3 fábulas chinesas saídas das quebradas

1.

O Bola se achava o maioral da quebrada porque controlava a maior parte das biqueiras da Vila. Um dia ele se assustou ao ver o franzino Mãozinha com a morena mais linda do culto. “Como é que aquele cara tão desmilinguido (e sem uma mão!!!) podia andar com uma deusa daquelas?” Bola era mais forte, mais bonito, mais valente e melhor de futebol que o Mãozinha. Ele infernizava o rapaz desde pequeno – aquela afronta não podia ficar assim.

Bola decidiu que iria conquistar a morena mais bonita da quebrada pra ele. No primeiro dia, Bola levou flores pra morena, mas ela disse não. No segundo dia, Bola levou chocolates pra morena e ela disse não. No terceiro dia, Bola levou um pequeno colar pra morena e ela disse novamente não. Irritado, o rapaz não teve dúvida: forçou a pobre morena a satisfazer-lhe as vontades ali mesmo, na casa do Mãozinha.

Bola sentia-se seguro violentando a mulher do aleijão porque sabia ser mais forte e mais valente. Ele não sabia, no entanto, que o Mãozinha chegaria mais cedo naquele dia, nem que o maneta seria corajoso o suficiente para descarregar o trezoitão em sua cabeça gorda. Seus miolos espirraram na parede, no exato momento em que seu prazer espirrava de seu corpo suado.

Bola esqueceu que ele – apesar de valente, bonito, forte e bom de futebol – não tinha o peito de aço.

2.
Galeguinho gostava de fumar um do bom pra ficar chinesinho. Enquanto seu amigo Larica dizia que o mato lhe deixava louco, Galeguinho achava que ficava mais inteligente. “A fumaça na cuca é um anabolizante para os neurônios”, pensava ele.

Um dia, Larica tomou chá de cogumelo e contou pro Galeguinho que o efeito era cem vezes mais forte que o do causado pela maconha. Isso deixou o  jovem ambicioso muito animado: “Ficarei cem vezes mais esperto bebericando esse chá!”.

Depois da chuva vem sempre o cogumelo de Zebu, e Galeguinho se fartou do psicodélico chá. Em seu sonho maluco, Galeguinho sonhou que era uma borboleta voando pelos campos da China. Quando acordou, Galeguinho não sabia se era o Galeguinho que sonhara ser uma borboleta ou se era uma borboleta sonhando ser Galeguinho. Talvez a borboleta fosse o Galeguinho! E talvez o Galeguinho fosse a borboleta!

O rapaz acabou no manicômio judiciário de Franco da Rocha.

3.
O cabo Du sempre pedia uma coxinha e um pastel na venda da Dona Isabel. Dona Isabel – que tinha 5 filhos e era viúva – explicava que não podia vender fiado, mas o policial prometia proteção em troca da boquinha grátis. Num dia ensolarado, 7 moleques da turma do Vandinho entraram na venda da Dona Isabel e levaram tudo. Desesperada, a pobre viúva foi pedir proteção para o cabo Du.

“Sinto muito, Dona Isabel, mas a turma do Vandinho tem as costas quentes. Não posso fazer nada. Na próxima, eu adianto o teu lado.”

Dona Isabel assentiu, humilde, com a cabeça preenchida por cabelos brancos. Na próxima vez que colou na vendinha, o cabo roliço devorou seu pastel de frango com goles gordos de guaraná Super Plá e deixou a coxinha pro final. O crocante surpresa da delícia salgada era caco de vidro moído que encheu a goela do cabo de sangue e rasgalhou-lhe as tripas, mandando-o embora de rabecão.

Na hora da agonia, o polícia rezava e implorava para que Deus o salvasse, mas nosso Senhor fingiu-se de besta porque aprendeu há anos que não se deve dar moral aos mentirosos e vacilões.

Joguei meu iPhone nas águas sujas do Tietê – conto

um conto de Fred Di Giacomo, publicado no livro “Canções para ninar adultos” (Editora Patuá)

Joguei meu iPhone no meio das águas sujas do Tietê. Era o que precisava ser feito. Era o que eu tinha que fazer.

***
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— Você foi feliz?
— Como assim, Alex? Pergunta estranha…
— Não, vô, queria saber se você foi feliz, de verdade. Se sua vida valeu a pena.

Meu avô era um self-made man. Eu era um bundão. Ela tinha saído do sertão do Ceará, trampado como porteiro, peão, engraxate, estudado engenharia, passado em concurso público, ganhado dinheiro, criado os filhos, comprado dois apartamentos (um na praia, claro) e uma dezena de carros e pagado as contas de todos os almoços da família. TO-DOS. Porque meu pai não tinha grana. Ele era formado em sociologia e trabalhava em ONG. E isso tinha sido a grande luta da família desde que eu me entendo por gente. Meu avô era um cabra ferrado na vida que ganhou dinheiro. Meu pai era um cara que perdeu dinheiro. Pra ser feliz. Mas agora estava decepcionado. Trabalhar com menor abandonado não é fácil. Eu sei, eu o vi chegar a vida toda esmagado em casa, fazendo dívidas, se atolando no cartão de crédito e, muitas vezes, ele fazia tudo isso para tentar ajudar quem não queria ser ajudado. As histórias eram tristes:

— Essa semana a Rota aprontou de novo.
— Rodrigo, precisa desses assuntos na mesa? – minha mãe achava que na hora de comer não devia se falar de fofoca, doença ou tragédia. Era uma mulher sábia.
— Foi uma execução sem motivo. Pegaram seis moleques, lá no centro. Os seis cheirando cola, benzina, alguma dessas químicas. Os policiais fizeram a molecada beber tudo. E depois ficaram esperando pra ver a pivetada estrebuchar. Teve um que demorou pra apagar. E aí eles botaram no carro e ficaram dando volta com ele, até morrer. Os comerciantes da área acharam certo. Na verdade, essa era a piada do dia.

