Assista ao documentário “Pânico em SP” (1982) primeiro filme sobre o punk rock nacional

Em 1982, o movimento punk paulista estava em seu auge com dezenas de bandas surgindo (entre elas futuros clássicos como Inocentes, Cólera e Olho Seco) e um crescente interesse (e medo) da mídia para entender o que era aquilo. O primeiro documentário sobre o assunto foi produzido como um trabalho de Cinema, na ECA-USP, pelo diretor Cláudio Morelli. Dá para assistir ele abaixo e vale muito a pena. As imagens e depoimentos são históricos e mostram  a repressão policial, as festas em salões e uma banda Inocentes no começo, ainda com Ariel (Restos de Nada, Invasores de Cérebro) nos vocais.

O site Canibal Vegetariano publicou um texto muito legal do Cláudio Morelli explicando o filme. Surrupiei ele aqui pro Punk Brega:

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“Em 1982 eu cursava o 8º semestre do curso de Cinema na ECA (Escola de Comunicações e Artes da USP). Era o último semestre e o grupo tinha direito a dois curtametragens em 35 mm. Ao mesmo tempo, eu tomava contato com o movimento punk através do Marião (Mario Dalcêndio Jr., amigo velho de guerra) que já estava vagando por aquelas searas. A empatia foi imediata e comecei a frequentar os ambientes dos punks (o salão no Pari, a Galeria do Rock, o Largo São Bento, etc).

Devido a tudo isso propus um projeto de documentário ao grupo e ele foi aceito. Optamos pela bitola de 16 mm. Por questões de maior mobilidade e facilidade no manuseio. A ideia era documentar os espaços, a música, as opiniões, o comportamento, a vestimenta, tudo enfim; no entanto eu queria documentar de uma forma que eles mesmos se expressassem, sem interferência da produção. Nada de narrador descrevendo nada, e muito menos uma montagem que pudesse direcionar o espectador a uma opinião, fosse de simpatia ou antipatia. O filme seria como uma colagem, com cenas curtas, um ritmo frenético como a música punk.
 Mas, por que eu simpatizei com os punks logo de cara? Para começar, imediatamente percebi que aquela ideia de punks como vândalos destrutivos não correspondia à realidade. Eles tinham uma ideologia e motivos para a rebeldia.
Estávamos nos estertores da ditadura militar e esses jovens da periferia testemunhavam a repressão aos trabalhadores, que lutavam por salários e, associados aos universitários e à intelectualidade, exigiam liberdade de opinião, de expressão e de manifestação. Além disso, esses mesmos jovens não viam no horizonte nenhuma possibilidade de ascensão social ou desenvolvimento pessoal e material.

Daí a revolta. O símbolo e a ideia de Anarquia tomou conta desses grupos e nada de autoridades, nada de poder, nada de governo (que, obviamente, era o títere da repressão). Agruparam-se então em torno dessas ideias. Óbvio que havia os mais exaltados, que acabavam saindo da linha e cometendo pequenos delitos de violência. Por causa deles, todo o movimento punk era mal visto pela sociedade em geral e, principalmente, pelos encastelados com seus cães-de-guarda.

Mas essa não era a regra. Os punks eram pacíficos, quando muito armavam confusões entre eles mesmos, entre os diversos grupos que compunham o movimento (Carolina, ABC, etc.). Não saíam por aí depredando mansões ou queimando BMW.

