Videoteca do Brega – “Garçom” (Reginaldo Rossi): a melhor letra de dor de corno do mundo

– Acompanhe aqui grande clássicos da música cafona na “Videoteca do Brega“.

“Garçom” ao vivo

Quando fui universitário em Bauru, eu tocava baixo numa banda chamada “Cuecas Rosas“. A ideia era fazer versões punk e rock n’ roll de clássicos da música brega brasileira. Nos shows, a gente chamava Wando e Reginaldo Rossi de maiores compositores da música brasileira. Maiores que Chico Buarque. Era provocação, mas no caso de “Garçom” de Reginaldo Rossi a coisa não era só escracho. Acho esse letra o melhor que já escreveram sobre dor de corno… NO MUNDO É realista, bem-humorada e conta uma história como poucos. A frase “eu sei que estou enchendo o saco, mas todo bebum fica chato” é antológica. Rossi (nascido em Recife, em 1944) é aclamado como Rei do Brega, mas acho pouco. Ele está longe de ser só um “Falcão”, uma piada, ou apenas um ex-imitador de Roberto Carlos. Suas letras (como “Raposa e as uvas”) deviam ser levadas mais a sério, seu carisma no palco é inegável e os shows no norte e nordeste continuam lotados. Os “mangueboys” de Recife gravaram um bom tributo ao Rossi, que você pode ouvir aqui.Tem Mundo Livre, Lenine, Otto, Zé Ramalho, Devotos… Uma pequena homenagem pra uma grande obra.

Assista também:
-Lindomar Castilho canta “Eu vou rifar meu coração”
-Relembre “Uma vida só” de Odair José
-Fernando Mendez ficou famoso por cantar uma menina na cadeira de rodas

“Garçom” versão original

Letra de “Garçom”
Garçom! Aqui!
Nessa mesa de bar
Você já cansou de escutar
Centenas de casos de amor…

Garçom!
No bar todo mundo é igual
Meu caso é mais um, é banal
Mas preste atenção por favor…

Saiba que o meu grande amor
Hoje vai se casar
Mandou uma carta pra me avisar
Deixou em pedaços meu coração…

E pra matar a tristeza
Só mesa de bar
Quero tomar todas
Vou me embriagar
Se eu pegar no sono
Me deite no chão!…

Garçom! Eu sei!
Eu estou enchendo o saco
Mas todo bebum fica chato
Valente, e tem toda a razão…

Garçom! Mas eu!
Eu só quero chorar
Eu vou minha conta pagar
Por isso eu lhe peço atenção…
Saiba que o meu grande amor
Hoje vai se casar
Mandou uma carta pra me avisar
Deixou em pedaços meu coração…

E prá matar a tristeza
Só mesa de bar
Quero tomar todas
Vou me embriagar
Se eu pegar no sono
Me deite no chão!…

Saiba que o meu grande amor
Hoje vai se casar
Mandou uma carta prá me avisar
Deixou em pedaços meu coração…

E pra matar a tristeza
Só mesa de bar
Quero tomar todas
Vou me embriagar
Se eu pegar no sono
Me deite no chão!

Reginaldo-Rossi-Cheio-De-Amor

Videoteca do Brega: “Esse meu coração sem juízo”, Nelson Ned e Moacyr Franco

Para tudo! Olhem o style do Nelson Ned e o blazer do Moacyr Franco:

Só esse visual já justificava o post de “Esse meu coração sem juízo” na nossa videoteca do brega. Mas não é só por isso que este é o post da “Videoteca” desta semana. Queria deixar registrado, também, uma performance ao vivo do Nelson Ned que, apesar de ter um baita vozeirão e ser admirado por gente como o ganhador do Nobel de Literatura Gabriel Garcia Marquez, ficou na história mais pelas piadas com seu tamanho do que pelas canções que gravou. Antes de se converter e virar cantor gospel, Ned era um dos maiores (sem piadinhas) cantores de música romântica/brega/cafona do Brasil.


O clássico mais conhecido do cara é “Tudo passará”. O difícil é encontrar uma versão ao vivo de Ned cantando, que não seja da carreira gospel. No Youtube você acha vídeos de todas bandas lado z do rock nacional dos anos 80 em programas de auditório, mas quase nenhum crássico brega. Triste.

