Minha cidade era pequena como minhas ambições – Fred Di Giacomo

Minha cidade era pequena como minhas ambições. Havia um posto de gasolina, uma igreja luterana, dois prédios de 6 andares, três farmácias concorrentes. Houve uma vez um circo itinerante. No circo eles não tinham elefantes, equilibristas, nem mágicos. Eles tinham pequenas aberrações e uma câmara de pesadelos.

***

Nunca levei meus sonhos muito a sério. Sonhos pra mim consistiam numa sessão noturna de cinema grátis proporcionada por meu cérebro. Minha cidade já não tinha cinema algum. Repetindo a sina de tantas outras salas, a que aqui existia virou igreja evangélica. Aliás, foi no extinto “Cine Kane” que um dia assisti “Batman: Returns”, do Tim Burton, antagonizado por um Pinguim realmente assustador, vivido por Danny DeVito. Aquela matinê foi minha primeira vez no cinema. Por 10 anos sonhei com a cena final do filme, na qual o vilão morto é carregado em direção às águas geladas de um rio por uma legião de enlutados pinguins.

Daí em diante, nunca mais sonhei.

***

Um dos poucos retratos conhecidos da trupe do Circo D'Arca, sem data conhecida.


Não sonhar me deixou tremendamente excitado com a ideia da “Câmara de Pesadelos Ocultos” do “Circo Arkham”. Arkham era um nome muito difícil de pronunciar e os caipiras da minha cidade preferiam chamá-lo de “Circo d’ Arca”, em referência à “Câmara”. Além da Arca, as atrações deste distinto freak show incluíam um macaco de olhos injetados (que utilizava uma pequena asa delta para dar rasantes muito próximos às cabeças do público), um anão, uma mulher-barbada, um lutador de kung fu, um sonâmbulo que adivinhava o futuro e um suposto “Homem-Elefante”. Cético, papai garantia ser tudo armação:

_Efeitos especiais, garoto, o mundo são ilusões cuspidas por computadores.

Sobre o “macaco alado”, o que vocês já sabem: o animal tinha olhos injetados. Esqueçamos os olhos, concentremo-nos em suas cordas vocais: o pequeno símio gritava histericamente enquanto planava sobre nossas massas encefálicas. Seu grito era humano. Por causa dessa humanidade latente naquele serzinho – que se vestia como um antigo ascensorista de hotel, chapeuzinho vermelho caído de lado na cabeça e fardão combinando – julgávamos que ele pudesse ser filho do Anão. Sim, o pequeno Anão, líder daquela trupe, o pequeno Anão que berrava na entrada do circo:

_Bem-vindos, garotos, ao mundo do bizarro e do sobrenatural! Não tenham medo, bravos garotos do interior. Deixem que Cesare lhes leia o futuro nos olhos. Nosso sonâmbulo nunca erra… Nem nunca inventa verdades! Ou, então, se forem realmente corajosos, provem os delírios da “Câmara de Pesadelos Obscuros”.

O Anão não tinha barba, não tinha asa delta, não tinha força e não tinha nem um metro de altura. Ele e o macaco eram minhas atrações favoritas no circo. Compactas e intensas.

***
Conseguiram manter nossa ansiedade encaixotada até que o primeiro adolescente experimentasse a “Arca”. Então, nos tornamos viciados em medo.

***

Pense rápido: qual é seu pior pesadelo?

***

O pior pesadelo de Pedro Plínio envolvia uma grande leitoa grávida. Sem anestesia, homens parecidos com médicos abriam a porca com um bisturi. A mamãe suína guinchava de dor. Um homem muito grande entrava no recinto segurando Pedro Plínio pelo pescoço e obrigava o rapaz a se enfiar na barriga da porca que estrebuchava. Espremido entre os porquinhos natimortos, ele se encolhia em posição fetal, enquanto a barriga materna era costurada. Afogado em vísceras, ele acordava com apinéia.