 Quanto a drogas, poucos usavam e a mais consumida era cola de sapateiro. Bebiam pinga com groselha. A rebeldia estava nos trajes (pretos, quase sempre), jaqueta de couro paramentadas com adereços característicos de peças de montaria, calça de brim, e, principalmente o coturno. Acho que o coturno era uma forma de se opor à repressão, tomando delas um de seus símbolos. As meninas (que não eram muitas, é verdade) se vestiam praticamente da mesma maneira.
O Alemão era uma exceção; vestia-se sempre com roupas de cores berrantes, com adereços estranhos. Era comum o símbolo da Anarquia ser desenhado nas costas. Às vezes podia-se encontrar uma ou outra suástica, mas tenho certeza que era apenas para chocar as pessoas. É verdade que na época já existiam os skinheads, com suas idiotices repugnantes, que se trajavam como os punks. Também por isso os punks eram associados ao vandalismo, graças aos skins.
 Mas, a coisa que mais me atraía mesmo era a música. A proposta era genial. Na época não havia nada de importante no rock. Tudo tinha virado balada, disco ou então egressos do heavy metal do início da década de 1970 com seus virtuosismos, trajes glamorosos e alienação ideológica. A solução punk para isso foi bem simples: faça você mesmo sua música, basta aprender três acordes, ninguém precisa mais que isso. Uma boa distorção na guitarra, bateria frenética e, principalmente, letras que expressem o que você vive, sua revolta, sua indignação, seu “no future”.
Essa música levava à dança. Uma dança que exorcizava os desejos, uma dança que representava uma luta, com empurrões e chutes cadenciados. Resumindo, tudo isso me encantou, e eu, junto com o Marião, me juntei a eles, começamos a fazer parte deles. Nós frequentavamos o Largo São Bento nos fins-de-semana, ia aos salões e tudo mais.
Foi essa identificação resultou no filme Pânico em SP, cujo nome vem de uma música dos Inocentes. E o filme tentou ser tão punk quanto eles e nós. Para saber mais, assista ao filme. De vez em quando ele roda por aí.”
Claudio Morelli, free-lancer na área de comunicações, roteirista, diretor de fotografia e diretor de trabalhos institucionais.

 

“See Emily Play”, clipe antigaço do Pink Floyd

CAROS LEITORES, A GRAVADORA EMI TIROU TODAS VERSÕES DESTE CLIPE DO AR. É A EMI, LEMBRAM?

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Enquanto isso, vocês podem assistir essa versão cover

Houve um tempo em que o gênio criativo do Pink Floyd não era nem Roger Waters, nem David Gilmour. O leitor esperto sabe que o líder do quarteto no seu começo era Syd Barrett (pra quem os outros compuseram “Shine On You Crazy Diamond”). A fase liderada por Syd era puxada pra psicodelia e chegou a ter dois singles iniciais mais pop (“Arnold Layne” e essa “See Emily Play”). Depois dos singles, a banda lançou um bem sucedido primeiro álbum (“The Piper at the gates of dawn”, gravado no mesmo estúdio e na mesma época que “Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band”, dos Beatles). Depois disso, Barret se afundou no LSD, enlouqueceu e só fez algumas participações no disco seguinte do Floyd. (Além de lançar dois álbuns solos que viraram cult).

Pelo menos o clipe antigaço de Arnold Lane continua no ar:

Veja também:
100 melhores bateristas da história do rock n’ roll
-LSD para ler
– Conheça a biografia de Timothy Leary, papa do LSD

“Ramones” – Ramones, 1976

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-Conheça algumas bandas do punk 77 inglês
-Já leu poesia punk?

Para a revista Rolling Stone ele é o 33º melhor disco da história. Para qualquer moleque de calça rasgada e all star ele é seu motivo de existir. Uma dos pedaços de vinil mais influentes da música pop. Sua duração é de 29:04s. Seu custo total de produção foram míseros $ 6400, numa época onde, segundo o próprio Joey Ramone no livro “Mate-me, por favor”, gastava-se meio milhão para produzir um álbum. E esse não era qualquer álbum; ele criou o punk, revolucionou o rock do final dos anos 70 e deu origem a centenas de bandas. Dos Sex Pistols ao Metallica, do Red Hot Chili Peppers aos Ratos de Porão, a influência do primeiro disco dos quatro magrelos de Nova York foi devastadora.

É difícil explicar hoje a importância desse amontoado de 3 acordes tocado com velocidade e paixão, sem riffs difíceis, solos de guitarra ou viradas de bateria. Aqui no Brasil, seria como se os Racionais Mc’s tivessem um som tão agressivo quanto o Sepultura e criassem, em seu primeiro disco, a Bossa Nova ou a Tropicália. Estávamos nos Estados Unidos, em 1974. O que existia de mais agressivo no rock era o som de MC5, Stooges e New York Dolls. As três bandas tinham um sucesso mediano, mais undeground, e seu som era uma transição do hard rock para o que se chamou punk. O que mais lembrava o que os Ramones viriam a fazer era o primeiro (e cru) disco dos Stooges. Mas nesse, você encontra uma música de mais de dez minutos (“We Will Fall”) e aqui a música mais comprida tem 2:39s(“I don’t Wanna Go Down to The Basement”). E as rádios? Eram dominadas pelo progressivo de Yes e Genesis, pelo hard rock virtuoso de Led Zeppelin e pela discoteca do saltitante John Travolta. O sonho hippie tinha acabado, os Beatles também. A América Latina, o leste Europeu e grande parte da Ásia viviam sob ditaduras. O mundo em constante ameaça atômica era uma ressaca claustrofóbica.

