Uma pequena história do hip hop brasileiro através de 50 clássicos do estilo

Abaixo preparamos uma playlist com 50 clássicos do rap nacional. Do começo comercial com Miele e Black Juniors, passando pelos pioneirismo festivo de MC Jack, N dee Naldinho e Sampa Crew até encontrar a veia engajada de Thaíde & DJ Hum e Racionais Mc’s que definiram o estilo como conhecemos hoje. A seleção é sentimental e muita coisa boa ficou de fora, mas procuramos registrar a variedade do hip hop brasileiro contada em 50 músicas importantes e influentes.

10 músicas clássicos do hardcore melódico brasileiro

O Dead Fish em show em 2007

Inspirado pelo documentário “Do underground ao emo” – que conta a história do hardcore melódico nacional – eu resolvi organizar essa lista com 10 das maiores músicas do hc melódico nacional, focando principalmente nas bandas dos anos 90/2000. Exclui daqui as bandas emo e coloridas, que pertencem a outro capítulo da história do rock brasileiro. Também procurei focar em bandas da “cena”, por isso não inclui músicas de hardcore melódico de bandas que não “eram” de hardcore melódico (como “Mulher de Fases” dos Raimundos, que abriu caminho pro CPM22 ou músicas de Detonautas e do primeiro disco do Los Hermanos).

Chega de papo e vamos aos clássicos:

1) “Red Rose Bouquet” – Street Bulldogs

2)”Noite” – Dead Fish

3) “Regina Let’s Go” – CPM 22

4) “Embedded Needs” – Garage Fuzz

5) “1997” – Hateen

6) “Quando tocar na TV” – Cueio Limão

7) “Vinteum” – Fistt

8)”Orgânico” – Noção de Nada

9) “Revolução” – Sugar Kane

10)”Se essas paredes falassem ” – Dance of Days

Veja também:

-Assista ao documentário “Do underground ao Emo”

-Entrevista com João Gordo, do Ratos de Porão

Camisa de Vênus”, 1983 – Camisa de Vênus

camisa-de-venus

Os cinco malucos da capa são mal encarados e carregam polêmica encharcada até os ossos. A banda começou num terreno improvável: a Salvador de 1982. Nas rádios tocava Gilberto Gil, Pepeu Gomes e Axé. A Bahia era a terra de Antônio Carlos Magalhães, do carnaval e do acarajé. Mas os 5 da capa gostam de rock ‘n’ roll e punk rock, falam palavrões e se declaram “a única banda heterossexual do mundo”. Espete sua agulha ou dê play na MP3. Vamos dissecar mais um crássico do nosso (punk) rock brazuca.

Polêmica 1
Depois de fazer sucesso com seu primeiro compacto(“Controle Total”, versão de “Complete Control”, do Clash), a banda formada pelo radialista e rocker Marcelo Nova, Robério Santana (Baixo), Karl Franz Hummel (guitarra base), Gustavo Mullen (Guitarra solo) e Aldo Machado (Bateria) já lotava casas em Salvador e recebeu proposta de contrato para gravar um disco, que inicialmente deveria sair pela pequena Fermata. De olho no potencial que aqueles roqueiros poderiam atingir no auge do Brock dos anos 80, a Som Livre se dispôs a lançar a bolacha que levava o nome da banda em 1983. Aí que rolou a primeira confusão. Com a promessa de ganhar divulgação na Globo e demais televisões os engravatados da Som Livre propuseram a Marceleza e Cia que o Camisinha mudasse para um nome “mais família”. Putos da vida, os caras propuseram chamar-se “Capa de Pica” e foram demitidos. Passaram meses ralando em São Paulo à base de sanuíches até que a RGE oferecesse um contrato para os caras e eles estourassem no Brasil inteiro com o hit “Eu não matei Joana a Darc”. Rádios conquistas, a gravadora relançaria “Camisa de Vênus” com o selinho “incluindo Bete Morreu”.

