição, imagens de arquivo ou formulações de teoria. Está ali pra quem quiser ver a vida livre do bando de “20 malucos” que morava no “Sítio do Vovô” em Jacarepaguá, jogando bola, fazendo música, criando os filhos… A trilha sonora é de primeira, com a maioria das músicas tiradas do clássico “Acabou o Chorare”, lançado em 1972 e considerado pela Rolling Stone o melhor álbum da história da MPB.

Outros desbundes:
-Timothy Leary e suas memórias alucinadas em “Flashbacks”
-Leila Diniz, a musa do Pasquim

Assista o documentário “Sabotage Nós” sobre um dos maiores nomes do rap nacional.

Enquanto a gente aguardo o lançamento do documentário “Maestro do Canão”, (que contará a história do grande rapper Sabotage com depoimentos de sua família, parceiros e gente como Mano Brown, Hector Babenco e Beto Brant), já dá pra ir assistindo outro filme sobre o cara chamado “Sabotage Nós”. Essa co-produção da Mtv e da “Guardachuva Produções”, foca na jornada de Sabotage até o lançamento do seu disco “Rap é compromisso”, um clássico do hip hop nacional. O documentário traz depoimentos de parceiros musicais do cantor  como RZO, Rappin Hood e Tejo Damasceno e, também,  de sua família.

Direção: Guilherme Xavier Ribeiro
Produção: Guardachuva Produções, MTV

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 Leia também:

-Ouça o samba-rap-macumba “Cabeça de Nego” com Sabotage

-10 músicas clássicas do rap nacional

-Leia “Tiros, tretas e vagabundagem

Assista a “Cidade Oculta” (1986), filme de Chico Botelho que mistura Will Eisner, vanguarda paulistana e rock n’ roll

Lá em Penápolis (interior de São Paulo), meus pais tinham uma bela coleção de  discos de vinil com vários clássicos da MPB, do rock e da música clássica, mas também algumas raridades. A trilha sonora do filme “Cidade Oculta”, dirigido por Chico Botelho, era uma delas. O filme era muito difícil de ser encontrado, por isso eu passei minha infância e adolescência ouvindo as músicas do Arrigo Barnabé (com participações de Ney Matogrosso, Patife Band e Tetê Spíndola), olhando as fotos do encarte e imaginando como seria aquela história cheia de punks, belas mulheres e tiras com armas.

Bom, graças ao Youtube, encontrei o “Cidade Oculta” completinho na internet. Você pode assisti-lo logo abaixo (enquanto ninguém tira do ar), e conhecer um pouco mais sobre a história e o enredo em minha apressada resenha que segue depois.

Confira o filme “Cidade Oculta” completo

Antes de rasgar elogios a este clássico do cinema paulista, deixe-me fazer alguma crítica ao filme de Chico Botelho. Primeiro um pouco de contexto: “Cidade Oculta” foi filmado em uma época de transição no cinema nacional; mais precisamente no gap entre o auge do Cinema Novo dos anos 70 e a retomada dos cinema nacional nos anos 90 com “Carlota Joaquina” (dirigido por Carla Camurati, protagonista de “Cidade  Oculta”). Neste período, o cinema brasileiro teve diversas fases “undrigrudis” cheias de boas intenções e com pouquíssimo dinheiro. Tivemos, por exemplo, o cinema marginal do genial Rogério Sganzerla, as pornochanchadas da Boca do Lixo, o cinema mais engajado do começo dos anos 80 (“Pixote”, “Eles não usam black tie” e “O Homem que virou suco”) e ,ainda,  o que se chama de cinema “pós-moderno” ou “neon-realismo” brasileiro. Nessa escola, destaca-se a trilogia da noite paulistana composta por “Cidade Oculta” (1986), de Chico Botelho, “Anjos da Noite” (1987), de Wilson Barros, e “A Dama do Cine Shanghai” (1988), de Guilherme de Almeida Prado. Particularmente, acho que “Cidade Oculta” também dialogo com erótico “O Olho Mágico do Amor”, principalmente por ambos se passarem em São Paulo, contarem com o mesma turma de atores (Arrigo Barnabé e Carla Camurati estão nos dois filmes, Sérgio Mamberti atua em “Olho Mágico” e seu irmão Cláudio em “Cidade”) e estarem recheados de participações de “celebridades malditas”. Bom, dado o contexto histórico, vale o aviso: “Cidade Oculta” não é uma superprodução. Seus cenários são simples, algumas atuações de personagens coadjuvantes são extremamente caricatas e o roteiro é às vezes simplório, dando “saltos” para resolver situações. (Exemplo: o protagonista Anjo acaba jurado de morte pelo policial Ratão por dar um soco na cara do tira em uma explosão de raiva pouco verosímil. A partir dai o policial passa a procurá-lo dia a noite, matando inclusive bastante gente no caminho).