***

Sem saber explicar exatamente por que, Pedro Plínio assistiu seu pior pesadelo repetir-se 12 vezes em um único dia. Quando o “Circo Arca” deixou a cidade, Pedro Plínio seguiu-o com os olhos esbugalhados, a barba rala, um canto de cuspe na boca e nenhum dinheiro no bolso. O parco orçamento como açougueiro queimou-se em sessões diárias de horror.

Assim como Pedro, os jovens da cidade tinha sede de novidades e emoções fortes. Todos vangloriavam-se por terem andado nas maiores montanhas-russas da região, por tirarem rachas de carro nas estradas e por comerem as virgens dos sítios no pêlo e sem medo de pais brabos. Não podiam resistir à tentação de experimentarem a câmara de pesadelos.

***
As sessões eram individuais, duravam 15 minutos e deviam ser pagas com antecedência. Seus piores pesadelos ou seu dinheiro de volta. Pesadelos são uma alta descarga de adrenalina, uma sensação que nenhuma outra droga lhe dá. Eu sei. Eu experimentei. E depois tentei:

LSD- mescalina – maconha – álcool – barbitúricos – cocaína – peyote – daime – lança-perfume – doce – bala – ópio – televisão – sexo pago – internet.

***
Nosso grande sonho era ter as 20 pratas necessárias para uma pequena sessão de terror naquela caixa obscura e apertada. Com o tempo, os preços foram inflacionando: 35, 40, 50… Até chegarem ao absurdo de 100 pratas POR SESSÃO. Três meses depois do início daquela febre, o Circo Arca deixou nossa pequena vila empobrecida. Levavam em seus trailers nossos salários, nossos modernos televisores, nossos porcos, galinhas e algumas de nossas mais belas crianças. Não que todos os pais tenham seguido o exemplo de Endrigo Borges, que trocou a delicada filha de 15 anos por 3 sessões extra de seu pesadelo favorito. Aparentemente, Endrigo sonhava estar em uma bela ilha grega, de frente para o azul tranquilo do mar Egeu, no interior de uma casinha branca encravada nas montanhas vulcânicas. Cercado por primaveras de folhas verdes e flores róseas, Endrigo Borges era seviciado por uma mulher gigante e farta que empalava-o com um salto agulha finíssimo. A dor, no entanto, era provocada por uma pequena formiga que lhe devorava o globo ocular.

Imaginar a pequena Margarida Borges nas mãos daquele Anão monstruoso me enche de tristeza. No entanto, a maioria das crianças deixou nossa tribo e seguiu o Circo por livre e espontânea vontade. Hipnotizadas, elas marcharam pelo interior do país em direção ao norte, atrás de seus piores pesadelos, tal qual a lenda do “Flautista de Hamelin”.

***
Em casa, comentários sobre a Arca eram proibidos por papai. Não se falava no assunto, mas ele enchia o vazio de nossas conversas. O número de crimes, de internações, de histórias pervertidas que rondavam a cidade parecia aumentar, mesmo que ninguém tivesse dados ou estatísticas oficiais. Alguns defendiam a Arca como terapia holística e medicina alternativa, diziam que uma pessoa que desfrutava de suas sessões não tinha motivos para cometer qualquer perversão na vida real. As experiências vividas naquele pequeno espaço serviriam como a própria realidade.

***
Estive lá algumas vezes, confesso. Reencontrei-me com o funeral de pinguins levando um homem morto para águas geladas. No entanto, o homem não era mais um vilão dos quadrinhos. Em despeito da ambientação gótica, das grandes torres, da névoa e do cheiro de frio, não estávamos em uma história do Batman. O homem que os pinguins carregavam era meu pai. Por semanas paguei pra ver meu velho ser enterrado. E eu sorria, enquanto as lágrimas escorriam de meus olhos. A dor era tão funda, a carne lacerada era tão cara a mim, que aquele raio de dissabor atravessava a realidade e era cuspido do outro lado como um prazer inalcançável. E esse prazer… Esse prazer era o inconfessável.