Polêmica ao quadrado
Mas pera aí, o Camisa de Vênus era punk? Bom, Marcelo nova odiava o rótulo de “punk baiano”, que colou na banda no começo de carreira. A real é que os caras do Camisa eram rockers que, de saco cheio da cena da época, se empolgaram com o retorno às raízes que os punks 77 propunham. Aliás, “Camisa de Vênus” é provavelmente o único disco de punk 77 feito no Brasil, já que a maioria dos punks paulistanos curtia mesmo era hardcore inglês e finlandês. No álbum, além das letras críticas/sacanas, do visual da banda – com cabelos espetados, roupas pretas e jaqueta – e dos instrumentos toscaços usados nas gravações, é marcante a presença de quatro versões de clássicos do punk britânico.

Mas e o som? Bom, vale lembrar que esse disco foi lançado antes de “Crucificados Pelo Sistema” do RDP, considerado o primeiro disco de uma banda punk/hc da América Latina. Em suas páginas, a revista Showbizz relembrou: “São Paulo já sabia. Mas o resto do Brasil só foi aprender a pogar mesmo com “Meu Primo Zé”, “Bete Morreu” e outras obras-primas do disco de estréia do grupo de Marcelo Nova.(…) Certo, com chupações creditadas e não-creditadas de Jam, Buzzcocks & Cia., mas bem aclimatado à baianidade irrevogável dos instrumentos (de péssima qualidade), dos instrumentistas e, principalmente, do sotaque de Marcelo.” O disco abre com “Passamos por isso”, que esculacha MPB e satiriza “Brasileirinho”(que o “inimigo da banda”, Pepeu Gomes tinha imortalizada em versão guitarreira). A vocal de Nova é quase declamado, suas letras são ácidas, o som da banda é abafado. “Metástase” tem a ótima letra chupada de “Where Next Columbus” do Crass. “Bete Morreu” é o primeiro hit do disco. Um catarro sádico, narrando o espancamento, estupro e morte de “Bete” a rainha da escola, patricinha perfeita. “Negue” adianta o punk brega de Wander Wildner em mais de 10 anos, trazendo uma versão raivosa para a clássica dor de corno da MPB. “O Adventista” transforma “I Believe” do Buzzcocks em hit, citando Xuxa e Pelé e Flávio Cavalcanti na letra. “Pronto para o suicídio” é a porrada mais punk do álbum, que acaba com outro hit roqueiro, “Meu Primo Zé”. Fazendo discursos em seus shows performáticos, Marcelo Nova colecionava inimigos na crítica e cena da época, detonando tudo na MPB com exceção de Raul Seixas(um de seus grandes ídolos) e os artistas marginais(como Walter Franco e Jards Macalé, que o Camisa regravaria).


“Bete Morreu” com áudio ruim e participação de Clemente, dos Inocentes

Polêmica – a vingança final 
Mas o Camisa de Vênus fazia plágios de bandas gringas? Apesar, de afirmarem que tinham um som original e não copiavam ninguém lá fora, os baianos realmente eram craques em fazer versões de músicas undegrounds estrangeiras. Tudo bem, Roberto e Erasmo Carlos também começaram assim, não é? No primeiro disco estão creditadas as “inspirações” em “That’s Entertainment” (The Jam) e “I Believe” (Buzzcocks). Mas os caras esqueceram de dar crédito em “Metástase” (“Where Next Columbus”, The Crass) e “Meu primo Zé” (“My Perfect Cousin”, Undertones). Em defesa de Marceleza, tem-se que afirmar que suas versões sempre incluíam atualizações para a realidade nacional, com exemplos do cotidiano brasileiro, e que suas letras “não chupadas” também não perdiam o fio da navalha. E pra acabar com a discussão, um trechinho de entrevista dos caras para Bizz, em janeiro de 1987:

BIZZ- E essa coisa de roubar refrões?
Marcelo – A gente sempre usa isso. Em cada disco tem uma música que a gente faz isso.
BIZZ – É uma brincadeira?
Marcelo – É uma brincadeira.
Gustavo – Que também pode ser levada a sério.
Marcelo – Não, é uma brincadeira, eu não estou plagiando, só estou tirando um sarrinho, posso?

