Sobre a importância da “classe média dos artistas”, por Bruno Tolentino

Muitas teorias sobre cultura rezam que os gênios só surgem em ambientes criativos; em uma cena que os estimula, os sustenta e eleva seu nível. Por isso alguns momentos e locais da história seriam celeiros de grandes criadores, onde tudo acontece “ao mesmo tempo agora”. A Paria da década de 20, a Nova York dos anos 70 ou a Viena do final do século XIX são alguns exemplos. Abaixo o polêmico poeta e crítico Bruno Tolentino dá sua visão sobre a importância de uma “classe média intelectual” que permite o surgimento dos grandes gênios. (e a falta que essa “média” faz  no Brasil). É um trecho do prólogo de “Os sapos de ontem”.

“É que toda agitação artificial e estéril confunde, dispersa ou paralisa um elemento indispensável a qualquer sedimentação cultural: o bom escritor de segundo escalão, de porte mediano, fruto da excelência do esforço, da dedicação ao estudo, do suor do talento e não do gênio. É ele que, paradoxalmente, sustém as
altitudes do gênio de uma raça, embasa-as à maneira da cordilheira erguendo, sustentando seus cumes. A solidão destes últimos não pode ser, não tem porque ser total, ela é tática apenas. Sem a variedade de seus pares, o lobo solitário é pouco mais que um desgarrado, por grande e pungente que seja seu uivo, seu protesto precisamente contra esse isolamento, sempre anti-natural e, enquanto dure, uma perda para todos. Com efeito, os momentos decisivos nas grandes culturas do Ocidente foram aqueles em que toda uma miríade de talentos menores superou a platitude da mediocridade, que é toda outra coisa, e circundou com naturalidade suas figuras de proa. A sólida nave de uma cultura é feita do lenho tosco, mas confiável, do que um povo tem de mais próximo, mais familiar, mais saudável. Os altos mastros não se erguem do nada, mas de um amplo convés do mesmo lenho. Navegar é preciso, mas é toda uma raça que o faz, quem à gávea, quem à bússola, quem à proa e quem à popa – e ao leme, aos cordames, aos remos. A invisibilidade da tripulação nunca é mais que aparente, sua presença miuda é condição indispensável ao bom destino da empresa, da aventura.”, Bruno Tolentino

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