***

No dia em que a Arca me presenteou um pesadelo no qual eu e meu pai éramos esquartejados, enquanto uma tribo de hunos violentos violava minha mãe, minhas tias e minha pequena irmã, eu resolvi desistir do Circo. Instantes depois, fui tomado pelas crises de abstinência.

***

Um cheiro de açúcar no ar – chovera. Papai caminha em direção ao circo. Acha que em casa todos dormem.

Meus olhos evitam cerrar-se. Eu espreito o velho na noite. Com que direito? Quem sou eu para julgar o homem que eu enterrei em meus sonhos tantas vezes seguidas? A cada passo dado, cada passo cansado, as solas grandes de meu pai afundam quentes na lama fria. Seus ombros curvados levam – pesada – a culpa do mundo.

Quando papai passou a subtrair jantares de sua rotina, quando a barba tomou lugar em sua face como mato selvagem que cresce em terrenos baldios, quando gritos de terror passaram a serem ouvidos em nossa casa em plena madrugada; então eu soube que toda decência da cidade havia ser perdido.

***

Envergonhado, com a cabeça baixa, o ex-homem bom dá suas notas amassadas para o Anão asqueroso. Aguardo alguns segundos. Um sorriso torpe do pequenino capataz assente que eu entre junto por uma quantia generosa. Preciso descobrir qual pesadelo pesa pro meu pai. Dentro da câmara escura, entre o cheiro de mofo e o gelo seco, meu velho se encolhe – retraído. Ali, no nada, suas retinas filmam seu devaneio favorito:

Por mais uma noite seguida, ele é vítima dos olhos decepcionados do seu filho, que o flagra na fraqueza do vício. Tão humano que dá nojo.

O ombudsman do universo lança as dores do mundo ao mar

Todas as histórias tristes
Que botaram nas minhas costas para carregar
Queria deixar
No mar
E que, como lágrimas de desengano,
Elas passassem também a ser
Oceano

Às vezes choro nos ombros alheios, mas muitas vezes meus ombros pesam, por servirem como Ombudsman do universo. Alivio a tensão neste bloguinho e seus textos chorões e seresteiros. Mais disso no livro ainda não publicado “O Melhor de mim mesmo“.

foto by @freddigiacomo

Veja também:

-Compre meu livro “Canções para ninar adultos”

– Leia mais poesias
-Conheça “Gaiola” da Banda de Bolso 

 

Publicado originalmente em 23 de Outubro de 2011

PornoHaiKai

Triste e fria espera
Para alojar-me quente,
Entre suas pernas

originalmente postado em 12 de Abril de 2012

A difícil decisão...

Um pornohaikai pra aquecer os corações destes leitores Punk Bregas. E exijam nas editoras um livrinho de @freddigiacomo com uma compilação de poesias crocantes. Enquanto isso, dá pra comprar meu primeiro livro de contos o “Canções para ninar adultos“, hein?

Veja também:
-Mais poesias
-Quando corpos entrelaçados viram versos
-Leia mais – dos meus haikais 

