Um banho de enxurrada no dia em que terminei meu segundo romance.

A chuva não mais caia, mas cheguei molhado em casa.

Eu caminhava empolgado, pelas ruas da zona Sula, porque terminara de escrever, finalmente, meu segundo romance – “Dândis”.

Hum... Refrescante, né?

(Não que o primeiro  – “Memórias de um perdedor” – tenha sido publicado. Ele é sincero demais, seco demais, autobiográfico… Deixo-o envelhecer na gaveta para ver se, como um vinho, ele melhora com o tempo. )

O “Dândis” não é autobiográfico, mas é autocrítico. Tem o pior de mim e da minha geração de um jeito bem-humorado. Cheio de humor negro, ele sacaneia nossos moderninhos e descolados loucos para fazerem um mochilão pela Europa ou pra criar um app de iPhone sustentável.

Bom, revisei o romance e fui levar pra imprimir. Duas cópias dele ficaram os olhos da cara, mas tudo bem, ainda não inventaram uma lei de incentivo à cultura que banque o xerox de originais. Depois de uma lenta hora de impressão, eu estava pronto para voltar pra casa, mas uma chuva torrencial despencava em São Paulo. Uns 15 minutos de espera e me mandei.

Atentem: a chuva parou, mas cheguei molhado em casa.

Sim, molhado, um carro em alta velocidade passou do lado da calçada, atravessando a grande poça d´água, e ensopou o pedestre otário aqui.  Por sorte os originais do livro estavam escondidos embaixo da minha camiseta e sobreviveram 😛

Estou morando no Brooklin agora. Como você deve saber, os bairros classe média (e classe média pra cima) da Zona Sul de São Paulo não tem um bom sistema público de transporte. Mas tem muitas avenidas grandes onde os carros andam rápido (quando não estão engarrafadas). O paulistano classe média gosta de carro. Significa que ele ganhou na vida e pertence a uma casta superior àqueles que se apertam no ônibus lotado ou tomam banho de enxurrada na calçada. O motorista não se identifica com o pedestre que tomou banho de enxurrada, afinal ele não anda à pé. Lugar de pedestre não é na rua, oras. Ele no máximo concorda ser ruim que os bueiros entupidos resultem em poças d´água.

Não que isso o impeça de continuar jogando lixo pra fora da janela, né?

 

 

Não existe solidariedade em SP?

Hoje, chuva de granizo pipocando no parabrisas e refletida no retrovisor dos carros, presenciei uma dessas cenas erradas que rendem má fama ao paulistano médio.

A visibilidade era pouca, a chuva apertada e 4 motoristas resolveram parar todo o trânsito depois da ponte Eusébio Matoso para proteger seus valiosos carros do granizo que ameaçava riscar a lataria. Estancaram embaixo do pontilhão e lá ficaram segurando o trânsito até a tempestade afrouxar.

Quem se importa com todos ônibus, motos e carros se aglomerando atrás sob às pedras de gelo e parando a ponte e, quem sabe, o túnel da Rebouças? E se tiver alguma grávida, um doente ou um apaixonado louco pra reencontrar a mulher nos automóveis de trás?

“Foda-se”, comemoravam eles, “pago meus impostos, comungo, dou like pra salvar os índios Kaiowas. Se eu não cuidar do meu, quem vai?”

Meus amigos voltam da Europa querendo que o Brasil seja um país de primeiro mundo.

Meus amigos voltam da Europa querendo que o Brasil seja um país de primeiro mundo. Eles querem ciclovias, uma linha de metrô que cubra a cidade inteira, praças, limpeza urbana e direitos civis.


Sim, hoje em dia tenho amigos que vem e vão da Europa todo ano. Não era assim na pequena vila em que me criei em Penápolis. Lá, os amigos tinham um pouco menos de grana. Sendo realista, o Brasil todo tinha menos grana. Foi daquele buraquinho no interior que assisti os anos caóticos do Plano Cruzado 2, o Plano Collor, o Impeachment… E depois uma certa estabilidade do Plano Real. Saí de Penápolis no ano da eleição do Lula.

A vida tem sido boa pra mim de lá pra cá.

Grande parte dos meus amigos que voltam da Europa querendo que o Brasil seja um país de primeiro mundo moram em São Paulo, capital. Só que eles não votam em São Paulo. Eles trabalham em São Paulo, ganham dinheiro em São Paulo, gastam em São Paulo, encaram o trânsito de São Paulo… Eles começam, até, a ter filhos paulistanos. Só que seus títulos de eleitores são de Penápolis, Vitória, Porto Alegre, Recife, São Bernardo… Eles deixam a decisão de quem vai governar a cidade onde vivem nas mãos de uma entidade fantástica conhecida como “paulistano”. E aí toda a culpa de a cidade onde moramos no Brasil não ser como a Europa fica na mão desse ser “conservador”, “malufista”, “atrasado”. Esse ser que vai eleger um prefeito de terceiro mundo para reinar sobre cidadãos que sonham em morar no primeiro mundo. Ou, então, eles votam no Russomano mesmo.

Meus amigos voltam da Europa querendo que o Brasil seja um país de primeiro mundo. Meus amigos votam no Brasil querendo que tudo fique na mesma. E assim tudo segue igual, “Eta vida besta, meu Deus”.

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