***
De volta ao almoção de domingo na casa da minha avó. Macarrão, frango, Coca-Cola e doce-de-leite.

— A vida foi boa comigo, Alex. Eu comprei carro, casa, e, se não tivesse feito o que fiz, não tava podendo ajudar seu pai.
— Eu sei que o senhor foi bem sucedido, vô. Tô perguntando se o senhor foi feliz. O senhor fez o que queria da vida? Hum… Não “da vida”. Fez o que queria “pra vida”?
— Se a gente faz o que quer da vida, morre de fome, menino. Olha o seu pai… Eu falei pra ele cursar engenharia, sabia que ninguém vivia de fazer ciências sociais. Isso é hobby de rico. Mas ele não me escutou, agora tá aí…

Eu devia ter defendido meu pai? Sei lá, acho que isso quis dizer que o vô não era feliz. Eu não era feliz. Eu tinha momentos de felicidade. Li numa entrevista na revista Trip que a felicidade é uma distorção de humor, assim como a tristeza. Que o melhor é ser sereno. Eu acho bom ser sereno, tranquilo. Mas prefiro ser feliz. Tentar ser, pelo menos.

Todos meus amigos estavam tentando ser felizes. Mas o mais próximo disso que conseguíamos alcançar era ficar bêbado, mesmo. Por isso todo mundo – os manos e os hipsters – gostavam da música nova do Criolo. Ela dizia: “Os bares estão cheios de almas tão vazias”, e também dizia que não existia amor em SP. Eu tinha escrito antes num verso: “São Paulo, eu queria te abraçar”. Acho São Paulo a cidade mais incrível e mais triste do mundo. Parece uma musa banguela. Uma prostituta por quem o freguês se apaixona e insiste em querer tirar da vida. Eu sempre gostei de mulheres tristes. Tristes e loucas. Eu queria tomar conta delas e queria que elas tomassem conta de mim.

— Entendi, vô. Eu acho muito importante o que você fez. Sua história é bonita, mas… Eu tava pensando na minha vida…
— Não pensa não, filho. Pensar não enche barriga de ninguém.
— Alex, para de ficar tão preocupado e come mais. Nunca vi meu netinho tão magrinho… Você sabe que a vó te ama, né, filho?

Minha avó parecia feliz. Até que começaram a aparecer os primeiros sintomas do Alzheimer. Isso foi despertando o lado mais cruel dela. Uma raiva forte do meu avô, que nunca lhe deu muita atenção, nunca estava em casa, nunca tinha tempo para o filho. Mas teve tempo para arrumar amante, né? E ela ali, sempre tão fiel, sempre tão correta…

E meu pai? Foi feliz? Não sei, não tenho coragem de perguntar ao velho. O que sei é que ele foi um idealista, um exemplo, e agora chora porque teve que cortar seus canais de TV a cabo. Todo mundo vai querer comprar roupas boas quando ficar velho? Não faço ideia; hoje o buraco que carrego não é esse. Um colega de trabalho queria muito dirigir um filme, mas tem medo. A outra queria viajar por seis meses pelo mundo, mas tem medo também. Muita gente não sabe o que quer, mas acha que vai conseguir. Eu sinto falta de fazer algo relevante. O que eu posso fazer para melhorar o mundo, sem virar um político feladaputa ou um pregador messiânico? Às vezes parece que a única opção para viver bem é fazer propaganda de sabonete e margarina.

Nessas propagandas, as pessoas sempre são felizes.

***

— Alex, isso é muito chato.
— Por quê, Sabrina?
— Porque é muito duro, muito sujo. Poesia é muito brega.
— Ha, ha, ha. É mesmo. Ninguém lê poesia.
— Lê o que então, Jeferson?
— Pô, conto. Sei lá, coisas mais bem-humoradas.
— É, Alex, o Jeferson falou uma coisa que é verdade. A arma da nossa geração é o humor. A revolução vai vir dos memes e dos tumblrs.
— Se você for ver, Alex, hoje em dia quem manda no mundo são os blogueiros. Não tem mais esse negócio de Globo, Abril….
— Porra, a internet mudou tudo.

(Mudou?)

— Sei lá, vocês devem estar certos. Acho que tô bêbado.

***

Um resumo nada empolgante da vida deste cronista até aqui: nasceu pobre. Bem, pobre não. Classe média baixa. Estudou muito. Fez uma boa faculdade. Começou a trabalhar. Ganhou dinheiro. Subiu alguns degraus na vida. Trabalha em algo que não faz sentido pra ele. Mas paga iPhone, viagem pra Europa, cerveja artesanal, balada descolada. Na Europa, viu um grafite no banheiro: “Capitalism is dead, sent from my iPhone”.

Sentiu-se, ele também, um rebelde de iPhone.

***

Não sei para onde vou, mas hoje pedi demissão do meu emprego. Minha chefe me chamou de imaturo, disse que a geração Y não aguenta o tranco. Que o que eu estava fazendo era coisa de riquinho mimado. Que desse jeito o Brasil nunca iria pra frente mesmo. Eu sorri para ela. Não sabia por quê, mas me sentia terrivelmente bem e leve.

Como não me sentia desde o dia em que fiz um crachá naquela multinacional.

***

Joguei meu iPhone no meio das águas sujas do Tietê. Era o que precisava ser feito. Era que eu tinha que fazer.