Assista também:
-Lindomar Castilho canta “Eu vou rifar meu coração”
-Relembre “Uma vida só” de Odair José
-Fernando Mendez ficou famoso por cantar uma menina na cadeira de rodas

Videoteca do Brega: “Eu vou Rifar meu coração”, Lindomar Castilho

A história de Lindomar Castilho é mais trágica que seus boleros e sambas-canções emotivos. Famoso por “Você é doida demais” (abertura de “Os Normais”),”Chamarada” e “Eu vou rifar meu coração”, o cantor foi condenado, em 1981, por matar a ex-mulher que cantava em cima do palco. O artista foi condenado e na prisão gravou o disco “Muralhas da Solidão”. Hoje é muito difícil encontrar vídeos antigos da sua fase áurea, mas uma parte de sua história é contada no livro (já antes recomendado) “Eu não sou cachorro não”.

Veja também:
-Ouça “Cadeira de Rodas”, de Fernando Mendes
-Ouça “Uma vida só”, de Odair José

Videoteca do Brega: “Cadeira de Rodas”, Fernando Mendes

Seguindo com nossa seleção de músicas crássicas do cancioneiro brega, hoje pincei para vocês “Cadeira de Rodas” do Fernando Mendes. É uma ideia  de som bem legal que o cantor teve depois de ver uma fã cadeirante no seu show. Coloca a portadora de necessidades especiais como musa, mostrando como a música brega popular pode ser moderna em suas temáticas. E isso bem antes de Roberto Carlos achar que estava agrando as minorias fazendo música pra míope, baixinha e gordinha. 🙂

Sucesso nos anos 1970, Paulo Mendes foi redescoberto quando Caetano Veloso gravou a sua “Você Não Me Ensinou a Te Esquecer”, para a trilha sonora do filme “Lisbela e o Prisioneiro”.

Cadeira de Rodas – Letra:

Sentada na porta,
Em sua cadeira-de-rodas ficava.
Seus olhos tão lindos,
Sem ter alegria,
Tão triste chorava.

Mas quando eu passava
A sua tristeza chegava ao fim.
Sua boca pequena,
No mesmo instante,
Sorria pra mim.

Aquela menina era a felicidade
Que eu tanto esperei,
Mas não tive coragem e não lhe falei
Do meu grande amor e agora,
Por onde ela anda, eu não sei.

Hoje eu vivo sofrendo e sem alegria.
Não tive coragem bastante pra me decidir.
Aquela menina em sua cadeira-de-rodas
Tudo eu daria pra ver novamente sorrir.

Caetano cantando Paulinho

Veja também:
-Wander Wildner e minhas bandas gaúchas preferidas
-Rock indie brega de primeira qualidade
-Punk Brega Nerd

Videoteca do Brega: “Uma vida só”, Odair José

Nas próximas sexta-feiras, esse blog vai deixar sua pose punk de lado e reunir alguns clássicos do brega pros seus jovens internautas.

Depois de lançar seu primeiro sucesso “Eu vou tirar você desse lugar”, Odair José (1948) foi censurado pela explícita canção da pílula e chegou a ser excomungado pela Igreja Católica. Decidido a fazer uma ópera-rock-brega Odair lançou fracasso comercial “O filho de José e Maria” (1977) que trazia flertes com rock progressivo e de garagem.

Odair foi redescoberto nos anos 90, depois do lançamento do clássico livro “Eu não sou cachorro não”, de Paulo César Araújo, e da coletânea “Vou tirar você desse lugar” que reunia Mombojó, Paulo Miklos, mundo livre s/a e outros artistas regravando o mestre. Até o Los Hermanos registrou a clássica música de amor a uma prostituta., dando à Odair José um improvável rótulo de artista CULT.

Veja também:
O indie brega de Felipe Cordeiro
-Conheça o rock brega gaúcho do Graforréia Xilarmônica 

Toda cerveja barata que você pode encontrar na Augusta em um final de semana (Bebendo com o Pantera) – Conto

Me desculpem as pessoas que acham que post em blog tem que ser curto e direto, mas ultimamente só ando postando textículos e vídeos, então vou tomar a liberdade de colocar aqui esse konto da safra 2007, escrito depois de uma visita de Rodrigo Pantera e Bernardo Santana (ex-membros da saudosa banda punk brega Cuecas Rosas). Quem tiver saco pra ler até o fim será eternamente abençoado por dEUS

Para quem se interessar, eu tenho um livro de contos publicado pela Editora Patuá.