Muito bem, se você está disposto a descontar esses tropeços, “Cidade Oculta” é um filme interessantíssimo e muito original que foge das regras do Cinema Novo e dos clichês de filmes brasileiros numa mistura frenética de quadrinhos, rock n’ roll e cinema noir. Ou seja, um “Sin City” lançando anos antes, um pré-Tarantino de terceiro mundo. O cenário aqui é urbano e futurista, uma São Paulo sombria cheia de punks, policiais corruptos, drogas, armas e boates de rock n’ roll. A inspiração pro roteiro sãos as HQs de Will Eisneir (especialmente seu detetive Spirit) e os filmes noir, como o clássico “O Falção Maltês/Relíquia Macabra”. Artistas de outras áreas colaboram fortemente no processo criativo o que rende ao filme um caráter multimídia e pop. O músico da vanguarda paulistana Arrigo Barnabé assinou a excelente trilha sonora, participou do roteiro e foi o ator principal. O cartunista Luis Gê (que desenhou a HQ “Tubarões Voadores” que vinha encartada com o disco do mesmo nome de Arrigo) também colaborou com a história. Os músicos Itamar  Assumpção, Clemente e Tonhão (da banda punk Inocentes) e a Patife Band fazem pontas. Jô Soares (que havia atuado em “A Mulher de Todos” de Sganzerla) faz uma participação especial, assim como o músico underground Goemon e Satã (ator que acompanhava Zé do Caixão em suas apresentações). As melhores atuações estão com a belíssima Carla Camurati (que interpreta a dançarina e criminosa Shirley Sombra) e o ótimo Cláudio Mamberti que vive Ratão – um policial junkie, campeão número 1 no combate às drogas. Em tempos de Bolsonaro bombando, o filme nunca pareceu tão atual.

A história conta o retorno de Anjo (Arrigo Barnabé) às ruas paulistanas depois de 7 anos de cana (situação que lembra um pouco  o filme “O Selvagem da Motocicleta” de Francis Ford Coppola) por roubo de muamba. Anjo reencontra seu antigo comparsa Japa (Celso Saiki) que lidera uma gangue de punks (na qual Clemente e Tonhão fazem pontas).  É Japa que apresenta pra Anjo a linda Shirley Sombra que dança sensualmente na boate SP Zero (na vida real a clássica “Madame Satã”). Numa briga, Anjo acerta o corrupto policial Ratão que o jura de morte e passa a persegui-lo pelas ruas sombrias de São Paulo. Inclusive, uma das melhores cenas é a que mostra Ratão (depois de tomar baque na veia) rodando de carro pela metrópole cinza atrás de Anjo, enquanto a trilha explode a versão de Arrigo para “Poema em Linha Reta“, de Fernando Pessoa. Destacam-se na trilha o dueto de Arrigo e Ney Matogrosso na bela “Mente, Mente”, o hit potencial de  “Pô, amar é importante” e a sombria música título.

