Bukowski – Frases

-Frases legais de caras foda

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Bom gente, essas são as que eu tinha anotadas. Com o tempo vou atualizando isso aqui. Sugestões nos comentários são bem-vindas.

“Definição de um bom bairro: um lugar onde a gente não tem condições econômicas de morar”. Pulp

“Sempre fui de perna. Foi a primeira coisa que vi quando nasci. Mas então eu tentava sair. Desde então, tenho me virado no sentido contrário, e com um azar dos diabos.”
Pulp.

“Éramos uma piada, mas as pessoas tinham medo de rir na nossa frente.”, Ham on Rye.

“Eu era como um lixo que atraía moscas, ao invés de uma flor desejada por borboletas e abelhas” Ham on Rye.

-Leia resenha do livro “Misto Quente”, de Charles Bukowski

“É tão fácil ser poeta, e tão difícil ser um homem”.

“Um bom poeta pode fazer uma alma despedaçada voar.”


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“Pulp” – Charles Bukowski – Resenha

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por Fred Di Giacomo


-(…). Eu sou boa.
-Em quê? Sabe estenografia?
-Não, mas faço coisas pequenas ficarem grandes
-Como?
-Você sabe!
-Não, não sei.
-Imagine.
-Balões?
-Você é engraçado.
-Já me disseram.

O texto da contracapa de “Pulp”, na edição da L&PM, começa com a frase “Eis um Bukowski puro-sangue”. Puro-sangue, certo? Não. “Pulp” pode ser facilmente reconhecido como livro de Bukowski porque estão lá seu humor ácido, suas ótimas frases de efeito, os diálogos fortes, os palavrões, a bebida e as mulheres, mas é provavelmente o romance mais atípico do velho Buk. Ao contrário de todos os seus outros romances, “Pulp” não é descaradamente autobiográfico, seu personagem central não é o alter-ego do autor, Henry Chinaski, mas o detetive Nick Belane. Belane tem 55 anos, está acima do peso, é durão, bebe, aposta nos cavalos e está sozinho, depois de três divórcios. Ok, ele é também uma das facetas de Bukowski, mas sua arma não é a máquina de escrever e sim um 32. Ele é um advogado de segunda classe em Los Angeles com problemas para pagar o aluguel e que não é exatamente o melhor no seu ramo, mas tem estilo.

-Leia resenha de “Misto Quente”, livro que retrata a triste infância de Bukowski
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A história começa bem, com uma sensual “Dona Morte” encomendando um serviço surreal a Belane. Ela precisa encontrar Celine, o escritor francês maldito que influenciou toda uma geração de escritores marginais, em especial Bukowski, e morreu em 1961. “Celine está morto” tenta se convencer Belane, mas não adianta ele tentar colocar ordem no que vai acontecer em “Pulp”, cada vez mais seus casos vão ficando obscuros, incluindo alienígenas, uma deliciosa mulher que estaria traindo o marido e principalmente misterioso Pardal Vermelho – uma possível referência a editora de Buk, Black Sparrow, ou ao maior clássico dos livros de detetives modernos, o “Falcão Maltês”.

No entanto, o excesso de referências à subliteratura(a quem o autor dedica a obra) e a fantasia e filmes B, acaba tornando o meio do livro um pouco esquizofrênico, um excesso de sátira que impede que ele chegue ao nível dos melhores Bukowskis como “Misto Quente” ou “Fabulário Geral do Delírio Cotidiano”. É como o caso de Quentin Tarantino em “Kill Bill” ou “Grindhouse”. Tarantino também dedicou um filme (“Pulp Fiction”) ao gênero pulp – revistas feitas com papel de baixa qualidade (a “polpa”) a partir do início da década de 1920, que geralmente tratavam de ficção científica e fantasia. Seus dois primeiros filmes foram aclamados como obras-primas, mas apesar do sucesso de Kill Bill, há um excesso de referências ali que quase soterra o filme. Na ideia de homenagear um gênero menor, o autor acaba fazendo mais uma grande sopa de referências e piadas internas àquele gênero do que uma grande obra.

