“Eu e outros poesias” (1912): Augusto dos Anjos transforma a morte em poesia

Eu e outros poesias

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Versos Íntimos
Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro da tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Eu e outras poesias
Eu” é o único livro publicado em vida pelo poeta paraibano Augusto dos Anjos. Mistura de técnica parnasiana com temas simbolistas e que acabou classificada na segunda metade do século XX como “pré-modernista”, sua poesia se tornou popular apenas após a morte do autor.

O livro foi publicado de forma independente no Rio de Janeiro, em 1912. Após a morte de Augusto, foi lançada uma nova versão da obra com poemas inéditos que ficou conhecida como “Eu e outras poesias”.

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Versos a um coveiro
Numerar sepulturas e carneiros,
Reduzir carnes podres a algarismos,
Tal é, sem complicados silogismos,
A aritmética hedionda dos coveiros!

Um, dois, três, quatro, cinco… Esoterismos
Da Morte! E eu vejo, em fúlgidos letreiros,
Na progressão dos números inteiros
A gênese de todos os abismos!

Oh! Pitágoras da última aritmética,
Continua a contar na paz ascética
Dos tábidos carneiros sepulcrais

Tíbias, cérebros, crânios, rádios e úmeros,
Porque, infinita como os próprios números,
A tua conta não acaba mais!

Augusto dos Anjos
Poeta queridinho de punks e góticos, Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Sapé, 20 de abril de 1884 — Leopoldina, 12 de novembro de 1914) formou-se em Direito, mas nunca exerceu a profissão. Dedicou-se ao magistério e chegou a ser diretor de uma escola. Morreu jovem, em decorrência de uma pneumonia. Uma das principais características de sua poesia é o uso de termos populares mesclados com expressões científicas/eruditas.

Ao Luar
Quando, à noite, o Infinito se levanta
À luz do luar, pelos caminhos quedos
Minha tátil intensidade é tanta
Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos!

Quebro a custódia dos sentidos tredos
E a minha mão, dona, por fim, de quanta
Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos,
Todas as coisas íntimas suplanta!

Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado,
Nos paroxismos da hiperestesia,
O Infinitésimo e o Indeterminado…

Transponho ousadamente o átomo rude
E, transmudado em rutilância fria,
Encho o Espaço com a minha plenitude!

>Minha inspiração fugiu com outro

>

“Aonde vais inspiração?”
“Vou passear em outro coração”
E foi assim num – nem tão- belo dia
Que fiquei sem minha amada poesia

Já não via beleza nas curvas de mulher
No anil do céu ou brigadeiro de colher
Sorvete de creme parecia ter sal
Não via magia nem no Natal.

A minha musa cretina me mandava cartões.
Rodava nos braços de best-sellers e charlatões.
Pariu uma ninhada de alto-ajuda e bruxaria.
Bebia canções na viola da boemia.

Foi cúmplice de um gago em serenata pra namoradinha
Ensinou a moça tímida a ficar mais saidinha
No sermão do frade, ninguém mais dormia.
Na aula de física o gorducho só ria.

Humilhado e triste só esperava o pior.
Mas num sonho ei-la: feliz acorde maior
Despertei em seus braços, louco pra contar
Em forma de versos voltei a amar.

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