Entre as referências não declaradas, ainda é possível captar ecos de “Warriors/Selvagens da Noite” (1979), cult futurista americano sobre gangues em Nova York. Assim com em “Warriors”, em alguns momentos a história de “Cidade Oculta” é interrompida por um “narrador”, no caso um ventríloquo com sotaque latino. Outras vezes o filme é cortado por flashbacks que explicam a história passada de Anjo e Japa. As duas produções têm como pano de fundo a metrópole, que aqui aparece em belas cenas do skyline paulistano, em tomadas do rio Pinheiros (ou seria o Tietê) podrão e em rondas noturnas pela Liberdade e pelo centro da cidade.

No geral, o clima do filme é pessimista, os jovens sonhadores são esmagados pelo rato conservador e quem se ergue sobre as ruínas é Shirley Sombra, uma femme fatale forte, que não precisa da proteção masculina no mundo. Vale observar como esse pessimismo reflete as sensações da geração que criou este filme, espremida entre os sonhos dos idealistas anos 70 e a prosperidade do Plano Real. A ditadura havia acabado de acabar, Sarney estava às voltas com a inflação de 76%, o punk paulista se dividia em brigas intermináveis (apesar de musicalmente ainda estar no auge) e a vanguarda paulista de Arrigo, Itamar Assumpção e Patife Band nunca vingou nas rádios. O próprio diretor Chico Botelho só dirigiu dois filmes e morreu precocemente em 1991, depois de voltar com febre do Pará. O ator Celso Saiki*, que vive o carismático Japa, faleceu de Aids ( mesma algoz de outros grandes da geração 80 como Renato Russo e Cazuza) em 1994.

No entanto, ficou  pra posteridade esta experiência de cinema brasileiro “pop marginal” –  fugindo dos clichês do Brasil tropical – e que serve de  retrato para a criativa cena oitentista da cidade de São Paulo, verdadeira protagonista do filme.

O artista underground Goemon em cena em que canta num karaokê da Liberdade

*Um adendo: Celso atuou também no filme “Gaijin” de Tizuka Yamasaki, no “Telcurso Primeiro Grau” da Globo e dirigiu teatro e episódios do programa “Bambalalão”, da TV Cultura. 

Cidade de Deus: Realidade em ritmo de videoclipe.

Publicado em: 24 de Novembro de 2007

(Em 2003, eu tinha 19 anos, estudava jornalismo na Unesp-Bauru e tinha saído pela primeira vez do Brasil. Minha tia tinha me pagado uma viagem de um mês pros States com direito a curso intensivo de inglês. Lá eu me deparei com o fenômeno “City of God”. Alguns meses depois escrevi a resenha abaixo pro meu extinto zine Kaos)

Dois moleques chorando com a mão estendida à espera de um tiro. Seu crime : roubar um frango pra comer. A sentença: um dos dois não vai sair de lá vivo. O carrasco: um garoto pouco mais velho, aspirante a traficante. O cenário: uma ruela estreita da Cidade de Deus, no entanto, podia ser qualquer outro buraco miserável do Brasil, mudam-se os atores e o enredo é o mesmo.

Muito já deve ter sido escrito sobre Cidade de Deus, não só em português, mas em todas as línguas do mundo. Lembro quando estava nos Estados Unidos de ter lido resenhas elogiosas na Rolling Stone e no Washington Post, “City of God” “seria o que Martin Scorcese teria tentado fazer em Gangues de Nova York e não conseguira”. Um misto de Pulp Fiction e Pixote. Um crossover de realidade e videoclipe.

A história todo mundo já sabe, baseada na obra mezzo ficção, mezzo realidade de Paulo Lins, narra a saga da favela Cidade de Deus no Rio de Janeiro de seus início nos anos 60 até o final dos anos 70, contando também a evolução do tráfico de drogas e a trajetória de Buscapé, um garoto que leva “vida de otário” tentando se virar sem entrar pro crime.