Para ouvir ao som de:

Leia também:
-Assista entrevista com o escritor Fred Di Giacomo falando sobre “Canções para ninar adultos”
– Leia o conto “Sexo virtual, pop e desencontros”
 -Leia o conto “Preto no Branco” sobre um palhaço triste e pobre e sua musa indecisa

Livro em formato de disco, “Canções para ninar adultos” será lançado dia 25/10 na Vila Madalena

“Ninguém contará os anos desprendidos até ali. Não importa. Mirem-se naquele ponto cinza aproximando-se contra a luz. A figura que caminha em nossa direção trata-se do velho pai. A brancura de sua barba já não pode ser disfarçada, suas costas curvam-se sutilmente e os olhos traem a percepção. Ele não sabe, mas está prestes a iniciar nossa saga.” (Gênesis, Fred Di Giacomo)

Convite do lançamento

Será um livro, será um disco, será um amontoado de caôs?

Calma, querido leitor, é só meu primeiro livro saindo do forno. “Canções para ninar adultos” será lançado dia 25/10 às 19h no Bar Canto Madalena – Rua Medeiros de Albuquerque, 471 – São Paulo – SP. Já dá, inclusive, para encomendá-lo na pré-venda no site da Editora Patuá.

“Canções” reúne 22 contos divididos, como num disco de vinil, em lado A e lado B. No final do livro, eu recomendo uma listinha de músicas para acompanhar os contos.

A orelha foi soprada pelo escritor e jornalista Xico Sá. Vejam um trechinho:

“Todo cuidado é pouco, senhoras & senhoritas,“Canções para ninar adultos” é obra de um tarado. Um leitor-escritor tarado, capaz de trazer para o jogo da narrativa o jeito tranquilo do matador Chester Himes e a viagem sem fim de Céline. (…)

Um escritor-leitor taradíssimo, rápido nos diálogos como um devasso de pornô-chat que alcança o paraíso. Na literatura, só os tarados têm o direito de tocar os leitores. O resto é chatice com solenidade mofada.(…)

Legal, né? Espero vocês todos no lançamento!!!

-Notícias sobre “Canções para ninar adultos” no blog oficial

Ilustração do livro "Canções para ninar adultos" recria a capa do primeiro disco dos Ramones com os escritores malditos Poe, Ginsberg, Bukowski e Nélson Rodrigues no lugar dos pais do punk

“Houve um tempo em que havia uma esperança: a música tinha Bob Dylan e os Beatles estavam parando de cantar canções de menininhas para tentar mudar o mundo. O homem tinha chegado a Lua, os estudantes tomavam as ruas de Paris, o cinema estava se tornando arte.”
(“Amor nos Tempos de Aids, Fred Di Giacomo)

Minha cidade era pequena como minhas ambições – Fred Di Giacomo

Minha cidade era pequena como minhas ambições. Havia um posto de gasolina, uma igreja luterana, dois prédios de 6 andares, três farmácias concorrentes. Houve uma vez um circo itinerante. No circo eles não tinham elefantes, equilibristas, nem mágicos. Eles tinham pequenas aberrações e uma câmara de pesadelos.

***

Nunca levei meus sonhos muito a sério. Sonhos pra mim consistiam numa sessão noturna de cinema grátis proporcionada por meu cérebro. Minha cidade já não tinha cinema algum. Repetindo a sina de tantas outras salas, a que aqui existia virou igreja evangélica. Aliás, foi no extinto “Cine Kane” que um dia assisti “Batman: Returns”, do Tim Burton, antagonizado por um Pinguim realmente assustador, vivido por Danny DeVito. Aquela matinê foi minha primeira vez no cinema. Por 10 anos sonhei com a cena final do filme, na qual o vilão morto é carregado em direção às águas geladas de um rio por uma legião de enlutados pinguins.

Daí em diante, nunca mais sonhei.

***

Um dos poucos retratos conhecidos da trupe do Circo D'Arca, sem data conhecida.


Não sonhar me deixou tremendamente excitado com a ideia da “Câmara de Pesadelos Ocultos” do “Circo Arkham”. Arkham era um nome muito difícil de pronunciar e os caipiras da minha cidade preferiam chamá-lo de “Circo d’ Arca”, em referência à “Câmara”. Além da Arca, as atrações deste distinto freak show incluíam um macaco de olhos injetados (que utilizava uma pequena asa delta para dar rasantes muito próximos às cabeças do público), um anão, uma mulher-barbada, um lutador de kung fu, um sonâmbulo que adivinhava o futuro e um suposto “Homem-Elefante”. Cético, papai garantia ser tudo armação:

_Efeitos especiais, garoto, o mundo são ilusões cuspidas por computadores.

Sobre o “macaco alado”, o que vocês já sabem: o animal tinha olhos injetados. Esqueçamos os olhos, concentremo-nos em suas cordas vocais: o pequeno símio gritava histericamente enquanto planava sobre nossas massas encefálicas. Seu grito era humano. Por causa dessa humanidade latente naquele serzinho – que se vestia como um antigo ascensorista de hotel, chapeuzinho vermelho caído de lado na cabeça e fardão combinando – julgávamos que ele pudesse ser filho do Anão. Sim, o pequeno Anão, líder daquela trupe, o pequeno Anão que berrava na entrada do circo:

_Bem-vindos, garotos, ao mundo do bizarro e do sobrenatural! Não tenham medo, bravos garotos do interior. Deixem que Cesare lhes leia o futuro nos olhos. Nosso sonâmbulo nunca erra… Nem nunca inventa verdades! Ou, então, se forem realmente corajosos, provem os delírios da “Câmara de Pesadelos Obscuros”.

O Anão não tinha barba, não tinha asa delta, não tinha força e não tinha nem um metro de altura. Ele e o macaco eram minhas atrações favoritas no circo. Compactas e intensas.

***
Conseguiram manter nossa ansiedade encaixotada até que o primeiro adolescente experimentasse a “Arca”. Então, nos tornamos viciados em medo.

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Pense rápido: qual é seu pior pesadelo?