Ouça o disco completo aqui:

Se você gostou desse disco, ouça também “Viva”, do Camisa de Vênus

“Pela Paz em Todo Mundo”: Conheça o maior clássico da banda punk Cólera, lançado em 1986

 

Capa do clássico "Pela Paz em Todo Mundo", da banda Cólera

Capa do clássico “Pela Paz em Todo Mundo”, da banda Cólera

Na capa amarelona com um mapa mundi estampado, a frase “Pela Paz em Todo Mundo” em seis idiomas. Esqueça o destroy pelo destroy dos Sex Pistols ou o amor adolescente dos Buzzcocks e das bandas emos da nova geração. Quando se fala em Cólera, fala-se naquele punk engajado e utópico no qual três acordes podem mudar o mundo e um disco pode ser uma pequena revolução. “Pela Paz em Todo Mundo” é um dos mais sérios candidatos a melhor disco do punk nacional. Tá, tudo bem, “Mais podres do que nunca” do Garotos Podres é um clássico, mas a qualidade da gravação é péssima, assim como de “Crucificados pelos Sistema” do Ratos. “Pela Paz” foi tão bem sucedido que vendeu cerca de 85 mil cópias, um recorde para um disco independente.

Em 1986, poucas bandas punk eram tão organizadas quanto o Cólera: eles já tinham gravado um disco(“Tente Mudar o Amanhã”, de 1984) e estavam prestes a ser a primeira banda da nossa cena a excursionar pela Europa(o que rolou em 1987). Formada em 1979, pelos irmãos Redson (Edson Lopes Pozzi, guitarra e vocais) e Pierre (Carlos Lopes Pozzi, bateria), o trio explosivo era completado por Val no baixo. Muito antes de todos holofotes apontarem para a questão ambiental aqueles garotos do subúrbio gritavam pela salvação da terra e do homem. A bolachinha vinha acompanhada da “Declaração Universal dos Direitos Humanos” e mais um manifesto surpreendentemente bem articulado chamado “Registro Arqueológico Sobre o Século XX”, que era como se alguém no futuro explicasse o mundo no qual aqueles moleques ralavam nos anos 80. Tínhamos acabado de sair da ditadura, a Guerra Fria ainda rolava solta, Rambo era um herói no cinema e Sarney se divertia brincando com a nossa inflação. Ninguém falava dos BRICS e “O Brasil é o país do futuro” era uma citação irônica numa música da Legião Urbana. Nesse cenário, parecia que o futuro era mesmo uma cena do apocalíptico “Blade Runner”. É ai que nossa audição começa.

Medo

“As vezes tenho medo/As vezes sinto minha mão/Presa pelo ar/E quando olho em volta/Encontro uma multidão/Presa pelo ar”. Síndrome do pânico? Ansiedade? Doenças do século XXI? Já estava lá, no primeiro clássico do disco, “Medo”(Que anos mais tarde seria regravada pelo Plebe Rude). A voz era um pouco desafinada, mas cheia de emoção. As letras não eram apenas críticas sociais ou clichês contra igreja, polícia e governo. Elas tinham um lirismo e alternavam momentos mais reflexivos como “Somos Vivos” e criativos como “Alternar”(na qual Redson reclama que precisa trabalhar, mas eles te obrigam a usar roupa social, gravata, sapato e cabelo “lau-lau”. Que jovem rebelde nunca ficou puto, por ter que ir pro trabalho todo engomadinho?). As críticas às instituições também estão lá nas pacifistas “Guerrear” e “Continência” ou na direta “Não Fome”.

Ao longo de “Pela Paz em Todo Mundo” você caminha pelas ruas esburacadas de São Paulo, pega o trem do subúrbio e presta o serviço militar, tudo ao som de uma bateria rápida, riffs grudentos de guitarra, um baixo ritmado e refrões empolgantes para serem cantados em coro. E o teor inflamável só aumenta nas duas últimas canções; primeiro “Adolescente”, que foge dos temas punks comuns e na sequência “Pela Paz”, talvez a melhor música do Cólera, um grito pacifista, cheio de fúria, que faz valer a frase destacada no encarte “Ser Pacifista é não fechar os olhos perante a violência”.