Crianças assassinas, jovens estupradas, policiais corruptos, o horror do Conrad, o nível mais baixo de miséria e violência. O que assusta em Cidade de Deus é que tudo ali é real, qualquer um pode trombar com um Zé Pequeno (o traficante sociopata do filme) pela frente, qualquer um pode perder a vida por um motivo idiota. A situação de calamidade não é problema só dos “pobres”. Os ricos são seqüestrados, tem seus filhos , usam drogas ou são assaltados no semáforo. Contratam-se seguranças, blindam-se carros, erguem-se muros. Milhares de dólares gastos à toa, o mal tem que ser cortado pela raiz, apesar de nossa elite burra ignorar, sem justiça social a situação só vai piorar.

“Eu fumo, eu cheiro, já roubei e já matei. Sou homem feito”. Essa é a lei que rege o cotidiano de milhares de jovens brasileiros que se envolvem com o crime por falta de oportunidade. Eu poderia falar aqui das tomadas de câmera, revolucionárias.da forma de narrativa empolgante, do uso de atores amadores, da excelente trilha sonora(uma capítulo à parte que inclui clássicos que vão de Cartola à Carl Douglas, passando por Tim Maia na fase Racional), mas o que vale a pena mesmo no filme é a história. É a chance do povo brasileiro se olhar no espelho.Sejamos sinceros, nosso mundo não é a realidade branca, classe média do Leblon assistida nas novelas da Globo. Somos um povo pobre, favelado,mestiço. Acho muito importante que cada vez mais o negro seja protagonista no cinema nacional. Madame Satã, Cidade de Deus, Carandiru, O Homem que Copiava, cada vez mais o negro consegue espaço nas telas.

Tive a experiência de assistir Cidade de Deus duas vezes no cinema, uma em Bauru, aqui no Brasil, e outra nos EUA. Nos dois lugares o filme foi um sucesso, em Washington a sala estava lotada, as pessoas faziam fila pra assistir City of God. Acho que pra eles tudo aquilo era uma realidade distante, o filme valia como obra de arte. Ai está o mérito de Fernando Meirelles como diretor. Para mim, brasileiro que me criei do lado de uma “quebrada” e tive oportunidade de conhecer um ou outro Buscapé ou Benê, tudo aquilo era um documentário. Fiquei orgulhoso, Cidade de Deus era o filme “que Scorcese não fizera”. E fiquei aliviado por muitos ainda conseguirem sobreviver a tudo seguindo “o caminho do bem” da música de Tim Maia…

Fred Di Giacomo, jornalista e autor do livro de contos “Canções para ninar adultos”. 27/07/03

Assista o traile de Cidade de Deus:

Veja também:
– Apocalipse Now: Retrato existencialista de um dos maiores nadas da história
-Cidade de Deus: realidade em ritmo de videoclipe
– Tá atrás de resenhas e trailers? Clica aqui e veja mais! 

Cartaz do filme "Cidade de Deus"

Machete – Trailer do novo filme sangrento de Robert Rodriguez

Esse trailer novinho e cheio de sangue não pôde pra esperar até sexta pra ser postado

Mano, eu gosto de “Sin City”, “El Mariachi” e “Balada do Pistoleiro”, então eu já esperava alguma coisa boa de um novo filme do Robert Rodriguez, mas esse trailer tá prometendo doses cavalares de sangue e mulheres machonas armadas até os dentes. O Trejo além de ator estrelou um dos jogos mais legais do PS2( Def Jam Fight) e talvez essa seja a chance de Steven Seagal estrelar um filme decente. (Tá “Força em Alerta” era legal).

Achou muito violento? Chora aqui!

-Top 5: Filmes mais violentos da história

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Graforréia Xilarmônica – Documentário “Erga-te”

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Documentário sobre a banda gaúcha “Graforréia Xilarmônica”, desenterrado pelo amigo celebrindie Bruno Dias. Confesso que gosto mais do lado pop/jovem guarda dos caras do que das experimentações atonais/dodecafônicas que eles metem no meio dos arranjos, mas resisti à qualidade baixa do vídeo no Youtube pra entender mais do rock dos pampas.

