Como ficam a mídia e os jornalistas diante dos protestos no Brasil?

Dizia uma velha propaganda eleitoral: “eu tenho medo”. Eu também tenho medo: medo de perder o emprego. Isso mesmo, devo confessar minha covardia; toda vez que vejo explodirem protestos contra injustiças eu penso duas vezes para fazer comentários que possam comprometer meu emprego. Toda vez que a maior revista do Brasil escreve uma matéria distorcendo fatos, trocando notícias por opiniões e carregando em adjetivos preconceituosos eu me sinto amordaçado e não comento nada. Justo eu que sempre inventei fanzines, jornaizinhos e programas de rádio para dizer o que penso livremente. Mas, e agora, se eu falar o que penso poderei ser demitido?

Bom, nós temos “cumprido nosso dever” como jornalistas. Nossos chefes mandaram repórteres e fotógrafos para cobrir os protestos contra o aumento da passagem de ônibus. As notícias que me chegam são que um fotógrafo ficou cego e uma jornalista foi gravemente ferida pela truculência da Policia Militar (acostumada a espancar, matar e torturar rotineiramente nas periferias do estado). Um fotógrafo e uma jornalista que estavam TRABALHANDO. Cumprindo as ordens dos seus chefes. E o que nós recebemos em troca pelo sacrifício? Editoriais, colunas e blogs elogiando a violência sem sentido da PM que cega. E não podemos nem comentar em nossos Facebooks e Twitters pessoais por que temos medo de perder o emprego?

É engraçado porque, na faculdade, muitos dos meus colegas – de esquerda e de direita – escolheram a profissão porque achavam que podiam ajudar a mudar o Brasil. Podiam denunciar a corrupção, a violência e dar voz às grandes histórias que mereciam ser contadas. E a gente acusava os estudantes de engenharia de serem alienados. Mas agora os engenheiros constroem pontes e nós construímos o quê?

Então, no final, nós jornalistas somos como a PM? Cumprimos as ordens que servem para manter a ordem e voltamos para casa felizes por receber os nossos salários que nos permitem tomar uma cerveja importada, uma viagem pro exterior ou um iPhone novo? Somos a polícia militar do pensamento contando as mesmas histórias sempre sobre vândalos e bárbaros que querem destruir a ordem e o progresso? Bem, nós não concordamos com as próprias notícias que publicamos, claro, mas não temos direito de escrever as verdades que apuramos. Escrevemos o que nos pagam pra escrever? Afinal, temos que manter nossos empregos… No entanto, por mais dóceis que tenhamos sido (mais ponderados e obedientes ), nós estamos perdendo os empregos aos montes. Na Folha, no Estado, no Valor Econômico, na Abril, na Caros Amigos, na Trip… Quando a situação aperta jornalistas se tornam descartáveis. Um ponto a mais nas folhas de gastos como papel, luz ou aluguel. Agora não temos emprego nem dignidade dos tempos de faculdade.

E do outro lado?

Eles têm balas de borracha que nos cegam, gás de pimenta que nos sufocam, os maiores jornais e revistas do Brasil, todos reportando um só lado da história. Eu tenho essas simples e sinceras palavras. A dignidade que me resta me impede de continuar escondendo-as na garganta.

E você?

Leia análise de “A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen”, de Eugen Herrigel: o livro que apresentou o zen budismo para o mundo ocidental

A arte genuína não conhece nem fim nem intenção, Kenzo Awa

Capa da edição brasileira de “A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen”

O livro “A arte cavalheiresca do arqueiro zen”, do filósofo alemão Eugen Herrigel(1884-1955), tem o mérito de ser um dos principais responsáveis por introduzir e popularizar o pensamento zen budista no ocidente. Grande parte desse mérito se deve ao fato do livro ser curtíssimo (a edição da editora Pensamento tem 91 páginas) e escrito numa linguagem simples, que traduz os pensamentos do zen para leitores comuns.

Herriegl passou alguns anos(1924-1929) no Japão, ensinando filosofia na Tohoku Imperial University. Interessado no pensamento oriental, ele começou a estudar o kyudo (arte do arco e flecha) com o mestre Kenzô Awa (1880-1939), enquanto sua mulher estudava a arte dos arranjos florais.

Posteriormente, Herrigel relacionaria a arte do arqueirismo com o pensamento zen, produzindo uma série de estudos que dariam origem ao livro. A forma de relacionar um trabalho manual com o desenvolvimento espiritual (“… a obra interior que ele deve realizar é muito mais importante que as obras exteriores”) dialoga diretamente com livros posteriores que se inspirariam na obra de Herriegel, como o clássico “Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas” de Robert M. Pirsig, no qual o autor ensina que a escalada da montanha é muito mais importante que chegar ao cume.

Eugen Herrigel praticando arqueirismo

Muita viagem? Um trecho que resume bem a ideia do livro é essa fala do mestre Kenzo sobre o arqueirismo: “(…) não se deve envergonhar pelos tiros errados. Da mesma maneira, não deve felicitar-se pelos que se realizam plenamente. O senhor precisa libertar-se desse flutuar entre o prazer e o desprazer. Precisa aprender a sobrepor-se a ele com uma descontraída imparcialidade, alegrando-se como se outra pessoa tivesse feito aqueles disparos. Isso também tem que ser praticado incansavelmente, pois o senhor não imagina a importância que tem.”