Bom, mas além de ser o livro mais “pretensioso artisticamente” de Buk, com bons momentos como o sonho maluco que Belane tem no capítulo 17, “Pulp” vale por ser o romance onde o autor se despede da vida. Por trás de todos os personagens frakies e diálogos divertidos, “Pulp” é um livro sobre a morte. Talvez por isso o autor tenha adotado a ficção desta vez. Ninguém pode contar o próprio fim sendo realista. Se em “Misto Quente” ele narra sua infância, em “Cartas na Rua” seu trabalho como carteiro e em “Hollywood” sua experiência como roteirista de cinema, aqui Bukowski nos fala sobre a velhice e o fim da vida(“Pulp” é o último romance dele e foi concluído alguns meses antes de sua morte em março de 1994.) Nisso, ele se assemelha ao livro póstumo, que conta com ilustrações de Crumb, “O Capitão saiu e os marinheiros tomaram conta do navio”, o mais filosófico de Bukowski. E é no final do livro que ele volta a crescer. O capítulo 39 é uma poderosa descrição de como o autor se sente em relação à vida. Começa com Belane entre suas duas clientes gostosas/misteriosas: “Ali estava eu, basicamente, sentado entre o Espaço e a Morte”. E depois “Porque eu não podia simplesmente ser um cara assistindo a um jogo de beisebol?(…) Por que eu não podia ser um galo num galinheiro, catando milho?” Buk nunca conseguiu ser um cara comum, “um galo no galinheiro”, sempre se sentiu um estrangeiro numa sociedade que não fazia o menor sentido pra ele. A vida funcionava como a relação entre Belane e os mendigos que lhe pediam dinheiro: “Às vezes eu dava e às vezes não”.

Como termina a contracapa citada no começo dessa resenha: “Tomara que a morte estivesse linda, gostosa e sexy – como está nesta história- quando encontrou o velho Buk poucos meses depois de ter posto o ponto final nesta pequena obra-prima”.


“Sempre fui de perna. Foi a primeira coisa que vi quando nasci. Mas então eu tentava sair. Desde então, tenho me virado no sentido contrário, e com um azar dos diabos.
Charles Bukowski, Pulp.

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Misto-Quente, Charles Bukowski

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A VIDA COMO ELA É: Resenha do livro Misto-Quente

Retrato autobiográfico do nascimento de um gênio marginal

“Éramos uma piada, mas as pessoas tinham medo de rir na nossa frente.”
Charles Bukowski, Ham on Rye.

Ok, o garotinho se chama Henry Chinaski, mas poderia se chamar Fred Di Giacomo, Eduardo Moraes, Charles Bukowski ou qualquer outro nome de garoto(a) que nunca foi o mais bonito(a) da classe, nunca foi o primeiro a ser escolhido no jogo de futebol ou já passou um recreio sozinho. Como todo mundo de carne e osso Henry também é um perdedor e a escola é seu purgatório pessoal. Seu pequeno inferno. Freud deve ter algum estudo sobre os efeitos devastadores da escola na personalidade e ego das pessoas. Humilhações, repressão e castigos são o que você suporta durante pelo menos dez malditos anos da sua vida, e nos Estados Unidos o negócio parece ser pior. Numa terra onde status é tudo, o universo escolar é dividido entre os perdedores (os losers) e os “caras legais”. Não há meio termo; ou você está com eles ou eles estão contra você. Tive uma conversa com meu primo Joe (que nasceu e mora nos EUA) sobre a “high school” e ele realmente tinha pavor, não é à toa que os americanos saem matando seus coleguinhas de classe. Não é à toa, que em sua música “School”, Kurt Cobaintenha se limitado a gritar “Vocês não vão acreditar, é a minha sina. Sem recreio. Você está na minha escola outra vez”.