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O pior pesadelo de Pedro Plínio envolvia uma grande leitoa grávida. Sem anestesia, homens parecidos com médicos abriam a porca com um bisturi. A mamãe suína guinchava de dor. Um homem muito grande entrava no recinto segurando Pedro Plínio pelo pescoço e obrigava o rapaz a se enfiar na barriga da porca que estrebuchava. Espremido entre os porquinhos natimortos, ele se encolhia em posição fetal, enquanto a barriga materna era costurada. Afogado em vísceras, ele acordava com apinéia.

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Sem saber explicar exatamente por que, Pedro Plínio assistiu seu pior pesadelo repetir-se 12 vezes em um único dia. Quando o “Circo Arca” deixou a cidade, Pedro Plínio seguiu-o com os olhos esbugalhados, a barba rala, um canto de cuspe na boca e nenhum dinheiro no bolso. O parco orçamento como açougueiro queimou-se em sessões diárias de horror.

Assim como Pedro, os jovens da cidade tinha sede de novidades e emoções fortes. Todos vangloriavam-se por terem andado nas maiores montanhas-russas da região, por tirarem rachas de carro nas estradas e por comerem as virgens dos sítios no pêlo e sem medo de pais brabos. Não podiam resistir à tentação de experimentarem a câmara de pesadelos.

***
As sessões eram individuais, duravam 15 minutos e deviam ser pagas com antecedência. Seus piores pesadelos ou seu dinheiro de volta. Pesadelos são uma alta descarga de adrenalina, uma sensação que nenhuma outra droga lhe dá. Eu sei. Eu experimentei. E depois tentei:

LSD- mescalina – maconha – álcool – barbitúricos – cocaína – peyote – daime – lança-perfume – doce – bala – ópio – televisão – sexo pago – internet.

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Nosso grande sonho era ter as 20 pratas necessárias para uma pequena sessão de terror naquela caixa obscura e apertada. Com o tempo, os preços foram inflacionando: 35, 40, 50… Até chegarem ao absurdo de 100 pratas POR SESSÃO. Três meses depois do início daquela febre, o Circo Arca deixou nossa pequena vila empobrecida. Levavam em seus trailers nossos salários, nossos modernos televisores, nossos porcos, galinhas e algumas de nossas mais belas crianças. Não que todos os pais tenham seguido o exemplo de Endrigo Borges, que trocou a delicada filha de 15 anos por 3 sessões extra de seu pesadelo favorito. Aparentemente, Endrigo sonhava estar em uma bela ilha grega, de frente para o azul tranquilo do mar Egeu, no interior de uma casinha branca encravada nas montanhas vulcânicas. Cercado por primaveras de folhas verdes e flores róseas, Endrigo Borges era seviciado por uma mulher gigante e farta que empalava-o com um salto agulha finíssimo. A dor, no entanto, era provocada por uma pequena formiga que lhe devorava o globo ocular.

Imaginar a pequena Margarida Borges nas mãos daquele Anão monstruoso me enche de tristeza. No entanto, a maioria das crianças deixou nossa tribo e seguiu o Circo por livre e espontânea vontade. Hipnotizadas, elas marcharam pelo interior do país em direção ao norte, atrás de seus piores pesadelos, tal qual a lenda do “Flautista de Hamelin”.

***
Em casa, comentários sobre a Arca eram proibidos por papai. Não se falava no assunto, mas ele enchia o vazio de nossas conversas. O número de crimes, de internações, de histórias pervertidas que rondavam a cidade parecia aumentar, mesmo que ninguém tivesse dados ou estatísticas oficiais. Alguns defendiam a Arca como terapia holística e medicina alternativa, diziam que uma pessoa que desfrutava de suas sessões não tinha motivos para cometer qualquer perversão na vida real. As experiências vividas naquele pequeno espaço serviriam como a própria realidade.

***
Estive lá algumas vezes, confesso. Reencontrei-me com o funeral de pinguins levando um homem morto para águas geladas. No entanto, o homem não era mais um vilão dos quadrinhos. Em despeito da ambientação gótica, das grandes torres, da névoa e do cheiro de frio, não estávamos em uma história do Batman. O homem que os pinguins carregavam era meu pai. Por semanas paguei pra ver meu velho ser enterrado. E eu sorria, enquanto as lágrimas escorriam de meus olhos. A dor era tão funda, a carne lacerada era tão cara a mim, que aquele raio de dissabor atravessava a realidade e era cuspido do outro lado como um prazer inalcançável. E esse prazer… Esse prazer era o inconfessável.

***

No dia em que a Arca me presenteou um pesadelo no qual eu e meu pai éramos esquartejados, enquanto uma tribo de hunos violentos violava minha mãe, minhas tias e minha pequena irmã, eu resolvi desistir do Circo. Instantes depois, fui tomado pelas crises de abstinência.

***

Um cheiro de açúcar no ar – chovera. Papai caminha em direção ao circo. Acha que em casa todos dormem.

Meus olhos evitam cerrar-se. Eu espreito o velho na noite. Com que direito? Quem sou eu para julgar o homem que eu enterrei em meus sonhos tantas vezes seguidas? A cada passo dado, cada passo cansado, as solas grandes de meu pai afundam quentes na lama fria. Seus ombros curvados levam – pesada – a culpa do mundo.

Quando papai passou a subtrair jantares de sua rotina, quando a barba tomou lugar em sua face como mato selvagem que cresce em terrenos baldios, quando gritos de terror passaram a serem ouvidos em nossa casa em plena madrugada; então eu soube que toda decência da cidade havia ser perdido.

***

Envergonhado, com a cabeça baixa, o ex-homem bom dá suas notas amassadas para o Anão asqueroso. Aguardo alguns segundos. Um sorriso torpe do pequenino capataz assente que eu entre junto por uma quantia generosa. Preciso descobrir qual pesadelo pesa pro meu pai. Dentro da câmara escura, entre o cheiro de mofo e o gelo seco, meu velho se encolhe – retraído. Ali, no nada, suas retinas filmam seu devaneio favorito:

Por mais uma noite seguida, ele é vítima dos olhos decepcionados do seu filho, que o flagra na fraqueza do vício. Tão humano que dá nojo.

