“O Primeiro Terço” – Neal Cassady: Ícone beat escreve o pior livro de sua geração.

Diversos autores podem se acotovelar para decidir quem foi o cérebro da geração beat, mas seu rosto é definitivamente do malandro Neal Cassady (8 de fevereiro de 1926 – 4 de fevereiro de 1968).

Timothy Leary -o papa do LSD - e Neal Cassady no busão de Ken Kesey

Bonito, durão, amante da velocidade dos carros e das mulheres, esse James Dean da vida real foi o “muso” beatnick. Provavelmente nenhum cidadão comum teve sua história tão contada em livros clássicos quanto Cassady. O que o deixou famoso foi “On The Road”, obra prima de Jack Kerouac, em que Cassady inspirou o protagonista Dean Moriarty. Neal também aparece como N.C. em diversos poemas de Allen Ginsberg (inclusive “O Uivo“) e em livros de Ken Kesey (autor de “Um estranho no ninho”). Cassady foi motorista do ônibus psicodélico de Kesey nos anos 60 e ganhou uma edição de homenagem na revista editada pelo escritor, “Spit in the Ocean”. Além das citações em poesias, Allen Ginsberg – de quem Neal foi amante (sim ele também traçava homens) – tirou diversas fotos do anti-herói que acabaram  impressas em seu livro fotográfico “Beat Memories“. Por fim, Bukowski escreveu o epitáfio literário de Cassady, logo após esse ter sido encontrado morto no deserto mexicano. O conto está no livro “Notas de um velho safado.” Vale ressaltar que Neal era um dos poucos personagens da geração beat que o velho safado admirava.

Capa do livro "O Primeiro Terço", lançado pela L&PM.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mas  isso aqui não é uma resenha literária? Precisamos falar tanto da vida do autor de “O primeiro terço”? Sim, e é justo dizer que a principal obra de Cassady foi sua vida. “O primeiro terço” é um romance autobiográfico que relata a infância do autor em meio à pobreza dos Estados Unidos pós-crash da bolsa. Tem esse nome porque seria uma das três partes da autobiografia de Cassady, mas o escritor morreu antes de começar os outros dois livros e só deixou algumas cartas e fragmentos como espólio. Pelo relato histórico de um período importante na história americana e como curiosidade para os fás de literatura beat é válido. Mas como literatura não se sustenta. A linguagem em geral é pobre, em alguns momentos truncada e não se compara às obras das “melhores mentes de sua geração“. Tanto que na introdução da obra, o poeta e editor Lawrence Ferlinghetti dá esse “desconto” para a prosa de Cassady, deixando um clima de isso “é mais importante do que bom”. O autor tem alguns lampejos, em que parece encontrar sua voz, especialmente nas cartas para Kerouac, incluídas como anexo no final do livro. Para os interessados no assunto é um bom jeito de entender melhor o fascínio despertado por esse malandro fã de Proust em toda uma geração de intelectuais.

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Neal Cassady e a mulher, em foto do poeta Allen Ginsberg

 

Um parque de diversões da cabeça – Lawrence Ferlinghetti

Selecionei aqui três poemas do livro “Um parque de diversões da cabeça” e mais alguns quadros do poeta beat Lawrence Ferlinghetti

Lawrence_Ferlinghetti_House_Boat_Days_Never_Play_Cards_with_a_Guy_Called_787_64
House Boat Days Never Play Cards with a Guy Called Doc 1993


10
.


Em toda minha vida jamais deitei com a beleza
confidenciando a mim mesmo
seus encantos exuberantes
Jamais deitei com a beleza em toda a minha vida
e tampouco menti junto a ela
confidenciando a mim mesmo
como a beleza jamais morre
mas jaz afastada
entre os aborígenes
da arte
e paira muito acima dos campos de batalhas
do amor
Ela está acima disto tudo
oh sim
Está sentada no mais seleto dos
bancos do templo
lá onde os diretores de arte encontram-se
para escolher o que há de ficar eterno
E eles sim deitaram-se com a beleza
suas vidas inteiras
E deliciaram-se com a ambrosia
e sorveram os vinhos do Paraíso
Portanto sabem com precisão
como algo belo é uma jóia
rara rara
e como nunca nunca
poderá desvanecer-se
num investimento sem tostão

Oh não jamais deitei

em Regaços da Beleza como esses
receoso de levantar-me à noite
com medo de perder de alguma forma
algum movimento que a beleza pudesse esboçar
No entanto dormi com a beleza
da minha própria e bizarra maneira
e aprontei uma ou duas cenas muito loucas
com a beleza em minha cama
e daí transbordou um poema ou dois
para esse mundo que parece o de Bosch
20.

Na confeitaria barata para além do El*
foi onde pela primeira vez

me apaixonei
pela irrealidade

Os drops reluziam na semi-obscuridade
daquele entardecer de setembro
Um gato deslizava sobre o balcão entre

pirulitos
e pães de forma
e Oh chicletes de bola

Lá fora as folhas caíam ao morrerem
O vento soprava para longe o sol

Uma garota entrou apressada
O cabelo molhado pela chuva
Seus seios sufocando na loja minúscula

Lá fora as folhas caíam
e gritavam

Cedo demais! Cedo demais!

*El: a elevada do metrô.(N. do T.)

28
Dove sta amoré
Donde está o amor
Dove sta amoré
Aqui jaz o amor
Amora jazz amor
Num lírico encanto
Cantos de amor da serra
Canto que em si se encerra
Cantos de cor singela
Cantos de dor sincera
À noite pelos cantos
Dove sta amoré
Aqui jaz o amor
Amora jazz amor
Aqui jaz o amor

Tradução dos poemas: Eduardo Bueno
Um vídeo de Felinghetti:
Participação do poeta com “Last Prayer” no último show da The Band, grupo que ficou famoso por acompanhar Bob Dylan
-Conheça o livro “O uivo” de Allen GinsbergUm quadro de Ferlinghetti:

Samothrace with Rainbow, 1992, Lawrence Ferlinghetti


O americano Lawrence Ferlinghetti (24/03/1919) é poeta, tradutor, pintor e co-fundador da editora e livraria City Lights, responsável pelo lançamento de diversas obras fundamentais da literatura beat. Seu trabalho mais famoso é “Um parque de diversões da cabeça”, de 1958.

-Conheça “Trópico de Capricórnio” de Henry Miller
, lançado nos EUA por Lawrence Ferlinghetti
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