***

augusta-cerveja

Bebendo com o Pantera.
Há tempos não bebia assim, cerveja até a cabeça girar, sem passar mal, como homem mesmo. Sem depressão, nem som alto, sem aquecer para trepar. Só eu e um camarada rodando os botecos da Augusta atrás da cerveja mais barata de São Paulo. Tinha começado depois do show do Mudhoney, num boteco do Butantã: 3,40 a Skol e a Brahma. Bebemos pouco, só até o Lúcio sair passando mal e o Titi quase dormir na cadeira. No sábado toquei com o Bernardo à tarde inteira e à noite fomos pra um boteco da Augusta. R$ 3,50 a garrafa. Chorava de rir com cada besteira que o Pantera dizia. O Bernardo pediu um “X-tudo” com calabresa, ovo, queijo, hamburguer e outras milongas mais. Parecia bom. Pedi um pra mim, deu meia hora e a barriga se revoltou, travei o cu, mas o gás quente saiu. Corri pro banheiro do boteco: ocupado. Três quarteirões até minha casa, correndo sem abrir muito as nádegas. Passei pelas putas que ocupavam a escada de casa. Abri a tranca quebrada de primeira, passei correndo pelos designers que moram comigo: Gabriel e Lacaz.

_Ta com pressa, hein, Ernesto?

Barro na louça. Destruo o banheiro. Alivio imediato. De volta pro bar e do bar para um aniversário num fliperama da Augusta. O Pantera parece uma criança, ganhando de todo mundo no Street Fighter. Muita gente: jornalistas, designers, fotógrafos. Modernos, em sua maioria brancos, bêbados, felizes naquele pequeno orgasmo eletrônico. Muitas mulheres. Minha namorada está no sul. Bêbada. Saiu de um “open house” no apê da amiga pra uma balada às 3:30 da manhã. Chegou em casa às 6 horas. Minha namorada está no sul, mas as amigas estão aqui. Todos meus amigos estão namorando, até mesmo o Renato que mal se comunicava pelo MSN e faz pose de durão. A mina dele canta e criou um personagem de quadrinhos. Par perfeito. 2:30h, convoco Bernardo e Pantera pra sair fora. A festa já deu no saco. Tem no mínimo quatro minas que eu já peguei, mas tô sossegado. Saudades da “patroa”.

Vamos até um lugar que serve pedaços de pizza e eu me perco no meu bairro. A Sweet Smell me liga carente, o namorado saiu fora e a deixou na mão de novo. Encontra a gente, me abraça. “Ok, baby, nosso tempo já passou”. Ela vai embora. Converso com os dois sobre desejo e fidelidade. O Pantera estuda sociais, mas só tira sarro de mim, ele acha que quero uma desculpa pra trair. Não preciso de desculpa, mas não é esse meu objetivo. Quero entender até onde somos animais. Vamos pra casa e uma voz grita meu nome na rua: Sweet Smell e sua amiga. Eu abro a janela
_Que música você quer que a gente cante?
_ ?
_Vou cantar uma do Roberto pra você: “Detalhes tão pequenos de nós dois…” É a amiga da Sweet, ela já ficou com o Gabriel.
_?
_Tem comida ai?
_Pão de forma, mas não é meu…
_Pão de forma, Ernesto? Que pobreza!
_Cantem pro Gabriel, vou lá chamar ele.
Vou até o quarto do Gabriel e abro a sua janela. O cara ta mal, amidalite fodida e fazendo frila até de madrugada. Ta desperdiçando o talento, deixando sua arte perdida no tempo. O cara é foda, mas pega muito trabalho pra fazer.
_Vamos na Funhouse, Ernesto?
_Tô de boa, meninas.
_Olha, Ernesto, seu porteiro ta xingando a gente….
_Ernesto, eu to aqui me humilhando porque você é meu grande amigo, você sabe que eu te amo, né?

Vão embora, o Daniel Galera estava lá junto. O cara escreve bem, queria mostrar meus contos pra ele… Vou ver se a Sweet Smell me arruma o telefone dele.

Ibotirama-rua-augusta
***
O ensaio nesse domingo foi zicado. O Titi chegou meia hora atrasado porque estava com uma mina. A baqueta da Ana voou 2 vezes durante o ensaio, cordas estouraram, foi bom pra gente ficar humilde. Vamos precisar de um bom tempo de ensaio pra poder tocar ao vivo. Volto pra casa. Pantera me liga para ir num bar, minha ex vai estar lá.