Atingir o equilíbrio, evitar a busca pelo prazer ou tristeza pela falha, preocupar-se mais com o ato do que com suas conseqüências. Seguir os instintos. “Comer quando se tem vontade de comer e dormir quando se tem vontade de dormir”. O pensamento zen oriental, apresentado por Herrigel, pouco tem a ver com nossa forma pós-moderna e ocidental de viver. Mas é uma boa oportunidade de enxergar que toda regra é burra e que existem formas muito velhas de pensar, que parecem mais modernas que o hype que engolimos diariamente como a hóstia da nossa (não)religião descolada.

Compre o livro aqui e ajude nosso blog!

Veja também:
-A filosofia pop de “Zen e a Arte da Manutenção de motocicletas”
-Confira o lado ocidental do conhecimento na “Odisséia” de Homero

>Apocalypse Now: retrato existencialista de um dos maiores nadas da história

originalmente postado em Dezembro de 2007
>

Retrato existencialista de um dos maiores nadas da história

Flash 1: A visão área da mata tropical no sudeste asiático. Flash 2: Helicópteros bombardeiam uma aldeia de mulheres e crianças ao som das Valquírias de Wagner. Flash 3: Um assassino emerge do pântano com uma faca na mão. Flash 4: O horror!

A seqüência de imagens vêm a cabeça daqueles que assistiram Apocalipse Now(um dos clássicos do diretor Francis Ford Coppola) retrato acidamente poético da Guerra do Vietnã, relançado há algum tempo na “versão do diretor”.

Criticado por Glauber Rocha e elogiado por Paulo Francis, o longa-metragem lançado em 1979 deixou poucas pessoas neutras. Baseado no livro de Joseph Conrad(Coração das Trevas), o filme é um dos raros exemplares de adaptação que se iguala ou até supera a obra original. Para isso, Coppola mudou drasticamente o cenário: das selvas do Congo para o Vietnã, do período neocolonialista para a Guerra Fria. O enredo mantém os elementos básicos do romance; o coronel Kurtz está louco, Willard será o homem designado para eliminá-lo.

No longa, Kurtz – vivido pelo já gordo, mas não menos talentoso , Marlon Brando – é um personagem misterioso que teria visto o horror da guerra nos olhos e se tornado insano. Perdido na busca pela razão dos ser humano, o coronel acaba se tornando um assassino, aspirante a Deus, que passa a agir independentemente, nem ao lado dos americanos, nem ao lado dos vietcongues. Willard (vivido por Martin Sheen) é um capitão do exército sem laços com o mundo. (Recém separado da mulher sente que o Vietnã é “seu lar”.) Sua missão é secreta: terá que subir o rio com uma pequena tripulação(O sério chefe do barco; Clean, um adolescente negro; Lance, um surfista da Califórnia e Cheff, um cozinheiro de New Orleans.) até a divisa com o Camboja.
No caminho se desenrolará toda uma viagem existencialista, uma busca, um conflito com a selva, com nosso lado animal, com a tênue linha que nos separa das mais brutais das bestas, no mais brutal dos jogos humanos: a guerra. De fundo, a trilha sonora eficiente, que inclui o clássico “The End” dos Doors, cruzando perfeitamente com as imagens, formando o videoclipe do final dos tempos.

A idéia de Apocalipse Now Redux era dar ao público a versão original do filme como pensada por Francis Ford Coppola, antes dos cortes propostos pelo estúdio para torna-lo mais “vendável”. Pode cheirar a caça-níquel, mas não, as cenas realmente acrescentam à narrativa do filme. São três trechos principais: o roubo da prancha do Coronel Kilgore, a cena em que Willard e seus homens transam com as coelhinhas da playboy em troca de combustível e uma longa seqüência na fazenda de uma família de colonos franceses, que é a mais importante de todas. Nessa cena o diretor faz as críticas mais diretas ao conflito do Vietnã através da fala dos fazendeiros. Lá aponta-se todo o vazio da guerra, toda a falta de sentido. Num dos diálogos o antigo oficial questiona Willard: “por que vocês estão lutando nessa guerra? Por nada. Esse é o maior nada da história” ou como diria Kurtz olhando nos olhos da morte : “o Horror”…

 

Fred Di Giacomo. 27/09/03

“O retrato de Dorian Gray”, Oscar Wilde – Resenha

Confesso, minha primeira impressão ao ler as floreadas linhas do único romance do autor irlandês Oscar Wilde (1854-1900) foi pouco empolgada. Era a obra mais feminina que eu já lera. E era escrita por um homem. Justo eu, acostumado ao excesso de testosterona exalado por Bukowski, Pedro Juan Gutiérrez e Henry Miller. Eu que já havia lido autores homossexuais, mas homossexuais libertários ou marginais, capazes de versos viris como os de Allen Ginsberg e Walt Whitman. E das mulheres, que vergonha, lera alguns poucos livros de Anaïs Nin, Rachel de Queiroz e Clarice Lispector. Sou um machista? Um cara fechado em literatura branca/heterossexual/ocidental? Talvez…

E lá, dessa caverna de ogros, me deparo com o parágrafo de abertura:

O ateliê estava repleto de odor substancioso das rosas, e quando a brisa de verão agitou-se por entre as árvores do jardim, entoou, pela porta aberta, o aroma acentuado do lilás, ou o perfume mais delicado do pilriteiro rosáceo.

