Assista a “Cidade Oculta” (1986), filme de Chico Botelho que mistura Will Eisner, vanguarda paulistana e rock n’ roll

Lá em Penápolis (interior de São Paulo), meus pais tinham uma bela coleção de  discos de vinil com vários clássicos da MPB, do rock e da música clássica, mas também algumas raridades. A trilha sonora do filme “Cidade Oculta”, dirigido por Chico Botelho, era uma delas. O filme era muito difícil de ser encontrado, por isso eu passei minha infância e adolescência ouvindo as músicas do Arrigo Barnabé (com participações de Ney Matogrosso, Patife Band e Tetê Spíndola), olhando as fotos do encarte e imaginando como seria aquela história cheia de punks, belas mulheres e tiras com armas.

Bom, graças ao Youtube, encontrei o “Cidade Oculta” completinho na internet. Você pode assisti-lo logo abaixo (enquanto ninguém tira do ar), e conhecer um pouco mais sobre a história e o enredo em minha apressada resenha que segue depois.

Confira o filme “Cidade Oculta” completo

Antes de rasgar elogios a este clássico do cinema paulista, deixe-me fazer alguma crítica ao filme de Chico Botelho. Primeiro um pouco de contexto: “Cidade Oculta” foi filmado em uma época de transição no cinema nacional; mais precisamente no gap entre o auge do Cinema Novo dos anos 70 e a retomada dos cinema nacional nos anos 90 com “Carlota Joaquina” (dirigido por Carla Camurati, protagonista de “Cidade  Oculta”). Neste período, o cinema brasileiro teve diversas fases “undrigrudis” cheias de boas intenções e com pouquíssimo dinheiro. Tivemos, por exemplo, o cinema marginal do genial Rogério Sganzerla, as pornochanchadas da Boca do Lixo, o cinema mais engajado do começo dos anos 80 (“Pixote”, “Eles não usam black tie” e “O Homem que virou suco”) e ,ainda,  o que se chama de cinema “pós-moderno” ou “neon-realismo” brasileiro. Nessa escola, destaca-se a trilogia da noite paulistana composta por “Cidade Oculta” (1986), de Chico Botelho, “Anjos da Noite” (1987), de Wilson Barros, e “A Dama do Cine Shanghai” (1988), de Guilherme de Almeida Prado. Particularmente, acho que “Cidade Oculta” também dialogo com erótico “O Olho Mágico do Amor”, principalmente por ambos se passarem em São Paulo, contarem com o mesma turma de atores (Arrigo Barnabé e Carla Camurati estão nos dois filmes, Sérgio Mamberti atua em “Olho Mágico” e seu irmão Cláudio em “Cidade”) e estarem recheados de participações de “celebridades malditas”. Bom, dado o contexto histórico, vale o aviso: “Cidade Oculta” não é uma superprodução. Seus cenários são simples, algumas atuações de personagens coadjuvantes são extremamente caricatas e o roteiro é às vezes simplório, dando “saltos” para resolver situações. (Exemplo: o protagonista Anjo acaba jurado de morte pelo policial Ratão por dar um soco na cara do tira em uma explosão de raiva pouco verosímil. A partir dai o policial passa a procurá-lo dia a noite, matando inclusive bastante gente no caminho).

Muito bem, se você está disposto a descontar esses tropeços, “Cidade Oculta” é um filme interessantíssimo e muito original que foge das regras do Cinema Novo e dos clichês de filmes brasileiros numa mistura frenética de quadrinhos, rock n’ roll e cinema noir. Ou seja, um “Sin City” lançando anos antes, um pré-Tarantino de terceiro mundo. O cenário aqui é urbano e futurista, uma São Paulo sombria cheia de punks, policiais corruptos, drogas, armas e boates de rock n’ roll. A inspiração pro roteiro sãos as HQs de Will Eisneir (especialmente seu detetive Spirit) e os filmes noir, como o clássico “O Falção Maltês/Relíquia Macabra”. Artistas de outras áreas colaboram fortemente no processo criativo o que rende ao filme um caráter multimídia e pop. O músico da vanguarda paulistana Arrigo Barnabé assinou a excelente trilha sonora, participou do roteiro e foi o ator principal. O cartunista Luis Gê (que desenhou a HQ “Tubarões Voadores” que vinha encartada com o disco do mesmo nome de Arrigo) também colaborou com a história. Os músicos Itamar  Assumpção, Clemente e Tonhão (da banda punk Inocentes) e a Patife Band fazem pontas. Jô Soares (que havia atuado em “A Mulher de Todos” de Sganzerla) faz uma participação especial, assim como o músico underground Goemon e Satã (ator que acompanhava Zé do Caixão em suas apresentações). As melhores atuações estão com a belíssima Carla Camurati (que interpreta a dançarina e criminosa Shirley Sombra) e o ótimo Cláudio Mamberti que vive Ratão – um policial junkie, campeão número 1 no combate às drogas. Em tempos de Bolsonaro bombando, o filme nunca pareceu tão atual.