Em breve sai o primeiro livro deste blogueiro: “Canções para ninar adultos”

Algumas pessoas colecionam selos, lágrimas, tampas de garrafa, sonhos, maços de cigarro ou discos. Já conheci até quem colecionasse embalagens de pasta de dente. Eu coleciono livros. Ou melhor, dedicatórias em livros. (O Homem que colecionava dedicatórias, Fred Di Giacomo)

Versão 2 da capa, com ajuda do designer Thiago Lacaz

É isto mesmo amiguinhos, este blogueiro aqui acaba de fechar com a Editora Patuá o lançamento de seu primeiro livro: “Canções para ninar adultos”, reunindo 22 contos. O livro será no formato de compacto (como os velhos singles em vinil) e os contos serão divididos em Lado A (histórias com pitadas de fantástico) e lados B (contos mais realistas; feios, sujos e malvados). No final do livro, um cardápio irá indicar algumas canções para ouvir durante a leitura. (A seleção vai do rap dos Racionais à música clássica de Dvorák, passando por Rapture, Otto, Bob Dylan e Count Basie). A orelha deve ser escrita pelo jornalista e escritor Xico Sá. Deve sair em setembro, se os ventos do sul continuarem a soprar quentes.

A cabeça resistia, afundada nos sulcos cheirosos que marcavam o travesseiro dela. A maciez da cama era o único refúgio para felicidade do mundo. Pensar no futuro o enchia de ansiedade, e ansiedade leva os fracos a trilhar os caminhos do medo. Kiko era fraco, feminino e fixado na ideia de que a a busca pela felicidade era a grande cruzada de sua vida. (Também gostava de Legião Urbana, o que negava veementemente.) (Instant Happiness, in “Canções para ninar adultos”)

Primeira versão da capa pro livro.

Das águas lodacentas da tristeza, levantou-se o primeiro homem inteiro a enxergar aqueles tempos novos.  (Gênesis, in “Canções para ninar adultos”)

-Saiba mais sobre o livro no blog oficial

Pra abrir o apetite um miniconto que estará no Lado B do disco, digo, do livro:

Paulo Coelho
Pôde, enfim, dormir tranquilo
– o fatigado alquimista
Quando redigiu seu primeiro fracasso.

Na margem do Rio Piedra, eu sentei e caguei.

-Leia mais contos

Esse conto foi escrito em 2005, uma versão editada dele encerra meu primeiro livroCanções para ninar adultos

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Mesmo que eu gostasse de Paulo Coelho teria vergonha de dizer que um dos meus livros favoritos chama-se “Às margens do Rio Piedra sentei e chorei”. E a menina que dirigia o carro disse exatamente isso. Ela era uma dessas roqueiras místicas que gostam de Janis Joplin, sexo e pactos com São Cipriano. Sabe o que é um pacto com São Cipriano? Aquele negócio satânico que você faz pra fechar o corpo e tal. Na minha adolescência, tinha sempre um cara louco de preto estudando essas coisas de Bíblia Negra, acho que o Paulo Coelho ia fazer um baita sucesso investindo no undeground do misticismo.
Certíssimo, estávamos eu e o Augusto voltando da “balada” bêbados e alterados por solventes, do tipo “lança-perfume”. Quem dirigia era a Bia, ao lado dela Samanta, “a gaga”, e dividindo o banco traseiro conosco, o respeitadíssimo: Denis, pequeno traficante japonês, que nos explicava a diferença entre uma pistola automática e uma semi-automática. Aquilo tudo era muito instrutivo, mas às seis da manhã o que eu queria mesmo era comer alguma coisa e dormir umas boas horas de sono. Ou dormir com a Bia e terminar uma história que eu deixei incompleta há mais de três anos atrás… Ta, certo, não entenderam nada, né? Hora do flashback…
Tinha, então, dezoito anos, virgem e pré-universidade. A tal da Bia era uma lenda sexual na cidade. Namorava um cara, mas isso não impedia seus casos, que eram vários. Um amigo chamava-a de “Deusa do sexo”. Nós a idealizávamos bastante e só. Um belo dia(adoro usar essas expressões clichês pra começar frase), ela resolveu dar em cima de mim e nós acabamos no seu carro, no meio de uma estrada. Naqueles tempos, eu era um bom garoto, não me sentia muito a vontade, estava nervoso e meu membro também não ajudava muito. Por mais que ela me atiçasse, ele não se levantava. Quem me salvou foi a polícia… Uma viatura parou ao nosso lado, conferiu se estávamos nos drogando e nos mandou sair dali. Tive mais um encontro (quase) sexual com a Bia, mas a camisinha teve alguns problemas e acabamos não transando…
Voltando ao carro, paramos em frente de casa, agradeci e pulei. A Bia me pediu um beijo de boa noite, fui no seu rosto, e ela me deu um selinho, tentei enfiar a língua, mas ela riu… Não seria naquela noite… Tudo bem, ela gostava de Paulo Coelho…

