O incrível encontro de Allen Ginsberg e Jello Biafra

 

Jello Biafra em foto de Allen Ginsberg

Jello Biafra em foto de Allen Ginsberg

O escritor Allen Ginsberg foi uma espécie de embaixador da cultura alternativa mundial. Um dos criadores da literatura beat; Ginsberg foi processado por seu livro “O Uivo”, virou personagem no clássico “On The Road” de Jack Kerouac, montou uma banda de punk rock, virou amigo de Bob Dylan e apoiou o papa do LSD Timothy Leary. O poeta beat também ficou ao lado da banda Dead Kennedys, quando eles foram processados sob a acusação de distribuir pornografia, e tirou essa foto acima do vocalista dos Kennedys, Jello Biafra. Biafra é um dos maiores nomes do punk rock mundial, famoso – também – por ter se candidatado a prefeito de San Francisco com uma plataforma que incluía obrigar os políticos a trabalharem com roupas de palhaço.

Você pode saber mais sobre a amizade do punk e do beat nesse incrível site sobre Allen Ginsberg aqui.

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-O pico de Allen Ginsberg com Sid Vicious no inferno

-Mais fotos tiradas por Allen Ginsberg

Pros que dançam em casa

publicado originalmente em 15 de Outubro de 2011

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

by @freddigiacomo

Eu celebro Wal Whitman e canto Walt Whitman
Porque cada átomo que pertence a ele, pertence a mim
Eu danço jazz em casa e minha dança é a dança do epilético
É a dança  do maníaco, é a dança do lunático.
Eu consigo ouvir John Coltrane como swing para chacoalhar o
Intelecto
Eu sou Bruce Lee diante do espelho.
E eu danço por cada fio que cai, perco meu cabelo.
Eu danço pelo velho senhor Branco e por Whitman
Eu danço por todos os mortos.
Eu danço por toda má poesia feita com vontade
Danço pelos babacas – Ah! Os babacas merecem o reino dos céus.
Dancem babacas, pois é vosso o reino dos céus.
Eu celebro o vinho a cada passo dado.
E a cada movimento harmônico que meu corpo perfeito dá.
Eu ando nas ruas da Teodoro Sampaio e julgo
Cada homem e cada mulher, tão perfeitos quanto Brad Pitt e
A própria deusa gelada Marilyn Monroe
Eu celebro o milagre caótico que é a vida.
Que somos nós respirando diariamente em nossas sinas.
Lutando para acordar e respirando no dia seguinte e no posterior.
O nordestino vendendo cintos de couro na rua
E o executivo apressado que passa com um terno vagabundo.
Os carros que um dia serão sucata, merecem ser dançados.
A fumaça entra pelas minhas narinas e envenena meus pulmões
O sol faz minha pele coçar, é dia – todos vamos trabalhar.
à noite teremos a dança e o álcool.
Bebem caninha nos botecos, whiskey nos puteiros e vinho nos mosteiros.
Carregam-se camisas com Guevara e o Conselheiro.
Pregam-se os milagres de Macedo, Jesus e Buda.
Pisoteiam as formigas, os besouros e os botões.
O avião barulhento rasga o sossego
Dos iPods que tocam canções de diversão.
Eu danço o cotidiano, danço o homem e a mulher.
Eu celebro um momento. Um segundo único.
Eu assisto o meu mundo e pouco interfiro.
Mas minha dança é minha marca. É meu único registro.

-Sim, quero ler mais dessa poesia estranha!

Poema escrito por Fred Di Giacomo, jornalista e autor do livro de contos “Canções para ninar adultos”, publicado pela editora Patuá em 2012.

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Jack Kerouack – Galeria de anti-heróis

-Uma imagem fala mais que mil segundas-feiras

Jack Kerouack em foto de Allen Ginsberg

Jack Kerouac (12 de Março de 1922 – 21 de Outubro de 1969), escritor.