Seria Oscar Wilde um hipster?

E, então, por trás da afetação dos personagens e das frases polidas com precisão por Wilde, se revela a alma de uma juventude narcisista, hedonista, fútil. Não há nada que você, com sua extraordinária beleza, não possa fazer. Quem aconselha é o experiente dândi Henry Wotton, apresentado ao jovem Dorian Gray – dono de uma beleza extraordinária, que hipnotiza todos que o conhecem – pelo pintor Basil Hallward. É Basil quem fará o retrato de Gray que, magicamente, passará a envelhecer no lugar de seu modelo. O tempo corre, mas o jovem – obcecado em sua busca por prazer – seguirá belíssimo e todos seus (muitos) pecados ficarão impressos apenas na tela pintada por Hallward. (Essa tela, terá papel semelhante à consciência deixada por Macunaíma na beira de um rio, na famosa rapsódia escrita por Mário de Andrade.) 

Calma, esse livro foi escrito quando? 1889? Mas ele parece falar direto à geração “colírios”, aos metrossexuais e aos emos. Aos playboys filhos de donos de grandes empresas de comunicação (RBS) e aos goleiros Brunos da vida. Uma pessoa extremamente bela está acima do bem e do mal? A morte de “seres menores” deve aborrecê-la? Quem são os deuses que habitam um mundo superior, o Olimpo das celebridades, as festas da alta sociedade e que observam intrigados a pequenez da escória (Que inclui eu que sou torto, você que é pobre e ela que é gorda.) Mas Henry e Dorian pedem: E, por favor, não converse assuntos sérios. Nada é sério, hoje em dia. Não deveria sê-lo, ao menos

 “O retrato de Dorian Gray” está longe de ser simples crítica social ou moral. Nem tão pouco é um elogio ao esteticismo defendido duante anos por Oscar Wilde – ele mesmo visto como figura excêntrica, envolvido em escândalos que condenavam sua homossexualidade e seu relacionamento com jovens ingleses. Este livro tem a qualidade das grandes obras de arte que conseguem tratar diversos temas universais e ainda falar direto ao âmago do leitor. É uma profunda reflexão sobre valor da arte e a produção artística. Sobre o belo, sobre o narcisismo e sobre uma juventude que parece não ter envelhecido em nada mais de um século depois.

Muitas pessoas faliram por ter investido na prosa da vida. É uma honra arruinar-se por causa da poesia. Oscar Wilde, “O Retrato de Dorian Gray”

Nosso GG em Havana, Pedro Juan Gutiérrez

O escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez

O escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez

-Outras resenhas de livros

por Fred Di Giacomo

GG pôs a mão no bolso e pegou umas moedas. O homem se despediu imediatamente. A cidade sob a chuva era ainda mais bonita. Olhou o panorama por alguns minutos. Sentiu que a atmosfera estava mais fresca e limpa. Bateram na porta. Traziam uma bandeja de prata com uma garrafa de uísque, gelo, água e copos. Serviu uma dose generosa, com pouca água e dois cubos de gelo, e, sorrindo, parcimoniosamente, brindou a si mesmo olhando para a cidade molhada:

– Bem-vindo a Havana, mister Greene. O senhor é nosso hóspede de honra.

Não espere aqui o Pedro Juan Guitiérrez que escreve com o fígado em “Trilogia Suja de Havana”. Em seu novo ciclo literário – no qual se insere “Nosso GG em Havana” – o cubano escreve com o cérebro. O livro é rápido. As frases continuam curtas. Sexo, sangue e rumba ainda marcam sua presença. Mas essa não é mais uma obra autobiográfica sobre a Cuba contemporânea. Aqui Guitérrez traz uma trama de espionagem e mistério, envolvendo o escritor britânico Graham Green (de “O Americano Tranquilo”). Se for pra traçar um paralelo com Bukowski – com quem Gutiérrez é sempre comparado – este seria o seu “Pulp”, momento em que o velho Buk deixou de lado a autobiografia para se aventurar pelas histórias de detetive fantásticas.

A Cuba de “Nosso GG em Havana” não é nem a ilha dos anos 60, marcada pela revolução de Fidel Castro, e nem o Estado agonizante que muitos retratam hoje em dia. Pela escrita crua de Gutiérrez, nós somos levados ao país pré-revolução, quando cassinos, prostitutas e turistas americanos eram os principais elementos do cenário caribenho. Carrões potentes e modernos rodavam pelas ruas infestadas de gringos. Mafiosos controlavam o jogo e mulatas sensuais enlouqueciam a imaginação.