Blietzkrieg bop

A primeira coisa que chama a atenção no disco é a capa. Quatro cabeludos, com jaquetas de couro pretas – como as de Marlon Brando e James Dean – calças rasgadas, tênis surrados e caras desafiadoras estão encostados numa parede pichada. Eles parecem te provocar, loucos pra te dar uma porrada. A única coisa escrita lá é o nome da banda “Ramones” – uma referência ao nome que Paul Mccartney usava para se registrar em hotéis. O disco começa. A porrada vem em forma de grito de guerra. Hey ho let’s go. Um ataque relâmpago fala de blitzgrieg, estratégia militar que fez os nazistas dominarem metade da Europa no começo da Segunda Guerra Mundial. Ah, vale lembrar, o alemãozinho Dee Dee Ramone tem fascinação pelo nazismo. O desengonçado Joey Ramone – já internado em clínicas psiquiátricas – berra “espanque o moleque com um taco de beisebol”. Da onde vem tanta raiva? Dee Deefoge de uma família problemática, Johnny ralava como pedreiro. O lirismo se esconde nos backing vocals que fazem referência a grupos vocais dos anos 60. “I Wanna Be Your Boyfriend” quebra o clima, uma balada romântica já pavimenta o caminho que os Buzzcocks, e mais pra frente os emos, vão seguir. “Os punks também amam”. “Now I Wanna Sniff Some Glue” repete milhares de vezes a mesma frase. Os moleques entediados lá de “1969” de Iggy Pop agora gastam o tempo cheirando cola, arrumando brigas e fazendo barulhos com suas guitarras toscas, ou serras elétricas, em “Chain Saw”. A contagem para todo mundo entrar junto – que se tornou marca registrada do grupo – aparece pela primeira vez em “Listen To My Heart”. “1,2,3,4” grita Dee Dee, baixista e principal compositor. Ele vai voltar a urrar em uma das partes de “53rd and 3rd” uma das mais sérias e tristes do álbum. É sobre o tempo em que o músico ficava nas esquinas de Nova York fazendo michês. O disco ainda traz como destaque o cover “Let’s Dance”(e gravar clássicos do rock ‘n’ roll em versões cruas seria uma marca da banda) e “Today your Love, Tomorrow the World”.

Havana Affair/Listen To my Heart

-Entrevista com os Garotos Podres

Pronto, menos de meia-hora e a surra acabou. Aqueles punks saídos do filme “O Selvagem”(com Marlon Brando), que soavam como uma canção de Iggy Pop e queriam cantar como se fossem os Beach Boys devem estar cheirando cola em outro lugar. Seu álbum não fez nenhum sucesso nos EUA. Só foi bem recebido quando o quarteto excursionou pela Europa e influenciou meio mundo – Clash e Sex Pistos incluídos, dando origem ao movimento punk e todo hype em cima da coisa. Dessa árvore cairiam os frutos podres do hardcore, trash, crossover, grunge, emo e outros estilos musicais.

Era isso. Letras diretas sobre o cotidiano do mundo white trash – os brancos pobres e desajustados dos EUA. Som distorcido, rápido e sem firulas. Refrões fortes. Backing vocals melodiosos. E o rock nunca mais seria o mesmo.

Leia para saber mais:
“Mate-me, por favor”, “Legs” McNeil e Gilliam McCain
“Coração envenenado” – Dee Dee Ramne e Veronica Kofman

“Tigresa” – Ney Matogrosso & Caetano Veloso

Que o Ney Matogrosso foi o maior frontman rock n’ roll do MUNDO ninguém duvida, né? Agora, deixando de lado seu rebolado, Ney quebra tudo com sua voz nessa balada foda do Caetano, tirada do discaço “Bicho”. Se você não gosta de Caetano, ok, vai ouvir punk rock. Se você gosta de rock, e quer um bom motivo pra ouvir o baiano, baixa aí o “Transa” e o “Bicho” e depois conversa com a gente. Semana que vem tem mais #somdesexta. Ah, e a título de curiosidade: essa música é em homenagem à musa Sônia Braga.