Chego no bar. Skol: três e alguma coisa. Bebo uma. Chega minha ex, um amigo e uma amiga. Não cabe todo mundo sentado. Vamos pra outro. Skol: 3 reais. Esse é o meu templo!: a breja mais barata da Augusta, do lado de casa. Discuto com o cara:

_Por que sempre acontece tumulto no show dos Racionais?
_A polícia começou a bater.
_Tinhas uns caras em cima da banca, eles pularam nos apartamentos depois.
_Os apartamentos estavam vazios e isso rolou durante o show da Nação, não no show dos Racionais.
_Cara, dava pra ver que ia dar merda. Eu fui embora bem antes por causa disso.
_Você acha que a polícia está certa?
_Não vou defender a polícia… Mas os caras não precisavam atrasar uma hora e meia o show.
_Eles deram espaço para uns artistas novos se apresentarem. Tava escrito na programação: Racionais e convidados.
_Sei lá, às 3 da manhã, ninguém queria ver os convidados… E o discurso do Brown não ajudou…
_Agora você vai culpar o discurso dos caras? Os Racionais retratam a realidade, mas pregam a paz…
_O Thaíde e o Rappin Hood criticaram a postura do Brown. Essa pancadaria no centro queimou o filme do hip-hop.
_Desculpa, Ernesto, mas não concordo com você… Meninas vamos embora?

Fiquei me sentindo mal. Um branquelo classe média, falando mal de Racionais para um negro da Zona Leste. Cor e classe social não deviam importar nessas horas, mas me senti afinado com o discurso do “medo branco”. Será que estou virando bundão? Virando casaca? O duro é abaixar a cabeça para os discursos sem questionar nada. Tanto de um lado quanto de outro. Não consigo concordar que sempre a esquerda vai estar certa. Parece que tem alguns ícones que você não pode criticar. Fiquei meio bolado e eles foram embora. Chegou uma outra amiga minha, mulata, mas não fã de Racionais. Tomamos mais duas: eu, ela e o Pantera. A galera tava indo embora e o bar estava fechando. Fomos pro bar do “x-diarréia”. Uma breja e um conhaque. Acabou a cerveja de garrafa. Eu e o Pantera fomos pro bar da frente. Skol:.3,70. Pedi duas fichas de uma vez.
_Velho, você não quer fazer teatro?
_Tenho que conciliar com o trabalho, né, Panters?
_Pois, é. Se essa bolsa de mestrado não sair vou ter que arrumar um trampo. Vê se me arruma uns frilas aí…
_Tô fazendo sua fita lá na editora. Mas acho que a gente vai acabar largando o jornalismo. A gente é bom mesmo em ser palhaço.
_O foda é que a gente escolheu jornalismo achando que ia conseguir se manter, ter um emprego estável, mas se é pra viver mais ou menos prefiro ser artista.
Uma mulher interrompe nossa conversa:
_Boa noite, vão querer uns cigarros naturais? _ Era uma tia de 48 anos. Branca, gorrinho enfiado nos cabelos castanhos, cachecol, agasalho, sacolas.
_Só curto o cigarrinho do diabo…
_Não existe cigarrinho do diabo, isso aqui é cigarro do bem.
_Mas quem disse que o diabo é mal? Quem inventou isso? Lúcifer era um anjo…
_Olha só, chega de papo furado que isso não enche a barriga de ninguém. Tenho que juntar 30 conto pra pagar o hotel que eu e meu filho moramos. Tenho o cigarro que você quer, é metade haxixe.
_Quanto?
_Dez.
_Dez? Ta louca?
_Meu fumo é de primeira, vendo pro Otto, Zezé Di Camargo, vários cineastas. Você não vai se arrepender.
_Pô, nunca paguei tão caro num baseado…
_Esse aqui não é um baseado normal, quer ver? Fuma essa ponta.Já estava bem torto. Cervejas e cervejas, conhaque. Nem lembrei que estava no meio do bar. Ela acendeu uns incensos e depois o beck. Bateu forte. Demos os dez mangos. Falamos que ela ainda ia ouvir falar da gente:
_Punk brega, a música popular undeground.

Sai correndo com o copo de breja na mão. Frio desgraçado, quase congelando. Entramos em casa: o Gabriel fazia um frila. Chamamos o cara, acendemos o baseado. Nunca tinha fumado nada tão bom. A melhor brisa da minha vida. Chapei, coloquei as meias na orelha e viajei. Comemos dois potes de sorvete, macarrão com calabresa e pizza. 4:30h da manhã de um domingo. Tinha que acordar 9:30h pra trabalhar. E segunda feira tinha mais uma rodada de pinga e cerveja com a banda. Mas ai foi só Skol por 3 reais.

07/06/07

– Leia mais contos:

-Pantera também foi comigo pro Fórum Social Mundial em 2005.

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