Capa do livro "Nosso GG em Havana"

Capa do livro “Nosso GG em Havana”

É nesse cenário dos anos 50, que Pedro Juan cria sua trama fictícia – pincelada de situações fantásticas – envolvendo Green, boxeadores decadentes, o famoso e bem dotado Super-Homem, caçadores de nazistas e organizações secretas comunistas. Não tem o mesmo fôlego e inspiração de suas obras anteriores e peca pela “pressa do autor em acabar o livro”, mas é uma dose curta um coquetel que mistura ritmos caribenhos, sangue e sacanagem.

– Leia análise da “Trilogia Suja de Havana”, de Pedro Juan Gutiérrez
– Resenha do livro “Misto Quente”, de Charles Bukowski

“Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas – Uma Investigação sobre valores”, Robert M Pirsig


-Leia outras resenhas de livros
-Compre o livro “Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas”

por Fred Di Giacomo
Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas” não é só mais um romance hippie/beatinick que fez a cabeça de uma geração nos anos 70. Sim, ele tem motocicletas como o clássico filme “Easy Rider/Sem Destino”, ele trata de uma viagem como o livro “On The Road” e flerta com orientalismo como a contracultura o fez na música dos Beatles ou na adoção de Yoga, Meditação Transcendental e Vegetarianismo para seus princípios básicos. Mas “Zen” é muito mais um livro de filosofia do que um romance doidão. Ok, filosofia pop, mas filosofia. Enquanto cruza os EUA em sua motocicleta, o autor precisa explicar o pensamento de Kant ou dos filósofos gregos como Aristóteles e Sócrates para esclarecer sua própria teoria, a “Metafísica da Qualidade”, lembrando a didática de “O Mundo de Sofia”, passo inicial para muita gente no universo do pensamento.

Antes de virar um best-seller e vender 4 milhões de cópias, “Zen” entrou para o Guinness como o sucesso de vendas mais rejeitado da história. Simplesmente 121 editoras se negaram a publicá-lo. Seu autor, o escritor e filósofo Robert M. Pirsig, nasceu na cidade americana de Minneapolis, Minnesota, em 1928. Pirsig era uma criança superdotada, com um QI de 170. Ele estudou Bioquimíca e jornalismo e se formou em filosofia, mas sempre questionou o método científico e de ensino. Entre 1961-1963 sofreu um colapso mental e passou anos em hospitais psiquiátricos onde recebeu tratamento de eletrochoques. Depois disso, Pirsig dedicou-se a escrever manuais técnicos de computadores, até conseguir publicar seu livro em 1974.

O nome de “Zen” faz referência a “A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen”, obra do filósofo alemão Eugen Herrigel, que introduziu esse pensamento oriental no ocidente. Como o autor avisa logo na nota introdutória, o “livro baseia-se em fatos reais.(…) No entanto, não deve ser associado ao vasto conjunto de informações relativas à prática ortodoxa do Zen-budismo. E a parte das motocicletas também não é lá muito ortodoxa”. Toda a história se passa em dezessete dias, no final dos anos 60. A primeira parte do livro é um relato da viagem de Robert com o filho Chris e um casal de amigos John e Sylvia. John, um baterista, tem um sério problema para lidar com tecnologia. Para ele, viajar de moto é uma fuga da “civilização moderna”. O autor, por outro lado, adora saber como cuidar da motocicleta, como a máquina funciona e faz os reparos, ele mesmo, em sua moto. Em cima de suas observações sobre o ódio de John contra tecnologia é que Pirsig começa a desenvolver suas primeiras divagações filosóficas. A princípio tímidas, essas divagações vão, ao longo do livro, tomando o papel principal, em detrimento dos relatos da viagem. E vão sendo organizadas no que o autor define como chautauquas, “séries de palestras que visavam edificar, divertir, aprimorar o raciocínio e fornecer cultura e informação ao espectador.” É através dessas chautauquas que os capítulos se estruturam cada um com um tema que abrange filosofia, educação, ciência, arte e manutenção de motocicletas. Mas esses pensamentos não são ideias soltas, são parte de uma teoria maior que ficamos sabendo não ser de autoria do autor, mas de um fantasma do passado, Fedro, cuja identidade só vai ser revelada quando já terminamos um terço do livro. Para explicar a postura de John e a sua própria, Pirsig divide o mundo entre “Românticos” e “Clássicos”. Emoção e Razão. Arte e Tecnologia. Unir essas duas visões de mundo e provar que “o Buda pode estar nos circuitos de um computador” será a sua missão.

O resumo – *A partir daqui a resenha contém spoilers.