Trópico de Câncer, Henry Miller

Capa do clássico de Henry Miller

Capa do clássico de Henry Miller

Como cenário a Paris entre guerras, como definição as palavras do próprio autor: “Isto não é um livro. É libelo, é calúnia, difamação…”, como prefácio uma declaração de Ralph Waldo Emerson simplificando: “Estes romances cederão lugar, pouco a pouco, a diários ou autobiografias…” E assim a vida se transforma em arte nas letras do pai da geração beat, o maldito, “Henry Miller”. Nascido no Brooklyn em 1891, Henry Valentine Miller representa um ponto de virada na literatura mundial, uma influência para autores como Allen Ginsberg, a geração hippie, beatnick e sua obsessão por liberdade sexual, viagens e boemia. Henry influenciou esses poetas “marginais” até na forma autobiográfica de escrever já que em seus livros ele é o personagem principal, mas suas histórias não são totalmente reais, são uma mistura de ficção e realidade num tipo de Bukowski mais elaborado e surrealista.

Suspiros de surrealismo, filosofia nietzschiana, influências de escritores “eróticos” como Céline e DH Lawrence (que ele rejeitava até ler “D.H. Lawrence: an unprofissional study”, livro de sua amante, Anaïs Nin), tudo isso borbulha nas páginas de Trópico de Câncer, mas há algo a mais ali. Não é pornográfico como seus censores acusaram ao conseguirem manter sua obra inédita por 30 anos nos países de língua inglesa até que o poeta beat, Lawrence Ferlinghetti, a publicasse: é humano, demasiadamente humano. É um homem em busca de si mesmo, uma descoberta a cada página, uma canção de libertação…

Estamos nos subúrbios e cabarés da Paris dos anos 30, a guerra é uma sombra que ronda incessantemente. Intelectuais, artistas, pintores, todos se reúnem para beber, transar e discutir, Henry está entre eles, mas não tem um tostão no bolso, está duro e vive de bicos (a prisão dos escritores: o jornalismo) e ajuda dos amigos. O anti-herói resmunga : “Sou um artista assalariado, obrigado a interpretar uma farsa intelectual sobre seus estúpidos narizes?”. Os capítulos vão revezando-se um após o outro sem ordem cronológica exata, carregados de fluxo de consciência e alternando reflexões surrealistas com relatos crus do cotidiano de Miller. O Clima é retratado fielmente no clássico erótico “Henry e June” de Philip Kaufman (diretor também de “Contos Secretos do Marquês de Sade” ), focado no triângulo amoroso entre Henry, sua esposa June e a escritora Anais Nïn, autora dos diários inspiradores da película (“Henry, June & Eu”). A busca é por grana e sexo, grana e sexo até não representarem mais nada, grana e sexo como formas de sobrevivência, sobrevivência como única alternativa, única alternativa: a vida. E essa Miller vive com tesão!

Nos momentos “filosóficos” Miller remete a Nietzsche, filósofo que leu, saudou e parafraseou em alguns trechos de sua obra. Toma como profissão de fé a filosofia, que busca desmascarar o mundo dos ídolos, o Deus que não sabe dançar, que busca trazer ao homem os prazeres terrenos. Nietzsche previu mais de um século atrás o declínio da civilização ocidental, diz. O Henry Miller de Trópico de Câncer/Henry e June (no qual há uma cena em que ele discute o filósofo alemão) tem a mesma missão: libertar o ser humano de suas amarras, despertá-lo para a vida nessa existência que é única, como ele mesmo diz: “São homens e mulheres, pergunto a mim mesmo, ou são sombras, sombras de fantoches pendurados por invisíveis cordéis? Eles se movem aparentemente em liberdade, mas não tem para onde ir. Só em um reino são livres e lá talvez possam vaguear à vontade, mas ainda não aprenderam a levantar vôo”. E essa libertação inclui também a religião, a qual Miller despreza. Em um dos trechos ele e um amigo, ambos bêbados, vão assistir a uma missa, que ele descreve como se fosse um alienígena que nunca tivesse visto uma cerimônia religiosa, descreve-a de uma forma claustrofóbica, que o sufoca, pouco a pouco a até que ele fuja correndo da igreja.