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A terapeuta pergunta quem sou eu

freud-terapeuta

Um babaca olhando para um espelho quebrado.
Uma farsa procurando no âmago aquele moleque
Aquele fiapo de gente, sem dinheiro, sem chances
Mas com sonhos e dignidade.
Aquele pivete ainda está aqui, em algum lugar deste
Saco de ossos e pelos, nesses poros encharcados de desejo

Acordei decidido a ser eu mesmo. Mesmo que otário
Mesmo que fadado ao fracasso.
Parece uma decisão boba, não?
Mas ser você mesmo, nessa vida que se faz teatro
É um bocado arriscado.
A polícia psíquica quer te apagar
Te transformar no ser humano número 43.463.208-9
Brasileiro, branco, trabalhando todo dia para comprar sua felicidade na farmácia de satisfação e devaneios.
Mas que porra! Você não pode nem mesmo escrever o que pensa!
Pra ser feliz inventaram que você precisa de muita coisa.
Um carro novo, uma televisão de 69 polegadas, uma loira siliconada
Um bom emprego, viagens pro litoral, a pior cerveja da Bélgica importada
Dvds, cds, muitos livros, uma parede pintada de azul petróleo,
uma promoção a cada ano para não se sentir parado – fracassado.
Os melhores restaurantes com os piores preços
Um bom bairro para ser seu endereço

“Isso é papo de esquerdinha, seu merdinha”
É?
To pouco me fodendo pro Stálin, pro Fidel e até pro Karl – Marx.
Eu estou falando de felicidade, não de teoria.
Eu fui simples e satisfeito um dia.
Pode ser a simples sensação do trabalho feito.
Do dever cumprido.
O ponto final num poema. O fim do dia passado em uma coisa em que se acredita.
uma tarde de conversa com seus melhores amigos.
Deixo a parte que me cabe nesse latifúndio para vocês.
Me paguem em poesia.
Tudo que Henry queria era “um punhado de sonhos, um punhado de vulvas e um punhado de livros”.
Tenho todos os volumes que preciso estocados em bibliotecas desertas e em bytes na rede.
Não preciso mais de um punhado de vulvas, mas preciso um punhado da minha vulva dela
E os sonhos… Ah, eles continuam explodindo nas minhas noites insones.
Fazendo uma fila gigantesca na minha porta que dobra as esquinas das sinas
Aguardando ansiosos, só pelo prazer de por um minuto, só pela chance, só

Para serem vividos.

Um parque de diversões da cabeça – Lawrence Ferlinghetti

Selecionei aqui três poemas do livro “Um parque de diversões da cabeça” e mais alguns quadros do poeta beat Lawrence Ferlinghetti

Lawrence_Ferlinghetti_House_Boat_Days_Never_Play_Cards_with_a_Guy_Called_787_64
House Boat Days Never Play Cards with a Guy Called Doc 1993


10
.


Em toda minha vida jamais deitei com a beleza
confidenciando a mim mesmo
seus encantos exuberantes
Jamais deitei com a beleza em toda a minha vida
e tampouco menti junto a ela
confidenciando a mim mesmo
como a beleza jamais morre
mas jaz afastada
entre os aborígenes
da arte
e paira muito acima dos campos de batalhas
do amor
Ela está acima disto tudo
oh sim
Está sentada no mais seleto dos
bancos do templo
lá onde os diretores de arte encontram-se
para escolher o que há de ficar eterno
E eles sim deitaram-se com a beleza
suas vidas inteiras
E deliciaram-se com a ambrosia
e sorveram os vinhos do Paraíso
Portanto sabem com precisão
como algo belo é uma jóia
rara rara
e como nunca nunca
poderá desvanecer-se
num investimento sem tostão

Oh não jamais deitei

em Regaços da Beleza como esses
receoso de levantar-me à noite
com medo de perder de alguma forma
algum movimento que a beleza pudesse esboçar
No entanto dormi com a beleza
da minha própria e bizarra maneira
e aprontei uma ou duas cenas muito loucas
com a beleza em minha cama
e daí transbordou um poema ou dois
para esse mundo que parece o de Bosch
20.

Na confeitaria barata para além do El*
foi onde pela primeira vez

me apaixonei
pela irrealidade

Os drops reluziam na semi-obscuridade
daquele entardecer de setembro
Um gato deslizava sobre o balcão entre

pirulitos
e pães de forma
e Oh chicletes de bola

Lá fora as folhas caíam ao morrerem
O vento soprava para longe o sol

Uma garota entrou apressada
O cabelo molhado pela chuva
Seus seios sufocando na loja minúscula

Lá fora as folhas caíam
e gritavam

Cedo demais! Cedo demais!