A viagem pelas estradas dos Estados Unidos prossegue. Depois que sofreu os eletrochoques, o autor apagou muito de sua memória. Andando pelas vias secundárias, mais vazias e próximas da natureza, ele cruza o país e vai se embrenhando em suas recordações. Houve um tempo em que foi professor na Universidade de Montana e o governo conservador do estado decidiu que todos maiores de 18 anos, mesmo que não tivessem ensino médio, poderiam estudar na Universidade. E as reprovações de alunos seriam punidas com multa. Para defender a Universidade “de verdade”, Fedro, que nós descobrimos surpreendentemente ser o autor, antes do surto, cria a teoria da “Igreja da Razão”. Para explicar a teoria ele usa o exemplo de um prédio de igreja rural que tinha se tornado um bar para o horror do padre local. No entanto, aquela igreja não era mais uma igreja, era apenas uma estrutura criada para atender o objetivo de servir a Deus, que não mais funcionava para isso. Assim como, por mais que a comunidade criticasse um sermão do padre por ser chato, ele não deveria se abalar, pois não estava ali para servir a comunidade e sim a Deus. A Universidade também não estava lá apenas para servir a comunidade e sim para servir a razão. E se ela continuava com sua estrutura física e mudava sua função, seu compromisso com a razão, ela já não era mais uma Universidade. Com o tempo, Fedro foi perdendo a fé na razão pura. E para explicar isso, o autor faz um breve resumo das idéias de Kant e Hume. Fedro interessa-se, então, pelas filosofias orientais e vai para Índia estudar.

Sylvia, John e Chris
Na terceira parte do livro, Sylvia e John voltam para casa e a viagem passa a ser só de pai e filho, que vão aproveitando os longos dias para reconstruir o relacionamento, abalado desde o período de loucura paterna, sua internação e posterior divórcio. Chris também tem apresentado alguns problemas psicológicos, o que preocupa seu pai. No entanto, absorto em suas reflexões, o autor não consegue penetrar no escudo criado pelo filho, mantendo uma relação fria com o garoto. “Qualquer realização que vise à autoglorificação fatalmente termina em tragédia”, explica Pirsig, enquanto escala uma montanha com o filho. Não devemos escalar a montanha para provar que somos os maiores, o segredo está na escalada em si. Como a arte da manutenção da motocicleta que pode trazer a paz de espírito. O trabalho manual foi muitas vezes rejeitado pelos românticos como algo desprezível em comparação às grandes artes, mas não é ele também uma forma de arte? “Para melhorar o mundo, devemos começar pelo nosso coração, nossa cabeça e nossas mãos, e depois partir para o exterior. Os outros poderão imaginar maneiras de expandir o destino da humanidade. Eu só quero falar sobre o conserto de motocicletas. Acho que o que tenho a dizer tem valor mais duradouro”, explica Pirsig. Mais à frente ele crava: “O trabalho produz brio”.Em seus flahsbacks, vemos Fredo criar sua teoria da “qualidade” partindo de Kant passando pelo Tao e por Hegel e chegando a Poincaré. É interessante poder acompanhar o caminho do filósofo rumo à formação de sua teoria. Aos poucos, uma questão que começou com as aulas de redação de Fedro vai crescendo e tomando forma: “A Qualidade é o evento que torna possível a inter-relação sujeito objeto”. “A Qualidade é a reação de um organismo ao seu objeto”. A Qualidade é semelhante ao Tao, “a grande força central geradora de tudo”. Seria então a “Qualidade” o elo entre a ciência, as artes e a religião? “A arte é a Divindade revelada nas obras humanas”. “Conforme disse Poincaré precisa haver uma escolha subliminar dos fatos a serem observados”. À medida que o autor vai se embrenhando no raciocínio genial de Fredo, ele também se embrenha em sua loucura e começa a ter pesadelos e falar dormindo. Agora que conhecemos a “Metafísica da Qualidade”, o livro vai chegando ao fim e talvez a sanidade do autor também.No final do capítulo ele introduz o conceito de “Mu”, palavra japonesa que significa nenhum. Nenhuma classe: nem um, nem zero, nem sim, nem não. Significa exatamente “desfaça a pergunta”.

Agora esta viagem pelo mundo da filosofia e pelo interior do autor está em seus últimos quilômetros. Pirsig revê os últimos dias de Fredo, quando esse descobre a origem do pensamento racional do homem em Aristóteles e a ideia de “Qualidade” dos sofistas que foi enterrada por Sócrates e Platão. Para isso ele faz uma análise dos pais da filosofia grega e do próprio homem grego. Desenterra o conceito de aretê do homem grego, tradicionalmente traduzido como virtude, mas que o autor prefere definir como superioridade. Era o que impulsionava o homem grego a praticar atos de heroísmo, não o senso de dever que conhecemos, em relação aos outros, é um senso de dever em relação a si mesmo, termo irmão da palavra sânscrita dharma, que significa “dever para consigo mesmo”. O herói da Odisséia, de Homero, era um grande lutador, um orador decidido, sabe arar a terra e tosquiar um boi. Despreza a eficiência em um aspecto da vida, em detrimento da vida em si mesma. Despreza a especialização em uma coisa só. Fedro rompe então com a Universidade onde estudava para obter seu PHD e que insistia em glorificar o pensamento aristotélico. Depois disso viria a crise e a internação. O autor tem medo de sofrer outra crise e pensa em parar a viagem por ali e mandar o filho de volta para casa. Mas antes disso ele precisa resolver sua relação com o garoto, garantindo assim, sua própria sanidade.
Depois daquela viagem
Robert M Pirsig vive isolado do mundo exterior viajando de barco com sua mulher. Só lançou um segundo livro em 1991, chamado “Lila – uma Investigação Sobre a Moral”, no qual se propõe a definir melhor sua Metafísica da Qualidade. O livro não obteve o mesmo sucesso que “Zen”. Em 1979, Chris, o filho de Pirsig foi esfaqueado até a morte na saída do Centro Zen que freqüentava. É como se no final de “Zen”, quando o autor finalmente se reconcilia com o garoto, ele fosse profético: “Naturalmente os problemas jamais deixarão de existir. A infelicidade e o infortúnio fatalmente ocorrerão em nossas vidas, mas agora sinto algo que antes não sentia, que não se localiza apenas na superfície das coisas, mas as permeia até a medula: nós vencemos. Agora tudo vai melhorar. A gente pode até garantir”.