Pros que dançam em casa

publicado originalmente em 15 de Outubro de 2011

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

by @freddigiacomo

Eu celebro Wal Whitman e canto Walt Whitman
Porque cada átomo que pertence a ele, pertence a mim
Eu danço jazz em casa e minha dança é a dança do epilético
É a dança  do maníaco, é a dança do lunático.
Eu consigo ouvir John Coltrane como swing para chacoalhar o
Intelecto
Eu sou Bruce Lee diante do espelho.
E eu danço por cada fio que cai, perco meu cabelo.
Eu danço pelo velho senhor Branco e por Whitman
Eu danço por todos os mortos.
Eu danço por toda má poesia feita com vontade
Danço pelos babacas – Ah! Os babacas merecem o reino dos céus.
Dancem babacas, pois é vosso o reino dos céus.
Eu celebro o vinho a cada passo dado.
E a cada movimento harmônico que meu corpo perfeito dá.
Eu ando nas ruas da Teodoro Sampaio e julgo
Cada homem e cada mulher, tão perfeitos quanto Brad Pitt e
A própria deusa gelada Marilyn Monroe
Eu celebro o milagre caótico que é a vida.
Que somos nós respirando diariamente em nossas sinas.
Lutando para acordar e respirando no dia seguinte e no posterior.
O nordestino vendendo cintos de couro na rua
E o executivo apressado que passa com um terno vagabundo.
Os carros que um dia serão sucata, merecem ser dançados.
A fumaça entra pelas minhas narinas e envenena meus pulmões
O sol faz minha pele coçar, é dia – todos vamos trabalhar.
à noite teremos a dança e o álcool.
Bebem caninha nos botecos, whiskey nos puteiros e vinho nos mosteiros.
Carregam-se camisas com Guevara e o Conselheiro.
Pregam-se os milagres de Macedo, Jesus e Buda.
Pisoteiam as formigas, os besouros e os botões.
O avião barulhento rasga o sossego
Dos iPods que tocam canções de diversão.
Eu danço o cotidiano, danço o homem e a mulher.
Eu celebro um momento. Um segundo único.
Eu assisto o meu mundo e pouco interfiro.
Mas minha dança é minha marca. É meu único registro.

-Sim, quero ler mais dessa poesia estranha!

Poema escrito por Fred Di Giacomo, jornalista e autor do livro de contos “Canções para ninar adultos”, publicado pela editora Patuá em 2012.

Veja também:
-Quer comprar meu livro?

-Dos gênios e dos astros eu só compartilho o fracasso
-Conheça o meu primeiro livro
-Curte contos e crônicas? Leia alguns aqui!

“Penápolis” – poema de Fred Di Giacomo

originalmente postado em 19 de Agosto de 2009

A igrejinha de Penápolis

Gosto da luz de Penápolis
Quente e intensa
O cinza de São Paulo
Não compensa

Oratório criado pela artista plástica penapolense Cecília Di Giacomo

Poema escrito pelo jornalista penapolense Fred Di Giacomo, autor do livro de contos “Canções para ninar adultos”, publicado em 2012 pela editora Patuá.

Veja também:
-Quer comprar meu livro?

-Dos gênios e dos astros eu só compartilho o fracasso
-Conheça o meu primeiro livro
-Curte contos e crônicas? Leia alguns aqui!

Instant Happiness – trecho do livro “Canções para ninar adultos”

Este trecho faz parte do conto Instant Happiness do livro “Canções para ninar adultos”. Compre o livro aqui!

-Outros contos

(…)

Kiko1984:
Você acha que por baixo de todo esse néon – todo esse glitter – a gente vai encontrar a felicidade?
Jef – Paranoid Android:Encontrar o q?
Kiko1984:A felicidade.
Jef – Paranoid Android:Ser feliz na vida mesmo, ou tipo descolar cocaína? 😛
Kiko1984:Na vida. Alegria artificial, não. Eu digo, sei lá… To meio bêbado.
Jef – Paranoid Android:Hum… A Pri tá aí?
Kiko1984:Tá sim, tá dormindo atrás de mim. Acho ela mais bonita ainda dormindo… Parece uma foto, saca? Congelada no sono. Dá vontade de ser uma pessoa melhor por causa dela, hehehe.
Jef – Paranoid Android:Então, para de blablabla e liga a webcam…
Kiko1984:Pra q?
Jef – Paranoid Android:Um pouco de descontração: vou mostrar meu grande e belo pa…
Kiko1984:Para, Jef! Vai que a Pri acorda…
Jef – Paranoid Android:Ah, vc bem que curtiu ver esse monumento ao vivo, na loucura de Viena, hein, Kiko? 😉
Kiko1984:Foi só com vc, mano. Para, eu gosto de mulher, para com isso!!!!! Se a Pri acordar…
Jef – Paranoid Android:Acorda nada… Olha pra cá, olha.
Kiko1984:Vai se foder, mano! Vou te bloquear nessa porra. Desiste de me comer, Jef.

