Em entrevista, João Gordo – do Ratos de Porão – fala sobre o sucesso, rap nacional, drogas e a cena punk atual

Se eu tinha um objetivo nos idos de 2003, quando tocava o Zine Kaos com meu irmão e o amigo TiTi Montanari, esse era entrevistar João Gordo – vocalista do Ratos de Porão e VJ da Mtv. Gordo ainda não tinha assinado contrato com a emissora do Bispo, mas era alvo de críticas de anarcopunks e dadosdollabelas da vida. Foi uma das melhores entrevistas por e-mail que eu fiz.

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O Ratos de Porão nos tempos do clássico disco "Descanse em Paz"

– João Gordo comenta polêmica com Los Hermanos

Apesar dos vários problemas de saúde e das constantes críticas ao seu trabalho de VJ na MTV, João Gordo continua com seu espírito crítico e debochado. Vocalista de uma das maiores bandas do punk brasileiro, o Ratos de Porão, o músico destilou em entrevista concedida por e-mail no dia 24 de março de 2003 comentários mordazes que escarram em alvos desde a cena punk paulista até a atual guerra no Iraque.

por Fred Di Giacomo

O Ratos de Porão é talvez a banda mais perseguida pelos auto-intitulados “anarco-punks”, o que vocês acham desse patrulhamento ideológico? Tem hora que a “cena”
enche o saco?
João Gordo Perseguida? Perseguida nada …. Não me sinto perseguido… Op rotestinho desses caras é tão insignificante que nunca causou efeito nenhum. Estou na estrada pondo minha cara pra bater há mais de 20 anos e sempre vi gerações e mais gerações de idiotas aparecer e sumir. Moleques que nos criticam hoje serão absorvidos pelo sistema de amanhã. Hoje anarco, amanhã casado, P.M., pai de família, crente, soro positivo, etc.

Como rolou essa volta no “Onisciente Coletivo” ao som mais trash com letras politizadas?
João Gordo Bem, pra fazer esse disco foi mó embaço, tivemos vários problemas, tocamos pra caralho e quando desencantou saiu tudo de uma vez. Não planejamos “o grande retorno ao trashcore” saiu tudo naturalmente… As letras também, não forçamos barra nenhuma para parecer politizados.

Dá pra perceber pelas letras do último cd que o atentado ao World Trade Center marcou bastante a banda, o que vocês pensam a respeito do ataque e da atual possibilidade de guerra entre Estados Unidos e Iraque?
João Gordo  O plano dos cowboys republicanos do Texas esta dando certo, Bush está conquistando o mundo e usaram o 11 de setembro como pretexto para iniciar a sua doutrina fascista de imperialismo radical. Quem será o próximo? A Coréia do Norte? O Brasil? Vale lembrar que os caras só metem o bedelho onde há interesse econômico. A Coréia do Norte não tem porra nenhuma e nós temos a Amazônia .

O que vocês têm ouvido atualmente? Tem alguma banda nova com a qual vocês se identificam?
Tenho ouvido uma pá de bagaceira tipoLimpwrist que é uma banda sex gay do ex-vocalista dos Los Crudos, fudido, velha escola de primeira, Asesino disco solo do guitarrista do Brujeria (leia-se Dino Cezares). Detão dos infernos as vezes lembra ratos. World Burns To Death crustão desgraçado dos U.S.A. parece que os caras tão tocando por aqui…. Sem contar as bandas nacionais como Descarga, Presto? Mukeka di Rato, Forgotten Boys, muito punk antigo e rock pauleira dos anos 70, yeah!

Gordo, todo mundo sabe que você é um grande fã de rap. Você acha que o hip hop brasileiro foi o “punk” dos anos 90? Como você vê o movimento hoje em dia?
Olha, eu nunca vi nada de construtivo feito pelos punks de SP em toda minha vida a não ser violência gratuita, inveja, despeito, hipocrisia, fascismo… Pode até ter caras legais e bem intencionados por aí com boas idéias e o caralho, mas é a minoria … Nos anos 90 tudo aquilo de contestação revolta que vinha da periferia foi agitado pelos manos do rap com um movimento forte e o objetivo social voltado contra o racismo e melhorias na comunidade onde eles vivem. Pode se dizer que o rap salvou muito carinha

por aí.