Veja também:
-Se interessou pela Grécia Antiga? Leia uma resenha sobre a “Odisséia”, de Homero

-Leia resenha sobre “Flashbacks”, livro do papa da contracultura, Timothy Leary

Trópico de Câncer, Henry Miller

Capa do clássico de Henry Miller

Capa do clássico de Henry Miller

Como cenário a Paris entre guerras, como definição as palavras do próprio autor: “Isto não é um livro. É libelo, é calúnia, difamação…”, como prefácio uma declaração de Ralph Waldo Emerson simplificando: “Estes romances cederão lugar, pouco a pouco, a diários ou autobiografias…” E assim a vida se transforma em arte nas letras do pai da geração beat, o maldito, “Henry Miller”. Nascido no Brooklyn em 1891, Henry Valentine Miller representa um ponto de virada na literatura mundial, uma influência para autores como Allen Ginsberg, a geração hippie, beatnick e sua obsessão por liberdade sexual, viagens e boemia. Henry influenciou esses poetas “marginais” até na forma autobiográfica de escrever já que em seus livros ele é o personagem principal, mas suas histórias não são totalmente reais, são uma mistura de ficção e realidade num tipo de Bukowski mais elaborado e surrealista.

Suspiros de surrealismo, filosofia nietzschiana, influências de escritores “eróticos” como Céline e DH Lawrence (que ele rejeitava até ler “D.H. Lawrence: an unprofissional study”, livro de sua amante, Anaïs Nin), tudo isso borbulha nas páginas de Trópico de Câncer, mas há algo a mais ali. Não é pornográfico como seus censores acusaram ao conseguirem manter sua obra inédita por 30 anos nos países de língua inglesa até que o poeta beat, Lawrence Ferlinghetti, a publicasse: é humano, demasiadamente humano. É um homem em busca de si mesmo, uma descoberta a cada página, uma canção de libertação…

Estamos nos subúrbios e cabarés da Paris dos anos 30, a guerra é uma sombra que ronda incessantemente. Intelectuais, artistas, pintores, todos se reúnem para beber, transar e discutir, Henry está entre eles, mas não tem um tostão no bolso, está duro e vive de bicos (a prisão dos escritores: o jornalismo) e ajuda dos amigos. O anti-herói resmunga : “Sou um artista assalariado, obrigado a interpretar uma farsa intelectual sobre seus estúpidos narizes?”. Os capítulos vão revezando-se um após o outro sem ordem cronológica exata, carregados de fluxo de consciência e alternando reflexões surrealistas com relatos crus do cotidiano de Miller. O Clima é retratado fielmente no clássico erótico “Henry e June” de Philip Kaufman (diretor também de “Contos Secretos do Marquês de Sade” ), focado no triângulo amoroso entre Henry, sua esposa June e a escritora Anais Nïn, autora dos diários inspiradores da película (“Henry, June & Eu”). A busca é por grana e sexo, grana e sexo até não representarem mais nada, grana e sexo como formas de sobrevivência, sobrevivência como única alternativa, única alternativa: a vida. E essa Miller vive com tesão!

Nos momentos “filosóficos” Miller remete a Nietzsche, filósofo que leu, saudou e parafraseou em alguns trechos de sua obra. Toma como profissão de fé a filosofia, que busca desmascarar o mundo dos ídolos, o Deus que não sabe dançar, que busca trazer ao homem os prazeres terrenos. Nietzsche previu mais de um século atrás o declínio da civilização ocidental, diz. O Henry Miller de Trópico de Câncer/Henry e June (no qual há uma cena em que ele discute o filósofo alemão) tem a mesma missão: libertar o ser humano de suas amarras, despertá-lo para a vida nessa existência que é única, como ele mesmo diz: “São homens e mulheres, pergunto a mim mesmo, ou são sombras, sombras de fantoches pendurados por invisíveis cordéis? Eles se movem aparentemente em liberdade, mas não tem para onde ir. Só em um reino são livres e lá talvez possam vaguear à vontade, mas ainda não aprenderam a levantar vôo”. E essa libertação inclui também a religião, a qual Miller despreza. Em um dos trechos ele e um amigo, ambos bêbados, vão assistir a uma missa, que ele descreve como se fosse um alienígena que nunca tivesse visto uma cerimônia religiosa, descreve-a de uma forma claustrofóbica, que o sufoca, pouco a pouco a até que ele fuja correndo da igreja.