A história conta o retorno de Anjo (Arrigo Barnabé) às ruas paulistanas depois de 7 anos de cana (situação que lembra um pouco  o filme “O Selvagem da Motocicleta” de Francis Ford Coppola) por roubo de muamba. Anjo reencontra seu antigo comparsa Japa (Celso Saiki) que lidera uma gangue de punks (na qual Clemente e Tonhão fazem pontas).  É Japa que apresenta pra Anjo a linda Shirley Sombra que dança sensualmente na boate SP Zero (na vida real a clássica “Madame Satã”). Numa briga, Anjo acerta o corrupto policial Ratão que o jura de morte e passa a persegui-lo pelas ruas sombrias de São Paulo. Inclusive, uma das melhores cenas é a que mostra Ratão (depois de tomar baque na veia) rodando de carro pela metrópole cinza atrás de Anjo, enquanto a trilha explode a versão de Arrigo para “Poema em Linha Reta“, de Fernando Pessoa. Destacam-se na trilha o dueto de Arrigo e Ney Matogrosso na bela “Mente, Mente”, o hit potencial de  “Pô, amar é importante” e a sombria música título.

Entre as referências não declaradas, ainda é possível captar ecos de “Warriors/Selvagens da Noite” (1979), cult futurista americano sobre gangues em Nova York. Assim com em “Warriors”, em alguns momentos a história de “Cidade Oculta” é interrompida por um “narrador”, no caso um ventríloquo com sotaque latino. Outras vezes o filme é cortado por flashbacks que explicam a história passada de Anjo e Japa. As duas produções têm como pano de fundo a metrópole, que aqui aparece em belas cenas do skyline paulistano, em tomadas do rio Pinheiros (ou seria o Tietê) podrão e em rondas noturnas pela Liberdade e pelo centro da cidade.

No geral, o clima do filme é pessimista, os jovens sonhadores são esmagados pelo rato conservador e quem se ergue sobre as ruínas é Shirley Sombra, uma femme fatale forte, que não precisa da proteção masculina no mundo. Vale observar como esse pessimismo reflete as sensações da geração que criou este filme, espremida entre os sonhos dos idealistas anos 70 e a prosperidade do Plano Real. A ditadura havia acabado de acabar, Sarney estava às voltas com a inflação de 76%, o punk paulista se dividia em brigas intermináveis (apesar de musicalmente ainda estar no auge) e a vanguarda paulista de Arrigo, Itamar Assumpção e Patife Band nunca vingou nas rádios. O próprio diretor Chico Botelho só dirigiu dois filmes e morreu precocemente em 1991, depois de voltar com febre do Pará. O ator Celso Saiki*, que vive o carismático Japa, faleceu de Aids ( mesma algoz de outros grandes da geração 80 como Renato Russo e Cazuza) em 1994.

No entanto, ficou  pra posteridade esta experiência de cinema brasileiro “pop marginal” –  fugindo dos clichês do Brasil tropical – e que serve de  retrato para a criativa cena oitentista da cidade de São Paulo, verdadeira protagonista do filme.

O artista underground Goemon em cena em que canta num karaokê da Liberdade

*Um adendo: Celso atuou também no filme “Gaijin” de Tizuka Yamasaki, no “Telcurso Primeiro Grau” da Globo e dirigiu teatro e episódios do programa “Bambalalão”, da TV Cultura. 

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