Jef – Paranoid Android:Tá bom, tá bom, não precisa ficar putinho, vou voltar a ser o amigo gay comportado.Fala aí da sua grande crise existencial.
Kiko1984:
Jef – Paranoid Android:
Ih, Kiko, você já foi mais leve, hein? Tá precisando voltar a fazer Pilates, querido, assistir um filme bom, bater punheta… Quer que eu peça perdão de joelhos? Olha só, ó: to ajoelhado. E minhas intenções são decentes. Confesso que pequei. Juro, por São Sebastião, nunca mais seduzir um pobre amigo hetero convicto. Serei apenas a bichinha sensível que ouve suas dores e….
Kiko1984:Hehehehe, para, seu tonto.
Jef – Paranoid Android:Ufa, achei que você ia virar um homofóbico enrustido e aparecer na minha casa com uma lâmpada na mão pra arrebentar minha pobre cabecinha genial. Se tomar tal atitude, please, publique o livro que está no meu computador na óbvia pasta “literatura”. O nome é “Instant Happiness” e fala – coincidência – sobre a busca pela felicidade.
Kiko1984:Não viaja, Jef. Pare de escrever merda e presta atenção. Tava pensando aqui. Será que a gente tem chance de ser feliz? Tem o direito à felicidade, mas só não sabe como? Será que a felicidade está passando na nossa frente que nem um patinho numa barraca de tiro ao alvo, só que a gente não consegue acertar? A gente fica viajando que nosso sonhos são muito improváveis e que só grandes coisas poderiam fazer a gente feliz – tipo morar um ano na Europa, fazer um mochilão pelo mundo…
Jef – Paranoid Android:Ou publicar um livro, dirigir um filme, montar um restaurante vegetariano. 🙂
Kiko1984:Isso, as coisas talvez sejam mais simples. Como uma musiquinha fofinha do Little Joy.
Jef – Paranoid Android:Música é vida! Tô com Mika na cabeça hoje. Também é música alegre, neam?
Kiko1984:Às vezes eu olho daqui, da janela do meu quarto, no vigésimo andar, e me dá uma vontade de pular. Tipo um imã puxando pra baixo, pro fim, eu acho…
Jef – Paranoid Android:Pára, Kiko!!! Assim você me deixa preocupado… Parou a terapia?
Kiko1984:Não, não é uma coisa racional. Porque, teoricamente, eu sou feliz. Teoricamente não tem nada errado na minha vida, saca?
Jef – Paranoid Android:Não tem mesmo. Escuta, gato, quem tem que ficar se perguntando se é feliz ou não – pensando em como alcançar a felicidade – é o porteiro do meu prédio. Ele rala. A gente vive num videoclipe, Kiko. A gente SÓ tem motivo pra ser feliz, neam?

Kiko1984:É, é sim…

(…)

Kiko1984:Então, por que a gente não consegue?

Foto + texto: @freddigiacomo

-Leia e dance

 

TIC-TAC, o maior anão do mundo.