Há possibilidade do lançamento do Split com o Cólera e de uma edição nacional do “Sistemados pelo Crucifa”?
O Split com o Cólera é um disco raríssimo, que o charme dele é ser fora de catálogo… Prefiro ele difícil assim mesmo. O “Sistemados pelo Crucifa” em abril estará nas bancas com uma revista colorida com pôster gigante do Ratos. Era pra ter saído em 2000, mas ce tá ligado que sempre pinta um embaço.

Recentemente o RDP excursionou com a formação original (Jão, Betinho e Jabá), de onde veio essa idéia? Vocês ainda mantém contato com todos os ex-membros do Ratos?
Estamos parados desde agosto do ano passado quando fiquei doente com problemas de obesidade…

Então os caras cada um foi fazer alguma coisa, enquanto eu me tratava. O Boka foi tocar bagaceira no I Shot Cyrus, o Fralda foi tocar no Forgotten Boys e o Jão montou o Ratos original pra ganhar um pixo com os caras que são camaradas lá da vila Piauí. O RDP monstro volta em junho para lançar o “Onisciente Coletivo” por aí.

Como andam Sexo Drogas e Rock N’ Roll na vida do RDP? Os problemas de saúde mudaram sua opinião sobre as drogas?
Não uso mais porra nenhuma e estou bem melhor assim . Sem drogas o sexo e o rock`n roll fluem bem melhor.

Cara, agora voltando um pouco no tempo. A entrada do Boka mudou o som da banda? Porque o cara realmente é o melhor batera de hardcore do Brasil… O Spaghetti saiu tretado com vocês? 
O Boka já toca com agente á 12 anos ele é foda, uma máquina de hardcore. Ele é a mola mestra da “fudidês” do Ratos. Nunca mais vi o Spagheti….

Dá pra comparar a cena punk dos anos 80 com a “cena” punk atual? A qualidade das primeiras bandas era bem mais precária, os instrumentos eram todos vagabundos, mas o punk era bem mais forte (pelo menos em São Paulo)
Era tosco mas era verdadeiro. Havia romantismo porque era tudo era mais difícil, era época da ditadura e a repressão da policia era foda. Hoje em dia é o mó boi, tá tudo aí mastigadinho na internet .

Como foi transformar-se de mais um punk fodido de SP num dos mais populares VJ’s da MTv, apresentador de alguns dos maiores sucessos de audiência do canal? Como o resto da banda lida com isso? Às vezes você não se cansa dos jornalistas te procurarem mais pra falar da sua vida que do Ratos?
Eu estou cagando pro trabalho na MTV. Como você que trabalha na Ford ou em qualquer outra multinacional, para mim é apenas um trampo que pintou mais nada…. Como não sou trouxa agarrei, mas veja bem, não tive que mudar um milímetro para conquistar esse espaço e querendo ou não nunca deixei de dar força ao underground. Se não pode derrotá-los, junte-se a eles e comece uma infecção…

O sucesso te incomoda?
Sim, mas incomoda mais outras pessoas.

Agora as infames questões rápidas. O que vocês pensam a respeito de:
a)”Cena PunkPrefiro falar sobre cena underground…..
b)Legalização da Maconha Sou contra . Só ia beneficiar as companhias de tabaco.
c)Rock Nacional Farsa comercial 
d)Assassinato do Sabotage Chorei…

Vale a pena fazer rock n’ roll no Brasil?
João Gordo – Não.