***
A Bia deixou um por um em suas casas e só sobramos eu e ela… Eu conhecia a figurinha há tempos, só foi o Denis sair do carro e ela colocou a mão no meu órgão. Era completamente ninfomaníaca, pensava e fazia sexo vinte quatro horas por dia. Cabelos compridos tingidos de vermelho, olhos pretos, boca carnuda, seios fartos, mas sem bunda. Usava umas roupas muito decotadas e falava algumas merdas tipo:
_Os judeus não podem olhar, é pecado pra eles. Eu passo com os menores decotes possíveis em frente à sinagoga e eles me ignoram. Eu fico me sentindo mal, assim.
Cursava psicologia… Meu dEUS do céu, quanto mais psicólogos conheço pela vida, mais confio nos curandeiros e mães de santo. Entramos no apartamento dela, ficava num condomínio onde as janelas de um prédio davam de frente pras do outro. Ela dividia o quarto com uma colega de classe, mas a menina não estava em casa. Sorte minha, entramos no quarto e eu enfiei a língua na boca dela, apertei sua bunda e rolamos no sofá. Eu estava muito empolgado, e parecia que quanto mais peças de roupa tirava, mais peças de roupa apareciam. Era como magia, arranquei uma calça jeans, um top e suas sandálias beijando cada dedo do seu pé, e lá estava ela com uma saia de pregas curtíssima, coturno e blusinha decotada. Cada nova combinação lhe dava um estilo mais vamp, mais sadomasoquista. Ela disse pra irmos ao seu quarto, afinal a colega não estava. A cortina da janela estava toda arrebentada e um sem fim de janelas permanecia com as luzes acessas para assistir nosso showzinho privê. Alguns caras, com jeito de operários, assistiam a cena do saguão, torcendo e gritando coisas do tipo:
_Mais um, Bia? Quem é o babaca da vez?
_Quem você vai devorar agora?
_Ela ta te passando pra trás, otário!
Eu, peladão ali no meio, fiquei sem graça. Achei que ela era algum tipo de viúva negra. Consegui deixa-la só de calcinha e ela voltou com alguns artefatos S&M.
_Você gosta de ser dominado?_Me perguntou… Naquela hora, eu faria qualquer coisa em troca daquela calcinha.
_Claro.
_Então, você vai ser meu escravo. Grita pra eles lá fora que você falhou comigo, que você é meu escravo e faz o que eu mandar!
(“Nem a pau”, pensei)
_ Eu me humilho por causa dela!
_Não foi isso que eu mandei você falar.
Ela tava de pé, calcinha preta minúscula, chicote na mão. Salto alto e sombra nos olhos. Os cabelos, antes vermelhos, agora eram negros como a noite. Tinha uma tatuagem de aranha na coxa. Viúva Negra! “Quer saber?”, pensei. “To, de saco cheio disso aqui, esse quarto é uma zona, tem um exército de operário e porteiro tarado lá embaixo, e ela ainda quer que eu fique gritando? Enchi o saco”. Parti pra cima dela, e joguei a na cama, tava bem violento. Ela xingou, eu dei um tapão, segurei os braços com uma mão e com a outra baixei a calcinha. A Bia tava bem agitada, mas quando eu tirei o trapo preto sossegou…
Um pau! Tinha um pau ali! Uma mina com um… Eu não podia transar com uma mina com aquele negócio no meio das pernas, podia?
Acordei puto.

***
Depois daquele sonho, só tinha uma certeza: o culpado de tudo aquilo, dos gritos de “Toca Raul” nas festas, da divulgação da literatura brasileira no Irã e de toda corda pro misticismo de butique era o mesmo cara: Paulo Coelho! Eu ia matar o cara! Não por ele ter composto hinos hippies com Raul Seixas, se ele estacionasse naqueles tempos tava bom, mas, se não fosse por ele, a Bia não seria “a Bia” e eu não teria sonhado com uma mulher com pau. Parecia justo.
Peguei um livro dele na biblioteca municipal de Shit City e comecei a seguir o “Caminho de Compostela”. Fui assassinando todo tipo de hippie, guru e monge que encontrava pelo caminho. Meu destino era um só: matar o “Alquimista” e acabar com seu nome na lista dos Best Sellers mundiais.
Entrei num mundo louco que parecia São Tomé das Letras multiplicada por três, havia todo tipo de malucos, yogues e vegetarianos. Rolava um concurso internacional de imitadores do Raul e um show ao ar livre do hippie Ventania. Toras de incenso e maconha eram queimadas, enquanto mantras fajutos eram repetidos. Alguns casais punham o kama sutra em prática ali mesmo, no meio de crianças, cachorros e animais selvagens.
Não tive dúvida, se aquilo não era o Fórum Social Mundial, era a sede do reinado de terror do “Bruxo”. Uma menina de dezesseis anos passou diante de mim e eu perguntei:
_Moça, onde estamos?
_Às margens do Rio Piedra, foi aqui que o “Alquimista” inspirou-se para escrever diversas de suas obras clássicas.
_ Ah, muito obrigado. E, a propósito, qual é seu autor favorito?
_Paulo Coe…
_Era._ Descarreguei minha pistola na garotinha.
Logo à frente, duas senhoras, discutindo a profundidade da filosofia paulocoelhana, um hippie e uma menina comum.
_ Por favor, qual é seu autor favorito?- Eu repetia. E a cada resposta idêntica, descarregava minha arma.
Tanta violência me deu sede, fui tomar um pouco d’água no rio Piedra e ouvi um guia explicando:
_Às margens desse rio, o “Alquimista” conseguiu inspiração para diversas de suas obras…
BLAM! Um guia turístico a menos no mundo! Que saco, eu já não agüentava mais. Será que aquelas pessoas não gostavam de ler de verdade?
_Eu adoro ler! Auto-ajuda, “Quem roubou meu queijo” e Paulo Coe…
BLAM! BLAM! BLAM! Eu era o juiz do apocalipse e tinha o poder de eliminar todas as pessoas que quisesse. O critério era simples: “Você gosta de Paulo Coelho”? Não importava que fosse um jovem começando suas leituras, um intelectual que lesse só por diversão ou a mulher mais linda do mundo. Todos teriam que pagar por aquele crime horrendo!
Encontrei o Paulo Coelho às margens do Rio Piedra, de cócoras. O desgraçado estava cagando no rio! E logo ali embaixo, algumas pessoas usavam a água para banhar-se e fazer comida. Bruxo filho da puta! Fiquei com vontade de dar lhe um chute na bunda branca. Acontece que nesse exato momento senti uma pontada na barriga. Aquela água devia estar tão carregada de coliformes fecais de autores de best-sellers e místicos, que soltava o intestino de qualquer pessoa…
Às margens do rio Piedra, sentei e caguei. E depois, chorei.