Perdedor, Chinaski é um perdedor. No entanto, isso não faz dele um coitadinho. Ele sacaneia os outros assim como a vida o sacaneia. O alter-ego de Bukowski (como em quase todos os livros do “velho tarado”, essa é uma história autobiográfica) não teve muita sorte na vida. Sua família tem o alcoolismo no sangue, seu pai o espanca e sua mãe é uma estúpida histérica. O moleque não tem meias palavras: “eu devo ter sido adotado”. Seus pais o proíbem de brincar com os garotos da rua. (“Eles pensavam que nós éramos ricos”) A vizinhança é imunda, um bairro pobre de Los Angeles, para onde os Chinaski se mudaram logo depois que chegaram da Alemanha. Na escola não há muita esperança, Henry tem poucos amigos e é sempre o penúltimo a ser escolhido para o time de beisebol, sua principal preocupação é se segurar para não ir ao banheiro. ( “Eu chegava em casa e não tinha mais vontade de ir ao banheiro, o cocô já tinha endurecido dentro de mim”)

A linguagem é direta, seca. Socos no estômago do leitor são distribuídos a cada página, mas com um maldito humor negro e a tão comentada ironia. Isso diferencia “Misto-Quente” de outros clássicos sobre a juventude americana. Ele é uma versão underground de Tom Sawyer, um primo distante de Huck Finn. Vive num terreno arrasado pela depressão como o de “Ratos e Homens” de Steinbeck. O livro chegou mesmo a ter sua importância comparada pros anos 80 com a de “O Apanhador no Campo de Centeio” pros anos 50. Sem seu humor, Bukowski teria estourado a cabeça antes de publicar qualquer coisa. Ele foi um autor que não se contentou com as “verdades” dos livros, leu como um desesperado, mas também viveu a vida desesperadamente. As salvações para o moleque são essas: A ironia e os livros…

Um dia Henry tem que ir ver o discurso do presidente para fazer uma redação da escola. Ele sabe que se não cortar a grama naquele sábado seu pai vai surra-lo como sempre. O fedelho decide, então, inventar um discurso, com toda a pompa e todos os detalhes. A professora lhe dá dez e pede que leia em voz alta. Ele descobre um talento (“(…) era isso que eles queriam: Mentiras. Mentiras maravilhosas. Era disso que precisavam. As pessoas eram idiotas, seria fácil pra mim.”) Aos poucos aquele moleque vai reunindo em torno de si outros desajustados, freakies, losers como ele. (“Eu era como um lixo que atraía moscas, ao invés de uma flor desejada por borboletas e abelhas”). Ele começa a ganhar algum destaque, mesmo em meio a todos os seus problemas, como define com uma passagem mais ou menos assim: “havia alguma coisa dentro de mim, eu sabia, podia ser todo aquele cocô endurecido…”. Chinaski vira um durão, era isso o que ele mais desejava. Podia não ter as garotas (e ele realmente se dá mal com elas, eternamente virgem e sempre desperdiçando as oportunidades que surgem), mas ganhou algum respeito. Aos poucos vai se embrenhando em uma vida marginal de vadiagem, álcool e brigas que contrapõe-se com seu talento florescente para a literatura. Ele estava sozinho, mas tinha os livros. Era mais um daqueles garotos que passavam horas se divertindo sozinho, brincando com seus amigos invisíveis, criando suas próprias histórias que aos poucos vão ganhando o papel.

Chinaski não tinha um pai? Certo, mas ele tinha Hemingway e Dostoievsky. Com o escritor russo ele aprendeu: “Quem não quer matar seu pai”? O complexo de Édipo rodeia Chinaski por toda a obra. “Ele” é o cara sacana, “Ele” é o responsável por seu sofrimento, “Ele merece” morrer. Esse ódio por seu pai (na realidade um alcoólatra violento) permeia toda a obra do velho “Buk”, e é outro dos sentimentos mais antigos da humanidade, estudado por Freud como uma das raízes dos principais tabus da nossa sociedade. Essa capacidade de transformar o dia a dia em poesia, de pegar as bebedeiras triviais, as angústias adolescentes e transformá-las em arte é a mágica de Bukowski. Sim sua linguagem é chula, ele fala de sexo o tempo todo e não finaliza com chave de ouro, mas isso não é o que importa. Aliás no mundo de “South Park” falar palavrão não assusta mais ninguém. Tire todas “bucetas” e “merda” do texto e você ainda terá um livro genial. O que importa é seu retrato do homem comum.. O resto é excesso.