publicado originalmente em 2 de Outubro de 2007

Tic-Tac, tic-tac. O anão. Ah, não! Não cabia mais em seu próprio corpo. Sentia medo, sentia amor, sentia idéias novas e sentia muito.
Tic-Tac, tic-tac. Era o coração do anão batendo. Coração gigante, que já não cabia naquele peitozinho frágil.
Tic-Tac, tic-tac. O maior anão do mundo era o menor gigante também. Um pequeno homem com alma de titã.
Tic-Tac, tic-tac. A cabeça doendo, o sexo querendo. O coração desejando. Era os minutos no relógio , a batida do Carnaval, os tiros no morro.
Tic-Tac, tic-tac. Seu corpo já não agüentava o peso da alma, a força das asas. O espírito queria lhe fugir pela boca. O pequenino o segurava com as mãos. Fechava os dentes para não cuspir o âmago.
Tic-Tac, tic-tac.Caminhava rápido pela rua, virando depressa como sempre. Sentia-se mal, sentia-se…
Tic-Tac, tic-tac. E finalmente aconteceu, como um orgasmo eletrônico. Agora feliz percebeu: crescia sem parar.
Tic-Tac, tic-tac. BUM! Explodiu numa noite carioca o primeiro homem bomba do subúrbio fluminense.
06/02/05.

Um anão terrorista do mundo real

 

Dos orgasmos que pintei

E que fazer?
Se das mais bonitas coisas
que fiz
A maioria foram orgasmos
E olhos pálidos
Que colori
feliz

orgasmo-imperio-sentidos

Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais”. Ele toca, também, na Banda de Bolso.

A terapeuta pergunta quem sou eu

freud-terapeuta

Um babaca olhando para um espelho quebrado.
Uma farsa procurando no âmago aquele moleque
Aquele fiapo de gente, sem dinheiro, sem chances
Mas com sonhos e dignidade.
Aquele pivete ainda está aqui, em algum lugar deste
Saco de ossos e pelos, nesses poros encharcados de desejo

Acordei decidido a ser eu mesmo. Mesmo que otário
Mesmo que fadado ao fracasso.
Parece uma decisão boba, não?
Mas ser você mesmo, nessa vida que se faz teatro
É um bocado arriscado.
A polícia psíquica quer te apagar
Te transformar no ser humano número 43.463.208-9
Brasileiro, branco, trabalhando todo dia para comprar sua felicidade na farmácia de satisfação e devaneios.
Mas que porra! Você não pode nem mesmo escrever o que pensa!
Pra ser feliz inventaram que você precisa de muita coisa.
Um carro novo, uma televisão de 69 polegadas, uma loira siliconada
Um bom emprego, viagens pro litoral, a pior cerveja da Bélgica importada
Dvds, cds, muitos livros, uma parede pintada de azul petróleo,
uma promoção a cada ano para não se sentir parado – fracassado.
Os melhores restaurantes com os piores preços
Um bom bairro para ser seu endereço

“Isso é papo de esquerdinha, seu merdinha”
É?
To pouco me fodendo pro Stálin, pro Fidel e até pro Karl – Marx.
Eu estou falando de felicidade, não de teoria.
Eu fui simples e satisfeito um dia.
Pode ser a simples sensação do trabalho feito.
Do dever cumprido.
O ponto final num poema. O fim do dia passado em uma coisa em que se acredita.
uma tarde de conversa com seus melhores amigos.
Deixo a parte que me cabe nesse latifúndio para vocês.
Me paguem em poesia.
Tudo que Henry queria era “um punhado de sonhos, um punhado de vulvas e um punhado de livros”.
Tenho todos os volumes que preciso estocados em bibliotecas desertas e em bytes na rede.
Não preciso mais de um punhado de vulvas, mas preciso um punhado da minha vulva dela
E os sonhos… Ah, eles continuam explodindo nas minhas noites insones.
Fazendo uma fila gigantesca na minha porta que dobra as esquinas das sinas
Aguardando ansiosos, só pelo prazer de por um minuto, só pela chance, só

Para serem vividos.

Bring me! (The S(h)AME)

mapplethorpe-self-portrait

 

Bring me!

The painters,the artists
The poetrys and the writters

Not the journalist or the designers
Not you, Mr Advertising

Bring me the flame
Not the same.

Oh, shame…

patti-smith-poeta

Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais”. Ele toca, também, na Banda de Bolso.

-Mais poemas

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