Miller em sua busca acaba se desprendendo da necessidade de ser humano, declarando-se um “inumano”, descendente de uma árvore genealógica de artistas e pensadores que como ele buscavam viver desesperadamente no limite, buscando a paixão total, o fogo da criação, já que a partir disso, tudo é humano e dispensável. (“Enquanto estiver faltando aquela centelha de paixão, não há significação humana no ato”.) Como um modernista brasileiro, como “Oswald de Andrade” na peça “A morta” , ele clama para que se incendeiem as bibliotecas, museus e biografias. Que os mortos devorem os mortos e os vivos dancem!

Fred Di Giacomo,
22/05/04
henry-miller-escritor

O Germinal, Émile Zóla

germinal-capa-livro

por Fred Di Giacomo, o cara que escreve tudo aqui.

Sufocado pelo pó negro da hulha, do carvão, o grito dos mineiros explorados ecoa pelas profundezas das galerias construídas com o sangue do povo para fazer a máquina da Revolução Industrial funcionar. Foi esse grito que Émile Zola traduziu em 1881 na sua obra prima “Germinal”, uma romance realista sobre as lutas e dificuldades de uma comunidade de mineiros no interior da França.

Jornalista, assim como Balzac, um “gonzo do século XIX”, Zola defendia que “o romancista assumisse o papel de experimentador que pesquisa os caracteres hereditários do homem e as transformações que sofre em conseqüência do ambiente social em que está inserido”. A esse tipo de obra o francês chamou “romance experimental”. E é com uma riqueza de detalhes, que nos fazem crer que o livro foi escrito por um carvoeiro francês, que o autor descreve o dia-a-dia dos operários imundos das minas de Montsu usando uma linguagem realista/naturalista que nos faz lembrar “O Cortiço”, de Aluísio Azevedo, em sua descrição de miséria, comparando constantemente os homens e seus desejos aos animais, ressaltando a influência do meio na formação dos seres humanos, dando destaque aos instintos sexuais que levam os homens a se nivelar à mais selvagem das bestas. Afinal, no fundo somos todos animais, lutando contra a morte, fornicando, defecando e comendo numa luta diária pela sobrevivência.

-Gostou de Germinal? Então você vai curtir a Revolução dos Bichos. Leia aqui!

O “Germinal” é sem dúvida um livro básico para aquele que quer entender o crepúsculo do marxismo e as revoltas populares do século XIX. Como um jornalista diante de uma grande reportagem, Émile Zola reúne os fatos que marcaram sua época como a criação da Internacional Socialista, as teorias de Karl Marx, de Charles Darwin, os atentados anarquistas, todas as ideologias revolucionárias que incendiaram um século fascinante, uma era conhecida outrora como a primavera dos povos! Lá está cada personagem típico, representante de correntes e classes do período. Há o terrorista anarquista na pele do russo Suavarin, o socialista moderado (ou social-democrata) vivido pelo taberneiro Rasseneur e o líder operário comunista, o protagonista Etienne. Chamá-lo de herói no sentido romântico da palavra não caberia aqui. No realismo do “Germinal”, o “mocinho” Etienne é cheio de dúvidas, deixa-se dominar pelo orgulho em certas horas (quando julga-se superior aos outros mineiros) e passa a maior parte da história frustrado amorosamente. Aqui o herói, o líder, é desacreditado, apedrejado, olhado com desconfiança, traído como o foram milhares de vezes os líderes revolucionários. Etienne guarda algumas leves semelhanças com Raskolnikof de “Crime e Castigo” em suas reflexões ardentes, seus delírios, sua indecisão diante de necessidade de matar, sua vaidade que no romance russo vai ao extremo de o protagonista dividir a humanidade em seres “extraordinários” e “ordinários”. Ambos são levados pela miséria a atos desesperados.

A história de “Germinal” cheia de nuances e personagens seria impossível de ser narrada aqui. Resumidamente ela destaca o trajeto de um desempregado vagando pelas estradas da França, em uma período de depressão econômica (como a dupla de andarilhos em “Ratos e homens” de Steinbeck), que chega a uma região carbonífera e acaba empregando-se numa das minas para fugir da fome. Ao mesmo tempo que trava contato com as idéias socialistas o “ex-andarilho”, Etienne se apaixona por Catherine, filha de uma família que a gerações trabalha e morre na mina Voeux. A própria mina acaba tornando-se personagem principal na história. Sempre alimentando-se dos trabalhadores ela tem sua “morte” narrada com tons dramáticos. Um dos pontos principais do livro é a greve liderada por Etienne.

Apesar da clara tendência socialista do autor, da defesa dos proletariados e do final esperançoso, não existe maniqueísmo nas palavras de Zola. Até a burguesia tem seus lances de heroísmo (como no caso do engenheiro Negrél) e bondade. A massa, por sua vez, também é capaz das mas brutais injustiças e muitas vezes questiona-se se os trabalhadores apenas querem tornar-se novos burgueses.