Misto-quente(Ham on Rye), publicado originalmente em 1982.

Fred Di Giacomo, brincou tanto de criar histórias que acabou passando-as pro papel no livro “Canções para ninar adultos”
26/05/04

-Frases de Charles Bukowski

 

Memórias de um perdedor: Capítulo 1

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Infância

“Quando era pequeno, a vida era um circo queria ser palhaço, queria ser artista voar pelo espaço, o tempo demorava para passar.”

1. Quando fiquei velho eu morri.

Esse é o fim , no começo tudo eram pequenos flashs. São Paulo era uma cidade grande e eu tinha um amigo ruivo que brincava comigo no parquinho. Um dia ele me meteu a mão na cara e nós nunca mais conversamos.
Não sei se eu era bundão, porque não tenho muitas lembranças até meus três, quatro anos de idade. Lembro que meu irmão mais novo estava sempre lá, sabe? Acho que nós nunca fomos apresentados um ao outro, assim como nunca me apresentaram a meu primo Fábio, mas eles sempre estavam lá. Ele nasceu um ano depois que eu, então na verdade sempre considerei que ele fosse parte de mim. Nunca soube distinguir direito onde eu terminava e onde começava o Marcelo. Só sei que ele tava brincando comigo e com meus primos quando a gente ia pra casa dos meus avós e que ele estava comigo quando a gente se mudou pra um buraco no interior de São Paulo: Patópolis.

Nenhum dos meus pais tinha realmente algo a ver com Patópolis, meu pai vinha de uma família simples de São Paulo. Minha avó era filha de imigrantes espanhóis pobres e meu avô tinha migrado da Bahia. Ele tinha trabalhado na roça, jogado futebol e sido vaqueiro em Goiás. Quando veio pra São Paulo arrumou um emprego público e passou a estudar direito à noite. Meu vô nunca parecia estar feliz e eu tinha medo dele. Minha vó adorava falar e me dava presentes. Eu adorava minha vó, seus presentes e o cheiro forte do seu perfume…. Quando meu vô realmente começou a ganhar dinheiro, meu pai já estava no colegial. E ai ele resolveu fazer Ciências Sociais! “Não rapazinho, você vai ser um advogado como seu pai”. Meu velho durou um ano no curso de direito com seu cabelo comprido e sua barba hippie, mas logo transferiu pra Ciências Sociais e teve que começar a trabalhar pra pagar a faculdade. Voltou a ser pobre…. O coitado nunca soube realmente como ganhar dinheiro, tudo que ganhou ele gastou em livros. Livros e idéias que ele passou pra gente como herança. Foi na faculdade que conheceu minha mãe. Ela era quase hippie e também gastava seu dinheiro em livros.

Minha mãe era uma garota linda: magra, de olhos verdes, boca carnuda e cabelos negros. Foi dela que eu herdei meus olhos, que no começo eram azuis. É impressionante como a gente muda pra pior com o tempo, né? Todo mundo dizia que eu era um bebê lindo, e quem vê minhas fotos dessa época concorda. Eu até fui uma criança bonitinha, mas a adolescência mudou tudo… Bom, voltemos a minha mãe: seu pai era médico e sua mãe tinha vindo de uma família aristocrática. Meu avô materno perdera uma fortuna jogando baralho. Ele realmente fora um viciado em jogo e por isso teve que sair de Pacú onde nasceu para ir pra Patópolis… Diz a lenda que, numa manhã, depois de passar a noite toda jogando buraco no clube, meu avô trouxe um colar grosso de ouro pra minha vó. Não que ele tivesse ganho uma bolada, aquilo era o equivalente a toda grana que ele perdera no dia. É, meu vô era um cara legal e os caras legais sempre chegam por último.