*El: a elevada do metrô.(N. do T.)

28
Dove sta amoré
Donde está o amor
Dove sta amoré
Aqui jaz o amor
Amora jazz amor
Num lírico encanto
Cantos de amor da serra
Canto que em si se encerra
Cantos de cor singela
Cantos de dor sincera
À noite pelos cantos
Dove sta amoré
Aqui jaz o amor
Amora jazz amor
Aqui jaz o amor

Tradução dos poemas: Eduardo Bueno
Um vídeo de Felinghetti:
Participação do poeta com “Last Prayer” no último show da The Band, grupo que ficou famoso por acompanhar Bob Dylan
-Conheça o livro “O uivo” de Allen GinsbergUm quadro de Ferlinghetti:

Samothrace with Rainbow, 1992, Lawrence Ferlinghetti


O americano Lawrence Ferlinghetti (24/03/1919) é poeta, tradutor, pintor e co-fundador da editora e livraria City Lights, responsável pelo lançamento de diversas obras fundamentais da literatura beat. Seu trabalho mais famoso é “Um parque de diversões da cabeça”, de 1958.

-Conheça “Trópico de Capricórnio” de Henry Miller
, lançado nos EUA por Lawrence Ferlinghetti

Ulysses fugiu da Grécia atrás das garotas negras de Coltrane

-Leia mais poesias

Espeto a vitrola que gemendo espirra música carola
Injeta em meu cérebro o jazz espiritual de Coltrane
Já achei calmo, bonito e triste – incrível,
Como um punhado de notas matémáticas pode ter
Múltiplos significados estéticos
As garotas negras vão dançando com ritmo, no swing do sax – tem peitos empinados as garotas
Lou Reed também gosta de garotas de cor porque elas cantam tchu ru ru
Um whiskey por favor, e mais um solo de Coltrane no céu
Leio Allen Ginsberg, um poemo louco e alado como um deus
Leio Chester Himes um romance de dourados mistérios como a madrugadora
Aurora, aquela das belas tranças
Transei Odisséias, mas não tracei Ulysses
Joyce é um chato careca quatro olhos, escrevendo suas linhas tortas
Gosto de torta na cara, como nos “Três Patetas”, mas também gosto da bengala bêbada do bepop de Betty Boop
Betty Page tem peitos, quem tem bengala é Charles Chaplin
Mas hoje não estou mais cego, posso enxergar a vida tão real quando um filme
Definição em tela plana, a vida me parece bem mais simples que uma equação.
Me parece um solinho punk daqueles bem alegres, que você assobia feito um doido na rua.
Os pássaros cantam, e as bichas e as mulheres aladas, e meu peido é melodioso quando como feijão com Chet Baker
Ontem devorei um filme do Polanski, acho que era sobre sexo.

REPULSA ao sexo

Eu também já senti peso católico na consciência Cristã de minhas costas curvas
Sabe, sexo seduz sempre sentindo o ser. Serei sereno e sincero
Num orgasmo cósmico criarei o universo que morrerá comigo
Meu mundo é um milhão de idéias que não consigo ecrever, de bytes, de cores, de sons e cheiros
Os filmes que eu vi, as músicas que eu ouvi, as dores que eu senti, clichês que escrevi.
As lágrimas que você quis que eu vertesse ao vivo e a cores, seu cheiro forte depois do sexo.
Tudo isso vai acabar comigo numa hecatombe onírica, no meu aniversário de 100 anos.
E ai ficarão para a história os beijos, os peidos, os livros de Bukowski, a Sessão da Tarde
As cervejas e brigadeiros, o gelo dos EUA e o calor do Mato Grosso.
Meu deus que gostoso é viver assim, com a vitrola rodando, o fumo queimando e você me amando – Fim.

“Sentir é mais importante que pensar”, decreta o Ciclope – eu calo – com o cérebro no falo

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Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais”. Ele toca, também, na Banda de Bolso.