***
Ah propósito, você gosta de Paulo Coelho? (24/07/05.)

Paulo Coelho em sua fase hippie

Paulo Coelho em sua fase hippie

Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais“ . Ele foi pioneira na criação de newsgames (jogos jornalísticos no Brasil) e toca na Banda de Bolso.

Clube dos fetiches solitários

Esse aí era um roteiro de HQ que eu ia fazer com o amigo e grande designer Gabriel Gianordoli, por volta de 2006-2007. Como o projeto nunca foi pra frente, transformei a primeira parte num conto:

O CLUBE DOS FETICHES SOLITÁRIOS

*Fiat Lux
(Closes de corpos fazendo sexo. A cada pensamento do narrador, um detalhe de corpo nu.)

Diz um dos clichês mais antigos, que você morre sozinho como nasce. Pode ser verdade se você considerar que: surgir de duas células de pessoas diferentes(um óvulo e um espermatozóide), passar nove meses dentro do corpo de outra pessoa, alimentando-se dos mesmos nutrientes, até sair pelo buraco do breu para uma sala com platéia cheia é uma experiência solitária. Esse é o nascimento. A morte, no entanto, é uma viagem sem volta, seja lá para onde se vai, é uma experiência individual. No curto tempo entre as chegada e a despedida, alguns passam a vida acompanhados, outros sozinhos em multidões e alguns isolados como eremitas em suas cavernas. Nós, do Clube dos Fetiches, somos solitários. Por trás de todos esses corpos, gritos forçados e orgasmos sofridos estão corações vazios…

Não sei se com todos é assim. Eu tenho uma certeza: nunca fui feliz ao lado de alguém, vou morrer sozinho. Esse é meu caminho.

Cena do quadrinho "Valentina"

Cena do quadrinho “Valentina”

1.Onan.
Essa é São Paulo, uma cidade suja. Pouca gente deve amá-la de verdade, como “ser físico”. Boas festas, boas pessoas, bons museus, bons empregos. Não pagam os dias preciosos roubados de nossas vidas. 8 horas de trabalho regular, uma de extra, duas no transito. Filas, mendigos nas ruas sujas, engarrafamentos , o rio Tietê, céu cinza. E eu caminhando sozinho recém contratado, agora um número numa carteira de trabalho.

Festa de lançamento de uma revista. Salão, garçons, pôsteres da revista nas paredes:
_ Prazer Ricardo Ronan, jornalista.
_Ricardo Onan! He, he, he, he- ela ri com uma taça de champanhe na mão.
_Não teve graça!
_Desculpe, eu achei um nome diferente.
_Ele é feio, mas me acostumei…
_Não é feio é diferente, tipo o meu: Audrey.
_Que nome bonito!
Ela tinha pés vermelhos, cabelos bem pretos e um piercing no nariz. Parecia estar brincando com a vida. Isso era um bocado sexy numa cidade onde as pessoas levavam tudo a sério e cinza. Cinza com tons de solidão.
***
TV1: Morre aos 42 anos, de ataque cardíaco, o humorista Bussunda
TV2: Faça exame do coração! Consulte seu médico!
TV3: Caminhe, malhe. Exercício é vida!
TV4: Compre o fantástico cinto elétrico emagrecedor, tenha uma barriga sarada sem esforço.
TV5: Coma McMerda Alegria! Queijo, bacon, calabresa e maionese, o sabor da felicidade!

_Audrey como as pessoas conseguem levar essa vida a sério? É tudo uma piada de dEUS: nascer pra morrer…
_Sei lá Ronan, às vezes você pensa demais, eu acho. Desencana, menino da boca vermelha! Você passou “glós” hoje?
_Babaca…
_Hum…Onan hahahahaha!

1)Gargalha mostrando os dentes.
2) Dentes grandes, boca bonita
3)Franzindo a sobrancelha.
4) Rolando da cama pro chão.

_Sacaninha, hehehehehe_ Ele começa com cara brava e depois vai rindo, rindo, rindo e gargalha, e abraçam-se, e beijam-se, e rolam no chão fazendo amor.

CORTA DE NOVO
Lágrimas brancas num vidro preto. Audrey chora num carro, ao volante. Chove branco num fundo preto. Ele está com a cabeça baixa
_Fudi de novo, né?
– Você sempre fode, Ronan, sempre fode, né? Será que você não consegue controlar essa porcaria ai_ aponta pro pênis dele.
_Nenem, eu tava muito bêbado, foram só 5 minutos.
_Seus cinco minutos já viraram um dia, Ronan, seus cinco minutos acabaram com nosso lance!
_Audrey você ta exagerando, me da mais uma chance. Audrey, eu…
_Ronan você acabou com tudo, Ronan, você…Ronan… Onan! HE,HE,HE,HE,HE,HE,HE_ Ela está puta e começa a gargalhar, abre a porta e sai na chuva. Lágrimas se fundem às gotas.
Ele encosta no capô, abaixa a cabeça, gargalha.
_Audrey, eu… Audrey, eu te amo porra! Close no olho dele, uma lágrima branca escorre no olho negro. Uma gota branca no vidro escuro. Fade out.