A família da minha mãe era uma típica família italiana: grande e barulhenta como todas as famílias italianas são. O natal era sempre muito divertido, tinha aquele arroz ruim com passas, mas a gente ganhava presentes e podia brincar com os primos. Eu sempre passava fome no natal porque odiava arroz com passas e aquelas coisas que eles colocam na comida de fim de ano Eu tinha um primo da minha idade que se chamava Fábio, e a gente sempre brincava junto. Eu, ele e o Marcelo. Um dia em Pacú, o Fábio também chegou me dando umas porradas sem eu saber porque. Eu não reagi porque não entendi porra nenhuma, não entendia porque na vida de repente te dão uma porrada na cara. O pai da minha mãe também chamava Fábio e era filho de italianos, ele vivia gritando palavrões e fazia macarrão nos domingos. Nós íamos comer na casa dele e eu achava meu vô muito engraçado. Ficava ouvindo suas histórias da Revolução Constitucionalista de 1932 e do dia em que ele viu Getúlio Vargas. Ele achava Getúlio um grande cara. Eu também achava Getúlio um grande cara e meu vô era um herói pra mim. Minha vó me lembrava morte. Ela queria me convencer que dEUS existia e vivia contando histórias de doenças e de pessoas tristes. Eu sempre me sentia doente quando escutava as conversas. Teve um dia, no quintal da casa dos meus avós, que ela perguntou porque eu e meu irmão não acreditávamos em dEUS, eu falei que ia decidir depois , mas o Marcelo disse:

-Eu odeio dEUS, porque ele é bicha!.

Se dEUS era veado ou não, nunca descobri, mas acho que minha avó nunca mais encheu o saco com essa história.

Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais“ . Ele foi pioneira na criação de newsgames (jogos jornalísticos no Brasil) e toca na Banda de Bolso.

“Buk, o velho tarado” – um conto de Fred Di Giacomo

-Leia mais contos

Falando em Bukowski ai vai um konto com a participação do próprio. Escrevi isso pro pseudo-livro “Amor em tempos de Aids” e acabou publicado no meu primeiro livro o “Canções para ninar adultos”. Quem tiver paciência que leia até o fim.