A linguagem simples de Zola reconstitui sem firulas um retrato exato do cotidiano da época, mais forte talvez que as descrições frias dos historiadores. O “Germinal” é uma ferramenta fundamental para se entender a luta dos trabalhadores, o ambiente propício para a expansão do socialismo e os acontecimentos espremidos entre a “Revolução Francesa”, a “Revolução Industrial” e a “Primeira Guerra Mundial”. Lê-lo é embarcar no drama dos mineiros com os pulmões negros de hulha, das mães que assistem as filhas definharem de fome, dos homens que servem de alimento para o capital, da lenta metamorfose dos camponeses de outrora em máquinas com almas.

emile-zola

 

Jimi Hendrix: a dramática história de uma lenda do rock, Sharon Lawrence

jimi-hendrix-a-dramatica-historia-de-uma-lenda-do-rock

Triste como um blues
A biografia de Jimi Hendrix, escrita por sua amiga pessoal Sharon Lawrence, não é uma leitura leve. Narrada de forma seca, carregada de citações de grupos e músicos dos anos 60 e 70 que podem confundir os leigos, traz uma nova versão da vida do maior guitarrista do mundo. Nada do doidão divertindo-se com sexo e drogas. O que vemos é um homem de infância pobre e difícil, manipulado por empresários no seu auge e que teve os direitos de sua obra disputados por parentes gananciosos que mal o conheceram. Triste como um blues, daqueles bonitos que Jimi tocava como ninguém.

Jimi Hendrix: A dramática história de uma lenda do rock
Sharon Lawrence
Jorge Zahar Editor.

A Revolução dos Bichos – George Orwell

-Mais resenhas de livros!

Edição brasileira com capa dura do clássico de George Orwell

Edição brasileira com capa dura do clássico de George Orwell

Porca miséria

George Orwell fez parte de um grupo de escritores engajados que não se prendeu apenas as palavras partindo para ação. Um grupo de escritores que viveram uma época de revoluções (principalmente a Revolução Russa de 1917 e a Guerra Civil Espanhola, mas também a Revolução Mexicana e as duas Grandes Guerras Mundiais). George abandonou seu passado burguês, seu antigo nome (Eric Arthur Blair) e foi lutar por seus ideais assim como John Reed e Ernest Hemingway. O escritor inglês se meteu na sangrenta Guerra Civil espanhola lutando no POUM (Partido Obreiro de Unificação Marxista) ao lado dos anarquistas, ao contrário da maioria dos voluntários que se alistaram nas Brigadas Internacionais, ligadas ao ortodoxo Partido Comunista Soviético. Da guerra saiu decidido por um socialismo independente, criticando duramente o totalitarismo de Stálin, essa crítica acabaria se tornando livro em A Revolução dos Bichos, publicado em 1945.

A Revolução dos Bichos é uma dura crítica ao fim levado pela Revolução Russa de 1917, à sua burocratização e sua transformação em ditadura. Não é um ataque ao socialismo em si, mas sim ao totalitarismo. Essa crítica voltaria na outra obra prima de Orwell, 1984. Publicado em 1949, esse livro retrata uma sociedade em um futuro próximo, completamente repressora, onde todas as pessoas são vigiadas pelo “Big Brother”.

Voltando a “Revolução dos Bichos”, o livro não deixou sua marca por uma linguagem ou narrativa inovadora, mas sim por sua força revolucionária, sua crítica ácida à nossa sociedade e, não só a Revolução Russa, mas a todas revoluções que terminam com uma nova elite tomando o poder, que acabam sem o povo soberano, sem ser estabelecida a igualdade entre todos… A narrativa de Orwell é extremamente simples, concisa e jornalística, seu curto livro é contado como uma fábula moderna, na qual os animais falam e pensam. Suas metáforas são diretas: o corvo negro representa os padres, que pregam a salvação aos animais explorados e uma vida melhor (uma montanha de açúcar) àqueles que trabalharem em vida; as ovelhas representam os homens que, como um rebanho, seguem os líderes sem pensar; os porcos são os animais inteligentes que conduzem a revolução e depois acabam se tornando a nova elite (Os burocratas da União Soviética). Alguns personagens se assemelham aos líderes soviéticos, como é o caso dos porcos Napoleão (Stálin, o líder tirânico que estimula o culto a sua personalidade e persegue cruelmente seus adversários), Bola de Neve (Trotsky, como o líder perseguido, apontado como inimigo, e que tinha como intuito espalhar a revolução para todo o mundo) e Major (Lênin, o primeiro revolucionário, que passa os ensinamentos a seus subordinados, e que após sua morte tem seu corpo exposto e venerado pelos outros animais, como a múmia de Lênin na URSS).

George Orwell tinha um programa anti-facista na rádio britânica durante a Segunda Guerra Mundial

George Orwell tinha um programa anti-facista na rádio britânica durante a Segunda Guerra Mundial

Os animais de Orwell representam o proletário enquanto nós humanos somos a burguesia exploradora… Após a bem sucedida revolução, os bichos passam por todas as etapas conhecidas pela humanidade (a euforia, as tentativas de contra revolução e a formação de uma nova elite dominante…) No final genial os porcos vão cada vez mais se assemelhando aos humanos, no jeito de se vestir, nos hábitos, na forma de exploração e Orwell termina com a constatação : “(…) já se tornara impossível distinguir quem era homem e quem era porco.”

24/08/03.

Título original: Animal Farm
Autor: George Orwell

 

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...