Leia também:
-Resenha da “Odisséia”, de Homero


-Poemas beat de Lawrence Ferlinghetti

O pico de Allen Ginsberg com Sid Vicious no Inferno

(Ficou assim)

O pico de Allen Ginsberg com Sid Vicious no Inferno
Existe coisa mais junkie,
Que poesia beat
E música punk?

(Era assim)
Existe coisa mais junky,
Que música beat
E poesia punk?

sidtoy

 

Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais

O Uivo – Allen Ginsberg

Escrevi isso pro site do Eduardo(ECM ou Lúcio), o extinto Watchtower. Tinha lá meus 19 anos, mas ainda concordo:
Sobrevivendo no Inferno.
Resenha do clássico beat “O Uivo e outros poemas” de Allen Ginsberg.

“Eu vi os expoentes da minha geração, destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus…”.

Willian Borroughs é adorado no rock n’ roll, tomou picos com os punks e gravou uma música com o U2, mas a literatura beatnik se abriu pra mim com “O Uivo e outros poemas”, obra que conquistou milhões de leitores e tornou seu autor mundialmente famoso. Ginsberg pode ter conhecido a aprovação e a popularidade de um autor consagrado, mas nunca deixou de lado seu estilo “pervertido”, seus versos longos, sua acidez que o enquadram na poesia marginal. Homossexual, usuário de drogas, filho de uma comunista com que teve uma relação delicada, o autor escreveu sua obra num período pré-libertação hippie, segunda metade da década de cinqüenta, quando ainda se sentiam os ecos do Macarthismo e toda paranóia da Guerra Fria. Perseguido e processado pela direita puritana americana e sem o apoio dos ortodoxos da esquerda, Ginsberg escrevia tudo em ritmo de fluxo psicológico, versos grandes que eram na verdade um apanhado de versos menores,como se cada uma de suas poesias fosse um conjunto de pequenos poemas representados por cada parágrafo. De um lado há a escrita coloquial, com uso de linguagem crua, referências a órgãos sexuais, sodomia, drogas e muito jazz, do outro as diversas citações de autores e trechos da liturgia hebraica que demonstram a erudição do poeta,ou como Cláudio Willer escreve em sua apresentação, que os beats se tornaram escritores por serem antes de tudo leitores.

“O Uivo” é um grito de derrota, de revolta, um relato autobiográfico de quem passou por internações em hospitais, de quem viu o horror com os olhos. Autobiográficos são todos os poemas do autor como “Kaddish para Naomi Ginsberg”, escrito para sua própria mãe, um longo poema marcado pela dor, onde ele relata sua conturbada relação edipiana, desde os tempos da militância no Partido Comunista, depois enlouquecida e paranóica, entrando e saindo de instituições psiquiátricas(destino repetido pelo filho), até sua morte. Tudo escrito sem pudor, com a caneta espirrando sangue, a ironia impregnando o papel, pintando o irmão, Eugene, como um advogado fracassado, a figura paterna distante, a mãe hora motivo de repúdio, ora de desejo.
Ginsberg foi um autor que aprendeu a escrever, não só com a literatura, mas também com a vida. Escreveu “O Uivo” depois de sair de Nova York, ter conhecido o mundo trabalhando em um navio e ter chegado à Califórnia onde conheceu Ferlinghetti e Gary Snider, entre outros. Foi internado em instituições psiquiátricas, andou com traficantes e junkies pelas ruas dos Estados Unidos. Seus versos têm o lirismo das calçadas sujas, dos becos, as rimas alteradas pelas drogas, os (anti) heróis são seus amigos beats, seu companheiro no hospício Carl Solomon e Neal Cassady, o “NC”, amante de Ginsberg e Kerouac (com quem viveu um triângulo amoroso, envolvendo a mulher do escritor) e morto de overdose.

A poesia anárquica de Ginsberg é revolucionária, sem ser partidária, retrata a morte sem lamentações, como uma superação. O poeta passa por toda realidade como um sobrevivente. A vida é curta e ele a viveu da forma mais intensa, o que importa é o instante, já que como Ginsberg diz “o universo morre conosco”.

Fred Di Giacomo 09/08/03
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