Veja também:

-Leia resenha sobre o primeiro disco dos Garotos Podres, “Mais podres do que nunca”

-As melhores frases punk

-Entrevista com a banda punk Garotos Podres

 

Flashbacks: Surfando no Caos, Timothy Leary



Meu primeiro flashback sobre Timothy Leary vem de uma capa de fanzine que meu pai trouxe para casa. O sulfite xerocado falava sobre a morte do psicólogo e sua importância para a contracultura e divulgação do LSD nos anos 60.

Exatos 10 anos depois, ganhei de amigo-secreto a autobiografia do “guru do LSD”. O livro, que tem uma capa roxa péssima, começa mesclando lembranças de sua infância influenciada pelos livros de Mark Twain, intercaladas com a sua descoberta das drogas psicodélicas aos 40 anos, logo depois do suicídio de sua esposa. Leary começou suas pesquisas quando era um respeitado professor de psicologia em Harvard, pai de dois filhos, e logo passou a receber visitas de escritores como Aldous Huxley, Jack Kerouac e Allen Ginsberg. Ele via na Psilocibina(versão sintetizada dos cogumelos psicodélicos) e depois no LSD(apresentado a ele por Michael Hollingshead) uma forma de tratar doenças psicológicas e melhorar a capacidade do cérebro. “Tim” enxergava em suas pesquisas uma ligação que remontava a séculos de experiências com drogas psicodélicas, uma linha de estudiosos místicos que ia dos antigos astecas, aos alquimistas, passando pelos poetas ingleses como Lord Byron.

Suas pesquisas passaram a atrair a fúria do governo americano e de suas forças policiais(FBI e CIA). Timothy, então, tentou levar seu projeto para o México, mas acabou sendo expulso, e fundou uma comunidade num rancho nos Estados Unidos(Milbrook) onde foi visitado por Ken Kesey(autor de “Um Estranho no Ninho” e lider de outra comunidade psicodélica os “Merry Pranksters”. Esse encontro é retratado no filme “Across the Universe”, com Bono Vox num papel inspirado em Ken Kesey). Tim viajou para o Oriente com sua bela esposa loira, conheceu mestres iogues e passou um tempo na Índia. Na volta, Milbrook sofreu uma batida policial e Leary passou a ser perseguido até que foi preso na fronteira com o México com uma quantidade ínfima de maconha. Enfrentou diversos julgamentos e quando ia ser candidato a governador da Califórnia(Tendo como jingle a música “Come Together”, antes dela ser um hit dos Beatles) acabou preso. Fugiu para França e depois Argélia onde virou refugiado com a mulher, Rosemary e fez contatos com grupos oposicionistas do mundo todo, inclusive brasileiros. De lá para Suíça, onde foi preso e deportado. Nos Estados Unidos passou anos em diversas prisões.

No livro, percebe-se que Leary está muito além da visão que se tem do “papa do LSD” ou do “velho hippie doidão”. Timothy foi um psicólogo, filósofo e cientista, grande entusiasta da computação, física quântica e drogas como forma de desenvolvimento do cérebro. Suas pesquisas realmente incomodaram o governo americano e envolveram tramas na Casa Branca que chegavam até a John Kennedy. Quando faleceu, Tim congelou sua cabeça num tanque criogênico, com esperança de que isso pudesse ajudar em pesquisas futuras. Tudo bem vai, um pouco louco ele era… 🙂

Livro: Flahsbacks – Surfando no Caos
Autor:Timothy Leary
Editora: Beca Produções Culturais
Ano: 1999

Como operar seu cérebro? Tio Leary explica, e com legendas em português:


-Quer saber mais sobre Ken Kesey e viagens com LSD? Confira no blog do Lúcio!

-Mais sobre Allen Ginsberg e os Beats? Clica aqui!

L.S.D.

L.S.D
(Lembrança Sobre as Drogas)
Ontem, eu saí de casa
E esqueci meu cérebro na rua.

grafite-rio
Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais“. “L.S.D” faz parte dos contos do livro “Canções para ninar adultos”, publicado pela Editora Patuá, e com orelha assinada pelo escritor Xico Sá.

 

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