Pacifismo, ecologia, hinos da juventude e lirismo. Se Redson tivesse nascido em um país de primeiro mundo, talvez ele fosse um Bob Dylan. Fruto do nosso subúrbio operário ele só poderia cantar numa banda chamada Cólera. Ainda bem.

Pela Paz

Veja também

– Conheça “Mais podres do que nunca” grande clássico do Garotos Podres

-Punk 77 made in Brazil: Camisa de Vênus

100 canções essenciais da Música Popular Brasileira

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A Bravo! lançou um especial “100 canções essenciais” com textículos e textões do amigo Gustavo Heidrich, listando as melhores músicas da MPB. Como todo lista vai gerar polêmicas: a música de escolhida de Chico Science foi a ok “Rios, Pontes e Overdrives”(uma das justificativas pra sua escolha foi ter 56 vezes a palavra mangue repetida) que não é nem seu hit, nem sua melhor letra, muito menos a melhr melodia. E tem 10 músicas do Chico Buarque(10% da lista!). Mas no geral tem vários clássics mesmos e os textos tem informações bacanas. As dez primeiras seguem abaixo:

1 – “Carinhoso”, de Pixinguinha e João de Barro


2 – “Águas de março”, de Tom Jobim
3 – “João Valentão”, de Dorival Caymmi
4 – “Chega de saudade”, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes
5 – “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso
6 – “Tropicália”, de Caetano Veloso
7 – “Último desejo”, de Noel Rosa
8 – “Asa branca”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira
9 – “Construção”, de Chico Buarque
10 – “Detalhes”, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos

3 filmes essenciais: “Ladrões de Bicicleta”, “A felicidade não se compra” e “A General”.

Inspirado pela listinha da Bravo! de “100 filmes essenciais”, passei meu fim de semana chuvoso em Penápolis assistindo alguns clássicos preto e branco do acervo do meu velho pai:

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-A General, Buster Keaton, 1927(EUA).
Buster Keaton ficou por muito tempo na sombra de Charles Chaplin com que o comparavam pelo estilo de humor que faziam nos tempos de cinema mudo. Mas Keaton é diferente, seu humor é mais físico e acrobático(uma espécie de Jackie Chan do começo do século), seus personagens são mais sérios e seu roteiro menos crítico. A General é uma história passada na Guerra Civil americana, em que Keaton é um maquinista Confederado que se mete em uma aventura para resgatar sua locomotiva(A General) e sua amada. As cenas de perseguição envolvendo vários trens impressionam, ainda mais tendo sido gravadas na década de 20.

Ladrões de Bicicleta, Vittorio de Sica, 1948(Itália).
Ambientado na Itália pós-Segunda Guerra Mundial, o filme de Sica mostra um país miserável, onde homens desesperados fazem qualquer coisa por um trabalho ou mesmo um biscate. Antonio precisa de uma bicicleta para conseguir um emprego colando cartazes. Para isso sua mulher(personagem muito mais obstinada que ele, sempre meio apático) vende todo enxoval do casal. Logo na primeira semana o azarado Antonio tem sua bicicleta roubada e saí numa busca desesperada pela cidade acompanhado de seu filho Bruno(o ator mirim Enzo Staiola, grande destaque do filme).

-A felicidade não se compra, Frank Capra, 1946(EUA).
Até hoje “It’s a Wonderful Life” era pra mim o filme que fazia meu pai durão chorar. Assisti esperando algo barra-pesada, mas trata-se de um clássico de natal, com ritmo que envolve o espectador até nos dias hoje narrando a história de George Bailey.(Americano que passou a vida em prol dos outros e afogado em dívidas pensa em se matar.) Não senti nem sinal de nó na garganta até o final que realmente tem um puta impacto emocional

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