***
Buk, o velho tarado.

Eu já não tinha tantas ilusões em relação à literatura naqueles tempos. Me achava limitado, mas as pessoas diziam que eu escrevia bem. Não poesia. Nada disso! Jornalismo. Jornalismo?! Que merda é essa? Qualquer um escreve jornalismo, é tudo enrolação pura, mentiras… Um jornalista pode escrever qualquer coisa. Eu fazia notícias com versos. Poemas construídos com realidade. Alguns tinham cheiro de incenso ou felicidade, outros tinham cheiro de diarréia e morte. As pessoas não percebiam, diziam que meu texto era “gostoso de ler…”
Veja só: vinte e um anos, desempregado, barba rala, medo de pegar AIDS. Nunca tinha tido emprego fixo e minha mãe vivia me xingado por isso. Nunca tinha sido feliz ao lado de alguém e ia morrer sozinho. Era mais novo que Cristo, mas já tinha bebido de tudo, menos álcool puro. Até Absinto falsificado e cachaça caseira. Meu fígado tinha diminuído dez centímetros em um ano. E eu tinha diarréia sempre que exagerava na manguaça. Bebia cinco vezes por semana e exagerava três. Tinha semanas que eu bebia todos os dias e exagerava cinco, era uma conta humilde perto de alcoólatras ilustres como o senhor Charles Bukowski, escritor, poeta e bebum de talento.
Bastardo! Tudo que eu escrevia soava como cópia subdesenvolvida daquele velho tarado. Eu queria matar o Bukowski de novo só para ser original. Maldito filho da puta. Dormi as quatro da manhã. Fiquei assistindo filme pornô na televisão.
Acordei antes do meio-dia. Mal-humorado. A folgada da minha irmã(ia usar “vagabunda”, mas achei que soaria como puta) nunca acordava cedo. Por mais barulho que se fizesse ficava sempre dormindo. O telefone podia se esgoelar todo e ela não levantava a carcaça do lençol, às vezes até o tirava da parede, para não ter que se preocupar. Eu ainda tinha um pouco de responsabilidade.
_ Alô, quem fala?
A voz que respondeu soava velha e cansada. Parecia ser familiar, mas eu não sabia quem era. Odeio quando começam a conversar sem se identificar. O cheiro de whiskey barato exalava pelo telefone:
_ Seu maricas, o que está fazendo acordado a essa hora?
_ Um filho da puta ligou aqui em casa e não desistiu até me tirar da cama.
_ E por que você não tirou o telefone do gancho?
_ Porque me sobra um pouco de responsabilidade. Se meus pais morrerem, por exemplo, como é que eu vou saber?
_Essas coisas a gente sempre fica sabendo. Notícia boa é que não chega nunca. É por isso que você nunca vai ser poeta de verdade.
_ Quem é você, hein, seu desgraçado? Me ligando antes do almoço pra discutir poesia?
_ Você é uma cópia juvenil e terceiro-mundista do Bukowski, isso é que você é.
_ Ah, essa não… Vou desligar o telefone, velho doente.
_ Não gosta de ouvir umas verdades, meu bem? E você nem agüenta beber que nem macho… Tem vinte e um anos e já quer parar de tomar uns tragos.
_ Quem é você pra cuidar da minha vida? “Cê” anda me espionando? Aposto que é pederasta! Quer fazer sexo pelo telefone, é, velho tarado? Eu tenho vinte e um anos, mas já tenho cabelos brancos, to ficando careca, tenho pêlos no nariz e dor nas costas.
_ É, você também é azarado. Só que não tem personalidade… Essa idéia de conversar no telefone com um autor que te inspirou… Isso eu fiz nos anos setenta com o Heminghway e de uma forma bem mais criativa.
_ Ah! Vai se foder! Quem é você? Bukowski?Você me inspirou tanto quanto Nélson Rodrigues ou Rubem Fonseca. Aliás, senhor sabe tudo, foi o livro do Rubem Fonseca que eu recomendei pro Bernardo aprender a escrever kontos.
_ Olha, garoto, você até pode ter futuro, mas tem que ler o dobro e passar fome.
_ Eu vou passar a mão na sua bunda, velho veado!
_Você é muito macho pelo telefone, né, garotão? Só que tem medo de morrer e nunca entrou em briga de verdade.
_ Teve aquela vez na quarta série…
_ Que você tomou um murrão no nariz?
_ Velho bastardo…
_ Olha garoto liguei só pra você não desistir de escrever. Você tem talento…
_ Na poesia?
_ No jornalismo…
_ Velho, maldito! Qualquer merda faz jornalismo! Você também fez faculdade de comunicação e virou carteiro…
_ A gente tem que viver a vida antes de escrever.
_ Quer que eu vire carteiro?
_ Quero que você vire homem. “É tão fácil ser poeta e tão difícil ser homem”. *
_ Certo, velho. Espero que você seja o Buk, mesmo, sabe por quê?
_ Você vai chorar de emoção e pedir um autógrafo?
_ Não, eu vou te matar! Ai ninguém mais vai achar que eu copio Bukowski.
_ Pode vir franguinho, eu ainda tenho um bom cruzado de direita.
_ Velho bêbado, ainda vou te mandar pro inferno!

Desliguei o telefone na cara do imbecil. Depois me arrependi. Achei que pudesse ser o Bukowski mesmo, afinal: nem todo mundo exala cheiro de álcool pelo telefone. Pelo menos, ele tinha dito que eu podia ter futuro. Resolvi continuar tomando cerveja e parar com a pinga. Continuei escrevendo jornalismo em versos e as pessoas continuaram falando que meu texto era “gostoso de ler”. Talvez não fosse nada. Acho que eu só estava ficando meio doido.

charles-bukowski-9230860-1-402

20/02/05.

Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais“ . Ele foi pioneira na criação de newsgames (jogos jornalísticos no Brasil) e toca na Banda de Bolso.

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