Parte 1

Parte 2

Parte 3

Parte 4

Parte 5

Parte 6

Parte 7

-A história do rock no Rio Grande do Sul

>The Warriors – Objetos de desejo 1.

>-Confira aqui as cenas inéditas do filme “Warriors”!

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Aproveitando meu ócio criativo, entre minha saída da Mundo Estranho e minha entrada no Portal Abril, criei uma nova seção pra esse site: “Objetos de desejo”, com roupas, bonecos e quinquilharias que eu queria muito ter.(Anotem aí pro Natal!) Esses bonequinhos são personagens do filme cult de gangues “The Warriors”(1979, conhecido no Brasil como “Selvagens da Noite”). Baixei o jogo pro PS2 e o filme recentemente, e estou viciado. Se você não conhece esse “crássico” segue um trechinho do filme abaixo(Em breve resenha completa).

Trailer:

Versão com dublagem tosca:

-Mais gangues futuristas: Laranja Mecânica!

Laranja Mecânica: Violência nas telas em ritmo punk rock.

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Resenha escrita pro Zine Kaos, em algum dia do começo do século:

Jovens, violência, gangues, drogas, sexo, som e fúria. Uma nova banda de rock? Alguma canção punk? Quase, se no lugar de imagens o que explodisse na tela fossem acordes.

Não é necessário ter uma ocasião especial para escrever sobre o filme “Laranja Mecânica” (1971) clássico de Stanley Kubrick, que registra em uma visão futurista (quase ciberpunk) a ebulição das ruas de Londres, marcadas pelo desemprego e infestadas de gangues, fatores que viriam a colaborar com o surgimento do movimento punk em 1977. Em mais uma de suas obras-primas, Kubrick discute a violência e o controle exercido pela sociedade. A história todo mundo já sabe: Um jovem marginal, Alex (vivido por Malcom Macdowel), passa a vida cometendo crimes e estupros com sua gangue ao som de Beethoven até que é preso e acaba passando por um processo de “lavagem cerebral” e condicionamento que o levam a se tornar uma pessoa dócil e indefesa. Seria a solução para o crime transformar os delinqüentes em zumbis. No entanto, Alex, agora, se torna uma presa fácil nas mãos de suas vítimas que buscam vingança. No final da película seu olhar insano, como uma piscada sacana pro espectador, revela que o mal ainda vive em seu corpo, soluções fascistas de controle sobre a população não adiantariam no combate a violência. O buraco é mais embaixo, o sujeito precisa ter o poder de discernir entre o bem e o mal para estar “curado”, sem escolha ele é apenas um andróide sem emoções, perde a característica que nos separa dos animais.
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Vale a pena dizer que a influência de “Laranja Mecânica” é extremamente presente no rock, há inclusive uma banda(The Adicts) que se inspira no filme para compor seu som e visual. Um clássico do cinema em velocidade rock n’ roll, importante de ser assistido em uma sociedade cada vez mais abalada pela violência como a nossa.

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A banda The Adicts que inspirou seu visual no filme Laranja Mecânica

Assista o trailer do filme aqui:

 

Veja também

-Fotos de pin ups inspiradas pelo filme “Laranja Mecânica

-4 filmes punk rock

 

“O Gabinete do Dr. Caligari”: Uma metáfora do totalitarismo (Assista o filme completo)

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A mente de um louco nas telas de cinema, a consciência sombria traduzida em imagens góticas que tanto simbolizam uma história de terror quanto representam uma crítica ao totalitarismo. “O Gabinete do Dr. Caligari” é um marco do cinema mundial infinitamente resenhado e comentado. Sua importância é indiscutível, foi o primeiro e mais importante filme do chamado expressionismo alemão que reinou entre 1918 e 1928. Antecedeu os clássicos “Nosferatu” de Murnau e “Metrópolis” de Fritz Lang, tornando-se o primeiro sucesso do cinema de horror. Segundo Fritz Lang, no livro “O Século do Cinema” de Glauber Rocha, não existia um movimento expressionista organizado no cinema austríaco/alemão, esse foi apenas um rótulo achado pela imprensa para catalogar aquele cinema primitivo de começo de século. Polêmicas a parte, não se pode negar as semelhanças estéticas entre as obras desses autores e a influência dessa escola de arte no filme de Wiene.