Miller em sua busca acaba se desprendendo da necessidade de ser humano, declarando-se um “inumano”, descendente de uma árvore genealógica de artistas e pensadores que como ele buscavam viver desesperadamente no limite, buscando a paixão total, o fogo da criação, já que a partir disso, tudo é humano e dispensável. (“Enquanto estiver faltando aquela centelha de paixão, não há significação humana no ato”.) Como um modernista brasileiro, como “Oswald de Andrade” na peça “A morta” , ele clama para que se incendeiem as bibliotecas, museus e biografias. Que os mortos devorem os mortos e os vivos dancem!

Fred Di Giacomo,
22/05/04
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“Chaos A.D.”: o clássico que levou o Sepultura para a fama mundial

A hora do caos.
Um grito tribal corta a modernidade.

A capa do clássico

A capa do clássico

 

Em 1993 o Sepultura já era um banda respeitada pela maioria dos metaleiros do mundo, seus dois últimos discos pela RoadRunner (Beneth The Remains e Arise) haviam recebido boa recepção do público e lhes aberto várias portas, rendendo uma série de turnês internacionais. Depois de 1993 a história foi outra, o Sepultura não era só mais uma banda de thrash metal, eles estavam na crista da onda, com videoclipes estourados na Mtv, shows ao lado dos principais nomes do rock (Ozzy, Pantera, Slayer, Alice in Chains, entre outros) e uma popularidade que talvez nenhum outro músico brasileiro tivesse alcançado. Para qualquer jovem que você perguntasse sobre o Brasil ele provavelmente iria citar o Carnaval, o futebol, o samba e o… Sepultura.


O clipe Territory, single do disco Chaos A.D.

O início do Caos são as batidas do coração de Zyon o filho de Max Cavalera no útero de sua mãe, logo as batidas se fundem com o groove de escola de samba vindo das baquetas de Igor Cavalera (então o maior batera de hardcore do mundo). A música é Refuse/Resist, um petardo sônico, com letra desesperada incitando a revolta. Nada mais de apocalipse e demônios nas letras dos mineiros, o inferno agora era na terra. Era a disputa de território entre judeus e palestinos, a destruição do sistema ecológico, o massacre do Carandiru, o cotidiano violento no qual todos nós aprendemos a sobreviver. Chaos A.D. é quase um disco conceitual, um manifesto terceiro mundista, homogêneo em sua diversidade ele traz um Sepultura politizado, voltado para o que se passava no Brasil e experimentando novas sonoridades.

Passada a fase ortodoxa do grupo a banda dos irmãos Cavalera agora misturava metal, hardcore e rock industrial com sons brasileiros (mistura que chegaria ao ápice no clássico Roots). Cabia ai então a acústica Kaiowas, um protesto contra a situação dos índios dessa tribo que se suicidavam devido à ocupação de suas terras. Os críticos compararam a música (que incluía percussão e solo de viola) a Led Zepellin com a diferença de que enquanto o Led misturava seu rock com sons asiáticos e africanos o Sepultura fazia a fusão com o som da sua própria terra. A partir de Chaos A.D. quem se interessasse pelo futuro do metal poderia procurar o Sepultura. O disco é considerado por muitos como influência básica no que viria a ser o new metal de Korn e Cia. O próprio Korn teria ficado ouvindo esse disco no estúdio enquanto gravavam. Lá já estavam as afinações graves e as baterias quebradas que estourariam nas paradas mundiais anos depois

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O clima do disco era soturno, a trilha sonora de um futuro Ciberpunk, pesado,violento dominado por mega-corporações e transpirando capitalismo. O guitarrista Andréas Kisser deixou de lado o virtuosismo, para tirar novos timbres de sua guitarra minimalista uivante, o baixo de Paulo Jr, vinha muito grave,como um terremoto, cheio de efeitos, casando com o bumbo duplo furioso de Igor Cavalera, um gigante nas baquetas que injetava swing no hardcore mais agressivo.

Chamar o Chaos A.D. de marco no rock dos anos 90 pode parecer pretensioso, mas não seria injusto, Dave Grohl (ex- Nirvana, Scream e atual frontman do Foo Fighters) disse um dia que se não existisse o Mötorhead esse seria o melhor disco de metal do mundo. Nada mal para um bando de moleques que só queria imitar o Venom. Á partir de 1993 todas as bandas brasileiras podiam sonhar em competir de igual pra igual com os gringos e não sem deixar de lado a brasilidade. O que seria a base para um outro caos vindo da lama dos manguezais de Recife, mas isso é outra história…

Fred Di Giacomo 28/10/03.

Assista o clipe da primeira faixa de Chaos A.D.: Refuse/Resist:

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