“Hoje chove muito, porque Deus chora”. (Racionais Mc’s)
***
Um laboratório clichê, todo branco com frasquinhos multicolores. Fumaça saindo dos vidros, um senhor de cabelos desgrenhados pretos, nariz grande, óculos, bigode e jaleco.
_Olá, classe, hoje analisaremos a ser humano. Este aqui_ aponta Ronan, sentando num banquinho nu, com uma régua_ é um homem. Homo Sapiens Sapiens do sexo, masculino. Age como um animal, mas considera-se superior. Nunca é feliz ao lado de alguém, mas sonha com a monogamia. Pensa só em sex, sex, sex! Acha que a mundo é puro sexa! Sexa pra fugir da morte! No fundo é apenas uma pobre animalzinho(Ronan se encolhe no chão como um roedor) tentando cumprir sua sina, nascer, crescer, reproduzir, reproduzir, reproduzir, reproduzir(simula sexo) e morrer. O meda do morte faz ela transar feito louco, pra tentar vencer vida. Deus dá morte, ele dá vida! Deus dá morte, ele dá vida! Deus dá morte, ele dá vida! Deus dá morte, ele dá vida!(fala se empolgando, girando os braços, descabelando-se). Vida!_ Bate com a régua em Ronan
_Vocês entenderam classe?
_ Sim Dr. Sofia
_Então boa noite, classe!
_Boa Noite Dr. Sofia.

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Ronan está sentando num banco de ônibus lotado, barba mal feita,olhar perdido em olhos fundos. Um cara encoxa uma mulher. Um outro se aproxima
_Cara de cansado, hein?
_É, dormi tarde…
_ Hum….
_Tava trabalhando.
_Heheheh, eu sei.
_ Dando aula…
_De sexo?

Ronan com cara de susto. A mulher encoxada vira pra trás e xinga!

Fluxo de pensamento: Estou andando no mesmo ônibus o dia todo, minha vida está assim: rodeado de gente ou acompanhado apenas pelo barulho da minha respiração estou sempre sozinho. Faltei no trabalho hoje, queria ser despedido. Continuo transando, penso em dispensar a camisinha e morrer de AIDS. (ônibus passa por pichação. “Jesus virá: Há salvação?”) Há salvação pra minha alma? Desde que Audrey se foi, emagreci três quilos, fiz poemas com sangue, tive pena de mim mesmo e, enfim, percebi que a vida seguia besta como esse ônibus. Já fiz o mesmo trajeto dez vezes, ida e volta. A dupla motorista e taxista deve achar que sou louco. Talvez eu esteja ficando. Já é noite.
Entra uma mulher no ônibus, todos os lugares ao meu redor vazio. Ela me olha nos olhos, meus olhos são cor de mel. Eles nunca me deixam na mão. Ela vai sentar do meu lado. Olha ao redor, disfarça. E senta. Do meu lado! Passam dois minutos

_Você tem horas?
_Espera ai, deixa eu ver meu celular. Droga! A bateria acabou, nem percebi…
_Tudo bem, não estou com muita pressa.
_ Aonde você vai?
_Vou a um clube. Encontrar meus amigos
_Você pratica alguma tipo de esportes?
_He, he, he, he. É pode se dizer que sim. Mas não é esse tipo de clube que você está pensando.É algo como… Sei lá, a maçonaria.
_Que saco! Maçonaria parece igreja, igreja é um porre. Só serve pra você não ficar desesperado sabendo que isso aqui é tudo um sonho.Que acaba…
_Você está desesperado?
_Já estive, muito, agora espero a hora…
_Você está sozinho?
_Sempre…_ Beija ela mordendo os lábios, cabelos compridos castanhos, boca carnuda. Boa de morder.
_Não! Pára!_ Ela levanta ofendida e senta no outro banco.
_ Qualé? Você não gosta de homem? Me chama pro clubinho de swing e depois fica toda ofendida!?
_Babaca!
_Desculpa, eu não quis dizer isso, só to me sentindo sozinho, queria alguém pra conversar.
PIIIIIIIIIIIIII!!!!!!!!!!! Ela aperta o botão para descer do ônibus. _Motorista eu fico aqui!
_Hey, eu te conheço! Da editora! Você faz revistas pra adolescentes! Sabia que te conhecia…
_Tchau!
-Espera ai!_ Pula do ônibus seguindo a mulher. Disfarça. Ela corre, ele se esgueira pelas ruas sujas de São Paulo. Mendigos em frente a uma igreja, caixas de papelão ao lado dum poste, lojas fechadas uma em seguida da outra. Cartazes gastos nas paredes pichadas. “É o lixo, é o lixo”, uma bossa nova distante.
Ela olha para trás para verificar se ele está vindo, quando certifica-se que não, caminha normalmente. É uma rua cheia de bares, sebos e galerias de arte. Em meio aos cafés, um sobrado: “Antiquário Sade”. Ela toca o interfone seis vezes. Abre-se o portão lateral. Ele faz o mesmo. Uma escada em espiral. Chegam num quarto escuro.
Ele a agarra por trás.
_Me solta!
_Você sabia que eu estava te seguindo!
_ME solta! Seu louco! Louco!
Beija sua boca a força, agarra seus braços, os dois caem no chão. Rolam, seus joelhos nos braços delas, rasga a camiseta, seios pulam pra fora, ele os beija. Ela tem um jeito levemente masculinizado, bunda grande, tênis Adidas. Ele abaixa a calcinha. Enfia!
_Louco! Louco! Louco!
“Será que estou ficando louco?”. Dois corpos, agora são um só. Enfim, ele não esta mais sozinho.
As luzes se acendem, os olhos de Ronan congelam. Respiração paralisada!
_Bem vindo Ronam, estávamos te esperando_ Eles estão no centro de um quarto, cercados por um bando de pessoas nuas.

Fade out

Cena da HQ "Valentina"

Cena da HQ “Valentina”

Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais“ . Ele foi pioneira na criação de newsgames (jogos jornalísticos no Brasil) e toca na Banda de Bolso.

Leia também:
-Preto no Branco: Um palhaço triste e uma mina indecisa
-Estudantes de comunicação no Fórum Social Mundial 2005

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