O roteiro é aparentemente simples: Francis, um homem internado em um hospício, fala a um outro, em flashback, de uma série de assassinatos cometidos em uma cidade do interior alemão (Holstewall) a partir da chegada de uma feira itinerante na qual se destaca o Dr. Caligari (Werner Kraus), uma espécie de pai do Zé do Caixão* com sua cartola e sobretudo negros, que controla Cesare, um sonâmbulo (Conrad Veidt) que dorme em um caixão e aparentemente prediz o futuro. Francis havia ido à feira com seu amigo Alan (Hans Heinrich), que tem sua morte prevista por Cesare ao visitar a “cabine” do velho doutor (daí a origem do nome do filme). Após o assassinato de Alan as suspeitas recaem sobre o Dr. Caligari e inicia-se uma luta contra o tempo para impedir novos assassinatos e provar a culpa do doutor, que revela-se alter-ego do chefe do hospício da cidade.

A astúcia do roteiro está no final, que muitos dizem ter sido criado sobre pressão dos produtores.(Se você ainda não viu o filme e não que saber o final, pule essa parte) Antes mesmo de obras como “Sexto Sentido” ou “Os Outros”, nas quais o fim muda completamente o sentido da história, Wiene transporta o narrador para o hospício, como um louco, sendo a primeira história um delírio e o Dr. Calegari, na verdade, um bondoso médico.

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Uma das marcas que garantiram imortalidade à película de Wiene é o retrato surrealista do universo narrado por Francis, representando os delírios de um doente mental. Os cenários, criados em pedaços de madeira e pano pelos pintores expressionistas Walter Reimann e Walter Rohrig e pelo cenógrafo Hermann Warm (que hoje fazem parte do acervo do Museu do Cinema Henri Langlois, em Paris) são contorcidos, escuros e criam um ambiente de opressão, tal qual as catedrais barrocas. O tempo é desterritorializado, não há menções à época em que se passa o filme, assim como ocorre na maioria das obras expressionistas. A maquiagem é pesada e tudo remete a um mundo confuso, assim como era a Alemanha da pós-guerra, marcada pelos traumas impostos pela derrota na Primeira Grande Guerra, as crises econômicas e a ascendência do nazismo ao poder. O nazismo, inclusive, selou o destino dos dois atores principais: Conrad Veidt fugiu da Alemanha para se tornar um astro nos Estados Unidos (interpretando o nazista em “Casablanca”) e Werner Krauss permaneceu na Alemanha para se tornar então o ator principal do filme de propaganda anti-semita “Jud Suss”.

O “Gabinete do Dr. Calegari” é um aviso, uma premonição do mal que viria varrer a Europa nas décadas de 30 e 40. Assim como “O Vampiro de Dusseldorf” de Lang, o filme de Wiene expõe os efeitos do autoritarismo, totalitarismo e da forma de influenciar as massas através do hipnotismo. É uma obra crua, de um tempo em que o cinema era mudo, preto e branco e começava a buscar sua linguagem própria. Uma vitória para o diretor que conseguiu transmitir com imagens fortes toda a angústia, medo e opressão vividos na entreguerras. Mal sabia Wiene que diante do horror de Hitler, seu Dr. Calegari poderia estar ao lado de Rapunzel nas histórias de carochinha.

Frederico Di Giacomo Rocha, com a alma em preto e branco
08 de Maio de 2004

Assista o filme completo aqui:

Leia também:

-Mais artigos sobre cinema

-Documentário AfroPunk retrata participação dos negros no movimento punk

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